Absorta – Crônica de Ana Anspach

Não considero que ainda tenha diante de mim uma longa trajetória de vida, afinal já completei meio século, e por mais que ainda habite neste planeta, já me considero uma andarilha que completou mais do que a metade de sua jornada. Ainda assim, continuo tendo obsessão pelo conhecimento nas mais diversas áreas, ao mesmo tempo em que me cobro pela imposição pessoal e da sociedade de chegar a algum lugar, de realizar sonhos.

Vivo de instantes, mas praticamente não saio do lugar por não saber qual caminho seguir. A indecisão me exaure, paro, e enquanto descanso fitando o vazio, mente e coração são inundados por sensações, memórias, cores, aromas, formas e sons. Sou capaz de escutar a linguagem do silêncio explodindo em meus ouvidos e entender o quanto cabe de sentido no que não se vê e nem se escuta.

Sou inundada por vontades, sonhos e frustrações que me atropelam qual um caudaloso rio, e fechando os olhos “vejo” ‘flashes’ da minha vida em meio as águas revoltas. Perco a direção, converso com os peixes, com os pássaros…me sinto tal como “Flicts” – a cor sem par, descrita no livro de Ziraldo.

Mudo de rota ou continuo seguindo a multidão…pouca diferença faz, pois, além de não saber para onde vou, continuo irremediavelmente só. Ai de mim se não existissem as letras, que formam textos, músicas e poemas…Benditas são por me ajudar a expressar pensamentos e emoções.

É por meio da música, da arte contida na poesia, na literatura, na pintura, na dança e no teatro que eu, e milhares de pessoas, uma diferente da outra, espalhadas pelos quatro cantos do país, conseguimos nos manifestar e nos salvar da morte lenta e silenciosa, principalmente, nos momentos de dor e conflito.

Desta forma, aprendemos uma língua comum, com a ressalva de que cada indivíduo estipula seu padrão – não há certo ou errado, há arte e comunicação. Comunicação instantânea que possibilita interação entre povos de diferentes idiomas e costumes e acende em cada um de nós emoções e valores.

Arte: linguagem repleta de significados, vivências, mágica, e beleza, elimina fronteiras, constrói vidas e tão importante quanto, desconstrói preconceitos. Enquanto descanso, recupero a inocência da infância, me aprofundo diante do desconhecido, e entendo que este é o único caminho para a (salvação) evolução.

Ana Anspach – Jornalista

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