A Generosidade musical de Nonato Leal – Por Fernando Canto (republicado em homenagem aos 93 anos do mestre das cordas)

Foto: Chico Terra

O Amapá precisa preservar, reconhecer e homenagear seus grandes nomes em todas as áreas de atuação. Como sou fã de escritores, compositores, músicos, poetas e artistas, deixo aqui meus parabéns ao Nonato Leal na crônica lindona do amigo Fernando Canto. O reconhecimento é justo, diante do legado artístico do lendário violonista. Nunca conheci o aniversariante pessoalmente. Na verdade, sou amigo da Verinha, sua amorosa e zelosa filha, mas o admiro desde que eu era jovem. Ele é o nosso B. B. King. Ou seja, o maior dos maiores mestres das cordas. Feliz aniversário!

Elton Tavares

Hoje Nonato Leal faz 93 anos. Repito aqui minha pequena homenagem a esse grande músico que por décadas ensinou, influenciou e participou ativamente das atividades musicais do Amapá. Este texto foi publicado no Jornal do Dia, em 12 de julho de 2007″ – Fernando Canto.

Foto: Diário do Amapá

A Generosidade musical de Nonato Leal

Por Fernando Canto

Nonato Leal vai fazer 80 anos daqui a dez dias. Vai comemorar 70 de música, pois aprendeu a tocar aos dez anos instrumentos de corda com seu pai, que também ensinou seu irmão Oleno Leal, como ele exímio violonista.

Foto: Diário do Amapá

Lembro do primeiro contato que tive com esse incrível e generoso músico no final dos anos 70, quando iniciava por conta própria a aprender violão. E foi num dia de Festival Amapaense da Canção, sob a frondosa mutambeira do grupo escolar Barão do Rio Branco que Nonato me viu e me deu a dica de uma passagem de tom na música que eu executava. Depois ele adentrou o ex-cine Territorial para ensaiar sua composição que seria a vencedora do festival, em parceria com o inesquecível poeta Alcy Araújo.

A modéstia do violonista é conhecida por todo mundo junto ao seu inominável talento que atravessou décadas encantando os mais diversificados públicos que tiveram a oportunidade de ouvir seu trabalho. Requisitadíssimo, Nonato Leal jamais se furtou a um bom convite para tocar, pois sempre soube se valorizar, embora nas rodas boêmias fosse um integrante como qualquer outro bom bebedor, um companheiro divertido que nem ao menos se zangava com as piadas que faziam sobre sua terra natal e lhe insinuavam ser o protagonista principal. Vigiense de boa cepa, até hoje adora um bom caldo de cabeça de gurijuba, ao qual atribui ser afrodisíaco, e a fruta do cedro, parecida com o taperebá, que considera o melhor tira-gosto para a cachaça.

Sua participação no crescimento da nossa música foi determinante. Nonato tocou em diversos grupos musicais, ao lado de instrumentistas famosos como Sebastião Mont’Alverne e Amilar Brenha, Hernani Guedes, Chico Cara de Cachorro e Zé Crioulo, Aimorezinho, Manoel Cordeiro e tantos outros. Tocava qualquer instrumento de corda: foi o primeiro artista do Amapá que vi tocando guitarra havaiana. Participou da gravação do LP “Marabaixo” do conjunto “Os Mocambos”, em 1973. Seu programa de rádio “Recital de Nonato Leal” por anos teve audiência assegurada nas rádios de Macapá. Mas foi como professor que disseminou o amor pela música a dezenas de discípulos que hoje ganharam o rumo da profissionalização musical, incluindo aí seus filhos Venilton e Vanildo Leal. Seu primeiro CD “Lamento Beduíno”, editado em 1997, com arranjos de Manoel Cordeiro, esgotou-se rapidamente. Nesse trabalho tive a honra de escrever um texto a pedido dele, do qual reproduzo o primeiro parágrafo:

Foto: Diário do Amapá

“A saudade de Macapá me fez sintonizar ao acaso a Rádio Neederland em uma noite fria e triste em Belo Horizonte no ano de 1974. De repente um solo de violão me chamou a atenção. Tratava-se de uma música com temática oriental, muito bonita e bem executada, chamada “Lamento Beduíno”, do professor Nonato Leal, de Macapá, Território Federal do Amapá, Brasil, dizia o locutor daquela rádio holandesa. Vibrei! Coincidência ou não a história mudou meu astral e motivou um porre de pavulagem bairrista. Pena que ninguém que eu conhecia tivesse ouvido o programa. Tempos depois soube que fora o radialista Edvar Motta que enviara uma fita com músicas do Nonato para lá”.

Foto: Verinha Leal

No dia 23 Vigia e Macapá estarão radiantes, não só pelas 80 “risonhas primaveras” do Nonato, mas pela generosidade musical que irradia desse artista excepcional, que merece mais do que uma comemoração. Merece o reconhecimento e a gratidão de todos que gostam da boa música.

*Republicado em homenagem aos 93 anos do mestre das cordas. Viva Nonato Leal!!

Live comemorativa

Para celebrar a data, o nonagenário e lendário violonista fará uma LIVE hoje, a partir das 19h. O show será transmitido pela rede social Facebook de sua filha, Verinha Leal, no endereço: https://www.facebook.com/verinha.leal?comment_id=Y29tbWVudDozNTg1NDg5ODc0ODM3MzUxXzM1ODU1MDY3NDE1MDIzMzE%3D

Para quem quiser contribuir voluntariamente com a arte, basta transferir qualquer valor para o artista. O número da Agência e a Conta Corrente estão no banner do show. Trata-se também de uma alternativa de entretenimento na quarentena e uma maneira de valorizar um dos maiores ícones da música amapaense, já que nestes tempos de pandemia os shows presenciais estão suspensos.

Elton Tavares

Amigos & Inimigos- Crônica firmeza de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

Sempre tive muitos amigos: de infância, de escola, de bar, amigos que fiz no decorrer de uma vida cheia de altos e baixos e que sempre pude contar com eles nas horas que precisei. Não se têm amigos só para jogar conversa fora, brindar em uma comemoração ou para fazer (in)confidências, às vezes mentirosas e desnecessárias. Nesse caso sempre a amizade vai por água abaixo quando uma confidência é espalhada pelos sete cantos da cidade. Já tive “amigos” que supus serem Amigos, que ajudei pensando estar fazendo um bem, e que a ingratidão deles brotou como espinhosa árvore na lavoura que tentei cultivar.

Não falo de inimigos, pois como os ex-amigos, eles não merecem a minha ira. Apenas desprezo o que não quero prezar. Eles são meramente pontos obscuros de referência na encarnação de um maniqueísmo torpe, trivial e vulgar. Amigo mesmo é para contar com ele na hora da necessidade, para se divertir, criar junto e imaginar um mundo melhor. Amigos bons nós desenhamos para que se tornem o modelo da nossa própria utopia.

Talvez fosse desnecessário este preâmbulo para falar de gente que gostamos de graça e nem fosse conveniente registrar numa crônica o apreço que sentimos por certas pessoas que às vezes, por gestos naturais e descomprometidos, nem sabem a extensão do bem que fizeram a nós em determinados períodos de nossa história pessoal.

É verdade que nesse caminhar encontramos amigos dos amigos que não são nossos amigos, mas que os toleramos por respeito à admiração pessoal ao amigo titular. Assim também é verdade que falseamos nossa conduta para não decepcioná-lo, embora acreditando que de falso em falso se chega ao cadafalso.

Machado de Assis dizia em “Ressurreição” que o tempo não conta para a amizade: “Que importa o tempo? Há amigos de oito dias e indiferentes de oito anos”. Talvez o tempo seja o que conta para quebrar os obstáculos que surgem na vida. E dizem que muitas amizades rompidas, um dia voltando, passam a ser mais do que eram, independentemente das diferenças do passado. Voltam mais sólidas e mais maduras. E passam a ver que sempre existiu alguém interessado nesse rompimento. Coisas de novela, mas também coisas da vida.

Pessoas que estimamos passam por provações e se tornam sábias sem saber se são, ou pelo menos não demonstram isso. Há as que têm as almas simples e vivem num mundo aparentemente sofisticado. Mas as almas dos amigos muito se assemelham a casas: algumas delas são cheias de janelas abertas, onde corre ar puro e luz, outras são como prisões, fechadas e escuras, mas que merecem nossa consideração e respeito, porque a alma entende-se a si mesma e o amigo vale a afeição que fazemos valer por ele. Uma alma, mesmo fechada, sempre traz uma luz que pode nos iluminar antes de banhar-se a si própria.

Amigos têm defeitos e mazelas. Por essa imperfeição mútua é que normalmente amizades se atraem, bem como pela admiração recíproca de cada um no seu desempenho social. Uns moldam outros, outros se espelham em alguém. Porém, na amizade só não pode existir a incorporação da personalidade do amigo.

Ela deve ser autêntica e eivada de respeito às idiossincrasias, inclusive pela solidão e ao silêncio do outro. Afinal somos seres em alteridades. Espíritos amigos voam na mesma direção da fonte original e bebem da mesma água fresca. Devem saciar sua sede bem antes que ela seja poluída pelos interesses pessoais de qualquer conspirador. A amizade só é possível pela oportunidade do encontro.

Meu amigo R sempre diz que os inimigos são necessários, pois nos ajudam a refletir para que melhoremos. Não discordo, porque entendo que a vida é uma constante dialética. Mas não ando à caça de inimigos.

Alguns cruzam meus caminhos em momentos que não criei. E, como não tenho um cemitério para enterrá-los como um certo personagem de Jorge Amado, eles que cavem suas próprias sepulturas e façam de suas mortes um renascimento.

A Racionalização de Sentimentos – Por @Cortezolli (republicado por hoje ser o Dia do Amigo)

Por Hellen Cortezolli

Tem amigos que você não consegue identificar quais das qualidades deles mais te agradam, apenas gosta da pessoa e a quer por perto.

Tem também amigos que completam o que falta em você, te apresentam outros pontos de vistas, novas possibilidades.

Quando você se apaixona por alguém, quer que este alguém aprove seus amigos e vice-versa. Já que estes últimos são a família que você escolheu. Então, partindo desse pressuposto, é possível identificar o que falta em si mesmo, o que falta neles que você consegue completar, o que os motiva a alimentar sempre essa amizade e não importa a distância ou qualquer outro artifício… Seu desejo é manter a paz entre as pessoas que ama e ponto.

Aprendi muito com os amigos que tenho… Aprendi também com os inimigos e pessoas que não eram nem uma coisa, nem outra. O que importa é que aprendi… E isso me pertence!

Então, as situações novas ou não tão novas assim, são expostas e expõem você, te testam e com base no aprendizado… se pode evoluir…

Tá. O papo parece coisa de gente convertida, só que não é… Rsrs. É outra vibe, é melhor.

Quanto a algumas pessoas, você apenas não quer desistir delas, porque alguém, em algum momento não desistiu de você. A ação se assemelha àquelas voltas que a roda do mundo completa, ou o movimento de translação da terra… Escolha a sua própria teoria e não queira tudo mastigado também.

Enfim… Te ajudou, te reergueu, com uma palavra, um gesto, uma expressão que o sacudiu, não importa como, foi útil. E, você precisa pagar, ajudando quem quer que seja. Sei lá, tudo tem um preço.

Essa viagem meio sem nexo, serviu para dizer que ontem tive vontade de bater em alguém de quem gosto, queria que a pessoa em questão acordasse, parasse de sentir pena de si mesma, ouvisse as barbaridades que disse sobre quem é… Aprendesse a se amar antes de qualquer coisa.

Então, respirei fundo: E não o fiz!

Não é do meu feitio a agressão física, prefiro a psicológica ou a verbal, duram mais… Tá, atirar coisas até rola, mas bater, não.

Lembrei do Eltão na hora… por se tratar de um amigo que nunca desistiu de mim, que nunca me abandonou quando estive no limbo. Que é minha versão masculina na “porralouquice”, mas também por equilibrar muitas vezes minha fúria infundada, com um deboche apropriado.

Amizade não se agradece, como o Ewerton França me ensinou… Mas, eu precisava muito compartilhar contigo e com quem tiver capacidade emocional e intelectual para entender, que minha família é importante, que a família que escolhi é tanto, quanto. E que sou grata às conspirações do universo por te ter como meu amigo!

Te amo!

*Hellen Cortezolli – Jornalista
**Republicado após uma conversa hoje, mais cedo, com a querida amiga.

Use com moderação – Crônica de Luli Rojanski

Crônica de Luli Rojanski

Abra a porta da minha vida com firmeza, mas não abra mão de entrar de vez em quando pela janela. A primeira coisa que vai me encantar é sua atitude. A segunda, suas garras de tigre. Eu gosto do olhar distraído, mas cuide de onde e quando vai acionar o off, pois embora eu adore seu braço tatuado e o desenho pós-moderno de sua boca, meu tesão maior é por seu cérebro. Nunca pense que sei menos porque falo pouco ou que sei muito porque mostro profunda concentração. Costumo olhar mais para os barcos que passam do que para a teoria do caos. Em compensação, sei dizer duas palavras em polonês: Mój Kochany – Meu amor.

Lembre-se sempre da data do meu aniversário, mas jamais mencione quantos anos eu tinha quando você nasceu. Acredite na minha infância, você vai notar que ela ainda existe! Não ria quando eu falar da encarnação em que fui rainha porque, se você prestar bem atenção, vai ver que trago resquícios de uma altivez real. Portanto, me reverencie, às vezes, porém sem se curvar diante dos meus caprichos, porque eu costumo enjoar da submissão. Mais do que flores, me dê garantia de duradoura libertinagem, de doses diárias de afagos na nuca. Em minha presença, você só deve olhar para mim, ainda que estejamos na presença de uma superstar. Quer olhar para outra mulher? Olhe para Martha Medeiros, pois com ela eu não exitaria em dividi-lo. Mas se ainda assim quiser olhar para outra, que seja só para constatar que eu sou muito melhor!

Não precisa gostar de futebol apenas porque eu gosto, mas jamais torça contra meu time. Tenha noção de tempo, e nunca pergunte as horas quando estiver na cama comigo. Tenho muitas manias, mas não a do amor apressado nem a do sono antes da meia-noite. Depois, o que pode haver além de nosso mundo quando estivermos sobre um lençol com a estampa de uma partitura em allegro*?

Não me deixe brigando sozinha. Eu posso pensar que você não é de nada. Discuta à altura, mas não esqueça de que no final das contas eu tenho razão. É o único modo de eu reconhecer que a razão é sua. Goste de carne vermelha malpassada, de lasanha de espinafre e de pudim de maracujá, ou nunca poderemos jantar juntos. De minha parte, prometo gostar imensamente de rúcula, de tomate seco e de pão integral. Perceba e elogie a mudança de cor dos meus olhos, conforme a luz do dia ou de acordo com meu humor, mas jamais diga que estou com olheiras. Desnecessário. Tenho em casa vários espelhos.

Seja sempre terno, doce e inusitadamente louco. Adoro quebrar a mansidão com uma pegada bem firme, sair da rotina com um convite à pirataria, a um bar imaginário, ao heavy-punk-trash-rock. Cante pra mim ao telefone, me conte de quantas seitas foi adepto, confesse que tomou Daime, que fez picolé de cogumelo e que adorou cannabis no narguilé. Mate-me de rir de sua cueca nova, me sirva pão com ovo e café com leite pela manhã, pois eu sou de carne e osso, embora adore fazer você pensar que nasci no Olimpo. E nunca se canse de repetir que me ama “bem muito”. Acredite: vai sempre funcionar!

*Andamento musical leve e ligeiro.

**Crônica do livro Pérolas ao Sol – 2017.

Os sonhos podem esperar – Crônica de Evandro Luiz

Crônica de Evandro Luiz

Havia 20 anos que os irmãos, Saul Weiner, de 39 anos de idade, Saulo, com 34, e Josué, com 30, não visitavam o pai na fazenda de búfalo na ilha do Marajó. Salomão, patriarca da família Weiner, era português. Mandou os filhos para estudarem na terra natal. Depois de formados, eles preferiram ficar na grande metrópole.

Foto: Revista Portuária – Economia e negócios

Os três engenheiros trabalhavam no porto de Lisboa, o mais movimentado do país. Salomão construiu no meio da selva uma pousada de luxo. Tinha piscina com água morna, pesca esportiva e caça ao porco do mato. Era tão caro que a maioria dos hóspedes era de estrangeiros, e como dizia Francisco, capataz da fazenda, só quem tinha lastro financeiro para permanecer naquele local eram os gringos.

Foto: Mayk Alves

Para os serviços domésticos, Salomão Weiner aproveitou e contratou a mão-de-obra local. A região era rica em buriti, uma árvore que dava um fruto do qual se aproveitava tudo. Um empresário de Teresina, Piauí, era quem monopolizava o comércio desse produto. A saca da fruta de 60 quilos, por exemplo, era trocada por seis latas de leite. E tinha ainda agricultor que não conseguia pagar a dívida. Foi aí então que Josué Weiner percebeu o potencial da fruta, e o serviço análogo à escravidão a que os catadores de buriti eram submetidos. Ele não só incentivou, mas também ajudou a comunidade a criar uma cooperativa.

Foi construída uma fábrica para extrair todo o potencial da fruta. Com o buriti se podia fazer doces, extrair o óleo de cozinha, cosméticos, ração para animais, servia também como pasta medicinal. Em uma manhã do dia 29 de fevereiro, a fábrica foi entregue à população daquela comunidade. É comum os povos da floresta serem supersticiosos. Muitos não gostaram do dia da inauguração por se tratar de uma data que só aparecia no calendário a cada quatro anos. Para eles, o ano bissexto não traz muita sorte.

Durante dois anos a fábrica explorou tudo o que o buriti poderia oferecer. Mas em uma noite silenciosa dentro da floresta, uma sequência de explosões despertou sentimentos não muito bons. Os moradores da ilha acordaram e correram em direção à fábrica. Incrédulos viam seus sonhos virarem cinzas. Chamas de mais de três metros impediam – tamanho o calor – a aproximação dos moradores que tentavam de qualquer maneira apagar o fogo. As investigações nunca chegaram a uma conclusão: se foi um acidente ou um ato criminoso. Durante muito tempo, os moradores se reuniam em volta do que sobrou da fábrica como um ato ritualístico.

Lá foi tomada a decisão de que os homens viriam para uma vila onde estava sendo construída às margens do grande rio uma obra muito grande. Apenas uma mulher, Madalena, faria parte da expedição. Os moradores diziam que ela sabia tudo. Tinha visões e conseguia prever o futuro. Na realidade tudo o que achava relevante ela anotava. A escriba já sabia que existia uma lenda do romance proibido entre uma índia e um filho de capitão do mato.

De repente, do meio de uma névoa, aparece um grande barco azul que deslizava sobre as águas do rio com uma insustentável leveza de quem transporta o amor e a esperança. Quando os barcos se cruzaram, Madalena fechou os olhos, sentiu um frio correr todo o corpo e caiu. Acordou chorando dizendo que a esperança estava indo pra bem longe da vila e que durante um longo período, onde é cultivado o ódio, ranço e vingança, a vila ia caminhar a passos lentos. Atracaram o barco em um igarapé, e viram que o serviço na grande obra era carregar pedras e aí, eles desistiram. Criaram uma pequena vila de pescadores que abastecia o povoado.

Depois de quase um ano na ilha, Saul Weiner e os irmãos Saulo e Josué retornaram à Portugal e deixaram a certeza de que nunca mais voltariam à vila. Dois anos depois que os filhos partiram, Salomão Weiner morreu de pneumonia sentado em uma cadeira de balanço de frente para o grande rio. Ele acreditava que o misterioso Barco Azul a qualquer hora ia aparecer de dentro de uma névoa.

Hoje é o Dia Nacional do Homem (parabéns aos que são bons)

Hoje é o Dia Nacional do Homem. Data curiosa, pois para mim, todo dia é dia do homem, da mulher, da criança, do amigo, das mães, das avós, etc. Mas já que existe e neste site temos uma sessão chamada “Datas Curiosas” e algumas são justas homenagens a profissionais de determinada área ou de utilidade pública, vamos lá.

A data foi criada com o objetivo maior de reforçar os cuidados com a saúde dos homens (inclusive fazer exame de próstata). O Brasil é o país onde mais se comemora esse dia, porém, ele não tem uma repercussão tão grande e nem é tão comentado quanto o Dia das Mulheres.

Bom, sobre o objetivo da data, nunca fui de me cuidar muito. Sobre os homens, conheci muitos de grande valor nessas quase quatro décadas e meia de vida. E alguns que não valem a pena nem lembrar.

Aliás, na minha família, tenho bons exemplos de como ser um bom ser humano. Meu irmão Emerson costuma dizer que nosso pai, que hoje em dia vive em nossos corações e memórias, nos ensinou a ser caras bacanas. É verdade!

Porém, uma mulher me ensinou – mais que qualquer cara – a ser um homem de verdade, a minha mãe. Sou grato aos meus pais pelo que sou. Graças a eles, não sou desonesto, traidor, caguete, vadio, entre outras tantas vertentes de pilantras.

Mesmo não sendo – com o perdão do gerúndio – politicamente correto, faço o que é preciso para tal, dentro das normas, leis e valores que absorvi durante minha educação.

Sou um homem do bem. Ou pelo menos tento, com todas as forças. É verdade que não me dou muito bem com os canalhas, mas acredito ser uma boa pessoa.

Enfim, levo a vida dentro do meu conceito de justiça e coerência, sempre agindo de forma correta. Aliás, conheço muitos homens (assim como mulheres, mas hoje é Dia do Homem…) que não são exatamente “normais”, mas são caras porretas.

Os caras da família Tavares. Meus parentes e amigos. Todos homens bons.

Feliz Dia do Homem aos caras que valorizam a família e os amigos. Que trabalham e batalham sem lesar ninguém, que respeitam seus iguais, sejam figurões ou pessoas menos favorecidas. E aos que não fogem à luta e que são homens de verdade.

Elton Tavares

Sempre houve Rock And Roll… – Por @RicardoMacapa #DiaMundialDoRock

Não sou músico, mas adoro música, sobretudo a boa música, além da minha preferência pelo rock and roll. Então hoje falarei sobre música clássica… Bom, daí você perguntaria – O que tem isso a ver com o Rock ?? Tudo, eu respondo!

Na verdade, há muito de música erudita em várias canções do pop/rock. Isso muitos de vocês já sabiam ou perceberam, pois com certeza já ouviram arranjos sinfônicos clássicos orquestrados, ou não, em várias canções e apresentações de bandas maneiras como Pink Floyd, The Who, Queen, U2, Radiohead, Metallica e Coldplay… Só pra citar algumas.

Muitos dos meus amigos não curtem ou não conhecem música clássica. Acham o estilo enfadonho, repetitivo, e que só gente boçal, fresca e metida à inteligente é quem escuta este tipo de música (risos).

O que eu gostaria de propor aqui é um outro prisma nesta leitura/audição. Procurando perceber que há muito de rock and roll na “velha” música clássica… Quero iniciar a conversa, analisando algumas obras primas deste estilo enviesada no que conhecemos hoje como Rock ´n Roll (no que tange a quebras/rupturas, rebeldia e força).

Muitos compositores eruditos também tinham uma veia revolucionária, no contexto de seus tempos, seja nas questões política, social, filosófica ou mesmo em se tratando da própria música à época. Composições como “Cavalgada das Valquírias” de Richard Wagner, a Sinfonia Nº 9 de Ludwig Van Beethoven e “As Quatro Estações “ de Antônio Vivald são exemplos de quebra de paradigmas e propostas de mudanças nas composições clássicas (lembrando que naqueles tempos a mínima quebra já era considerada uma grande afronta) e que trazem consigo esse viés revolucionário do Rock (mesmo de forma inconsciente e atemporal) .

A “Cavalgada das Valquírias” é por si só uma apologia à força do Rock, tendo sido tema no Filme Apocalipse Now, na famosa cena da chegada dos helicópteros à praia, observem:

A 9ª Sinfônia de Beethoven (o qual concluiu esta magnífica obra quando já estava completamente surdo) por sua genialidade, grandiosidade e força para mim está equiparada a shows de rock como o Pulse do Pink Floyd…

“O Inverno” em “As Quatro Estações” de Vivald, que era conhecido pelo apelido de Padre Ruivo (por ser clérigo e de cabelos avermelhados) é o maior exemplo desta minha análise… Em seus 1º e 3º movimentos, mostra a força vibrante dos violinos equiparando-se a magistrais solos e distorções de guitarras de grandes nomes do Rock. Esta é minha estação do ano favorita quando o tema é “As Quatro Estações”…

Sei que o assunto é um tanto complexo para ser tratado apenas em linhas gerais neste texto. Quis aqui provocar um pouco o debate… E sei que este merece uma boa reflexão acerca, acompanhado de saborosas pizzas e cervejas estupidamente geladas no Bar do Francês (bons tempos com o Eltão, no Bar do Francês).

Para os amigos (as) que ainda não curtem música clássica, indico sempre começar por “As Quatro Estações” de Vivald. É como indicar Pink Floyd para um jovem que quer aprender a gostar de Rock (risos) !! E também indico as músicas elencadas aqui neste post… Espero que possam apreciar a música clássica por um novo olhar/audição daqui para frente…

Um abraço a todos, até a próxima e viva o Rock !!

Ricardo Ribeiro, amigo apaixonado por Rock’n’roll.

Sobre a Origem do Rock e do Dia Mundial do Rock #DiaMundialDoRock

Amamos Rock and Roll e hoje (13) é o Dia Mundial do Rock. No dia 13 de julho de 1985, o produtor Bob Geldof organizou o “Live Aid”, um show histórico e simultâneo, realizado em Londres (ING) e na Filadélfia (EUA). O objetivo era o fim da fome na Etiópia. Lá se vão 35 anos do show que mudou a história do rock.

Em 2005, Bob Geldof organizou o Live 8, para pressionar os líderes do G8 a perdoar a dívida externa dos países mais pobres Desde então, o dia 13 de julho passou a ser conhecido como Dia Mundial do Rock. Vamos resumir a ópera (tudo bem, é um resumão, mas vocês vão curtir):

Sr. Jazz e Sra. Blues

Há cerca de 70 anos, um casal de velhinhos, casados desde o fim da segunda guerra, ambos de pele escura, donos de vozes graves e um jeito simpaticíssimo, risonhos e alegres, que adoram “mexer as cadeiras”, como eles mesmos dizem, brigavam com uma vizinha, a Senhora Música Clássica. É, o Sr. Jazz e Sra. Blues não eram fracos.

Reza a lenda que quando eles saiam por aí juntos, ninguém era de ninguém, e por isso, até hoje é difícil saber quem são os verdadeiros pais dos quatro garotos que brotaram dessa relação tão moderna. O Rockabilly, Rock Progressivo, Hard rock e Rock Pop.

Rockabilly

Rockabilly, o irmão mais velho, herdou dos pais a incansável vontade de dançar. Na adolescência andou muito com um dos seus irmãos, o Rock Pop. Usava calça boca de sino, topete e óculos escuros, mesmo quando não fazia sol. Fez um tremendo sucesso entre as garotas quando jovem, mas se tornou um velho gordo.

Rock Pop

O Rock Pop está sempre na moda, mas quando quer dizer algo, se perde em suas contínuas mudanças de opinião. Já andou com todos os seus irmãos, mas sempre teve problemas com o Rock Progressivo. O que se sabe, é que ele está sempre montado na grana e quem anda com ele, sempre se dá bem financeiramente. Rock Pop é viciado em dinheiro e se vende por qualquer coisa. É normal ouvir falar por aí que ele é um enganador, mas nunca ninguém conseguiu uma prova concreta.

Rock Progressivo

O Rock Progressivo, por sua vez, está na cara, no corpo e no jeito de ser de um legítimo filho do Sr. Jazz e Sra. Blues. É um cara exibicionista, adora se “amostrar”, fazendo inúmeras loucuras. Às vezes, fica chato por demorar muito tempo em suas loucuras, só porque é difícil de fazer. Isso causa irritação em muitas pessoas, mas no fundo, é um cara bacana.

Hard Rock

O Hard Rock é o mais revoltado da família. Às vezes, no meio da diversão se torna meio dançante. Cabeludo, adora usar lenço na cabeça, maquiagem e vive fazendo poses homossexuais. Alguns o chamam de gay, outros dizem que ele só se comporta assim para causar impacto. O que se sabe é que na adolescência, ele era ninfomaníaco e usou e abusou das drogas. Mas logo casou e teve dois filhos. O primogênito Heavy Metal e o caçula Punk Rock.

Heavy Metal
Punk Rock

No meio disso tudo, a vizinhança comenta que o Sr. Blues teve um namoro sério com uma ativista política, e dessa relação surgiu o Rock, simples assim. Um rapaz afoito, naturalista e espontâneo. Nunca teve papas na língua e dizia exatamente aquilo que pensava. Às vezes era muito relaxado, tentou ser igual ao pai, mas não teve sucesso nessa tentativa e se frustrou. Surgindo daí um sentimento de revolta meio contido, que só era observado nas entrelinhas.

Dependendo do seu humor, ele não tá nem aí para nada. Fala de igualdade e exalta idéias comunistas. Este teve dois filhos com uma namorada linda e problemática. O Grunge e o Hard Core.

O Hard Core adora andar de skate pela casa, quebrando tudo, porém é um cara organizado, gosta de filmes de surf e tem o corpo todo tatuado. Às vezes fica meio EMOtivo e reclama muito da vida, mas todos sabem que é por causa da namorada que o trai o tempo todo.

Grunge

O Grunge é melancólico por natureza, também reclama muito da vida. Está na puberdade e por isso a sua voz desafina constantemente. Ele costumava levar a vida de uma forma suicida, anda dizendo para todo lado que nada importa…nevermind!!

Heavy

O Heavy Metal é um alcoólatra fortão, cheio de tatuagem de caveira pelo corpo. Adora andar a toda velocidade na sua Harley Davidson. É uma aficionado pela Mitologia Nórdica, Ocultismo e odeia a Igreja Católica. Alguns dizem que ele tem um pacto com o Diabo. Pois tem uma voz grave, mas quando grita, fica tão aguda que é capaz de quebrar os vidros do espelho. Tem fama de malvado, mas na verdade, não é. Trata-se de um cara gente boa, que se dá bem com todo mundo. Ele teve vários filhos: Thrash , Melódico, Prog Metal, Death, Black, Doom, Gothic, todos são muito unidos.

E isso aí, demos uma viajada, mas o que importa é que amamos o Rock and Roll. O estilo é fundamental para nós e nossos amigos. Costumamos comparar o Rock com o Universo. Os dois estão em constante expansão e em alta velocidade. Dizem por aí que o Rock morreu, ele nunca morre, só está em constante mudança, assim como nossas vidas.

É o velho lance de superar momentos difíceis, voltar com força total. Assim Raul, o pai do rock nacional, inventou o termo “metamorfose ambulante”. Ele se descreveu como pessoa e usou isso para explicar o rock and roll. O rock é imortal, ele nos salva da mesmice, basta protegê-lo de mãos erradas. Enfim, viva o rock and roll!

*Texto escrito há oito anos a quatro mãos por mim, Elton Tavares e André Mont’Alverne, nosso antigo colaborador.

Sobre poesia e vida na quarentena – Crôniqueta poética de Pat Andrade

Crôniqueta poética de Pat Andrade

Não sei ao certo como é pra maioria dos poetas, mas a poesia é sempre válvula de escape pra mim. Através dela me manifesto, me sentencio, me absolvo. Me mato, morro e me ressuscito todo os dias.

Nesta quarentena, a poesia tem sido também tábua de salvação. Agarrei-me a ela como nunca; mas, às vezes, me escapulia. Não havia braços, mãos ou dedos que me fossem estendidos de volta. Aí, ficava sem escrever. Simplesmente não conseguia.

Talvez porque minha poesia tem inspiração no cotidiano; na vida pulsante e corrida; no universo que me cerca. De uma hora pra outra, tudo isso mudou. O universo reduziu-se à casa – que é minúscula; meu tempo continuou correndo – mas de um jeito diferente – e o cotidiano também se modificou profundamente. Ainda bem que a gente tem a capacidade inata de se adaptar. Ainda estou fazendo isso.

Sobrevivo da poesia. Não só da minha poesia, bem entendido. Mas de toda a poesia que me chega. Pela janela aberta do quarto, pelo livro ao lado do travesseiro, pela obra vendida nas redes sociais, pelo olhar do meu gato (que não é meu de verdade), pela risada do meu filho, pela doce palavra de um amigo querido ou por um gesto mais ríspido que a vida me reserva. O fato é que sobrevivo.

Melhor idade é a minha! – Crônica de Lulih Rojanski

 

Crônica de Lulih Rojanski

Sonhei que encomendavam uma missa católica para os meus 50 anos, no intuito de me fazer esquecer a ideia de realizar no quintal de minha casa a maior cachaçada de que já se teve notícia. E o padre iniciava a missa assim: “Caríssimos irmãos, estamos aqui reunidos para celebrar a ressurreição de Jesus Cristo e os 50 anos de Lulih Rojanski.” Faço aniversário perto da Páscoa, mas confesso que, no sonho, por esta eu não esperava. Muito menos acordada. E havia um momento em que eu me pronunciava para os fiéis, dizendo a seguinte pérola: “Ter 50 anos é o equivalente a ter 15 anos… 15 anos é a melhor idade da juventude, o princípio de tudo. 50 é a melhor idade da maturidade, outro princípio…” Depois disso, eu tinha uma crise de soluços e a missa terminava, do nada. Coisa de sonho.

Quando acordei, a primeira coisa que fiz foi agradecer a Jesus Cristo por já ter 54. Missa dos 50, só em pesadelo! Mas fiquei pensando no que disse no púlpito, e em dado momento comecei a encontrar certa lógica na filosofia da melhor idade. Minha amiga Elaine vive dizendo: “Melhor idade é o cacete!” Concordo com ela, em parte. Nem 50 nem depois deles é a melhor idade. Nem os 20 ou 30. Nem idade alguma! Acredito que a maturidade tem realmente algo de muito especial, mas a melhor idade é qualquer uma. Aquela em que você se sente realizado e bem-sucedido, seja lá o que bem-sucedido lhe signifique.

Para mim, por exemplo, que sou bastante dada a buscas de harmonia e paz interior, que enfeito a casa com mandalas e mensageiros do vento, que uso japamala e entoo mantras, ser bem-sucedido é passar o fim de semana deitada no gramado, olhando a luz entrar pelas copas das árvores, subitamente esquecida da existência dos calendários. É ter um sono feliz depois de 15 minutos de meditação. É não sofrer por não ter, compreendendo que ter não passa de ilusão. E por aí vai.

Elaine não quer saber de minha opinião sobre o “bem-sucedido”. Já a ouviu uma vez e me mandou me lascar várias vezes. Para ela, Ganesh é só um elefantinho afeminado, meditação é para quem não pode comprar aparelhos eletrônicos, e cantar mantras é coisa de maluco beleza que viaja de Kombi. Ignoro Elaine. Quando quero espantá-la de minha casa, acendo um incenso de pau santo.

A melhor idade chega a qualquer momento para quem ousa transformar a vida para se sentir feliz. Tem gente, por exemplo, que morre aos 100 anos sem nunca alcançá-la. Coincidência ou não, a minha é agora. Mas pretendo esticá-la até os 117.

PERTO DA COBAL, O ABREU – Crônica de Fernando Canto

Pensei que seria o antigo Bar do Abreu, na esquina da extinta Cobal (parece muito), mas o jornalista João Lázaro elucidou que na verdade essa foto é do Bar Caboclo. Deixei aqui somente para ilustrar. Foto: SelesNafes.Com

Crônica de Fernando Canto

– “Perto da Cobal”. Era a indicação, código, informação, referência. Assim a gente se comunicava naquela época, no início dos anos 80, para se encontrar e bater um bom papo nos finais de tarde do gostoso bairro do Laguinho, atrás da sede dos escoteiros. O bar do Abreu ficava na esquina da Odilardo Silva com a Ernestino Borges.

Zé Ronaldo Abreu e Liete Silva

Creio que o Zé Ronaldo nem imaginava a importância que tinha o bar, naquele momento gerenciado só por ele, terminada a sociedade Rodrigo & Ronaldo na antiga lanchonete e açougue RR. Rodrigo foi para o Pacoval e Ronaldo ficou no Laguinho ajudado pelo seu dentuço irmão, um adolescente muito legal chamado Marquinhos.

Foto: Blog Direto da Redação

Pode-se dizer que o bar tinha um “chama”, que atraía boêmios, artistas e intelectuais, políticos e malandros, como qualquer bom bar. Era uma espécie de casa da mãe, útero, boate, palco e tribuna. Algo meio surrealista: enquanto o Hélio lançava o seu livro os fregueses das redondezas compravam cupim ou alcatra entre um pronunciamento emocionado do Pedro Silveira e um riso tímido do Alcy. E assim escutavam o Grupo Pilão e os toques mágicos das violas do Nonato e do Sebastião.

Bêbados contumazes, como dizem os jornalistas, costumavam encher o saco dos fregueses contumazes e comportados, acostumados a beberem após as 11 horas de sábado. Vinham do Jussarão, dum tal bar de chorinho do Noé (quando ele ainda era boêmio), duma tal Dama de Macapá e de outros bares com nome de Quebra-Mar ou coisa que valesse. E falavam, e exigiam bebidas, e vomitavam e dormiam. Só a paciência do Ronaldo era a mesma de Jó. Um guardanapo de pano atravessado no ombro, um sorriso e o gesto de limpar a mesa amainavam as tentativas de exasperação de fregueses chatos, e principalmente daqueles que adoravam se exibir falando inglês mas espalhavam perdigoto.

O bar era sério como qualquer bar sério. Porém só veio a ter o nome atual quando um velhinho simpático e meio atrapalhado, pai do Ronaldo e do Marquinhos ficou por trás do balcão, dando descanso aos dois. Era o seu Abreu, que logo se tornou amigo de todos. Dos homens e das mulheres, dos bêbados e dos inconformados, dos santos e dos capetas. Um homem que muitas vezes era importunado às quatro horas da manhã por alcoólatras para a primeira dose do dia, mas que fazia da sua profissão de dono de bar um sacerdócio, como dizem os assistentes sociais e os políticos agnósticos.

Caricatura do artista plástico Wagner Ribeiro

E como todos sabem o bar do Abreu era um bar itinerante, como diziam os advogados e os vagabundos líricos. Já rodou meio mundo macapaense, fazendo histórias e presenciando casos de amor e de morte, juntando paixões e separando olhares, refazendo vidas e acompanhando vitórias e derrotas de times e de jogadores. Viu amores entre militares e garçonetes, entre pintores e enfermeiras, observou transeuntes eventualmente entrando no bar para matar sua sede ou engolir uma moela guisada, antiga especialidade da casa.

Foto: Renato Ribeiro

Depois de mudar de lugar o bar tinha nas paredes televisores enormes; quadros impressionantemente horríveis, como diria o esteta, e uns fregueses que achavam bonito tudo o que o Bolachinha imitava nas madrugadas em que se refugiava para não imitar a si próprio.

Antigo Bar do Abreu, na Avenida Fab – Foto: blog O Canto da Amazônia

Este era o bar do Abreu que conheci desde sua inauguração em 1981. Um bar feito com categoria e estilo que proporcionava união, contradição e o ato de beliscar a lua, montado no sonho dos fregueses, ouvindo “a música das moedas deslizando nas máquinas caça-níqueis do Eduardo”, como poderia dizer o Max Darlindo cantando um samba bem alegre. Um local onde o freguês tinha o rei na barriga e o imperador na boca, onde quem bebia sem brindar ficava três anos sem transar, onde quem brindava sem beber ficava três anos também sem. Onde um “murmúrio ofegante” do celular do Bira Burro era escutado a 100 metros de distância. “Ali há uma ilusão para continuar jogando”, dizia o Tavares ao observar o prefeito atravessando a rua para “tomar uma” no bar.

Bar do Abreu em festa, de volta a Avenida FAB – 2015

O rodízio citadino do bar do Abreu infelizmente cansou, ficou sem fôlego na pandemia e fechou suas portas. Mas bar é um fênix. Certamente um dia volta com outro estilo. E o velho balcão de inúmeras conversas e grandes alegrias estará lá como imã atraindo os velhos fregueses.

Foto: Tica Lemos

– “Égua”! Eu exclamo agora ao lembrar que o “perto da Cobal” confunde e troca o espaço pelo tempo em quase 40 anos que o mundo rodou dentro e fora de mim, para que pusesse referência nos passos que dei pela vida e nas construções que a lida diária, as reflexões e os bons amigos me proporcionaram realizar.

A fé das crianças – Por Daíse Lima – @DaseLima2

Por Daíse Lima

A menininha de grandes olhos verdes, sentada no colo da mãe, ao meu lado no ônibus sorriu para mim e disse:

– Oi. Qual é o seu nome?
– Meu nome é Daíse.
– Nossa! Eu nunca ouvi esse nome.
– Nem eu. – respondi e ela sorriu. – E o seu nome qual é?
– É Maria.
– Nossa! Eu nunca ouvi esse nome. – brinquei.
– Mas tem um monte de Maria. Minha professora chama Maria, minha tia chama Maria, a tia da cantina também chama Maria. Tem um monte.
– É verdade. Tem mesmo. Eu tinha esquecido. Eu sou muito esquecida!
– A minha mãe também é. – e a mãe dela sorriu para nós. – Qual é o seu nome mesmo? – a menininha perguntou.
– Já esqueceu? Acho que você também é esquecida.
– É que seu nome é difícil. – e ela deu dois tapinhas de leve na testa, como se dessa forma a ajudasse a se lembrar.
– Meu nome é Daíse.
– É mesmo. Você tem vô, Daíse?
– Não tenho. – respondi torcendo para que ela não perguntasse porquê eu não os tinha. Eu não queria falar da morte. Essa é conversa para a mãe. E ela não perguntou.


– Eu tenho um vô.
– Que legal! E qual é o nome dele? Ou você já esqueceu o nome dele?
– Não! – ela sorriu. – O nome dele é Raimundo.
– Que nome bonito que ele tem.
– É
– Ele mora aonde?
– É um pouquinho longe. Tem que ir de ônibus. Eu tô indo lá na casa dele. A gente vai todos os dias, né, mãe? – a mãe concordou com a cabeça. – A minha mãe vai fazer comida para ele e dar banho nele.
– Entendi. Ele já está bem velhinho.
– Mas ele é adulto. Só que ele é criança. Ele não fala e não anda. Ele fica o dia todo deitado assistindo televisão, mas quando eu chego lá a gente assiste desenho. Ele dá risada com os desenhos. Quando ele aprender a falar e a andar eu vou passear com ele lá na praça. Você sabia que eu ensinei ele a falar o meu nome?
– É mesmo?
– É. Quando eu chego ele fala Má, não é, mãe? Logo ele vai aprender a falar.

A mãe sorriu triste para mim. E eu pensei: a fé das crianças.

*Daíse Lima é uma escritora baiana que vive em Sampa desde pequena apresentada a mim pela cantora, compositora, poeta e atriz (amiga minha), Sabrina Zahara.

Seis anos da Maitê: agradeço a Deus pela vida dela. Feliz aniversário, princesa e amor da vida do tio!

Todas as pessoas grandes foram um dia crianças. Mas poucas se lembram disso”, disse o escritor Antoine de Saint-Exupéry, no livro Pequeno Príncipe. Sobre isso, lembro bem, assim como o meu irmão Emerson. E, talvez esse seja um dos motivos que fazem dele e de minha cunhada Andresa Ferreira (que também tem genitores exemplares), pais tão maravilhosos para a pequena Maitê Ferreira Tavares, que gira a sua gita roda da vida hoje e completa seis anos de idade.

Ela é a princesa e amor da minha vida. Aliás, das nossas. E aí incluo a minha mãe também, que é uma avó apaixonada.Nunca vou me esquecer daquele momento, quando conheci Maitê, que tinha somente um mês e 11 dias de vida. Foi amor à primeira vista.

Desde então, entendo os meus amigos que têm filhos, entendi o sentimento dos meus pais e olho diferente para as crianças. E amo “a pureza da resposta das crianças”; elas são realmente um barato. Incrível como pequenos seres despertam os melhores sentimentos em nós, adultos de coração duro.

Quem me conhece sabe que sou doido por aquela molequinha. Sempre perspicaz, ela vive com suas antenas ligadas. Apesar da pouca idade, Maitezinha é uma figura. Linda, inteligente, cheia de traquinagem e com sacadas impressionantes para alguém que chegou ontem neste mundo.

Aliás, por falar em mundo, toda vez que falo com ela – o que ocorre quase todas as noites – me apaixono de novo por ela e pela vida e assim reforço minha esperança no futuro. Sempre que falo com ela, esqueço dos amargores da vida.

E por falar em futuro, este texto é pra ela ler daqui a um tempo e se lembrar que todo o amor que existir dentro de mim, é dela. Maitê é uma bênção. Uma mistura de bom humor, gaiatice, doçura, inocência (claro), desconfiança (quando não manja das pessoas e lugares), inteligência, sapequice e ternura.

Já disse e repito: Maitê é amada e reflete isso – com aquela luz que só o amor sabe dar. Apesar de morar com seus pais em Belém (PA), “longe, longe, longe (aqui do lado), NADA NOS SEPARA”, nem o maior rio do mundo. Quando a falta dela aperta, o WhatsApp ou ligações telefônicas amenizam nossas saudades.

Era pra gente estar com ela hoje, mas a pandemia foi mais forte que a distância. E, apesar das saudades, o amor pela pequena lindeza só aumenta a cada dia e hoje estou muito feliz por ela estar saudável e ser essa criança maravilhosa. Nossa princesa desperta o que há de melhor de nós e reforça ainda mais nossos laços de amor.

Dia desses, conversando com a mãe dela, Andresa me disse que as duas estavam assistindo a um filme da Disney e a Maitê disparou: “mamãe, eu sou uma princesa”. A cunhada sorriu e responde que sim. E a sobrinha mais linda do mundo concluiu: “é, eu não tenho esse castelo aí do desenho, mas o meu tio sempre me fala que sou a princesa dele”. Nós rimos. E de fato, ela reina no meu mundo.

Por tudo dito/escrito acima agradeço a Deus pela Maitezinha. Ela é um dos meus fios condutores com ELE. E aqui fica a pequena homenagem do tio, que não dá conta de resumir tanto amor em apenas um texto de felicitações.

Meus parabéns, Maitê. Titio ama-te de forma desmedida. Feliz aniversário!

Elton Tavares

Como foi que eu perdi você? – Crônica de Evandro Luiz

Foto: Nathalia Rodrigues

Crônica de Evandro Luiz

Paulo Fontenelle era de Guarapuava, no Paraná, que até os dias de hoje mostra através de construções espalhadas pela cidade a forte presença espanhola na região no século XDC ( século 19). Ele tinha 34 anos, era casado com a chilena Maria das Dores e pai de dois meninos: André, de seis anos de idade, e Pedro, de três. Os dois se conheceram nas Cataratas de Foz de Iguaçu. Foi paixão a primeira vista. Em menos de seis meses eles estavam casados.

Ele trabalhava em uma fábrica de automóveis no setor de reposição de peças e ela dava aula de espanhol em uma escola privada. Não levavam uma vida difícil, mas também não chegavam a fazer parte da classe média. No fim do mês, não sobrava muito, mas dava o suficiente para o lazer das crianças e até mesmo do casal. Não abriam mão do costume de levar os filhos ao parque, fazer um churrasco de costela de cordeiro e tomar um bom vinho nos fins de semana.

A demissão de 50 trabalhadores, férias coletivas para outros 50, e a redução na jornada de trabalho acendeu a luz de alerta do casal. Na casa de Paulo e Maria, o clima já não era tão bom como antes.

As notícias negativas e a violência na cidade crescia muito e ocupava um longo espaço na mídia local e isso de uma forma ou de outra contaminava a relação entre os dois. A instabilidade econômica do país, levava o casal a desconfiar que o pior ainda estava por vir.

Como milhares de brasileiros, eles se perguntavam: Mas como podia isso acontecer em um país rico, que tinha o povo mais hospitaleiro do mundo, solidário e que não desistia nunca de seus ideais, de sua vocação em ser a maior liderança da América do Sul? Como um país que, além de ter o melhor futebol do mundo, tem ainda o carnaval, a maior festa popular do país.

Nenhum outro lugar no mundo tem tantos feriados como aqui. Não tem terremotos, tsunami, vulcões em erupções. E de repente, o que o casal mais temia, aconteceu: Paulo Fontnelle foi demitido da empresa depois de dez anos de casa.

Paulo não quis perder tempo e saiu em busca de um outro trabalho. Mas as respostas eram sempre as mesmas: não havia vaga. Foi aí então que Paulo Fontenelle tomou a decisão de procurar trabalho em cidades vizinhas.

Maria não disse nada, apenas chorou na janela que dava pro quintal da casa e viu a araucária, árvore símbolo do estado do Paraná, sem nenhum fruto de pinhão. Antes de sumir na esquina, Paulo olhou pra trás e acenou para a mulher e os filhos. Foram 15 dias de busca, mas sem conseguir nada. Cabisbaixo, pensando como iria sustentar a família sentiu um vento enrolar em sua perna uma folha de jornal.

E lá esta a na manchete. “A última fronteira agrícola no norte do país será ocupada por paranaenses”. Paulo pegou o ônibus e voltou para Guarapuava. Ao dobrar a esquina, viu a casa toda fechada. Sentiu um aperto no coração e quando abriu a porta não havia nada mais que um silêncio dilacerante. Foi até a sala e encontrou um envelope debaixo de um vaso já com flores murchas. Maria tinha voltado para Santiago. Enquanto lia, as lágrimas derramavam sobre o peito dolorido pela ausência da família.

Na saída do comboio de caminhões, via no horizonte a incerteza de uma nova jornada, em um lugar distante onde teria que lutar por um pedaço de terra. Chegou sentindo o calor de 40 graus, viu as terras e teve a sensação era ali a sua nova morada: na terra do meio.