Bom pra cachorro – Crônica de Ronaldo Rodrigues

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Crônica de Ronaldo Rodrigues

O que leva um ser humano a gostar de cachorro? E o que leva um ser humano a não gostar de cachorro?

Fico pensando nisso quando vejo o carinho, a atenção e – por que não dizer? – o devotamento com que é tratada a cadela que mora aqui em casa. Vejo isso em outras casas também. Pessoas que não imaginam suas vidas sem o chamego descompromissado de um gato ou a presença forte ou delicada de um cão.

Assim como, para mim, é difícil acreditar que existam pessoas que gostem tanto de animais, para essas pessoas deve ser também difícil, quase impossível, compreender que existam pessoas como eu, sem afinidade com animais.

Às vezes, penso que, entre a independência de um gato e a subserviência de um cachorro, estou perdendo alguma coisa. É do conhecimento geral que, para uma criança, a convivência com animais desenvolve a afetividade. Deve ter faltado isso na minha educação sentimental. Freud explica. Ou não.

Mas essa distância que mantenho de animais não significa que eu não goste deles. Não tenho o menor jeito com cachorros, por exemplo, mas me incomoda o fato de vê-los maltratados e já tomei atitudes diante disso. Aqui vão duas ações deste estranho defensor da existência confortável dos animais:

– Certa vez, vi um cachorro preso por uma corrente. Isso não seria uma grande novidade ou algo para provocar revolta. Acontece que a corrente era curta demais e o cachorro não conseguia pousar a cabeça sobre as patas, como eles fazem para descansar. A corrente também impedia que o cachorro chegasse até a água e a comida.

– Outra vez, vi um pastor alemão enorme dentro de uma jaula em que só cabia ele mesmo. Nenhum espaço para se espreguiçar, muito menos fazer os movimentos que um cachorro desse porte exige.

Nas duas vezes, fiz a devida denúncia, que é o que todo mundo deve fazer nessas ocasiões.

Algumas pessoas (eu disse algumas) amam bichos, mas eu me pergunto: que tipo de amor é esse? A pessoa corta o rabo do bicho, corta a orelha do bicho, impede que o bicho transe por sei lá qual motivo. Isso sem contar os donos que castram (ui!) seus pets. Deus me livre de ser amado assim! Isso eu não entendo.

Cheguei à conclusão que eu amo cães e gatos (afinal, sou fã de São Francisco de Assis, que os tratava como irmãos), assim como amo as baleias, os ursos, os camelos, os elefantes, os rinocerontes, as focas, os ornitorrincos e toda a fauna terrestre. Mas eles lá, cada um no seu habitat, e eu cá no meu. E assim a gente vai se entendendo.

Agora, dá licença que eu vou dar uma volta. Vou levar o meu lado animal para passear.

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