Poema de agora: Beijo Revolucionário (Pat Andrade)

Beijo Revolucionário

Brasília, 1999
entre centenas de bandeiras,
o vermelho da paixão…
entre as palavras de ordem,
tua voz ecoava mais alto,
causando sensação.
ditador e imperioso,
ignorando o comando de greve,
o amor ocupou meu coração.
veio o beijo,
em plena manifestação…
apaixonado, avassalador,
instalou em mim a revolução.

Pat Andrade

Poema de agora: O BEIJO DO BOTO – Pat Andrade

A lenda do Boto – Pintura de Jorge Riva de La Cruz

O BEIJO DO BOTO

quando esse rio me atravessa
a Iara canta pro boto dançar comigo
a lua nasce pra iluminar a festa
com seu brilho antigo

na madrugada, miríades de estrelas
confundem meus olhos cansados
no embalo da rede adormeço
muitos sonhos encantados

o sol não demora a levantar
onipresença por todo o rio
a memória doce da noite
se resume a um beijo frio

Pat Andrade

Poema de agora: EXÍLIO – Patrícia Andrade

EXÍLIO

era por causa do poeta
que havia orvalho nas folhas
e por causa dele o mar se agitava
por causa dele o outono vinha
e o vento segredava mistérios

o poeta existia
para que as flores
se abrissem
e a madrugada derrubasse estrelas
para que o sol
invadisse as casas
e secasse lágrimas
de um abandono

o poeta existia
para que nas noites de insônia
viessem os vagalumes
e para que as auroras trouxessem sorrisos

o poeta existia
para que o amor
pudesse transbordar sua fúria
e depois descansar
em alvas camas
e para que a ternura
brotasse em mãos calosas

o poeta existia
para que os homens pudessem
beijar à distância
para que desejos
fossem saciados
para que a saudade
pudesse apenas ser
e para que toda a música
fizesse dançar a tarde

mas era tão duro o mundo
e tão cegas e surdas as pessoas
que um dia o poeta se foi

e ninguém percebeu

Patrícia Andrade

Poema: Onde Bate Meu Coração – Patrícia Andrade

ONDE BATE MEU CORAÇÃO

meu coração bate
em muitos lugares

numa praia bonita e distante
na praça vazia do Largo do Carmo
na casa antiga daquela esquina
na rede dentro do barco
nas vielas da Cidade Velha
na marquise do teatro

meu coração bate
em tantas rodoviárias
nas mesas dos piores bares
nas feiras amanhecidas
na sarjeta da Riachuelo
no Bosque Rodrigues Alves

meu coração bate junto
com o de cada companheiro
que lutou ao meu lado
meu coração bate alto
na passeata
pulsa junto com a massa
pelas ruas da cidade

meu coração tem batido triste
e em descompasso
no meu peito
em cada vida perdida
em cada hospital
em cada cova
em cada leito

meu coração
machucado
ainda bate

nesses dias tenebrosos
uma coisa me consola
a lua que vejo agora
é a mesma que os camaradas – irmãos meus
olham também a esta hora

Patrícia Andrade

Poema de agora: FARSA – Patrícia Andrade

FARSA

uma imagem vale
mais que mil palavras
mas a foto do feed
não te diz a verdade

tem tutorial pra uma selfie
bonita e bem tirada
mas ninguém te ensina
a não ser enganada

a pose é elegante
e a roupa é muito fina
só não te mostram
a cara feia da ruína

no perfil largo sorriso
e cabelo alinhado
na vida real só tristeza
num mundo falsificado

Patrícia Andrade

Poema de agora: CAMINHOS – Patrícia Andrade

CAMINHOS

aquele anjo
caído e desvairado
me ofereceu
o veludo da noite…

descansei os olhos
no escuro do céu

subitamente pude ver
os sentimentos estreitos
que te levam até
o labirinto da solidão
os gestos sórdidos
que te jogam
no limbo da maldade

nessa realidade
não há perdão
nem há virtude

só o caminho
do amor faz atalho
para a plenitude

Patrícia Andrade

Poema de agora: Prece – Patrícia Andrade

Prece

entoo meu canto
todo santo dia
faço minha prece
todo dia santo
eu rezo por ti
por teu espírito herege
por tua alma funesta
que derramas suave sobre os outros
pra pensarem que tu prestas

Pat Andrade

Poesia de agora: poema para dias difíceis – Pat Andrade

poema para dias difíceis

tenho habitado
subterrâneos
e ainda assim
a lua mais bonita
me acompanha

vivo dias cinzentos
sob céus muito azuis
escancaro mil bocas
de escárnio
com beijos inesquecíveis

ouço canções de amor
mesmo sob as balas
de uma guerra diária
e antiga

garimpo entre os destroços
diminutas razões
pra viver

o sorriso
tímido e quebrado
num portarretrato
a florzinha seca
num livro velho
o poema ruim
rabiscado na camiseta
a folha arrancada aos prantos
do diário adolescente

decido não parar
de sonhar
mesmo que já
não consiga dormir

vou aprendendo
que não preciso
desistir de mim
mesmo que tudo pareça
irremediavelmente ruim

Pat Andrade

Sobre poesia e vida na quarentena – Crônica poética de Pat Andrade

Crônica poética de Pat Andrade

Não sei ao certo como é pra maioria dos poetas, mas a poesia é sempre válvula de escape pra mim. Através dela me manifesto, me sentencio, me absolvo. Me mato, morro e me ressuscito todo os dias.

Nesta quarentena, a poesia tem sido também tábua de salvação. Agarrei-me a ela como nunca; mas, às vezes, me escapulia. Não havia braços, mãos ou dedos que me fossem estendidos de volta. Aí, ficava sem escrever. Simplesmente não conseguia.

Talvez porque minha poesia tem inspiração no cotidiano; na vida pulsante e corrida; no universo que me cerca. De uma hora pra outra, tudo isso mudou. O universo reduziu-se à casa – que é minúscula; meu tempo continuou correndo – mas de um jeito diferente – e o cotidiano também se modificou profundamente. Ainda bem que a gente tem a capacidade inata de se adaptar. Ainda estou fazendo isso.

Sobrevivo da poesia. Não só da minha poesia, bem entendido. Mas de toda a poesia que me chega. Pela janela aberta do quarto, pelo livro ao lado do travesseiro, pela obra vendida nas redes sociais, pelo olhar do meu gato (que não é meu de verdade), pela risada do meu filho, pela doce palavra de um amigo querido ou por um gesto mais ríspido que a vida me reserva. O fato é que sobrevivo.

*Republicado por conta do Dia Nacional da Poesia. 

Poema de agora: Como Charles me via – Pat Andrade

Como Charles me via

caía a tarde
quando o canto da cigarra
a fez lembrar
das noites bizarras que vivia
pelos colchões sujos
mãos sem braços
em suas coxas
bocas sem rosto

Arte de Emiliano Bruzzone

em sua boca
era toda solidão
e melancolia
langor e lascívia
entre gritos e gemidos
rezava pela luz do dia

Pat Andrade

*Charles é uma referência ao poeta e escritor alemão Charles Bukowski.

Poema de agora: MULHER DE AREIA – Patrícia Andrade

MULHER DE AREIA

ao longo da vida
lágrimas rolaram
ventos sopraram
se desmanchava
bem devagar…
era feita de areia
e não sabia

vieram as rugas
a memória se foi
os braços penderam
as pernas não se movem

o coração exposto
agoniza e sofre
dilacera e grita
sem haver quem ouça
sem haver quem sinta

forjada na dor
já não reage
já não resiste
se entrega ao mar
e se ergue nas ondas
que morrem na praia

Patrícia Andrade

Vídeo poema de agora: SOPRO – Patrícia Andrade

SOPRO

pela estrada deserta
o céu ameaça desabar

meu coração cálido
se comove
com a brevidade da vida
de uma borboleta

a morte azul e preta
se desenha dura e seca
sobre o asfalto quente

uma saudade
escorre
pelo meio-fio

len
     ta
        men
               te…

os carros
correm
indiferentes

meu coração
amiudado e triste
implora aos deuses
apenas um sopro
de eternidade
para tudo o que for
belo e ausente

Patrícia Andrade

 

*Videopoema feito em família. A voz é de Marcelo Abreu, a trilha sonora é de Matheus de Sousa, a edição é do Artur Andrigues e o poema é desta poeta (Pat Andrade).

 

Poema de agora: SOLILÓQUIO SOBRE O TEMPO – Patrícia Andrade

SOLILÓQUIO SOBRE O TEMPO

o olho do invisível
está cravado em mim

é chegado o tempo

de afiar a navalha
cortar a palavra
rasgar o verso

desafiar essa vida canalha
reinventar a lavra
soltar o verbo

porque o tempo
não cabe na ampulheta
não volta
não para
não faz pausa
e nem exceção

é moto-contínuo
sem rédea ou limite
é estrada sem curva
é ida sem volta

o tempo porém
é remédio pra tudo
é cura pros males
é solução

Patrícia Andrade

Poema: MACAPÁ, BEM-TE-VI – Pat Andrade – Macapá 263 anos

Foto: Floriano Lima

MACAPÁ, BEM-TE-VI

Caminho pela cidade deserta…
Vazia de carros.
Vazia de gente.
Tanta coisa distinta…
Casas caíram,
Prédios se ergueram…
Mas em ambos, o abandono
Predomina.
Mudaram nome de bairros:
Não tem mais Igarapé.
Já não há mais o Laguinho;
Agora são outras as águas
Que nem vejo rolar…
O Barão perdeu o título,
E o Portinari agoniza
Tentando se recuperar.
Um cão sem dono
Me corta o caminho
Sem alegria
(não abana o rabo)…
Da mangueira antiga
Um passarinho grita
Que bem me vê.

Pat Andrade