A morte, a morte e a morte de Arthur Leandro – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Não se trata de exagero no título desta crônica. Para tanta vida como ele tinha e esbanjava, só mesmo três mortes para encerrá-la (caso seja isso. Ainda acho que se trata de mais uma de suas obras).

Em 2001 e 2002, Arthur Leandro publicou o anúncio de sua morte no jornal de maior circulação de Belém. Isso muito antes do fake news ou do termo se tornar popular. Era mais uma gozação, uma piada, mostrando que sua verve não poupava nem a própria vida, muito menos a credibilidade do jornal e do tipo de jornalismo que o Arthur combatia. Melhor dizendo: não era uma piada. Era uma intervenção artística com todos os requintes de seu anarquismo cultural-guerrilheiro, feita para incomodar, sim, mas também para provocar a reflexão sobre a possibilidade de se usar todo e qualquer veículo para se fazer e discutir arte.

Desta vez, parece que sua morte é de verdade. Escrevo “parece” porque o Arthur Leandro é (não vou usar o termo foi) desses artistas que surpreendem a qualquer momento, em qualquer situação. Claro que, por sua rebeldia, Arthur Leandro jamais seria unanimidade entre os que conheciam o seu poder de invenção. Ele era o escracho diante de pessoas lineares; era o deboche para pessoas enquadradas; era um acinte aos medíocres. Mas, para quem o compreendeu em meio a esse turbilhão de irreverência, ele é uma mente criativa, de inquieta imaginação, de incansável disposição para a luta em todas as frentes em que esteve empenhado.

Tive o prazer e a honra de estar com o Arthur Leandro em intervenções artísticas que ele instigou e encontrou abrigo no grupo de malucos em que eu me inseria: o Urucum. Em 2001, numa tarde ensolarada de setembro e contrariando o desejo de quem queria se livrar das andorinhas que infestavam os fios elétricos da esquina Padre Júlio/Cândido Mendes, nós espalhamos mais de 500 penicos para recepcionar o batalhão de pássaros e decepcionar o bando de gente desprovida de sensibilidade. Depois, vieram várias intervenções.

Pois é. Terminado o tempo que estipulei para mim mesmo, achando que o Arthur ia aparecer para desfazer a brincadeira, já estou dando como certa sua morte. Já o vejo na barca de Caronte fazendo a festa até chegar ao paraíso ou ao inferno reservado para as mentes e os corações apaixonados pela vida. Chegou em algum lugar e esse lugar deve estar muito animado.

Este mundo tão carente de pessoas assim, fica ainda mais órfão, menos interessante. Mas, para quem conheceu o Arthur Leandro, fica a lição e a missão de jamais se conformar com o tédio, com a falta de opção e enfrentar a vida alternando o mais terrível palavrão com a doce generosidade de quem leva às últimas consequências o ato de viver.

Valeu, Arthur Leandro!

  • Confesso que ainda ñ acreditei na sua partida.
    Se bem me lembro da sua risada, seria interessante vê-lo surgir no nada e, balançando muito gritar: “peguei vcs de novo!”
    Mas penso que repetir o mesmo ato ñ faria parte de sua meta.
    Agora a cortina fechou, mas consigo imaginar aquela famosa foto do c* caindo junto com ela.
    Fará falta neste cotidiano tão chato.
    Que o barqueiro te leve, entre risadas e causos, à sua nova morada!

  • Linda homenagem. Também não quiz acreditar, pedi para alguém me dizer que era mais uma de suas peças, meu primo se foi deixando um vazio imenso em nossas vidas, sua força, inquietude, provocação e sede de igualdade ficam para nos instigar.

  • Não conheci alguém tão genuíno, tão verdadeiro… todo protesto, todo acolhimento; e sendo de todo coração, num mundo tão pequeno e tão mesquinho, o seu corpo, mesmo grande e generoso, não suportou abrigar uma alma tão gigante e então a libertou…

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