Banco da Amizade comemora 8 anos como Patrimônio Cultural do Amapá, neste domingo (23)

Por iniciativa de deputada estadual Cristina Almeida (PSB), autora do Projeto de Lei, 2.053 de 21 de junho de 2016, o Banco da Amizade foi alçado à condição de Patrimônio Cultural e Imaterial do Amapá, e sua data de criação, o dia 26 de dezembro, dia em que ocorre uma grande festa no Bairro do Laguinho, passou a ser inclusa no Calendário Oficial de Eventos Culturais do Governo do Estado do Amapá.

E para comemorar a data, a diretoria do Banco da Amizade vai reunir os amigos, domingo, dia 23, e brindar com um saboroso almoço, samba e muitas histórias, esse tradicional Ponto de Cultura, do bairro do Laguinho.

“O BANCO DA AMIZADE”

O dia 26 de dezembro há 52 anos é uma data muito especial para a comunidade laguinhense. No dia seguinte ao Natal, os laguinhenses se mobilizam desde as primeiras horas do dia nos preparativos para o aniversário do “Banco da Amizade”, um monumento cultural, patrimônio imaterial e referencial histórico não somente do Bairro do Laguinho.

Conversamos com várias pessoas para pesquisar a respeito da história do “Banco da Amizade”, entre elas Renato Matos Filho, Osvaldo Simões, Pedro Buchinha os irmãos Dô e Tony Sacaca, além de outros e do relato desses amigos, alguns filhos dos pioneiros do “Banco da Amizade”, produzimos uma singela homenagem que longe de ser a versão definitiva desse fenômeno, se propõe a tão somente homenagear e valorizar um dos mais importantes símbolos da Cultura amapaense e as pessoas fazem parte dessa história.

O “Banco da Amizade” nasceu de um encontro informal entre amigos de vizinhança no Bairro do Laguinho no começo dos anos 1970, mais precisamente, segundo a maioria dos relatos, em 1971, na Rua General Rondon, entre as avenidas Pe. Manoel da Nóbrega e José Antônio Siqueira, no quarteirão onde se localiza a Escola General João Alvares de Azevedo Costa.

Entre os pioneiros citados e referenciados estão Renato Américo de Mattos, o “Rato”, Raimundo dos Santos Souza, o “Sacaca”, Rei Momo do Carnaval amapaense, Marinho Ramos da Silva, o “Tio Arin”, Almiro, Seu Antonino Lobato, Cutica, Seu Luís Vieira, João de Deus, entre outros que se sentavam num banco na frente na casa do Rato pra jogar dama e conversa fora, falar verdades, contar mentiras e piadas pra descontrair em meio à rotina do dia a dia laguinhense. Num contexto de tanta camaradagem, foi muito natural que com o passar do tempo as pessoas que frequentavam esse local passassem a chamá-lo de “Banco da Amizade”.

Enquanto a “Velha Guarda” confabulava no “Banco”, a turma mais jovem e os adolescentes se divertiam jogando futebol na pela do campo de piçarra da Praça Dr. Lélio Silva, em frente ao Azevedo Costa, onde também existia o Centro Folclórico do Laguinho com seu “Malocão” e suas “maloquinhas” como satélites no seu entorno com seus eventos culturais e campanhas de vacinação com destaque para a vacinação em massa contra a meningite, em 1974.

Segundo Dô Sacaca e Tony Sacaca, após as peladas no “Campo do Bariri”, a turma ia descansar e resenhar no BA e “beber um pouco da sabedoria” dos velhos.

É importante lembrar que naquela época o país estava mergulhado na ditadura militar, no ápice da repressão, nos violentos “anos de chumbo” do governo do general Garrastazu Médici. E, no Amapá, governava o território o autoritário general Ivanhoé Gonçalves Martins, e naquela conjuntura o imaginário popular era aterrorizado por coisas incomuns como o “engasga-engasga”.

No âmbito cultural, o Carnaval amapaense contava com Boêmios do Laguinho, Maracatu da Favela, Embaixada de Samba Cidade de Macapá e Piratas da Batucada, além de alguns blocos que faziam a folia na Avenida FAB e também haviam batalhas de Confetes e a Banda serpenteava pela cidade na tarde da “terça-feira gorda”..

A conjuntura política dos primeiros tempos do “Banco” era marcada pelas disputas entre a Arena (Aliança Renovadora Nacional) e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Segundo Renato Matos Filho, em 1974, a disputa para a Câmara Federal entre as chapas de Antonio Pontes e Azevedo Costa (MDB) e Clark Charles Platon e Ubiracy Picanço polarizou o eleitorado e, no Laguinho dividiu opiniões e votos. Houve um comício arenista naquele perímetro e os moradores – pró e contra – tomaram parte. A vitória coube à chapa emedebista de Antônio Pontes e Azevedo Costa.

Em 1976, segundo começou a se verificar a crescente aglomeração de alunos do Azevedo Costa no horário do intervalo, além dos que gazetavam aula ou eram liberados mais cedo e faziam uma tremenda algazarra e perturbavam a tranquilidade da vizinhança a tal ponto que Rato e sua esposa, chateados com a perturbação, quebraram o banco da frente da sua casa e o banco atravessou pro outro lado da rua, ao lado do muro lateral da escola, em frente à casa do Rato. Ali o “Banco” se enraizou.

Na transição entre os anos 1970 e 1980, a contar de 1978, segundo os relatos dos nossos entrevistados, uma geração de jovens biriteiros e brigões começou a fazer história. Foi com eles que começou o famoso “pedágio” em que pessoas que passavam pela General Rondon (que na época era de mão dupla) e suas adjacências eram abordadas e convencidas a fazer doações em dinheiro para a compra de comida, vinho e cachaça. Reside nesse fato a célula embrionária daquela que é a grande festa de aniversário do BA.

Segundo Osvaldo Simões e Pedro Buchinha, o dia 26 era a chamada “rebarba” ou resto do Natal do dia 25. Os membros do banco, que se autointitulavam ”Bancários” se reuniam e cada um levava alguma sobra do Natal de sua casa pra somar no “banquete” da malandragem laguinhense. À frente dessa turma estava o mitológico “Miguelão” (Miguel Morais Mendes), caboco classe média, inteligente do tipo intelectual e famoso por ser tido como valente e bom de “porrada”, sendo célebres as brigas em que ele se metia junto com seus parceiros. Com Miguleão estavam parceiros como Pepéua, Pombo, Cuiúla, Clodô (filho Lalu), Nonato Sena (Bufú), Baé (Jackson Sacramento, famoso Tataco), Carachué (Nestor Martins), Tomezinho (Boto Malhado), Balão (irmão do Pururuca), Amaralzinho, Bibelô, Mundoca, entre outros.

 

Final de tarde os velhos, Pedágio do Natal

Consta que o Banco tomou a frente contra a mudança do nome do Bairro do Laguinho. A imagem mais emblemática pra mim, Célio Alício, na infância e na adolescência, era a mangueira do BA cheia de garrafões de vinho de 5 litros, predominantemente da marca “Sangue de Boi”, penduradas em seus galhos. Quem já pegou um porre desse vinho certamente tem lembranças de doer a cabeça. E a cada garrafão vencido ou “derrubado”, mais um enfeite era colocado na gigantesca árvore de Natal do BA.

Em 1985, o professor e político Raimundo Azevedo Costa foi eleito prefeito de Macapá, o primeiro eleito pelo voto direto em toda a história, e, a pedido dos pioneiros do BA, mandou construir um imponente e robusto banco de concreto no lugar do velho banco de madeira que vivia se quebrando e senso reformado. Assim, o BA se fixou e se enraizou junto à velha mangueira e o muro do Azevedo Costa.

Nos anos 2000 o BA atinge uma dimensão ampla e impactante, com suas festas de aniversário se convertendo em grandes espetáculos artísticos, culturais, com apresentações de artistas e grupos de diferentes vertentes, escolas de samba, grupos de samba e pagode, grupos de Batuque e Marabaixo e atrações de todos os gêneros musicais e de diferentes manifestações da cultura e da arte e com a cobertura da imprensa local. A participação popular então, nem se fala, tornou-se espetacular não se restringindo somente à comunidade do Laguinho, mas de toda a cidade, além de turistas de outras partes da Amazônia, do Brasil e do mundo.

A política também abraçou o BA através de personalidades como o ex-vereador Júlio Pereira, o ex-governador Comandante Barcellos, João Capiberibe, entre outros. A deputada estadual Cristina Almeida (PSB), obteve aprovação na ALAP, de dois projetos de lei em favor do desse patrimônio cultural: um que o transformou em patrimônio imaterial amapaense em 2016 ; e outro em 2019 que incluiu o dia 26 de dezembro, data de seu aniversário, no calendário de eventos culturais do governo do estado em 2019.

Em 2016 foi criada a “Associação Cultural Banco da Amizade” reunindo em sua diretoria os chamados “Amigos do Banco” e a partir de então, as atividade da entidade foram se diversificando assim como as parcerias com diferentes setores da sociedade amapaense. A PMM através da Fumcult, na gestão de Caetano Bentes, realizou um projeto de revitalização do BA através de recursos de emenda impositiva de autoria do vereador Alexandre Azevedo (PP), e sancionado pelo prefeito Antônio Furlan.

A atual diretoria tem Vagner Pantoja como presidente, e Sérvulo Mendes como vice, e conta com a atuação de Tica Lemos, Agostinho Lopes, Cristina Almeida, Renato Matos, Dô Sacaca, Ernesto Colares, Iraçú Colares e Dejacy Colares, Luís Pereira, Jonas Guimaque, Elder Sá, Bibinho, entre outros.

Viva o Bairro do Laguinho! Viva a Cultura Amapaense! Viva o Banco da Amizade!

(Texto: Célio Alicio )
Tica Lemos
Assessoria de comunicação do Banco da Amizade

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