2019 novinho em folha – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Eita! Vejam só! Um ano inteiro pra gente usar! Um ano cheirando a leite, a talco de bebê, a flor que acabou de se abrir.

Um ano inteiro pra gente confirmar ou desmentir as previsões. Um ano pra gente se matar de fazer contas no fim de cada mês. Um ano pra gente comentar a morte de tal celebridade. Um ano pra gente dizer: – Poxa! Mas o tempo tá passando tão rápido!

Um ano pra gente fumar, beber ou fazer jejum de tudo isso. E tentar emagrecer, comer coisas saudáveis, caminhar e pedalar. Até se tocar de que a maior parte disso cai diante de uma suculenta picanha e uma cerveja espumando de deliciosa.

Um ano pra gente esquecer na gaveta, junto com os óculos que você jurou que nunca mais esqueceria. Um ano todo pra gente deixar esparramado no quintal ou estorvando na sala, junto com aquele sofá que seria jogado fora há dois anos e não foi e nunca será.

Um ano pra gente deixar a toalha molhada em cima da cama. Pra gente embalar o lixo de forma inadequada. Pra gente não trocar o rolo de papel higiênico quando termina. Pra gente espalhar a notícia de que tudo isso vai mudar.

Um ano pra gente atravessar fora da faixa de pedestre, caso seja pedestre. Ou dirigir bebendo, sem cinto de segurança e falando ao celular, caso seja motorista.

Um ano que não terá culpa nenhuma, mas que arcará com as responsabilidades que caberiam unicamente às pessoas, se algum projeto não alcançar o sucesso desejado.

Um ano pra gente soprar fumaça de cigarro, pra deixar chover em cima, pra sujar de lama. Afinal, de que vale um ano imaculado, sem a mancha das vidas que por ele passam? Como aqueles brinquedos que nunca saem da embalagem e por isso se conservam sempre novos e sempre inúteis e sempre sem graça.

Um ano pra lamentar, talvez, ou revirar na fogueira da solidão as cinzas da esperança.

Como sou otimista, digo que será um ano como todos os que já vivi, com a expectativa de que seja o último, mas com a vontade íntima de que não seja.

Vivamos o ano e que ele se vingue, se necessário, de nossa resolução de que alguma coisa, realmente, mude. Trata-se de um ano novinho em folha, um jardim em que iremos plantar e colher os frutos do que somos, pensamos, falamos, propomos.

Um ano inteirinho pra chegar ao final do caminho em que todos se renovam, repetindo as atitudes de perdão e condenação, de luz e de escuridão e de todos os contrastes que compõem a riqueza de todo ser humano.

Mais um ano se foi, mais um ano chegou e estamos aqui, com nossos mortos carinhosamente abrigados na bagagem da memória. Estamos inteiros, ainda que ensanguentados, mas não é a presença do sangue a indicação de que ainda há vida?

O ano fez o primeiro lance neste jogo de xadrez. Façamos o nosso pra que o jogo prossiga, lembrando que o xeque-mate ainda está muito, muito longe.

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