Literatura Amapaense: lançado, em E-Book, o livro “Pequenos Poemas – 50 poetas” – Por Pat Andrade

Por Pat Andrade

A literatura amapaense está em festa. A produção literária no estado tem crescido a olhos vistos. Cada vez mais autores têm publicado livros – físicos e digitais.

É no meio desta festa que nasce PEQUENOS POEMAS – 50 POETAS, uma publicação que reúne 50 autores, com poemas curtos de, no máximo, dez linhas cada.

O idealizador desta coletânea é o entusiasta da literatura e também escritor e poeta, Mauro Guilherme, que tomou para si a tarefa de reunir as obras e os respectivos poetas. O resultado dessa empreitada literária foi um livro com 250 poemas, em formato digital.

Pequenos poemas é um e-book – formato bastante difundido nestes tempos de pandemia – e já está disponível na Amazon (amazon.com.br), a maior plataforma de venda de livros do país.
Desde 2013, Mauro Guilherme vem desenvolvendo esse trabalho de organizar e publicar antologias de autores locais, uma iniciativa que contribui de maneira efetiva para a divulgação da produção literária amapaense.

*Pat Andrade está entre os 50 poetas da obra.

Poema de agora: O ÓBVIO – Pat Andrade

O ÓBVIO

ainda que arrancassem meus olhos
não deixaria de enxergar
o desespero do cotidiano
pelas esquinas
bancos comércios
baixadas prédios

toda a desilusão
devidamente contida
caprichosamente disfarçada

os carros passam indiferentes
há uma morbidez aparente
e a poesia manifesta

somos mortos vivos
implorando por dias mágicos
músicas etéreas
pratos colossais

estamos à beira do caos

somos míseros poetas
rabiscando diante do cais
a desejar mares e horizontes
que não podemos alcançar

somos pássaros tristes
que mesmo fora da gaiola
perderam a vontade de voar

Pat Andrade

Poema de agora: O AMOR NOSSO DE CADA DIA – Pat Andrade

O AMOR NOSSO DE CADA DIA

o amor não se acomoda
às segundas-feiras

não se recolhe
em dias de chuva
nem se tranca
em salas sombrias

o amor sai às ruas
dança todas as músicas
e flutua nas calmarias

o amor ama a amplidão
passeia de mãos dadas
e recolhe margaridas

às vezes corre
às vezes caminha
descobre estradas
se atreve à alegria

o amor ama o amor
nosso de cada dia

Pat Andrade

Poema de agora: Pelas frestas – Pat Andrade

Pelas frestas

já juntei meus cacos
muitas e muitas vezes
em cada uma delas
colei pedaço por pedaço

foram tantos os remendos
que já não há resquícios
da forma original

são tantas as frestas
e não as posso remendar

mas é por elas que
entra a luz do sol
e são elas que me
permitem respirar

Pat Andrade

Poema de agora: Cheiro de Infância – Pat Andrade

Poeta Pat Andrade gitinha

CHEIRO DE INFÂNCIA

minha infância tem cheiro de lancheira
de mingau de maisena
de boneca velha
de caderno novo
minha infância tem cheiro de gemada
de pão com manteiga
e café fresquinho
de tapioca e beiju
Minha infância tem cheiro de Phebo
copaíba e andiroba
tem cheiro de mato,
tem cheiro de vela
tem cheiro de avô.
minha infância tem cheiro de arraial
de camarão cozido
e peixe assado
tem cheiro de comida da vovó.
minha infância tem cheiro de quando eu crescer
de fruta fresca, colhida no pé
tem cheiro de roupa quarada com anil
minha infância tem cheiro de igarapé
de água fria, de bater o queixo
e engelhar os dedos
minha infância tem cheiro de interior,
de quintal molhado de chuva
de grama aparadinha, de folha seca
de sapoti
minha infância tem cheiro de saudade

Pat Andrade

Poema de agora: Tráfego urbano – Pat Andrade

Tráfego urbano

já derrapei muito
nessa vida

avancei sinais
estacionei onde
não devia
colidi contra
muros e postes
paguei multa
pro destino

acelerei demais
estanquei
fiz mil curvas
e retornos
dei a volta em
mim mesma

antes que perca
a carteira
decido voltar
pra estrada
outra vez

Pat Andrade

Poesia de agora: poema para dias difíceis – Pat Andrade

poema para dias difíceis

tenho habitado
subterrâneos
e ainda assim
a lua mais bonita
me acompanha

vivo dias cinzentos
sob céus muito azuis
escancaro mil bocas
de escárnio
com beijos inesquecíveis

ouço canções de amor
mesmo sob as balas
de uma guerra diária
e antiga

garimpo entre os destroços
diminutas razões
pra viver

o sorriso
tímido e quebrado
num portarretrato
a florzinha seca
num livro velho
o poema ruim
rabiscado na camiseta
a folha arrancada aos prantos
do diário adolescente

decido não parar
de sonhar
mesmo que já
não consiga dormir

vou aprendendo
que não preciso
desistir de mim
mesmo que tudo pareça
irremediavelmente ruim

Pat Andrade

Poema de agora: Da sacada – Pat Andrade

Da sacada

enquanto o mundo desaba
minha poesia me carrega
num voo cego longo e pleno
por céus sedutores e desconhecidos

avisto telhados
e confundo a cor do mar
no sal me banho
e quero gritar o amor
que me habita

quando a noite cai
a embriaguez espalha caixas vazias
por alamedas sombrias
e ruas antigas

meus sentimentos
sobem e descem ladeiras
posso ouvir ainda
os ecos de literatura e boemia
que o vento traz

da sacada vejo Vênus
anunciando
o que vai se chamar saudade

Pat Andrade

Poema de agora: MUDEZ – Pat Andrade

MUDEZ

me faltam palavras
mesmo que o coração
fale aos berros
dentro do peito

minha boca se cala
ainda que meu corpo
grite e sinta o arrepio
em cada pelo

me falta a voz
ainda que o sentimento
se manifeste em mim
meio sem jeito

e sem conseguir
dizer o que quero
sigo assim muda
a te olhar pelo espelho

Pat Andrade

Do lado de dentro: chegou o novo livro virtual da poeta Pat Andrade

Capa: Artur Andrigues

Em tempos de pandemia, a arte se reinventa para sobreviver, para seguir respirando, com ou sem máscara.

A poeta Pat Andrade tem em seus livrinhos virtuais sua principal fonte de renda atualmente.

Já publicou quatro deles, nesse período, sempre buscando parcerias dentro ou fora de casa, desde a primeira publicação: Uma noite me namora conta com arte do também poeta, Pedro Stlks; a segunda – Em tempos de lonjura – tem a participação de seu filho, Artur Andrigues, que ilustrou e diagramou toda a edição. O terceiro livrinho, Delírios e subterfúgios, foi uma publicação solo.

Agora, chegou a vez de Do lado de dentro – de novo com a parceria do Artur, que fez a capa.

A publicação conta com 16 poemas autorais que refletem bastante o título do livro. Como diz a poeta, na apresentação da obra: “o lado de dentro de muita coisa: da casa, do cotidiano, da vida, da morte, do amor, de mim mesma”. Um livro cheio de experiências pessoais traduzidas em poesia, na sua forma mais simples: o verso livre.

Uma particularidade do trabalho da Pat Andrade é a maneira como vende seus livros: a poeta deixa os compradores à vontade para pagar o que quiserem por cada livro. Portanto, o leitor é quem sabe quanto custa adquirir suas publicações.

As vendas são feitas por ela, diretamente. Preferencialmente pelo Whatsapp. O pagamento é feito por transferência bancária. Contatos pelo fone (91)99968-3341 – Pat Andrade.

Poesia de agora: POEMA EM ESTADO BRUTO – Pat Andrade

POEMA EM ESTADO BRUTO

caminho entre
escombros e flores
me surpreendo
entre assombros e dores
e não abaixo a cabeça
pra não perder
de vista o horizonte

tiro forças
de um poema rabiscado
de um verso maldito
de uma rima esquisita

trago a pena
inquieta e inconstante
e uma página
que não se contenta
em ficar em branco

o que me salva e me sustenta
é sempre um poema
em estado bruto

Pat Andrade

Poema de agora: O BEIJO DO BOTO – Pat Andrade

A lenda do Boto – Pintura de Jorge Riva de La Cruz

O BEIJO DO BOTO

quando esse rio me atravessa
a Iara canta pro boto dançar comigo
a lua nasce pra iluminar a festa
com seu brilho antigo

na madrugada, miríades de estrelas
confundem meus olhos cansados
no embalo da rede adormeço
muitos sonhos encantados

o sol não demora a levantar
onipresença por todo o rio
a memória doce da noite
se resume a um beijo frio

Pat Andrade