A santa inquisição do Fofão

Lembro-me bem, no início dos anos 90, do pânico em Macapá causado por um boato “satânico”. Espalhou-se que dentro do boneco do personagem Fofão teria uma adaga ou punhal, por conta de um pacto demoníaco, feito pelo autor do mesmo, com “o coisa ruim”. Iniciou-se uma caça sem precedentes ao brinquedo, uma Santa Inquisição do Fofão. Eu e meu irmão vitimamos os bonecos das primas (prima sempre tinha Fofão, boneca da Xuxa ou Barbie).

Na época, muitos diziam que ouviram do primo do vizinho do fulano, que uma pessoa tinha sido assassinada pelo próprio boneco. O Fofão tinha uma cara enrugada, era tosco, usava uma roupa parecida com Chucky, o brinquedo assassino e dentro ainda tinha uma aste (punhal) de plástico, que era usado para manter o seu pescoço em pé, realmente os fatos estavam contra ele.

Houve até queima dos portadores do mal em praça pública, sim, naquela praça que ficava em frente ao cemitério São José, que hoje abriga a nova Catedral, homônima ao depósito de pés juntos. Na verdade, comprovou-se que o fato não passou de um golpe de marketing, pois muita gente comprou só para conferir e destruir o brinquedo em seguida. Coisas como o lance das músicas da Xuxa que, como se falou na mesma época, se tocadas ao contrário, continham mensagens do diabo, hilário.

Fora o fato de a população potencializar suas crendices e atos insanos por conta de um mero boato, foi muito divertido, eu ateei fogo em vários Fofões, muito melhor do que a época junina, a maioria dos muleques adorou e grande parte das meninas chorou a partida daquele tão querido brinquedo.

Concordo com o dramaturgo inglês, William Shakespeare, quando ele escreveu que “Há mais coisas entre o céu e a terra do que a nossa vã filosofia”, mas o episódio do Fofão foi uma histeria generalizada, uma espécie de Santa Inquisição dos brinquedos.

Elton Tavares

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