Saudade de Maiakovski – Crônica de Lulih Rojanski

Crônica de Lulih Rojanski

Gostaria que Vladimir Maiakovski tivesse chegado aos 50 anos. Que tivesse atravessado os 50 em vez de se fazer atravessar por uma bala aos 36. Uma tristeza e um paradoxo. Ele próprio condenava o suicídio em seus escritos: “A pessoa que deixa voluntariamente a vida leva consigo o mistério de sua decisão. Nenhuma explicação penetra na essência real da atitude tomada. Elas somente entreabrem a cortina sobre o segredo, mas o próprio segredo permanece escondido atrás do final triste da vida”.

Assim como gostaria de percorrer a web e encontrar textos de protesto sobre a atual sem-vergonhice política brasileira, gostaria de ler um poema que Maiakovski tivesse escrito aos 50, depois de ter testemunhado por inteiro o regime sanguinário de Stálin. Hoje ninguém mais escreve o testemunho de nada, muito menos em forma de poema.

O poeta da revolução poderia também ter vivido para envenenar o cretino do Stálin, que viveu até os 73 anos e teve tempo para promover o genocídio de pelo menos 20 milhões. Maiakovski desperdiçou um tempo precioso que poderia ter sido vivido para combater, até o dia em que conseguissem pegá-lo, assim como a Trotsky e a muitos outros. E se não o pegassem, faria, em forma de versos, estragos capazes de fazer Stálin querer morder o próprio calcanhar.

Gostaria de conhecer o pensamento de Maiakovski aos 50. Pois se hoje é considerado um dos maiores poetas do século 20 e ainda influencia poetas do mundo inteiro, imagine se tivesse vivido pelo menos mais duas décadas. Mas… seria possível Maiakovski se superar?

O segredo permanece escondido atrás do final triste de sua vida. Matou-se, talvez, por impotência diante da realidade dos seus dias, e nós, que estamos aqui olhando a vida pelo retrovisor alheio e reclamando do que os outros deixam de escrever, temos direito a pensar o que?

De minha parte, ouso contradizer-me, ou melhor, passar a limpo o que disse de início: penso que, por tudo o que disse e fez enquanto poeta, Maiakovski já nasceu com 50. Quem mais poderia ter inspirado “O amor”, uma das mais belas canções de Caetano Veloso?

Vladimir Maiakovski – O Amor

Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zôo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
– Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo,
a mãe,
pelo menos a Terra.

Tradução: Augusto de Campos e Boris Schnaiderman

Antigamente era assim…(crônica de @rebeccabraga)

Crônica de Rebecca Braga

Há uns cinco anos, o telefone fixo lá de casa (residência dos meus pais) parou de funcionar. Meu irmão ligou na operadora e disseram que o problema era na fiação, depois disseram que só resolveriam pela matriz e que precisava criar um protocolo de atendimento, enfim, um monte daquelas desculpas que estamos acostumados a ouvir dessas cretinas operadoras de telefonia.

Como tomado por uma iluminação, meu irmão resolveu num dia qualquer, ligar para o nosso número. Vale dizer que essa linha está conosco há pelo menos 20 anos. Damos como contato no trabalho, na escola das crianças, naquela loja do crediário, como referências para os amigos, enfim. Ela nos é muito útil.

Acontece que a operadora havia vendido a linha, com o mesmo número de telefone pra outra pessoa. Meu irmão, já com aquela pose que todo advogado tem (ele é formado há pouco tempo) ameaçou processar e usou uns termos lá que eu não sei do que se trata, e enfim, umas duas semanas depois, resolveram o problema.

Nesse ínterim, desde que o telefone parou de funcionar, levando também a internet, já que se tratava de um serviço combo, até a operadora resolver o problema, eu senti falta do velho telefone fixo, pouquíssimo encontrado hoje nos lares brasileiros.

Quando precisava ligar pro rádio táxi, ou pra pizzaria, ou pro disque lanche, ou pra água, pro gás. E foi isso que me fez lembrar de quando não existiam celulares ainda.

No dia 31 de dezembro, um amigo que fazia aniversário escreveu numa rede social que é de um tempo em que ele sabia o número do telefone das pessoas que eram importantes pra ele, e que com o celular, essa virou uma tarefa impossível.

Eu também sou dessa época. Sabia o telefone da casa das minhas avós, dos meus tios, mesmo os que moravam em outras cidades, dos meus amigos de escola, dos colegas de farra. E hoje, vez por outra eu preciso olhar na minha agenda pra ver o número que tenho num chip de operadora que uso menos. Me sinto totalmente dependente do meu celular, e não sei dizer se isso é ruim. Pra não perder o fio da meada:

Eu lembro que quando eu era criança, os telefonemas eram todos para meus pais. Quando eu me tornei adolescente, as coisas mudaram. Os primeiros namoricos, as conversas intermináveis com as amigas de escola que eu via todo dia mas sempre tinha assunto pra conversar mais, os amigos de farra que ligavam pra marcar a hora e o lugar pra gente se encontrar pra viver as aventuras da noite, os amigos que moravam em outra cidade.

Ah, sobre esses, é importante dizer, sou do tempo que a gente esperava dar meia noite pra pagar um pulso só, e com isso, passar horas da madrugada matando a saudade e falando besteira.

O meu primeiro namorado, eu tinha 14 anos, me ligava todos os dias, no mesmo horário.

A maior parte do tempo a gente ficava calado, ou porque não sabia muito o que falar, ou porque tinha gente por perto e a gente não podia ficar falando aquelas bobagens pueris que a gente diz quando se apaixona pela primeira vez. Até bem pouco tempo atrás, o telefone dele era o mesmo, e ainda que nós tenhamos passado anos sem se ver, quando nos reencontramos e eu precisei falar com ele, não hesitei, liguei e do outro lado da linha ele atendeu. Foi como se um soco de nostalgia tivesse sido dado nos meus ouvidos e reacendido memórias guardadas há muito, junto com alguma saudade e um pouquinho de mágoa.

Certa vez, um amigo extrapolou na conta do telefone ligando pra os celulares dos amigos. A mãe o questionou, ele se saiu e ela armou uma cruzada contra a operadora por cobrar ligações que nunca foram feitas por eles. A operadora ligou pra os números que apareciam na conta mas, ainda que ninguém tivesse combinado nada, todo mundo disse não saber de quem se tratavam aquelas pessoas. Acho que essa conta nunca foi paga.

Uma amiga minha me ligou um dia pra me contar que um colega de turma dela estava apaixonado por mim. Eu pedi o número dele, ela me deu, eu liguei pra ele e do outro lado da linha o menino ficou em êxtase. Começamos a namorar alguns dias depois.

Claro que qualquer situação dessas podia acontecer pelo celular, mas eu sou como dizem, “das antigas”. E antigamente acontecia assim. Pelo menos comigo.

Rebecca Braga, ainda gitinha, ao telefone

Até hoje eu sei o telefone de alguns amigos meus e eu sinto falta daquela época em que alguém atendia em casa e gritava:

-Becca, telefone pra ti!

Às vezes eu sabia quem estava do outro lado, às vezes não. Tem alguma coisa diferente nisso… Pode parecer bobo, mas tem.

Em tempos de smartphones, quem tem telefone fixo, tem uma referência pra abrir um crediário lá no comércio, eu tenho lembranças de um tempo em que não era tão fácil achar as pessoas, mas a gente dava um jeito.

A força das águas e os bares do Araxá – Crônica porreta de Fernando Canto

Foto: arquivo de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

As águas têm uma importância tão grande para a nossa região que certa vez, há alguns anos antes das mortes causadas pela violência dos tsunamis na Ásia, em 2004, imaginei, numa condição extremada, alagamentos catastróficos em Macapá causados por ondas gigantescas num futuro próximo. Como o texto foi publicado num livro meu, me perguntaram se eu tinha informações científicas sobre essa possibilidade. Claro que tudo era ficção. Mas a pororoca e as águas grandes do nosso inverno nunca deixaram de atemorizar os ribeirinhos e ameaçar suas frágeis moradias, principalmente nos lugares sujeitos às influências das marés.

Foto: arquivo de Fernando Canto

Por causa da força das águas que iniciam neste período e que chegaram a destruir partes do muro de arrimo em alguns pontos da orla macapaense e dos estragos causados na antiga praia do Aturiá, fui verificar in loco a situação e fiquei assustado. No Jandiá, próximo do antigo Bar do Maguila enormes blocos de concreto do muro foram arrebentados pelas águas, as pedras dos gabiões de sustentação jazem na lama do mangue, fato que não permite a presença de banhistas, a não ser na maré baixa, apesar de que na maré alta também tem uns malucos que se machucam ao serem jogados no muro. O mesmo ocorre na área do Araxá, um dos lugares mais românticos e mais bonitos de se passear da orla. Ali já existiu praia. Até o início da década de 1980 o Araxá e a Vacaria do Barbosa eram pontos freqüentados por famílias, que não podendo se deslocar para Fazendinha, nelas faziam seus piqueniques aos domingos. A rapaziada se concentrava para tocar ao violão os últimos sucessos da Jovem Guarda, tendo ao redor a o riso feliz das fãs, enquanto a criançada corria na areia da enseada. Isso mesmo, na areia da praia, onde deitavam plácidas ondas que traziam sementes e mistérios do outro lado do rio-mar. Árvores enormes como as samaumeiras, soltavam suas painas no ar e sombreavam o ambiente para os primeiros namoros dos adolescentes, inundando suas mentes de poesia e o corpo de desejo.

Foto: arquivo de Fernando Canto

Mas o Araxá sempre foi um belo local de concentração de banhistas, boêmios e bares. Um deles, talvez o mais famoso daquela época fosse o “Bang Bar”, nome por sinal muito sugestivo. Um outro era a “Casa da Música Popular Brasileira”, que vez por outra oferecia aos clientes belos shows de música dançante com cantores regionais. O grupo “Café com Leite”, levava samba e música romântica nas vozes de Zenaide, Sobral e Maria Tavares, acompanhados por Chico Cara de Cachorro, Zé Crioulo, Jaci, Ricardo, Fifita e Pelé. O grupo fazia muito sucesso e sempre estava lá às sextas-feiras à noite e nas tardes de domingo. No Bang Bar às vezes surgia um quiproquó para fazer jus ao nome do estabelecimento: era quando macho que era macho se escondia das balas em qualquer mesa de madeira que lhe servisse de escudo protetor. Algum tempo depois surgiu um bar de nome engraçado, situado no início da Eliezer Levy, um tal de “Xiri Molhado”, onde o pessoal ia tomar a saideira. Até quem vinha de Fazendinha encostava para um último gole porque também rolava um pagode e dava muita “cocota”, no dizer da época. Na orla do Igarapé das Mulheres, perto da feira do Pescado também existiu um bar muito perigoso, onde os frequentadores jogavam sinuca e bebiam muito. Mas eles tinham uma regra infelizmente não muito obedecida que era a não-provocação. Só caboclo corajoso frequentava e ganhava dinheiro no jogo no tal de “Cutuca Morte”.

Foto: Max Renê

Lembranças à parte, quando as águas do verão e as do inverno não atingiam tanto a cidade, porque não havia muro de arrimo e nem muito aterro nas baixadas e ressacas esses problemas não existiam. Mas a cidade precisou se modernizar e resolveram começar pelo saneamento. O planejamento dos antigos governos visava deixar Macapá com uma bela frente e com um traçado que permitisse o alongamento das vias sem o entrave das áreas alagáveis. Então milhares de toneladas de aterro foram depositados nesses lugares para compactar e dar lugar no futuro aos quase oito quilômetros de orla asfaltada que temos hoje em Macapá. Lutar, entretanto, com a fúria do rio Amazonas é lutar praticamente em vão, porque ele só é igual a si mesmo. Mesmo assim, ora a vitória é da terra ora é da água, essa mesma água que dá e tira a vida. No fim vence o homem e sua tecnologia.

IMPORTAR – Por Vladimir Belmino

A palavra importar é da classe gramatical verbo do tipo regular, etimologicamente vem do Latim (importare: ‘trazer para dentro, importar’). Como verbo, pode ter vários significados, variáveis de acordo com sua flexão e com seu emprego, seja como verbo intransitivo, seja como verbo pronominal, seja como verbo transitivo direto e, finalmente, como verbo transitivo indireto.

Para efeito deste rápido trabalho, nos interessa o verbo pronominal, o que traduz ‘dar importância a’; ‘fazer caso de’, podendo ser utilizado como nas frases: “não se importa com nada” e “ele se importa com ela”.

Ainda como verbo, como todo e qualquer verbo, ele é ação em sua essência. Ou seja, o palavra-verbo importar implica um movimento; sendo da classe verbo às palavras que fazem a vida existir, a exemplo do famoso texto bíblico de João 1:1-4 “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Tudo foi feito por ele; e nada do que tem sido feito, foi feito sem ele. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens”.

E esse pensamento é muito poderoso, uma chave de conhecimento, independente de sua contextualização religiosa. Em verdade, a mensagem que vem do texto bíblico transpassa a religiosidade ao se perceber que não é dado a ninguém, nem mesmo ao Deus, realizar sem ação, sem verbo.

Então, na frase “ele se importa com ela”, o que nos conta o verbo ‘importar’ na utilização pronominal? A qual movimento nos agita? A qual ação nos inspira? Ele nos diz que temos que nos importar com o outro, mas como se dá essa ação de se importar com o outro? É a compaixão, seria compreender o que o próximo está passando ou o colocar-se no lugar do outro? Refletindo sobre outro trabalho apresentado na sessão da Loja Zohar, de autoria de nosso irmão José Lobo Neto, cheguei a outra conclusão.

Se importar com o outro é o movimento de trazer o outro para dentro de si; como se fosse um ato de importar produto do estrangeiro para dentro de nosso pais. É mais que sentir compaixão, muito mais do que se colocar no lugar do outro, sentir na pele o que ele passa. Isso é só o começo do ‘se importar com o outro’.

No momento em que se realiza a dificuldade alheia, percebendo-a, foi dado o primeiro passo no complexo ato de ‘se importar’ com o outro, na sequencia vem a ação propriamente dita de tirar o outro de onde se encontra – ajudar a sair da dificuldade ou do sofrimento – trazendo-o para seu mundo onde esta vicissitude não existe, ou onde pode ser mais branda pelo compartilhamento da solidariedade.

Solidariedade é um ato de bondade com o próximo ou um sentimento, uma união de simpatias, interesses ou propósitos entre os membros de um grupo. Ao pé da letra, significa cooperação mútua entre duas ou mais pessoas, interdependência entre seres e coisas ou identidade de sentimentos, de ideias, de doutrinas. Alguém quer falar de sua etimologia? Pois ela não é verbo, mas rende bons pensamentos também.

Por fim, para que repouse em nossa mente algo de útil sobre o verbo e sobre agir, que demonstre a beleza de seu movimento e a pequenez de nossa mente, socorro-me e espalho o pensamento inquietantemente belo de Manoel de Barros, no poema VII de “Uma didática da invenção” (in Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2011), deixando a quem deseje, criar a poesia IMPORTAR:

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele
delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer
nascimentos —
O verbo tem que pegar delírio.

Confrade Vladimir Belmino de Almeida, cadeira nº 31 Moacyr Arbex Dinamarco, em 12.02.2017.

ERA UMA VEZ – Crônica de Evandro Luiz

Foto: Maurício Paiva.

Crônica de Evandro Luiz

A cidade era tão pequena e distante dos grandes centros que passava despercebida do resto do país. A população, na maioria agricultores, estava profundamente enraizada com a terra. “daqui só saio para o cemitério’’ dizia Joaquim da Paixão, negro de um metro e oitenta, exímio batedor da caixa de marabaixo, forte como um búfalo, rápido que nem cobra sorrateira e liso que nem giju.

Veleiro no Rio Amazonas – Foto: Manoel Raimundo Fonseca

Com toda essa performance, ganhou fama e prestigio, mas também adversários. as marcas no corpo revelavam uma vida agitada. ainda assim, repetia sempre: “daqui não saio nunca, só morto”. O rio em frente da cidade parecia ser um obstáculo intransponível para quem tinha o desejo de sair do isolamento, tamanho a sua magnitude.

Foto: blog Amapá, minha terra amada.

Além do medo de ter que viajar em barcos que pareciam ser grandes gaiolas, por um período de três dias para se chegar a cidade mais próxima. Viajar de avião era impossível para quem vivia da agricultura de sub existência. então só lhes restavam viver com intensidade o que lhes foram destinados.

Folia Religiosa de São Sebastião, em Mazagão Novo, no Amapá (Foto: Iran Lima/Associação Amapaense de Folclore)

Líderes da comunidade cumpriam religiosamente o calendário dos santos preferidos e de datas importantes. Tradicionalmente se reuniam e faziam a festa do senhor em frente à igreja. Com a chegada de padres italianos os ânimos ficaram acirrados.

Foto: Márcia do Carmo

Os padres não queriam aqueles rituais envolvendo o senhor em frente do templo. Eles espalharam que os festeiros seriam amaldiçoados caso não mudassem a festa da santíssima trindade para outro lugar.

Foto: Chico Terra

Houve resistência foi aí então que a igreja usou do seu quinhão celestial contra os simples mortais. em reunião secreta entre os padres e governo, foi decidido que o centro da cidade seria urbanizada. assim os moradores que viviam em terras, fruto da herança de seus antepassados, estavam entre a desobediência e a cruz. Ainda assim, alguns tentaram ficar. Mas o medo de serem amaldiçoados e banidos do cristianismo falou mais forte.

Foto: Maurício Paiva.

Para enfraquecer o movimento veio o segundo golpe: as lideranças foram divididas e distribuas para lugares diferentes e longe do centro. contudo, o balé das senhoras com roupas coloridas persistiam. e mesmo com as dificuldades, a força e a vontade dos festeiros em preservar os costumes dos antepassados eram fortes. mMs com a fragmentação do movimento, reacende um sentimento incubado nas lideranças. O da disputa pela hegemonia do calendário profano da festa do senhor.

Foto: Maurício Paiva.

A festa da criação da cidade é realizada com toda estrutura governamental e participam do evento os grupos folclóricos em uma tentativa de agradar a todos. Porém, a disputa ficava mais evidente era na corrida de cavalo que os ânimos ficavam acirrados e justamente onde João da Paixão se destacava. Ganhando praticamente todas as provas. Um fazendeiro de São Paulo ficou tão admirado, que não pensou duas vezes: vou levar esse vaqueiro.

A notícia se espalhou rápido. No embarque para são paulo, João tremia que nem vara verde. Pela primeira vez ia entrar em um avião o que estava totalmente fora de seu controle, foram seis horas de muita agonia.

Dois meses depois da sua chegada veio o primeiro rodeio. João da Paixão nunca tinha visto tanta gente reunida. a prova consistia em derrubar um boi em pleno movimento. Prova fácil para o vaqueiro do norte que conquistava cada vez mais admiradores. Na realidade, João se preparava para o grande final que reunia os melhores peões do país. No dia da competição, o vaqueiro do norte entrou na arena sob gritos da multidão.

Foto: Maurício Paiva.

Para trás ficava em definitivo o batedor da caixa de marabaixo.

Uma lady – Crônica de Lulih Rojanski

Crônica de Lulih Rojanski

   Eu sou uma pessoa educada. Sem pretensão, sou educadíssima. Educada para resmungar palavrão ameno quando bato a canela ou o cotovelo na quina de um móvel, para gritar palavrão obsceno quando o motorista da frente dobra sem sinalizar – especialmente quando ela dobra à direita (que sempre me soa a nocivo) e para xingar o político ladrão.

   Meus pais me deram educação primorosa. Não tinha ainda sete anos quando me ensinaram a revidar humilhação, desrespeito e calúnia. Foi isto, inclusive, que me garantiu dar pedradas em quem me dava tapas na escola, a chamar de piolhento o menino que me tratava por polaca azeda. O preconceito contido em “polaca” era insondável.

   A questão de não levar desaforo pra casa é bastante filosófica. Levar desaforo ou devolvê-lo vai depender sempre da disciplina que se tem para, no instante da contenda, lembrar-se do Buda ou do diabo. Eu bem que tento cultivar atitudes de tolerância quando sou ofendida. O sujeito que tem o dobro do meu tamanho e não quis desviar de mim numa calçada estreita, por exemplo, quase recebeu uma ameaça de morte. Mas minha tolerância só chegou até aí. Olhei para aquele brucutu cheio de saúde e disposição e perguntei-lhe se tinha mãe.

   Sou educada o suficiente para acreditar que o limite da tolerância para uma ofensa depende da temperatura do seu sangue. O meu é lava. Sou descendente de judeus poloneses, meus avós escaparam por pouco do Holocausto. Não posso e não quero deixar nada barato.

   Já me deparei com gente que me achou com cara de mosca morta porque o revide não veio na hora. Mas a educação para responder à altura que eu trouxe do berço não passou da hora da sobremesa. Com toda a educação que me é inerente, matei a cobra e mostrei o pau, assim que meu ofensor se convenceu de que tinha feito 1×0.

   A educação que recebi também veio com palavras mágicas que despertam sorrisos, que estendem mãos, que abrem portas e que estimulam gentilezas. De todas elas, a que mais gosto é: obrigada! Demonstrar gratidão faz parte do pacote de educação que me deram. E a quem não sabe ser grato pelo que recebe, dedico outra expressão mágica que só os bem-educados sabem usar corretamente: foda-se!

   Fui educada para a paciência, para a solidariedade, para a generosidade e a humildade. Nem sempre é possível colocar tudo isso em prática, mas a paciência tem sido meu maior desafio. Perco a paciência comigo mesma quando percebo que ainda espero algo maior do ser humano. Ou quando me perco no labirinto do “tudo é sobre mim”. Mas também sou educada para sair de fininho e me recolher à significância dos que sabem se mancar e encontrar a saída do labirinto. Au revoir.

Sou a favor – Crônica de Lulih Rojanski

Crônica de Lulih Rojanski

É uma pena que ser a favor não mude coisa alguma em lugar algum. Mas é confortante ser a favor… Sou a favor de desligar o rádio e a TV para ouvir a chuva; sou a favor da instalação de espreguiçadeiras nas beiras de rios, lagos e oceanos, e de um sistema de revezamento para usá-las que permita um tempo curto de espera para contemplar as paisagens, de pés descalços e com as mãos atrás da cabeça.

   Sou a favor da distribuição gratuita de picolés de limão pela prefeitura nos dias de calor; do direito de não aceitar governantes e de governar a própria vida do modo mais livre e não contemplado em nenhuma constituição; de fazer jardins em qualquer lugar onde haja terra desocupada; de andar nu pelas ruas, avenidas e logradouros, sem risco de execração; de vestir fantasias coloridas para ir ao trabalho… As cores têm a propriedade de transformar os sentimentos amargos em partículas de alegria.

    Sou a favor de orfanatos para animais abandonados; do aprendizado de instrumentos musicais desde o jardim de infância; da leitura dos clássicos da literatura todas as noites antes de dormir; da infinita acessibilidade aos livros; da liberdade de levar um edredom para o cinema; de chupar pirulito durante a aula, pois ele ajuda a manter a concentração; de repetir o prato sempre, seja do que for; de gritar ao ar livre para expulsar os demônios ou para acordar os anjos; de trocar o tapinha nas costas por uma pirueta; de encurtar os caminhos para tudo o que dê prazer; de colocar os varais de roupas floridas na frente da casa; de contar as estrelas apontando com o dedo, sem medo de verrugas; de dar às ruas nomes engraçados.

  Sou a favor de desligar a televisão na hora do jantar; do uso do guarda-chuva preto ou das sombrinhas coloridas em todas as ocasiões, porque a nostalgia é sempre bem-vinda; de água gelada nas torneiras públicas; do fim dos copos descartáveis; do barateamento dos chocolates; da anulação do ciúme e do reconhecimento da saudade como o mais belo sentimento; do uso universal dos colares artesanais de dois reais, dos vestidos florais, das sandálias de couro com túnicas brancas; do cultivo de ervas no quintal por quem aprecie os chás ou as poções.

  Sou a favor de tudo o que prolonga a vida; da alimentação natural e também dos churrascos dominicais; de taças generosas de vinho em todos os almoços; da venda de laranjas descascadas; das caminhadas que alcançam a noite; da extinção dos barbitúricos, ansiolíticos e analgésicos químicos que prometem combater a tristeza e a dor, mas instalam os vícios; de acender fogueiras nas noites de lua ou sem lua, para incentivar o florescer da alegria.

  Sou a favor de trocar o nome das coisas que têm nomes feios, como seborreia, cônjuge e fronha; de inventar palavras mais poéticas e gestos mais cordiais; da volta definitiva do vinil; da viagem no tempo, para que possamos todos voltar à infância e ver nossa própria doçura; da compreensão das gerações passadas; do conhecimento da história; das crianças ouvirem os velhos; da criação artística de toda natureza.

  Sou a favor das longas viagens por lugares distantes; de visitar os pais; de escrever cartas e enviá-las pelo correio; de conversar com os bichos e compreender sua resposta; dos shows gratuitos de música clássica; da entrada franca em cinemas, galerias e museus; do direito de dormir nos gramados das praças; de mudar o nome de batismo quando o nome que nos deram não nos cabe; da instalação de brinquedos para adultos nos parquinhos infantis.

E para concluir este apanhado de sonhos que nunca constarão dos textos massacrantes das leis, declaro que sou incondicionalmente a favor da desobediência civil, do amor natural e da crença na vida além da vida.

NO MEIO DO FIM DO MUNDO – Crônica de Evandro Luiz

Este editor, com o autor dessa crônica porreta, o jornalista Evandro Luiz. Foto de 2017, feita pela poeta Jaci Rocha, na casa da escritora Alcinéa Cavalcante.

Crônica de Evandro Luiz

Antônio Laranjeira sente pingos de chuvas nas costas. É como se fosse um aviso, o que faz aumentar o ritmo de trabalho. Sabe que tem pouco tempo para retirar a última safra de mandioca. Olha para cima e o que vê? São sinais que ele bem sabe interpretar. Nuvens escuras carregadas que expelem relâmpagos sempre acompanhados de trovões. São tão fortes que nem um pássaro se atreve a bailar no meio da floresta.

No rosto de Antônio, o suor e água se misturam e percorrem o mesmo caminho feito pela dureza do trabalho do campo. Início do mês de Março. Das cabeceiras dos rios Jari, Amapari e Araguari são despejados um volume de água imensurável. As chuvas esmagam as plantações agrícolas, nos lagos, igarapés e rios. O nível da água subiu tanto que os peixes desapareceram desses lugares.

É nesse cenário de alternância climática que Laranjeira vive há vinte anos com a mulher Izabel e o filho Lucas, de sete anos. Agora ele decidiu que viria para a cidade grande. Por enquanto, viria só. A mulher e o filho ficariam em casa de amigos. Viria buscá-los com o salário que deveria ganhar trabalhando. Na despedida nenhum choro, nenhum abraço, apenas olhos marejados de quem deixa pra trás apenas o dote da incerteza.

No meio do caminho, ouviu o grito dos vaqueiros tocando a boiada rumo as marombas, curral de madeira construído acima do nível do rio. Serão assim nos próximos 5 meses. O caminhão, um pau de arara velho, já carregado com frutas e legumes é o único meio de transporte para a chegar na cidade grande. Depois de uma viagem longa e dolorida, Antônio Larajeira, desembarca em uma estação rodoviária barulhenta, suja e muita gente correndo de um lado para outro.

O mototaxi foi a primeira novidade. Mostrou o endereço no bairro Zerão e, lá se foi Antônio Laranjeira com sua pequena bagagem na garupa de uma moto cortando as ruas e avenidas da cidade. Foi levado até uma área de ponte. Na frente da casa onde ia ficar, 4 crianças brincavam sem perceber o perigo que corriam se alguma delas caísse dentro do lago. Ele foi recebido por Dayse, de 15 anos de idade, sobrinha da esposa de Laranjeira. Ela vivia com José Gregório, conhecido na baixada como Faísca.

Corria pela boca pequena na comunidade, que Faísca era foragido da polícia. Acusação: ele tinha deletado o CPF de três homens em Bacabal, outro município do Maranhão. O barraco tinha apenas uma sala e dois quartos. Tudo dividido por cortinas de pano.

Nem bem chegou, e já queria sair atrás de emprego. Foi aconselhado a descansar e no outro dia sairia com Faísca em busca do emprego. Mas no meio da madrugada, foi acordado. Faísca disse que tinha um trabalho a fazer e que renderia um bom dinheiro. Deixou a pequena mochila em um canto onde fez dela o travesseiro.

De bicicleta os dois saíram, ninguém na rua, silêncio total. De longe avistou um estádio, sentiu no rosto o ar fresco da madrugada vindo do grande rio. Olhou para o outro lado e ouviu o som de tambores gemendo as dores dos antepassados. Faísca disse que ia faze rolé pra ver a situação. Antônio ficaria esperando. No meio da escuridão, Laranjeira pensou na família, nos tempos em que a pororoca atraia gente de vários lugares do mundo e sempre requisitado por conhecer bem a região.

O amanhecer chegava e as estrelas sumindo. O céu ia tomando cores avermelhadas e o azul do infinito se espalhava anunciando um novo dia. Antônio Laranjeira como que embriagado pela atmosfera flutuava em sonhos platônicos.

A volta a realidade foi tão dura quanto a vida que levou. O impacto por trás o levou a lembrar do ronco da pororoca chegando, anunciando a destruição que o fenômeno fazia ao encontrar o que tinha pela frente. Laranjeira foi arrastado por mais de cem metros deixando no asfalto sangue e a esperança que tanto sonhou. O carro sumiu deixando Antônio agonizando. Viu a vida passar como se fosse no vídeo tape.

Foto: Márcia do Carmo

Sentiu um calor suave no rosto. Era o exato momento do alinhamento do sol com a linha imaginária do equador. O som dos tambores diminuíam em sintonia com as batidas do coração do agricultor. Antônio Laranjeira deu o último suspiro e morreu no meio do mundo em pleno Equinócio das Águas.

Ilha de calor – Crônica de @rebeccabraga

Belém – PA – Foto: Elton Tavares

Por Rebecca Braga

Era por volta das 10 da manhã quando cheguei em casa. Um gole longo de água. Subi as escadas até o andar superior enquanto tirava a roupa e largava em cima da cama.

– Como é quente esta cidade. – Falo pra mim mesma.

Sempre achei que Belém fosse mais quente que Macapá. Deve ser porque, quando criança, ouvi alguém dizer que:

– Belém é uma ilha de calor.
-Ilha de calor?
– Sim. Sabe quando o ar quente fica dentro da cidade? Deve ser por causa dos prédios…
– Ah, entendi. Deve ser mesmo.

Pesquisei o que é uma ilha de calor. Não é E-XA-TA-MEN-TE isso, mas quase. Então serve, por enquanto.

Macapá – AP – Foto: Elton Tavares

Quando me perguntam se Belém é mais quente que Macapá, sempre digo que tenho essa impressão, mas que deve ser porque eu me acostumei em morar numa cidade que tem uma orla por onde se pode andar de um lado a outro da cidade vendo o Rio Amazonas, não uma paisagem, mas um elemento que não se pode ignorar. O vento, o som, o cheiro. Tudo que vem dele habita os dias.

Em Belém, a orla tem portos prédios lojas aos montes. E num lugar ou outro você vê a sombra de um Guamá no fundo e nesse ou naquele lugar é possível sentar à beira do rio. Sinto falta do passeio de carro olhando o rio que quando seca vai longe da margem e deixa nu um chão de areia e lama, com cheiro úmido de água doce e esgoto.

Rio Amazonas – Macapá – Foto: Floriano Lima

Não se trata de ser um melhor que outro. Trata-se de que são diferentes, e me despertam diferentemente.

Também acho Belém mais úmido. E isso acho por causa dos três dias que a roupa leva pra secar, se não chover e ela secar e molhar várias vezes, até perder o cheiro de cachorro molhado, como diria… não lembro exatamente quem.

Foi minha mãe que me chamou atenção pra isso. Sinto saudades de minha mãe. Ela sempre tem um cheiro fresco de pele recém lavada. Sinto falta do som que os passos dela fazem.

Belém é uma cidade violenta. Não preciso dos dados pra dizer, mas você pode conferir.

Andando na rua tenho medo de assalto, mas em certo período do ano tenho mais medo de manga. Sim, de uma manga cair na minha cabeça. Acho que uma manga pode matar alguém, ou fazer um bom estrago.

Ver-o-Peso – Belém (PA) – Foto: Luiz Braga

A rua onde moro tem casarões antigos. É a parte velha da cidade. Se eu caminhar pra minha esquerda, até o fim, chego no rio, e no Ver-o-peso. Lá o cheiro é forte de patchuli, maniva e cocô de galinha. Mas não só isso. Cheira a peixe frito, açaí do grosso, farinha baguda. Fala-se alto, é preciso se ouvir entre as bicicletas com alto falantes que tocam os bregas clássicos e vendem pendrives com centenas de flashbacks. – Só os melhores, freguesa!

Se eu andar pra direita chego ao antigo presídio da cidade. Lá tem loja pra turista, um polo joalheiro e um museu que guarda objetos que os presos usavam pra seviciar os desafetos. Senti um profundo mal estar nesse lugar. Também tem uma capela linda. Deve ser de São José. Curiosamente, padroeiro de Macapá.

Curioso mesmo é que esse texto nasceu não para comparar Belém com Macapá, o que acho tedioso quando me pedem pra fazer. Mas porque acordei de um cochilo inapropriado nessa manhã. Molhada de suor e pensei que Belém era muito quente, e muito úmida, como uma vagina excitada. Ou como várias vaginas excitadas. De tamanhos e formas diferentes. Pingando. Crescendo. Pulsando em gozo frenético e violento. Minha Belém é uma vagina excitada.

Em dias de chuva…

Choveu essa madrugada em Macapá. Acho que vai chover novamente. O sol está entocado, iluminando somente o suficiente, graças a Deus! Amo dias chuvosos! Em dias de chuva dá vontade de ficar na cama até mais tarde. Ou o dia todo, né não?

Dia bonito pra mim é dia chuvoso. Noite idem. Gosto por não suar e bebo cerveja sem problema, pois o frio me agrada profundamente. Em dias de chuva dou valor até no trânsito (deve ser por não dirigir).

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Em dias de chuva, como hoje, lembro quando morávamos em pequena casa de madeira, cheia de goteiras. As poucas panelas eram espalhadas pela casa, para armazenar a água do pinga-pinga. É, no dia cinzento de hoje vejo como melhoramos de vida, pois temos que desligar o ar-condicionado e fazer o esforço para levantar da cama.

Quando era moleque, em dias de chuva, jogávamos futebol debaixo de temporal e dávamos muito valor naquela parada. Também lembro do meu velho e saudoso pai, que nos ensinava a ensaboar os vidros do carro para que não embaçassem. É, a chuva me traz mil memórias, a maioria muito boas.

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Gosto do som da chuva, do barulho dos pingos no telhado. Os dias chuvosos me trazem uma paz imensa. A chuva anuncia: finalmente o inverno chegou.

Ah, não gosto de usar guarda-chuva, gosto do respingo, do frescor, de me molhar. Aliás, nunca gostei de “chove não molha” e sempre avisei: “pode tirar o cavalo da chuva”.

É isso!

Elton Tavares

Noite sem trasladação – Por @juliomiragaia

Por Júlio Araújo (quem também é o Júlio Miragaia)

“Andando eles, ouvi o tatalar das suas asas, como o rugido de muitas águas, como a voz do Onipotente; ouvi o estrondo tumultuoso, como o tropel de um exército. Parando eles, baixavam as asas.” (Ezequiel. 1:24)

I

Sempre achei irônico o fato de o Cine Ópera ficar praticamente ao lado da Basílica de Nazaré. O único cinema pornô de Belém, por muito tempo, tão perto do principal símbolo religioso da cidade. Antes, ao lado do Ópera, funcionava o Cine Nazaré, sala de cinema comprada anos atrás pela Igreja Universal do Reino de Deus e tempos depois pela Lojas Americanas. Hoje, resta nessa quadra do bairro de Nazaré uma carga simbólica: entre a fé, a promiscuidade, a miséria dos mendigos e a padaria da esquina.

Há também uma série de hippies pela calçada, um ponto de táxi na esquina com a Generalíssimo Deodoro e uma loja ao lado do Ópera chamada “Mandarin”, a qual nunca prestei atenção no que se vende lá. A paisagem não se completa, claro, sem as vendas de tacacá, maniçoba e demais comidas típicas. Um pequeno elemento de regionalidade que se funde à urbanidade e também à multidão na parada de ônibus em frente ao Centro Arquitetônica de Nazaré. Uma massa de pessoas de todos os tipos e alheios uns aos outros. Compartilhando do sol quente, do vento tímido e da espera pelos ônibus lotados que passam nos fins de tarde.

II

Era um fim de tarde de sábado, pós uma chuva não tão forte, em outubro. O céu se abria à direita, no sentido de quem estava indo na contramão da Nazaré. Pensei, quando vi a primeira vez, se tratar de um protesto a multidão na rua e a gritaria. Rapidamente percebi que não era isso. Um objeto luminoso, prateado, que emitia o som de motor velho, pousou no meio da rua, o que levou todos a correr desesperadamente em direção inversa ao caminho que eu fazia. Alguns poucos curiosos permaneciam. Viaturas da polícia chegavam e cercavam rapidamente o local enquanto era possível ver os mendigos, os hippies, as vendedoras de tacacá e todas as outras pessoas saindo em desespero. De dentro da Lojas Americanas, da padaria, do Cine Ópera, do Mandarin, da Igreja, de todos os lugares.

O objeto emanou um feixe de luz que atingiu e paralisou um grupo de pessoas e as levou ao chão. Foram cerca de 3 horas em que tudo durou. Caminhões do exército chegaram ao local para também cercar a área e impedir que os curiosos, que filmavam e transmitiam nas reses sociais, se aproximassem. Eu fiquei ali, parado, em frente ao Mc Donalds, na 14. Pude ver as vítimas dos ataques no chão, com machucados nos braços e no pescoço. Eram umas 20 pessoas entre homens, mulheres, crianças e idosos.

IV

Com a mesma rapidez que pousou, surgindo entre as nuvens que restavam da chuva, o objeto começou a girar e a se revestir gradativamente de uma luz branca intensa. Subiu aos céus e desapareceu em alta velocidade. Equipes médicas em ambulâncias chegavam para socorrer as dezenas de feridos pelo misterioso objeto. A cidade estava em histeria coletiva, com o fato viralizado na internet.

V

Era noite de sábado, pré-Círio de Nazaré. A multidão que vai todos os anos à trasladação, há mais de um século, não saiu.

Algumas pessoas que estavam na orla da cidade, Portal da Amazônia, Estação das Docas e até na orla da Icoaraci informaram que viram pelos céus um conjunto de luzes coloridas que se movia para todos os lados, em grande velocidade, e que desaparecia para depois voltar a surgir.

Relatos também foram gravados em bairros como Sacramenta, Pedreira e Pratinha de pequenos globos brancos de luz percorrendo calmamente as regiões, invadindo casas e disparando feixes de luz contra pessoas.

Todos os jornais no Brasil e no mundo falavam com destaque sobre o assunto, mais comentado no Twitter e Facebook. Suicídios foram registrados e transmitidos. Pessoas se jogavam na frente de carros, ônibus, atiravam-se de prédios. Muitos saíam de Belém de carro ou lotando o aeroporto e a rodoviária.

Não eram poucos os que diziam se tratar de Nossa Senhora de Nazaré. Outros que eram seres do espaço. Nunca se soube ao certo o que ocorreu naquele dia.

VI

O Círio ocorreu no domingo, apesar do número visivelmente menor de participantes e do clima de medo.

Dias depois, o estado de calamidade decretado pela prefeitura foi suspenso e, aos poucos, a cidade foi voltando ao normal.

VII

Os fatos ocorridos naquele dia foram sendo esquecidos e todos foram voltando a sair às ruas, e a frequentar regiões como a da Basílica de Nazaré, onde tudo começou.

Um sentimento de espera fez alicerce nos dias, semanas, meses e anos inteiros dos que viveram o evento.

No dia a dia, o assunto era ignorado, como se nada tivesse acontecido, apesar da sobrevivência silenciosa de algum tipo de medo. E de uma melancólica incompreensão sobre o que passou e, inexplicavelmente, permaneceu.

A rosa – Crônica de Lulih Rojanski

Crônica de Lulih Rojanski

No último dia da quarentena – um domingo – os moradores do edifício Paraíso deixaram o prato esfriando sobre a mesa, o apresentador do programa dominical falando sozinho, o chuveiro ligado, o bebê chorando no berço, os sapatos no meio da sala, a vida de pernas para cima, e correram às janelas para assistir, em reverente silêncio, à queda de uma velha rosa vermelha de um canteiro da cobertura.

“É um pássaro”, disse um menino, louco para apanhá-lo no ar. “É uma borboleta”, disse uma menina, enamorada. “É uma trufa de avelã”, disse a senhorinha que há 300 dias só fazia tricô. Lá pelo sexto andar, a rosa, a quem Deus dera, àquelas alturas da morte, a dádiva de descer com a suavidade de um dente-de-leão, começou a despetalar-se. E o despetalar da rosa vermelha – ainda que já não tenha vida – há de ter sempre, segundo as leis do olhar poético, um pouco de milagre. Como o milagre do único pão, todos os que estavam à janela desejaram um naco. Uma pétala. E estenderam as mãos, súplices por aquela hóstia consagrada contra o inimigo previsível que andava rondando a vida.

Mas a rosa, em pétalas soltas, prosseguiu sua viagem rumo ao chão. Ninguém a alcançou, embora a todos tenha sido possível sentir dela o quase extinto perfume. Assim a rosa cumpriu seu honrado destino. Antes do fim do dia, os moradores do edifício, vendo apagados todos os sinais de alerta, correram à cobertura para ver todas as luzes do mundo se acendendo e para assistir ao esplêndido nascimento de uma nova rosa.

Pássaros para Leminski – Crônica de Lulih Rojanski

Imagem: Revista Bula

Crônica de Lulih Rojanski

A lembrança é remota, como de algo que se vive em sonho, envolto em névoa. Eu atravessava o Largo da Ordem numa tarde em que os canteiros da Praça do Relógio explodiam em flores de primavera em pleno verão de Curitiba. Foi então que o anjo, que andava calado ao meu lado, disse-me ao ouvido: Olha o Poeta! Eu olhei, e vi que daquela vez não era uma promessa vã do anjo que costumava caminhar com a mão entrelaçada à minha sob as árvores, e que naquela tarde particular dissera que em breve poderia me levar à presença das estrelas.

Imagem: Natura.Net

O Poeta estava ali, ao alcance de minha crença pueril de que a poesia podia ser vista a olho nu. Era Leminski. Com a elegância de “um homem com uma dor”, ganhava o tempo de toda uma tarde comovendo-se com os pequenos pássaros feitos de papel branco que os colegiais brincavam de libertar sobre os gramados. Estava ali, recolhendo versos que nasciam com a mesma delicadeza daqueles pássaros efêmeros que voejavam como se fossem perenes entre os jardins da Praça e a juventude dos colegiais. E parecendo nos “olhar de dentro de um diamante”, sorriu ao nos ver passar como passavam os pássaros de papel impelidos pelo vento, ou porque tivéssemos nos olhos o encantamento de quem testemunhasse uma aparição divina. Leminski…, sussurrei de volta para o anjo, naquele instante que se imprimiria na memória como uma das mais belas pérolas do nosso relicário. Depois apenas o vimos ir embora, telúrico e quase marginal, caminhando “assim de lado”, levado pelo crepúsculo, com um pássaro de papel colhido na concha da mão.

*Crônica publicada no livro Pérolas ao Sol, Escrituras Editora, 2017.
Os trechos aspeados são fragmentos de versos de Leminski.
Paulo Leminski foi um escritor, poeta, crítico literário, tradutor e professor brasileiro. Morreu em 07 de junho de 1989.

Fogo pela janela (Crônica ou lamento) – Por Jaci Rocha

Crônica ou lamento de Jaci Rocha

Às 18, o alarme tocou, hora do meu intervalo da lida. Fui dar uma olhadinha lá fora, o mundo ‘pela minha janela’. Havia um fogo intenso, em direção à minha janela direita, mas dessa vez, não me assustei. TODOS OS DIAS, agora são assim. Este mesmo vizinho acende a ‘fogueira’, o que gera um desconforto geral (a primeira vez que vi, achei que devia chamar os bombeiros, tal a proporção).

Não por acaso, também é pessoa que já fez uma ou duas ‘reuniões’, em tempo de plena pandemia, precisando de intervenção policial para ‘dispersar’. Observei com tristeza, que se trata de um eleitor do ‘messias’. Um daqueles eleitores que propagam querer que o Brasil seja um país correto, mas não fazem o certo, sem serem obrigados a isso. Eles querem o ‘certo’, mas ‘fazem o errado’… e justificam que é ‘porque ninguém faz o certo’. Alguém da psicanálise deve explicar.

Eu mal acredito.

O que me recorda sempre o personagem ‘Bêbado’, do livro ‘O Pequeno Príncipe’, que bebe para esquecer… a vergonha de que bebe.

O fogo que vejo aqui, da minha janela, a pandemia, a situação política do País. Tudo tão relacionado e tão ‘desconectado’. É um incêndio mesmo.

E estamos bêbados.

É uma reinvenção triste da máxima popular ‘mais perdidos do que cego em tiroteio’.

Sim, estamos ‘mais perdidos que bêbados em um incêndio’.

Salve-se quem puder.

(Longe de generalizações, é apenas um leve ‘divagar’ sobre nosso baixo senso de coletividade)