A arte de ser um sonhador – Neste sábado (12), rola sessão especial de cinema em homenagem e memória de Simãosinho Sonhador

Por Manoel do Vale

Por ali por 2001, mais ou menos, eu fui contratado por uma agencia local para criar e produzir uma série de vídeos de um minuto contando a história de sucesso de alguns clientes da Agência de Fomento do Amapá – AFAP, o Banco do Povo.

Inspirado na experiência do Grameen Bank (em Bangladesh), criado na década de 1970 pelo economista bengali Muhammad Yunus (prêmio Nobel da Paz em 2006), o Banco do Povo operava com microcrédito no fomento de empreendimentos populares no Amapá, e já se mostrava um grande parceiro de algumas centenas de empreendedores populares a quem os bancos tradicionais fechavam as portas.

Das dezenas de histórias que me chamaram a atenção, cinco foram escolhidas. Entre elas estava a do Simão Alves de Souza, poeta piauiense que largou o chão seco de Olho d’água das Cunhãs (MA) para tentar a vida sob a linha do Equador, na capital do meio do mundo. Ele chegou aqui com mala e cuia, e a mulher e os filhos. E também, toda a bagagem cultural que os nordestinos carregam com eles para onde quer que vão.

Falador e muito simpático, Simão era um sonhador replicando os sonhos de milhares de outros nordestinos, atraídos para Amazônia pela esperança de vida mais próspera.

Simãosinho morava no Novo Horizonte, numa casa de madeira, piso de barro, bem humilde. O tempo era o senhor dos seus dias, literalmente. Ele vendia relógios de pulso, de diversos tipos. Mas o grande tesouro dele era um caderno pequeno, tipo brochura, nas linhas retas do qual ele escrevera, com seus garranchos, os versos do ABC da Mulher, obra que viria a ser seu best seller por vários anos aqui na nossa capital e nos arredores do mundo.

Quando aqui chegou, Simão não sabia ler nem escrever, aprendeu na escola Paulo Freire, quando esta ainda funcionava na praça Floriano Peixoto.

Para confirmar sua habilidade em versejar de improviso, Simão criou um cordel para o Banco do Povo. Com o dinheiro dos empréstimos que conseguia na Afap, o poeta comprava os relógios que revendia e também pagava a impressão de seus livros, isso quando não as conseguia de graça com algum empresário da área. Não recordo o nome de nenhum agora, mas a eles registro meu muito obrigado.

Para o Banco do Povo ele era o cliente ponta firme, pagava antecipado as parcelas, e era tratado como cliente vip naquela instituição, da qual foi um dos primeiros clientes.

Ele também é personagem de destaque no livro “Banco dos Sonhos”, projeto do qual também fiz parte como redator. Para este produto em especial o poeta criou um cordel inspirado em sua própria história de empreendedor.

Simão passou a ter o status de amigo em minha vida. E foi inspiração para o projeto Doctv IV, programa do Ministério da Cultura que ganhei em 2008. O filme, produzido pela Castanha, tem roteiro e direção assinados por mim, a edição é do Gavin, que dividiu a fotografia e câmera com o Gilmar Pureza. A produção é do Bruno Jeronimo; Patrícia Andrade assina a direção de arte.

Simãosinho Sonhador virou passarinho, mas antes, em vida, virou título de prêmio literário, moeda social (Palavra), lançada na Flap, que Homenageou ainda o professor Munhoz, a professora Zenaide, o poeta Alcy Araujo, e Araci Mont’Alverne.

A meu ver, Simão representa um bom bocado do povo humilde que brotou por aqui. Um povo espalhado igual semente de Samaúma solta no vento da sorte. Diásporas infinitas, feitas pelo acaso ou por obrigação nômade de encontrar um bom lugar para viver.

Assista ao trailer do documentário: 

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