A FORTALEZA E AS CARTAS DOS CONSTRUTORES – Por Fernando Canto

Por Fernando Canto

Os fogos que cruzaram os céus de Macapá para comemorar os 235 anos da Fortaleza, na véspera do equinócio das águas, foram poucos diante da grandeza e importância que ela tem para o povo do Amapá.

A Fortaleza de São José é produto de múltiplas temporalidades, percepções e apropriações, mormente na sua condição de monumento tombado, protegido por Leis que fizeram a frente da cidade de Macapá tomar outro rumo na construção de seu espaço urbano nos últimos anos.

A essas transformações, onde se emolduram concepções distintas de espaços públicos, imagens e intervenções urbanas eficazes ou não, públicas ou particulares, também estão presentes, indubitavelmente, o olhar artístico, o discurso ufanista e político, a mídia direcionada, a observação crítica e todas as tensões desafiadoras dos conceitos constitutivos e questionamentos que requerem a significação desse monumento tão importante para a vida da cidade de Macapá.

Aliás, a Fortaleza de São José é a gênese da cidade de Macapá. Mesmo que a vila tenha surgido antes, possivelmente ela não sobreviveria como tal sem as obras, as alteridades e as transformações que ao longo do tempo a Fortaleza enfrentou.

Durante a sua construção, as cartas e relatórios emitidos pelos seus construtores tornam-se peças literárias de valor, não apenas pelo que indicam sobre a obra em si, mas pelos aspectos inerentes aos comportamentos sócio-ambientais de homens e mulheres que se tornaram rudes pelas circunstâncias, individualistas pelas necessidades e até sentimentais diante das injustiças e violências experimentadas naquele período. Esses documentos falam de saudade da família, de pedidos de promoções, de lista dos remédios mais usados para tentar sanar as doenças, e também das preocupações com detalhes de figuras e medidas de pedra “que sobre a porta principal da Fortaleza deve conter uma daquelas inscrições que em semelhantes monumentos passam à memória de seus fundadores aos séculos futuros” (Carta de Gallúcio, Códice 200, doc. 07. De 10.07.1769 – APP).

Nessas cartas, notadamente Henrique Gallúcio, Henrique João Wilkens, João Geraldo de Gronfelds e Lobo da Almada (todos eles diretores da fortificação em construção), mostram-se homens cultos. Gallúcio, por exemplo, cita versos latinos da Eneida, de Virgílio, em epígrafes de suas epístolas; assiste a eclipses do sol e da lua e informa que recebeu instrumentos de astronomia. Eles são inv

ariavelmente vítimas de intrigas e doenças tropicais e nas suas demandas mostram-se subservientes até ao extremo na sua lealdade ao general governador e ao soberano. Uns como Gallúcio e Gronfelds são estrangeiros e, mesmo pertencendo ao Exército Português, são alvos de discriminações. Gallúcio faleceu e foi substituído por Wilkens, e este por Gronfelds. Mais tarde Wilkens foi transferido para a Província do Rio Negro e ali escreveu a “Muhuraida”, o primeiro poema épico da Amazônia.

Cremos que a história da Amazônia se mescla no seu sentido interpretativo a uma literatura real, feita de sangue e ossos, do testemunho relatorial e missivista dos que por aqui passaram, independentemente do seu intento de “fazer literatura”. O que escrevem confunde-se com o discurso ideológico-iluminista da época pombalina e reflete a experiência hegemônica dos conquistadores que a ferro e fogo construíram a Fortaleza de Macapá. Tais textos também podem ser vistos como elementos literários de grande valor, para além de meros relatórios que detalham cada passo da construção daquele edifício. Trata-se, portanto, de textos que contam uma epopéia amazônica, onde cada carta é um longo verso heroico. Ou uma pedra de cantaria na construção dessa memória.

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