Carta aberta a Sra. Bruna Ramos Boyer em resposta a sua entrevista à revista VIP de julho de 2011.

Meu amigo Túlio Balieiro.
Macapá–AP, 11 de julho de 2011.
Prezada Sra. Bruna Boyer, fico feliz em saber da existência de um programa no qual as reportagens serão gravadas em meu Estado. Sobretudo por ter como apresentadora uma moça tão bonita quanto você – e de reconhecido talento, sem dúvida.
O Amapá é notório em seus aspectos geográficos e culturais, apesar de pouco conhecido nacionalmente. Algo factual devido à extensa magnitude de um país tão diverso em paisagens e manifestações culturais. Acredito que seu programa veio em boa hora e na condição de “nativo” fico ansioso para saber como será retratado meu lar.
Assim, ressaltarei e refutarei algumas afirmações prestadas por você em entrevista à revista VIP do mês de julho, como modo de diminuir preconceitos e interpretações equivocadas – e como forma de ajudá–la a se familiarizar e a se sentir bem vinda. Afinal, quando nos deslocamos a um território cuja cultura e hábitos são diferentes dos nossos queremos nos sentir amados, daí o mais sensato é conhecer pelo menos o mínimo de seus aspectos para que não se incorram análises exageradas e folclóricas.
Primeiramente pode–se afirmar que o Amapá pertence ao território nacional da República Federativa do Brasil, não se caracterizando, portanto, outro país. Pelo menos é o que assegura o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Sim, fazemos parte do Brasil, temos os mesmos problemas de ordem social, política e urbana como o restante do país, infelizmente.
Na Amazônia brasileira o fruto do açaizeiro (Euterpa oleracea) é usado principalmente na obtenção da bebida de nome açaí. Supõe–se que o cultivo doméstico desta planta e o consumo do refresco de seu fruto sejam tão antigos que datem do período pré–colombiano. Por inferência, é correto afirmar então, que o modo como é consumido o açaí na região Norte é basicamente original. Degustá–lo com acompanhamentos como calabresa, charque frito, peixe e camarão é a coisa mais normal por aqui. Sinto informar–lhe, mas estranho mesmo é ver a utilização do açaí virar “posse” de outra cultura, com seu gosto singular anulado devido à fermentação, que por sua vez é mascarada por granola e outras invencionices “civilizadas” – uma verdadeira mácula.
Contudo, admito que a mais intrigante de suas declarações – quiçá a mais jocosa, é afirmar que o povo amapaense não pronuncia corretamente o fonema característico do encontro consonantal “nh”. Seria um caso de dislalia concebida por determinismo cultural ou geográfico? O isolamento nos proporcionou isso? Seus belos ouvidos estão precisando de uma vistoria? Não sei, mas perguntei a um reconhecido mestre em linguística local o que ele achava disso. A resposta? Uma boa risada. Daquelas que damos quando alguma criança faz uma ponderação bobinha.
Creio que você travou contato com alguém que não articula corretamente tal fonema, mas com certeza a maioria de nós o pronuncia sim; bem como utiliza com maestria os pronomes, a conjugação dos verbos e a concordância verbo–nominal. Mais uma observação Sra. Bruna: não se deve legar à coletividade algo meramente individual, não concorda?
No mais, reitero meu apreço pelo desenvolvimento de seu programa e claro, pelo seu trabalho em tão importante mídia. E bem vinda ao Amapá.
Atenciosamente,
Marcos Túlio Balieiro.
Nativo de Macapá (AP), Bacharel em Turismo e diletante estudioso de Cultura e Semiótica.
  • Velhos tempos… Ainda me lembro… Sem forró, sertanejo, pagode, brega, essas “coisas” corníferas e estranhas demais e toda a “cultura” em volta delas…

    Me lembro também da minha vó no “giral” de madeira no fundo do quintal cumprindo o ritual do açai. Este consistia primeiramente em selecionar rigorosamente os melhores frutos, os espremer numa peneira feita da “palha de não sei o que”, para que a polpa, brilhante e perfumosa que enchia o alguidar de barro, inevitavelmente causase roncos na barriga do mais “ninquento” ou sastifeito dos seres. Uma cantiga de carimbó cantarolada, um ladainha, marabaixo torto também fazia parte…

    O produto borbulhante era tão doce, espesso e rubro que não me lembro da necessidade de adicionar farinha daquilo ou daquilo, açucar ou sei lá o que mais. Frutas citricas? Isso era um pecado inadimissivel punido pelos deuses da gastronomia amazônica com a morte por indigestão imediata. Ignorância? Talvez. Cultura: fato.

    Peixe assado na brasa para completar a refeição ou camarões sabrecados espetados na tala verde de coqueiros mas apenas como acompanhamento da estrela gastronômica do festival nosso de cada dia. Uma colherada de açaí, um pedaço de peixe ou um camarão, sequencia não rigorosa repetida até o final. Tudo servido em cuias decoradas com pinturas concebidas manualmente.

    No final uma rede preguiçosa só para se espichar. Não era para dormir. Só cochilar um pouco. Pois no final da tarde ainda tinha o futebol no quebra-mar ao lado da lendária pedra do guindaste…

    Agora o capitalismo e o progresso trouxeram o “vinho” rançoso, chulo, que as vezes parece um leite amarronzado e talhado… Talvez por isso o ritual do açai tenha mudado para algo tão europeu quanto a calabresa, por isso esteja gelado, com açucar e com frutas citricas…

    Me recordo de um certo frânces. Uma vez ele me falou:
    – Oú l’assai? Tenho champanhes e queijos variados da França. Vamos trocar???
    E eu o respondi:

    – Não. Te dar eu não posso. E nem quero te dar. Mas te convido a “comer” comigo…

  • Eu gostei muitooo mesmo dessa carta!

    “[…]o povo amapaense não pronuncia corretamente o fonema característico do encontro consonantal “nh”.[…]”

    Nossa essa parte aí, eu fiquei chocada!! como uma pessoa que vai trabalhar na mídia fala uma asneira dessa? “Lingua de Eulália” pra ela.

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