Arroz com alho – Crônica de Pat Andrade

 

Clarice Lispector (déc.1960) – foto: Maureen Bisilliat -Acervo da autora IMS

Crônica de Pat Andrade

Estou fechando minha participação em um Simpósio de Poesia, para o qual fui convidada, ao mesmo tempo em que reviso um texto e preparo arroz.

Enquanto picava o alho, me veio à cabeça a Clarice Lispector. Que cheiro teriam suas mãos quando escreveu seu primeiro conto conhecido, Triunfo, publicado em 1940. Ela tinha 19 anos. Era tímida, mas ousada. Mais do que eu, inclusive.

Agora, o cheiro do arroz temperado se espalha pela casa. Sigo trabalhando diante do computador, respondendo e enviando mensagens.

Um passarinho canta aqui fora, bem pertinho da minha janela. Me pergunto: se eu não fosse poeta, essas coisas passariam despercebidas?

Será que a Dona Maria, mãe de oito filhos – com mais um na barriga – que lava e passa roupa pra fora, cozinha, cuida dos moleques sozinha, acorda às cinco da manhã pra buscar água no poço da vizinha, será que ela ouve esse passarinho? Será que tem arroz pra cozinhar?

Perguntas vãs, com respostas impossíveis sem poesia. Só a crueza de um cotidiano que não é o meu.

Meu gato me olha e se enrosca em minhas pernas – puro interesse: quer comer – e eu paro por aqui, antes que o arroz queime.

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    Patrícia, muito bancana a tua crônica. Foi pensando na Clarice Lispector que escrevi uma canção pra ela, juntamente com meu parceiro, Cássio Pontes, depois de ler isso que ela escreveu, e de revelar seus paradoxos secretos:

    Eu te recebo de pés descalços: esta é minha humildade e esta nudez de pés é a minha ousadia.
    — Clarice Lispector

    Claríssima Nudez
    Ademir Pedrosa e Cássio Pontes
    Interpretação: Ariel Moura

    Eu sonhei novamente contigo
    Me recebias de pés descalços
    De pés despidos, e com um abraço

    Silhueta dos pés são teus vestígios
    Me corrompias pra eu te desnudar
    Pra te deixar em pelos explícitos
    Me permitias assim sonhar

    Despi da veste vã teus segredos
    Como a desembainhar a lua
    Cingi com meus obscenos dedos
    Tua pele absurdamente nua

    És meu sonho, minha Macabea
    Teus pés Abaporu, um pé de cáctus
    És a fina flor, a flor do Lácio
    Minha nordestina Dulcinea

    Sei que no meu sonho eu sou rei
    E tu, a rainha. Eu sou tua, eu sei
    Tu és soberanamente minha

    https://youtu.be/OL6kaAZM0AQ

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