A história de um sonhador

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Crônica de Evelyn Pimentel

Ele era meu amigo. Era um bom moço. Na verdade, era um homem. Do tipo que ama e é sincero com os seus próprios sentimentos. Não deixava que o orgulho o dominasse. Ele era do tipo que amava demais. Eu o conheço há dois anos. Era bonito, chamava a atenção das meninas. Tinha o sorriso largo e um olhar de criança encantada.

Quando o conheci, eu tinha acabado de ter uma das minhas experiências mais desastrosas. Estava blindada. Ele conseguiu abrir meu coração. Não, eu não me apaixonei por ele. Mas o seu jeito me fez acreditar que o mundo ainda tinha esperança. Que nada estava perdido.

Pois bem, o tempo passou, e nos tornamos quase irmãos. Falávamos sobre tudo, o que devíamos e até o que não devíamos. De todas as coisas que eu mais admirava nele, a sua pureza era a que mais me fazia sorrir. Não puro, no sentido de ingênuo. Puro, no sentido esperançoso. Seu coração estava intacto. Ele costumava me chamar de “a moça do coração de ferro” e eu o chamava de “sonhador bobo”. Adorava ver as moças tentando de todas as formas conquistar seu coração. Frustradas. Ele não queria qualquer uma. Queria Aquela. A moça que iria chegar para mudar a sua vida e nenhuma outra lhe interessava. E esta, ele reconheceria de longe.

A rotina e a falta de tempo me afastaram do Sonhador Bobo. Ele foi estudar e eu fui tentar dar um jeito na vida. Ele me mandava uma mensagem de vez enquanto pra contar como estavam as coisas. Certa vez, me veio com a novidade: havia encontrado Aquela. A mulher da sua vida. Estava namorando e estava muito feliz. Eu fiquei maravilhada. Não é que ele conseguiu? Apesar do meu coração blindado, eu ainda acreditava no amor. E se havia alguém que merecia ser feliz, essa pessoa era ele.

Ficamos mais uns meses sem nos falar. Até que um dia, recebo uma ligação dele. Surpresa, atendo ao telefone e ele me cumprimenta com uma voz triste. Eu o conhecia o suficiente para saber que não estava bem. Entre perguntas e respostas de mera convenção social, ele, finalmente, diz que precisa me ver.

Nos encontramos e logo percebo que o seu olhar não é mais o mesmo. Está triste. Distante. Ele me abraça forte e, sem dar voltas, me conta a sua aflição. O “amor de sua vida” havia ido embora. Nas palavras dela, ele era intenso demais e ela não sabia se estava pronta para isso. O pior não foi a sua sinceridade ácida, por mais que isso já fosse problema suficiente. O erro da moça foi ter resolvido ser sincera muito depois de ter desistido da relação.

Desesperado, mas sem perder a calma, ele me olhou e disse que eu tinha razão em desistir do amor, porque ele realmente não valia a pena e talvez nem existisse.

Naquele momento, eu peguei em suas mãos e disse:

“Não, o amor existe sim. Mas é para poucos. Muitos falam sobre ele, mas poucos o conhecem. Ainda que não exista mais motivos para continuar tentando, há uma pessoa que vale a pena, que espera por você. É para ela que você vai entregar o seu coração. Sem vergonha. Sem críticas. Sem jogos. Só amor. Pode doer agora. E dói. Muito. Mas é para que, quando o seu verdadeiro amor chegar, você consiga perceber o quanto ele é especial e real. Único. E os outros? Ah, os outros são os outros e só.”

Ao fim da conversa, ele me olhou. Respirou fundo e sorriu. E o meu coração sorriu também, como quem constata uma teoria. A de que além de tudo que compete um coração amador, ele também é esperançoso e persistente. E isso ninguém nunca vai conseguir tirar de nós.

Fonte: blog Desatino

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