AZUL – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

O primeiro cavalo era o que trazia a cauda toda ensopada de orvalho. Do terceiro em diante, só insetos, restos de dia, pedaços escuros da noite e sons de puns de dragões. Para ela, presa a uma cadeira de rodas, era uma alegria ouvir o barulho da cavalgada e, mais ainda, adivinhar a ordem de chegada de cada um deles pelo tropel. Quando era menorzinha, caíra gravemente da bicicleta e machucou muito a coluna vertebral.

Desde então, não andava mais. Quatro anos, dos oito que possuía, acostumara-se a ser colocada próxima à janela e observar quase que diariamente a passagem dos cavalos. Quando eles não vinham, distraía-se observando o voar dos anuns lá no milharal, ou então quedava-se a escutar a conversa animada dos espantalhos medrosos da chuva, reclamando do sol e xingando as joaninhas que lhe causavam cócegas nas pernas.

Por isso, quando o primeiro cavalo parou para conversar com ela, animou-se muito. Fez amizade e deu lhe restos de bolo de milho que comera no café da manhã. Depois, apresentou-o aos anuns e mais tarde aos espantalhos. Uma tarde, quase foram pegos jogando baralho e apostando pétalas de girassóis.

Hoje, não amanhecera bem. Não conseguia comer e tinha febre. A noitinha, surpreendentemente, sentiu vontade de esperar os cavalos na frente da casa. Tentou com esforço levantar e conseguiu. Suas pernas haviam ficado leves. Foi como se flutuasse até o terreiro. Escutou o tropel. Eles já estavam chegando quando caiu da cadeira de rodas. Escutou o choro dos que ficaram dentro de casa. A que chorava mais alto era sua mãe. Mas nem se importou. Muito menos com os gritos dos anuns: “- Lá vai ela! Lá vai ela!” E nem com os acenos dos espantalhos. Montou no primeiro cavalo e saíram cavalgando. Podia ser que fosse longe, mas parecia tão azul…

*Luiz Jorge Ferreira é amapaense, médico que reside em São Paulo e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames).

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