Bateu saudade do Caderno de Recordação, Cartilha e da fila pra merenda – Crônica de @MarileiaMaciel

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Crônica de Mariléia Maciel

Observando a garotada estudando em tablet e no celular, lembro de quando estudava na Escola de 1º Grau Barão do Rio Branco. Era assim que se começava o cabeçalho, e ai de quem não escrevesse em letra cursiva o nome completo do diretor, vice-diretor, aluno, número da chamada, série, matéria e turma. Embaixo, palavras que nunca esquecerei e que hoje, há de existir alguém que nunca ouviu: Ditado, Cópia, Integração Social, Educação Moral e Cívica, e outros resquícios dos anos de chumbo e de tradicionalismo familiares, em nome da moral e bons costumes, mas que me foram úteis.

Antes de entrar na sala de aula, a fila era do menor para o maior. Primeiro a minúscula Cristina Sá, seguida da Crissie do Carmo, e depois eu. A Lia Jucá era a última. Cantávamos em coro o hino nacional e do Amapá, e seguíamos na mesma formação até entrar na sala, sempre com as mesmas terminações em 11: 111, 211, 311 e 411. Na hora do recreio, a mesma fila pra chegar no refeitório, onde a dona Raimunda enchia os canecos de sopa, leite peidão, ou ainda os copinhos que fazíamos com a folha do caderno pra pegar paçoca, sempre com muita gritaria, empurrão e brincadeiras.

Aprendi a ler em casa, mas foi na cartilha Caminho Suave que aperfeiçoei o B-A-BA, e na tabuada, cuja capa me dava medo, da professora com saia godê e a vareta na mão, que aprendi na marra a fazer as quatro operações. O quadro negro, que na verdade era verde, ficava cheio das lições escritas com giz, que tínhamos que copiar no caderno de papel almaço com lápis apontado com lâmina, que chamávamos de “gilete”. E quando borrava, apagava com borracha melada na saliva. Se a escrita era com caneta, a borracha era azul e vermelha, se fosse de lápis usava a branca.

Ainda peguei o tempo em que tinham as disciplinas Técnicas Agrícolas e Comerciais, Educação para o Lar e Mecânica, pra aprender a se virar numa nota promissória, a fazer um bolo, costurar uma bainha, até cuidar de uma horta ou serrar um compensado. O quintal da escola era tudo, de lá saia a maior demonstração de fé. Era tanta crença e ingenuidade, que pra dar uma força para o professor faltar, bastava dar um nó em um capim. E no final do ano, pra saber se a gente ia passar, era só tirar um mato que tinha um leite, se colasse na mão do desesperado, podia festejar, do contrário, era melhor começar a chorar. Simples assim.

Pesquisa, corria pra biblioteca, onde folheávamos livros antigos e enciclopédias Barsa, ninguém tinha alergia a papel velho. Problema, era só procurar a supervisão, onde sempre tinha alguém para ouvir e ninguém pra espalhar em rede social. Sede, era só colocar a boca no bebedouro que resolvia, sem o risco de doença. Sapato novo tinha que levar carimbada. Sarro era só mais um motivo pra rir, e a vítima não ficava traumatizada nem com vontade de se jogar embaixo do ônibus, a palavra bulling não existia. Se estava apaixonado, era só mandar um bilhete, ou uma indireta no Caderno de Recordação da melhor amiga. Tudo era mais ingênuo e verdadeiro. Sem internet nem computador, porém mais simples do que ligar um telefone celular.

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