SÍMBOLOS E MARCAS DAS ESCOLAS DE SAMBA – Por Fernando Canto

 

Por Fernando Canto1765_boemios10fotomarciadocarmo

Enquanto as campanhas políticas estão nas ruas as escolas de samba amapaenses iniciam nos bastidores sua competição anual em busca da vitória no carnaval. A guerra se ensaia pelos preparativos necessários à materialização dos enredos que sempre são vastos e interessantes.

Mas hoje me detenho na interpretação de seus símbolos, escolhidos para apresentar no carro abre-alas e dar de imediato ao público a expectativa das outras alegorias que acompanharão o cortejo pelo sambódromo.

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Duas dessas escolas escolheram como símbolos a águia. A Jardim Felicidade e a Império Santanense podem se dar ao luxo de terem a chamada “rainha das aves” e um dos mais importantes símbolos das mitologias de todas as civilizações como marca, a exemplo da Portela, do Rio de janeiro. Para os índios norte-americanos a águia é o poder do Grande Espírito. Representa a habilidade de se viver no reino espiritual e ao mesmo tempo permanecer em conexão e equilíbrio com o reino terrestre. Carminha Levy e Álvaro Machado informam em seu livro “A Sabedoria dos Animais”, que na América do Norte “a admiração pelo pássaro parece ter passado de nativos a colonizadores sem prejuízo, já que um grupo de maçons que idealizou as leis e símbolos dos Estados Unidos elegeu a orgulhosa águia-de-cabeça-branca (ou águia americana) como representante de seu país”. Mircea Eliade relata que a águia era a ave solar entre os antigos povos siberianos e que os gregos tomaram emprestado o simbolismo dos sírios, e ela tornou-se o animal sagrado de Zeus. Sua qualidade de animal psicopompo também era bastante ressaltada entre eles, e a imagem da águia foi gravada na tumba de Platão, para bem conduzi-lo às regiões celestiais.soli

Mas apesar de todo o imaginário dos antigos astecas e de outros índios sul-americanos (com o condor e o gavião real) é zoologicamente incorreto chamar de águia, do gênero Aquila L., os nossos falconiformes. A verdadeira águia não existe no Brasil.

A escola Solidariedade é representada por um Jacareacanga (cabeça de jacaré). Em que pese a interpretação popular que é um animal “que vai na beira e volta” (uma alusão aos constantes descimentos e subimentos da escola), o jacaré é uma divindade noturna e lunar, senhor das águas primevas. Segundo Chevalier e Gheerbrant, o Ocidente retém do jacaré (crocodilo) a sua voracidade, mas faz dele um “símbolo de duplicidade e hipocrisia”. Na mitologia chinesa ele é o inventor do tambor e do canto. Tem, então, certo papel no ritmo e na harmonia do mundo. Como intermediário entre a terra e a água é o símbolo das contradições fundamentais e de uma natureza viciosa.

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A Maracatu da Favela traz em suas insígnias a coroa do Divino Espírito Santo,a terceira pessoa da Santíssima Trindade no panteão católico. Representa luz divina espalhada sobre a humanidade. A pomba do Divino é o símbolo da paz, esperança, fidelidade conjugal e simplicidade, bem como dor resignada, de acordo com Levy e Machado. Op. Cit.).

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Os Emissários têm a cegonha em seu estandarte: uma ave migradora, portadora da lenda de que traz os bebês recém-nascidos. Os boêmios mudaram seu símbolo para ao guará, ave que se assemelha à íbis egípcia. Ela é a encarnação do deus Tot, deus da palavra criadora, patrono dos astrônomos, dos contabilistas, dos mágicos, dos curandeiros e dos feiticeiros. O guará da mitologia indígena, assim como a íbis, tem o dom da previsão e da sabedoria.

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Já os Piratas da Batucada e os Piratas Estilizados trazem um pirata, que segundo o Aurélio, é bandido que cruza os mares só com o fito de roubar; ladrão, gatuno, tratante, espertalhão, malandro, e outros epítetos inerentes a esse símbolo.

O tema é amplo e certamente voltará a ser tratado neste espaço.

* Fotos encontradas no site G1 Amapá e nos blogs da Alcinéa Cavalcante e Notícias Daqui.

Carnaval, o Espelho Invertido – Conto porreta de Fernando Canto

Por Fernando Canto

O brasileiro faz festa para tudo, sempre arranja um motivo para comemorar. Mas é no carnaval que ele festeja a si próprio, pois quando isso acontece emerge claramente a velha ideia de que a festa representa uma memória e uma comunicação expressa por mensagem, no dizer do antropólogo Carlos Brandão. E se nos festejamos estamos cerimonialmente separando aquilo que deve ser esquecido (o silêncio não-festejado do cotidiano) e aquilo que deve ser resgatado. Quando nos festejamos somos convocados à evidência, para sermos lembrados por algo ou alguém, o que significa darmos sentido à vida, através de ritual na brevidade de um momento especial em que somos anunciados com ênfase. Aí nos tornamos símbolos, porque a sociedade festeja alguém que transitou de uma posição a outra ou migrou de trabalho ou de seu espaço de vida para outro.

Quando alguém, independentemente da mídia, tem seus quinze minutos de fama, pode estar solenizando uma passagem ou comemorando sua própria memória. A festa quer ser a memória viva dos seres humanos. A cada ano eles renovam essa catarse ao brincarem com os sentidos e os sentimentos, e então inventam situações onde a cultura nacional evidencia uma permanente vocação de investir no exagero, na critica e até na caricatura. Ali a oculta e difícil realidade surge epifanicamente revelando o que os indivíduos querem, fantasiados ou não, sóbrios ou loucos, juntos ou conflitantes, mas festejando o que são com suas angústias e significados.

No carnaval os atores sociais saem da rotina e forçam ao ritual da transgressão, saindo de si mesmos no breve ofício de inverter o que são. Alguns estudiosos como Da Matta e o próprio Brandão chamam isso de espelho invertido do que é socialmente esperado: pobres se vestem de príncipes, os nobres de índios, os homens de mulheres, as mulheres viram fadas e os bandidos querem ser heróis. Condutas se ultrapassam e se comemoram no ritual de si mesmo no carnaval.

Mas não é o objetivo deste artigo fazer uma análise mais acurada do carnaval. Ele, o carnaval, vai muito além do seu significado sociológico. E como cultura, qualquer mecanismo inerente a ele traz uma dimensão que nos permite o mais profundo pensar ou o maior desprezo, ou mesmo valorizar a velha ”preguiça” ancestral indígena que dá depois da farra.

Todos sabem que o carnaval, enquanto evento tem vários conceitos e facetas. O significado de sua origem se perde nas trevas do tempo. Escritores autorizados dizem que ele surgiu nas orgias pagânicas do Egito e da Grécia, ou nas bacanais de Roma, realizadas em dezembro. Ele seria, então, apenas a reprodução em sentido mais moderado das festas lupercais, saturnais e bacanais que a história registra com abundância de informações. Não parece haver dúvidas, segundo Jorge de Lima, que o carnaval, assim como o teatro, nasceu da religião. Do italiano carne vale, é o tempo em que se tira o uso da carne, pois o carnaval é propriamente a noite antes da quarta-feira de Cinzas.

Elton Tavares, Emanoel Reis e Fernando Canto – Bar do Louro – Carnaval 2016

Para alguns é apenas uma caricatura que se faz da realidade e das pessoas, mostrando seus defeitos de forma burlesca, com imitação cômica. A meu ver, entre tantas hipóteses do que pode ser o carnaval, fico com esta que é completamente inusitada. Certa vez ao tocar um antigo samba-enredo de uma escola do Rio, num banquinho em frente à casa de meus pais, no Laguinho, iniciei a música no cavaquinho e cantarolei: “O carnaval é a maior…” Quando fui bruscamente interrompido pelo vizinho e amigo Nonato Bufu, que completou: “…caligrafia”, no lugar de “caricatura”. Rimos na hora, mas hoje eu entendo que também nós somos responsáveis em escrever a mão a história do nosso carnaval, inclusive com as alegrias e dores que porventura se fizeram presentes em nossas vidas.

Texto publicado originalmente no Jornal do Dia, em 2006. Está no meu livro “Adoradores do Sol”.

Em dias de chuva

Choveu essa madrugada em Macapá. Acho que vai chover novamente. O sol está entocado, iluminando somente o suficiente, graças a Deus! Amo dias chuvosos! Em dias de chuva dá vontade de ficar na cama até mais tarde. Ou o dia todo, né não?

Dia bonito pra mim é dia chuvoso. Noite idem. Gosto por não suar e bebo cerveja sem problema, pois o frio me agrada profundamente. Em dias de chuva dou valor até no trânsito (deve ser por não dirigir).

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Em dias de chuva, como hoje, lembro quando morávamos em pequena casa de madeira, cheia de goteiras. As poucas panelas eram espalhadas pela casa, para armazenar a água do pinga-pinga. É, no dia cinzento de hoje vejo como melhoramos de vida, pois temos que desligar o ar-condicionado e fazer o esforço para levantar da cama.

Quando era moleque, em dias de chuva, jogávamos futebol debaixo de temporal e dávamos muito valor naquela parada. Também lembro do meu velho e saudoso pai, que nos ensinava a ensaboar os vidros do carro para que não embaçassem. É, a chuva me traz mil memórias, a maioria muito boas.

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Gosto do som da chuva, do barulho dos pingos no telhado. Os dias chuvosos me trazem uma paz imensa. A chuva anuncia: finalmente o inverno chegou.

Ah, não gosto de usar guarda-chuva, gosto do respingo, do frescor, de me molhar. Aliás, nunca gostei de “chove não molha” e sempre avisei: “pode tirar o cavalo da chuva”.

É isso!

Elton Tavares

Desfeitas & Desfeiteiras (Crônica porreta de Fernando Canto)

Por Fernando Canto 
 
A desfeita era uma injúria, uma ofensa que cavalheiro nenhum levava para casa sem antes não se vingar, depois de ser recusado em seu convite para dançar pela dama escolhida. O injuriado estapeava a dama e, formada a confusão, a festa invariavelmente acabava. Pelo menos era isso que acontecia há alguns anos.
 
A Desfeiteira provém disso. Era uma dança praticada em quase toda a Amazônia. Os caboclos dançavam em pares ao som de um conjunto pau-e-corda. De repente a música parava e o par que ficasse perto dos instrumentistas tinha de dizer um verso, na realidade uma quadra (ou uma trova ou poesia, rimada ou não), sob pena de pagar uma prenda e
ainda ser vaiado. Era uma brincadeira divertida dos lugares onde não havia aparelhagem de som que ainda ocorre em Alter-do-Chão, e ocorria no Bailique e no litoral do Amapá.
O Hélio Pennafort contava a história de um caboclo que se meteu numa Desfeiteira lá no Sucuriju. Só faltava ele dizer o seu “velso”. Não conseguia articular palavra porque estava muito embriagado. Mas o adularam tanto que ele declamou a única sextilha que sabia. E começou; “Na cidade do Irará /No interior do Maranhão/ Existia um velho sacana/ Fdp e garanhão/ Cuja pele do culão/ encobria dez colchão”. Deram-lhe uma sova de remo que ele nunca mais apareceu no lugar.
 
De outra feita o mesmo Hélio em suas andanças jornalísticas pelo interior me levou junto para Mazagão Velho. Fomos de jipe, da sede do município até lá. O curioso é que ninguém nunca vira o Hélio dirigir em Macapá. Chegando à vila ele chamou o dono do conjunto “Mucajá” para tocar uma festa e o finado Osmundo não se fez de rogado: botou uns três solos de clarinete para animar a moçada do lugar e o “pau comeu”. Foi nessa ocasião que ele inventou a história da moça “que só dançava abenetando”. E que eu, justo eu, a teria convidado para dançar e ela recusara dizendo que só dançava abenetando. Como eu teria insistido ao dizer que sabia dançar abenetando, ela fechou a desfeita dizendo, tímida: “- Mas a Bené num tá!” A Bené era a sua irmã mais velha.
 
Depois disso visitei Mazagão Velho muitas vezes, pesquisando sua cultura e sua gente. Em uma roda de Marabaixo de rua, exatamente quando se preparavam para derrubar o mastro do Divino Espírito Santo, vi uma desfeita pesada. Quase todos os dançarinos já estavam “mais pra lá do que pra cá”, no dizer deles, tanto era o consumo de gengibirra. Um rapaz queria dançar um “dobrado” que os tambores tocavam na hora. A dança é feita em pares que se agarram pelos braços e giram o corpo para a esquerda e depois para a direita. É a parte mais rápida do Marabaixo. O rapaz, visivelmente tonto, viu uma jovem senhora e disse: – Quero dançar contigo. Ela respondeu: – Comigo não, violão. Então o rapaz, aborrecidíssimo, falou; – Tomara que tu morra amanhã às seis horas da tarde! A vingança foi a praga lançada. 
 
Guardo ainda na memória uma desfeita acontecida na sede do Esporte Clube Macapá. Um rapaz de conceituada e tradicional família, hoje ilustre advogado, era apaixonado por uma moça. Tímido, porém, não tinha coragem de falar em namoro com ela. Os amigos lhe aconselharam a tomar uma dose de uísque para criar coragem e ir até ela.
Mas ele exagerou na dose. Assim mesmo, depois que “Os Mocambos” se preparavam para tocar “Devaneio”, sucesso da época, ele atravessou o salão olhou para ela com um olhar lânguido e disse: – Bora dançar? Ela respondeu na bucha: – Eu não danço com gente bêbada. Ele ficou meio desconcertado e ainda perguntou, meio afirmando: – Quer dizer que transar nem pensar, né?!

Corrida Maluca: um exemplo PARA A VIDA (Por Marcelo Guido)

Por Marcelo Guido (jornalista, professor e jornalista)

Clássicos nunca morrem, eu costumo dizer. Por muito tempo nos acostumamos a acreditar que o passado passou e não pode ser relembrado. Discordo!

Relembrando fatos da infância, divago por coisas que marcaram para sempre a minha existência. Uma delas, com certeza, são os quadrinhos, dos quais sou fã até hoje, e os desenhos animados (disco de rock, por serem especiais demais, nunca me atrevi a deixá-los de lado).

Tive muitos heróis cujo tempo, covardemente, fez questão de colocar em segundo plano em muitas fases de minha vida. Como pude esquecer, por exemplo, dos GALAXY RANGERS?, CENTURIONS, ZONO RAIDERS?

Mas antes vieram os básicos, minhas lembranças me levam aos primórdios aonde o que interessava mesmo era a diversão. Joseph Barbera e William Hanna eram especialistas nisso.

Os caras se conheceram em 1947 e tomaram um cano do Walt Disney, que prometeu contratá-los e nunca apareceu. Talvez por isso o Mickey seja tão chato.

Dessas duas mentes privilegiadas e brilhantes saíram “Tom & Jerry”, “Zé Colmeia e Catatau”, Fred Flintstone e Barney Ribble, dentre outros.

Em 1968, os caras resolveram se basear em um filme e lançar um desenho com 11 personagens principais, isso sim merece uma menção honrosa; imagina a dificuldade para que nenhum personagem ficasse em segundo plano. E assim nasceu a “Corrida Maluca”.

Inspirado no filme “A Corrida do Século” (1965), a “Corrida Maluca” era uma espécie de campeonato de carros que tinham os mais malucos participantes possíveis.

As corridas eram disputadas por esses caras no melhor estilo “vale-tudo”, e tinha de tudo… Imagine uma corrida com um carro que é um Avião pilotado pelo Barão Vermelho (carro nº 4) no mesmo Grid de largada de híbrido de tanque com carro (carro nº6), comandado por um cara chamado Meekley e com Sargento chamado Bombarda no Canhão? Ou com um cara com um carro de F1 que atente pela alcunha de Peter Perfeito (carro nº 9) (tem uma banda legal com esse nome) – era a formalização do herói perfeito, junto do Carro Mágico (nº 3) do Prof. Aéreo (um cara com feições de cientista maluco, mas que era do bem).

wpcars_800Ainda tinha o “Cupê Mal-assombrado” (nº 2) guiado por Medonho e Medinho, que ainda tinha uma torre (hummm) de onde saía um dragão, uma serpente, etc.; tinha o “Carrinho pra frente” (nº5) da Penélope Charmosa, o “Carro à prova de balas” (nº7), que muitos chamam de “Chicabum” e era comandado pela Quadrilha de Morte, “Serra Móvel” (nº 10) do Rufus o Lenhador, e do Dentes de Serra, a “Carroça a Vapor” (nº7) do Tio Tomás e do urso Chorão.

Todos os carros tinham as placas iniciadas com um “HN” em alusão aos criadores.

O meu preferido era o “Carro de Pedra” (nº 1) dos Irmãos Rocha (nome também de outra boa banda), que, mais tarde, deram origem ao “Capitão Caverna”. Sem contar, é claro, com a “Máquina do Mal” (nº 00) do Dick Vigarista e seu escudeiro Muttley, a Máquina do Mal, aparentemente, era o carro mais rápido e tecnológico dentre os competidores.

Apesar de tecnologicamente superior, o carro nº 00 nunca conseguiu vencer uma corrida. Muito mais pelo caráter duvidoso do seu piloto, que perdia muitas posições com planos mirabolantes e armadilhas para prejudicar os outros competidores.

A Revista “Mundo Estranho”, de julho de 2012, atribui o seguinte ranking:


• 1º Carro de Pedra/Irmãos Rocha – 81 pontos
• 2º Carro-a-prova-de-balas/Quadrilha de Morte – 74 pontos
• 3º Cupê Mal-Assombrado/Irmãos Pavor – 69 pontos
• 4º Carroça á vapor/Tio Tomás e Chorão – 68 pontos
• 5º Carro Tronco/Rufus Lenhador e Dentes-de-serra – 67 pontos
• 6º Carro de Mil e Uma Utilidades/Professor Aérao – 65 pontos
• 7º Carrinho pra Frente/Penélope Charmosa – 64 pontos
• 8º Lata Voadora/Barão Vermelho – 63 pontos
• 9º Carrão Aerodinâmico/Peter Perfeito – 60 pontos
• 10º Carro-tanque/Sargento Bombarda e Soldado Meekley – 39 pontos
• 11º Máquina do Mal/Dick Vigarista e Muttley – 00 pontos.

Essa é a moral da história: por mais que se tenha todo um aparato, você jamais conseguirá vencer se tentar trapacear. Assim é a vida…

Que os infindáveis Dicks Vigaristas continuem se dando mal. Porque, assim como na Corrida Maluca, na vida o bem sempre vence o mal.

Macapá, minha cidade – Lindo texto de Lulih Rojanski

Por Lulih Rojanski

Macapá era criança quando a vi pela primeira vez. Crescia como uma menina ribeirinha, na margem esquerda do canal norte do rio Amazonas, respirando os ventos cheirando a floresta, trazidos pelas marés. Tinha um jeito puro de quem não sabe o que virá, mas guardava na alma o recôndito desejo de um dia ser bela como aquelas que já cresceram, de ser amada pelos forasteiros que aqui aportaram, prometendo fazer dela uma senhora soberana.

Pela manhã, ela abria os olhos sob as luzes de um sol tropical, e janelas preguiçosas também se abriam, para olhar de frente o velho trapiche que aportava os sonhos dos poetas daquele tempo. Aquele mesmo tempo em que provincianas mangueiras eram o abrigo dos periquitos, e uma porção de meninos coloria com pipas o céu das margens do rio.

Macapá sabia que um dia tudo iria mudar. E sorria, se lhe dissessem que aí vinha o terceiro milênio. Por entre paisagens de nuvens azuis e de horizontes de fogo, esperava que as mãos de seus homens lhe dessem belas ruas, infindáveis jardins, casas de sonho, prédios e gente que tivesse como função cuidar do seu povo.

A cidade criança ficou no retrato… e nele, ainda roda a saia florida das acácias, um rio colossal coleciona ondas do mar, a fortaleza secular adormece os negros que a fizeram. Naquele tempo, e naquele retrato, a menina Macapá tinha um olhar de quem vai prosperar sob as boas chuvas do futuro.

Vieram dezembros, e muitas chuvas passaram. Ainda assim, neste tempo, foi árida a terra. Até as árvores quiseram fenecer. Nuvens de chumbo sobrevoaram durante anos inteiros as verdes mangueiras de onde os periquitos se foram. Os barquinhos no rio encalhavam sob o silêncio cósmico das noites sem lua.

Explorada pelos mesmos homens que a cortejaram, Macapá sorria tristemente para aqueles que ainda chegavam, trazendo homens que a amaram de verdade, e aqui plantaram raízes, mas esses foram poucos. Chegaram povos de outras terras, ergueram casas, abriram ruas, e a menina foi crescendo assim, meio desajeitada, como aquela menina dos versos do Bandeira, que é pisada, pisada, e nunca sai da cozinha. A grande viagem de descobrir-se um lugar importante, para o qual todos olhassem com olhos de ternura e admiração, caía por terra. Olhos distantes viam Macapá como a cidade longínqua de um povo que não sabia sonhar. Eram daqui as notícias ruins.

Não importava a ninguém de outras terras que aqui fosse a única capital brasileira banhada pelo rio maior do mundo ou que aqui houvessem florestas sem fim. Durante esta mocidade, Macapá assistiu atônita ao triste espetáculo que os homens que a subjugavam souberam oferecer. A ideia do novo milênio lhe trazia a angústia do fim do mundo, e foi um tempo em que nem mesmo o poeta conseguiu ler as entrelinhas. Hoje se sabe o que ali estava escrito para o destino da cidade que sonhava em ser feliz.

Agora… os jambeiros da General Rondon derramam flores nas calçadas, as mangueiras da Leopoldo Machado pingam mangas até março, raios de sol atravessam as paredes pétreas da secular Fortaleza, iluminando os fantasmas da história. Meninos amanhecem colorindo com pipas o céu amarelinho das margens do rio, em cujas águas ondulam brancos barquinhos… os mesmos meninos que lançam às águas morenas seus corpinhos de peixe, toda tarde. As andorinhas dos fios elétricos da Cândido Mendes vêm de volta em abril, fugindo dos frios do Sul do Brasil, e Macapá lhes oferecerá frondosas árvores. As mesmas árvores que dançam sob a inquieta música do vento, confiantes de que as chuvas lhe trarão flores. Nas suas ondas de mar, o rio leva tristezas, e traz sonhos renovados que ancoram no trapiche Eliezer Levy. Os olhos do poeta refletem paisagens transcendentais. Pelas estradas terrestres e aquáticas, há um povo que sabe que as nuvens de chumbo não mais aportarão sobre as mangueiras, que acredita que as chuvas agora serão de prosperidade, e a vida será mais feliz.

É assim que Macapá se apresenta ao terceiro milênio. Uma cidade sustentável, onde o homem tem a possibilidade de voltar ao sonho, onde o rio canta a primitiva melodia das águas para que dancem nas ondas as embarcações, onde o verde é o próprio futuro. Este é o retrato que Macapá quer guardar por mais um século.

(*) A autora é natural do Paraná, mas há 32 anos é habitante do Amapá e tem dado preciosas contribuições à literatura amapaense. Publicou os livros “Lugar da Chuva – Crônicas do Amapá” e “Abilash – Um Conto da Amazônia”“Pérolas ao Sol” ,   e Gatos Pingados, todos publicados pela Escrituras Editora. 

Amar é o lance!

Escuto sempre que a vida é simples e somos nós que complicamos. O lance é viver sem frescura, fazer o bem, fazer o certo, cercar-se de gente que realmente importa. O lance é ter vergonha na cara, sem muita conversa ou muito explicar, se fazer feliz.

O lance é ser autêntico, verdadeiro, bom e amoroso. Também respeitado, aguerrido e combativo se preciso. O lance é ser bem humorado, espirituoso e até irônico, se necessário.

O lance é identificar amigos que não só pedem, mas também se dão. O lance é fazer o que gostamos, seja no bar o ou na igreja, tanto faz.

O lance é honrar a família, não toda, só os que lhe aquecem no frio e apoiam quando dá merda. O lance é respeitar os colegas, seja de trabalho, de copo e pessoas em geral.

O lance é puxar a fila, trazer novidade, não ser só mais um. O lance é sentir saudade sem se prender a algo que nunca mais será da mesma forma e seguir em frente.

O lance é usar palavras duras, mas também elogiar e até pedir desculpas. O lance é, se preciso, assumir e confessar erros, bater e apanhar, mas jamais deixar de amar aos seus e a si mesmo. Esse sim é o grande lance!

Elton Tavares

SER SOLIDÁRIO – Crônica de Fernando Canto

Por Fernando Canto

Ao sair de casa na manhã de uma quinta-feira, a jornalista Andréia Freitas se viu numa situação inusitada. Na esquina de sua casa um casal de velhos pedia socorro aos passantes porque a senhora passava mal. Ela se prontificou em ajudar, colocou os dois no carro e foi direto para o Hospital de Emergência. No caminho a mulher se debatia e o velho rezava. Desesperada de tentar chegar a tempo e salvar a vida da mulher, Andréia tentou furar sinais, solicitando espaço aos motoristas, mostrando a urgência de ultrapassá-los, tendo os faróis e o pisca – alerta ligados. Contudo, os motoristas não a deixavam passar, o que notadamente contribuía para o atraso de sua missão àquela hora da manhã.

A duras penas chegou ao hospital gritando para que socorressem a senhora, até que alguém veio com uma cadeira de rodas ao invés de uma maca. Como tinha que dar seu expediente no trabalho, voltou mais tarde ao hospital, onde lhe informaram que senhora já havia chegado morta, após fulminante infarto que ela não percebera no trajeto.

Mesmo tentando se controlar do estresse pelo qual passara, a jornalista chegou a passar mal com a notícia, pois esperava ter salvado a mulher. Então um misto de tristeza e impotência lhe abateu.

Esta história verdadeira nos faz pensar na solidariedade de poucos heróis anônimos urbanos, ao mesmo tempo em que olhamos Macapá hoje praticamente assemelhada aos grandes centros, onde a desconfiança e a falta de urbanidade se alastram como produtos do individualismo, da competição e do medo.

Embora pequena, nossa cidade começa a ter características urbanas, não apenas pela violência nas ruas, como gangues, trânsitos e assaltos, mas por essa ausência de olhar o “outro” como olhávamos até há pouco tempo. Éramos talvez uma família pronta para ajudar os mais necessitados e aqueles que vinham de longe em busca de um lugar melhor para viver. Pelo prestígio de cada chefe de família trabalhador se podia conseguir emprego aos que chegavam “com uma mão na frente e outra atrás”. Dávamos esmolas conhecendo a realidade do pedinte e ninguém acreditava em lendas importadas de outros centros urbanos, como as que diziam serem os mendigos pessoas ricas que investiam seu dinheiro – produto da caridade alheia – em compras de casas e carros. Todo mundo conhecia o seu Chico Mocó e a Cega do Morro do Sapo, lá do Laguinho, que nem sempre pediam dinheiro, mas mantimentos para suas famílias, já que eram notórios deficientes físicos e não podiam exercer plenamente atividades rentáveis. Mas isso não era importante. O importante era ficar bem com a sua consciência solidária, certamente avivada pelos preceitos religiosos que faziam as pessoas ficarem mais felizes e cumpridoras de seus deveres espirituais.

Talvez eu esteja sendo um pouco romântico ou mesmo saudosista ao enfocar este tema. Porém, não tenho a menor vergonha de dizer, sim, que fui ajudado por amigos nas horas mais difíceis, que fui solidarizado e defendido em situações de agressões espúrias e infundadas e que sou grato a muitos, anônimos ou não, que me levantaram quando vacilei na caminhada. Embora particularize uma história, vejo que a solidariedade não sumiu totalmente da nossa vida. Observo sucessivas campanhas realizadas por instituições sérias; admiro aquelas que poderão realizar o sonho de muitos (ainda que suscitadas possíveis irregularidades fiscais na Internet), e acompanho atentamente entidades locais que têm satisfação em ajudar aqueles que necessitam.

O medo, a violência e o individualismo geram consequências atrozes, posso reiterar aqui, pois, se de um lado o ser humano torna-se mais egoísta, em função do status quo que alcança na sociedade, de outro se percebe o crescimento da miséria humana, notadamente entre uma juventude que não consegue se desvencilhar das drogas que torna os indivíduos presos a uma anomia irreversível.

Das brincadeiras com copo – Crônica de (@MarileiaMaciel)

Crônica de Mariléia Maciel

Entre as inúmeras curiosidades da infância, uma matei na adolescência, mas confesso que a bisbilhotice me deixou noites com os olhos acesos e a consciência incomodada. Sempre quis ter certeza se de fato os fantasmas das histórias e filmes existiam e se os espíritos que não iam nem pro céu nem pro inferno, podiam vagar entre nós. A chance de tirar as dúvidas apareceu quando eu, ao ler uma revista de adolescente, encontrei a carta de uma leitora contando suas experiências com um copo que chamava espíritos. Era o que faltava pra eu resolver a questão, e de quebra, ainda saber coisas de meninices.

Reuni as vizinhas da rua e propus seguirmos a receita citada com detalhes na publicação Carinho, elas, claro, movidas pela mesma curiosidade, aceitaram. Era simples: pedaços de papel em círculo com as letras do alfabeto, dois papéis com as palavras SIM e NÃO, um copo vazio virado pra baixo, orações, concentração e lá vinha um espírito andar no círculo e responder nossas enormes preocupações de garotas namoradeiras e estudantes, vida tão despreocupada que o mais importante era chegar domingos com as missas e tertúlias.

A maioria de nós estudava de tarde, então a experiência começou em uma manhã, após papai sair pro trabalho e mamãe para as compras diárias no Santa Teresa e Cobal. Seguimos as orientações e pronto, começou a sessão em que o medo era destruído pela curiosidade. “Tem alguém aí?”. E o copo se mexeu e enchemos o pobre do espírito de perguntas. “Vou namorar com fulano?”, “cicrano me ama?”, “vou passar em matemática?”, “papai vai descobrir que namoro?”. E passamos o tempo atrás de resposta cruciais para a nação, até que deu a hora possível da mamãe voltar pra casa e encerramos a sessão.

Não demorou a notícia correu e o minúsculo grupo que cabia no quarto que eu dividia com minha irmã ficou pequeno, e fomos obrigadas a brincar com os espíritos em outros espaços maiores e onde os pais não se importavam, inclusive alguns até participavam. Fascinadas com a descoberta, todos os dias tinha reunião e éramos muito solicitadas. Cada dia tinha uma novidade. “Sabia que o espírito disse que a vizinha vai ficar grávida?”. “O pai da colega está traindo a mãe, o copo disse que sim”. E algumas de nós não fazia nada sem antes consultar os espíritos que tudo sabiam.

Foi no auge da farra que nosso canal de comunicação direta com o além acabou. Como acontecia todo dia, esperamos, em agonia, mamãe sair. Das venezianas e janelas das casas da rua, olhos à espreita aguardavam que ela subisse a ladeira para que povoassem meu quarto. Os papeizinhos, bastante amassados por causa do uso constante, mais uma vez foi para o centro do círculo junto com o copo, e a sessão começou. Mas aconteceu um imprevisto, e mamãe resolveu voltar antes, e concentradas que estávamos, não ouvimos o portão.

Fomos pegas pelo susto quando a maçaneta do quarto girou e foi moleca pulando pra cima das camas, querendo se esconder no guarda-roupa, enquanto eu e minha irmã só pensávamos no que dizer pra mamãe e onde esconder tudo. Mamãe batendo na porta e nós, naqueles segundos em que temos que tomar decisões, empurramos os papéis e o copo pra baixo do guarda-roupa e, com o coração na mão e uma resposta na ponta da língua, abrimos a porta. Entre bom dia, dona Maria e desculpas esfarrapadas, todas saíram pálidas de casa e ficamos, eu e minha irmã, respondendo as perguntas da mamãe. Não lembro o que dissemos, só sei que ela não acreditou. Óbvio.

Passaram dias, semanas, talvez dois meses não deixávamos a empregada limpar o quarto, fazíamos nós mesmas sem mexer embaixo do guarda-roupa pra não sermos descobertas. Dois medos, da mamãe descobrir a verdade, e de saber que o espírito que foi jogado pra baixo do móvel ainda estava no quarto. Rezava pra que ele fosse embora e jurava nunca mais fazer aquilo. Em um sábado, dia de faxina, reunimos coragem, e entre as teias de aranha acumuladas puxamos com cuidado o copo pra que ele não virar quando passasse nas emendas das lajotas. Montamos a círculo de alfabeto, colocamos o copo no centro com nosso dedo em cima. Concentração.

“Tem alguém aí?”. Contra nossos pensamentos mais positivos e com a certeza de que nossos pedidos aos céus não foram aceitos, nem as promessas levadas em consideração, vimos o copo preguiçosamente se arrastar no chão procurando o SIM! O quê? Quer dizer que o espírito que era nosso oráculo e depois motivo de temor, ficou todo aquele tempo nos fazendo companhia no quarto escutando e vendo o que fazíamos? Foi então que caiu a ficha: preferível morrer de curiosidade, que de susto por mexer com quem tá quieto.

SOberba ORAção dos SERes da FLOResta parA IANEJAR, o heRÓI – Por Fernando Canto

 


Eu te agradeço Ianejar pelo teu sangue de borboleta avoante. Por seres a distorção da história fútil do homem branco que aqui chegou fincando sobre a terra seus valores.

Ianejar, eu te agradeço pelo fogo – o cataclismo devastador – mais que necessário para proteger teu povo do intrépido inimigo e de suas armas cuspidoras do brilho do infortúnio.

Todos os dias quando o sol se agiganta como um raivoso pai lá no horizonte, eu penso que tu estavas certo em provocar a fuga-exílio do teu povo sofredor por dentro de uma casa-argila, onde tantos faleceram de calor e de frio.

E era Mairi que flutuava pelas margens do Grande Paraná à deriva e à procura de uma terra em que houvesse paz.

Eu te agradeço, Ianejar, por conduzires com grandeza a dignidade do povo Wajãpi na sua memória ímpar, por enormes espirais que o nosso povo representa em ciclos míticos.

Sei que foi preciso destruir uma parte da Floresta-Mãe para depois fazer a roça e ver medrar a folha verde dos campos.

O cacique Piriri fuma seu charuto enquanto outros wajãpis celebram com cantos tradicionais. Nessas festas, eles costumam consumir caxiri, uma bebida típica com forte teor alcóolico preparada da fermentação da mandioca.Foto: Victor Moriyama

E mesmo antropizada como hoje diz o karaiko /o homem branco/ a floresta é a tua dádiva. É a cornucópia do nosso cabeludo povo, dada a nós por um demônio manso que hoje deita na tua rede no teu céu, lá onde estão as borboletas e a estrela em que tu te tornaste quando saíste pelo buraco do final da Terra.

Eu te agradeço, Ianejar, eu te agradeço.

Fernando Canto

* Publicado no livro EquinoCIO, de 2004.

A tacacazeira de olhos ternos e largo sorriso – Por @alcinea

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Dona Mangabeira era uma negra de olhar límpido, sorriso largo e dentes tão brancos como os guardanapos de algodão que ela mesma fazia para cobrir as panelas.

Foi uma das primeiras tacacazeiras da cidade. Era do bairro da Favela. Sua banca (naquele tempo não tinha os carrinhos de hoje) era montada na esquina da rua Leopoldo Machado com avenida Almirante Barroso. De longe se sentia o cheiro do tucupi. Esse cheiro dava água na boca atraindo tanta gente para sua banca. O camarão era vermelhinho e o jambu treme-treme.

Aos domingos, a movimentação era bem maior. Era parada obrigatória de quem passava por ali para ir ao estádio Glicério Marques assistir aos clássicos da época.

A todos – autoridade ou peão – Mangabeira atendia com alegria, contava histórias, fazia o tacacá do jeitinho que o freguês pedia.

– Mais goma ou tucupi? Quantas colheres de pimenta? Quer mais jambu?

E o freguês ia dizendo como queria.

De muitos ela sabia o gosto e já nem perguntava.

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Contava que meu pai, o poeta e jornalista Alcy Araújo, era o único que tomava tacacá sem goma.

Mangabeira tinha um carinho especial pelas crianças. Para elas servia o tacacá em cuia menor e nada de pimenta.

Às vezes um moleque mais ousado pedia que ela colocasse um pinguinho. E ela, cheia de doçura, respondia: “Meu filho, criança não come pimenta”. E o moleque não insistia. O convencimento, tenho certeza, não era pelas palavras, mas pela doçura com que ela falava.

Além de tacacazeira, Mangabeira era excelente lavadeira. Daquelas que botava a roupa “pra quarar” e engomava usando ferro a carvão. Era também benzedeira, tirava quebranto de criança, fazia banho de cheiro pra curar gripe, catapora e sarampo e chás e garrafadas pra todos os tipos de males.

Mangabeira era uma imagem forte na paisagem do meu bairro e é uma das belas recordações da minha infância.

Alcinéa Cavalcante

Tanta! (ou seria Tantã?)

emoções

Estou sem inspiração pra escrever algo legal, por isso republico algo velho e atual ao mesmo tempo sobre minhas divagações, devaneios, doidices e afins neste site. Como tudo na minha vida foi muito, escrevi “Tanta”, mas poderia ser tantã. Saquem:

Pra começar, foram tantas contradições, tantos temores, tantas pessoas e tantas as histórias nas últimas bem vividas três décadas! (época de moleque não conta). Como diz o tal Rei perneta: “tantas emoções”.13873251_1358475874182535_1779782839840593367_n

Tantos bons e maus momentos, muitas alegrias e poucos choros. Tantos nascimentos e alguns enterros. Tantas músicas e pouca dança. Tantas paranoias, manias, chatices e porretices. Tanto trabalho (sagrado), tanta farra, muito álcool, tantos muitos amigos (tantos ex -amigos), tantas amanhecidas, algumas brigas, poucas angústias, poucos perdões.

Tanto veneno e pouco antídoto. Tantos escritos, várias interpretações erradas, tanta crítica tanto aplauso e tanto amor familiar. Tantas velhas e novas sensações. Tantos romances cinematográficos. Tantas falsas certezas, tantos enganos verdadeiros. Tantos parágrafos tragicômicos. Tantos sonhos possíveis e impossíveis.

a-vida-comeca-todos-os-dias-erico-verissimo-1320Tantas expectativas, nada de limites, quantas frustrações. Tantos textos cheios de narrativas utópicas. Tantos amores surreais e paixões à bruta. Tanta coisa maligna. Tanta reprovação geral. Poucas ações a contragosto, muita liberdade!

Tantos Rocks, tantos sambas, tantas trilhas. Tantas brigas, muitas vitórias e poucas derrotas. Tanta coisa inesquecível, tantas saudades!

Tantos méritos e deméritos. Tantas experiências, vivências válidas em sua maioria e algumas em vão. Tantas memórias afetivas, tantas juras, tantas pieguices e tantos desenganos. Tanto Chico Buarque na vitrola, tanta coragem e tanta falta dela. Tantos amores e tanta vida!

Elton Tavares.
*Texto republicado por tanta falta de inspiração.

Minhas dezenas de fitas K7 e a nostalgia

Ano passado, ao procurar meus livros dentro do armário do quarto, dei de cara com minhas duas caixas de sapatos repletas de fitas cassete. Constituída por dois carretéis de fitas magnéticas, a fita cassete é popularmente abreviada como K7. Esse tipo de “tecnologia” foi desenvolvida pela empresa Phillips, em 1963, para substituir a fita de rolo e o formato 8-track, que eram semelhantes, mas muito menos práticos e mais espaçosos.

A tecnologia desse artefato traz uma fita de áudio de 3,15 milímetros de largura, que rodava a uma velocidade de 4,76 centímetros por segundo. Antigamente a gente ouvia tudo na fita K7, no vinil e, muito depois, CD. Hoje, apesar de alguns ainda usarem o “Compact Disc”, quase tudo é no MP3 e MP4.

Minhas caixas, com quase 40 fitas, têm de tudo: Sony, Maxell, Bulk, Basf, Phillips e TDK, de 40, 60 e 90 minutos. A maioria não pmicrosystemossui mais capa, mas as que ainda têm estão com os nomes das músicas ordenadamente anotadas no papel interior da fita.

Naquela época, nós caçávamos sons novos como as bruxas eram perseguidas durante a Inquisição, ou seja, incansavelmente. Época de micro system Sanyo (Alguém aí se lembra do que é “rewind”?), walkman Sony e festas de garagem.

Dentro das caixas os velhos companheiros: Depeche Mode, The Smiths, New Order,The Cure, Iron, U2, A-ha, David Bowie, Queen, Pearl Jam e Nirvana (muito Nirvana) Titãs, Ira!,Paralamas, Legião Urbana (muito Legião), Barão Vermelho, Engenheiros… todos esses e outros heróis da juventude. Além de umas do velho Chico Buarque.Fita Cassete - Foto

Fizeram sucesso no final de 80, todos os 90 e início dos anos dois mil. Não tenho vergonha de ser tão antiquado. Meu brother André fala sempre, em tom pejorativo, que todo mundo já gravava CDs em 1999 e eu fitas. Bons tempos!

Aliás, gravar fitas era porreta. Quando curtia muito um som, todo um continha somente uma música (podia ser 30 ou 45 minMinhasFitasutos de cada lado, com a mesma canção). Às vezes, ficava com o dedo no tape deck, esperando o locutor da FM calar a boca e soltar o som para que eu o tomasse. Oh, saudades!

Enrolar e desenrolar fitas com lápis ou caneta, sem falar em limpar cabeçotes do tape deck, isso sim é nostalgia.

A fita cassete não voltou como o vinil, que hoje é objeto cult. No máximo, estão em forma de adesivos de smarthfones (que acho legal pra cacete).

imagesÉ, minhas velhas e empoeiradas caixas de sapato não estão somente repletas de fitas cassete, mas de ótimas lembranças. Eu as olhei por dezenas de minutos e as guardei novamente no armário, na memória e no coração…

Elton Tavares

*Informações sobre a construção das fitas encontradas no site Wikipédia

O Navio dos Cabeludos e a Educação pelo Medo – Crônica muito paid’égua de Fernando Canto

 

Crônica do sociólogo Fernando Canto

O medo de fazer algo errado e ser punido controlava a ação de qualquer moleque da minha idade.

Os mais velhos comentavam com veemência sobre uma tal Ilha de Cutijuba, no Pará, para onde levavam os jovens transgressores das leis, falando misérias sobre ela. Diziam ser um presídio de onde era impossível fugir por causa dos tubarões e pirararas que viviam ao seu redor, perto do oceano; um lugar quase inacessível, que para viver era preciso lavrar a terra na chuva e no sol para produzir seu próprio alimento; uma prisão ao ar livre na qual poucos sobrevivam cumprindo suas penas. Em suma: um inferno.

O controle social bem articulado, posto nas nossas cabeças pelo medo, povoava nossas vidas desde a infância. Para cada situação sempre existia uma história que evitava o fazer errado. Era a educação pelo medo. Até hoje quando vejo uma sandália virada providencio logo que ela fique na posição de calçar, pois me ensinaram a acreditar na superstição de que minha mãe morreria se a sandália não estivesse de cabeça para cima. Espertos esses adultos! Eles inventaram uma forma de fazer as crianças não bagunçarem os espaços da casa e também de não castigá-las com surras e outra correções violentas. Certa vez um dos meus filhos, ainda criança, viu o irmão chutar uma sandália que ficou de cabeça para baixo num canto da sala. Imediatamente ele disse: – A mamãe vai morrer, eu não tô nem aí, eu não tô nem aí! E saiu se isentando da culpa da (im)provável “morte” de sua mãe, causada pela sandália virada.

Situações como essa aprendemos em todos os lugares, seja em casa, na rua ou na escola, onde nossas relações sociais se ampliam e solidificam. E assim a gente vai se educando, variando os conhecimentos, resistindo ou não às novidades, segundo os contextos históricos, sociais, culturais e políticos que se apresentam. Mas dificilmente essas superstições e abusões sairão de nossas memórias, embora entendê-las, hoje, signifique dar boas risadas, porque todas as representações simbólicas produzidas pela consciência coletiva ou individual expressam visões de mundo e de sociedade. É uma visão política de realidade porque as ideologias estão ligadas à compreensão da cultura, que por sua vez é uma percepção ligada às diferenças entre os homens. O controle implícito no gesto de “ajeitar” a sandália é uma experiência de poder.

Bem próximo, na continuação da educação pelo medo, lembro da expressão “- O Navio dos Cabeludos vem te buscar.”, uma forma de coação social e familiar para os que não gostavam de cortar os cabelos, principalmente no tempo da Jovem Guarda, quando era moda usar os cabelos compridos, mesmo se arriscando a ser chamado de “bicha”. Não sei de onde veio a dita expressão, mas desde a Guerra do Paraguai, passando pela Revolução dos Cabanos e pela Segunda Guerra Mundial, muitos jovens se escondiam no mato com medo dos “Pega-pega”, navios que passavam nos rios da Amazônia para alistá-los compulsoriamente e remetê-los aos campos de batalha.

A invenção dessa “pedagogia” não raro ainda se estabelece em muitos lares urbanos e rurais da Amazônia. E funciona com as crianças, porque todas têm medo. Nenhuma delas quer perder a mãe por causa da sandália virada. Ninguém quer viajar a força num desses Navios dos Cabeludos que sempre aparecem na frente da cidade para uma viagem sem destino e sem volta.