A casa assombrada (textaço sobre a campanha da seleção uruguaia na Copa do Mundo 2014)

por David Butter

O Uruguai tem um fantasma: 1950. O Uruguai tem um zumbi: Álvaro Pereira, desmaiado, despertado e reengajado contra a Inglaterra. O Uruguai tem um vampiro: Luis Suárez, mordedor em série, de caninos vivos contra a Itália. O Uruguai é, além de um conjunto brilhante de improbabilidades, uma casa assombrada.

Não leiam nesta exaltação ao Uruguai-Levanta-e-Anda um elogio ao que fez Suárez, não: Suárez deve ser punido. Se uma mordida, filmada e captada com precisão odonto e criminológica, não significar conduta antiesportiva, nada mais representará – e investidores se apressarão a inaugurar um bufê de fêmures.
Mesmo assim ou por isso mesmo, que absurdo é este Uruguai. Nas origens deste time, no fortalecimento, repito, improvável deste Uruguai, há algo que desafia qualquer tabulação. Na projeção de um frio estudioso de impérios e civilizações, o Uruguai talvez nem existisse mais, quiçá teria uma seleção forte. E aí está: o Uruguai de 2014 é um poema de Benedetti com trilha de death metal. 
Pisa os campos o Uruguai para vencer? Demais – mas, para mim, há algo além: nenhum time me relembra mais do porquê gosto de futebol. A tragédia e a reviravolta, a glória banguela dos heróis que erram e a dos que se sacrificam errando, o reconhecimento dos limites e a exploração das parcas forças: o Uruguai monta palanque no abismo – e não há nada mais humano. 

Um país vazio. Campos abertos ao vento que sussurra. Um time de mortos e vivos. O Uruguai tinha que ser esta casa assombrada. 

E quanto a Suárez? Que Lars Von Trier dirija a sua cinebiografia.


*Dica do amigo André Mont’Alverne
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