As cadeiras – Crônica de Ronaldo Rodrigues

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Crônica de Ronaldo Rodrigues

As duas cadeiras caíram do caminhão de mudança e ficaram lá, no meio da rua, frente a frente. E ficaram naquele lugar por muito tempo, sem nada falar. Sim, elas tinham o poder de falar, mas não falaram nada e ficaram esperando os acontecimentos. As duas cadeiras, cada uma por si, pensavam no que fazer para matar o tempo e não morrer de tédio e aflição naquela espera.

Uma cadeira ficou recordando as pessoas que nela se sentaram. Lembrou-se de uma menininha que se sentava de manhã e ficava até o meio-dia revirando na cadeira e mexendo no celular. A outra cadeira, bem mais antiga, recordou-se de uma senhora que se sentava no fim da tarde e ficava até umas oito horas da noite lendo livros, jornais e revistas.

Uma cadeira era mais velha que a outra. Poderia ser esse o motivo de agora estarem ali, deslocadas, sem nada dizer. Conflito de gerações entre cadeiras? É possível que isso aconteça. Assim como pode haver esse choque de temperamento, idade, identidade entre todos os eletrodomésticos e utensílios e ferramentas e objetos e coisas de uma casa.

A mais nova não tinha dúvida de que seria resgatada. As pessoas da casa e os funcionários da empresa de mudança iriam dar por falta e todo esse batalhão viria em seu auxílio. Achava que a cadeira mais velha ficaria ali mesmo ou seria levada até um terreno baldio onde seria devidamente abandonada.

A cadeira mais velha também pensou que seria desprezada. Tudo bem, já tinha vivido bastante e servido àquela casa com toda a disposição possível. Nem daquele gato que gostava de amolar as garras no seu estofamento a cadeira guardava rancor. Mas não se importava que a cadeira mais nova fosse conduzida ao lugar que ela achava que merecia. Não se incomodava nem com o fato de ir parar no fundo de um porão.

A cadeira mais velha, cuja vivência já lhe havia ensinado a ser mais tolerante em relação às diferenças e vendo que as duas estavam na mesma situação, tentou um diálogo. A cadeira mais nova se mostrou avessa a essa tentativa de aproximação e balbuciou umas palavras de má vontade que deixaram claro que ela não se rebaixaria a falar com um artigo que já considerava peça de museu. Seria como conversar com uma múmia. Ou um dinossauro.

A cadeira mais velha abriu mão de qualquer tentativa de travar contato e continuou só pensando: “Eu, como tenho mais experiência, gostaria de consolar essa cadeirinha e dizer que tudo vai ser resolvido. Mas deixa ela ficar aí, com essa arrogância toda. É bom mesmo evitar a companhia de seres assim”.

Eis que, enfim, o caminhão da mudança retornou e a família desceu do carro fazendo um grande alarido. Todos se dirigiram à cadeira mais velha, que parecia ser a que tinha feito mais falta. Cercaram-na de carinho e dengo e colocaram-na com muito cuidado no caminhão. A cadeira mais nova? Também foi colocada no caminhão, mas não com a mesma festa que envolveu a cadeira mais velha. Seguiram para a nova casa e as cadeiras tomaram seus lugares. A mais velha, em posição de destaque, ganhou até uma capa novinha. A cadeira mais nova foi colocada num canto obscuro da casa. Dizem que, depois dessa, ela ficou bem mais humilde.

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