BRASA BALANÇANTE – (Um Conto do Tempo da Guerrilha) – Por Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

– Vinte anos depois vocês vêm me indagar sobre esse assunto? Coisa morta, sepultada e virada pó…? Já disse, não tive culpa. Eu era um soldado, um pau-mandado naquela guerra. Se o sargento dizia para a gente matar, a gente obedecia, ora bolas! Soldado só tem que obedecer e eu seguia à risca tudo o que ele falava. Eu não queria ser um traidor. Pensava, sinceramente, em ser um herói condecorado e mostrar pra minha mãe as medalhas que poderia ganhar naquela guerra silenciosa. Já pensou? Ser reconhecido por toda a corporação, o orgulho da tropa… Quem sabe ser promovido, chegar a sargento…

Vi na televisão que vocês jornalistas só fazem entrevistas com os sobreviventes torturados, com as supostas vítimas, que pra vocês são os verdadeiros heróis de toda aquela sacanagem de guerrilha. Mas vocês precisavam estar lá para entender o nosso lado. Eu e todos os outros éramos os defensores da pátria, os que não iriam deixar nunca o nosso Brasil ser arrasado por uma corja de comunistas que só queriam entregar o país para a Rússia.

O sargento era um cara duro, mas muito legal. Ele lia muito e nos avisava do perigo que eram os comunistas e os sequestradores de diplomatas estrangeiros. A gente teria que lutar muito se quiséssemos que o Brasil não naufragasse na lama desse regime nefasto. Por isso a gente sempre conversava no acampamento sobre o que fazer quando prendesse um desses traidores safados que se escondiam na floresta.

O Ibrahim era bafento. Dizia que ia matar os comunas bem devagar cortando dedo por dedo, depois os pés, os braços, as mãos, as pernas… até transformá-los em anões e cagar na cara deles. Mas o que ele sabia mesmo era fugir do acampamento para preparar uma bebida feita de álcool que roubava da enfermaria, com raízes e cascas maceradas no mato, escondido do sargento. Preparava tão bem que ganhou o apelido de “Mão Benta”. Como a entrada de cachaça era proibida ele sempre dava um jeito para suprir nossos vícios. Até cigarro tipo tauari ele fazia com folhas secas, trituradas de um arbusto conhecido como vassourinha, abundante no lugar. Já o Gomes dizia que esfolaria os caras ainda vivos, para que eles aprendessem que com a pátria não se tira esses sarros. O Antunes, o mais bravo de nossa guarnição, só falava em meter uma vara no cu do vagabundo até ele gozar de dor. Sei lá se se goza de dor, pra mim dor é dor. E pronto. Diziam lá no 18° BIS que há alguns anos ele havia matado um cara com dezoito facadas e arrancado o olho da vítima só porque ela quis dançar com o xodó dele no salão de dança “Merengue”, que ficava perto do quartel. Ele nem foi preso na época. Pelo que me consta a polícia se aliviou ao saber do assassinato, pois o morto era muito aloprado e não capinava sentado quando era pra matar. Esconderam o caso e tudo ficou por aquilo mesmo. Me disseram que o comandante o protegeu, transferindo ele para o BEC de Santarém.

*****

– Vocês me perguntaram como era a vida lá. Aquilo nem era vida, se era vida era de animal, de burro de carga. Era uma guerra. Só o Almeida “Alemão” teve peito de perguntar pro o sargento quem era realmente o inimigo. Pegou foi uma senhora esculhambação e três dias de cadeia na “jaula” reservada pros filhos-da-puta dos guerrilheiros. A gente sabia que eles eram brasileiros, mas corria o boato que tinha muito cubano e soldado russo dando apoio pra eles, e que a coisa estava fedendo e iria feder muito mais.

Vocês precisavam ver a alegria quando uma patrulha capturou um casal de comunistas numa tapera de caboclo. Serviu para aliviar a tensão dos soldados, principalmente dos recrutas do nosso batalhão que se cagavam de medo com os ruídos do mato. Eu que era veterano, engajado há dois anos, tremia quando ouvia um barulho, imaginem eles. Pois bem, saibam vocês, no meio daquela alegria explodia o nervosismo e o heroísmo egoísta dos homens. O tenente disse que não era para ninguém passar o rádio pro comando porque ele já tinha as ordens. Saiu num jipe com o sargento, o motorista e um cabo. Segundo o motorista eles corriam a cem por uma estrada escrota e empurravam os guerrilheiros algemados. Paravam, punham o fuzil na boca dos otários e diziam: “Fala, filho-de-uma-vaca, onde está o resto dos vagabundos?” Eles não falavam porra nenhuma. Aí então repetiam a dose. Como nada arrancaram dos dois, curraram a garota – uma loura – desfalecida, pela frente e por trás, enquanto o guerrilheiro – um barbudo feio pra caralho – olhava, todo ensanguentado e quebrado.

Depois executaram os dois e levaram os corpos de volta para o acampamento. O soldado motorista me disse que o sargento obrigou ele a comer a garota, senão iria preso. Mais tarde o sargento mandou eu, o Almeida, o Gomes e o Ibrahim jogar os corpos dos cornos num Igapó “pros urubus comerem”. Isso, na boca do sargento era uma ordem, a gente não precisaria enterrá-los. Nós comemoramos à beça essa vitória. Bebemos a batida de álcool do Ibrahim diluída n’ água,

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    Um Conto…quase um relatório…um ficcional…que pode ter ou vir a ser verídico…
    Muito bem elaborado.
    Guardo comigo um medo.
    Parabéns.

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