Anjos – Conto de Lulih Rojanski

Conto de Lulih Rojanski

Madalena

Sempre que é dezembro, Maria descobre em seu jardim estranhas penas brancas misturadas às pétalas multicoloridas que caem das flores. Enquanto colhe lírios para enfeitar a casa, às vezes pega uma pena e fica pensativa, rodando-a entre os dedos. Maria nunca viu um pássaro branco sobrevoando o jardim. Recolhe as penas e guarda na mesma caixa em que as tem guardado há anos. Maria sonha com o dezembro em que verá os anjos do Senhor brincando em seu jardim.

João

Madalena diz que as que se chamam Maria recebem a visita de anjos no mês de dezembro. Maria diz que nunca viu nenhum, mas guarda debaixo da cama uma caixa repleta de penas brancas que recolhe do jardim a cada dezembro. Algumas têm sinais de sangue nas raízes. José, por sua vez, guarda o segredo de que já viu um anjo de asas feridas, chorando ao pé da oliveira do jardim de Maria, no meio da noite… Então viu suas mãos enrugadas, seu crânio pelado, e foi impossível não confrontar a imagem daquela criatura triste com suas ilusões infantis. Ajudou o anjo a levantar-se, até que alçasse um voo trôpego na escuridão. Contou a mim, mas quando quis contar para Maria, esqueceu-se como se dizia a palavra “anjo”, como se dizia “jardim”, “madrugada”, “oliveira”…

Maria

Quando acordei, ainda estava escuro. Abri a porta dos fundos, olhei para o relógio do céu e não consegui ver as horas. Choveu a noite inteira. Os cães ladraram. Preparei meu café, preto e forte, e fui tomá-lo sob a oliveira. Entre as folhas caídas havia grandes penas brancas com sinais de sangue na raiz. Juntei uma delas, olhei novamente para o céu, mas não consegui ver mais que os nimbos cinzentos que impediam a passagem do sol. Todo dezembro é assim: anjos são enviados para observar, em segredo, a evolução das virtudes das famílias onde há uma Maria. Talvez a bíblia possa explicar, não sei, nunca a li. Os nimbos são o esconderijo perfeito para os combates sangrentos entre os que conservam um fio de esperança nos seres humanos e os que não suportam mais vigiar nossas vidas miseráveis.

José

Há anos Maria foi embora, mas eles não deixaram de vir. Não reconhecem a casa como minha e não compreendo o que continuam a esperar de mim, sem Maria. Meus dezembros são de insônia e desespero desde o dia em que surpreendi um deles me espiando pelas frinchas da veneziana na hora mais neutra da madrugada. Perguntei quem era, e ele me disse que até gostaria de ser alguém. Perguntei o que queria, e ele respondeu que o que queria mesmo era que Deus morresse. E me contou a verdade sobre as legiões. Foi naquele momento que vi o imenso vazio de seus olhos e o cansaço de seus ombros ósseos. Tinha ferimentos nas duas asas. Ontem foi véspera de Natal. Arcanjos, dominações e potestades promoveram a ceia infernal que sempre culmina com uma sangrenta batalha entre os que odeiam e os que amam a Deus. Sei que hoje, quando eu abrir a porta dos fundos, como em todas as manhãs de Natal desde que Maria foi embora, haverá, sob a oliveira, um querubim ou serafim que precisarei enterrar.

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