Aos incréus, sugiro estas palavras:HOCUS POCUS,TONTUS TALONTUS,VADE CELERITA JUBES.


Dois dias após o Natal de 1979, parti de Santana em um Maverick rumo ao Aeroporto Internacional de Macapá. O vôo da Varig me levou até Belém. Pernoitei na cidade das mangueiras, de onde tomei um ônibus da Itapemirim e, 48 horas depois, aportei na Rodoviária de Belo Horizonte.

Às 21 horas do dia 1º de janeiro de 1980 chovia em BH. Sentei sobre a mala na esquina da Avenida Augusto de Lima com a Rua Mato Grosso, no Barro Preto, e peguei meu violão. E ali amanheci a primeira madrugada boêmia na Terra do Clube da Esquina.

Naquela cidade planejada e erigida sobre a antiga Fazendo do Curral Del Rey, eu absorvi porções da alma dos mineiros, que sempre cultivaram a Liberdade, ainda que tardia: aprendi a cultivar o silêncio absoluto, a ter parcimônia, ser paciente e discreto. E, sobretudo, absorvi o gosto pela arte da política.

Em Minas Gerais até os postes das ruas conspiram entre si. Quanto instados a emitir uma opinião, dizem os homens das montanhas: “Não sou a favor, nem contra, muito antes pelo contrário”. Essa forma peculiar de viver e se expressar rendeu aos mineiros a fama de que estão sempre em cima do muro.

Minha máquina do tempo retroage a São Luis do Maranhão. Ali na cidade do Reggae haveria de nascer Denise Hellen Quintanilha Muniz. Era o dia 14 de dezembro de 1979. Portanto, 13 dias antes de eu ter de Macapá rumo a BH. Neste ponto, indago: qual seria a mais remota possibilidade de que algum dia em viesse a conhecer Denise Muniz?

A máquina do tempo avança. Estamos em Macapá, o dia é 14 de novembro de 2012. Às 8 horas e 57 minutos, na Maternidade da Unimed nasceu Isabela Quintanilha Muniz Sanches. Tal evento me faz evocar novamente:

HOCUS POCUS,
TONTUS TALONTUS,
VADE CELERITA JUBES.

A máquina do tempo retroage. Por uma dessas coincidências, aos nove anos, Denise havia migrado com os pais e os irmãos de São Luis para Macapá. Nesse ínterim, enquanto a menina lourinha de lábios carnudos crescia no Meio do Mundo, o guitarrista Régis Sanches já havia cursado jornalismo na PUC Minas. Enquanto estudava e trabalhava nos jornais mineiros, testemunhou o ocaso dos “Anos de Chumbo”, com o general Golbery do Couto e Silva pilotando habilmente a abertura política “lenta, gradual e irrestrita”.

Golbery era chefe da Casa Civil do último general presidente, o irascível João Batista Figueiredo. Não escondia suas preferências. Gostava mais do odor dos seus cavalos que do cheiro do povo.

O tempo passa, o tempo voa, o tempo não para. Em 1984, os estudantes da PUC Minas invadiram a Reitoria. Queríamos negociar um abatimento nas mensalidades de preço salgado. Nas ruas ecoava o grito por “Diretas Já!”. As eleições não aconteceram como o povo queria. Tancredo Neves foi ungido por um Colégio Eleitoral, batendo Paulo Maluf. Tancredo morreu misteriosamente. Sarney assumiu. O resto é conhecido até pelos Black Blocs que agora engrossam os cordões por mudanças: subiram a rampa do Planalto o caçador de marajás Fernando Collor, que sofreu Impeachment; o ranzinza Itamar Franco; o príncipe dos sociólogos Fernando Henrique Cardoso; o sapo barbudo Lula da Silva & a ex-guerrilheira Dilma Roussef.

Enquanto o Palácio do Planalto fazia seu rodízio de inquilinos, o relógio do tempo conspirava em favor de Isabela Quintanilha Muniz Sanches, a Bebel. O destino também jogou suas cartas para sua irmã Ana Luiza Sanches, Lucky, que havia nascido em 13 de setembro de 1995, na Maternidade de São Sebastião do Barro Preto, em Belo Horizonte. No mesmo bairro em que eu havia amanhecido naquela noite chuvosa de 1º de janeiro de 1980.

Coincidências existem? Quanto aos fatos inexplicáveis pela lógica cartesiana, os espanhóis cunharam um axioma: “Yo no creo em brujas, pero que las hay, las hay”. Não creio em bruxas, mas que elas existem, elas existem.

Numa metáfora com a minha breve existência, Régis casou, descasou, investiu, desistiu, perambulou por redações de jornais e revistas. Passou uma temporada em Copacabana. E quando estava no limiar da loucura, finalmente, em 2004, retornou a Macapá.

Quem poderia imaginar que, no Meio do Mundo, na redação do jornal Tribuna Amapaense, aquele garoto que cresceu ao som de Beatles, Stones, Janis, Jimi e Led Zeppelin viria a conhecer aquela menina lourinha de lábios carnudos, apaixonada por Bob Marley?

Pois é… Denise Muniz regueira, jornalista completa – excelente repórter e editora competente. E aí está Bebel com 1 ano e quatro meses para provar que a magia existe, pequenos milagres acontecem.

Quem tece a trama invisível desses acontecimentos inusitados? Alguns o chamam de Deus. Há uns poucos que (como eu) acreditam em MAGIA. Mas, acima de tudo, é preciso ter fé, acreditar no imponderável, quando a último cartucho está para ser queimado.

Então, assim como Ana Luiza, que Isabela tenha uma existência feliz. E, aos incréus, apenas repito:

HOCUS POCUS,
TONTUS TALONTUS,
VADE CELERITA JUBES.
Santana, 21 de março de 2014, sexta-feira.
Régis Sanches, 53 anos, guitarrista, jornalista, repórter até morrer.

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