A decadência das manhãs de segunda-feira – Por @MarileiaMaciel

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O dia está claro e o clima é de 1º de janeiro. Pessoas amanhecidas nas ruas, embriagadas e esbanjando alegria; casais se beijam na praça; cadeiras na calçada são ocupadas por pessoas que riem de tudo e de nada; cheiro de bebidas no ar, misturado com fumaça de cigarro; uma pessoa espera o ônibus espichando o pescoço; a dona da lanchonete serve o último sanduíche; amigos se abraçam e dançam a coreografia da música da moda; uma pessoa passa caminhando com roupas de academia; lixo transborda nas latas; uma jovem que dormiu encostada, abana involuntariamente a mosca que rodeia sua boca; vendedores ambulantes voltam com riso no rosto, pedalando com as caixas de isopor vazias; catadores de alumínio com a cara de ontem, carregam imensas sacolas entupidas de latinhas vazias; cachorros sem raça, ratos e urubus disputam migalhas de pão; um senhor passa se benzendo na frente da igreja; a mãe arrasta pelo braço a criança, que ainda tira a remela no olho; o mendigo se espreguiça sobre o papelão, sonhando com meses de prosperidade; o carro circula no volume máximo tocando funk com o motorista de olhos arregalados e cabeça pra fora.

Mas não é o dia de dar boas vindas ao ano que inicia. É uma manhã de segunda-feira de abril, em uma praça qualquer de Macapá.

Mariléia Maciel

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