A SUCURI – Conto indígena de Fernando Canto

 

Era ainda princípio de mundo quando Ianejar já havia criado os seres que mais tarde iriam compor o conjunto de animais sobre a terra. Todos eles tinham a mesma aparência, falavam a mesma língua e não mostravam nenhuma diferença nas suas práticas e conhecimentos da vida. Tinham música e flautas do turé para realizarem seus rituais, mas não possuíam cores.

Só a floresta tinha cor. Coube, então a Ianejar, durante uma grande festa, promover a separação entre homens e animais, para os quais destinou um espaço diferenciado para organizar, assim, a vida em sociedade. Na festa os homens e animais cantavam e dançavam, até que uma grande parte desses primeiros seres que dançavam caiu no rio e se transformaram em peixes, que passaram daí em diante, a servir de pasto aos homens. Outros viraram cobras aquáticas que continuaram vivendo no fundo dos rios, e só se comunicavam com os pajés, porque continuavam gente.

No local em que viviam havia uma enorme caverna sob uma montanha de pedra, onde morava um ser muito temido e que foi morto pelos humanos. Ao cair na beira do rio eles lhe abriram o ventre e extraíram seus excrementos, que eram todos coloridos. Então fizeram outra grande festa e se pintaram com as cores deixadas pelo ser. Não perceberam, entretanto, que no ventre do cadáver do poderoso ser eclodia o ovo de uma enorme sucuri que foi crescendo, crescendo, durante a festa que realizavam.

De repente ela surgiu afugentando os convidados que partiram voando para o céu se tornando os primeiros pássaros. Alguns se embrenharam em todas as direções da floresta e viraram caititus, antas e capivaras, veados e jacarés.

A cobra-grande jurou se vingar dos homens e de qualquer animal que se pusesse em sua frente, furiosa porque mataram seu pai primordial. E se foi na direção do sol poente, levando águas e terras até fazer sua morada em um lago escuro, de onde sai de tempos em tempos, quando uma estrela de cauda aparece no céu da noite. Ela vem silenciosa para destruir o que os homens construíram às margens dos rios, sejam aldeias, cidades ou fortes de pedras. E no seu caminho em direção à foz do Grande Paraná, para onde vai trocar de pele, vai deixando escamas sobre as construções que destrói na trajetória avassaladora de sua eterna vingança. É por isso, então, que para se protegerem de si mesmos e dos perigos da floresta, até hoje os homens só constroem suas casas umas juntas das outras nos lugares onde ficaram as escamas deixadas pela sucuri.

  • Eu sempre falo da existência na região Amazônica de um Grupo de Escritores que oriundos, ou habitantes, desta região, estabeleceram um Literatura, fantástica …Surrealista…com pinceladas coloridas da fantasia que este mundo se cerca, a partir do imaginário… Indígena… Africano…
    Fernando é uma das suas mais importantes…
    Manifestações !

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