A SORVETEIRA DE AMARELO – Crônica de Rui Guilherme

Crônica de Rui Guilherme

Cor que se destaca no pincel furioso de Vincent van Gogh é o amarelo. Aparece nos girassóis, nos trigais batidos de vento, no autorretrato com chapéu de feltro, na casa amarela.

Ninguém desconhece que o negro é a ausência de cor; o branco, a fusão de todas elas; o azul, o vermelho e o amarelo são as cores base, aquelas que dão origem aos demais matizes. Por exemplo, junte ao amarelo o azul, e terá o verde; o vermelho, e terá o laranja; o azul ao vermelho, o roxo; o vermelho, o azul e o amarelo, o marrom. Juntando o branco às cores fundamentais e seus tons intercambiantes, estes ficarão mais claros; juntando o preto, ficam mais escuros; e assim vai.

Ora, bem. Saindo do espectro de Newton, voltemos a van Gogh; e do genial holandês, vamos, neste fim de tarde luminoso do equador, sob um cintilante céu anil, para uma esquina da rua Padre Júlio Maria Lombaerd, em Macapá. Movimentadíssima em dias úteis, naquele fim da tarde de sábado, o comércio fechado, apenas um persistente comerciante permanece sentado à porta de seu estabelecimento. Sentado em uma grade vazia de cerveja, a camisa aberta a exibir impudente barrigão, colocou um CD de brega no som que mantém a seu lado: aumentou exageradamente o volume do equipamento (ora, bolas! Não tem ninguém na rua para reclamar!); aproveita a brisa e sorve a goles generosos a cerveja da latinha.

Homem prevenido, tem à mão um isopor cheio de louras geladas, gostosamente refrescantes. – “Ora, bolas!”, volta meu comerciante a refletir. – “A mulher, esta hora, não deve estar em casa. O filho já saiu com a turma dele. Minha filha achou de casar, e não dá sinal de querer voltar da lua de mel no nordeste… Que diabos vou fazer em casa sozinho?” Filosoficamente, aumenta mais um pouquinho o brega e cata mais uma birra estupidamente gelada no isopor, olhando-a amorosamente. Leva-a à boca. O gole é quase um ultraje público ao pudor.

Pouco mais adiante, Vincent Willem van Gogh surge em todo seu esplendor diante de meus olhos. É uma vendedora de sorvete. O carrinho é amarelo berrante; da mesma cor, o enorme guarda-sol. Amarelo vangoguiano é o uniforme da moça, como falsamente louros são seus longos, lisos e amarelos cabelos, soprados com doçura pela brisa do entardecer.

Ela está sentada em um banquinho de plástico (amarelo, da cor do carrinho, precisa dizer?). Dirige-me, esperançosa, seu olhar gateado, na esperança de que lhe compre ao menos um sorvete. Mas eu não estava lá movido pelo desejo de tomar nada gelado. Perguntei-lhe sobre um feirante que faz ponto naquela esquina, de quem eu queria comprar um banquinho de macacaúba. A pintura de van Gogh olhou-me como se eu fosse um alienígena. Devia estar se perguntando o que é que este idiota vem fazer aqui neste fim de tarde em que não tem ninguém na rua, se ela mesma estava ali de teimosa e apenas para não perder o emprego: só estava autorizada a empurrar o carrinho de volta para a empresa depois das dezenove horas, e ainda nem deram as seis, caramba! Além de tudo, continuava a mulher de amarelo a cismar, será que o babaca não notou que a rua está deserta, que só o carro dele parou?

Informa, enfim, o óbvio: não, o vendedor nunca fica até aquela hora na rua, porque não vai vender nada para clientes que simplesmente não existem. No sábado, depois que as lojas fecham, a Padre Júlio fica um cemitério.

– “Está quente, não está? Um sorvetinho, com esse calor…” -, fala, sem conseguir se conter. – “Sabe, meu turno começou duas horas. A essa hora, o comércio já fechou, e não tem movimento nenhum aqui na Padre Júlio. Não consegui vender nada até agora…” E piscou seus longos cílios, dirigindo-me cintilações douradas para ver se conseguia pelo menos tirar o zero.

– “Pois é, né? Pena que o diabetes não me deixa tomar sorvete…”

Não comprei meu banquinho de macacaúba. A mulher de van Gogh mentalmente rogou-me uma praga: não tirara o zero, e só depois das dezenove poderia devolver à firma o carrinho cheio de sorvete. O céu continuava escandalosamente azul, já ao longe se anunciando um por de sol muito bonito.

Só o comerciante de camisa aberta e barrigão ao vento, certo de que não ia achar ninguém em casa, teimosamente colocou no equipamento mais um disco de brega; aumentou um tiquinho o volume; tirou do isopor mais uma lata de cerveja, olhando-a com paixão. O jeito como chegou a latinha à boca era cena digna de um filme pornô.

*Macapá, 30/08/2015

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