A MOEDA – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Os cães se espantaram com o barulho da pá de encontro à terra seca e dura. Ele arrumou as moedas que tilintavam dentro do bolso de modo que não ruidassem. E continuou a cavar. Cavava ali desde Janeiro.

O condutor da carroça de leite foi quem primeiro viu aquele vulto sob a lua cavando a esmo ao lado da Igreja.

Dona Doroteia e Dona Faustina que vinham rezando de cabeça baixa, um pouco depois das cinco horas da manhã, enxergaram o vulto como se fosse um fantasma debaixo da chuva fina.

Erguendo-se, e curvando-se.

– Voltamos Comadre Dorotea? – Calor que não Faustina, pode ser uma alma penada com a sina de cavar. Nós vamos para a Igreja. Para a Igreja iremos.

O padre no começo não se incomodou muito. Mas aquele era o terceiro mês. Que aquele homem cavava. O monte de terra que de início de avolumava próxima a Igreja, agora já impedia a visão dos fiéis que desciam a rua vindos lá do Porto do sal.

O padre já fora ter com ele. Até mesmo lhe levará uma caneca de água e um naco de pão. Objetos, que o homem apenas pusera sobre uma folha de papel que mais parecia um mapa de todo rabiscado. O homem cavava, chovesse, fizesse sol, de noite, ou de dia, como se não ficasse cansado nunca.

O próprio chão da Igreja já registrava rachaduras, pelas pancadas interruptas do homem com a sua enxada dentro do buraco, que agora ultrapassava alguns palmos acima da sua cabeça.

Um dia veio o Governador, o Prefeito, o Bispo da Capital e o Chefe de Polícia.

Vieram acompanhados de uma comitiva de tradutores, poliglotas, digitadores de Morse e entendidos no alfabeto dos surdos mudos. Veio o carro dos bombeiros que teve dificuldade em estacionar devida a largura da rua reduzida a um pequeno espaço entre dois montes enormes de terra. De longe ainda se avistava as duas torres da Igreja com seus relógios agora quase ao nível do monte de terra retirada do grande buraco.

O alvoroço foi quando alguém notou que a frente do Porto, este cavar desesperado provocará um afundamento desta margem da Baia, que via suas águas se encaminhando para o buraco, embora ainda estivessem dele separadas por uns dezoito metros de terro firme. E que muitos barcos navegando próximos ao canal, lutavam com suas velas e motores, para escapar do fluxo da correnteza, escavando a margem da baixa em direção ao buraco. E o homem cavava.

As autoridades gritaram por um megafone. Tenha cuidado vamos descer. Desceram tradutores. Telegrafistas. Especialistas na linguagem dos surdos mudos, em línguas mortas. Todos retornavam exaustos e desorientados. O homem falava um misto de Neozelandês arcaico.

Repetia Abazulu, Utulazu,e Oitibabo. Os jornais apregoavam que deviam prendê-lo. Uns militares propagavam sua explosão ali mesmo dentro do buraco, que agora já era uma grande cratera.

Depois D’maior…O Guarda Noturno da terceira rua após a Igreja o viu sentado na beira do buraco extenuado e sujo, já madrugada adentro, com alguma coisa na mão que parecia uma moeda.

E por outras noites seguidas notou que o cume do monte de terra perdia altura. O homem que cavará estava entupindo o buraco com a terra amontoada numa velocidade muito grande.

De maneira que a Romaria de Julho foi realizada na Igreja sem o incômodo das pancadas fortes do lado de fora, do cheiro de podre de pântano vindo do buraco, e da lama grudando nos sapatos dos fiéis.

Na eleição de Novembro o Governador se reelegeu.

Com o Slogan Abazulu Utuzalu Oitibabo.

 

*Osasco (SP) – BRASIL 2020.

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    Hahaha! Muito estranho esse conto. Porém, com um enredo excepcional. Dona Dorotéa e dona Faustina nem ligaram mais. Luiz, acho foi difícil achar os telegrafistas. Abraços.

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