Poema de agora: UMA MULHER – Pat Andrade

Pat Andrade – Foto: arquivo pessoal da poeta.

UMA MULHER

não sou vítima
e não aceito o carrasco
que me castiga
não sou objeto
e não aperto a mão
que me bolina
não sou escrava
e não nasci pra te servir

não sou perfeita
e não acato os padrões apodrecidos do high society
não sou deusa
e dispenso teus altares

não sou dondoca
não sou boneca
nem tua gostosa
não sou louca
nem doida varrida
como tentas insinuar

quero e mereço respeito

sou uma mulher
e isso deve bastar

Pat Andrade

Poema de agora: Uma cidade no meio do mundo – Pat Andrade

Fotos: Raimundo Manoel Fonseca

Uma cidade no meio do mundo

a cidade que mora em mim
reside entre a igreja e o teatro
se reflete nas águas do lago
caminha pela serrano
e corre pela independência
até o meio do mundo

essa cidade
embriaga-se de rio
e renasce na floresta
toma açaí do grosso
come camarão no bafo
mata a sede com água de poço

é essa cidade
que ama as mulheres do igarapé
dança marabaixo e batuque
no largo dos inocentes
e dorme tranquila
nos braços de São José

Pat Andrade

Poema de agora: AVE NOTURNA – Patrícia Andrade

AVE NOTURNA

trago versos conturbados
atravesso as madrugadas
sem dormir
sonho acordada
com as coisas
que ainda não vivi

o pensamento voa
ganha vida própria
e sai por aí
invadindo áreas restritas
ruas desertas
casas alheias
corações vazios

há tempos
em que meu verso
é ave noturna
sem paradeiro ou destino
é pássaro triste
que rasga a mortalha
ao soarem os sinos

Patrícia Andrade

Poesia de agora: sexo literal – Pat Andrade

sexo literal

e veio a palavra beijar-me a boca
enfiou em mim sua língua
usou muitos substantivos
deu-me adjetivos
causou-me advérbios

depois de rápida análise
entreguei-me aos seus verbos
apaixonei-me por tempos e modos
me envolvi com sua semântica
lambi cada fonema

encantada com seus significados
vencida por suas conjugações
não tive dúvidas…
fiz amor com ela

Pat Andrade

Poema de agora: SONOROS DESTINOS – Marcelo Abreu e Pat Andrade

SONOROS DESTINOS

palavras ao vento
reverberam num poema
que veio vindo de longe

a vida estendida
num quaradouro
espera ávida
pelo voo da arara

nossas novas roupas velhas
penduradas no varal
enchem as auroras de cor

novos acordes ecoam
em metais e sons etéreos

dançamos felizes na floresta
sob o rufar dos tambores

enquanto a noite não vem
traçamos nossos destinos
no soar dos trovões

Marcelo Abreu e Pat Andrade

Poesia de agora: O ÓBVIO – Pat Andrade

O ÓBVIO

ainda que arrancassem meus olhos
não deixaria de enxergar
o desespero do cotidiano
pelas esquinas
bancos comércios
baixadas prédios

toda a desilusão
devidamente contida
caprichosamente disfarçada

os carros passam indiferentes
há uma morbidez aparente
e a poesia manifesta

somos mortos vivos
implorando por dias mágicos
músicas etéreas
pratos colossais

estamos à beira do caos

somos míseros poetas
rabiscando diante do cais
a desejar mares e horizontes
que não podemos alcançar

somos pássaros tristes
que mesmo fora da gaiola
perderam a vontade de voar

Pat Andrade

Poesia de agora: POEMA-CANÇÃO

POEMA-CANÇÃO

nosso amor é feito
de manhãs azuis
e tardes ensolaradas
de segredos divididos
e dores compartilhadas

nosso amor é feito
de areias quentes
e águas geladas
de roda gigante
sorvete e mãos dadas

nosso amor é feito
de bilhetes e canções
de doçura e nostalgia
de sonhos guardados
de samba e poesia

Pat Andrade

Poesia de sexta: Anoiteço – Pat Andrade

Anoiteço

quando eu
te madrugava,
mesmo as noites sem lua
não pareciam assim
tão escuras

já não te amanheço,
e os dias têm sido
cada vez mais cinzentos

agora, quando entardece,
logo, logo,
anoiteço…

Pat Andrade

Poesia de agora: MUDEZ – Patrícia Andrade

MUDEZ

me faltam palavras
mesmo que o coração
fale aos berros
dentro do peito

minha boca se cala
ainda que meu corpo
grite e sinta o arrepio
em cada pelo

me falta a voz
ainda que o sentimento
se manifeste em mim
meio sem jeito

e sem conseguir
dizer o que quero
sigo assim muda
a te olhar pelo espelho

Pat Andrade

Poesia de agora: No Tribunal – Pat Andrade

No Tribunal

meus crimes:
amar amores,
chorar dores
ignorar tristeza
elogiar beleza
gritar alegria
respeitar ironia
sonhar de noite
dormir de dia
meu júri:
a indiferença,
a ignorância,
a hipocrisia.
minha pena:
a da poesia.

Pat Andrade

Poesia de agora: Tarde de verão – Pat Andrade

 


Tarde de verão

Tarde de verão
a árvore estendia
para um céu azul
seus galhos nus
de longe o menino
encantado assistia
aquela cena
e pensava que bem que podia
ser uma prece, uma oração,
mas acabou virando poesia

Pat Andrade

Poema de agora: BRASILEIRO –  Pat Andrade

BRASILEIRO

até ontem
eu estava empregado
era humilhante
mas tinha um trabalho

um salário de fome
mal dava pra comer
uma novela pra receber
todo mês um atraso
toda hora uma bronca
toda semana uma desculpa
vai acabar o contrato
não veio o repasse
são tempos de crise
eu que entenda
eu que aceite
se não quiser
há quem precise

humilhação todo dia
mas eu tinha um trabalho

tenho família
que mora comigo
mulher e três filhos
mais minha sogra
e um cachorrinho
fui demitido
por causa da pandemia

hoje padeço na fila do banco
sem trabalho sem perspectiva
continuo humilhado

agora sou só mais um dado
incluído nas estatísticas

Pat Andrade