Há 30 anos, morreu Raul Seixas

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Raul Seixas foi encontrado morto em seu apartamento no dia 21 de agosto de 1989, há 30 anos. Nascido em Salvador (BA) em 28 de junho de 1945, ele foi um dos pioneiros do rock no Brasil. O músico baiano teve divraul-2ersas fases ao longo de sua carreira. Na Bahia, ainda jovem, foi defensor do rock’n’roll – que naquela época pregava uma mudança radical nos costumes. Com versões de Dick Glasser e dos Beatles, lançou com a banda Os Panteras o LP “Raulzito e Os Panteras”, em 1968.

No restante dos anos 70, a popularidade de Raul só fez aumentar. Em 1973 saiu o primeiro álbum como artista solo, ‘Krig-ha, Bandolo’, já com músicas escritas em parceria com o escritor Paulo Coelho, no qual continha os hits ‘Metamorfose Ambulante’, ‘Ouro de Tolo’, ‘Al Capone’ e ‘Mosca na Sopa’.hqdefault (1)

Longe de ser só musical, a dupla com Paulo Coelho fez com que Raul aprofundasse o seu interesse por questões místicas. Em 1974, criaram a Sociedade Alternativa, baseada nas ideias do bruxo inglês Aleister Crowley. Os principais preceitos da crença foram divulgados na música Sociedade Alternativa, lançada no LP Gita, de 1974.

Raul ainda lançou 2 discos em que a parceria com o “mago” produziu canções famosas: Novo Aeon e Há 10 Mil Anos Atrás.

A partir de 1977, os discos do músico baiano ganharam menos atenção da crítica e em 1978 o cantor passou por complicações decorrentes do consumo excessivo de álcool que lhe acompanhariam pelo resto da vida.tumblr_m9opqfNEQL1r8v3wxo1_1280

Já em 1987 surge a canção ‘Muita Estrela, Pouca Constelação’, a primeira música em parceria entre Marcelo Nova e Raulzito. Um ano depois, já em carreira solo, Marcelo convidou Raul para participar de um show que faria na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador. O que seria uma participação virou uma turnê de 50 shows por todo o Brasil, e terminou no lançamento de um dos discos mais importantes do rock nacional, ‘A Panela do Diabo’. O disco vendeu 150 mil cópias e rendeu a Raul um disco de ouro póstumo.

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Raul criou uma mistura entre blues, folk e música brasileira que o distinguiu de outros artistas que faziam rock na época, como a Jovem Guarda. Já em seu primeiro disco solo, o cantor misturava baião, country rock e música gospel em canções como Ouro de Tolo e Metamorfose Ambulante.

raulzito-2Btra-C3-A7oPassou pelo brega, pelo rockabilly, pelo blues, pela MPB e diversos outros estilos que ampliaram o conceito de ‘roqueiro’, como Raulzito era visto na adolescência. Longe de ser só um representante da Sociedade Alternativa, ele se questionava, fazia crônicas, dialogava com canções da MPB e tinha consciência de que precisava se dividir entre a verdade do universo e a prestação a pagar, como canta em Eu Também Vou Reclamar.

Em 26 anos de carreira ele lançou 21 discos. Com toda a certeza, foi um dos maiores gênios da música brasileira. E lá se vão 30 anos de saudades. A obra deste artista sensacional inspirou e inspira muitos de nós, fãs. Tanto pelo fascínio da linha tênue entre a feliz loucura da autenticidade, quanto pela sinceridade à bruta, sempre poetizada em um rock and roll dos bons. Viva Raul!

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Coragem, coragem, se o que você quer é aquilo que pensa e faz. Coragem, coragem, eu sei que você pode mais” – Raul Seixas

Elton Tavares, com informações de sites de música, revistas de rock e documentários sobre Raul Seixas.

Amigos & Inimigos- Crônica firmeza de Fernando Canto

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Crônica de Fernando Canto

Sempre tive muitos amigos: de infância, de escola, de bar, amigos que fiz no decorrer de uma vida cheia de altos e baixos e que sempre pude contar com eles nas horas que precisei. Não se têm amigos só para jogar conversa fora, brindar em uma comemoração ou para fazer (in)confidências, às vezes mentirosas e desnecessárias. Nesse caso sempre a amizade vai por água abaixo quando uma confidência é espalhaddownloada pelos sete cantos da cidade. Já tive “amigos” que supus serem Amigos, que ajudei pensando estar fazendo um bem, e que a ingratidão deles brotou como espinhosa árvore na lavoura que tentei cultivar.

Não falo de inimigos, pois como os ex-amigos, eles não merecem a minha ira. Apenas desprezo o que não quero prezar. Eles são meramente pontos obscuros de referência na encarnação de um
images (5)maniqueísmo torpe, trivial e vulgar. Amigo mesmo é para contar com ele na hora da necessidade, para se divertir, criar junto e imaginar um mundo melhor. Amigos bons nós desenhamos para que se tornem o modelo da nossa própria utopia.Luis_XVI_no_cadafalso

Talvez fosse desnecessário este preâmbulo para falar de gente que gostamos de graça e nem fosse conveniente registrar numa crônica o apreço que sentimos por certas pessoas que às vezes, por gestos naturais e descomprometidos, nem sabem a extensão do bem que fizeram a nós em determinados períodos de nossa história pessoal. É verdade que nesse caminhar encontramos amigos dos amigos que não são nossos amigos, mas que os toleramos por respeito à admiração pessoal ao amigo titular. Assim também é verdade que falseaArquivoExibirmos nossa conduta para não decepcioná-lo, embora acreditando que de falso em falso se chega ao cadafalso.

Machado de Assis dizia em “Ressurreição” que o tempo não conta para a amizade: “Que importa o tempo? Há amigos de oito dias e indiferentes de oito anos”. Talvez o tempo seja o que conta para quebrar os obstáculos que surgem na vida. E dizem que muitas amizades rompidas, um dia voltando, passam a ser mais do que eram, independentemente das diferenças do passado. Voltam mais sólidas e mais maduras. E passam a ver que sempre existiu alguém interessado nesse rompimento. Coisas de novela, mas também coisas da vida.

images (4)Pessoas que estimamos passam por provações e se tornam sábias sem saber se são, ou pelo menos não demonstram isso. Há as que têm as almas simples e vivem num mundo aparentemente sofisticado. Mas as almas dos amigos muito se assemelham a casas: algumas delas são cheias de janelas abertas, onde corre ar puro e luz, outras são como prisões, fechadas e escuras, mas que merecem nossa consideração e respeito, porque a alma entende-se a si mesma e o amigo vale a afeição que fazemos valer por ele. Uma alma, mesmo fechada, sempre traz uma luz que pode nos iluminar antes de banhar-se a si própria.

BONS-AMIGOS-220x220Amigos têm defeitos e mazelas. Por essa imperfeição mútua é que normalmente amizades se atraem, bem como pela admiração recíproca de cada um no seu desempenho social. Uns moldam outros, outros se espelham em alguém. Porém, na amizade só não pode existir a incorporação da personalidade do amigo. Ela deve ser autêntica e eivada de respeito às idiossincrasias, inclusive pela solidão e ao silêncio do outro. Afinal somos seres em alteridades. Espíritos amigos voam na mesma direção da fonte original e bebem da mesma água fresca. Devem saciar sua sede bem antes que ela seja poluída pelos interesses pessoais de qualquer conspirador. A amizade só é possível pela oportunidade do encontro.rivais

Meu amigo R sempre diz que os inimigos são necessários, pois nos ajudam a refletir para que melhoremos. Não discordo, porque entendo que a vida é uma constante dialética. Mas não ando à caça de inimigos. Alguns cruzam meus caminhos em momentos que não criei. E, como não tenho um cemitério para enterrá-los como um certo personagem de Jorge Amado, eles que cavem suas próprias sepulturas e façam de suas mortes um renascimento.

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Eu e meu querido amigo, Fernando Canto. 03/08/2016

A MAÇÃ E AS ESCOLHAS (crônica de Dia dos Pais de Fernando Canto )

Por Fernando Canto

A primeira vez que comi maçã devia ter uns doze anos. Até então só ouvira falar dela pelos relatos bíblicos ou através de revistas que a mim chegavam eventualmente na escola ou na Biblioteca Pública. Lembro como se fosse hoje minha mãe repartindo a fruta que meu pai trouxe da sorveteria onde trabalhava à noite, após dura jornada de trabalho como funcionário público. Não sei como, mas ela a cortava em sete pedaços, pois esse era o número de filhos que os dois tinham, todos ainda crianças. E ainda hoje cada um deles certamente guarda em sua memória o gosto e o cheiro da maçã como a lembrança do amor que nossos pais nutriam por nós enquanto viveram.

Simbolicamente a maçã representa o fruto da Árvore da Vida ou da Árvore do Conhecimento do bem do mal: conhecimento unificador que confere a imortalidade, ou conhecimento desagregador, que provoca a queda. Mas há inúmeras interpretações. Aquela, por exemplo, em que cortada em dois, no sentido perpendicular, se encontra um pentagrama desenhado e por isso representa o saber; e aquela que simboliza a eterna juventude.

Para Paul Diel (1966) ela significa os desejos terrestres. “A proibição de Jeová alertava o homem contra a predominância desses desejos, que o levavam rumo a uma vida materialista, por uma espécie de regressão, opostamente à vida espiritualizada, que é o sentido de uma evolução progressiva”. O autor diz ainda que “A advertência divina dá a conhecer ao homem essas duas direções e o faz optar entre a via dos desejos terrestres e a da espiritualidade. A maçã seria o símbolo desse conhecimento e a colocação de uma necessidade: a de escolher”.

Na verdade todos nós escolhemos. No dia-a-dia decidimos o que queremos e o que não queremos face às maçãs dos desejos e estímulos que a serpente mídia nos oferece desde que acordamos até a hora de dormir. Se não escolhermos alguém decide por nós, num processo repentino de acomodação que concordamos pelo cansaço.

Não caberia só isso na simbologia da maçã: ela está mesmo ligada á ambição, à desobediência, à astúcia do mal e à expulsão do paraíso, sem contar que a história de Adão e Eva serviu para estigmatizar na humanidade o mito da mulher curiosa e traidora.

Ser expulso do Éden significa percorrer caminhos tortuosos, o resultado da escolha de comer a fruta da Árvore da Vida ou do Conhecimento do bem e do mal. Significa também experimentar o outro lado da liberdade, aquela em que o sofrimento e o trabalho de se sustentar é o produto da dignidade humana, da obrigação de suar para merecer a comida e o sono. Quer dizer também que uma escolha dessas possibilita fazer a diferença entre os indivíduos, que vivem em sociedade, mas competem; se matam e sobrevivem. Fazem sua história e propõem novas escolhas, porém sempre lembrando suas origens, aquelas que formam identidades.

A imagem de um anjo munido de uma espada expulsando nossos avôs primordiais trajando folhas de parreira do Jardim do Éden, não só é o símbolo do abandono como a lembrança de que nós muitas vezes nos expulsamos interiormente quando achamos que erramos em nossas escolhas. É possível que essas escolhas, pelas quais optamos na vida, se deem em razão de múltiplas oportunidades que nos chegam e nos “oprimem”. Optar às vezes pelos “desejos terrestres” ao invés da espiritualidade me parece ser necessário, embora tenhamos que buscar na essência das coisas, algo de deidade, algo que transcenda e nos faça pensar e acreditar que somos mais que isso.

Fico a pensar que quando meu pai levou a fruta do pecado para conhecermos não foi só um ato de amor corroborado por minha mãe. Foi, talvez, uma metáfora da escolha que teríamos de fazer pela vida. Não apenas entre matéria e espírito, mas entre ser ou não ser, o que chamamos hoje de bons ou maus cidadãos. Obrigado, pai.

Caetano Veloso chega aos 77 anos. Nossos parabéns ao gênio da MPB!

Sou fã de muitos músicos e compositores, brasileiros e gringos. Um dos maiores letristas, poetas e cancioneiros do Brasil é Caetano Veloso, que hoje completa 77 voltas em torno do sol. Um gênio ícone da Música Popular Brasileira (MPB) e um ativista lutador pelos direitos do cidadão. Sobretudo, um grande expoente da musicalidade nacional.

Filho da lendária dona Canô e mano mais velho de Maria Bethânia e mais seis irmãos, Caetano sempre viveu com “Alegria, Alegria”! É, são 75 anos de uma invejável vida e deles 52 de carreira. “Beleza pura”!

Com Gilberto Gil, Gal Costa, Nara Leão, Mutantes e Maria Bethânia, fundou o Tropicalismo, o movimento de modernidade da música brasileira e abriu um caminho sem volta rumo ao sucesso. Foram os “Doces Bárbaros” “Transcendentais”. Para a sorte dele e nossa, “Baby”.

Caetano, ao lado de Chico Buarque e Gilberto Gil, é uma das figuras mais importantes da música popular brasileira e considerado internacionalmente um dos melhores compositores do século XX, aliás, comparado a nomes como Bob Dylan, Bob Marley, John Lennon e Paul McCartney.

Maravilhado com “Sampa”, cantou a “Lua e Estrela” no cotidiano da velha metrópole. Chegou a ficar “Reconvexo” por conta de suas “Vacas Profanas”. Em razão de uma milica “Força Estranha” foi morar em “London London” e fez sua linda “Queixa” por meio da música. Veloso é sem dúvida um de nossos heróis.

Caetano embalou muitos momentos felizes de minha vida. Principalmente em reuniões familiares. Ele também me emocionou muitas vezes em mesas de bar. O tropicalista com sete décadas e meia de vida (que vida!) merece nosso reconhecimento, respeito e gratidão.

Enfim, por tudo que representa este espetacular artista, meus parabéns, votos de saúde e longevidade ao monstro da MPB. Feliz aniversário, Caetano Veloso!

Elton Tavares

As recordações, os cheiros e o gosto dos sábados em casa

Ir à feira dia de sábados é andar pra trás na linha do tempo e visitar uma época gostosa que levarei para sempre em meu coração. Lembrar do papai e mamãe saindo cedinho para a feira, de mãos dadas, sacola de náilon, ele de bermuda, camisa de botão e sandálias nos pés, ela, de saia e camisa florida ou com a imagem de Nossa Senhora ou vestido. Atravessavam a ponte que liga a Mãe Luzia com São José com a maestria de quem já andou muito em cima de madeira no interior. Voltavam com sacolas de peixes, carnes, verduras, e iniciavam o ritual de sábado: temperar comida para semana toda, som ligado com chorinho, de vez em quando papai interrompia o corte da carne e a mamãe a mistura de temperos para dar uma “rascunhada” pela cozinha.

Como bons ribeirinhos, eles estavam acostumados com peixes, e diferenciavam só de olhar, o pescado novo do moído. Papai foi pescador, e navegou muito atravessando o Amazonas em barco à vela do Bailique até Belém, com a embarcação cheia de mercadorias, ou com o carregamento de madeira. Para ele o rio não tinha mistérios, e conhecia todos os peixes da região, e deles falava com detalhes que deixavam a boca com saliva. Eram estes pescados e mariscos escolhidos com zelo que embelezavam nossa mesa, especialmente aos sábados.

Meu olfato foi treinado para o cheiro de sábado, mais do que dos outros dias da semana, é o que mais faz falta, eles estimulam as recordações e permanecem em minha memória. Cheiro da comida, da caipirinha do papai, do vinho da mamãe, das frutas do quintal, da limpeza feita na casa com capricho, da cera cachôpa ou cardeal passada no piso, do óleo de peroba nos móveis, da carne assando no fogareiro, mujica de camarão, da banana frita, mingau de banana e de tapioca, as coisas de sábado, que até podiam ter outros dias, mas no sábado era feito diferente.

Papai temperava muito bem, mas mamãe cuidava de peixe e carne como ninguém, seu tempero era inconfundível, e o cheiro de sua comida ficava na casa toda e atravessava os muros, fazendo inveja em quem sentia o odor de comida caseira. Fomos acostumados a comer de tudo em casa, de peixes do mato à vísceras, de caça à carne de primeira. Dificilmente comíamos comida congelada, até o frango era abatido em casa, assim como o porco, que também criávamos no quintal. Tudo era muito saudável, a comida sempre fresquinha na nossa mesa, por preferência deles. Mamãe gostava mais de urucum do que colorau, a pimenta ela trazia em grãos, e em casa batia em um pano, torrava no fogão e eu passava espirrando pela cozinha, porque o cheiro dava cócegas no meu nariz.

E os sábados seguiam assim, até a hora do almoço, quando a mesa ficava linda de tanta gente de casa, que vinham comer a comida da mamãe, cozida no fogão ou na brasa, era um entra e sai que se estendia até de noite, porque invariavelmente o almoço emendava com o lanche e a janta. Quando papai comprou o Santa Maria, final dos anos 80, esses costumes de sábado passaram para nosso paraíso, com direito a banho de igarapé e horas de alegrias, união e felicidade da molecada e dos adultos. Era uma carinhosa confusão de redes, moleques atentados, gritaria e muitas, mas muitas gargalhadas. Estas lembranças estão tatuadas em meu corpo e alma. Acho que nossos filhos nunca irão esquecer dessa época, e sinto pena de nosso netos, que não viveram esta experiência de passar dias no meio do mato, brincando de caçar, pescar, jogar bola, alimentar o gado e as galinhas, colher verduras e comer frutas tiradas na hora.

Sempre que posso vou aos sábados na feira, aquecer a saudade. Não aprendi a diferenciar peixe fresco do moído, infelizmente não herdei a aptidão para a cozinha, e mesmo que tivesse facilidade, nunca iria fazer o tempero da mamãe, aquele gosto inconfundível, que não senti mais. A casa não fica mais com o cheiro das comidas e dos costumes da sábado, às vezes eles me vêm do nada na cabeça, já acordei no susto sentindo o gosto do passado e com o nariz empesteado do cheiro da nossa casa, principalmente aos sábados. É nesse dia que eu paro em casa e a saudade aperta o peito e escorre pelos olhos. Sinto uma enorme saudade de nossa vida aos sábados, da casa com quintal e desse depois da reforma que concretou nosso espaço, mas que nunca deixou de ser um local de afeto e reunião da família e amigos.

Mariléia Maciel

Só por que é sábado! – Por @hmoreiraap

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Humberto Moreira

Por Humberto Moreira

Sábado. Outrora dia de perambular pela minha cidade. Visitar alguns lugares mágicos da minha amapalidade. Descer a doca da Fortaleza para ver o colorido das canoas à vela entrando no igarapé. Frutas, cerâmica, peixes, pequenos animais, carregadores e carroceiros num burburinho familiar e o vento que ainda hoje sopra do Amazonas.

No Mercado Central revejo açougueiros a pesar a carne que alimenta a cidade. Fiscais, marreteiros, vendedores, sapateiros e japoneses na faina diária. Gente que entra só pra olhar como eu e gente que veio para comprar. Verdura fresquinho que veio de Fazendinha, garapa com pão doce no Brotinho, mingau de milho, donzela.

A Candido Mendes das Lojas Flor da Síria e Beirute na América. A fila no clipe para pegar o Bossa Nova e o pessoal da pesca que sobe da Baixa da Maria Mucura vindo do Remanso. Macapá se abria pra vida naqueles tempos que não voltam mais. A cidade mudou, mas as lembranças estão encravadas na minha memória. Bom sábado a todos!

* Humberto Moreira é jornalista, radialista, cronista e vocalista dos Cometas, além de amigo que admiro. 

Os motivos de eu escrever…

Escrevo ao longo dos últimos 13 anos. Nove deles para este site, que já foi um blog. Sempre tento me ater a verdade. Redigir textos onde dados e fatos me levam. Com exceção de sandices, devaneios e contos, que são escritos mágicos para mim. Pois ficção exercita a criatividade.

Um dia, há aescrevendolguns anos, me perguntaram: “Elton, porque você perde tempo com esse papo de blog. Porque não faz algo útil com o tempo gasto nessa página de besteiras”. Neste instante, consegui evitar um surto psicótico e palavrões a esmo para o meu questionador.

Aí expliquei para o pateta porque escrevo. Escrevo porque amo a noite, futebol, samba, rock and roll, minha família, meus amigos e amo ser eu (com todos os defeitos e chatices), não necessariamente nesta ordem, claro. No meu caso, leituras alternativas tornam o dia menos tedioso. Principalmente quando tais escritos são sobre cultura em geral.

Gosto de usar um senso de humor cortante nos meus textos para este site, assim como muita nostalgia, sentimentalismo barato (que pra mim é caro), transformar relatos em memória da minha cidade, do meu estado. Vez ou outra, até fazer velhas piadas com novos idiotas, ser um tanto antipático, chato ou adorável encrenqueiro. E sempre amoroso com minhas pessoas do coração. Sim, gosto disso.

fantasmaCerta vez, li a frase: “escrever não é desistir de falar, é empurrar o silêncio para fora”, do poeta Fabrício Carpinejar. É esse o papo mesmo, escrever é uma válvula de escape, vicia e extravasa.

Escrevo até sobre o que finjo que acredito. Sabem aquelas pequenas porções de ilusão e mentiras sinceras de que o Cazuza falou? Pois é. Às vezes, detritos do cotidiano, grandeza desprezada, coisas bobas que parecem socos na cara, é bem por aí.

Mas gosto muito mais de escrever sobre o amor, sobre atitudes legais, sobre manifestações pública de afeto e sobre pessoas admiráveis. Falar ou escrever sobre positividade é tão melhor.

Antes redigia um texto ou mais por dia e com muita facilidade. Agora, a falta de tempo e os períodos de entressafra de inspiração tornam os autorais mais raros. Quem dera fosse só querer e baixasse o espírito de Rui Barbosa, Charles Bukowski, Mário Quintana, Drummond ou o meu amigo Fernando Canto, e eu começasse a redigir como um gênio. Seria firmeza. Acreditem, um dia lançarei um livro de crônicas e contos.

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Em tempo, escrevo para não deixar meus pensamentos parados. Queria poder escrever como Carlos Drummond de Andrade, que disse: “A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos ,na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.”

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Como não dá, sigo rabiscando minhas certezas, achismos, incertezas, chatices, amor, entre outro tantão de coisas que vivem neste meu universo particular que gosto de expor aqui. E fim de papo.

Elton Tavares

 

Rima de sábados felizes! – Por Elder de Abreu

Foto: Francisco Benine

Por Elder de Abreu

Sábado é um dia de saudosismo para mim, pois me remete aos anos 90, quando éramos bastante felizes – não que não sejamos hoje. Lembro que todo sétimo dia semanal, costumávamos passar a manhã jogando bola em um campinho que ficava entre a paróquia de São Pedro e a escola estadual Zolito de Jesus Nunes, no antigo bairro das Comunicações, atual bairro do Beirol.

A felicidade era maior ainda quando chovia. O jogo era ainda mais gostoso. Ao final de pelo menos quatro horas de partida, regiamente ao meio dia, quando a broca batia ‘dicunforça’, encerrávamos as atividades, certos de que em casa teríamos um feijão com maxixe e charque adubado para encher o bucho e tirar uma pipira (soneca) até as 17h.

Porém, não íamos embora sem antes trepar no muro da escola para encerrar a bola de todos os sábados com chave de ouro. Não havíamos porque pular o muro para ir embora, pois havia um imenso buraco nele. O propósito era outro: atentar o vigilante da escola.

Mesmo após quatro intensas horas de futebol ainda tínhamos folego para encher o peito e, em couro, soltar a rima, em tom muito alto, que até a vizinhança da avenida Tupiniquins ouvia. Até hoje não sei quem inventou aquela rima irritante para os vigilantes.

“O galo canta
O macaco assovia
Pica de burro
No cu do vigia”.

Sempre terminava com o vigia dando uma carreira na gente. Era divertido demais. Hoje o campinho deu lugar a um bloco escolar infantil e uma quadra poliesportiva. Vida que segue!!

*Elder de Abreu é amapaense, jornalista e assessor de comunicação.

Soy loco por ti América! – Crônica porreta de Marco Antônio Costa

Crônica porreta de Marco Antônio Costa

Dia desses estava com Violeta Parra ouvindo violas andinas e cantadores do povo. Dávamos ‘gracias a la vida’, que tem nos dado tanto…

Chegou-se conosco Victor Jara, um pouco antes da chegada de Ali Primera. O clube do cone sul foi reforçado por Mercedes Sosa, enquanto que os cubanos Silvio Rodríguez, Vicente Feliú e o Pablo Milanés cerraram fileiras com Primera. Pronto. A melancolia deu lugar aos merengues, maracas e metais. Dançamos todos. Uma verdadeira festa caribenha!

Aí foram chegando os escritores, devidamente capitaneados por Jorge Amado e suas histórias cacaueiras de Ilhéus. Tanto Vargas Llosa quanto García Márquez ouviam atentos suas indicações etílicas e sensoriais. Isabelita Allende parecia desconfiar. Antiguidade é posto.

Não mais que de repente um cavaco, um pandeiro e um tamborim se apresentaram para marcar posição. A moçada do Rio mandou como representação Vinícius de Moraes – pela poesia e pela experiência diplomática! -, e Cartola, bem, porque Cartola é Cartola. Fez-se samba e não pude deixar de notar o quão desengonçado, mas feliz, tentava sambar Piazzolla. Por óbvio que o maestro Antônio Brasileiro Jobim requintou o ambiente com a nossa bossa.

Servia-se pisco peruano, cachaça brasileira, rum anejo de Cuba e, acreditem, fernet! Houve até quem quisesse introduzir a bebida perfumada da Inglaterra, o gim, mas protestos efusivos, cantando “oligarcas temblad viva la libertad!” demoveram a ideia do pobre contrabandista.

A comida servida era do Pará e do Amapá: pato no tucupi, maniçoba e caldeirada de filhote, tudo levinho como um tango de Gardel. Tanto que um novinho dos pampas, Jorge Drexler, se empolgou e perdeu contato de áudio e vídeo com a torre na primeira metade da festa…

E assim a noite foi indo e chegou ao fim como começou. Demos gracias a la vida pedindo a deus que a injustiça nunca nos seja indiferente.

Que pai, mãe, irmão, amigo e o meu amor possam viver numa América livre.

Sou louco por ti América!

* Marco Antônio Costa é jornalista, fã de música boa, cinema, literatura, professor de Sociologia, além de brother deste editor. 

É a crise, Creusa! – Crônica bacana de Manoel do Vale

Crônica de Manoel do Vale

Faz dias que não sei o que se passa, levaram meu Neruda, apagaram meu sol.

São ainda seis da manhã de uma sexta-feira de agenda cheia e o mundo continua o mesmo: confuso, violento e, ao mesmo tempo, belo para quem pode curtir uma praia ou um igarapé geladinho. Na cabeça, nada além de uma brisa jamaicana.

Acendo o fogão com o isqueiro para fazer o café violento de todas as manhãs, exceção para os sábados, domingos e feriados. Me enfio no banheiro para um banho frio. Banho de goteira, pois o chuveiro só oferece essa modalidade de banho. É a crise. Quando eu ainda podia pagar aluguel de um salário, a água era mais abundante e forte, quase uma esfoliação hídrica.

Penso nos Blues Etílicos e fica tudo de boa. De que vale viver no osso, se não se pode tirar um barato dessa vida, que não é pra qualquer um, mas apenas para os que sabem viver com cada vez menos, preservando o essencial à vida: a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.

Sinto saudade do meu apartamento branco e laranja onde eu podia me espreguiçar à vontade. Hoje eu só consigo esticar os braços se colocar o corpo para fora da janela. “É a crise, Creusa!” Falo para meus surdos botões.

Crise é uma espécie de guerra onde não se vê o inimigo, apenas sentimos sua presença nos dígitos impressos nas etiquetas dos produtos nos supermercados e padarias, cada vez mais caras.

Um amor sem conta bancária, sem parentes sem noção nem amigos medíocres. Sem crise, só uma amiga querendo te deixar pra cima em uma terça-feira de agenda cheia de trabalho.

Tomo meu café com a alma em relevo e saio de casa assoviando uma música gostosa dos Beatles que fala de amor superando crises, o inexorável tempo, tudo, enfim, que não nos deixa viver um grande amor. Só os cafés pequenos.

Fonte: SelesNafes.Com

A Generosidade musical de Nonato Leal – Por Fernando Canto (em homenagem aos 92 anos do mestre das cordas)

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Foto: Portal Amazônia

O Amapá precisa preservar, reconhecer e homenagear seus grandes nomes em todas as áreas de atuação. Como sou fã de escritores, compositores, músicos, poetas e artistas, deixo aqui meus parabéns ao mestre das cordas Nonato Leal na crônica lindona do amigo Fernando Canto. O reconhecimento é justo, diante do legado artístico do lendário violonista. Feliz aniversário!

Elton Tavares

Hoje Nonato Leal faz 92 anos. Repito aqui minha pequena homenagem a esse grande músico que por décadas ensinou, influenciou e participou ativamente das atividades musicais do Amapá. Este texto foi publicado no Jornal do Dia, em 12 de julho de 2007″ – Fernando Canto

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Foto: Márcia do Carmo

A Generosidade musical de Nonato Leal
Por Fernando Canto

Nonato Leal vai fazer 80 anos daqui a dez dias. Vai comemorar 70 de música, pois aprendeu a tocar aos dez anos instrumentos de corda com seu pai, que também ensinou seu irmão Oleno Leal, como ele exímio violonista.

Lembro do primeiro contato que tive com esse incrível e generoso músico no final dos anos 70, quando iniciava por conta própria a aprender violão. E foi num dia de Festival Amapaense da Canção, sob a frondosa mutambeira do grupo escolar Barão do Rio Branco que Nonato me viu e me deu a dica de uma passagem de tom na música que eu executava. Depois ele adentrou o ex-cine Territorial para ensaiar sua composição que seria a vencedora do festival, em parceria com o inesquecível poeta Alcy Araújo.

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Foto: SelesNafes.Com

A modéstia do violonista é conhecida por todo mundo junto ao seu inominável talento que atravessou décadas encantando os mais diversificados públicos que tiveram a oportunidade de ouvir seu trabalho. Requisitadíssimo, Nonato Leal jamais se furtou a um bom convite para tocar, pois sempre soube se valorizar, embora nas rodas boêmias fosse um integrante como qualquer outro bom bebedor, um companheiro divertido que nem ao menos se zangava com as piadas que faziam sobre sua terra natal e lhe insinuavam ser o protagonista principal. Vigiense de boa cepa, até hoje adora um bom caldo de cabeça de gurijuba, ao qual atribui ser afrodisíaco, e a fruta do cedro, parecida com o taperebá, que considera o melhor tira-gosto para a cachaça.

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Foto: Márcia do Carmo

Sua participação no crescimento da nossa música foi determinante. Nonato tocou em diversos grupos musicais, ao lado de instrumentistas famosos como Sebastião Mont’Alverne e Amilar Brenha, Hernani Guedes, Chico Cara de Cachorro e Zé Crioulo, Aimorezinho, Manoel Cordeiro e tantos outros. Tocava qualquer instrumento de corda: foi o primeiro artista do Amapá que vi tocando guitarra havaiana. Participou da gravação do LP “Marabaixo” do conjunto “Os Mocambos”, em 1973. Seu programa de rádio “Recital de Nonato Leal” por anos teve audiência assegurada nas rádios de Macapá. Mas foi como professor que disseminou o amor pela música a dezenas de discípulos que hoje ganharam o rumo da profissionalização musical, incluindo aí seus filhos Venilton e Vanildo Leal. Seu primeiro CD “Lamento Beduíno”, editado em 1997, com arranjos de Manoel Cordeiro, esgotou-se rapidamente. Nesse trabalho tive a honra de escrever um texto a pedido dele, do qual reproduzo o primeiro parágrafo:

Cultura Amapá - Nonato Leal e Zé Miguel no programa Amazônia Musical da Rádio Difusora
Foto: Chico Terra

“A saudade de Macapá me fez sintonizar ao acaso a Rádio Neederland em uma noite fria e triste em Belo Horizonte no ano de 1974. De repente um solo de violão me chamou a atenção. Tratava-se de uma música com temática oriental, muito bonita e bem executada, chamada “Lamento Beduíno”, do professor Nonato Leal, de Macapá, Território Federal do Amapá, Brasil, dizia o locutor daquela rádio holandesa. Vibrei! Coincidência ou não a história mudou meu astral e motivou um porre de pavulagem bairrista. Pena que ninguém que eu conhecia tivesse ouvido o programa. Tempos depois soube que fora o radialista Edvar Motta que enviara uma fita com músicas do Nonato para lá”.

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Parabéns, mestre das cordas!

No dia 23 Vigia e Macapá estarão radiantes, não só pelas 80 “risonhas primaveras” do Nonato, mas pela generosidade musical que irradia desse artista excepcional, que merece mais do que uma comemoração. Merece o reconhecimento e a gratidão de todos que gostam da boa música.

*Republicado em homenagem aos mestre das cordas. 

Fazendinha: bronzeado com manteiga, paquera e farofa (Crônica porreta da @MarileiaMaciel)

Foto encontrada no blog Alcinéa Cavalcante

Por Mariléia Maciel

Domingo era dia de ir pegar um bronze na Fazendinha, a nossa praia inventada. Se fosse mês de julho, os preparativos começavam cedo pra poder pegar uma barraquinha, porque de tão lotada, os cotovelos se esbarravam, e não sobrava um só metro quadrado desocupado, nem cadeiras nos bares dos insuperáveis camarões no bafo. Era o roteiro mais procurado e o ponto de encontro dos que estudavam fora e só vinham aqui nas férias. Fazendinha era sinônimo de bronzeado e paquera, não tinha férias melhor que as curtidas no Macapá Verão.

Pra quem não tinha carro, nem dinheiro pra sentar em um restaurante, o trabalho era dobrado. Tinha que fazer farofa, arroz e alguma comida pra não passar fome antes de enfrentar uma quilométrica fila na praça Presidente Vargas pra entrar no Estrela de Ouro. Quem conseguia ir sentado era sortudo, ou tinha que ir pendurado no corredor que cheirava a comida ensacada ou algo parecido com suvaco abafado. Depois da longa viagem era preciso andar mais um estirão, porque o ônibus não descia até a praia, e ainda procurar um lugar pra estender a toalha e esperar ser atingida por areia jogada a cada instante.

Foto encontrada no blog Repiquete no Meio do Mundo

O buraco ainda não existia na camada de ozônio, então, quanto mais quente o sol, melhor. A moçada levava a sério o “deixa o sol beijar você”. Era um desfile de corpos lambuzados de bronzeador, mas também de receitas inusitadas, como manteiga, coca-cola e água oxigenada com amoníaco. Se deitasse na areia ficava no ponto pra ser fritada empanada pelo sol. Era raro quem tinha o “ Haito de Sol”. Na hora da fome começava o abre sacola pra tirar as marmitas e talheres pra comer ali mesmo, no meio da vuca que virava a Fazendinha após o meio dia.

Foto encontrada no blog Repiquete no Meio do Mundo

A cada verão criavam uma moda que pegava até a próxima temporada. Houve a época do violão na areia, das rodas de samba, da boate, do Acaraluando, que pra chegar tinha que atravessar o igarapé até o outro lado. Em umas férias uns amigos inventaram de colocar caiaques em Fazendinha. Formavam filas pra andar no solitário e apertado barquinho depois de pegar uma aula-relâmpago de como usar um remo com duas pontas e se equilibrar naquele barco que pra usar, tem que vesti-lo. E lá iam remando com o corpo tão próximo da água que dava pra ver de perto as vísceras que vinham do matadouro municipal e boiavam no igarapé que cruzava o amazonas.

Tinham também os medos que cada ano só aumentavam. Eu abandonei minhas aventuras de caiaque quando inventaram que nesse igarapé tinha uma pirarara com a boca tão grande que engolia um adulto de uma só vez. Ninguém ligava muito pra poluição ambiental, então não existia o medo de entrar no rio por causa de coliformes fecais, no entanto havia o medo do canal, que diziam que sugava quem chegava perto. Tinha ainda a draga que foi colocada no canal e que, disque, triturava gente.

Foto encontrada no blog Alcinéa Cavalcante

Mas o melhor de Fazendinha era a paquera. No meio da farofada, bronzeador e camarão, sempre tinha alguém pra namorar. Quando a tarde chegava ao fim era a hora de preparar a volta pra casa e reforçar aquele pedido de encontro mais tarde nas tertúlias ou na praça Zagury. Arruma tudo e enfrenta mais fila com o corpo tão ardido que quem desse um beliscão corria o risco de ser agredido.

As filas, o sol no couro, a areia no rosto, a pele ardida, os medos, as vísceras, tudo era recompensado nas memoráveis tertúlias do Macapá, Amapá Clube, Star Club e Círculo Militar, quando os encontros marcados eram concretizados e, com as marquinhas do bronzeado com manteiga, o beijo no portão estava garantido. No domingo seguinte, ninguém lembrava mais das dificuldades e repetiam tudo de novo. Assim acabavam os melhores domingos de verão em Macapá, quando as portas ficavam somente encostadas, as festas terminavam meia-noite e não havia aparelhagem nos carros.

SÃO TIAGO E O CAVALO – Crônica de Raimunda Clara Banha

Foto: Luanderson Guimarães

Existem coisas que acontecem em nossas vidas, que não conseguimos encontrar explicações lógicas.

Todas as vezes que o Glorioso SÃO TIAGO fez visitas ao Ministério Público do Amapá, no mês de julho, por ocasião da peregrinação, eu sempre estava de férias, portanto, não participava.

Na última segunda-feira, 15 de julho de 2019, o SÃO TIAGO fez a visita ao MP-AP, por desígnios de Deus, eu estava respondendo como Procuradora-Geral de Justiça e por esta razão, tive a honra de conduzir a imagem do SÃO TIAGO até o auditório. Quando recebia a imagem nos braços confesso que que tive uma grande emoção, pois lembrei que há dois anos atrás, recebemos o SÃO TIAGO na fazenda, como já aconteceu outras vezes, para receber cavalo de doação de meu pai João Melo Picanço, para ser utilizado nas cavalhadas de SÃO TIAGO.

Ao chegarem na fazenda os integrantes da comitiva almoçaram, fizeram a apresentação da “Dança do Vominê” e depois seguimos para o curral, onde meu pai faria a entrega do cavalo que estava na corda.

Foto: /BigStock

No momento em que meu pai fazia a entrega, o cavalo baixou a cabeça e curvou levemente uma das patas dianteira, um senhor que fazia parte da comitiva, reparou o gesto do cavalo e falou que era como se o cavalo estivesse fazendo uma reverência ao SÃO TIAGO.

O cavalo foi colocado no caminhão e a comitiva partiu.

Voltando ao último dia dia 15, quando caminhava com a imagem de SÃO TIAGO nos braços, lembrei daquele dia e senti uma emoção incontrolável, pois entendi que o gesto do cavalo tinha um significado bem maior, foi como o pressentimento de que aquele momento representava a última vez que meu pai faria a entrega de um cavalo para o SÃO TIAGO.

Foto: Luanderson Guimarães

Agradeci a Deus e ao SÃO TIAGO pelo privilégio de ter participado da entrega do último cavalo que meu pai doou ao SÃO TIAGO.

Meu pai faleceu no dia 11 de fevereiro de 2019.

Obrigada, SÃO TIAGO.

*Raimunda Clara Banha é procuradora de Justiça do MP-AP.

Sobre Macapá, Mazagão e meu avô, João Espíndola – por Bellarmino Paraense de Barros

 *O texto é de 1997. O recorte de jornal foi um presente da minha amada tia Maria Conceição (A “Penha”). Adorei a forma que o senhor Bellarmino redigiu e contextualizou os fatos para enaltecer a pessoa do meu avô, falecido um ano antes do autor escrever esse belo registro.