Amigos, não se percam! – Excelente crônica de Ronaldo Rodrigues

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Crônica de Ronaldo Rodrigues

Na ditadura, podia-se perder um amigo de um momento para o outro. Perder significa perder mesmo. Esse amigo poderia ser assassinado, morrer em emboscadas ou sob tortura. Ou, o que é pior, poderia desaparecer para sempre. Bastaria para isso que ele dissesse abertamente tudo aquilo que pensava. Ou tivesse comportamento e pensamento livres demais. Ou tivesse ligação com artistas, intelectuais, jornalistas ou outras espécies de pessoas que pensam. Uma pessoa pensando livremente é a maior ameaça a uma tirania. Podia ser nada disso. Uma suspeita de um vizinho bastava. Uma denúncia, uma invasão de domicílio arbitrária, uma prisão ilegal… E lá se ia nosso amigo.

Hoje, na democracia, para perder um amigo basta manifestar opinião contrária a ele. Liberdade de expressão, duramente conquistada, é, por muita gente, confundida com liberdade de agredir, ferir, magoar. Fazer isso com pessoas estranhas já é deplorável. Quando, por muitas vezes, quem está do outro la12523942_10206984388180656_2015793427067885731_ndo é o que sempre se imaginou ser um amigo, a coisa fica insustentável.

Pelas redes sociais, amigos deixam de ser amigos, para constatar o fato de que nunca foram amigos. E trocam grosserias e se machucam e se excluem, em todos os sentidos. Essa é a derrota de todo mundo, não do lado A, nem do lado B, muito menos de quem não tem lado, o que não quer dizer está em cima do muro.

Perder um amigo é horrível. E aquele amigo que morreu na ditadura morreu exatamente para que os amigos de hoje possam exercer plenamente a maravilha de se ter um amigo.

Eu não admito perder um amigo para esse conjunto de fatos que citei acima. Posso perder uma discussão política, se o argumento contrário for mais forte do que o meu, perder amigo, não! Por essa causa sou capaz de convocar manifestações, organizar passeatas, subir no carro-som e disparar discursos. Quem vem comigo levanta mão aí!

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