a última canção de susana san – Conto de Ronaldo Rodrigues

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crônica de ronaldo rodrigues

• ela está parada sentada na pedra em frente ao mar
• ela ouve o som do vento, do vento, do vento que entra pelo labirinto da concha de sua orelha
• ela e o violão antigo deixado de herança por um tio-avô excêntrico, esquisitão mesmo, que morava numa caverna
• ela, susana san, canta uma canção, um trecho ouvido no dia do enterro de sua mãe
• ela toca o violão e algumas gotas d’água (e de lágrima) chegam às suas pernas
• susana san sente a pedra afundar, ou melhor: o mar subir
• ela esquece a música, depois lembra, ela esquece o namorado que partiu pra guerra, depois lembra, ela esquece o pai, não poderia ser diferente, já que ele nunca voltou de uma viagem interminável
• ela esquece tudo, depois lembra, mas agora é tarde para lembranças e esquecimentos
• o mar já chega aos seus seios10866923_4982667982073_2072246637_n
• o violão vai ficando cheio d’água e ela perdeu a vontade de ir embora
• ela sabe que não adianta tentar se salvar, já que nada detém o mar (mas esquece)
• hoje sou eu que estou na pedra à beira do mar pensando ouvir a última canção de susana san trazida pelo mar, pelas gaivotas, pela lembrança daquele portão velho de madeira do fundo do quintal
• ouço a última canção de susana san e me despeço da pedra
• agora já é amanhã, ou seja: hoje
• retornei, sempre retorno na esperança de que o mar e o vento tenham aprendido a última canção de susana san para fazer o mundo aprender
• e se libertar

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