RIONDA (conto de Ronaldo Rodrigues)

Linda Imagem Mulher por sol

Rionda era terrível. Sempre mastigava os chicletes antes que eu terminasse de comer doce de banana.

Rionda era curvilínea, retilínea, mas deixava ver em sua chapa de raio-x um certo acréscimo de carnes em seus glúteos, futuramente.

Rionda era a única que sabia o enigma. Saqueava o cemitério em busca de esmeraldas e só ela tinha o poder de perscrutar em cada olho caído nas covas uma faísca de vida:

– Venham para fora, irmãos!

Rionda não queria que o mundo acabasse na próxima esquina. Ela esperava que a vida fosse forte e tênue e guerreira e diáfana. E que coubesse num suspiro.

Ronaldo Rodrigues

MAMA GUGA – Conto de Fernando Canto que deu nome ao livro (republicado por conta dos 55 anos do GOLPE MILITAR)

Desde sua primeira prisão por contrabando, meu pai estampava na cara que era um bandido, um contraventor, um fora da lei que ameaçava a economia da região por não pagar impostos. Era convicto dessas coisas, até cínico. Propinava gente grande da Alfândega e fiscais estaduais dissimulados. Para ele, tudo era normal numa época de carestia e desencanto. Ele sabia dos perigos que o rondavam e que a qualquer momento poderiam enquadrá-lo por outros crimes. Por muito tempo fora um ajudante de importadores de mercadorias com uma impetuosa vontade de vencer na vida. Queria dar algo melhor para a família de quatro filhos que moravam com os avós em uma casa na Cidade Velha, em Belém, assim que enviuvou ainda jovem.

Depois que aprendeu a rota marítima e um pouco de patois para se comunicar e comercializar com os contatos de Paramaribo e Caiena, produziu sua independência e se tornou patrão, mesmo à revelia da vontade do seu antigo chefe. Viajou muito. Chegou a ir até a Venezuela comprar objetos de cozinha feitos de prata da Bolívia para revender aos comerciantes de varejo na Cidade das Mangueiras e em São Luís do Maranhão. Trazia famosos perfumes franceses, cortes finos de cetim e seda do oriente, que vendia para uma seleta freguesia de fazendeiros do Marajó e para clientes do society que ainda se julgavam aristocratas. Fazia tudo de uma forma meio escamoteada na loja que montou para o meu avô Salim. Meu avô era um libanês corcunda, um sábio, um conhecedor profundo das coisas do Cosmo Infindo, iniciado há tempos em uma Ordem Mística do Oriente, onde também iniciou meu pai.

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Nossa família foi ficando rica, mas muito visada pela polícia. Meu pai sabia disso e contornava as investigações com boas “gratificações” a policiais corruptos. Não demorou muito ele comprou outra embarcação com um sonar moderno que permitia viajar à noite com maior segurança pela costa, inclusive no tempo das pororocas mais fortes que rebentavam no litoral próximo à boca do rio Araguari, no oceano.

Os federais eram mais bandidos que os próprios bandidos. Espalharam que queriam pegar o terceiro chefão na linha direta do tráfico de mercadorias e não perdoavam quem ao menos ousasse imaginar que estavam torturando pessoas em busca de informações mais precisas. Tudo valia naquele tempo de ditadura militar. Não havia grupos de direitos humanos, e, mesmo se houvesse, ninguém jamais pensaria que essas práticas medievais ainda ocorressem por aqui.

O barco do velho certa vez foi metralhado por um bando de piratas que agiam próximo ao Cabo Orange, quando vinha de Paramaribo com um carregamento de uísque, vinho e máquinas de costura. Morreram quatro tripulantes, e dois deles se jogaram feridos ao mar. Meu pai nunca usou arma e viu, baleado, levarem a carga toda.

Não se sabe bem o porquê, mas deixaram com ele uma negrinha guianesa depois de a terem usado como escrava nas suas rotas criminosas pelo Caribe. Tempos depois, ele viria a se apaixonar, pois com muita paciência e carinho ela conseguiu curá-lo dos ferimentos de bala que o deixaram para sempre com o braço torto. Três dias depois do assalto, uma vigilenga os recolheu bastante debilitados e os conduziu até a cidade de Vigia.

Já recuperado, levou a mulher para casa, em Belém. E por ser viúvo todos aceitaram a estrangeira, mas havia um certo preconceito entre os membros da família, algo velado, que se dissipava com a autoridade do velho. Mais tarde, ele conseguiu financiamento com os chefes do contrabando, comprou um novo barco, juntou tripulação e voltou à ativa.

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Mama Guga parecia rejuvenescer com a viagem. Virou taifeira da embarcação e principal ajudante do meu pai nas operações comerciais com os habitantes das guianas. Falava bem o patois crioulo e o tak taki das fronteiras do território francês e de Suriname. Passavam longe da então Guiana Inglesa, pois lá as lutas pela independência da Inglaterra fizeram o comércio internacional ser impraticável. Muitos grupos de guerrilheiros almejavam o poder e se dividiam em ideologias, estratégias e objetivos, e se matavam uns aos outros. A nova embarcação, agora com o nome de Mama Guga, uma homenagem óbvia, singrava o Atlântico, as Antilhas e o mar do Caribe. Meu pai era só felicidade com a nova mulher. Ele a levava para dançar beguine no hotel Montabô, em Caiena, e bebiam os melhores conhaques franceses.

Certa noite, ela pulou do camarote como saindo de um pesadelo. Chamou meu pai, e se armaram. Estavam fundeados no Porto de Sucre, próximo de Caiena, esperando um carregamento de vinho para o dia seguinte, quando partiriam para o Brasil. Aguardaram e viram os vultos de quatro ratos d’água subirem pelo convés, armados de revólveres e facões. Vinham sorrateiros, com propósito assassino, pois para roubarem as mercadorias tinham que matar os tripulantes e fugir com a embarcação. Havia só a luz de um farolete a querosene a iluminar minimamente a área da proa, onde o marinheiro Zé Raimundo tirava o seu plantão. Iam surpreendê-lo quando Mama Guga acertou com um tiro no pescoço o negro magrinho que parecia liderar o grupo.

Zé Raimundo pulou para o lado e cortou em duas partes a cabeça do outro bandido com seu terçado afiado, enquanto meu pai disparava mais dois tiros para liquidar os outros ratos. Seguiu-se um silêncio… Esconderam os quatro cadáveres no porão e lavaram o sangue do convés. Ao carregarem a carga de vinho, já no dia seguinte, ainda foram cumprimentados pelos tripulantes de outros barcos que ouviram os tiros e calcularam o que ocorrera. Depois jogaram os corpos dos bandidos no mar e navegaram até Belém, não sem antes se esconderem das patrulhas das marinhas francesa e brasileira em pelo menos duas áreas de fiscalização, na foz do Oiapoque e no cabo Norte.

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Meu avô sabia que as viagens estavam ficando cada vez mais perigosas. Chamou meu pai e o avisou. Não era só a marinha e a polícia paraense que ficavam no pé do velho. Surgiam boatos que a polícia federal estava atenta a tudo e que faria operações na costa do Amapá até a fronteira com a Guiana Francesa. Para tanto, já estava equipada com barcos rápidos e radares poderosos. Era imperiosa a fiscalização das 200 milhas marítimas decretada pelos militares, e até corvetas da Marinha de Guerra transitavam na região. Não estavam ali só para prender contrabandistas ou pescadores internacionais nas nossas águas. Algo acontecia, além disso. Meu pai precisava pagar o empréstimo aos seus chefes patrocinadores e tinha que viajar mais vezes. Seu lucro era grande, mas os juros eram muito altos. O perigo era maior ainda.

Esse quadro todo era previsto pelo meu avô Salim. Platonista atento que era às vicissitudes dos seus parentes mais próximos, repetia sempre a máxima do seu mestre: “assim como em cima é embaixo”. E enfatizava que há tempo para semear, tempo para plantar e tempo para colher. Meu pai estava no tempo de colher, ele dizia. Desde a morte de minha mãe, ele esquecera o sentido da reflexão, da meditação, como técnica a ser utilizada em tudo o que desejamos ou temos obrigação de realizar. Perdera a sabedoria e ganhara a esperteza ao meio da ganância e das práticas ilegais e resolvera agir, assim, pelo livre arbítrio, fora da Lei Cósmica. Meu pai estava involuindo da sua divindade, de sua essência. Sabia disso e não ligava. Meu avô pronunciava palavras ao vento…

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— Você está nesse mundo pra viver! – disse o chefe dos federais. Colabora, porra!
— Se tu não falar por bem tu vai pegar muita porrada lá no “Purgatório”! – dizia rindo sarcasticamente o policial, referindo-se a uma tenebrosa câmara de tortura existente nos porões do prédio colonial que abrigava a delegacia.
— Diz logo, porra. Onde é que tá a Mama Guga, aquela salope duma figa? Cadê os terroristas assaltantes de banco? Hem, caralho. Onde vocês deixaram eles.

Meu pai, literalmente de mãos atadas pelas algemas, levantou a cabeça, pediu água. O policial, num gesto rápido, pôs-lhe o cigarro na boca e acendeu um isqueiro de aço, daqueles que têm uma chama alta e são acesos com faíscas de pedra no chumaço molhado de querosene.

— Diz logo, caralho! – e foi levantando devagar o queixo do velho, lhe queimando a barba, e ele pulou para trás urrando de dor e se estatelou sobre a cadeira que caíra com ele.
— Fala logo, turco filho da puta! – gritou outro policial, chutando-lhe a cara sem piedade. – Fala, “Braço de Eletrola”! – gritou o policial se referindo ao defeito no braço do velho, e continuou: Onde escondeste os filhos da puta dos comunistas? Cadê a negra?
— Eu não sou turco, sou libanês… – balbuciava meu pai, sangrando pelos buracos da cabeça.
— Mas tu és bandido, seu contrabandista de uma figa. Onde é que está a Mama, seu macoumê da Guiana?

“Turco não, libanês…”

Aplicaram-lhe tantos golpes covardes que ele desfaleceu.

Acordou amarrado do mesmo jeito. Da testa e do nariz escorria um sangue escuro, quase coagulado. Perguntaram de novo pela Mama Guga. Ele disse:

— Eu vou dizer, mas ela vai rogar uma praga pra vocês que vão ficar vinte anos babando saliva com vontade de consumir o que não podem, seus otários. Eu sou bandido, sim. Sou contrabandista, mas não sou como vocês que acreditam nessa tal revolução de merda. Sai um ladrão do poder, entram centenas. Essa é a regra desde o início dos tempos.

Depois de apanhar mais e de “dar o serviço”, meu pai dizia que só se lembrava das coisas depois de ter sido encontrado por um barco transportador de açaí perto do Ver-o-Peso. Não fosse sua prática de marinheiro-embarcadiço na juventude, jamais teria sobrevivido àquela condição extrema de tortura em que lhe deixaram os policiais, após o terem depositado n’água, na madrugada. Nunca havia posto um cigarro na boca e tinha uma força imensa.

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Anos depois, já com a decretação da Lei da Anistia, meu pai saiu pela primeira vez de casa para tomar sol e andar pelo Porto do Sal à procura de notícias de Mama Guga, pois até então a polícia não deixava de vigiá-lo em sua porta. Inquiriu seus antigos camaradas, marinheiros e ex-tripulantes durante meses, do Porto da Palha ao Ver-o-Peso. Um dia, encontrou com o seu velho amigo Zé Raimundo e descobriu onde sua amada estava. Vibrou de alegria. Ele sabia que ela vivia, mas não podia vir até ele. E nem ele até ela.

Na sua última viagem, foi obrigado pelos chefes do contrabando a levar como passageiros cinco terroristas que fugiram do presídio São José, após terem sido presos por assalto à mão armada em um banco estatal, em Belém. Era o pagamento final de sua dívida. Era pegar ou largar. E ainda tinha um pagamento em ouro a ser acertado no final da viagem. Essa promessa o fez investir num plano ousado. Alugou um pequeno barco de pesca e o mandou na frente com alguns tripulantes e os esquerdistas barbudos, sob o comando de Mama Guga. Viajariam apenas à noite, bem próximo à costa. Uma semana depois, meu pai zarpou de Vigia para as águas do Atlântico rumo à Caiena.

No canal do Maracá, foi avistado por uma corveta da Marinha. Prenderam o barco e a tripulação, mas só ele foi torturado até relatar o plano de viagem.

Ele sabia que sua amada Mama Guga havia deixado os comunistas no Porto de Sucre com êxito, portanto nada mais devia aos mafiosos chefes do contrabando – a essa altura todos mortos. E ela não era mais considerada persona non grata no Brasil.

A sortida loja de tecidos do meu avô se transformou em um ponto comercial alugado. Vivíamos de renda e do salário dos meus irmãos mais velhos. Mas eu fui o escolhido para procurar e trazer Mama Guga até ele. Protestei de início e argumentei que era muito franzino para enfrentar uma aventura e nunca tinha viajado de embarcação, ainda mais pelo mar, inclusive era conhecido no bairro por “filé de Borboleta”. Porém, não convenci o velho. Fui convencido, porque “arranhava” um pouco de francês. Então parti pelo mar.

Na cidade de Oiapoque, me informaram que Mama Guga tinha um pequeno comércio na vila de Tampac, abaixo de Saint-Georges, no rio Oiapoque, uma comunidade habitada por descendentes de africanos chamados saramacás. Aluguei uma catraia e fui até lá. O catraieiro que me serviria de intérprete.

O chefe da vila, conhecido por Capitão Gody, me recebeu com um grande sorriso, como se eu fosse esperado há tempos, e apertou minha mão com força. Ele falava um português tão correto que eu nem precisei mais do intérprete. Sabia que eu procurava Mama Guga e que era enteado dela. Foi um recebimento protocolar. Pediu aos membros de sua corte que dançassem o cacicó em minha homenagem, e eles dançaram e cantaram ao som dos tambores o “Mô kalê lá / Mô kalê lá”, entre goles do tafiá Damme Jeanne, uma cachaça de garrafão feita de milho, típica da Guiana. Ofereceu-me um cálice do genuíno vinho francês Quinquina du Prince e me contou que Mama Guga tivera uma vida trágica. Seus pais foram assassinados, e ela, raptada ainda adolescente por um garimpeiro nas cabeceiras do rio Maropi. Depois foi vendida como escrava a um barco de piratas. Tinha o dom dos xamãs e teria explodido com a força do pensamento os escrotos de um pirata quando ele tentou estuprá-la. Tiveram medo de matá-la e a jogaram no peito do meu pai ferido por tiros, quando roubaram seu barco e a carga.

A notícia que ele me daria em seguida seria mais surpreendente. Ela morrera há três dias. Tinha vivido por anos na vila, onde fora bem recebida porque seus pais eram saramacás. Mas ela sofria de melancolia, com saudade do seu amor do Brasil, o único homem que a valorizara em toda a sua vida, costumava dizer.

Eu nada perguntava ao Capitão Gody. Ele mandou parar o cacicó e me levou a um lugar afastado, sempre com o séquito atrás dele. O ar era perfumado por um cheiro estranho. Havia uma cabana coberta no quintal à beira do rio. O cadáver de Mama Guga jazia sobre um assoalho de paus. Ele disse solenemente:

— Meu filho, quando morre um membro da nossa tribo, construímos um girau da palmeira jussara para colocar o corpo do morto. Embaixo do corpo, pomos uma gamela de madeira bem calafetada do tamanho do corpo e ateamos fogo ao redor. Do cadáver vai escorrendo o suco que era sua vida. Depois que ele fica bem seco, fazemos o enterramento e dançamos ao seu redor, esfregando aquele suco em nossos corpos. Isso nos dá mais vida e melhor bem-estar. Nós herdamos esse costume dos nossos ancestrais africanos – completou o chefe Gody.

Eu assisti ao ritual e me besuntei do óleo de minha madrasta. O Capitão Gody me presenteou com um belo artesanato de madeira feito a canivete e me entregou dois quilos de ouro em pó que Mama Guga havia deixado para o meu pai. Ela tinha certeza de que alguém viria vê-la nem que já fosse morta. O chefe era um homem justo e foi o guardião da fortuna até entregar o que agora pertencia a meu velho. Voltei com medo, mas me senti protegido, porque, além do ouro, trazia um frasco com um pouco de suco de Mama Guga para dar nas mãos dele.

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Quando cheguei a Belém, reuni a família, contei minha aventura floreando detalhes e entreguei a meu pai seus pertences. Depois, ficamos apenas ele, o pai dele, eu e meus irmãos homens na sala. Meu avô me disse compassadamente que meu pai voltara ao misticismo depois de perder tudo e ser torturado pelos policiais da ditadura.

Tinha estudado muito e já meditava e experimentava em laboratório caseiro os símbolos alquímicos, os quatro elementos da natureza, os sete metais, o opus alquímico e suas operações, a busca da Prima-Matéria e outros conteúdos dessa arte e ciência milenar, cujos segredos ainda eram guardados pelos Rosa Cruzes. Nesse momento, ele purgava suas falhas com o Cósmico no seu processo evolutivo, pois havia sucumbido diante da ambição e da ganância, que o tiraram do eixo da harmonia com o Universo.

Enquanto o meu avô explicava, meu pai ajoelhou-se em nossa frente, invocou palavras desconhecidas para nós, seus filhos. Besuntou-se do suco de Mama Guga e salpicou sobre sua cabeça uma pequena quantidade de ouro em pó.

O rosto dele iluminou-se de felicidade quando um fogo fez seu corpo entrar em combustão e o ouro transmutar-se em uma diáfana camada de névoa amarelada. Tentamos correr para salvá-lo, chorando em desespero, mas meu avô nos impediu.

— É só uma ilusão, meus filhos… – disse o velho avô.

Sim, seria uma ilusão, não fosse o fato de Mama Guga estar presente todos os dias em nossas vidas dançando beguine com meu pai, ali na nossa sala. Meu avô Salim fica sentado na poltrona, coça a barba branca e abre um sorriso enfatuado por ter realizado seu trabalho redentor em nossa família.

Eu, Fernando Bedran ( primeiro à esquerda, que inspirou este conto sensacional) e Fernando Canto (o maior escritor vivo do Amapá).

Meu comentário: este genial conto de Fernando Canto foi escrito por conta de várias histórias do amigo Fernando Bedran (tenho a honra de ser amigo dos dois fernandos), que nas mesas de bar. Claro que o autor, além de contextualizar, escreveu o conto com carradas de realismo fantástico e brilhantismo, da mente genial de Fernando Canto. Aí deu nesse escrito sensacional. Porreta!

Meu Tataravô – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Meu tataravô namorou e casou com uma moça bem mais nova, honesta e trabalhadora que ele conheceu um dia em uma Tertúlia usando um vestido de tule azul, bonita e doce, viveu com ele até que a vida de ambos se fosse , juntos tiveram muitos filhos. Ele tinha uma tara enorme por tomarem banhos juntos, mas nunca tomaram.

O filho dele, meu bisavô, que em toda a sua vida nunca desmamou, criou dois cachorros … Baleia e Rex. Andava este casal de cães sempre juntos, caçando, correndo ou estragando a horta, latiam à noite para a lua cheia, e nunca tentaram fazer sexo entre si, por falta de paixão,diferença de tamanho, ou qualquer outra pulga.

Meu bisavô casou um dia depois do feriado de finados, alinhavou seu terno com fio de linha de outra cor, juntou os trocados que guardara em um cofre de barro. e com eles comprou duas garrafas de vinho, bebeu todo o vinho e com as garrafas vazias, matou os cães.

Minha avó nasceu dia três de três de mil novecentos e três, as três e três, de um parto difícil em que as parteiras, apenas três, se revezaram em crise de empurrões e empurramentos para faze-la nascer, depois recolheram a placenta fosforescente e brilhante e com ela fizeram um luminosos barbante que até hoje esta esticado entre a cozinha e o banheiro no fundo do quintal, e a noite serve de guia para este trajeto entre a casa e os sanitários.

Casou virgem com um rapaz do Leste comprador de garrafas, no meio das quais ambos foram encontrados pelo seu pai, copulando em paz.

Das tias que eu tive a mais querida foi Caetana, que morreu ainda muito moça, vitima da mistura de cremes e poções com as quais pretendia manter-se eternamente jovem.

Já tia Benedita deu a maior sorte, sua morte foi devida a grande onda de frio que varreu o Pará em 1934, dois anos antes de ela nascer, mesmo assim comprou ações da Panair, e foi Diretora do colégio onde Jânio, iniciou a plagiar o dicionário de Buarque de Holanda.

Mamãe foi batizada e ainda de fraldas semidescartáveis foi lecionar em Sapé. Lá tio Edir e seu irmão Elzimar foram presos em Cabo Branco por ensinarem os tubarões e os saltimbancos, a pescar Arenque.

Não tiveram muita sorte, engolidos por uma Baleia foram encontrados pelos esquimós no Pólo Norte, e hoje são totens.

Eu os reconheci, por que os vi, em uma foto na mão de uma turista Argentina, moradora no bairro do Jurunas em Belém do Pará. De nome Mirassol Catalina. Era o ano de mil novecentos e sessenta e seis. Dai batizarem o anfíbio avião da FAB, de Catalina em sua homenagem, depois do passional crime,cometido contra ela, por um sargento que a amava. Que fugiu a nado para Cotijuba não chegou a ser preso e isso ficou por isso.

Muita gente nasceu na minha família e nem foram tantos, eu nasci um pouco adiante, quando Maluf asfaltou a Galiléia. Muita gente nasceu e não foram tantos, e não tão poucos e não tão importantes. Como o Homem Elefante e Elisabeth Taylor. Ainda, primos distantes, recordo…Herodes e o Alferes Tiradentes. E da descendência das filhas do meu tataravô, e dos primos do avô, e dos sobrinhos de minhas tias, Pele e Garrincha.

De coisas famosas  realizadas pelos meus, guardo a letra de um hino composto por meu padrinho, para uma cidade descoberta por Cabral, duas ostras magrinhas que imitam castanholas, uma pizza que quando se corta a borda, toca musica andaluz, e seis secas azeitonas pretas. E eu, que sobrei para fazer este relatório.

Que leio agora para a reunião centenária da família Ferreira.

Relatório para parcos ouvintes, entretidos, cada um em passar geleia em seu meio naco de pão, e tomar seu meio cálice de Rum. Cada um , com uma metade na mão e a outra metade na boca.Sentados como em uma grande Ceia. Sisudos cenhos fechados de gorros e casacos de lã. Todos em silencio, ouvindo-me sapatear sobre a mesa, descalço, fimosado e nu.

* Do livro Antologia Paulista, de 2015, publicado pela Rumo Editorial.

CORNUCÓPIA DE DESEJOS – Conto muito porreta de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

Por querer expressar meu pensamento sobre as coisas em meu idioma, às vezes arrebato o próprio coração em sofridas angustiosidades e dissentimentos infaláveis. Por isso monologo no granito e lavo em água este contraste, esta antagonia de imprescindível falação que ponho em tua trompa de eustáquio para te martelar suavemente a dentro.

É o caso do amor ensolarado que sinto agora, neste mirífico momento. Um assunto ressoante, uma prosa-cornucópia (onde a abundância reina) a refratar-se sem a culpa do inexpressável parlar.

Não vejo como não ensopar-me de enluação neste conto de candura quase irrevelável, posto que o meu amor possa entender-me ou espumar-se para sempre para o inevitável espanto que a declaração enseja. Paresque um salto com vara numa olimpíada de abismos.

Assim eu declaro: a cobra norato, o boitatá e as luzes do fogo-fátuo se expiram na noite cadente. Oh, teus olhos não! Teus olhos ternuram a medida do dia, solfejam histórias e cantam paisagens inescrutáveis para os sonostortos dos mortais. Eu sou o arauto deste cenário-testamento a castigar retumbantemente o couro dos tambores; eu anuncio a sublime compreensão do “amooor” que ecoa em gargalhadas sobre as ondas do Amazonas, aqui na Beira-rio, sob um céu azul intensificado de lilás quando anoitece. Eu declaro ainda: a pedra em sua bruta forma tem dentro de si os elementos primordiais que suprem tua sede de amar. Ora, Balance a pedra e sinta o gutigúti da sua oferenda. Lapide-a, pois ela provém da terra, e então perceberá o calor do fogo da paixão libertadora e o ar morno que movimentará o sangue pelas entranhas.

Num átimo, um áugure qualquer (que são muitos e banais) lerá tua sorte: dirá augúrios, claro. Um áuspice (que estão cada vez mais raros) dirá tua sina no raro voo dos louva-deuses. E te auspiciará de boas-novas e de valores inequívocos.

Ora, dizendo isso afirmo que sou aquele que nem sabe discursar suas dores, inda que saiba do futuro, pois habito o limiar do tempo. Eu sou a timidez em prosa e verso, aluno de poesia, mas prenhe de pecados, porque ingiro virtudes nos bares da noite e não sei segredar projetos inexequíveis. Não sei, juro pueril e ludicamente (mas com toda a sinceridade de uma parlenda) pela fé da mucura, torno a jurar pela fé do guará, torno a repetir pela fé do jabuti, que não sei mentir ao sabor do vento dos ventiladores que me sopram fumaça de charutos cubanos.

Descobri que sei de ti mais do sabes da pedra em teu caminho. Sou teu (adi)vinho incontestável, ad-mirador de tua trajetória. Por isso do alto da minha velada arrogância sei que tu também me amas.

Mas é de ti que quero o conteúdo dessa bilha onde Ianejar – aquele heroi dos índios waiãpi – e seus pareceiros se abrigaram do fogo ardente e do dilúvio. É por ti que generalizo a farsa da criação sem pesadelos cosmogônicos. Eu me agonizo em mistérios. Eu eternizo o meu olhar nessa paixão. E me enleio como as borboletas que viajam ao paraíso pelo buraco sem-fundo do fim da terra.

Por isso eu sei que te amo.

Por isso vago ainda em fluidos imemoriais sempre presentes, antes do esquecimento das vitórias que juntos comemoramos.

Por isso a ternura há de ser o mais farto elemento da imensa cornucópia de desejos que realizamos juntos.

Teresa (em preto e branco) – Tãgaha Soares

 

 
E foi na batata da perna de Teresa que escrevi as minhas primeiras palavras na língua nativa. 

No princípio, ela até gostou, ficou lisonjeada quando lhe disse que eu estava escrevendo um livro nela. Depois, me recusava, porque eu só procurava seu corpo para escrever…
 
O livro já estava pelo sétimo capítulo quando ela me abandonou…
 
Sem ela, perdi o fio do novelo. Passava os dias catatônico diante de uma folha de papel em branco…
 
Experimentei escrever alguma coisa em mim mesmo, mas não era tão bom.
 
Então, fui procurar as putas…

O Dia em que eu chorei diante de uma tela de Antônio Bandeira – Conto de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

No dia em que eu chorei diante de uma tela de Antonio Bandeira, no Museu da Universidade, fiquei até com vergonha do púbico presente. Chorei, como dizem, copiosamente (Até hoje não sei porque falam isso, mas desconfio que é porque uma lágrima copia a outra). Que vergonha! Era apenas uma tela abstrata que explodia em cores, excelentemente pintada pelo famoso artista plástico cearense. Uma tela que falava de uma chuva de neve na Europa, onde ele viveu. Nela, o branco e o azul predominavam sobre os outros tons.

Chorei tanto que o curador da exposição me convidou para chorar no banheiro. Como eu recusei, ele mandou os seguranças me botarem para fora.

E lá fora eu continuei chorando no calor, vertendo um choro esquisito, um choro que jamais chorei em outra exposição. Não que eu me lembre. E olha que eu era chorão. Mas dessa vez eu estava mais sensível que todas, mais sensível do que naquela vez no Louvre quando inevitavelmente me derramei em prantos diante da mais bela e magnética tela que já vi em toda a minha vida: a Gioconda, de da Vinci.

Malditos! Sempre me botam pra fora das exposições de obras de pintores famosos.

Malditos! Não sabem que meu choro não é fingimento, pois eu não sou ator e muito menos produtor de pegadinhas para a televisão.

Malditos! Insensíveis! À flor da epiderme estão ouriçados pelos, e no peito bate um coração magoado e eles não sabem disso. Vão logo expulsando a gente e mandado olhar as pinturas de grafite, como se os pintores das ruas não soubessem pintar em sua linguagem pura e não acadêmica.

Bandeira é Bandeira, não o poeta, mas o pintor, este que eu só conhecia de ver catálogos impressos ou fotos repetidas em revistas de arte.

Antonio Bandeira não é o ator espanhol muito menos o dono do bar da esquina, mas o artista que me convida e me move a seguir seus quadros até chorar de paixão, pois nos seus traços eu nasço, vivo e morro na dimensão dos pigmentos e reentrâncias de cada pincelada decidida bruscamente. Ao olhar suas telas explodo minhas memórias e paixões de um tempo em que me encontrava entre o poder da escolha e o despoder de ficar ilhado em angústias. Um tempo de decisão de amar ou seguir, de me entregar ao insondável ou de viver. Contudo, meu sonho de viver era apenas uma paisagem tátil num horizonte tênue, enevoada pela ausência de razão com seu cromatismo cinza, que de repente encontrou na tela de Bandeira o dia nascente, a tarde e a noite iluminada. Por isso choro. E os curadores da exposição não deixam que eu me cure em nome da arte.

Malditos curadores!

Viagem de volta – Conto de Ronaldo Rodrigues

Conto de Ronaldo Rodrigues
Deixei um livro em cima da mesa e fui dar uma volta. Claro que ninguém roubaria um livro ali, naquele ambiente. Só se aparecesse a menina que roubava livros. Qual a minha surpresa quando retornei, ao constatar que o livro não estava lá! Olhei em torno, exercitando meu olhar sherloqueano, mas ninguém em volta parecia interessado em livros. E ninguém parecia capaz de roubar o que quer que fosse. Resolvi dar mais uma volta pelo navio. Esqueci de dizer que estava a bordo de um navio? Perdão. Às vezes esqueço de citar partes importantes de meus relatos. Alguns escritores são assim e, como sou assim, me sinto também escritor.
 
Na volta ao ponto em que deixei o livro, eis que o encontro em cima da mesa, como se nunca tivesse se ausentado. Fiquei mais intrigado ainda. Abri o livro e encontrei um bilhete com a seguinte mensagem:

“Não leve a mal, mas gostaria de concluir a leitura do seu livro, que achei muito interessante e me deixou surpreso ao descobrir alguém com o hábito da leitura, coisa bastante improvável em pessoas que costumam viajar neste navio. Deixe o livro em cima da mesa e vá passear, contemplar a paisagem do rio e da mata. Prometo devolver a cada vez que eu o emprestar”.
Foi o que fiz durante toda a viagem, cheguei a conhecer todos os recantos do navio e estender meu olhar por toda a bela paisagem. Minha curiosidade não foi suficiente para deixar o livro na mesa, me afastar um pouco e voltar subitamente para ver quem estava dividindo comigo o prazer das aventuras contidas no livro. Deixei o mistério tomar conta. Me pareceu que eu estaria quebrando um pacto se voltasse para flagrar meu companheiro de leitura.
Navegamos por três dias e os meus passeios pelo navio foram aumentando à medida que nos aproximávamos do porto de chegada. Queria que o leitor misterioso tivesse tempo de concluir a leitura. No último dia de viagem, achei o livro na mesa e novo bilhete: “Obrigado pelos momentos deliciosos que seu livro me proporcionou. Sem dúvida, tornou a viagem mais interessante. Que tal discutirmos o enredo do livro? Meu endereço na cidade em que aportaremos dentro de alguns minutos é…”.
 
Depois que aportamos, dei umas voltas pela cidade, tentando não pensar em nada daquilo. Mas não suportei o mistério e fui ao endereço indicado no bilhete. Conheci, enfim, a pessoa que pegava o livro emprestado. Era uma leitora, uma belíssima leitora. Nos conhecemos, discutimos a história do livro e de muitos outros livros e autores e temas e… Claro que nos envolvemos. E o mistério persiste até hoje.

Éter, Etéreo, Etecetera, Etc… (conto de Manoel do Vale)

Ponto no final da linha. O ônibus desliza preguiçoso de chegar.

Eu espero. Quieto.

O ônibus barulha. Resmunga das juntas. Faz fumaça. Tá velho.

Se fosse uma Maria Fumaça teria um charme todo de cinema aquela cena.

Mas é apenas um ônibus velho, suburbano, mais para um blues etílico no desenho sonoro daquela tarde (quieta) em que me sentei no ponto final para espera-lo chegar preguiçoso na sua tarefa de leva e trás de anos, a seguir o mesmo caminho, colhendo já a terceira geração dos moradores do bairro.

Ele e seu Afrânio, fiel motorista, que veste o uniforme impecavelmente azul, exibindo no braço a logomarca da empresa (como se fosse uma patente militar) e seu bom dia indelével, educado, e com um sorriso no rosto, apesar do salário e das dores nas juntas.

Os dois chegando ao fim da linha, cansados.

E eu espero. Quieto.

Afrânio estaciona o ônibus no final da estação, próximo à lanchonete. Desliga o motor e desce em direção ao banheiro.

Quando volta, trás um balde com água para dar ao ônibus, como se este fosse um bicho de estimação. Despois de despejar toda a água no carburador da máquina, Afrânio vai a lancho-te pedir seu sanduiche natural com um todinho. Não sem antes dar uns tapinhas na cara do companheiro de trabalho.

O ônibus não tem cobrador, seu Afrânio é quem recepciona os passageiros e recebe o dinheiro da passagem. Gosta do que faz. Dá pra ver no seu jeito de tratar os passageiros.

Os dois se parecem. Fuças da mesma fundição, liga da mesma carne.

E eu espero que eles descansem para iniciar minha viagem rumo ao centro da cidade.

Manoel do Vale

*Achei aqui

A pretexto de bolos de chocolate – Conto de Ronaldo Rodrigues

Conto de Ronaldo Rodrigues

Esta história aconteceu num tempo e lugar muito remotos. Fui acusado de ter comido um bolo de chocolate. Nem tive tempo de alegar o fato de que não gostava de bolo, muito menos de bolo de chocolate. Era tudo meio confuso naquela época e nada do que pudéssemos dizer, por mais plausível que fosse, alteraria qualquer decisão do Governo Central. Tal governo havia inaugurado uma era de insegurança e delações premiadas, suspeitas e acusações que não precisavam ser fundamentadas para que fossem acatadas e executadas. Decretos aleatórios ressuscitaram leis que há muito tempo haviam sido revogadas. A criação da Comissão da Doutrina da Fé no Bolo de Chocolate foi mais um abuso daquele governo ignorante e incompetente. O bolo de chocolate tinha sido elevado ao status de iguaria divina, destinada somente aos altos escalões do Governo Central e os cidadãos comuns jamais poderiam comer.

A Comissão da Doutrina da Fé no Bolo de Chocolate nem quis me ouvir, não deu a menor bola pra minha declaração de inocência. Me levou preso sem a menor cerimônia, sem que eu tivesse chance de contratar o advogado de porta de cadeia que mendigava bem em frente à prisão de segurança máxima onde eram trancafiados os pecadores comedores de bolos de chocolate.

Fui levado a uma cela onde só cabiam eu e minha autoestima. Como minha autoestima não ocupava muito espaço, fiquei relativamente confortável e nem tive motivo pra reclamar, a não ser do rato que toda noite vinha me lembrar que aquilo era uma cela imunda. Fiquei ali por alguns meses sem saber o que seria resolvido a meu respeito, ingerindo a ração de carne podre que nutria minha covardia, meu medo e meu desalento, cada dia mais vorazes.

Certa vez, olhei pela janela a noite que se estendia lá fora. Estava iluminada por um clarão que não vinha da lua. Era até perigoso ficar olhando a lua, pois os admiradores do luar foram postos na marginalidade pelo governo. A luz também não vinha dos postes que ladeavam os caminhos que levavam à prisão. Estiquei bem o pescoço, pude olhar mais além e o que vi me deixou estarrecido. Era uma cruz de madeira pegando fogo. Ao redor, vários cavaleiros vestidos de uniformes e capuzes brancos e empunhando rifles. Só poderia ser a Ku Klux Klan, mas, apesar da KKK se encaixar perfeitamente naqueles tempos sombrios, ela só seria criada muito tempo depois.

Me recolhi ao cantinho da cela, onde o rato tinha acabado de urinar, e fiquei tremendo de medo de tudo aquilo, tentando dormir e acordar livre daquele pesadelo. De repente, um grupo de soldados entrou na minha cela, tomando Coca-Cola e disputando quem arrotava mais alto. Foi aí que o comandante olhou pra mim e berrou:

– Chegou a sua vez!

Pronto. Estava tudo acabado pra mim. Me levantei resignado e também louco pra que aquilo tudo terminasse. Estendi minhas mãos pra que os soldados me conduzissem até o local da execução. Mas o que ocorreu foi que o comandante me entregou uma garrafa de Coca-Cola e berrou novamente:

– Chegou a sua vez!

Aí compreendi. Tinha chegado a minha vez de tomar a Coca-Cola e participar do concurso de arroto. Então o comandante arrotou sua sentença:

– Se você conseguir arrotar mais alto do que nós, ganhará sua carta de alforria, sua liberdade, o perdão do Governo Central!

Claro que não acreditei que estavam me concedendo uma chance de escapar daquela situação, mas não pensei duas vezes (mesmo porque não era de pensar muito): virei a garrafa de Coca-Cola todinha na minha garganta sedenta e me preparei pra caprichar no arroto.

E foi mesmo o maior arroto que aquela região já havia escutado. Os soldados, todos arrotões de primeira grandeza, ficaram admirados com minha capacidade. Um especialista afirmou categoricamente que eu atingira uma nota ainda não registrada em toda a história da música, fato que só será superado num futuro distante, quando aparecerá um cara chamado Freddie Mercury.

Aí a minha vida deu uma reviravolta. Saí triunfalmente da prisão e me tornei um virtuose do arroto. Muita gente vinha tomar lições de arroto comigo e, dependendo da dedicação, em pouco tempo muitos alunos diplomados pela minha Universidade Musical do Arroto passaram a ocupar os mais cobiçados lugares nas maiores orquestras de arroto conhecidas na época.

Quando o Governo Central foi derrubado e o bolo de chocolate finalmente liberado pra toda a população, eu o introduzi nas lições de arroto. A combinação bolo de chocolate e Coca-Cola fez tanto sucesso que até eu passei a simpatizar com bolos de chocolate.

Assim, terminei meus dias, refestelado na glória, confortavelmente instalado em meu castelo, tendo aos meus pés os serviços de um batalhão de criados e a atenção de um número infindável de admiradores. Quanto ao arroto, passei a direção da minha universidade aos alunos mais destacados. Agora estou aposentado, só arrotando mesmo por esporte e pra não perder a embocadura.

Contículos Alados (rápidos lampejos geniais de Fernando Canto)

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Para Herbert Emanuel e Joãozinho Gomes

Eu via o mundo invertido quando passava na rua do poeta. Ele acenava do fundo da terra me pedindo um dracma de ouro.

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INSÔNIA

Para Carla Nobre

Sem dormir à noite toda fui cedo à padaria comprar um sonho.

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TRAVESSIA

Para Elton Tavares

Ao atravessar a faixa de pedestre só levantou a mão na hora do impacto.

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RUA DO POETA

Para Paulo Tarso

Cruzava a rua do poeta plantando bananeira para não pisar nem na lembrança.

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O CHOQUE

Para Jorge e Edelwais

Quando as pedras finalmente se encontraram viraram pó.

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PARTO

Para Luli Rojanski e Manoel Bispo

A torneira do jardim pariu seis gatos pingados. Acabara de chover.

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OVERLOOPING

Para Osvaldo Simões e Isnard Lima

O “encosto”, reclinado, frustrou a acrobacia de Mayra no monomotor. O voo foi tiro e queda.

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IMPÉRIO DOS SENTIDOS

Quando assisti “O Império dos Sentidos” a teu lado no Cine Orange, acreditei em definitivo que o ovo cozido é um alimento saudável. Que saudade de tua panela quente!

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ANSIEDADE

O cara é um paciente apressado.

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Foto: Gê Paula

BAIXA TESÃO

A lua iluminava tanto o céu de Macapá que os enamorados da Beira-Rio torciam por um eclipse.

Conto de Carnaval – Fernando Canto


CONTO DE CARNAVAL

Por Fernando Canto

Naquela noite de orgia no carnaval de setembro, o garanhão Thor se encheu de coragem e comeu o assassino Fred Krugger atrás das cortinas do clube. Deu-lhe uma martelada na cabeça e acabou com a máscara do otário.

Eduardo Luís, o Mãos de Tesoura, que acabara de terminar seu relacionamento com o Homem de Ferro, olhava, deprimido, aquela cena enquanto a Mulher Maravilha dançava com o Homem de Areia a marchinha “A Jardineira” mais bêbeda que um trem descarrilando.

CLOSE DE LADO – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Eu entro em cena puxando um cavalo manco emprestado de Hollywood. Ela está deitada. O sinal marrom que eu chamo de “boa pinta”, ela o disfarçou com um pouco mais de pó de arroz.

Fala no meu ouvido uma frase quase inaudível e eu respondo com uma frase em inglês ouvida e decorada de um diálogo do seriado de Bat Masterson.

Ela olha-me tão próxima que eu me convenço que um dos seus soutiens tem mais recheio que o outro. Ou, então, como publicaram as revistas de fofoca: implantou silicone. Diga alto e ríspido. “- Abandone-me!” – grita o Diretor fitando-me com doçura.

Olho de soslaio, a minha maneira, que permite que a câmera de um close nas minhas lentes azuis bifocais. O Diretor cospe, grita e se despenteia. Eu o conheci num baile da Praça Marechal vestido de Colombina.

Como manda o script, aplico na atriz um tapa no seu rosto. Ela, em seguida, gira sobre a cama e cai. Retiro o braço com dois quilos de maquiagem presa à palma da mão. “- Vagabunda!” – grito. Caprichando nas sílabas.

Um cowboy, que não reconheço, com uma bonita proteção de couro na calça rancheira corre em sua direção. Ela grita: “- Help! Help!” Um Help sem sotaque. Em seguida, como se estivesse ferida, desmaia. O iluminador sacode o facho de luz criando um belo efeito.

Acho um barato ela ter sentido o tapa que tanto havíamos ensaiado. Impressiono-me com o filete de sangue escorrendo de seus lábios e o repentino inchaço. O cowboy parece que vai sacar o revólver. Mantenho a minha mão direita, suja de cosmético, atrás da cintura. O Diretor berra comigo alguma coisa como: “- Filho de uma mulher mexicana, mãe de dez filhos que nunca casou.”

Com certeza refere-se a minha Madre. O cowboy saca. Eu saco num relance que aquele cara é o marido da atriz. Abandono o cavalo manco no quarto e desço para o Saloon, onde tomo um trago e saio…

Breve, no aeroporto, decola um avião da TAM. Ouço o estampido do primeiro tiro já em Quixeramubim. Mesmo assim, me agacho um pouco.

*Conto do livro Antena de Arame – 1° Edição,em 2016, pela Rumo Editorial. São Paulo.

TSUNAMI AMAZÔNICA (Conto de Fernando Canto)

Conto de Fernando Canto

Três dias após a morte de F.C. eu soube da notícia alvissareira: o rio voltava a encher. Devagar, mas voltava. Os habitantes que restavam na cidade já sorriam com grandes esperanças.

Até então ninguém sabia as causas que fizeram o maior rio do mundo em volume d’água se afastar tanto do seu leito natural. Os cientistas se contradiziam, ecologistas acusavam os governos dos países ricos e o povo alimentava superstições e castigos misteriosos de diversas deidades. Mas o certo é que as marés que por aqui chegavam ficavam muito além do trapiche. Tudo acontecera tão rapidamente que os ariscos mergulhões tiveram que virar comida e as andorinhas, tão sinceramente nossas, desapareceram. Quem diria! A praia de mangue da antiga beira-rio parecia um cemitério de pequenas embarcações. Houve emigração em massa e a economia da região despencou. Sobrevivíamos com doações.

A cidade evaporava. Era um deserto em consumição. Suava com o calor assassino. Só melhorou quando F.C. convocou extraordinariamente a Assembleia Legislativa e apresentou Projeto de Lei que invertia o horário de funcionamento de trabalho e de todas as atividades oficiais: todos trabalhariam à noite e descansariam de dia. Naturalmente que tudo fora regulado, inclusive os plantões. Apesar de polêmica, fora a decisão mais sensata, principalmente no que se referia à energia, visto que as cabeceiras dos rios das hidrelétricas estavam secando.

As mudanças climáticas eram rápidas. Ninguém nos explicava nada, as notícias sobre o assunto eram desconexas, fugazes.

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Foi no domingo que eu senti o nó no peito e o pressentimento de algo terrível: liguei o rádio e ouvi que uma onda gigante se aproximava do litoral a uma velocidade crescente; que se separara em duas ao bater na costa oriental da ilha de Bailique. Uma seguia, destruindo as pequenas ilhas do arquipélago e outra deslizava rumo a Caviana. A primeira ganharia mais força e se somaria à pororoca, correndo mais rápida ainda em nossa direção. Já tinha uns cem quilômetros de extensão e vinte metros de altura. Em poucas horas chegaria a nossa vulnerável cidade.

Fomos alertados e preparados pela Defesa Civil e pelos Bombeiros. Quando ela se anunciou, barulhenta e avassaladora, ainda deu para vê-la alta, acima das ilhas do outro lado do rio. Segundo o rádio ela media em torno de sessenta metros de altura. Era um ser estranho vindo guerrear e destruir. Chegou veloz e mortal com seu companheiro vento, rebentando o que era fraco e lavando praças e edifícios.

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Até que as mortes não foram muitas. A maioria acreditou na ciência e nas informações maciçamente veiculadas.

Mas a cidade ficou suja e caótica. Só alguns grupos de estudantes se divertiam colhendo os peixes oceânicos que se debatiam nos lagos formados com a intempérie. Tudo era novidade. Mas já se falava em reconstrução.

O fluxo-refluxo da tsunami fez o rio encher e ficar agitado, cheio de ondas, cheio de vida. Sua água agora é salobra e de tonalidade esverdeada. Disseram-me que só daqui a dez ou vinte anos ele voltará ao que era.

Já dá para ouvir o grito das gaivotas, a silhueta dos mergulhões em formação de flecha e uma nuvem de andorinhas bailando ao pôr-do-sol do equador. Parecem cavalos alados à procura do Olimpo.