A última ceia – Conto de @juliomiragaia

Conto de Júlio Miragaia

Não havia nenhum luxo naquela comemoração. A época de chuva umedecia os caminhos de madeira da ponte onde ficava a humilde casa, das tábuas encharcadas e cada vez mais escuras e enlodadas com o passar dos anos.

Dos três irmãos, apenas João havia conseguido, com suas economias, comprar uma roupinha nova, que não tinha nada de mais.

A ceia também não era o mais refinado dos banquetes, mas era a melhor refeição que poderiam ter naquela noite. Os enfeites, luzes compradas numa importadora e uma pequena árvore de plástico, completavam o ambiente natalino.

O cheiro de comida que vinha da sala e da cozinha se espalhava por toda a casa, fazendo junto com as canções evangélicas que tocavam num aparelho de som, com que aquela noite tivesse qualquer coisa relacionada a um sentimento de agradecimento entre todos os que ali estavam.

No centro da mesa foram colocados dois frangos assados, uma tigela cheia de risoto, um vatapá feito pela avó, dois bolos, um cento de salgadinhos e outro de monteiro lopes com brigadeiro. Uma garrafa de cinco litros de Cantina da Serra era guardada para que os mais velhos bebessem depois da meia-noite.

João, do alto dos seus quatorze anos, planejava passar o reveillón na casa do tio, em Belém, no bairro da Sacramenta. Além de contribuir com duzentos reais com a ceia da família, conseguiu juntar trezentos e oitenta para comprar as passagens para ir de navio de Santana até a capital paraense.

Foram longos meses, subindo e descendo de ônibus vendendo jujubas, amendoins e mentas para alcançar o objetivo. O dinheiro que juntava também ajudava a comprar comida para casa nos dias difíceis.

O pai, pedreiro desempregado, tinha feito bicos, pintando casas e lavando carros para conseguir algum dinheiro para o jantar de natal que fizeram naquela noite.

Havia uma felicidade não parcial, apesar das dificuldades daquela família. Uma felicidade em saber que estavam todos com saúde na casa, depois de um ano tão cansativo e injusto em diversas ocasiões.

Ninguém tinha comprado presente para ninguém. Mas a conversa e as brincadeiras fluíam pela sala, nos dois sofás e ao redor da mesa ainda intocada.

Por volta de onze e quarenta, a energia elétrica foi embora. Menos de dez minutos depois, ouvem-se quatro tiros. João, o terceiro filho da família, que viajaria sozinho pela primeira vez para Belém, depois de trabalhar duro, soltou um misto de gemido, grito e choro da cadeira onde estava sentado até o chão onde caiu. O choro e o grito da mãe e da avó saíram como que sincronizados, atravessando o som dos sapos e dos grilos da ponte.

A energia voltou meia noite em ponto. Os vizinhos se aglomeraram dentro e na frente da casa. João estava entre a mãe e o pai, no chão da sala, o corpo sem vida e as roupas novas ensanguentadas. Foi uma noite em que as horas se arrastaram desgraçadamente e o natal se revestiu de lágrimas e luto.

O dia iniciou com uma chuva tão forte que o lago onde fica a casa começou a transbordar. O vento forte e frio fazia as janelas da casa e o rosto triste de seus moradores tremerem.

Fez-se manhã, tarde e noite de natal e parecia que nunca mais pararia de chover. A ceia permaneceu intocada. A água invadiu o piso de madeira, lavando lentamente o sangue de João. E a vida daquela família, principalmente nas noites de natal, foi encharcada de tristeza e de uma estranha e profunda solidão.


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