O tempo (minha crônica para hoje)

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Há meses, após breve conversa com a amiga Camila Karina, ela disse: “o tempo também é burocrático. Nós é que sempre queremos tudo pra ontem”, comecei a devanear sobre o tempo. Verdade, nem sempre dá tempo.

Aliás, o tempo nos ilude quando jovens, em nome da inexperiência e da que nunca morre, a esperança. Sim, o tempo, com pouco tempo de análise, às vezes engana, confunde e conduz pelo caminho errado. Mas nunca omite, no final, sempre mostra quem é quem e como seria. É, o tempo.

A Bíblia, livro mais vendido da história (para muitos mitologia cristã) diz: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu” (Eclesiastes 3:1).

Desconfio há tempos que existe uma conspiração que faz do tempo uma espera quase interminável para os que sofrem e um período muito curto para bons momentos. Ah, tempo, dê um tempo!

O velho astro do Rock, David Bowie disse: ‘o tempo pode me mudar, mas eu não posso reconstituir o tempo’. Verdade! Afinal, tudo há seu tempo. O tempo costuma despachar lentamente quando queremos que seja rápido e o contrário, quando é o inverso disso.

O tempo traz méritos, vivências, leva e traz amigos, irradia e ceifa vidas. O tempo sabe coisas a gente não sabe. Sim, ele flui, voa e dá tapas com luvas, mas não de pelica e sim de boxe. Mas o tempo também faz esquecer e, às vezes, até cura dores. Sobretudo, o tempo nos ensina a entender mais sobre o amor.

Enfim, o tempo passa, nós aprendemos e mudamos com ele. Eu até poderia falar mais sobre a loucura e sapiência atemporal do tempo, mas agora não. Meu amigo Fernando Canto lembrou da filósofa María Zambrano, que dizia: “O tempo é o único caminho que se abre ao inacessível absoluto”. E a Camila, com quem o diálogo originou esse devaneio, falou algo que me faz encerrar aqui: “o tempo é o remédio e a agonia de todos nós”.

Ah, só mais uma coisa: é tempo de ser feliz e assim estou fazendo, enfim, em tempo. Pois não mais tenho tempo a perder.É isso. Ótima noite de sábado pra todos nós!

Elton Tavares

Estádio Glicério de Souza Marques completa 65 anos (minha crônica sobre o Glicerão)

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Foto cedida pelo jornalista Edgar Rodrigues

 

O Estádio Municipal Glicério de Souza Marques completa hoje 65 anos de fundação. O local foi idealizado pelo governador Janary Gentil Nunes e fundado em 15 de janeiro de 1950. A arena teve momentos de glória e ainda hoje é palco de jogos do Campeonato Amapaense, Copão da Amazônia e amistosos. Ali foram disputados grandes clássicos com a participação de craques amapaenses.

O estádio possui as alcunhas de “Gigante da Favela” e “Glicerão”, como o estádio foi apelidado pela crônica esportiva. Lembro-me da minha infância com alegria. Eu e meu irmão fomos agraciados com excelentes pais, que nos proporcionaram tudo de melhor possível (e muitas vezes impossível, mas eles fizeram mesmo assim).GlicérioEstádioFotoElton

Entre tantas memórias afetivas estão as idas ao Glicerão. Meu pai, o saudoso Zé Penha, que também jogou no estádio quando foi goleiro amador dos clubes São José e Ypiranga, também jogou no Gigante da Favela. A gente ia ver os jogos do nosso Ypiranga – sim somos torcedores do Clube da Torre. Eu e o mano dávamos muito trabalho ao pai, sem falar o pede-pede. Era pirulito de tábua (aqueles marrons em forma de cone que são puro açúcar), picolé, pipoca, refri e churrasquinho. Era tão porreta!futebolfamília

Quando garotos, meu pai e tio Pedro Aurélio, seu irmão, jogaram no Glicerão. Assim como muitos jovens da geração dele. A qualidade do futebol era tão boa que a galera que não tinha grana até pulava o muro para assistir as partidas. Sem falar que o Glicério já foi palco de vários shows locais e nacionais. Afinal, o velho estádio está no coração de Macapá.

Aliás, lembro daquele muro desde que me entendo por gente, pois a casa da minha amada avó fica lado do Glicério.

É uma pena que o velho estádio permaneça em obras (há 10 anos!!!), que ainda, depois de 65 aos, as arquibancadas ainda sejam de madeira e o campo ruim. Um local que revelou jogadores como Bira, Aldo, Baraquinha, Marcelino, Jardel, Roxo (o primeiro amapaense que fez gol), Zezinho Macapá, Jasso, Miranda, entre tantos outros nomes importantes do futebol regional.

Naquele tempo rolava a charanga do A403481_396633090376919_482019539_nntônio Rosa, o Paulo Silva e o Humberto Moreira (lembro bem dos dois, pois sempre falavam com meu velho) faziam a cobertura dos jogos. O José Carlos Araújo exagerava na narração das partidas via rádio (a gente ia pro estádio com radinho na mão) e o Vicente Cruz (a quem meu pai chamava de “He-Man” do Pacoval) sempre filava uma cerva do meu coroa. Bons tempos!

O futebol amapaense encolheu depois do “profissionalismo”, a política entrou em campo e deu no que deu: tanto o Glicerão quanto seu irmão mais novo, o Zerão, vivem vazios. Muitos clubes desaparecem do cenário e emergentes como um tal de Santos tomam conta das competições.DSCN7473 (1)

Para mim, há tempos o futebol amapaense perdeu o encanto, o brilho, a mágica. Nem no rádio escuto as partidas. Nem mesmo era quando a coisa toda era amadora, mas muito mais levada a sério por atletas, técnicos, dirigentes e torcida. Na época em que o Zé Penha nos levava para assistir aos jogos no antigo Estádio Glicério, eu e Merson (meu irmão) assistíamos as partidas, brincávamos e nos divertíamos a valer.

Quando lembro tudo isso a alegria entra naquele campo, escalada pela nostalgia. Viva o Glicerão!

Elton Tavares

Antigamente era assim…(crônica de @rebeccabraga)

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Por Rebecca Braga

Há uns dois meses, o telefone fixo aqui de casa parou de funcionar. Meu irmão ligou na operadora e disseram que o problema era na fiação, depois disseram que só resolveriam pela matriz e que precisava criar um protocolo de atendimento, enfim, um monte daquelas desculpas que estamos acostumados a ouvir dessas cretinas operadoras de telefonia.

Como tomado por uma iluminação, meu irmão resolveu num dia qualquer, ligar para o nosso número. Vale dizer que essa linha está conosco há pelo menos 20 anos. Damos como contato no trabalho, na escola das crianças, naquela loja do crediário, como referências para os amigos, enfim. Ela nos é muito útil.

Acontece que a operadora havia vendido a linha, com o mesmo número de telefone pra outra pessoa. Meu irmão, já com aquela pose que todo advogado tem (ele é formado há pouco tempo) ameaçou processar e usou uns termos lá que eu não sei do que se trata, e enfim, umas duas semanas depois, resolveram o problema.

Nesse ínterim, desde que o telefone parou de funcionar, levando também a internet, já que se tratava de um serviço combo, até a operadora resolver o problema, eu senti falta do velho telefone fixo, pouquíssimo encontrado hoje nos lares brasileiros.

Quando precisava ligar pro rádio táxi, ou pra pizzaria, ou pro disque lanche, ou pra água, pro gás. E foi isso que me fez lembrar de quando não existiam celulares ainda.download (2)

No dia 31 de dezembro, um amigo que fazia aniversário escreveu numa rede social que é de um tempo em que ele sabia o número do telefone das pessoas que eram importantes pra ele, e que com o celular, essa virou uma tarefa impossível.

Eu também sou dessa época. Sabia o telefone da casa das minhas avós, dos meus tios, mesmo os que moravam em outras cidades, dos meus amigos de escola, dos colegas de farra. E hoje, vez por outra eu preciso olhar na minha agenda pra ver o número que tenho num chip de operadora que uso menos. Me sinto totalmente dependente do meu celular, e não sei dizer se isso é ruim. Pra não perder o fio da meada:

Eu lembro que quando eu era criança, os telefonemas eram todos para meus pais. Quando eu me tornei adolescente, as coisas mudaram. Os primeiros namoricos, as conversas intermináveis com as amigas de escola que eu via todo dia mas sempre tinha assunto pra conversar mais, os amigos de farra que ligavam pra marcar a hora e o lugar pra gente se encontrar pra viver as aventuras da noite, os amigos que moravam em outra cidade.download (3)

Ah, sobre esses, é importante dizer, sou do tempo que a gente esperava dar meia noite pra pagar um pulso só, e com isso, passar horas da madrugada matando a saudade e falando besteira.

O meu primeiro namorado, eu tinha 14 anos, me ligava todos os dias, no mesmo horário.

A maior parte do tempo a gente ficava calado, ou porque não sabia muito o que falar, ou porque tinha gente por perto e a gente não podia ficar falando aquelas bobagens pueris que a gente diz quando se apaixona pela primeira vez. Até bem pouco tempo atrás, o telefone dele era o mesmo, e ainda que nós tenhamos passado anos sem se ver, quando nos reencontramos e eu precisei falar com ele, não hesitei, liguei e do outro lado da linha ele atendeu. Foi como se um soco de nostalgia tivesse sido dado nos meus ouvidos e reacendido memórias guardadas há muito, junto com alguma saudade e um pouquinho de mágoa.

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Rebecca Braga, ainda gitinha, ao telefone

Certa vez, um amigo extrapolou na conta do telefone ligando pra os celulares dos amigos. A mãe o questionou, ele se saiu e ela armou uma cruzada contra a operadora por cobrar ligações que nunca foram feitas por eles. A operadora ligou pra os números que apareciam na conta mas, ainda que ninguém tivesse combinado nada, todo mundo disse não saber de quem se tratavam aquelas pessoas. Acho que essa conta nunca foi paga.

Uma amiga minha me ligou um dia pra me contar que um colega de turma dela estava apaixonado por mim. Eu pedi o número dele, ela me deu, eu liguei pra ele e do outro lado da linha o menino ficou em êxtase. Começamos a namorar alguns dias depois.

Claro que qualquer situação dessas podia acontecer pelo celular, mas eu sou como dizem, “das antigas”. E antigamente acontecia assim. Pelo menos comigo.

Até hoje eu sei o telefone de alguns amigos meus e eu sinto falta daquela época em que alguém atendia em casa e gritava:

-Becca, telefone pra ti!

Às vezes eu sabia quem estava do outro lado, às vezes não. Tem alguma coisa diferente nisso… Pode parecer bobo, mas tem.

Em tempos de smartphones, quem tem telefone fixo, tem uma referência pra abrir um crediário lá no comércio, eu tenho lembranças de um tempo em que não era tão fácil achar as pessoas, mas a gente dava um jeito.

TOCAR O (SÓ)L – (Lara Utzig)

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Desci do ônibus. Havia marcado com uma amiga na frente do shopping. De lá, iríamos a pé para algum bar, comemorar meu aniversário atrasado. Esses rituais de passagem não me agradam, mas fazer o quê… As pessoas têm essa necessidade de celebrar, então o que resta é me adequar. Cheguei ao local combinado e ela não estava, ligou dizendo que se atrasaria um pouco.

– Faltou luz aqui no bairro.

– Tudo bem, eu espero…

Aguardando num alicerce ao lado do Bob’s comecei a olhar a meu redor. Pernas apressadas. Calças coladas. Piercings no nariz. Bonés de aba reta. Camisas de basquete. Todos eram iguais. Uma multidão de semelhantes. Uma confusão de cores. Senti-me tonta ali. Não havia outra paisagem. Eu era um ponto negro perdido e escorado em uma coluna.

As vozes se confundiam e apenas uma ou outra palavra se fazia inteligível. Falavam (f)utilidades. Foi então que ou(vi): uma metumblr_ma3mswv7PU1rg9lzmo1_500lodia vinha em meu encontro para me fazer fugir dos sussurros daquela plateia de pessoas idênticas: um trompetista tocava.

O trompetista estava lá, de chapéu Panamá e eu cá, vidrada naquele ser humano, talvez o único capaz de me compreender um pouco ali. Ele executava com maestria o repertório e, transitório, era notório que ninguém o notava. Os meninos beijavam meninas. Os meninos se abraçavam entre si. As meninas riam entre elas. E o trompetista estava estático, invisível a esses olhos, assim como eu.

Percebi que o trompetista dividia comigo a mesma solidão, dessa que faz a gente não se sentir em casa. Como se o mundo fosse espaço alugado, não uma morada. Esbarraram em mim cinco vezes, eu contei. Ninguém pediu desculpas. Não há motivo para pedir perdão de quem não se pode ver, muito menos enxergar. Ninguém se sente mal por quem simplesmente não existe.

Tudo que eu queria era que minha amiga chegasse logo…

O trompetista deu a nota sol, tão só que pude quase visualizar o dueto dele com a própria Solidão. Quando ele deu um dó, também me deu dó por não estar com meu violão.

O trompetista me fez companhia naquele sábado à noite e dividiu comigo o mesmo sentimento… De não pertencimento, de ser um estranho no ninho. Isso me arrancou outro sol: sol-riso.

Quando minha amiga enfim apareceu, dei moedas ao músico na saída, não que rodelas com valores estampados resumissem minha gratidão. Peguei no ombro dele e disse:

– Obrigada.tumblr_static_violao-e-sol-g

Acho que ele entendeu e respondeu com um olhar tão cheio de ternura que encarei como se fosse um “de nada”. Foi o encontro de solidões mais bonito que eu já tive.

Segui para o bar com minha amiga. Bebemos e rimos. Continuei vazia. Soube que minutos depois que fomos embora, ocorreu um arrastão dentro do shopping. Uma outra amiga minha que trabalha lá me contou. Inclusive, ela teve que guardar mil reais que estavam no caixa dentro do sutiã.

Escrevo esperando que o trompetista que desconheço o nome esteja bem. E no fundo, também nutro a expectativa de que um dia, conseguiremos encontrar algo que nos preencha, dê asa, e um lugar especial no mundo para ser nossa casa.

(Lara Utzig)

URDIDURA (ENIGMA AMAPÁ) – @fernando__canto

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Por Fernando Canto

Des/vendar tua terra, teus sonhos, Amapá. Des/vendar teus olhos, teus textos não escritos. Des/velar tua alma circunscrita sobre um rio de prantos que se espraia para a foz e lava sortilégios no oceano.

O teu estado é o de ausente nas necessidades. Essas que emergem quando o tempo lento das tuas tardes flana no teu dorso como a vida descaindo à chuva nos barrancos e re/velam teus segredos: a construção de pedra ainda esmaecida na paisagem e o ofício de viver uma inócua pedagogia da espera.

Desgarrar das guelras, relatar os mistérios das entranhas, desfibrar as teias, manusear teares para fabricar tecidos de ouro e aço e de cores rutilantes como as mãos habilidosas de Penélope até a volta do herói na hora exata.

Quando és só tu és nada, Amapá. Nada te adianta se ao calor não refrigeres e se ao frio não acenderes a teus filhos. O fogo do amor e da paixão que de ti tantos esperam.

Quando és só equinócio, Amapá, parece não temeres o jogo equidistante dos solstícios nem a força das vozes nos quadrantes onde estão os mitos, a fé e os gritos vindos lá do fundo da floresta em busca de respostas que as saciem.

Tu só sentirás a ruptura ao ouvir a voz gestante das ciências e o anseio ainda latente no clamor de homens e mulheres sem os receios dos silêncios obscuros, sem o medo de arder velhas memórias, sem a escória a deformar os teus caminhos e os passos do teu povo em agonia.

Terás, assim, a urdidura do algodão e da lã por aqueles que te tocam com ternura do meio-dia à meia-noite em tempo de contrários, até que as sombras sejam luzes transparentes para que surjas radiante após a cerração.

Mas dobrarás, decerto, as pontas da Rosa dos Ventos para o coração, num círculo de luz: Um gesto a agradecer eternamente.

Verás, então, que desvendar-se é pôr o lume sobre a mente, é libertar-se já do que te oprime, é trazer o mar de volta para os Andes, é revolver a vida em ondas inquietas de um novo rio que surge para sempre

A Morte do Piruliteiro (crônica de Fernando Canto)

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Por Fernando Canto

Perto de casa havia uma família de pessoas muito pobrezinhas. Três molequinhos saiam todas as tardes para vender pirulitos que a mãe deles, uma jovem viúva, fazia com capricho. Retornavam ao entardecer com luz suficiente para baterem uma bola na rua, pois nela nunca passava carro a essa hora.

Deviam ter oito, sete e seis anos quando os conheci. Eram branquinhos e tinham os cabelos louros e espetados, cortados do jeito militar. Pareciam ter vindo de bem distante, talvez do Maranhão ou do Ceará. Todos estudavam na mesma escola que eu, um grupo escolar público no centro da cidade, para onde íamos, nas manhãs, bem cedinho, descendo a ladeira com nossos macacões cáquis, o uniforme escolar que o governo do então Território Federal fornecia a todos, indiscriminadamente. Voltávamos às onze horas, quando a sirene da Olaria Territorial apitava exatamente na mesma hora que a campa da escola batia. Eu ficava admirado com aquilo. E vinha com eles, ávido para chegar em casa e almoçar, enquanto que eles não sabiam se iam comer alguma coisa, apesar de terem merendado. Só tinham a certeza de uma jornada de trabalho à tarde, quando iriam se dividir para vender os pirulitos lá pelas bandas da Doca da Fortaleza, na beira do rio. Depois jogariam uma pelada na rua e dormiriam cedo, pois nessa época não havia luz elétrica no bairro e nem se sonhava com televisão.

Um dia o mais novo deles desapareceu. Era inverno, a chuva fustigava a cidade alagando os terrenos baixos. O menino não chegara em casa e o alarme foi dado. Procuraram a noite inteira sem êxito. Seu corpo foi achado no dia seguinte, engatado no bueiro do meio da ladeira da nossa rua, uma tubulação que ligava um grande lago natural do bairro onde morávamos ao rio Amazonas. O vendedor de plantas notara uma camisa verde no acostamento da rua e adiante um tabuleiro de pirulitos vazio. Era véspera de Natal e foi grande a consternação das pessoas ao saberem do fato. A criança deve ter parado para tomar banho no pequeno igarapé, mas não conhecia a força da correnteza quando a maré baixava no tempo das chuvas, e se afogou.

Todos os moradores se entristeceram, pois o menino lourinho era muito estimado. – Um pequeno trabalhador que ajudava sua família. Coitadinho, diziam. Lembro que quase todo mundo foi ao enterro a pé. Na Missa do Galo o padre rezou por ele de novo e muita gente chorou de emoção, pois o comparou ao Menino Jesus, que ajudava o pai no ofício de carpinteiro.

Foi um Natal muito triste para mim. Achava um absurdo a morte daquele menino esperto que já lidava com dinheiro na sua pré-profissão de vendedor/piruliteiro, apesar de nem sonhar grandes sonhos ainda, pois não tinha estímulos em casa.

Ao visitar a casa de meus pais, onde moram meus irmãos, ontem, passei pelo bueiro no meio da ladeira. Parei o carro adiante e fui olhar o igarapé correndo no mesmo sentido, do lago para o rio. Alguns matupiris e carás-barbelos dançavam na água clara que margeia o fluxo das águas em velocidade, corrente que passa atravessando o terreno do seu Gama, até pegar o Igarapé das Mulheres e chegar finalmente ao Amazonas. Os peixes nadavam estranhamente, como a desenhar a figura sorridente do piruliteirinho louro no fundo do córrego. Veio-me, abrupto, um gosto de açúcar queimado na boca. Então me lembrei que o lago do Poço do Mato, de onde as águas vinham é um lugar de caruanas, habitantes/protetores do fundo das águas, que também são loirinhos como o piruliteiro que morreu num dia como o de hoje, às vésperas do Natal.

Imagem: Acervo pessoal – 1978

O Velho das Latas

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Por Fernando Canto

Aquelas barbas espessas no rosto do homem, brancas, brancas, se esvoaçavam com o vento da Beira-rio. Eram barbas longas que chamavam a atenção de qualquer um, mas que logo, logo, provocavam uma sensação de desprezo pela figura. As pessoas nas mesas ao meu redor comentavam sobre ela e após constatarem que era um mendigo se desinteressavam.

Que era um velho o dono das barbas parecia óbvio. Jamais vira aquela pessoa na praça e creio que ninguém a conhecia também. Era um ser estranho. Não fossem as barbas longas diria que era um ancião indígena há muito tempo expulso da vida selvagem e degradado na cidade. Talvez tivesse vindo lá do sul do Pará ou do Maranhão, onde se vê tanto índio mendigando, bêbados, pelas rodoviárias

Acompanhei seus gestos. De vez em quando ele apanhava uma lata de alumínio do chão, ajeitava-a e pisava nela com força, até achatá-la. Depois a punha num saco que carregava às costas e ia e vinha embalando seu cansaço. Calculei que ele se aproximara dos quiosques no finzinho da tarde quando os frequentadores dos bares surgiam para suas confabulações habituais. Certa hora ele se aproximou de uma mesa onde estava um casal bebendo cervejas em lata. Muitas delas já haviam sido consumidas e, amontoadas, tomavam a forma de pirâmide. Ele chegou devagar e pediu as latas vazias com os olhos. O rapaz o encarou e jogou uma lata no chão. O velho abaixou-se para pegá-la, mas o rapaz o empurrou sobre umas cadeiras de plástico, rindo de um jeito antipático e covarde. A moça que acompanhava o valentão repreendeu-lhe nervosamente, pagou a conta e foi embora na frente. Tentei ajudar o velho a se levantar, mas ele se desvencilhou de mim, atravessou a pista e sumiu.

A lua minguante surgiu como um imenso olho de cachorro dentro de uma nuvem negra e a maré subia, subia, arrebentando o muro de arrimo, o último anteparo de uma enchente ameaçadora. O vento intenso parecia orquestrar o bailado das águas, vigoroso e circular, provocando frio. Eu não duvidei que naquele momento e naquele pedacinho da cidade a natureza estava conspirando contra mim. Havia muitas luzes em toda parte, e eu estava ali ensimesmado, viajando em desilusões e lembranças amargas, esperando um tempo novo para mim. Sentia-me como uma roupa lavada e posta para secar no varal em dias de inesperados chuviscos.

De repente tomei um susto ao erguer os olhos. O velho surgiu na minha frente me encarando como se eu lhe devesse alguma coisa. Tinha o olhar severo e desafiador. Intrigado, pedi que sentasse e resolvi lhe encarar do mesmo jeito. Seu semblante foi mudando devagar até que sorriu. Então pude ver que seus dentes eram de uma brancura inquietante, mas ele tentava mesmo era falar com os olhos, numa comunicação inusitada que surpreendentemente eu compreendia. E foi “falando, falando em silêncio”. Pelos seus olhos dizia dos fenômenos das marés e dos ventos como um mestre em Geografia; falou do céu e das constelações como um velho astrônomo egípcio; dos homens como um santo e do coração como um deus que abre todas as portas para o amor. Enquanto “falava”, percebi que manuseava uma lata de alumínio com movimentos suaves, assim como quem modela uma peça de argila. E após tantas viagens imaginadas, que quase fizeram esquecer minha tristeza, o estranho homem se despediu e foi caminhando com sua sabedoria em direção à fortaleza de Macapá.

Ficou em mim uma momentânea sensação de felicidade e a boca seca de vento e vinho. Mas logo voltaria aquele estado de amargura, de ter o coração fechado e um gosto de desamor e de abandono. Meus olhos apenas contemplavam o infinito. Foi então que ouvi o espocar de fogos de artifício e caí na realidade. Sobre a mesa estava uma chave retorcida feita de lata. Olhei ao redor, as mesas vazias. Um casal de garçons me acenava sorridente. Pensei no velho das latas, apertei a chave com força e uma sensação de paz abriu em meu coração para nunca mais se fechar para o amor. Olhei novamente em volta. O relógio do trapiche marcava meia-noite. Era natal e as luzes piscavam como meus olhos cheios de marés lançantes.

U CONTADÔ DI ISTÓRIAS (conto de Ricardo Pereira)

Derna u tempu d’eu moçu, ou mió, derna u tempu d’eu mininu, quanu cambava vorteandu pulas picada alêa, inhambadu a percurá bubuia di cacimba pra matá a sêdi di meus irirmão menó, já discunfiava di minha sina.
 
Sabia lá si era dom ou castigu – sei lá. Só sabia qui sabia cumu ninguém contá das disventura, das aligria, das dô i das isperança di meu pôvu.
 
Não, nunca tive istudu di dotô. U pocu qui sei tragu da lida, di minhas andança pulu mundu afora i dus exempru di meu pai, qui nossu Sinhô, dus altu di sua sabiduria, carregô cunsigu pra passiá nas bramura du céu. Pur issu, peçu pru sinhô qui num si avexi si pur acausu minha inguinorança atrapaiá us intendimentu du meu dizê. Si u Justu ansim mi primiti, dô tentu im meu ofíçu i contu du sacrifíçu i das pinura qui muitu cristão carrega inté vortá pru pó.
 
Inquantu falava i u sinhô mi oiava butanu butuca ni mim, fui mi alembranu dum cabra: Terençu da Viola.
 
Cidadão trabaiadô, prestimosu, meia-légua di hômi, forti cumu us marruá qui nós aperségui pulus campu nas lida du dia. Mas ninguém dizia… Cu’a fala mansa, us óio gatiádu, inspirava cunfiança i bem-querênça im todu mundu. Pur uns tempu cambô nestas banda, ali prus ladu du Buqueirão, ancima das Ribeira, u sinhô conhéci? Pois intão, cum tantus pridicádu assucedia qui a muierada si alvuroçava toda só pur ovi falá nu nômi du cabra.
 
Quanu Terençu, adispôs dus seus quifazê, é claru, puxava da viola pra mó di tirá umas nota … Vixi! Aí tudu disandava di veiz. Era um disassussegu só. Dava inté gostu di si vê. Qué dizê, in nós, qui num era donu di muierada nin’uma. Pru quê quem era, seu moçu, num achava graça, não!
 
É certu, intão, qui a piãozada num via cum bons óio essi regalu du violeru i das assanhada, mais ninguém si mitia a besta cum êli, não. Cumu já dissi, u hômi era duma fortura qui só vendu. Ninguém si alterava. Mermu Totonhu, u brigão da vila, qui si dizia imbeiçadu pur Nézinha. Quanu sôbi qui a morena tava inrabichada pelu violeru, fez cara di “nem ti ligu” e largô di mão u amô qui sintia pur ela i agora anda atráis di otra frô. 
 
U pobrema du tocadô foi tê arreparadu im quem num divia: Das Dô. Ah, sim, é verdadi qui nunca tentô nada, mas ficava aguniadu quanu ela tava pur pertu. Uma veiz segredô issu prum parceiru di prosa na Botica di seu Zé.
 
Im vistido di xita, ninguém ficava mais graciosa qui Das Dô. Eta muié linda: cabelu nas cintura, pretu, cubrinu um pescoçu branquinhu, cherosu… Issu sem falá nus óio. Ah, us óio di Das Dô, perdição – um jeitu di oiá sem oiá, di querê sem querê… Uma veiz, seu Zé, aqueli um da Botica, hômi lidu, informadu, disse qui paricia tão bunitu quantu us óio di uma tar di Capitu qui eli viu nus livru i qui seu maridu, um tar di Bentinho, chamava di dissimulada. Num sei quem é essa Capitu, nem essi Bentinhu, muitu menu u qui qué dizê a palavra ‘dissimulada’, mais si us óio dela forem tar i quar us di Das Dô, humm, devi di sê linda a danada!
 
Assucedi, seu manu, qui Das Dô tinha um donu. Pulo menu era ansim qui Zé-das-Venta pensava. I di tantu si achá donu, arreparava nim tudu dela. Vigiava tudu: seu andá, seu visti, seu falá i seu oiá… Aí danou-si. Si a fogaciosa num dava pista di ôtru jeitu, seus óio contava tudu. Apesá da disfarçatez, era só arrepará: tava cum oiá di muié apaixonada, aqueli mermu oiá qui êli pudia jurá, qui ela um dia lançô pra êli.
 
Zé-das-Venta, u tar qui si achava dônu da ditosa, pur tê si casadu cum ela, era cabra danadu di sigurá; quem relava nessi tinhosu curria mais riliadu qui gabiru-du-banhadu quanu grela us óio im onça-marruá. Arri, qui u bichu era brabu: num tinha seguna veiz quem cum êli purfiava nessas incruziada cerrada dessi mundo di meu Deus, nossu Sinhô!
 
I quanu u distemperadu discunfiô qui tinha arguma coisa errada, cumeçô a cunzinhá um prano pra mó di pegá us dois. Ela, sua branquinha, i u cabra, qui êli num sabia quem era, mas discunfiava… Certa veiz, êli si alembrava bem, oviu um pau-d’água falandu qui u tocadô si aguniava todu quanu ficava pertu di uma muié casada da vila… É claru, só pudia tá falandu di Das Dô o miserento…
 
Si eu lhi dissé, esse um, qui Zé-das-Venta num tinha medu da reação di Terençu, taria lhi mintindu, e issu é coisa qui num façu – quanu a ‘Da Cara Feia’ vié mi buscá, taí um pecado qui num mi leva prus discampadu du Demu… Pois bem, intonces u inciumadu tinha cagáçu sim, sinhô. Mas seu orgulhu i ódiu era inté maió qui eli mermu.
 
Divia di sê um sárbadu, seu mininu, umas oitu da noiti. A alumiadora já cumpria sua função lá nu céu, aclarianu tudus us caminhu, picadas i trechus aleius. Era di si gostá di si sinti u chêru frescôsu dus eucaliptu qui a brisa trazia di lá das várzi du Buqueirão. Ainda mais qui u chêru si ajuntava cum u prefume das frô dus piquiazêru qui si ábri nessa épuca du anu. Essas árvori inda sirvia di abrigu pruns tantu casal di namuradu qui pra lá ia apruveitá u iscurinhu pra mó di namorá.
 
Distoava dessi clima di harmunia, a disarmunia du coração di Zé-das-Venta, qui atucaiadu isperava u disinrolá dus acuntecimentu. Uma lambedeira na cintura, uma faísca nus óio i iscuridão na alma. Us pensamentu passandu alopradu na cabeça impampada di suó, i uma voz zumbindu nus ovidu: mata êlis, us dois!
 
Pra u sinhô num si perdê nu qui digu, eu contu u qui levô Zé-das-Venta a issu.
 
Pur vorta das uma da tardi, dessi mermu dia, deu di aparecê arrudianu u sítiu di Zé um mulequi, querenu falá cum Das Dô. Quanu essa uma viu u mulequi, disimbestô pulus caminhu i parô êli na portêra. Cunversaru um pocu. Zé-das-Venta mirava di longi, mais u suficienti pra apercebê u bilheti qui u porqueira du catarrentu intregava pra sua muié.
 
Quanu ela vortô, contô priucupada qui cumadri Zefa quiria falá mais ela um particulá, só qui num pudia dexá u velhu Bastião suzinhu, pur issu preguntava si Das Dô num pudia dá um pulu lá à noitinha. Das Dô dizia issu si inroscandu nu maridu, sabedora qui era qui pôcus hômi arresésti um pididu chorosu de muié – principarmenti quanu acumpanhadu du carinhu certu…. U sinhô mi intendi, né? Ela sabia qui Zé chiava mais sempri concordava cum ela, fazendu suas vontadi. Dessa veiz eli concordô mais num foi cunvencidu. Disfarçanu qui pricisava acunferi u restu das boiada, pois u patrão tinha pididu, saiu à cata du garotu.
 
Umas alevantada i uns cascudo fizéru u mulequi abri u bicu: Das Dô havéra di si incontrá cum arguém lá pertu da várzi du Buqueirão, imbáxu du piquiazêru mais maió du lugá. Zé-das-Venta só num sôbi cum quem pruquê u mazelentu du garotu jurô di pé juntu qui tinha arrecebidu u papé iscrivinhádu das mão da filha mais moça di dona Zefa, a Jacira, sem qui essa uma disséssi di quem era u bilheti. Num pricisô nem di a alcuvitêra tê faladu, êli sabia: só pudia sê du fio-duma-égua du violêru du Demu.
 
Pois intão, pur essi mutivu é qui Zé-das-Venta tava lá di butuca, prontu pru bóti. Mais mermu cum u clarão da lua u inciumadu tinha difircudadi di inxergá, já qui todu u ódio du mundu morava nu seus óio i nu seu coração.
 
Foi quanu, seu mininu, Zé viu sua muié nu caminhu cumu qui percurandu arguém. Sua frô, sua perdição. Cumu pôdi fazê issu cum eli, qui só lhi deu amô i fazia tudas suas vontadi? Já ia saí correnu pra pegá a disnaturada, quanu trupicô nu seu ódio i si estabacô nu chão. Nu qui alevantou as vista, adespois di si alimpá, já num viu mais Das Dô. Cadê u diabu da inganadora? Adondi si meteu? Uns quinze minuto adespois é qui cunseguiu avistá entre uns casal qui lá tava namorandu, pertu du piquiazêru mais maió, o disavergonhadu du violeru dus infernu, agarradu num vurtu di muié: a sua! Só pudia sê ela, seu amô, sua frô, sua perdição!
 
Sem contá cunversa pulô qui nem curiscu pra riba di Terenço, qui num tevi tempu di si desviar da pexeira. Mermu feridu, u violeru – cumu eu tinha dito – era cabra forti i mermu sem intendê direitu u qui acontecia, sacô mais qui dipressa di sua lambedeira i partiu pra riba di Zé-das-Venta. Nessas artura, tudu mundu correu pra vê o qui tava assucedendu i viram quanu us dois marruá caíru nu chão, rolandu ribanceira abaixo. Uma gritaria dus diabo sirvia di música pra peleja dus dois. Num demorô muito dois gritu medonhu suaram mais artu qui todus us otru gritu. Era dus dois. Tendu a alumiadora e us casal pur testemunha, us dois briguentu caíru, um pra cada ladu. Impampadus di suó i sangui. Ninguém si atrevia a chegá pertu delis. Só uma muié, a qui tava agarrada cum u violêru, gritandu cumu uma sireni, correu até lá. 
 
Quanu apercebeu qui us dois tava sem vida, si agarrô disisperada nu corpu marrudo di Terençu, chorandu cum toda força di seu peitu di menina moça: era Jacira, filha mais moça di cumadri Zefa, qui gritandu pra lua perguntava pru mó di quê aquilo havéra di tê acunticidu. Jacira, chorandu muitu, dizia qui tava di namoricu cum u tocadô fazia nem trêis dia i aproveitandu qui sua amiga Das Dô tinha marcado di si incontrá cum seu amanti secretu ali, marcô também cum u violeru, seu premeru i únicu amô.
 
Nessa merma hora, já distanti muitas léguas dali, Das Dô si acunchegava nus braçu di seu Zé, aqueli um da botica, qui tinha lhi prumetidu qui na premera oportunidadi largava tudo qui tinha e carregava cum ela da vila pra morá mais eli na cidade grandi, pois uma muié cumu ela, cum aquelis óio di Capitu, miricia um futuru mais mió.
 
Ricardo Pereira – Músico, professor e cronista. 

O Sapo que come ração de cachorro (crônica de Marcelo Guido)


Corria o ano de 2013, que até aquela data era mais um ano normal em minha vida. Estava eu, Marcelo Guido, lá, com meus áureos 33 anos, recém-chegado do show do The Cure (que fez a vida voltar a ter algum sentindo). Enfim tudo indo tranquilo.

Um choque, como se um ônibus de dois andares (daqueles vermelhos ingleses) tivesse batido em mim. E nesse caso não foi nada honroso. Me separei. Sim, as histórias de amor eterno, que todos pensam em ser pra sempre teve um final.

Sai naquela noite, tão sombria quanto “Love Will Tear Us Apart” do Joy Division e caminhei toda Avenida Fab (quem é daqui sabe quanto é longa), a procura de alguém para conversar e  contar meu drama familiar.

Quem poderia me salvar.  Às vezes precisamos de um tapa na cara ou um empurrão para cairmos na real e percebermos que coisas como aquilo tudo não é fim do mundo. Mas quem encararia tal missão? Talvez um amigo, um irmão, um cachorro sei lá.

Sem saber para onde ir, fui atrás de um amigo, que é meu primo, tecnicamente meu irmão. Talvez ele, por ser da mesma idade que eu e saber de tudo que se passava em meu matrimonio (não por ser confidente, por que isso é meio veadagem) mas por ser da mesma época, idade e sons, talvez ele estivesse acordado. Naquela hora.

Cheguei a sua residência, o chamei contei toda situação. Sério, eu precisava falar. Olhando-me com aquela cara, que só os mais  canalhas personagens  de Nelson Rodrigues poderiam ter, escutei de meu primo André Montalverne:

“Cara, não sei oque te dizer, mas tu já viu um sapo comendo ração de cachorro??”

Respondi:“Não!”

Eis que este individuo abre uma porta dentro de sua casa e estava lá: o famigerado anfíbio literalmente rangando a ração do cachorro (que não era Foster).

Bem nutrido e satisfeito, sinceramente esperei que aquele batráquio saísse com uma cartola e uma bengala cantado “ Hello my baby, hello my honey, hello my ragtime, summertime gal…” como aquele clássico desenho. Merda não aconteceu.

Duas coisas que aprendi nessa noite: Nada é tão bom que não possa ruir e que ninguém cria sapos melhor que André Montalverne.

Ah, e fomos ao Bar.

Marcelo Guido é pai da Lanna e gosta mais de Rock, cerveja, churrasco e cigarros do que de pessoas.

Minha maravilhosa família e nossas reuniões incríveis…

 
Já dizia o tal Leon Tolstói: “A verdadeira felicidade está na própria casa, entre as alegrias da família”. Em 1976, numa tarde quente de setembro, nasci. Graças a Deus, em um clã honrado, honesto e recheado de gente porreta.
Quem me conhece sabe, não possuo um comportamento politicamente correto, mas tem duas coisas que são primordiais para mim: a minha família e o meu trabalho.
Os “Penha Tavares” (meu clã paterno) são uma das famílias tradicionais de Macapá. Meus avós foram pioneiros na capital amapaense e tals. Tem tanta gente bem sucedida no nosso grupo familiar e há tanto respeito mútuo que me orgulho de descender deles (claro que eu e meu irmão Emerson também herdamos paideguices da mamãe).
No último domingo (12), durante o almoço de Círio, nos reunimos. Fui com minha mãe, Lúcia, a casa da avó Peró. Lá nos juntamos à vovó, meus tios, tias e primos. É um monte de gente inteligente, alegre, a maioria bem humorada e de alto astral (é só não pisarem no calo, pois conosco, é um quilo certo. E bem pesado!).
O mais legal é que essas reuniões colorem nossas vidas. Nelas, nem todo muito bebe e nem todo mundo samba, mas consertamos o mundo, reinventamos a vida, conversamos sobre assuntos diversos, até inusitados.  Além de muita memória afetiva (lembranças bacanas do vovô e papai, que já viraram saudade), brincadeiras, boa comida, ótima música e, é claro, cerveja pra caramba!
Outra coisa bacana é que, lá o papo é sincero e sem hierarquia. Nos posicionamos sobre o contexto atual do país, Amapá, mundo e nosso micromundo. Não somos “bonzinhos”, mas tentamos ser justos. Até brincamos com nossas imperfeições.

Me orgulho de nortear minha vida pelos princípios aprendidos com minha mãe, pai, tios tias e avós paternos. Garanto que, apesar das maluquices que cometo, preservo a retidão do meu caráter, a exemplo dessas pessoas, fundamentais na minha vida.

Meu falecido pai, Zé Penha (meu super-herói absoluto!), primogênito do vô João disse-me uma vez: “é preciso dizer que você ama as pessoas em vida, pois depois que elas partem, já era”. Assim fazemos a cada encontro desses. É sempre emocionante!
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E olha que falamos de tudo. Desde temas tidos como polêmicos em muitas rodas como política, orientação sexual, religião, futebol. E outros bem inspiradores, como literatura, cinema, além de bobagens legais.
Bom, é assim. Seguimos com amor mútuo. Ah, não só no Círio, mas sempre. A gente se junta, se ama e é feliz! Bom resto de terça-feira e semana pra todos nós. Principalmente, para minha família.
 
Elton Tavares

*Tema sugerido pelo tio Paulo, pois o meu blog também é assunto nos nossos felizes encontros. 

Quem morre vai pra Caiena (*)

Crônica de Fernando Canto

 

Dizem que depois que alguém “leva o farelo”, “bate as botas” ou “foi para a cidade dos pés-juntos” só tem um destino: Caiena.
 
Apesar de ter indagado várias pessoas sobre essa afirmação (que muita gente leva a sério), ninguém, ninguém mesmo soube me dizer o porquê. Nem o Paulinho Piloto que já foi lá tantas vezes ousou sequer inventar uma resposta.
 
Há, entretanto, uma versão um pouco aceitável, que é a de quem vai para lá nunca volta. É antiga: nossos emigrantes se mandavam para trabalhar na construção civil da base espacial de Kourou, se davam bem por lá e nunca mais retornavam. Uns ficavam e faziam suas carreiras como trabalhadores esforçados, e com o compromisso de apenas mandarem umas valiosas notas de franco para a família (na época não existia a união europeia e nem o euro). Outros, por não gostarem muito do pesado, acabavam ficando nas mãos dos gendarmes e consequentemente amargando uma pena nas prisões má afamadas do lugar, tipo Ilha do Diabo (que diga o seu Plancantã, pai do Waldir do Calçadão).

A maioria dos brasileiros que vai para lá vai se arriscando. São inúmeros os relatos dos que se aventuraram como clandestinos e acabaram ficando pelo meio do caminho. Perto de casa, quando criança, ouvia notícias de vizinhos que morreram afogados nas travessias do rio Oiapoque, em naufrágios de pequenas e frágeis embarcações. Todos eles eram muito pobres e tinham essa ideia fixa de ter um bom emprego e voltar com uma pequena fortuna para se restabelecer em Macapá. Lembro que uma dessas pessoas foi a Maria Lúcia, irmã da saudosa Maria Piçarra. A notícia de sua morte deixou consternados os moradores do Morro do Sapo, no Laguinho, mesmo assim, isso não inibiu o desejo de outros se aventurarem na mesma rota.

 

O engraçado é que Caiena é uma cidade aparentemente bonita, não tem problemas graves de trânsito e seu centro histórico é agradável aos olhos dos turistas, como a Place des Palmistes, o mercado de frutas, a área comercial, o porto e os prédios administrativos. Nada ali indica que é um inferno, ainda que como qualquer cidade cosmopolita tenha lá seus problemas sociais.
 
Mas se Caiena é a estação final de quem morre em Macapá, por que os caienenses não acham que quem morre lá vem para cá? Talvez o inferno daqui seja mais certo. Ninguém quer padecer depois da vida no Brasil, muito menos aqui em Macapá. Então parece ser mais cômodo “dar um jeitinho” brasileiro para ser condômino do paraíso de Caiena (com possibilidade de ser eleito síndico, comprando voto ou não) do que ficar com a alma vagando aqui, mesmo que o corpo esteja enterrado lá no “Barcelão”.

 

A expressão ”foi pra Caiena” ou “viajou pra Caiena”, é uma metonímia e um eufemismo, que serve para suavizar a rudeza da morte indesejável dos amigos e conhecidos. Mas como não tem jeito para ela nós vamos inventando maneiras de driblá-la, e esta certamente é uma delas, afinal a morte representa o fim absoluto de qualquer coisa que existe de positivo, e simboliza tudo o que é perecível e destrutível da existência.
 
Mas se “ir pra Caiena” é morrer, é bom também lembrar que a morte significa libertar-se das preocupações e penas e que ela abre o acesso ao reino do espírito. Dizem que a morte suscita a necessidade de ir mais longe, pois ela é a condição para o progresso e para a vida.
 
Certa vez, lá em Caiena, participando de um desses festivais culturais, o Bomba D’água reconheceu um gari que varria a praça do centro da cidade. Era o Maiambuco, um amapaense que tinha saído de Macapá para a Guiana Francesa há mais de trinta anos e que ninguém mais sabia dele. Bomba D’água, também conhecido por Joaquim, chamou o Pavão, apontou com o dedo e disse: – Olha o Maiambuco lá! O Pavão ficou tremendo e meio amarelo de medo, quase não acreditando, mas exclamou: – É mesmo, Bomba. É por isso que dizem que quem morre vem pra Caiena. Égua, vamo embora daqui.
 
(*) Publicado no Jornal do Dia. 2007.

Abriu, não troca mais. (crônica do amigo @idanielsa em homenagem aos 100 anos do Palmeiras)


Havia chegado o grande dia. Finalmente compraria seu primeiro time de futebol de botão.

Subiu em sua bicicleta e se dirigiu ao pequeno estabelecimento comercial, onde, tradicionalmente, se vendia de tudo um pouco. A distância a percorrer era razoavelmente grande para uma criança com pouco menos de dez anos.

Apesar da pouca idade, ele já se declarava torcedor do Flamengo, só que o time de futebol de botão que encheu seus olhos foi o do Palmeiras, com aquele verde forte e imponente. A década de 80 foi um período com grandes conquistas do rubro-negro carioca no futebol nacional e internacional, sendo previsível que crianças em todo o país passassem a simpatizar e torcer por ele. Mas o garoto, desconhecendo o longo período sem conquistas que o clube paulista enfrentava, escolheu o alvi-verde palestrino* como seu primeiro time de futebol de botão.

Voltou para casa todo orgulhoso pela compra, ansioso para estreá-lo mostrando ao irmão mais velho, ao tio quase da idade do irmão, aos primos e aos amigos da vizinhança. Agora poderia brincar sem ter que pedir emprestado deles.

Quando abriu a embalagem, uma surpresa nada agradável. As peças estavam todas retorcidas… tudo empenado. Talvez por ter sido exposto ao calor excessivo do meio do mundo**, o material plástico não suportou e entortou. Ou o defeito poderia ser da fabricação, não havia como descobrir. O certo é que todos disseram pro garoto voltar lá para trocar, e foi o que ele fez.

No estabelecimento comercial, com o brinquedo em mãos, pediu que fosse trocado por outro em perfeitas condições de uso, mas ouviu do comerciante, com um ligeiro sorriso na boca, uma frase que marcaria sua infância:

_ Abriu, não troca mais.

Um abatimento profundo tomou conta daquela criança, que voltava para casa em sua bicicleta deixando pelo caminho não só as marcas dos pneus, mas também as marcas da sua tristeza infindável, com as lágrimas que pingavam no chão.

“Crônica autobiográfica que escrevi em 2009, em meu antigo blog “anônimo”, que hoje dedico ao centenário da Sociedade Esportiva Palmeiras” – Ivan Daniel Amanajás

* Palestra Itália foi o primeiro nome do Palmeiras.
** A cidade é cortada pela Linha do Equador.

Obs: Eu, o dono do blog, sou flamenguista graças a Deus. Mas o texto é legal e o cara é brother. Parabéns a ele e ao seu time. 

O Dia que o Godão morreu (crônica escrita há exatamente 1 ano – Por @hccintia )

Por Cíntia Souza


O nó na garganta deixou meu o corpo mole. Acordei de luto. A tristeza é algo que enfraquece de dentro pra fora, sem te dar chance de reagir. “Foi de repente”, “Eu falei com ele ontem”, “Disseram que foi o coração… Mas também, mano!”, “É! A boemia tem preço”.

Meu amigo morreu.  Meu parceiro morreu e a gente nunca viajou junto, digo, ao menos não para outros lugares. Por isso não quero ficar com as lembranças, muito menos pirar com aquela lista de tudo o que não fizemos ou me punir por não saber aproveitar melhor o nosso tempo. Só a ideia me irrita. Tá certo! Tenho problemas com a morte. Invejo kardecistas. Eles são tão serenos na hora da passagem. Eu acho que eles fingem. 

Godão, Godão, se você estivesse aqui com certeza iria tirar um barato. O povo chorando, contando histórias, rindo, contando histórias e chorando. Interessante, todos têm algo para contar. E agora, como eu vou saber qual parte dessa biografia é real? Vai virar lenda, hein. É melhor deixar quieto. 


Além dos amados, da família firme e forte, será que você imaginaria que fulano viria até aqui? Beltrano também veio! Vixe… foram muitos encontros e desencontros. Eu queria que você pudesse ver isso. Tenho certeza que já imaginou o próprio funeral. Afinal, quem nunca?

Não faz muito tempo, talvez haja dois ou três meses, você postou algo sobre a sua rotina no trabalho e eu comentei citando a letra de uma música que a gente curte: “Eu desejo que você ganhe dinheiro, pois é preciso viver também. E que você diga a ele, pelo menos uma vez, quem é mesmo o dono de quem”, e você emendou, “Eu te desejo muitos amigos, mas que em um você possa confiar”.

Sobre essa coisa da morte repentina, sabe o que mais revolta? A gente nunca foi do tipo que compartilha frases de Caio Fernando Abreu no facebook. A gente vivia na vera. E como vivia. Éramos Carpe Diem total! E, não sei se pelo fato de sermos jornalistas, mas fazíamos questão de registrar tudo. Tinha quem nos considerasse exibicionistas. Comédia! É injustiça tirar a vida daqueles que tentam aproveitá-la ao máximo. É isso o que revolta! E nós sabíamos aproveitar a vida como poucos.

Não sei por que conjuguei o verbo no passado. Afinal tudo isso foi apenas um sonho. Acordei fraca, com sede e com aquela aflição entranhada na alma. Passei a manhã pensando se aquele sonho teria algum sentindo, um significado especifico. Não encontrei nada até agora. Mas, ainda durante a manhã falei contigo in box, e te fiz me prometer que não vais morrer. Você jurou. 

O fato é que as pessoas morrem. Para quê, né?! Mas acontece. E sempre foi assim desde o começo. Dizem que teve um cara que foi e voltou, rasgou o véu, desceu a mansão dos mortos, mas depois ninguém nunca mais o viu. Há quem espere seu retorno. 

Daí eu fico pensando se há uma solução para isso. Mas não sei se queria ver alguém retornar do lado de lá… Creio na cruz!

A jornalista Cíntia Souza é uma querida amiga deste blogueiro. Ela escreveu essa crônica após eu pensar que ia levar o farelo, depois de um mal estar súbito, em 2013. 

Quando a eleição acaba amor e amizade

Por Xico Sá

Até que a eleição nos separe, como diria o Amigo da Onça, o grande personagem de Péricles (na ilustração acima para os mais jovens).

Até que a eleição complique geral os relacionamentos. Seja no amor ou seja na amizade, começa a temporada de relações estremecidas por causa dessa velha invenção grega, a política.

Inevitável algum tipo de rusga quando o tempo fecha no botequim, no almoço de domingo na casa da sogra e principalmente nas redes sociais –essa imensa Boca Maldita virtual, só para lembrar o clássico local onde Curitiba discute as mais relevantes questões da humanidade, incluindo as mordidas do vampiro.

Até o começo dos anos 90, quando as coisas eram mais definidas entre esquerda e direita, dificilmente se formaria, entre os mais politizados, um casal de um(a) petista, por exemplo, com um(a) malufista.

Com a suruba eleitoral de hoje, como definiu o alcaide do Rio, as coisas mudaram muito. Óbvio que não é fácil encontrar um matrimônio entre um(a) jovem do PSOL e um(a) tucano(a).

O barraco ideológico até a apuração será inevitável. Não sei se isso é de tudo ruim. É democrático o embate, o conflito de ideias. Desde que não se bote a mãe no meio, como previsto já na Grécia Antiga.

Tem gente que tem paciência para a discussão; tem gente que não tolera. Óbvio:  se a amizade for firme mesmo, os laços de ternura irão estremecer mas resistirão às urnas.

Relacionamentos apenas virtuais, bem, esses serão destruídos em massa. A chacina já começou faz tempo

Não há manual para sair ileso. Se a Copa já foi politizada ao extremo, quando nego chegou a confundir CBF com órgão público, imagina na eleição, infinitamente mais passional e inflamável.

O arranca-rabo será ao melhor estilo Beco do Cotovelo, a tribuna pública de discussões filosóficas de Sobral (CE). Não foi à toa que ali mesmo, em 1919, a equipe de Albert Einstein comprovou, diante de uma eclipse do sol, a Teoria da Relatividade.

O pau vai cantar. O nível vai ser mais abaixado que mecânico de skate.

E você, leitor(a), já adotou um critério para usar nas redes sociais? Vai limar do seu círculo de relacionamento os amigos da onça?

Mesmo um pacífico anarquista-cristão da linha Tolstói, naturalmente contra o voto burguês, deve perder a paciência em algum momento.

Enfim, em que casos, você acha que é inevitável estragar uma amizade por causa das eleições?