Poema de agora: Carnaval Moderno – Pat Andrade

CARNAVAL MODERNO

andei à procura da máscara ideal
teci minha bela fantasia
para brincar mais um carnaval
comprei confete e serpentina
encomendei lança perfume
purpurina e coisa-e-tal
[mas não achei salões para bailar]

o Arlequim se mudou pra Bahia
finalmente cansou de chorar
a Colombina, poderosa,
vive a trocar de par
o Pierrô foi morar na praia
agora é dono de pousada e bar
[parece que lá pra Marudá]

nesse carnaval moderno
já vi gente com cara de sério
já vi gente pulando de terno
nesse carnaval moderno
não dá mais pra se apaixonar
é esquecer o que vira cinza
depois que o sol raiar
[no carnaval deste ano, vou é me acomodar]

PAT ANDRADE

Poema de agora: POSSIBILIDADES – Pat Andrade

POSSIBILIDADES

hoje, quero te falar
de vozes que não se calam,
de portas que não se fecham.

quero te falar
de sonhos que se realizam,
de esperanças que não se perdem.

quero te falar
de flores que ainda se abrem,
de crianças que ainda sorriem.

quero te falar
da vida que ainda pulsa.
do desejo que ainda brota.

hoje quero te falar
do que ainda é possível.

porque em mim e em ti
ainda cabe poesia,
ainda cabe amor,
aqui e agora, nesse instante.

porque ainda existimos
e, juntos, de mãos dadas,
somos muito mais
do que um dia podíamos ser.

PAT ANDRADE

Poema de agora: CANÇÃO DA LIBERDADE – Assunção Andrade

CANÇÃO DA LIBERDADE

Eu quero ser livre como as aves
e as ondas do sagrado mar.
Ir ao encontro dos planetas como as naves,
ter a liberdade de viver e sonhar!


Eu quero sentir a liberdade
em toda a sua plenitude,
usando a minha fé e a verdade,
vivenciando-a em sua magnitude.
Eu quero a canção da liberdade entoar
como o hino oficial da minha existência;
ter o direito de pensar e falar
pelos que não são ouvidos ao implorar clemência!


Eu quero a liberdade inserida
em minha condição de mulher e cidadã
integrante de uma sociedade revestida
da ideologia patriarcal, arcaica e vã!

Assunção Andrade.

*Assunção Andrade é poetisa, professora, economista e mãe da poeta Pat Andrade.

Poema de agora: MACAPÁ, MINHA CIDADE – Pat Andrade

Macapá – AP – Foto: Elton Tavares

MACAPÁ, MINHA CIDADE

Minha cidade comemora
mais um ano de existência.
Digo minha, porque dela
me apodero, todos os dias,
em dura jornada;
todas as noites,
em longas caminhadas.
Macapá me cobre
com seu céu inconstante,
me descobre em versos e rimas;
me abriga em seus bares,
em suas ruas, em seus becos,
em suas praças, em seu rio…
Macapá me expõe, me resgata,
me ampara, me liberta…
E aqui permaneço,
retribuindo com meu amor,
minha esperança
e minha alma de poeta.

Pat Andrade

Poema de agora: MEMÓRIAS DE UMA CAFTINA – Pat Andrade

MEMÓRIAS DE UMA CAFTINA

não há mais cortinas nas janelas
não há velas nos castiçais
não há mais mulheres desnudas
nem homens ébrios, há mais.

não há mais a gargalhada
nem os convites sutis
ninguém paga mais uma rodada
as noites não são mais febris

os desejos só ardem em mim
e ninguém me visita mais
apagou-se, enfim,
a suave luz do abajur lilás

Pat Andrade

Poema de agora: DELIRIUM – Pat Andrade

DELIRIUM

os vapores noturnos
turvam meu olho direito
e assim, meio cega,
percorro a trilha
da solidão desesperada
em ruas, becos, calçadas

tateio corpos abjetos
de putas tristes e encantadas
desvendo esquinas
vilas, pontes e quartos sem janelas
apalpo sonhos desfeitos
traduzo desejos de homens alados
bolino a intimidade da madrugada

no fim de tudo,
resta apenas uma página
repleta de sentimentos falsos

[abandonada numa cama vazia
e enluarada]

PAT ANDRADE

Poema de agora: ELO PERDIDO – Pat Andrade

ELO PERDIDO

passo ao largo dos eventos
as pessoas me evitam
os olhares se evadem
me desvio dos lugares

a vida me faz
reinventar o caminho
cada vez mais
me recuso ao carinho
saio sempre de fininho
e não volto atrás

abomino o óbvio
virei entrave,
me vejo estorvo
nesse elo perdido
pseudomundo
onde penso que vivo

PAT ANDRADE

Poema de agora: CALENDÁRIO ANTIGO – Pat Andrade

CALENDÁRIO ANTIGO

dos meus anos primeiros
carrego memórias sutis
beijos tímidos em janeiro
mãos dadas em abris

nas minhas melhores lembranças
sinto saudades juninas
costas queimadas em julhos
e depois agostos de alegrias

também tive desencantos
à beira do rio Tocantins
vi meu coração partido
amanheciam novembros gris

saudade maior dos dezembros
mas o que se foi, já esqueci
parei de tentar lembrar
para poder brincar de ser feliz

PAT ANDRADE

Poema de agora: SOBRE OS DIAS – Pat Andrade

SOBRE OS DIAS

há dias em que preciso traduzir-me
para mim mesma
mas não encontro
quem fale a minha língua

há dias em que o espelho não me vê
e não posso me olhar
de longe não me vejo
e de perto não me suporto

há dias em que o sol não me alcança
e não me aquece
e sou nublada e fria
como uma manhã de inverno

há dias em que me procuro em vão
devo estar perdida
em pensamentos náufragos
em ilhas de solidão

Pat Andrade