A PULSEIRA DE DAS DORES E SEUS VIZINHOS VULTURINOS – Conto de Fernando Canto

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Conto inédito de Fernando Canto

Inexplicavelmente Das Dores perdeu uma pulseira talvez próximo a sua casa ou quem sabe dentro do quarto. Joia de ouro com pedras de brilhantes, herança da mãe que herdou da bisavó que ganhou como pagamento do aborto feito em segredo na sua patroa branca nos meados do século passado. Uma relíquia familiar que atravessou mais de setenta anos na família e nunca foi vendida, mesmo com tanta crise na economia do país e a pobreza da família.

dsc02094– Umbora, gente. Vamos olhar em baixo da cama. Laurindo, procura em baixo do assoalho. Joana, vê lá na frente da casa. Luarana, quem sabe não perdi quando a Lalata me brincou ontem à noite quando cheguei do batalho… Ah, essa cachorra é de morte… Mesmo assim eu gosto muito dela, não sou que nem vocês que vivem brigando com ela e nem banho dão na bichita. Eu, hem?!
– Bora, bora. Todo mundo procurando. Essa pulseira é relíquia de família que graças a Deus nunca a gente precisou se desfazer dela. Foi penhorada só uma vez na Caixa, num caso de doença com o pai de vocês.b061141b42d0797f3f3ced36f41a37df

E todos se esmeram nessa procura que já dura um dia inteiro de sábado e já entra pela noite, atraindo a curiosidade dos vizinhos. E Das Dores conta como foi que a perdeu por duas vezes e que fez promessa para São Judas Tadeu. Religiosa que só ela, na primeira vez vinha da missa na garupa da bicicleta do marido, o Júlio, que Deus o tenha em bom lugar depois que morreu duma doença que todo mundo acha que só dá em alcóolatra, uma tal de cirrose hepáti.

santinho-de-so-judas-tadeu-milheiro-pagar-promessa-7834-MLB5285907269_102013-O– Hepática, mamãe, conserta Luarana.
– Não repare, filha, é que fico nervosa quando lembro que seu pai nunca bebeu e nunca fumou. Bom, mas eu dizia que quando descíamos a ladeira da Rua São José batemos num buraco. Eu nem senti a falta da pulseira. Só dei conta quando chegamos em casa. E era umas nove horas da manhã de um Domingo de Páscoa. Eu logo acendi uma estearina e prometi a São Judas Tadeu que se ele me achasse a pulseira eu ia mandar rezar uma missa de ação de graças no dia dele. Pois não é que Júlio fez o percurso ao inverso e a pé, e logo achou a joia na beira de uma poça de lama no meio da ladeira? Que alívio! Deus me livre se perdesse ela. Eu ia chorar um mês, mas só chorei um tiquinho até o Júlio chegar. Nesse mesmo ano, por ocasião do batizado do Laurindo, eu perdi a pulseira de novo acho que na hora em que ele chorou na pia batismal quando o padre colocou sal na testa dele, ministrando o Santo Sacramento. Ele espernegava tanto que tive que tirar ele do colo da comadre Tibéria, a tua madrinha, seu porcaria. Vê se vai fazer uma visita pra ela uma hora dessas. Toda vez que ela me encontra reclama que tu nem olhas mais pra ela quando passas na frente da casa dela. Isso é que é… Esses meninos de hoje não respeitam mais os mais velhos.images (7)

– Bom, mas aonde é que eu estava mesmo?
– No colo da minha madrinha, mãe.
– Ah, mas por quê?
– Na pia batismal, mãe… A pulseira.
– Sim, claro, a pulseira. Essa minha cabeça mesmo…! A pulseira já tinha sido consertada lá no Serápio, aquele ourives crioulo que nem nós, que também é corredor de bicicleta. Não sei nem se ainda vive… Mesmo assim ela se perdeu ali, ó. Ali dentro da igreja do padroeiro. Eu chorei muito, mas não me desesperei. Fui chegando em casa e logo fazendo promessa pra São Judas Tadeu. Eu disse pra ele: Olha, São Judas, o senhor que é o padroeiro dessas causas impossíveis veja se dá um jeito de achar minha única e verdadeira joia. Prometo que se achar vou dar o seu nome ao meu próximo filho. Mas quem nasceu foste tu, Luarana. Sim. Eu não podia desconfiar do padre, coitado, muito menos dos padrinhos. Mas ficou aquela situação constrangedora, todos me olhando como se dissessem “não fui eu”.tumblr_inline_mvzrmcKMN11qje4ic

Eu costumo dizer que São Judas não falha. Não é que quarenta e três dias depois e quarenta e três velas acendidas a pulseira apareceu depois da missa das sete de domingo, em cima do altar. O padre não me disse nada porque o confessor deve guardar os pecados dos fiéis, mas uma forte intuição me dizia que quem achou a pulseira e a escondeu com outras intenções foi um coroinha que eu conhecia, pois o danado nunca mais foi ajudar o padre na missa.coroinha

Das Dores fala do seu apego à pulseira, da história da pulseira, do que sentia nas ocasiões especiais quando devia usá-la. E vai relembrando fatos e vai mandando nos filhos na busca desesperada, pois já é noite e os vizinhos, adultos e crianças, vasculham a área solidarizando-se com ela. Todos correm para ajudá-la com o consentimento febril da dona da casa. E vão descobrinVELHO BAÚdo coisas e velhos segredos familiares nas cartas e objetos familiares há tempo acumulados nas gavetas das cômodas, nos guarda-roupas, nos escaninhos da estante e até em um velho baú de mogno, uma devassa permitida aos curiosos da rua.

Como a noite avança alguém lembra que também é véspera do ano novo e que agora estavam mais preocupados com a ceia e o brinde do réveillon do que procurar um objeto perdido. Mas como é quase ano novo, os vizinhos, adultos e crianças, já fazem a festa em sanha vdownload (3)ulturina na cozinha de Das Dores, abrindo a única garrafa de frisante e o porco assado preparado pelas suas mãos no dia anterior. Ela se levanta de onde estava, vê a casa toda revirada, senta-se na poltrona da sala, pálida e com a respiração dificultosa. Depois chama os filhos e os vizinhos com ar de envergonhada e mostra a pulseira, balançando-a e deixando o ouro brilhar pelas luzes da velha árvore de natal do canto da sala, quase desmontada pela curiosidade alheia. Todos perguntam em uníssono.

0,,12176095-EX,00– Onde ela estava?
– Aqui no meu bolso, ela diz. O tempo todo no meu bolso.

E cai para frente estrebuchando, na hora da passagem do ano, esquecida de todos e absolutamente morta naquele momento ilógico, quando todos comemoram o ano vindouro ouvindo e vendo os fogos explodirem, colorindo o céu lá para as bandas da Beira-Rio.

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