Apenas um sábado agradável – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Ocrides é um personagem do Ronaldo Rony, cartunista paraense radicado no Amapá que, dizem, parece muito comigo e ilustra minhas crônicas. O personagem é inspirado num amigo nosso, cujo nome verdadeiro vou deixar entregue à curiosidade dos meus leitores.

O Ocrides deveria ser nome de rua em Macapá, a exemplo de seu pai e de seu padrinho. Mas a notabilidade do Ocrides se deve a qualidades, digamos, pouco salutares e nem tanto dignas que, imagina-se, não devem ser atributos para quem empresta seu nome a ruas, praças e outros logradouros públicos.

O que se destaca no Ocrides é a capacidade de participar de histórias que bem poderiam constar no repertório de um escritor bastante imaginativo. Ocrides é, como disse Nelson Motta a respeito de Tim Maia, um personagem real e único, que nenhuma ficção poderia criar.

Com relação a ter pai e padrinho com nomes de rua, certa vez perguntei ao Ocrides se ele não tinha o desejo de um dia virar também nome de rua. Ele me respondeu, com sua pachorra e seu peculiar senso de humor:

– Ah, meu amigo. Acho que, no máximo, no máximo, eu conseguiria ser nome de um beco. E de um beco sem saída.

Mas vamos a um fato ocorrido com o Ocrides e, quem sabe, eu busco mais histórias na minha fraca memória e inicie uma série de crônicas tendo o Ocrides como protagonista. Vamos lá!

Certa manhã, o Ocrides saiu para trabalhar, pronto a encarar um expediente maneiro até meio-dia e depois tomar umas biritas e jogar um bilhar, como pede um bom sábado de sol. Ao sair, passou por três homens que portavam pincéis, latas de tinta, escada e outros apetrechos. Como ele não é de se importar muito com o que ocorre ao seu redor, entrou no carro e ganhou as ruas de Macapá.

Cumpriu seu expediente, no trabalho e no bar, e retornou ao santo lar, calibrado pelas cervejas, já no comecinho da noite. Quando seu carro percorreu o quarteirão de sua casa, Ocrides identificou todas as residências, menos a sua. Achou que tinha errado o caminho, mas o ambiente lhe era familiar e fez o retorno:

– Mas eu nem bebi tanto assim! – disse para si mesmo, sem se dar muito crédito. – Como é que não consigo encontrar minha casa?

E, depois de retornos e mais retornos, sua mulher, que estava na janela só observando aquelas idas e vindas, veio até a frente da casa e o chamou:

– Ei, Ocrides! Para de rodar que nem um peru bêbado! A nossa casa é esta aqui!

Aí ele percebeu o que havia ocorrido. Enquanto esteve fora, a mulher mandara pintar a casa de uma cor totalmente diferente da antiga:

– Ah! Agora entendi aqueles caras chegando com tinta e pincel… Bom, depois de tanto rodar, o jeito é tomar umas. Bora?

Sua esposa, que também não era lá muito equilibrada das ideias, entrou imediatamente no carro e foram procurar um bar na beira-rio para comemorar a pintura da casa.

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