À ESPERA DE ANA CLARA (Crônica de Fernando Canto)

 

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Crônica de Fernando Canto

Estamos todos na expectativa de Ana Clara. Nossa casa vive um movimento que rompe o acerto do silêncio pelo enclavinhar constante das mãos que estalam, e pela produção de armaduras nesta usina em que o lar da futura moradora se tornou. Há um certo nervosismo no vai-e-vem de quem a acompanha a toda hora. A mãe revê de perto o crescimento do rosto sete vezes transportado para o mundo. São olhos inquietos a perscrutar a tela de um aparelho sabedor da data em que desatarão as dores.

Seu pequeno espaço recebe sorrisos que parecem violar um vazio encurralado, um berço lindo à sua espera, feito da brancura do amor e da pureza. As roupas rosa, rosas-jóias, rosa-auroras, rosáceas, rosamores, trazem dentro das gavetas a imensidão daquela que preencherá os tecidos cuidadosamente desenhados para se vestir. Os frascos de colônias, as fraldas perfumadas, pomadas e cuidados esperam o surgimento de Ana Clara, essa rainha ignara e bela, tanto tempo silente em seu mundo líquido.Bebê-504x320

Ela virá como a lua cheia do céu de Macapá, e certamente choverá na sua entrada, amazonicamente preparada para o seu primeiro espetáculo. Depois os nimbos se dissiparão e o seu brilho encantará a todos em sagrado ritual de mundiação personalística. Por ser mulher trará segredos estelares incrustados como jóias nos cantos da unhas. E seu sorriso revelará o tempo dos enigmas e da decifração das esfinges que lhe adiantaram o nascimento. Será um tempo de alumbramento, mas de pedras; de alicerce arquitetado sem os sonhos, e de imagens arquetípicas construídas acima dos telhados das antigas cidades.

Eu vi você, Ana ClAna Clara Mont'Alverneara, admirada nos colos mais diversos. Seus pais sorriam lhe imaginando grande, e os avôs e os tios babavam pelos cantos comentando cada pequenino gesto daquela que apenas chorava, mamava e dormia. E a festa continuava na oficina agora menos barulhenta. Afinal não foi só porque você acabara de chegar que a coisa ia parar de uma hora para outra: em casa de bom festeiro motivo não falta para festejar. Eu vi você peluda como qualquer animalzinho recém-nascido. Seu semblante era sereno ao dormitar no colo de sua mãe, mas seus negros cílios pareciam descer sobre o nariz na forma de uma cachoeira em noite escura. Depois os olhos enormes se abriam, acompanhados de um sorriso que exprimiram a vontade de contar fábulas. Eu li ainda umas histórias impressas no dorso de um lento caracol que passeava na parede de nossa casa. E você sorria pelas gengivas.

Por isso não falarei de dores, angústias, violência, paixões e sofrimentos, estes que passam a toda hora como um airbus desgovernado em nossas vidas. É melhor deixar que Ana Clara primeiro aprenda a sonhar para depois ter seus temores, pois o sonho é o gênero e o pesadelo é a espécie, já dizia o velho Borges.936584_987659177980909_4098924367243068584_n

Ana Clara está para vir à tona. Do seu lago primordial eu creio que nascerá um ser descrito pela luz do amor e que agora vem colher o pólen escarlate da vida, o mel e o leite necessário à existência. Mas Ana Clara é ser de identidade complexa, estável e constantemente igual si mesma. Só falta nascer sob um signo poético de perene significado. Um ser que se levantará da terra entre cipós e chuvas para converter em fogo os despojos cruéis do mundo. Um ser leve que entoará uma canção de amor na última janela de nossa casa, aonde ainda funciona uma oficina barulhenta e ansiosa à sua espera.

*Ana Clara, neta de Fernando Canto nasceu em 2007. É hoje uma linda menina. A crônica foi publicada em seu antigo blog, o Canto da Amazônia, mas o escritor e querido amigo me enviou este belo escrito de amor para publicar hoje, pois ele e família aguardam a chegada de seu neto Gabriel, filho dos meus amigos Bruno e Isa. Que o ele venha com muita saúde, luzes e todas as bênçãos.

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