DR. MEDEIROS – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

“- Não, Dr. Jorge Montalverne, eu concordo com o senhor. Esta febre que tenho não tem regredido com os medicamentos que tomei. Mas d’ai a necessidade de eu ser internado no Hospital São Lourenço ser enorme…”

“- Senador Medeiros, eu pondero para o seu bem. Lá estaremos com o Sr. mais próximo, os exames poderão ser feitos mais facilmente a qualquer momento, e quando o parecer de um colega se fizer necessário, ele estará lá a mão. Além do mais, tudo que este hospital tem de melhor e moderno se deve ao Senhor. Sem a sua intervenção, verbas não teriam chegado até nós para equipá-lo e modernizá-lo. É como se o Sr. estivesse em sua casa.”

“- Isso é verdade e muito me orgulha. Estive lá há coisa de dez dias, quando inauguramos o isolamento da UTI de adultos. Mas toda aquela maquinaria fazendo Brum… Brum…, meteu-me medo, Dr. Jorge.” O Senador Ubaldo Medeiros olhou para sua esposa que, calada e com ares de preocupação, estava sentada no canto do sofá. Dr. Jorge, então, apressou-se a dizer: “- D. Conceição vai estar ao seu lado.” “– Estarei lá meu amor”, disse com a voz trêmula.

“- Então, fazemos assim, eu vou à noite e me interno”, respondeu. “- Passaremos despercebidos…, disse o Doutor. “- Após conhecermos os resultados dos exames que fará, você terá alta e viajaremos para Brasília,” repetiu a mulher ávida em tentar convencê-lo. Ele escutava calado. “- Não quero que a notícia da doença se espalhe, fica mal para as minhas futuras pretensões políticas.”

“- E estes exames?” perguntou apontando um monte de papéis sobre a mesa. “- Não foram conclusivos,” apressou-se a dizer o médico e levantou-se como se o Senador houvesse concordado com tudo. “- Vamos amanhã de madrugada, Dr. Jorge! Deixe-me perguntar mais uma coisa, em que andar fico?” O médico olhou sem entender bem o Senador. “- É que…O hospital tem uma fama de que quem desce os andares até a altura das raízes do ipê roxo, aquele gigante defronte ao Hospital, é sinal, de que vai…” O Medico sorriu. “- Ora mais esta. Relacionar a melhora ou a piora dos pacientes com as raízes de uma árvore…,” disse o médico “ – … São estórias, Senador! Estórias que o povo cria.”

O Senador deu-se por satisfeito quando o elevador parou no sexto andar. Por ser tão cedo, não havia repórteres, nem encontrou nenhum conhecido, só as freiras que administravam o hospital é que tinham vindo recebê-lo. Quando amanheceu, observou o apartamento, amplo, limpo e arejado, mais parecia um grande escritório. Jornais do dia, telefone, fax, computador, internet, televisão a cabo. Estava cansado é verdade e um pouco febril, mas atribuiu aquilo ao esforço de ter acordado cedo. Foi à janela e, por ela, via a copa do grande Ipê Roxo. Estava ali, um pouco acima do parapeito, todo bordado de branco pelas fezes das andorinhas. Não teve muito tempo para olhar de novo. Uma hora, eram os enfermeiros colhendo sangue, as visitas, os telefonemas, os e-mails e, por último, no fim do segundo dia, a visita do Dr. Jorge.

“- É a péssima noticia…” “- Mas esta reforma que vai me forçar a descer para o quinto andar, estava prevista? Tossiu um pouco, antes de concluir. O médico balançou afirmativamente a cabeça. “- Calma Senador! Já estava prevista, só não contávamos com a necessidade de fazê-la agora. Pane na parte elétrica. O Sr. fica no apartamento abaixo, um andar, e nem vai se dar conta da mudança.” “- Mude-me, então, de madrugada, doutor.”

Assim foi feito. De manhã, observou que eram parecidos os apartamentos, mas já não se encontrou em um escritório. Havia alguns aparelhos na parede que ele descobriu serem de oxigênio e de outros gazes, trouxeram-lhe mais alguns remédios e ao caminhar para olhar pela janela, já não consegui ver a mancha branca sobre a copa, mas lá estava o Ipê Roxo. Amiudaram-se as medições dos enfermeiros, diminuíram os telefonemas, pouco assistiu aos noticiários da televisão e quase não leu os jornais, estava bem cansado. Haviam guardados seus sapatos e apenas um par de chinelos estavam arrumados ao lado da cama. A maleta com suas roupas sumira, por certo a mulher a colocara em algum armário.

Ao final do terceiro dia, Conceição entrou com cara de espanto. “- O que houve?”, perguntou, “-… Não encontrou o Dr. Jorge?” A tarde toda, ele estivera tossindo e com muita febre, apesar dos novos remédios que haviam lhe feito tomar. E por isso resolvera chamar o médico e amigo. “- Não… Ele precisou viajar de urgência, mas deixou o Dr. Henry encarregado do seu tratamento. Inclusive, este me disse que o andar onde ele dirige e atende é o quarto.” “- O quê?” O Senador quase engasga de todo, ficou lívido. Levantou-se com dificuldade e ela correu para ajudá-lo. “- Não…Não…E não. D’aqui eu não saio.”, gritou. “- Calma!”, disse-lhe, minutos mais tarde, o medico plantonista quando chegou com a medicação injetável e dependurando frascos que ligou aos seus braços. “- Tragam a maca, vamos mudá-lo. O que acontece?”, perguntou. “- Simplesmente porque Dr. Jorge viajou e eu tenho mais facilidade de atendê-lo no quarto andar aonde sou o responsável? Ficarei mais próximos ao Sr.”

Então, o Senador deixou-se levar, já tinha perdido todas as suas forças no acesso de raiva ao receber a notícia que desceria mais um andar. Olhou para janela. Achou que havia desmaiado. Quando voltou a consciência, viu que haviam mais frascos ligados aos seus dois braços, respirava com um tubinho no seu nariz, e seu peito tinha muitos fios que levavam a um aparelho que, naquele momento, não emitia luzes. Mas percebeu que estava ligado, porque produzia um tic-tac que o importunava. Observou, também, que havia se urinado e que estava de fraldas. Conceição estava ao seu lado e segurava sua mão.

“- Cadê o médico? ”, perguntou com a voz entrecortada. “- O Dr. Henry já foi.”- ela respondeu. “- E eu como estou?”
“- Está bem. Amanhã farão novos exames e…” “- Mais exames?” Olhou para os braços esticados. Havia perdido peso, tossia, respirava com dificuldade, estava sem forças, não controlava mais urina e fezes, o Dr. Jorge havia viajado e aquele quarto, com cara de quarto de hospital, sem nada a não ser tubos e fios espalhados para ali e para acolá. Sem TV, sem telefone, sem armário, nu como ele. E o tic-tac a espreita…

Olhou para a janela. Podia vê-lo. Melhor ainda, podia olhar seu tronco enorme encostado, parecendo que ia quebrar a janela, entrar e retira-lo d’ali. Passou o dia bem. Pensou mesmo em pedir sua subida para o sexto andar. Mas falar com quem? Desde o meio-dia, Conceição sumira. Fora receber os resultados dos exames e nada. As freiras não entravam mais ali, os enfermeiros tinham diminuído suas visitas e só podia ouvir o barulho das ambulâncias com os doentes chegando. Como companhia constante tinha uma ou outra andorinha planando e, próxima à janela, o tronco da árvore que, presente e iluminado pela luz da fachada do hospital, parecia observá-lo. Deu-lhe a impressão que Conceição, quando retornou, estava gripada. Ela ficava assoando o nariz, andava coberta com uma mascara branca no rosto, pouco conversava. Ele, triste, tentara chegar à janela muitas vezes, mas não conseguia. Os poucos passos que o separavam da janela eram demais. Ela entrava e saia.

À noite, teve o cuidado de amarrar sua perna direita à cama para ninguém mudá-lo de lugar enquanto dormia. Exausto de inutilmente chamar o médico que lhe atendera de manhã, adormeceu. Acordou com movimentos no quarto, havia um outro médico focando em seus olhos com uma lanterna e uns outros mais de longe aguardando. “- Que houve Doutor?”, perguntou cansadamente. “- Nada Senador, é rotina.”

Virou a cabeça com dificuldade. Estava sem os óculos, mas, mesmo assim, percebeu a presença do Dr. Jorge. Ele havia chegado. Com certeza, conversara com Conceição e tinha vindo avisá-lo que subiriam novamente para o sexto andar. Dr. Jorge falou-lhe alguma coisa como tomografia no terceiro andar. Sentiu que seu coração disparara, pois as pequenas luzes do aparelho ao seu lado piscaram aceleradas. Tentou falar sexto andar, mas foi em vão. Podia ver, adiante das costas do Dr. Jorge, que o tronco do Ipê se avolumava e que o médico estava totalmente vestido dos pés à cabeça de uma roupa verde. Desmaiou.

Abriu os olhos. Havia muitas luzes. Mesmo assim, pareciam fracas. Havia novos tubos: no seu pênis, no seu nariz, na sua boca, e um grande no seu pescoço que, desconfortavelmente, o forçava a respirar. Outros pacientes também estavam deitados, separados por biombos. Nem Conceição, nem um só rosto conhecido. Enfermeiras e freiras passavam caladas, cobertas da cabeça aos pés e olhavam apenas um pouco para cada um. Quis falar e perguntar pela mulher, pelo médico, mas nenhum ruído saiu. Os pés estavam na direção de um painel de vidro e a cabeça próxima a uma janela na qual não podia ver, mas imaginou ao perceber o apagar e o acender da luz colorida sobre seu corpo. Devia estar à altura da enorme letreiro com o nome do hospital que ele mesmo inaugurou. Um pouco acima da entrada das Ambulâncias, no primeiro andar, sobre o necrotério, bem próximo às raízes do tronco de Ipê.

Um silêncio profundo se rompe. Ouve-se um barulho estridente de buzina. Ele desperta. Com suas mãos tateia a maciez conhecida do colchão, o rendado do travesseiro. Acende o abajur. São quatro horas da manhã. Escuta a voz do motorista. “- O Senador Ubaldo Medeiros já está de pé? Está na hora de levá-lo para o hospital.” Ele, então, escuta Conceição responder. “- Vou acordá-lo. Breve estará pronto.” O motorista permanece com o carro ligado. O Senador Medeiros, sonolento e trêmulo, desce as escadas.

* Do livro Antena de Arame – 2018 (II Edição) – Rumo Editorial – São Paulo. 

O RETRATO AZUL – Conto de Fernando Canto sobre sua mãe

Conto de Fernando Canto

E agora estou aqui, engolindo este silêncio seco, sem saber o que dizer para você.

Por tantas vezes você me acariciou os sonhos e os cabelos e me aparou de quedas vertiginosas, falando em anjos guardiães. Às vezes, em pequenos pedaços de iracúndia você me insultou. – Burro, não é assim, é assado, é grelhado. Eu ouvindo, eu burro. Você me ralhava, dizia até com ponta de aspereza para que eu não me importasse com a perda das coisas, as que considerava tolas. Eu parado ouvia, mas dentro a cachoeira vinha abrupta e profusa. Havia de sentar ou fugir, me rebelando do trato ou a enchente me afogava.

Agora estamos nós dois sem saber o que fazer… Você aí sentado nessa rede com olhos brilhosos de lágrimas, olhando fixo o quadro que lhe demos de presente de aniversário. E você tem vergonha de chorar porque homem não chora, ainda mais um homem como você que sempre foi forte e capaz de transpor os obstáculos e desarmar, sorrindo, tantas armadilhas.

Você tem lembranças e elas são fantasias de nuvens. Você quer concreta a sua lembrança. Ela surge na forma que você quer. Ela vive em sua memória de um jeito estranho, pois o cenho não esconde a projeção e você a sente como se tivesse medo. Mas medo você não tem nem está triste, apenas lembra.

Eu ao seu lado toco em seus cabelos e na sua dor. Você me abraça. Nós, é óbvio, não temos a mesma idade nem a mesma opinião sobre os golpes que o tempo deixa, pois os ventos mudaram para outras pontas da grande rosa e os valores brilham em forma e conteúdo ou, como se diz comumente, qualitativa e quantitativamente. Hoje você vale o brilho que sabe demonstrar com sua esperteza. Hoje os fios do bigode são meros adornos de vaidade e moda. – E não culpe somente as mãos do mundo. Cuspa, se lhe aprouver. Eu vivo a contragosto esses valores e trago em mim a amargura do meu tempo. No entanto, estou aqui junto a você, agora sentindo uma reação esquisita, frente a essa tela.

Minhas lembranças não são mais nítidas que as suas porque o amor que eu sinto é diferente. Você esteve mais perto, então uma imagem lhe traz uma série de outras mais claras, mais tangíveis.

Para mim muita coisa é confusa. Os sentimentos da monocromia em azul saltitam sobre o retrato emoldurado. Consigo ver um tempo que não é meu e me sinto intruso perscrutando o que pertence a seu mundo, me metendo, penetrando no interior de seus sentimentos e elaborando apenas fantasia.

O retrato espelhado em seus olhos mexe com você até a alma. Um doce para mim se sou capaz de adivinhar. Você segura a minha mão com força como se de longe estivessem lhe chamando. Você está em dúvida. Eu respondo. Não quero que você vá. Mas quem sou eu para lhe impedir a vontade se você ama, se você quer ir.

Minha lembrança migra para uma tonalidade tênue e vejo você sentado no pátio de nossa velha casa de madeira conversando com ela sobre as atividades dos filhos, sobre a TV em preto-e-branco que desejam comprar, e especialmente sobre sua situação financeira que não está nada boa, desde que foi obrigado a vender seu comércio pra pagar dívidas contraídas pelo sócio mau-caráter.

Vejo vocês saindo da missa. Uma, duas, mil esperanças a cada domingo. Um almoço farto é imprescindível nesse dia da semana. Você diz orgulhoso:

– Em minha casa nunca faltou comida. E agradece a Deus. E come as delícias que ela fez.

Embora sua risada fosse discreta, os olhos demonstravam a cor do seu pensamento feliz. Havia tristeza, é claro. Ninguém vive sem sentir o gosto dos diferentes venenos que ingere. Porém, há remédio para tudo, isso até hoje você diz. Você pratica e ensina que há antídoto para as agruras; que existem meios e formas para superar qualquer barreira da vida; que não é necessário beber veneno, mas se for inevitável engole-se aos poucos para depois vomitá-lo todo. Então você vomita. Muitas passagens da vida são venenosas e a ação do tempo é emética, aprendo.

Não posso me arriscar a duvidar. Você foi feliz e sofre hoje. Todavia, a sua felicidade acabou no momento em que a paixão incrustou definitivamente, acho, assim como a tinta na parede, como o asfalto no leito da rua, como a cola no papel. Ora, você sabia da durabilidade das coisas porque consertou mil objetos. Sabia que nem tudo é resgatável, gastou horas e sentimentos lidando com minúcias para não esgotar a paciência. Perseverava sempre, até o limite técnico de sua vocação de engenheiro e alma de artesão incomparável. Sim, você sabia que a parede tomba com a violência do temporal, que a tinta escurece e descasca com as intempéries, que o asfalto rompe com o tráfego dos veículos, que a rua desnivela com as erosões, que a cola desgruda com as variações da temperatura, que o papel rasga e amarelece com o manusear constante. Você sabia tudo isso, mas levou tempo para admitir.

Você embala a rede que me roça as pernas. Eu afago seus cabelos brancos com uma ternura de me causar surpresa. Nós sempre fomos amigos, mas havia uma barreira. Talvez a do excesso de respeito, pelo que a aproximação arrefecia. Foi preciso tempo e esta situação para que eu me decidisse amá-lo com toda a força do meu coração, entendo-o agora, dizendo dentro de mim e, se eu quiser, bem alto e retumbante, um Eu Te Amo para impregnar este quarto onde mora a intimidade de sua memória, onde você cultiva sua solidão particular.

Há uma relação inquebrável, uma linha, um foco de luz entre seus olhos e a tela. Nela você penetra aos poucos. Eu deixo, porque a luz é sua, a transcendência é clara. Suas mãos emitem uma aura azul.

Você não percebe que eu desliguei a luz. Você enxuga uma lágrima cadente com a mão esquerda no rosto brônzeo e transmigra com os olhos fixos para dentro da figura tão bem pintada por um artista amigo da família. Com as mãos em seus cabelos acaricio, talvez, a necessidade de seu sonho. Sinto que alimento sua satisfação, embora a sua dor esteja explícita no cenho errado, duro, mas substancialmente alinhado agora. Você não parece ter a idade que tem. Eu observo seu rosto pelas réstias de luz fugidas da sala vizinha, através das frestas das tábuas. Há nele inevitáveis rugas. Mas um sorriso paira em sua boca. Um enigma.

O passado corre no quarto como um rio de volta para a nascente. Recordo suas velhas histórias. Longas e quase inacreditáveis. Histórias amazônicas, histórias que, sabemos, são verdadeiras, pois você nos ensinou que a mentira não é necessária, é sempre uma coisa dispensável. Todas elas traziam a liberdade sonhada nos quintais. Todas abrangiam um mundo particularizado, impenetrável porque aconteceram antes da devastação da floresta, o que tanto o entristece e o preocupa quando assiste aos jornais da televisão. Fogo, antes, só o fátuo – a ilusão. Eu criança e mesmo já adulto absorvia os mistérios dos seringais, as técnicas descobertas por extrema necessidade no meio da selva, e o idolatrava quando contava das farras feitas com seus irmãos, sempre aprontando alguma. Ríamos muito no final dessas histórias.

Um sentimento enorme tomava conta de nossa família. Você encanecia rápido, dizia que não era de preocupação, era genético. Mas eu sabia. Sabia quando você se preocupava, porque depois do almoço, quando mamãe saía para o trabalho, você ficava se embalando numa rede larga, de cor branca, fixando a vista em algum ponto da parede, assim como o faz agora na direção deste quadro. Depois saía sozinho, de bicicleta, ganhando a tarde.

Só você e ela sabiam das dificuldades que nos afligiam. Nós, os filhos, tínhamos o que queríamos e o que pedíamos no limite de nossa pobreza. Nunca reclamamos de nossa infância. Éramos felizes e tentamos até hoje dar um sentido racional a ela, sem, contudo, perdermos o vínculo do encantamento pretérito com a chuva de desencantos que às vezes caía sobre nós. Há um remédio para cada veneno. Lembra? Você não lembra. Está quintessenciado.

Será que erramos com a ideia do presente? Assim você sofre demais, deixando transparecer a debilidade do corpo que balança a rede. Você ainda me abraça e olha o perto/longe. Está lá dentro conversando com ela, caminhando nos paralelepípedos da cidadezinha do interior, de mãos dadas, com seu termo de linho branco, galante e contente, demonstrando o seu amor, inclusive às solteironas invejosas das janelas coloniais. Você sobe a ladeira com um sorriso de homem maduro. Mais alegre, ainda, é ela, a professorinha da Prefeitura Municipal, a desfilar com a graça de seu andar miúdo e um sorriso fulgurante, ajeitando de vez em quando a rosa amarela presa aos cabelos negros. É final da tarde de domingo.

Você a imagina assim, como no retrato. O retrato azul, transposto e ampliado de uma velha foto da década de 40. Minha impressão é que você confunde o real e o imaginário. Permanece o silêncio. Nós dois aqui.

Ah, falta o violão, imagino eu, para que você dê uns acordes harmônicos e cante músicas do seu tempo. Valsas, valsas. Mas o silêncio é seco. É áspero. É doído. Acho então que não estou errado. Seu semblante está feliz, está tocando, está ouvindo músicas. Não há amor sem música. Para ela havia muitas, dessas que entrelaçam e fortalecem uma relação aparentemente ingênua.

De repente você escuta o apito de um navio passando longe. E a convida para viajar, conhecer outras terras, começar a vidinha a dois. O apito do navio transporta o engano do futuro. Você é um aventureiro nato. Não desiste nunca. Mas não impõe. Os dois vão viajando trinta e poucos anos. E gostam. Não enjoam jamais da cara do outro. As brigas que se sucedem são só de vocês. Ai daquele que meter a colher.

Até parece que ela vive. Você devaneando me faz acreditar. Eu acredito. Você me diz: – Eu não estou triste, só lembro.

Lembrar é fato legítimo. É viver o presente com lucidez. E você vive. Apenas viajou.

Paro de afagar sua cabeleireira branca. Você me abraça e não me olha. Sei, no entanto, que está sorrindo, que está feliz. Você levanta, me dá três tapinhas nas costas e vai assuar o nariz no banheiro.

Acendo a luz fluorescente. Olho o retrato mais uma vez. O quarto está repleto de luz. Mamãe está sorrindo na tela com os olhos molhados de ternura.

4 De soslaio – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Por mim a gente tocava fogo e queimava todos os barracos.

O tenente olhou-me como se me visse pela primeira vez. Não estamos mais na guerra da Alemanha. Em seguida cuspiu mais uma vez no chão, um cuspe cheio de saliva e tabaco. E fulminou-me com o olhar.

Os homens continuam lá dentro, esbravejou. Mas tocar fogo nos barracos vai matar muita gente inocente.

Eu tirei o boné e o bati na palma da mão levantando a poeira acumulada desde a Segunda-feira, quando saímos de Lagoa dos índios. Maldita hora que não aproveitei minha folga e sumi das proximidades do Quartel. Fora aquele maldito alerta e estávamos agora deitados cercando uns malditos aglomerados de matutos, que teimavam em se acharem donos daquelas terras secas e amaldiçoadas.

Os urubus caminhavam saltitantes pela terra cercando os corpos das montarias mortas há três dias, quando do primeiro tiroteio.

O tenente rastejando era cômico, manchara a calça num monte de esterco e hoje aquela laca parecia uma tatuagem seca no fundo azul de sua farda.

Por mim tocávamos fogo, ergui a mão soltando um punhado de capim seco que voou rumo ao povoado levado pelo vento que soprava forte.

Com um pouco de sorte e um palito de fósforo estes cabras vão ter que se entregar ou assam como cabritos.

Um rosto assomou pelo vão da janela. Estava com o rifle em mira, avistei os olhos encovados, abertos, assustados, em cada lado da mira, fiz pressão no dedo e tum… tum…

O rosto saiu de nossa visão como atingido por um soco.

“Bom tiro, Cabo! Este não come mais feijão.”

Olhei para o soldado ao lado, mostrava todos os dentes manchados de cárie e um pedaço de palito dançando neles. O cartucho saltou no meio de umas pedras e peguei-o com a mão para cheirar seu perfume de pólvora queimada.

Daí então caiu a tarde e ninguém viu mais ninguém. A ordem da capital era não avançar, eles estavam sitiados, a água que tinham não podia durar muito e a cacimba que ficava a meio quilometro distante do povoado, fora dinamitada e coberta de pedras. Um sargento mais desalmado trotou com nossos animais sobre a plantação de milho e feijão destruindo tudo e colocou veneno na carne que atirou para os cães, espantou as aves. Morreriam de fome ou de sede.

Levantei as mãos. Aproximei do rosto o palito de fósforo aceso e acendi o cigarro, traguei a fumaça. Éramos uns cinqüenta homens armados até os dentes, até mesmo um pequeno canhão que permanecia adormecido na praça do Quartel fora amarrado em dois burros velhos, e trazidos, há muito custo. Notei que a barba crescera e que aquela paisagem hostil parecia agora, minha velha conhecida. No dia anterior, viera o Coronel dono das terras e nos oferecera um bom almoço, distribuíra pinga, carne de sol, rapadura e uns rolos de tabaco. – Um homem fino, disse o Tenente, muito a vontade entre a cachaça e o tabaco. E entre uma cuspidela e outra o abraçava como se faz a um velho conhecido. Depois de tanta festa hoje parecia triste nosso acampamento.

Furei uma Joaninha que corria pelo chão com a ponta da faca.

O resto do cigarro lancei longe com um movimento de catapulta nos dedos médio e polegar. À noite o fogo tomou conta do cerrado e os homens morreram abraçados com suas mulheres e filhos.

De manhã cedo o burro da direita que puxava o canhão, caiu num buraco e tivemos que sacrificá-lo. Voltamos os dois, revezando sobre o único cavalo sobrevivente, chegamos exaustos. O tenente morreu.

Em Agosto, fui promovido.

* Do livro de Contos “Antena de Arame” – Rumo Editorial (2° Edição) – 2018.

As negras velhas ( Por Fernando Canto )

Conto de Fernando Canto

Caixas do marabaixo retumbam/retumbam em círculos movimentados de pés descalços/negros pés. E saem das línguas vermelhas os gritos guerreiros e as canções improvisadas da guerra que nunca houve. A valentia é substituída pelo insaciável apetite de voar sem asas para mitigar dores ancestrais, enquanto rosas brancas, açucenas e papoulas enfeitam a negra beleza dos cabelos esticados em rolinhos de plástico… E sob os olhares críticos da geração megahair.

As caixas retumbam/retumbam e dobram incansavelmente ao meio de odores/suores/toalhas e saias rodadas que combinam brancas anáguas bordadas de renda.

O Marabaixo prossegue em seu curso no arrasto dos pés pela roda, em cursos passos à frente e um passo cansado atrás.

As velhas do Marabaixo cochicham segredos e riem dos seus casos antigos que ora se sentam nos bancos corridos dispostos pelo salão. É lá que as histórias completam a memória, acertam verdades e crenças e extinguem resquícios de quizílias familiares.

No gesto de encher a colher de caldo e levá-la à boca, na satisfação do gole da batida de gengibre e na algazarra de enfeitar o mastro com galhos de murta, está a poesia do povo e a fortaleza do sangue um dia pisado e magoado por grilhões e calcetas.

O diabo está solto no tempo do Marabaixo. Dizem que quem for podre que se quebre ou que se pegue com o Divino, aquele do Espírito Santo.

O diabo está solto, sim. Mas as negras desdenham dele e gargalham em seus sorrisos falhos, sabendo que o que fazem é bonito, é autêntico e dá uma saudade imensa…

* Publicado no livro EquinoCIO, de 2004.

Fotos encontradas nos blogs Visite o Brsil, Porta Retrato e Amapá da minha Terra

PEIXE-ANTÔNIO – Conto de Fernando Canto Para Aimoré Nunes Batista e seu Martins

Chovia para cima em nosso sítio ao pé do monte Galalau.

Nem eu nem meus irmãos entendíamos aquele prodígio. Era como se a água do poço evaporasse da terra, formasse nuvens baixinhas e fosse embora, deixando tudo seco por dias seguidos. Assim mesmo a gente não passava necessidade nem sede. Meu irmão caçula, que tinha frequentado a escola da cidade enquanto a gente trabalhava na roça e na criação de peixe em cativeiro, dizia que era uma tal de ilusão. Ilusão de ótica. Como era sabido esse meu mano…, mas eu mesmo não me convencia. Perguntava para o meu pai, ele nem… Só fazia dizer: – Arre égua, menino, vai trabalhar que é melhor. Deixa de perguntar besteira. Isso é assim mesmo desde que eu me entendo por gente.

Quando a gente descia a serra até a cidadezinha próxima para vender a produção e comprar mantimentos, o seu Toco do Armazém, que também era meu padrinho de batismo, perguntava pelo pai. – Está sem poder se levantar, com um tal de ácido úrico e dores no peito, eu dizia. – Leva esse remédio aqui pra ele, menino. Dizem que é muito bom. É um unguento feito do leite de uma árvore chamada amapazeiro, lá do Norte.

Aí ele perguntava: – Quêde os peixe-antônio? Ele mandou pra mim? Claro, eu dizia. Mandou essa cambada fresca aí. E lhe entregava uns vinte piaus, retirados do criadouro, enfiados numa penca de sisal. – Mas por que meu padrinho chama esses peixes de peixe-antônio? Ele ria e não dizia nada. Eu achava que era uma brincadeira dos dois velhos amigos.

Seu Toco era baixinho, mas me disseram que era muito valente. Já tinha posto uns jagunços para correr, com um sabre que ganhara de um cangaceiro verdadeiro dos tempos de Lampião. E tinha muitas qualidades: tocava uma sanfona melhor que o Luiz Gonzaga, diziam. Eu nunca o tinha visto tocar, mas como gostava dele, só fazia espalhar a história. Eu cheguei a perguntá-lo: – Quêde a sanfona, seu Toco? O São João este ano vai ser bom… Já está meio frio lá na serra.

Ele dizia: – O fole tá furado, vou mandar consertar ou comprar outro assim que Deus e o Padim Ciço me permitir. Era mais uma conversa mole de quem fica enrolando e mascando tabaco. Quando não tinha sacos plásticos o seu Toco nos aviava compras a varejo com papel de embrulho. Eu ficava besta de ver a agilidade dele enrolando os dedos no papel até a mercadoria ficar fechada e não abrir tão fácil.

Enquanto eu tirava uma prosa com ele, meus irmãos ficavam brincando e passeando pela praça. Certa vez o caçula veio chorando porque um rapazote chamou todo mundo da minha família de mentiroso. Era um molecão invejoso que só. Fui tomar satisfação e acabei brigando. ]

A gente se feriu todo rolando pelo chão até nos apartarem. Já em casa minha mãe lavou minhas feridas com água e tintura de jucá, que dói que só uma peste. Mas nada disse a meu pai, senão ele ia se enfezar.

Ficou latejando na minha cabeça as palavras do rapazote brigão. Na semana seguinte fui novamente à cidade e perguntei ao meu padrinho por que ele tinha chamado a gente de mentiroso. Seu Toco me chamou num canto, pediu para eu sentar em um saco de milho e disse para eu não ligar. É que corria a lenda que no nosso sítio tudo era muito maluco. E por cima ainda tinha essa história de chover para cima e outras conversas de mentiroso.

– Mas não é mentira, seu Toco. Eu mesmo vi muitas vezes esse fenômeno, disse-lhe. Ele me olhou, me olhou, me olhou no fundo dos olhos e eu sustentei olhar. – Bom, então tu sabes dos peixe-antônio, hem macho?Sei não. Só ouço o senhor falar, respondi. – Então pergunta pro teu pai, diz pra ele que já é hora de tu saber. Levantou-se, deu três tapinhas nas minhas costas e mandou eu ir embora.

Subi a serra com a fubica gritando e esfumaçando de óleo queimado. Meu pai parecia adivinhar, pois estava me esperando a cavalo na porteira do sítio. Antes que eu falasse, ele fez um sinal e disse: – Vamos lá em cima do monte Galalau.

Montei na garupa do cavalo e fui com ele pela estrada íngreme, passando dos limites que até então conhecia. Ficamos sentados até o pôr-do-sol. Ele não falava nada. Fez uma fogueira para amenizar o frio e disse para eu ficar em silêncio. Eu obedeci. Não dormimos. O céu tinha tantas estrelas que pareciam mosquitos brilhosos rondando em nossas cabeças.

Eu já estava agoniado com o silêncio do meu velho pai, aquele homem forte que falava sempre o que e quando queria, barulhento e alegre com os filhos. Eu era o terceiro. Os dois antes de mim já tinham, como se diz, batido as botas há tempos. Agora eu era o varão e a alegria dos meus pais, e responsável pela criação de mais cinco, quatro homens e uma mulher, já que ele só vivia doente e só melhorava com os remédios que o seu compadre Toco dava para ele. Minha mãe até hoje chora por essa perda, do tempo em que moravam na caatinga, nos cafundós do sertão de meu Deus.

A noite fria custava a passar e só se ouvia o crepitar da lenha no fogo e os silvos das estrelas cadentes. De repente começou a ventar e a chover para cima uma água vaporosa, como a formar um rio de nuvens escuras bem em cima das nossas cabeças, onde as estrelas desapareciam. Meu pai ficou de joelhos e disse: – Obrigado, meu Santo Antônio. Então começaram a cair piaus sobre nós, se debatendo no chão e uns já se assando na fogueira, que resistia à fina chuva. Eu confesso que fiquei maravilhado com aquilo. Meu pai ria e me dizia: – Tu tá vendo, meu filho. Isso é a realidade do nosso sítio. Eu fiz uma promessa pro Santo salvar tu e o compadre Toco da peste da fome que matou teus irmãos e todos os filhos dele lá no agreste. Antônio me fez casar com esta terra prodigiosa onde reconstruímos nossa vida. Fiz uma capela pra ele com o suor do meu trabalho e do meu compadre, que também é meu primo, e o Santo ainda me recompensou com isso que tu estás vendo. Meu pai ria, dançando um xaxado inexistente, arrastando as sandálias como se estivesse em uma festa. – Ah, a sanfona do compadre Toco agora, dizia, se esbaldando de rir. Nem parecia que tinha gota.

Comemos uns peixes-antônio assados e guardamos a maior parte em uma saca que ele levava no cavalo. A noite passava e o meu pai não parava de me contar fatos de sua história. O segredo dele acabou ali, no monte. Agora era todo meu. Mas ele me disse que estava esperando uma coisa. Ficou em silêncio como antes. E o tempo passou.

Antes de amanhecer choveu para cima novamente. Ficamos molhados na madrugada e a fogueira se apagou. Ouvi o estrondo de um trovão, o cavalo relinchou de medo e uma avalanche de peixes piaus rolou morro abaixo. Consegui puxar o cavalo, mas meu pai ficou soterrado para sempre naquela terra que há tempos lhe dera o sustento e alimentara sua alma generosa.

Poema de agora: A Maiakovski. Poeta Russo – Luiz Jorge Ferreira

A Maiakovski. Poeta Russo

Um dia eles nem chegam!
Já estão escondidos nas sombras que nos acompanham, por todos os lugares.
E nós não vimos, nem sentimos seus cheiros podres, nem sentimos suas mãos nos pescoços.

Simplesmente porque ainda fazem isto só com os outros.

Certo dia em que estamos comprando ovos da Páscoa.
Eles entregam armas aos moleques sem cor dos aglomerados.
Mas com medo neste momento levantamos do sofá, e desligamos a Televisão para não saber mais disto.

Uma noite eleito por nós mesmos, eles se reúnem, e criam facilidades para o domínio.
Empilham placas na rua,
para que indefesos andemos a mercê dos sádicos.

Criam leis para retirar nossas armas, e facilitam a liberdade dos ladrões, e assassinos.

Mas como o domínio ainda nos permite ir a praia – Não protestamos.

Certo dia acordamos com eles em nossas casas, em nossas mesas, em nossas camas, em nossas almas.

Nesse dia, sentiremos seus cheiros podres, seus dentes podres, seus gestos bruscos, e seus torniquetes no pescoços.

Seremos proibidos de ir a praia, caminhar sob o sol, e inocentemente tomar sorvete.

Ansiosos vamos procurar reunir todos para criar uma saída.

Mas então! – Todos serão ninguém, e eternamente!
Será muito tarde.

Luiz Jorge Ferreira

* Do livro Tybum.

A PULSEIRA DE DAS DORES E SEUS VIZINHOS VULTURINOS – Conto de Fernando Canto

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Conto inédito de Fernando Canto

Inexplicavelmente Das Dores perdeu uma pulseira talvez próximo a sua casa ou quem sabe dentro do quarto. Joia de ouro com pedras de brilhantes, herança da mãe que herdou da bisavó que ganhou como pagamento do aborto feito em segredo na sua patroa branca nos meados do século passado. Uma relíquia familiar que atravessou mais de setenta anos na família e nunca foi vendida, mesmo com tanta crise na economia do país e a pobreza da família.

dsc02094– Umbora, gente. Vamos olhar em baixo da cama. Laurindo, procura em baixo do assoalho. Joana, vê lá na frente da casa. Luarana, quem sabe não perdi quando a Lalata me brincou ontem à noite quando cheguei do batalho… Ah, essa cachorra é de morte… Mesmo assim eu gosto muito dela, não sou que nem vocês que vivem brigando com ela e nem banho dão na bichita. Eu, hem?!
– Bora, bora. Todo mundo procurando. Essa pulseira é relíquia de família que graças a Deus nunca a gente precisou se desfazer dela. Foi penhorada só uma vez na Caixa, num caso de doença com o pai de vocês.b061141b42d0797f3f3ced36f41a37df

E todos se esmeram nessa procura que já dura um dia inteiro de sábado e já entra pela noite, atraindo a curiosidade dos vizinhos. E Das Dores conta como foi que a perdeu por duas vezes e que fez promessa para São Judas Tadeu. Religiosa que só ela, na primeira vez vinha da missa na garupa da bicicleta do marido, o Júlio, que Deus o tenha em bom lugar depois que morreu duma doença que todo mundo acha que só dá em alcóolatra, uma tal de cirrose hepáti.

santinho-de-so-judas-tadeu-milheiro-pagar-promessa-7834-MLB5285907269_102013-O– Hepática, mamãe, conserta Luarana.
– Não repare, filha, é que fico nervosa quando lembro que seu pai nunca bebeu e nunca fumou. Bom, mas eu dizia que quando descíamos a ladeira da Rua São José batemos num buraco. Eu nem senti a falta da pulseira. Só dei conta quando chegamos em casa. E era umas nove horas da manhã de um Domingo de Páscoa. Eu logo acendi uma estearina e prometi a São Judas Tadeu que se ele me achasse a pulseira eu ia mandar rezar uma missa de ação de graças no dia dele. Pois não é que Júlio fez o percurso ao inverso e a pé, e logo achou a joia na beira de uma poça de lama no meio da ladeira? Que alívio! Deus me livre se perdesse ela. Eu ia chorar um mês, mas só chorei um tiquinho até o Júlio chegar. Nesse mesmo ano, por ocasião do batizado do Laurindo, eu perdi a pulseira de novo acho que na hora em que ele chorou na pia batismal quando o padre colocou sal na testa dele, ministrando o Santo Sacramento. Ele espernegava tanto que tive que tirar ele do colo da comadre Tibéria, a tua madrinha, seu porcaria. Vê se vai fazer uma visita pra ela uma hora dessas. Toda vez que ela me encontra reclama que tu nem olhas mais pra ela quando passas na frente da casa dela. Isso é que é… Esses meninos de hoje não respeitam mais os mais velhos.images (7)

– Bom, mas aonde é que eu estava mesmo?
– No colo da minha madrinha, mãe.
– Ah, mas por quê?
– Na pia batismal, mãe… A pulseira.
– Sim, claro, a pulseira. Essa minha cabeça mesmo…! A pulseira já tinha sido consertada lá no Serápio, aquele ourives crioulo que nem nós, que também é corredor de bicicleta. Não sei nem se ainda vive… Mesmo assim ela se perdeu ali, ó. Ali dentro da igreja do padroeiro. Eu chorei muito, mas não me desesperei. Fui chegando em casa e logo fazendo promessa pra São Judas Tadeu. Eu disse pra ele: Olha, São Judas, o senhor que é o padroeiro dessas causas impossíveis veja se dá um jeito de achar minha única e verdadeira joia. Prometo que se achar vou dar o seu nome ao meu próximo filho. Mas quem nasceu foste tu, Luarana. Sim. Eu não podia desconfiar do padre, coitado, muito menos dos padrinhos. Mas ficou aquela situação constrangedora, todos me olhando como se dissessem “não fui eu”.tumblr_inline_mvzrmcKMN11qje4ic

Eu costumo dizer que São Judas não falha. Não é que quarenta e três dias depois e quarenta e três velas acendidas a pulseira apareceu depois da missa das sete de domingo, em cima do altar. O padre não me disse nada porque o confessor deve guardar os pecados dos fiéis, mas uma forte intuição me dizia que quem achou a pulseira e a escondeu com outras intenções foi um coroinha que eu conhecia, pois o danado nunca mais foi ajudar o padre na missa.coroinha

Das Dores fala do seu apego à pulseira, da história da pulseira, do que sentia nas ocasiões especiais quando devia usá-la. E vai relembrando fatos e vai mandando nos filhos na busca desesperada, pois já é noite e os vizinhos, adultos e crianças, vasculham a área solidarizando-se com ela. Todos correm para ajudá-la com o consentimento febril da dona da casa. E vão descobrinVELHO BAÚdo coisas e velhos segredos familiares nas cartas e objetos familiares há tempo acumulados nas gavetas das cômodas, nos guarda-roupas, nos escaninhos da estante e até em um velho baú de mogno, uma devassa permitida aos curiosos da rua.

Como a noite avança alguém lembra que também é véspera do ano novo e que agora estavam mais preocupados com a ceia e o brinde do réveillon do que procurar um objeto perdido. Mas como é quase ano novo, os vizinhos, adultos e crianças, já fazem a festa em sanha vdownload (3)ulturina na cozinha de Das Dores, abrindo a única garrafa de frisante e o porco assado preparado pelas suas mãos no dia anterior. Ela se levanta de onde estava, vê a casa toda revirada, senta-se na poltrona da sala, pálida e com a respiração dificultosa. Depois chama os filhos e os vizinhos com ar de envergonhada e mostra a pulseira, balançando-a e deixando o ouro brilhar pelas luzes da velha árvore de natal do canto da sala, quase desmontada pela curiosidade alheia. Todos perguntam em uníssono.

0,,12176095-EX,00– Onde ela estava?
– Aqui no meu bolso, ela diz. O tempo todo no meu bolso.

E cai para frente estrebuchando, na hora da passagem do ano, esquecida de todos e absolutamente morta naquele momento ilógico, quando todos comemoram o ano vindouro ouvindo e vendo os fogos explodirem, colorindo o céu lá para as bandas da Beira-Rio.

De Nazaré (conto de Ronaldo Rodrigues)

De Nazaré estava passando em frente ao bar e os outros estivadores assoviaram alegremente, chamando-o para um trago.

Bom de copo como de trabalho, De Nazaré pensou um pouco e concluiu que um convite feito com tanta sinceridade e alegria não poderia ser recusado.

Deixou a pesada cruz encostada ao lado do bar e abriu os braços para os amigos.

Todos gostavam de ouvir De Nazaré cantar, mas ele só fazia isso quando estava bastante embriagado. Então bebeu, de uma só vez, meia garrafa de pinga.

A bebida explodiu quente nas engrenagens cerebrais e despertou o cantor apaixonado que De Nazaré sonhou ser em sua juventude. Abriu a garganta, libertando o pássaro da voz, e fez com que todos ali esquecessem, por alguns instantes, a miséria quotidiana e a coroa de espinhos que eram obrigados a suportar.

Mais do que uma simples distração, as músicas eram um alívio, acentuado pelo entorpecimento da cachaça. Uma trégua para quem tem que colocar a carga do mundo nas costas e encher os porões dos navios.

Depois de algum tempo de cantoria, De Nazaré resolveu ir embora, continuar seu amargo ofício. Era quatro horas da madrugada e ele tinha que carregar mais algumas dezenas de cruzes antes do amanhecer. Homem de palavra, De Nazaré honra os compromissos e nunca deixou uma entrega por fazer.

Os outros estivadores bem que queriam que De Nazaré continuasse a cantoria, mas sabiam que eles mesmos teriam que se retirar para enfrentar o batente. Voltaram à realidade e se foram, deixando os restos de peixe frito para os cachorros do cais.

Sozinho novamente, De Nazaré sentiu os pingos da chuva que começava a cair. Tomou o último gole e, sob a precária iluminação do poste, recolocou a cruz no ombro e caminhou em direção à ponte de tabuinhas irregulares que levava aos navios ancorados na escuridão.

Ronaldo Rodrigues

A noite dos peixes – Conto de Ronaldo Rodrigues

Conto de Ronaldo Rodrigues

A Assembleia Extraordinária convocada pela Grande Ordem dos Peixes não foi atravancada por discursos prolixos ou questões de ordem burocrática. Terminou em poucos minutos, com os Peixes optando por uma firme tomada de decisão frente aos atos praticados pelos Pescadores.

Foi elaborado um manifesto em que os Peixes reclamavam da violação de um antigo pacto firmado pelos ancestrais de Peixes e Pescadores. O pacto celebrava a harmonia entre ambos os lados e determinava a proibição da pesca de filhotes pequenos e de fêmeas grávidas.

Em seu manifesto, os Peixes sugeriam vários caminhos para a conciliação, mas deixavam clara a intenção de invadir a aldeia, caso os Pescadores não fizessem valer os itens do pacto.

Na tarde daquele mesmo dia, o mar levou até a praia o envelope timbrado da Grande Ordem dos Peixes. O Chefe dos Pescadores, obrigado a interromper a sesta para ler o manifesto, ficou com o humor ainda mais azedo.peixes2

O manifesto foi lido entre um bocejo e outro e logo o Chefe dos Pescadores desatou a rir estrepitosamente. As gargalhadas se multiplicavam à medida que os outros Pescadores tomavam conhecimento do teor do manifesto.

Em meio à onda de zombaria, sem conter as gargalhadas, o Chefe dos Pescadores enfiou o manifesto no envelope, escreveu displicentemente que Peixes não escrevem manifestos, e o devolveu ao mar.

**** **** *****

No dia seguinte, os Pescadores voltaram a violar o pacto. Ao retornarem da pescaria, trouxeram em suas redes, entre os Peixes adultos, que era lícito pescar, uma grande quantidade de filhotes pequenos e fêmeas grávidas.

Os Peixes ficaram convencidos de que não adiantaria qualquer esforço para evitar o confronto. Reuniram-se rapidamente, formando um numeroso exército, e conceberam um plchuva-de-peixeano de ataque para aquela noite.

**** **** *****

Na aldeia, os Pescadores faziam uma grande festa, comemorando o sucesso da pescaria, e não perceberam um estranho rumor se elevando pouco a pouco. Os Pescadores só puderam ouvir quando o rumor se transformou num barulho ensurdecedor, que ultrapassou as ondas sonoras lançadas pelos alto-falantes que animavam a festa.

Os Peixes vieram navegando pelos ares e o atrito de seus corpos com o vento era o que produzia aquele barulho, anunciando um trágico desfecho.

Os Peixes continuaram sua marcha, investindo contra tudo e todos, derrubando portas, destroçando paredes, derrubando casas.

Enredados pela violenta tempestade de Peixes, os Pescadores corriam de um lado a outro da aldeia, na vã tentativa de defender suas famílias e propriedades.

Após alguns minutos de ataque, que aos Pescadores pareceram horas, os Peixes voltaram ao mar, deixando na aldeia uma trilha de sangue e destruição, onde se retorciam corpos agonizantes.

**** **** *****

Ainda hoje, decorridos muitos anos, se escuta na aldeia-fantasma o lamento de dor que os Pescadores deixavam escapar, tentando salvar seus filhos pequenos e suas fêmeas grávidas.

Pode dar o cano quem quiser porque não vou mais correr atrás de ninguém – Conto de Ray Cunha

Conto de Ray Cunha

Não havia sido um dia de sono restaurador para Amarildo Teixeira. A periodontite o torturava, de modo que passou o dia em claro. Foi trabalhar azedo. Era garçom no Chorão da Asa Norte.

Lá pelas seis horas da tarde apareceu uma cliente, uma senhora elegante, trajada com sapatos altos de couro preto, meias e vestido também pretos. Bonita, de belos cabelos negros, quase longos, era patente que estivesse de luto, pois acumulava duas alianças no dedo anular esquerdo. Pediu o cardápio e passado um momento perguntou se a caldeirada de frutos do mar dava para duas pessoas.

– Dá para quatro, senhora – informou o garçom Amarildo.

– Traga, então.

– E para beber?

– Nada. Fico sempre muito cheia quando bebo alguma coisa durante o jantar.

Naquela hora não havia quase ninguém no Chorão. Estava tudo silencioso e agradável. Tudo bem arrumadinho, à espera da turba que não demoraria a chegar noite afora. Depois que o garçom Amarildo serviu a caldeirada de frutos do mar, pôs-se a observar a mulher. Estava desconfiado de alguma coisa. Não sabia bem de quê. Ela pediu bastante pão francês e Amarildo serviu-lhe quatro pães. Um, ela comeu num relâmpago.

O impressionante é que a caldeirada dava mesmo para quatro pessoas normais e ainda sobrava. Era uma terrina enorme, cheia de um caldo cheiroso e saboroso, com grandes pedaços de peixe, moluscos e toda sorte de crustáceos. Amarildo Teixeira não acreditou no que viu quando ela o chamou para pedir a sobremesa. A terrina estava seca, o arroz e o pirão foram devorados e os pães sumiram.

– Queijo com goiabada! – ela disse.

O garçom Amarildo ficou confuso. Foi buscar a sobremesa. Quando voltou, a bela viúva sumira. Amarildo correu para a rua e ainda pôde ver o vulto na esquina, iluminado pelas primeiras luzes da noite. Não pensou duas vezes. Saiu no seu encalço. Ao alcançar a esquina, a mulher estava à sua espera e atirou-lhe uma pedra na cabeça. O garçom escorregou e caiu. Levantou-se. Ela desaparecera. Amarildo Teixeira voltou para o restaurante. A pedra fez-lhe um galo. “Ainda bem que não foi na testa” – pensou, apalpando o calombo no lado da cabeça. “Não vou nem contar essa. Ninguém vai acreditar. É melhor não contar. O pior é que eu vou ter que pagar a conta daquele animal; me deu o cano e quase quebra minha cabeça. Como é que pode?”

De volta ao Chorão, Amarildo Teixeira foi ao banheiro. Muita gente havia chegado e o gerente estivera atrás do garçom. Quando Amarildo saiu do banheiro havia um sujeito numa das mesas de sua responsabilidade. Um sujeito grandalhão, um verdadeiro mastodonte, olhando atentamente o cardápio. Aproximou-se cautelosamente.

– Escute aqui, meu jovem, esta caldeirada de frutos do mar dá para duas pessoas? – perguntou.

– Dá para quatro – disse Amarildo Teixeira.

– Quero uma. Traga logo uns pãezinhos até chegar a caldeirada.

“Não é possível que esse cara saia correndo também. Não acredito! Até porque não agüentaria correr com esse corpanzil” – pensou Amarildo, levando quatro pães franceses para o freguês.

– Putz, ô meu, só isto? Traga uns dez – pediu-lhe o homem, passando manteiga num deles e comendo-o em duas bocadas.

Amarildo Teixeira serviu a terrina de caldeirada olhando fascinado para o homem. “É um animal de bruta raça” – pensou.

O freguês era bom de boca. Em pouco tempo não restava mais nada na mesa que pudesse ser comido.

– Ô, meu, queijo com goiabada! – disse o homenzarrão.

O garçom Amarildo foi buscar o que o sujeito pedira. Serviu a sobremesa; o tipo devorou-a em segundos e pediu outra. Após comer quatro porções de queijo com goiabada o gajo não deu tempo para nada. Ergueu-se subitamente da mesa e partiu para a porta, ganhou a rua, e correu em direção à Avenida W3 Norte, com Amarildo Teixeira atrás. Mas o freguês tinha fôlego de peso pesado. Alcançou facilmente o calçadão da W3 Norte, onde estacou abruptamente. Amarildo aproximou-se dele e recebeu um cascudo na cabeça que o fez cambalear e cair. Levantou-se e retrocedeu. O brutamontes partiu para cima dele. Alcançou-o e lhe deu uma rasteira, fazendo o garçom se acabar na calçada. Levantou-se às pressas e correu o quanto pôde para o Chorão. Quando se sentiu em segurança olhou para trás e viu o mastodonte atravessando lentamente a W3 Norte. Olhou para si e viu que ficara bastante estragado.

– Aquele desgraçado quebrou a minha cabeça só com um cascudo. Acho que tinha um pedaço de ferro na mão. Agora vou ter que pagar duas caldeiradas de frutos do mar e mais quatro sobremesas – choramingou. – A melhor coisa que eu faço é ir embora para casa.

Mas Amarildo não pôde ir embora, pois faltaram três colegas seus e na sua ala havia dois esgalamidos querendo caldeirada de frutos do mar.

“Droga, droga, droga” – disse de si para si, e foi buscar a primeira terrina, decidido a não correr mais atrás de ninguém, nem que tivesse que pagar a conta com sua poupança na Caixa Econômica Federal.

*Contribuição de Fernando Canto.

O MAMELUCO – Conto de Luiz Jorge Ferreira

O Cenário

Paredes de reboco manchado.
Fios dependurados , talvez de antena de TV, talvez fiação de um rádio antigo, fora de uso.
Um pano esfiapado servindo de porta para a saída dos fundos.
Um caco de espelho preso por dois pregos na parede.
Uma mesa tosca, sobre a qual meia dúzia de copos sujos de nada.


Uma geladeira de meio metro sobre meia dúzia de tijolos, com porta fechada com o auxílio de um tamborete.
Um fedor de suor que por ficar difícil explicar no Cenário, contrapõe-se então muitos frasco vazios de desodorantes espalhados, e alguns largados sobre a caveira da cama que jaz no fundo do espaço- cozinha-quarto, sobre o qual repousa um gato colorido de marrom e branco.

O personagem é Álvaro, na verdade, Seu Álvaro, oriundo do interior do Amapá, na verdade um povoado dito Calçoene, criado por proscritos, ingleses, franceses, holandeses, e brasileiros.
Moreno, rosto sulcado pelo sol, muitos anos a cata de peixes, Castanha do Pará, plantas medicinais, para contrabandear para a Europa, em meio as caixas com as cobras venenosas, e outras espécies peçonhentas.

Daí as cicatrizes no braço, e as marcas de cortes para salvar sua vida, ferindo a faca o local e criando uma falsa hemorragia para que chupando com a boca cheia de tabaco mascado, o filete misto de sangue e veneno,diminua sua ação mortal, mas sobrevivido taí em pé, encorpado, puxando da perna direita, e o andar marcando no chão da terra ribeirinha, sempre úmida ou molhada, um orifício de pouca profundidade, onde depois de algum tempo, a plantado pela própria perna postiça, germinará cânhamo.

Mameluco.
Subindo o rio de canoa, por diversas vezes, desembarcara da embarcação, e fizera mira na direção dos gritos.
Algum desafeto destes que deixará sangrando nos povoados, nos cabarés, nas desavenças. Apelidaram-no de Mameluco.


Fora ao mundo, agora seu mundo era este espaço entre estas quatro paredes que nada mais eram do que a lateral de duas casas abandonadas, e a traseira de um outro barraco, e a portinhola que o pano velho e encardido, definia a fronteira, com o mundo lá fora.

Cacoentes que cultiva…o olhar fixo em quem consigo fala, um tique de enfiar a unha do polegar entre os dentes da frente, e a Mantra de repetir aleatoriamente em Nagô, a oração de São Jorge, que aprenderá com os capuchinhos, em Angola.

Os outros personagens, estão espalhados em seus retratos, e recortes de Jornal que colecionou ao longo do tempo, e das viagens.

As vezes o gato deita e se espreguiça sobre eles, então ele o espanta, imitando com um assovio entre os dentes, o silvo de uma jararaca, o que faz com que Jirau, este é o nome do gato, em homenagem ao lugar onde foi encontrado, no garimpo do Jari, debaixo de um Jirau.
Jirau…este jirau como todos os jiraus era um lavatório feito de madeira, próximo a um curso d’água para que a água usada na lavagem da louça usada escorra sem ficar empoçada perto da casa para não se atrair mosquitos e pernilongos.  Ver os retratos, e os recortes… Da o gancho para que fatos sejam relembrados.


Quando vai remexer neste seu tesouro… Ele põe o espelho, em um ângulo que possa ver refletido na porta clara da geladeira, suas costas, onde guarda uma cicatriz, resultado de várias brigas e açoites dados como castigo para quem como ele fazia arruaças, arrumava brigas, e não temia o Corpo Policial, encarregado da ordem.
Cicatriz de aproximadamente 12 centímetros, descendo do ombro direito, para o meio da costa, sem atravessar o limite do meio.


Fora semelhante a um Escorpião, depois de uma queda do dorso de um novilho, se assemelhará, a uma lagartixa, mais tarde depois que sofrerá uma queimadura com querosene de barca em Barcarena, assemelhou-se a um puraqué, e com a insistência do Jirau o arranhando quando deitado de bruços, na sesta da tarde, sagrada para ele…


Um Morcego.
Porque mora ali…
Onde é este ali.
O que quer alcançar com todas as adversidades que sente lhe obstruir a estrada em sua vida.

Nada…

Por nada chegou a este lugar quando a extração de bauxita estava no auge…
E a lucratividade movia uma engrenagem de luxo e fartura, o que fazia dos aventureiros que como ele ali chegaram, abastados e novos ricos.


Nas ruínas onde morava existirá um Hotel Cassino.
Aquele pedaço de pano roto servindo de porta, fora o lençol de uma das Suítes Presidenciais, houvera duas.
E o cinzeiro ali sobre a tosca mesa, e a caixa com bailarina servindo de escora ao pedaço espelho, um adorno ao lado do quadro de dependurar chaves dos apartamentos, no saguão.
Lá fora o saguão, abrigava os morcegos, que vez por outra em rasantes pelo quarto, se espantavam com o seu as suas costas.

Mameluco.
Circula pelas ruínas, e flerta com as coisas que viu, e enamorado com as estrelas da Broadway seminuas nos recortes de jornal, e cantarola canções do meio do ano, marchas de carnaval, todo o tema de Carruagens de fogo…assovia em Mi menor.
Não há álcool.
Mas se embriaga.
Com raízes e beberagens, e quando faz sobe no palco agora um monte de ferragens e canta e dança como um Fred Astaire, desviando se de cipós e ramos tombados.

A noite quando sai a lua, alvoraçam os habitantes da tatuagem, e o incomodam muito, por isso está sempre com o corpo dolorido, pelas noites mal dormidas, e o sono assustado pelo alvoroço das figuras no dorso, todas em uma só, a dependerem da posição, em que a luz da lua, única ali incide

Segundo ato. Toca ‘Belém é Bíblica’ de Milton Hatoum/ e Gandi…cantada por Gandi.
Descem as cortinas, explodem os aplausos. 12 anos encenando o mesmo espetáculo, muitas vezes automaticamente, a dizer as falas, como se fosse ele o narrador, enquanto o personagem permanece calado.

Ele vai até o camarim, apanha a escova de cabo longo, entra no banheiro, e esfrega a maquiagem feita pelo maquiador, e vê escorrer pelo ralo uma profusão de cores, criando um arco-íris líquido que se esvai até ficar só a espuma perfumada do sabonete líquido.

Sobre a cadeira, o gato de feltro, caco de espelho, o punhado de jornais, empilhados e presos, e a barba mal feita aplicada a esmo, sobre a calça de brim desfiada em ambas as pernas, e o radinho, descascado com produtos químicos, aos pés da cadeira o pano que serve de porta , e num último gesto ele arranca e sai.

Londres esta esfumaçada, ele anda a esmo por Leicester Square, e ao seu lado passam dezenas de pessoas cobrindo pescoço e meio rosto, com a aba de seus sobretudos, se transformam em figuras a semelhança dos extras em filmes de Jack O estripador, o que chega a lhe assustar quando olha-o nos rostos e não descobre luz em seus olhos, mete a mão nos bolsos como a procurar, cigarros, isqueiro, canivete, encontra moedas, que usa para por na maquina e retirar algumas gomas de mascar.

De onde esta já pode avistar o prédio onde mora, um antigo deposito de livros, cujo o interior é dividido por ele usando os próprios livros ali deixados pelo Espolio que dividiu as propriedades após a morte de Sir Herald Finn. Dividiu entre velhos cães, anciões solitários, e artistas de teatro e cinema para quem a fama foi só uma palavra encontrada nos textos decorados.


Cartazes dependurados na frente das fachadas de Cinemas, trazem as fotos de Marylin Monroe, o perfil do Zorro, o torax de Tarzan…apressa os passos porque o frio começa a incomodar, caminha e esmigalha a bagana de um cigarro Turco no bolso direito da calça.


Anda o mais rápido que pode, sessenta e três anos, estatura mediana, dependente de Vodka e Gim, pensa no sanduíche de salame feito de manha que debaixo de dois pratos de alumínio emborcados um sobre o outro, espantara a fome que lhe roe as entranhas.

Nada mais no seu testamento, ali imaginado…Um ator sem nada. A não ser textos a decorar. Volta de súbito, vai ate a porta já as escuras do derradeiro Cinema localizado um pouco antes que a avenida se extinga, e cospe no rosto de Marylin Monroe, pega do chão um toco de cigarro fumado e risca com o carvão restante na ponta.


Deus salve a Rainha. Urina sobre o Cartaz.Escrevendo em inglês…com o jato fino e fraco interrompido por dor ardida, a todo o momento…Queen Save… Mameluco.
06.36 hora de Greenwich…pula de encontro ao solo, na mão cheia de ingressos devolvidos de espetáculos antigos fadados ao fracasso.

De manhã mais tarde… nos jornais criticas elogiando seu desempenho por doze anos com a fenomenal peça O Mameluco. Adaptada para a língua inglesa pelo não menos premiado Sir Herald Finn… ate que cai a tarde, a noite e Londres fica esfumaçada demais, ate para os gatos de feltro aguardando o sinal para ficar imóvel sobre o sofá descascado.

* Do livro “O Chalé” – Scortecci Editora – 2018.

Uma tarde com a Big-Big – Conto (marginal) de Fernando Canto

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Conto marginal de Fernando Canto

Porra, eu andava puto porque tinha sido demitido da TV que trabalhava porque em uma transmissão ao vivo a Big Big apareceu e pegou no meu pau e eu gritei de dor. Não teve jeito nem chora minha nega. Fui pra rua mesmo por justa causa, falta de ética, descompostura, atentado ao pudor… essas coisas. O féla da pôta do patrão não estava nem aí pros meus argumentos. Não convenci o fresco do judeu insensível. Ele sabia que eu era solteiro e não adiantaria mentir.

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Conheci a dita cuja da Big Big quando eu cobria o Pronto Socorro para um jornal impresso. Ela tinha sido atropelada pela sétima vez. E já estava aleijada. A droga que ela se apaixonou por mim desde que me viu fazendo a reportagem pra televisão, pois me achou bonito e queria que eu a fizesse famosa. Onde eu chegava ela achava um jeito de passar a mão em mim. Até dedada eu levei dela. Ridículo. Logo eu, porra, um jornalista considerado…

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Fudido do jeito que eu estava, com o troco do salário que me deram, pois não tive direito a nada, fui lá na beira-rio tomar uma cerveja. Pensei em almoçar no bar do Nego, mas resolvi só beber e resolvi misturar cachaça com cerveja. Comecei a ficar porre e queria fazer sexo. Não vi nenhuma garota de programa pra afogar o ganso, o Neymar, o Messi e minhas mágoas. Bebi, mas bebi pra caralho. Quando já estava chamando uma coluna do bar de meu bem vi a Big Big caminhando arrastando a perna. Pensei, na minha visão meio truvisca, que ela dançava Marabaixo. Que nada! Ela dançava um reagge e estava linda com sua pele morena.

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Paguei a conta e ainda deixei dez por cento pro garçom Raimundo, que costumava me roubar nas contas quando eu estava por cima da carne do churrasco.

Chamei a linda Big Big e lhe disse sem pudor: – Pega à vontade no meu pau, amor.

Ela ficou me olhaaaando! Não disse nada.71759_461427497243620_567377479_n1

De repente eu caí em mim e vi a Matilde Joaquina com o câmera da emissora que eu trabalhava me filmando, só pra fazer o mal, pois ela havia ocupado meu antigo posto de trabalho. Porra, todo mundo ia saber que eu tinha quase um caso com a Big Big. Quase um caralho. Agora teriam certeza.

Pedi mais um copo cheio de cachaça pro garçom ladrão e segui desolado02253686300-217x300 até as muralhas da Fortaleza de São José de Macapá. Na realidade eu fui me lamentar naqueles muros. Chorei muito. Minhas lágrimas quase amolecerem as pedras da edificação secular.

O dia se punha no oposto do rio Amazonas. E os caminhantes habituais do parque do forte olhavam para mim, me reconheciam e riam. “Drogado”, diziam, “eu até que admirava teu trabalho”. “Safado”… Assim me chamavam.

oloucoFui cambaleando e encontrei um amigo artista plástico literalmente caído na sargeta. Tentei levantá-lo a todo custo, mas não conseguia . Até que senti uns braços fortes me ajudarem. Era a gostosa Big Big que pôs o pintor num lado do ombro e pediu com gestos que eu fizesse o mesmo com o meu. Levamos nosso amigo de cachaça até a prainha que fica entre aquelas falésias da Fortaleza e bebemos o resto da granada de duelo que ele tinha no bolso, e mais duas que ela guardava na calcinha, a gitinha logo. Cantamos e rimos até a lua surgir mais porruda que em qualquer outro lugar, como disse o poeta.

Acordamos com a maré enchendo suavemente, marulhando na areia.

A bacana companheira por fim falou e me revelou que a jornalista que me substituiu pagou a ela pra pegar no meu pau naquela reportagem que fiz ao vivo.

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Nessa altura do campeonato nem esquentei mais. Eu perdoei a Big Big porque ela precisava de dinheiro pra beber e pra dar pros caras dela. Agora, lúcidos que nem uns filhos de uma égua, estamos arquitetando um plano pra invadir o estúdio da TV ao vivo e pegar na buceta daquela jornalista desgraçada. Eu, meu amigo pintor e a minha noiva Big Big. Ora, Ora. Marrapá! Vamos sair na mídia nacional. Ihiihihihihihihih!

*Quando recebi este conto (ao qual gostei bastante), disse para o Fernando: os politicamente corretos cairão de pau na gente por causa deste escrito”. Canto, que é sábio e irreverente, disparou: “os bêbados e loucos fazem parte na nossa paisagem cotidiana da cidade”. É isso aí!

PORCA – Conto de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

Eu insistia com ela todas as noites de lua cheia.

– Para com essa história de se transformar em porca, mulher. Não aguento mais esse cheiro de lama.

Era um segredo nosso que tive de aceitar por pura dependência financeira, desde que nos casamos. Mas ela não parava. Queria porque queria parecer melhor que a Velha Xambica, do sítio do seu Ladislau, vizinho ao nosso, que tinha o mesmo fado dela e se transfigurava em Matinta. As duas concorriam para ver quem assustava mais as pessoas desprevenidas nas noites enluaradas da minha cidadezinha.

Um dia eu estava num couro doido, numa pindaíba roxíssima. Era meu aniversário e eu vivia sempre cobrado pelos meus amigos do boteco da Waldirene Boca de Tambor.

– Quando é o churrasco, porra? Perguntavam o tempo todo, me pressionando pra valer.

Eu dizia que ia depender da indenização que estava para receber do frigorífico que fui botado injustamente pra fora, sem justa causa. O processo estava tramitando há tempos, sempre acompanhado de perto pelo iminente causídico Dr. Robário Paladino, que me garantiu o recebimento para logo, antes do fim do mês.

Na véspera do aniversário eu não aguentei mais o fedor da minha galega. Ela havia voltado de um Passeio de Assustamento da lua cheia e estava no quintal grunhindo e chafurdando na lama do chiqueiro, antes de voltar a ser mulher. Ela dizia sempre que a transformação era um processo doloroso, mas que tinha prazer em fazer sempre, pois se achava renovada toda vez que isso acontecia.

Ela estava lá. Tinha acabado de chegar. Eu fiquei pensando, pensando, pensando… peguei a peixeira e a enterrei no pescoço dela por trás. A porca revirou os olhos e o sangue esguichou com tanta força que me sujou todo. Estrebuchou e deu três longos e desesperados grunhidos. Enrolei a boca e o focinho com uma corda até ela parar de se debater. Depois coloquei o corpo em um camburão de água fervente para raspar os pelos, e, como bom açougueiro, comecei a preparar o corpo do animal para fazer um belo churrasco. Os raios do dia chegaram com uma intensidade que me feriu os olhos.

Fui ao boteco da Waldirene Boca de Tambor e convidei a rapaziada malandra pro churrasco. E ainda dizia, brincando:

– Levem um presente, seus vadios. Cheguem perto do meio-dia pra me ajudarem a assar.

Cada um se servia como podia. Eu havia trocado os miúdos da porca por cachaça e farinha com a Wal. Todo mundo se refestelou e ficou de bucho cheio. Tomaram cachaça à beça, arranjaram uns tambores e o batuque correu o dia todo. Quem chegava pro churrasco também trazia uma bebida. Mas eu não tive coragem de comer nenhum pedaço de carne, talvez em respeito à minha falecida mulher.

Já era quase meia noite e todo mundo já estava “calibrado”, tomando cachaça e dançando uns sambas de cacete. Ninguém notou a ausência da minha galeguinha, só o Ambrósio, saliente que só ele. E eu lhe disse que ela tinha ido à casa da mãe doente lá em Mazagão.

A lua rompeu uma nuvem escura e iluminou mais ainda o terreiro da festa. E o batuque ensurdecia e ecoava em toda a área.

Mas tudo parou de repente quando uma mulher idosa com bico de pássaro surgiu perto da mata onde ficava o chiqueiro da minha esposa.

– Quero tabaco, ela dizia. Quero tabaco pra levar pra minha comadre.

Os convidados se entreolharam e o medo tomou conta de todos. Atônitos viram seus ventres se mexerem involuntariamente e em todos eles uma voz dizia:

– Onde está minha costela? Cadê minhas coxas? Quede meu peito?

A lua parecia descer do céu de tão grande, naquele momento de desespero dos convidados. E todos eles saíram correndo para o mato se transformando a cada passo em caititus, porcos-do-mato, queixadas e javalis.

A velha Matinta me olhou de soslaio, cuspiu pelo bico de pássaro um cuspo negro de quem masca tabaco. Eu caí de costas no chão e tive que sustentar com os braços até de manhã a lua quase cheia que parecia ter caído em cima de mim.