Belchior e nós, sujeitos de sorte – Por Marco Antônio Costa

Por Marco Antônio Costa

Sim, presentemente podemos nos considerar sujeitos de sorte. Por óbvio, não pelos atropelos e enormes questões que 2020 trouxe, mas somos de gerações que podem contemplar a obra do grande artista brasileiro Antônio Carlos Belchior, o nosso Belchior, que nos últimos anos ganhou novo impulso e está fazendo a cabeça de muitos jovens brasileiros, e essa é, sem dúvidas, uma boa notícia: Belchior está fazendo um sucesso danado!

Em um momento como esse, me parece que nos cabe deixar de lado qualquer pedância ou ciumeira e comemorar que um poeta tão querido por alguns, seja agora reencontrado por milhares e milhares – quiçá milhões -, que estão conhecendo ou reconhecendo o Bardo do Nordeste.

Do nosso ponto de vista, há diversas razões para essa descoberta e vamos conversar sobre elas, mas adianto a que considero ser a principal: a poesia, a música, a interpretação e a mensagem visceral de Belchior, dialogam com nossos tempos.

Senão, me digam o que pode ser mais a cara de 2020 do que “Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte / Porque apesar de muito novo, me sinto são e salvo e forte / Tenho comigo pensado Deus é brasileiro e anda do meu lado / E assim já não posso sofrer no ano passado / Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro / Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”?

É claro que “sujeito de sorte” ganhou o excelente impulso de ter sido sample da música “Amarelo”, do rapper Emicida com participação de Majur e Pablo Vittar. Talvez menos popular, mas não menos forte, também há uma versão da música assinada por Chico Chico, filho de Cássia Eller, que junto com um parceiro soltam a voz à plenos pulmões – como se não houvesse amanhã -, rompendo com o minimalismo dominante na MPB atual.

A morte de Belchior, em abril de 2017, os anos de refúgio e silêncio antes de falecer, a imagem de cabelão e grandes bigodes, lhe dão uma aura misteriosa, peculiar, e certamente isso ajuda para que chame atenção.

Também Belchior consegue popularizar poesia, misturar referências, referindo-se ao que já conhecemos ou já ouvimos, de forma discreta, respeitosa e bem encaixada. Quantas vezes eu não fiquei com a sensação de já conhecer algo ouvindo a música e depois redescobrir na literatura?

Por exemplo, em “Divina comédia humana” ele cita Bilac e seu lindo poema “Ora direis, ouvir estrelas” (Meu poema favorito), sem perder o senso e nos dando uma mensagem, no entanto, de que “enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não”, ele canta.

Ele percorre os clássicos e debate com gente grande. Em uma única canção, “Velha Roupa Colorida”, Belchior consegue fazer referência aos Beatles, Bob Dylan e Edgar Alan Poe. Quando fala no pássaro preto, refere-se ao “O Corvo”, e dá ele mesmo, uma pequena versão do poema, tão forte que mereceu a tradução para o francês por Baudelaire e para o português de Machado de Assis.

João Cabral de Melo Neto visita sua obra com frequência, desde referências mais diretas e “a palo seco”, até “Galos, noites e quintais”, que parece mesmo ter a sombra do poeta pernambucano. Mas seria difícil ficar aqui reparando de citação em citação, ou supondo o que cada verso quereria nos dizer. Fato é que suas letras nos remetem a um universo rico, de quem está envolto em ideias e referências múltiplas.

A juventude, o coração estudantil, o nordeste, as dificuldades da cidade grande, o protesto político e os amores são a pauta do nosso Bob Dylan nordestino. Belchior é fantástico e que bom, repito, que está sendo tão revisitado. Se estava mesmo, e acredito que sim, traduzindo para o popular a comédia de Dante, gostaria muito de lê-la. Mas gostaria mais ainda, acredite, de bater um papo com Belchior, de conversar sobre poesia, literatura e futebol. Nos dias de hoje, certamente, ambos evitaríamos a política. Mas isso, na verdade, acho que já faço toda vez que coloco “Alucinação” pra tocar. Cada música é uma conversa com ele, e com todos os nossos.

Com coração selvagem, meu bem, mil vivas à Belchior!

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