A música do Tim Maia

                                                                                    Por Antônio Prata
Meu primo bebeu cachaça, ouviu “Me dê motivos” 3423 vezes, até que um dia, depois de ter derramado lágrimas suficientes para encher todas as garrafas que havia esvaziado, quando seu ego estava desidratado como uma banana passa, teve uma iluminação. Não que a dor tivesse sumido, o céu continuava carregado, mas de um buraco entre as nuvens surgiu o raio de luz, ele viu aquele mesmo filme e pensou: “Ela deu pra outro cara. Ela gozou com outro cara. E daí? Eu não sou o único homem desse mundo. Ela ama a mim, não a ele. Paciência”.
O tal do Adalberto surgira numa época em que meu primo estava viajando toda semana para Goiás, muito empolgado com a venda de polias para o maquinário de uma fábrica. Estava dando pouca atenção à sua namorada. Ele havia, até mesmo, ido para a cama com uma moça chamada Neiva, numa tarde, em Goiânia. E sabe o que ela representava para ele? Nada, só isso, uma moça chamada Neiva, numa tarde, em Goiânia.
Se meu primo gostava da namorada, teria que perdoá-la e aceitar que ela ter transado com um cara chamado Adalberto significava o mesmo que ele ter transado com uma moça chamada Neiva. Ele teria que escolher entre seu amor e seu narcisismo, e ficou com o primeiro. Meu primo namorou mais um ano aquela mulher.
Depois terminaram, por razões internas que não vêm ao caso e nada têm a ver com o nome no celular. Meu primo diz, hoje, que acha até bom que tenha passado por isso tudo. Ele amadureceu, descobriu a dimensão trágica escondida atrás da música pop e, de quebra, ainda perdeu a barriga de tanto chorar de estômago vazio. Hoje, acredita, é até uma pessoa mais serena. Mas ai se descobrir que a atual namorada o traiu: ele mata os dois! Mata, esfola e joga no rio!
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