A noite promete

Conto de Ronaldo Rodrigues

Acordo com a maçaneta da minha porta sendo forçada. Alguém tentando entrar no meu apartamento. Meio tonto, me dirijo à porta e pergunto quem está tentando entrar. Ouço voz feminina:

– Ah! Desculpe! Me enganei de apartamento…

Logo me passa pela cabeça: se uma mulher errou de porta, de apartamento, deve estar muito louca de birita ou outra droga.

Abro a porta na esperança de que haja uma mulher muito bela e muito louca de birita ou outra droga querendo invadir meu apartamento e realizar fantasias e fetiches indizíveis com a minha pessoa.

Abro a porta e realmente há uma mulher muito bela e muito louca de birita ou outra droga se afastando pelo corredor, cambaleando, à procura de seu apartamento. Chamo a mulher:

– Você está bem? Posso ajudar?

A mulher volta seu rosto e eu constato sinais evidentes de embriaguez. Me aproximo e sinto cheiro de álcool e cigarro. A convido a entrar no meu apartamento, ofereço café forte, sem açúcar. Dizem que isso corta um pouco o efeito do álcool. Mas ela prefere vodca. Penso: “Opa! Essa é das boas!”.

Entramos em meu apartamento e ela vai logo se deitando no sofá da sala. Digo sala para dar um ar de grandeza ao meu apê, mas a sala é também o quarto e a cozinha. Sinto que ela está dormindo e tiro seus sapatos de salto alto. Ouço baterem na porta e vou ver quem é. É o marido, ou coisa parecida, da mulher. Vou logo explicando o que aconteceu e a mulher acorda gritando:

– Eu não tenho culpa de nada! Foi ele que me arrastou pra cá! Se aproveitou da minha embriaguez!

O marido, ou coisa parecida, me olha enfurecido. Tento explicar de novo, mas ele me interrompe:

– Eu não estou aborrecido com você, mas com ela! É sempre assim! Ela se engana de apartamento toda vez que enche a cara! Acho que, inconscientemente, ela não quer voltar pra casa. Não quer voltar pra mim!

E começa a chorar. Fico meio atarantado no meio daquela cena. Ele chorando cada vez mais escandalosamente. Ela debochando de tudo. De repente, ele respira fundo, para de chorar, limpa o rosto e fala muito decididamente:

– Eu não vou ficar aqui chorando! Vou sair! Ela que fique aí curando a ressaca!

Se dirigindo a mim, agora ele grita:

– Onde estão os sapatos que você tirou dela? Diga!

Digo onde deixei os sapatos, ele os pega, os calça e sai pela porta do meu apartamento, falando para a mulher:

– Agora você vai ver o que é vingança!

Fico sem ter o que pensar, o que dizer. A mulher, já totalmente refeita, pega dois copos, enche de vodca e começamos a beber. A noite promete.

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