A questão de fundo

Ontem (18) assisti o filme “Tropa de Elite 2”. Fiquei impressionado com o longa, pois dificilmente uma continuação é melhor que a primeira parte de uma história cinematográfica, este é o caso de Tropa de Elite 2. O filme mostra conflitos familiares e a realidade corrupta da polícia e poderes executivos e legislativos. Parafraseando o personagem principal, agora coronel Nascimento: “O sistema é foda” e não só no Rio de Janeiro. Sobre o filme, li este texto do jornalista e escritor Daniel Piza, que descreve exatamente o que achei de Tropa de Elite 2, leiam:

A questão de fundo
Tropa de Elite 2 não é apenas a continuação do antecessor; é também sua desconstrução. José Padilha parece ter feito uma coisa rara entre criadores brasileiros e dado ouvido às críticas que não caíram nem na exaltação emotiva do filme, nem em sua rejeição como “fascista”. No primeiro Tropa de Elite, o capitão Nascimento (Wagner Moura) jamais é contestado a sério e, apesar do estresse que o faz pensar em desistir de tudo, jamais contesta a si mesmo, seguro de que o Bope é incorruptível e tem a solução nas mãos e armas.
Agora no segundo filme, já tenente-coronel, trabalhando na Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro, ele é contestado da primeira à última cena: contestado por seu filho, por sua ex-mulher, pelo atual marido dela, por ex-companheiros do Bope como Matias, etc. E se vê obrigado a rever seus conceitos, sobretudo a crença no grupo que treinou como um bando de Rambos e a redução do problema das drogas ao consumo de burgueses.
O filme é menos acelerado, embora continue sendo um filme de ação, e a narração em off de Nascimento – que no primeiro seria de Matias, até que as pesquisas prévias mostraram que o personagem mais forte era o de Moura – é mais expositiva e reflexiva, não mais um mero apoio às imagens. Em vez de incitar a polarização como no filme anterior, entre os que acham que a violência se combate com a violência e os que acham que ela é apenas “uma questão social”, desta vez o roteiro contempla graduações. Numa cena no começo, depois de sua equipe invadir Bangu 1 com a truculência habitual, o coronel é aplaudido num restaurante, obrigando as autoridades a ficarem do seu lado, e o off diz que “o povo pensa que bandido bom é bandido morto”, como se explicasse os aplausos da platéia às torturas feitas por Nascimento no primeiro filme – o que não elimina o fato de que o enredo endossava a atitude.
Aqui surge a principal ressalva ao segundo filme: embora afaste e até ironize as reações passionais ao anterior, retirando boa dose do caráter heróico de Nascimento, ele o faz alegando que o crime organizado mudou nesse espaço de tempo. O “sistema” agora se baseia em milícias, em supostos protetores “comunitários” que participam da vida das favelas e arrecadam dinheiro não só das drogas; e isso faz Nascimento entender que a solução do Bope – o extermínio de traficantes – já não dá conta da realidade. Não se trata mais de uma guerra territorial, e sim política.
Ok, é verdade que em governos como o atual, de Sérgio Cabral, a ênfase é outra, mais paternalista e midiática, mas daí a sugerir que não tinha nada disso antes, quando o Bope sabia o que fazer, vai boa distância. De qualquer modo, podemos conceder que Nascimento precisou desses anos de setor público para entender os limites do seu método.
Essa alegação cronológica levou o filme não apenas a ser menos chocante, mas também a assumir um tom didático, no off e nos diálogos – principalmente quando o deputado Fraga fala em palestras ou na Assembléia –, que fica excessivo e, no final, quase panfletário. Ao mesmo tempo, há clichês de filmes de ação, como as tomadas do caveirão invadindo a favela. O maior deles é a saída encontrada para personalizar a mudança de Nascimento: Fraga vem a ser o marido de sua ex, com quem o filho vive. Quando o rapaz vai parar na delegacia e começa a ver o pai como um fascistoide, ele vê sua impotência diante da complexidade da questão; depois, o rapaz vai parar no hospital. (Em todo filme de pancadaria, o protagonista tem como motivação a agressão a um familiar.) De resto, porém, o roteiro tem poucas cenas marcantes, ao contrário do anterior. Uma delas, breve até demais, é a da tortura da jornalista (Tainá Müller), alusão aos casos reais de Tim Lopes e de uma equipe de O Dia.
Outra, bem mais relevante, é a do sobrevôo de Brasília no final do filme. Habilmente o argumento vai levando a ineficácia do combate ao crime para a questão de fundo: os interesses e a impunidade da classe política. É um gesto corajoso, ainda mais em época eleitoral, e sugere que Padilha está pronto para fazer um filme sobre esses corruptos, adotando um realismo político também raro nas narrativas brasileiras. O sucesso de Tropa de Elite 2, que tem batido todos os recordes de público (e comprovado que o primeiro foi sim prejudicado pela absurda pirataria que o precedeu), pode ser atribuído em boa parte a essa crítica em tempo real aos políticos, dimensão quase ausente no anterior. E ao fato de, por isso também, ser um filme mais completo, que tem até momentos de humor. Toda maturidade, num país que resiste a ser sério, deve ser aplaudida.

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