A viagem poética/literária de Bruno Muniz – Capítulo III

O caminho do trem me trazia paisagens belíssimas, que por mais que vistas e revistas em tantas ocasiões, agora me pareciam florescidas de véspera. O verde imperava soberano, entremeado ora pelo vermelho das maçãs, que de tão rubras pareciam à prova do mais valente dos bichos, ora pelo azul marinho dos riachos. Desci numa vila chamada Trás-dos-montes. As ruas eram de terra batida. Avistei algumas pessoas que passavam calmamente, como se domingo fosse.

Falavam com entusiasmo de um tal de Luis Carlos Prestes, que liderava um grupo de militares rebeldes no Rio Grande do Sul. “Em pleno 1924 temos que aguentar esse tipo de coisa”, resmungava um senhor visivelmente irritado. Perguntei onde poderia tomar um café e me apontaram o caminho. Entrei num pequeno armazém, pedi um café e pão com manteiga, mergulhei o pão no café sorrateiramente pra que não vissem a estrepolia que me acostumara desde a infância.

O pão com manteiga de leite fria e salgada em mergulho ao café doce e bem quente, quase de queimar a língua, não havia de fazer feio a banquete algum. Depois pedi mais um pão, não por restar o apetite, mas por resguardar-me ao lembrar da caminhada a vir. Comprei alguns mantimentos pro acaso de eu não encontrá-los no caminho e segui pela primeira estrada que encontrei.

Já ia a passos largos à metade da manhã, quando avisto uma senhora à beira da estrada vendendo laranjas. Tinha um semblante triste, cansado, os olhos caídos como duas vírgulas, que formaram conchas quando ela sorriu:

– Bom dia, seu moço, a laranja tá docinha. A melhor da redondeza.
– Bom dia, dê-me uma como prova, mas se não tiver a doçura anunciada, não pago.
Disse em tom de brincadeira.
– Pode pegar! se não tiver doce, dou-lhe a banca. Meu pé de laranja é mágico. Brota fruto até da raiz. Dá laranja o ano todo.

Dou uma risada mas ela me olha séria: “Não estou mentindo”.
– Há quanto tempo a senhora vende laranjas?
– Ah, meu filho, tem tempo, bota tempo nisso.
– Dez anos?

Ela dá uma risada boa e continua:
– Bote pra mais de cinquenta. Não sei dizer. Minha memória anda fraca.
– Posso saber a idade da senhora?
– Também não sei, meu filho, meu menino um dia botou fogo nuns papéis e acabou queimando os documentos todos. Ficou uma semana sem andar de carroça, como penitência.
– Mas a senhora não se lembra do ano?
– Lembro nada.
– Lembra de algum acontecimento importante à época?
– Lembro nada, naquela época acho que nem jornal existia.
– E seu marido, trabalha na lavoura?
– Ele foi embora e nunca mais mandou notícias, aquele MALDITO!
– Assim do nada?
– Disse que ia trabalhar na capital do país e nunca mais voltou. Explicou que com o fim da escravidão ele teria muitas chances de emprego, MISERENTO!

Me veio uma ideia que poderia ajudar aquela senhora a pelo menos saber sua idade.
– Mas ele foi logo que a Lei Áurea foi sancionada?
– O que é isso?

Reformulei a pergunta:
– Ele foi logo que acabou a escravidão?
– Sim, lembro que dois dias depois dessa tal lei, nós comemoramos o acontecido e ele partiu. Eu pedi pra ir junto e levar as crianças mas ele disse que nos buscaria depois, LAZARENTO!
– E quantos anos a senhora tinha na época?
– Sabe Deus.

Disse dando uma risada gostosa.
– E seus filhos tinham que idade?
– O menor tinha acabado de nascer, o outro já tinha um ano.
– A senhora se casou com que idade?
– 14 anos.
– E quanto tempo depois seu marido foi embora?
– Dois anos, só viu o segundo nascer e já foi embora, o CRAMUNHÃO.

Pronto, o mistério da idade estava resolvido!

Bruno Muniz

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