O Navio dos Cabeludos e a Educação pelo Medo – Crônica muito paid’égua de Fernando Canto

 

Crônica do sociólogo Fernando Canto

O medo de fazer algo errado e ser punido controlava a ação de qualquer moleque da minha idade.

Os mais velhos comentavam com veemência sobre uma tal Ilha de Cutijuba, no Pará, para onde levavam os jovens transgressores das leis, falando misérias sobre ela. Diziam ser um presídio de onde era impossível fugir por causa dos tubarões e pirararas que viviam ao seu redor, perto do oceano; um lugar quase inacessível, que para viver era preciso lavrar a terra na chuva e no sol para produzir seu próprio alimento; uma prisão ao ar livre na qual poucos sobrevivam cumprindo suas penas. Em suma: um inferno.

O controle social bem articulado, posto nas nossas cabeças pelo medo, povoava nossas vidas desde a infância. Para cada situação sempre existia uma história que evitava o fazer errado. Era a educação pelo medo. Até hoje quando vejo uma sandália virada providencio logo que ela fique na posição de calçar, pois me ensinaram a acreditar na superstição de que minha mãe morreria se a sandália não estivesse de cabeça para cima. Espertos esses adultos! Eles inventaram uma forma de fazer as crianças não bagunçarem os espaços da casa e também de não castigá-las com surras e outra correções violentas. Certa vez um dos meus filhos, ainda criança, viu o irmão chutar uma sandália que ficou de cabeça para baixo num canto da sala. Imediatamente ele disse: – A mamãe vai morrer, eu não tô nem aí, eu não tô nem aí! E saiu se isentando da culpa da (im)provável “morte” de sua mãe, causada pela sandália virada.

Situações como essa aprendemos em todos os lugares, seja em casa, na rua ou na escola, onde nossas relações sociais se ampliam e solidificam. E assim a gente vai se educando, variando os conhecimentos, resistindo ou não às novidades, segundo os contextos históricos, sociais, culturais e políticos que se apresentam. Mas dificilmente essas superstições e abusões sairão de nossas memórias, embora entendê-las, hoje, signifique dar boas risadas, porque todas as representações simbólicas produzidas pela consciência coletiva ou individual expressam visões de mundo e de sociedade. É uma visão política de realidade porque as ideologias estão ligadas à compreensão da cultura, que por sua vez é uma percepção ligada às diferenças entre os homens. O controle implícito no gesto de “ajeitar” a sandália é uma experiência de poder.

Bem próximo, na continuação da educação pelo medo, lembro da expressão “- O Navio dos Cabeludos vem te buscar.”, uma forma de coação social e familiar para os que não gostavam de cortar os cabelos, principalmente no tempo da Jovem Guarda, quando era moda usar os cabelos compridos, mesmo se arriscando a ser chamado de “bicha”. Não sei de onde veio a dita expressão, mas desde a Guerra do Paraguai, passando pela Revolução dos Cabanos e pela Segunda Guerra Mundial, muitos jovens se escondiam no mato com medo dos “Pega-pega”, navios que passavam nos rios da Amazônia para alistá-los compulsoriamente e remetê-los aos campos de batalha.

A invenção dessa “pedagogia” não raro ainda se estabelece em muitos lares urbanos e rurais da Amazônia. E funciona com as crianças, porque todas têm medo. Nenhuma delas quer perder a mãe por causa da sandália virada. Ninguém quer viajar a força num desses Navios dos Cabeludos que sempre aparecem na frente da cidade para uma viagem sem destino e sem volta.

Eu me inventei (crônica sincera)

73314_441126779273692_574911700_n

“Uma mentira dá uma volta inteira ao mundo antes mesmo de a verdade ter oportunidade de se vestir”, disse Winston Churchill. Quando criança e adolescente, alardeei qualidades que não tinha. Mas as minhas invenções passaram de ficcional para real. Sim, uma coisa espantosa sobre mim (sim, este texto é sobre este jornalista, portanto, se commicrofonenão quer saber, pare agora e vá fazer algo útil) é que inventei um personagem e virei ele.

Não me acho e nunca me achei superior a ninguém, muito menos especial. Mas não quis ser um tipinho anônimo e insignificante que era na infância. Por isso, me inventei. É tipo fazer figa ou morder o beiço pra caba não lhe ferrar, se você acreditar, acontece!

Cansado de piadinhas idiotas, inventei que perdi a virgindade aos 13 anos, mas aconteceu aos 14, em 1990. O motivo da mentira? Detestava ser o único moleque virgem da sétima série. Aí comecei a ter mesmo sucesso com as meninas. Hoje, acredito que a maioria mentiu naquela época.10420143_720992854620415_7406863075574302393_n

Depois inventei que era bom de briga, até ter que brigar. Se tivesse me acovardado, ia ficar esquisito. Depois da terceira ou quarta surra que peguei, me tornei, de fato, bom de porrada. E depois disso ganhei muitas lutas de rua.

Mas o papo aqui é sobre o jornalista. Demorei muito pra ser um profissional mediano em algo. Fui vadio, offentrevistasice boy, auxiliar de escritório, auxiliar contábil, vendedor de seguros, porteiro de escola e, enfim, jornalista.

Não dá pra se inventar jogador de futebol ou músico (quem dera), mas jornalista, deu! Vou explicar. Basta ler, estudar, apurar um fato e ser ético, além de possuir discernimento crítico sobre temas diversos. Não, não é fácil. O tal de pensar fora da caixa. Pois bem, eu me inventei jornalista.

Claro que aprendi com muita gente, desde os professores da faculdade aos colegas de trampo. Errei muito, ainda erro e sempre errarei. Aliás, todos nós, sempre.Trampo2222

Creio que a vida, o cosmos, Deus ou seja lá qual o nome da força que rege tudo isso conspira a favor de quem trabalha e acredita em si mesmo. Por isso, resolvi ser esforçado e focado quando quero algo. Como disse um sábio que conheci: “Quem me escolheu fui eu mesmo!”.

Otimismo, sorte, coragem e batalho, muito batalho. De tantas experiências vividas, trampo pra caramba e lições tiradas, aprendi esse ofício. Nesse âmbito, tento ser correto, original, sincero e justo. Nem sempre consigo, mas, quando não ajo dessa maneira, é porque não deu.

teste 001No final das contas, me dei melhor que muitos dos sabichões da época do colégio, que me parecem infelizes em seus ofícios. Tomei gosto por estar sempre bem informado e escrever virou algo prazeroso. Dá até pra viver disso (risos).

A verdade é que, com o tempo, todo mundo saberá quem é você realmente. Me tornei o que decidi ser: às vezes, sou contista; noutras, cronista, contador de histórias e sempre jornalista. Eu inventei essa porra e muita gente acredita nisso. Até eu. É isso!

Elton Tavares

Bateu saudade do Caderno de Recordação, Cartilha e da fila pra merenda – Crônica porreta de @MarileiaMaciel

1948-Macapá-Inauguraçao-Grupo-Escolar-Barão-do-Rio-Branco

Crônica de Mariléia Maciel

Observando a garotada estudando em tablet e no celular, lembro de quando estudava na Escola de 1º Grau Barão do Rio Branco. Era assim que se começava o cabeçalho, e ai de quem não escrevesse em letra cursiva o nome completo do diretor, vice-diretor, aluno, número da chamada, série, matéria e turma. Embaixo, palavras que nunca esquecerei e que hoje, há de existir alguém que nunca ouviu: Ditado, Cópia, Integração Social, Educação Moral e Cívica, e outros resquícios dos anos de chumbo e de tradicionalismo familiares, em nome da moral e bons costumes, mas que me foram úteis.

Antes de entrar na sala de aula, a fila era do menor para o maior. Primeiro a minúscula Cristina Sá, seguida da Crissie do Carmo, e depois eu. A Lia Jucá era a última. Cantávamos em coro o hino nacional e do Amapá, e seguíamos na mesma formação até entrar na sala, sempre com as mesmas terminações em 11: 111, 211, 311 e 411. Na hora do recreio, a mesma fila pra chegar no refeitório, onde a dona Raimunda enchia os canecos de sopa, leite peidão, ou ainda os copinhos que fazíamos com a folha do caderno pra pegar paçoca, sempre com muita gritaria, empurrão e brincadeiras.

Aprendi a ler em casa, mas foi na cartilha Caminho Suave que aperfeiçoei o B-A-BA, e na tabuada, cuja capa me dava medo, da professora com saia godê e a vareta na mão, que aprendi na marra a fazer as quatro operações. O quadro negro, que na verdade era verde, ficava cheio das lições escritas com giz, que tínhamos que copiar no caderno de papel almaço com lápis apontado com lâmina, que chamávamos de “gilete”. E quando borrava, apagava com borracha melada na saliva. Se a escrita era com caneta, a borracha era azul e vermelha, se fosse de lápis usava a branca.

Ainda peguei o tempo em que tinham as disciplinas Técnicas Agrícolas e Comerciais, Educação para o Lar e Mecânica, pra aprender a se virar numa nota promissória, a fazer um bolo, costurar uma bainha, até cuidar de uma horta ou serrar um compensado. O quintal da escola era tudo, de lá saia a maior demonstração de fé. Era tanta crença e ingenuidade, que pra dar uma força para o professor faltar, bastava dar um nó em um capim. E no final do ano, pra saber se a gente ia passar, era só tirar um mato que tinha um leite, se colasse na mão do desesperado, podia festejar, do contrário, era melhor começar a chorar. Simples assim.

Pesquisa, corria pra biblioteca, onde folheávamos livros antigos e enciclopédias Barsa, ninguém tinha alergia a papel velho. Problema, era só procurar a supervisão, onde sempre tinha alguém para ouvir e ninguém pra espalhar em rede social. Sede, era só colocar a boca no bebedouro que resolvia, sem o risco de doença. Sapato novo tinha que levar carimbada. Sarro era só mais um motivo pra rir, e a vítima não ficava traumatizada nem com vontade de se jogar embaixo do ônibus, a palavra bulling não existia. Se estava apaixonado, era só mandar um bilhete, ou uma indireta no Caderno de Recordação da melhor amiga. Tudo era mais ingênuo e verdadeiro. Sem internet nem computador, porém mais simples do que ligar um telefone celular.

A falta que o Projeto Botequim faz nas terças-feiras de Macapá – Republicado por motivos de terça-feira

Foto: Amapá da Minha Terra

Hoje é terça-feira e por mais de 20 anos, nas terças, o macapaense tinha uma opção cultural: o Projeto Botequim. Realizado de 1994 a 2016 pelo Serviço Social do Comercio (SESC – AP), por mais de 20 anos a iniciativa fez a alegria dos amantes da música na capital amapaense.

Dos anos 90 até a primeira metade da década seguinte, o projeto rolou no Sesc Araxá e posteriormente, o Botequim migrou para o Sesc centro. Há uns dois anos, nós, notívagos de Macapá que adoramos boas canções, arte e cultura, ficamos órfãos dessa opção, extinta pela atual administração do Sesc.

Conversei com músicos, frequentadores e servidores do Sesc, eles disseram que o Projeto não dava prejuízo e nem lucro. Então por qual motivo o Serviço “SOCIAL” do Comércio acaba com um bem tão importante para o comerciário e para a sociedade como um todo como o Projeto Botequim? Perguntei a eles e responderam:

“O Sesc promove exposições, festivais, saraus sobre tema populares às nossas múltiplas culturas, realidades e sociedades. Na área musical realiza eventos para levar ao público instrumentos e ritmos que traduzem um universo rico e genuíno. No Estado do Amapá, gerou o Projeto Botequim, que ofertou por mais de 20 anos oportunidades aos artistas locais um palco para expor sua arte e a população à oportunidade gratuita de apreciação da melhor produção cultural musical tucuju.

Em 2017, infelizmente, o Botequim ainda não teve continuidade, visto que aguarda aprovação do Departamento Nacional com o custeio e apoio financeiro para subsidiar o referido projeto. O Regional Sesc Amapá continua com o compromisso na difusão da cultura, principalmente na modalidade de música, através dos demais projetos: Sesc Canta, Sonora Brasil, Sesc Partituras, Aldeia de Artes Sesc, Amazônia das Artes e Saraus para as todas as tribos (Em 2019 idem!).  

O regional Sesc Amapá, principal agente a querer o retorno do projeto, segue trabalhando para voltar a celebrar a cultura amapaense por meio de tão bonito e importante projeto”.

Bom, é verdade que o Sesc segue no trabalho cultural descrito aí em cima, mas será que precisava mesmo extinguir o Projeto Botequim? Será que um espaço tão importante para jovens talentos amapaenses, com uma nova programação realizada semanalmente, precisava deixar de acontecer? Tinha que cortar na carne logo essa iniciativa essencial para a inclusão de novos músicos, que agora não possuem um evento tão necessário. Ali sempre foi sucesso de público e crítica. Sim, pois o Botequim vivia lotado.

Era sempre assim, de 20h à meia-noite das terças-feiras, sabíamos para onde  ir. A gente amava o Projeto!

E assim como o Botequim, as boas práticas de Macapá parecem ter um prazo de validade. Os bares com o modelo violão e voz já são escassos nestes tempos.

Espero realmente que o Sesc volte com o Projeto Botequim nas terças -feiras e que o órgão volte a ser um agente de democratização do acesso à cultura semanal. Não se trata somente de entretenimento e diversão com educação, mas a promoção de cultura com qualidade como sempre foi e não deveria acabado.

Eu sempre divulgava e ia ao Sesc nas noites de terça desde 1994. Fica a nossa crítica e apelo para que o Projeto Botequim seja retomado o quanto antes. E fim de papo.

Elton Tavares

*Texto de 2017. Republicado por hoje ser terça-feira.

As praças dos velhos tempos – Crônica porreta de Fernando Canto

 

Crônica de Fernando Canto

Creio que todos nós nos lembramos de algum logradouro público da cidade como um espaço que marcou determinado momento de nossas vidas. E, claro, nada como um passeio nas praças de Macapá para fazer vir à tona os clipes nos quais fomos felizes protagonistas ou solitários incompreendidos frente às decepções e vicissitudes que a vida traz, inexoravelmente.

Quando Macapá era menor um passeio à praça significava um caminho para a conquista. Depois da missa ou depois da matinê do cinema, um toque na mão da namoradinha, um ousado “tocha” na despedida era “a glória” dos enamorados, era o sonho realizado sob o embalo da canção romântica interpretada por Ronnie Von que tanto sutumblr_mdlmayxg841re4txro1_500_largecesso fez na década de setenta. Alheios aos acontecimentos políticos, nem dávamos conta das transformações que se operavam no país naqueles tempos. O importante era a afirmação como homem e a curtição daquilo que chegava a nós de forma inócua, como os modismos americanos: a calça Lee, os cabelos longos e o som do Credence Revival de do Jonnhy Rivers, que o Agostinho e o Velton esnobavam em danças supostamente de moda para agitar a juventude nos salões dos clubes da cidade. A versão tupiniquim do calhambeque do Roberto Carlos e das roupas e sapatos da novela “Cavalo de PraçadaBandeira-fotos-antigas-de-macapá-433Aço”, também faziam sucesso, mesmo que a ainda não tivesse televisão funcionando em Macapá.

Nessa época todas as atividades cívicas se concentravam na Praça da Bandeira, bem como a do Barão (área em frente aos Correios) era usada para educação física dos alunos dos colégios próximos e a Veiga Cabral (área onde está hoje o Teatro das Bacabeiras) servia para a instalação de circos e arraiais de festas de santos. A da Bandeira fora a Praça da SPraça-Veiga-Cabral-2audade, onde havia três velas enormes em homenagem ao deputado Coaracy Nunes, ao promotor e suplente de deputado Hildemar Maia, e ao piloto Hamilton Silva, mortos em acidente no Macacoary, no final dos anos cinqüenta. A do Barão era a antiga Praça São José, onde ficava o pelourinho na planta desenhada pelo engenheiro João Gaspar de Gronfelds, em 1761. Depois virou Largo de São João e finalmente Barão do Rio Branco, no início do Território Federal do Amapá. A que hoje chamamos Veiga Cabral já foi a Praça de São Sebastião, onde foi fSem títuloundada a Vila de Macapá pelo governador Mendonça Furtado. Situada em frente à Igreja de São José, entre as ruas Formosa (hoje Cândido Mendes) e São José (a única que não mudou de nome desde a fundação de Macapá), já foi palco do Marabaixo, de comícios e de muitos concertos musicais realizados no coreto pelas bandas dos alunos do Padre Julio Lombaerd e do Mestre Oscar.

Vale ressaltar que nessa planta de Gronfelds, só havia então duas praças, e Macapá começava a ser planejada espacialmente por ele, cujas concepções nós estamos usufruindo até hoje. Segundo o urbanista e professor Alberto TostesOs Mocambos (1972), os grandes quarteirões e as ruas largas foram idealizados por Gronfelds porque o nosso clima quente e úmido é de massa equatorial, então toda a força para suprir essa diversidade vinha exatamente do rio Amazonas, daí a sua preocupação, antes mesmo da construção da fortaleza de São José, em planejar ruas largas e imensos quarteirões, em contraste com as ruas estreitas das cidades européias e coloniais. Ao resto, o engenheiro militar idealizou um grande sombreamento a partir do plantio de árvores para fazer a cobertura climática, o que suscita uma visão sustentável de cidade concebida há quase 250 anos.

SONY DSC
SONY DSC

“A Praça é do povo”, recitava impetuosamente Castro Alves, é nela que se cruzam diariamente sonhos e textos, interesses e esperas, risos e lágrimas e tudo o mais que os seres humanos deixam escapar pelas janelas da alma. Suas aparências, sem dúvida, como dizem os pára-choques de caminhão, refletem o estado administrativo da cidade: são os espelhos das intenções e dos gestos políticos. Por isso, então, merecem os mais profundos cuidados no corte da grama, na poda de árvores e no conserto dos passeios e bancos, usados freqüentemente poempinando pipa (25)r quem tem pouca mobilidade. Não podem ficar à míngua, tomadas pelo mato, como a que existe na descida em frente à residência governamental, um velho e rasgado cartão postal, destruída por vândalos e esquecida pelo poder público, sob o testemunho triste dos velhos coqueiros balançantes na contraluz da nascente.

*Fotos encontradas nos blogs da Alcinéa, Alcilene e Porta Retrato.

O Lago encantando e a árvore de dinheiro – Crônica paid’égua de Mariléia Maciel – @MarileiaMaciel

Crônica de Mariléia Maciel

Era o tempo em que entendíamos e repetíamos: 31 “alesta” e “alunou”, em vez de “alerta” e “anulou”. E assim as brincadeiras divertiam nossos dias e me levava a crer que o importante na vida era somente a diversão na rua, de onde só saíamos quando os gritos de “….vem pra dentro!” doíam no ouvido. O local preferido era no final da rua em que eu ainda moro, a Mãe Luzia, próximo ao lago, não só pela falta de opção, mas porque era lá o espaço dúbio onde viviam dois extremos, os nossos medos e a curiosidade pelos mistérios e lendas, que o tornavam um tesouro que podia ser descoberto aos poucos. Rodeado de aningas e com poucas casas na margem, era como um santuário, guardado pelo seu Anastácio e pelos seres místicos como o Pretinho do Lago e o Bode Preto. Estes dois imaginários, depois das brincadeiras das noites, se metiam embaixo do mosquiteiro e me atormentavam os sonhos.

Os vizinhos mais antigos, cujas famílias vieram do centro de Macapá pros campos do Laguinho, contavam que no princípio o lago era um poço, mas alguém jogou dentro um jacaré, que se transformou em um gigante que alargou suas paredes até que virou o lago. Não era grande, mas, diante da minha pequenez, parecia com Ness, e seu monstro marinho. A molecada do bairro fazia jangada e papai colocou uma canoa, a Saideira, que usava para sua diversão preferida, que era pescar. Foi na beira do lago que passei a maior parte da infância, nadando, correndo, pescando e inventando quanta brincadeira a imaginação conseguia criar.

Eu morria de curiosidade de chegar do outro lado. Bolava mil maneiras de chegar até lá, desde que não fosse rodeando pela Nações Unidas. A emoção tinha três caminhos: atravessar pelo cano, ir de canoa, ou beirando a margem, entre as inúmeras árvores e as cortantes tiriricas, que nos deixava com as canelas lanhadas. O problema com o cano era minha falta de habilidade em percorrê-lo, correndo, como os outros. Tinha que passar a humilhação de ir de gatinho, me agarrando no tubo, enquanto os outros riam. Nunca cheguei até o final da aventura, na metade o arrependimento tomava conta da minha alma e eu voltava engatinhando, pior, de costas. De canoa eu não podia, papai só a colocava na água quando ia usá-la. Então me aventurei pela margem.

Queria confirmar se a árvore que eu enxergava da veneziana de casa, era da espécie que me contaram: um pé de planta que dava dinheiro no lugar de folhas. Saí com alguns amigos que foram vencidos pela minha insistência e hipnotizados pela ideia de encontrar a tal árvore da riqueza. Seu Anastácio não podia nos ver, porque se intitulava proprietário do lago. Então descemos pelo lado da casa da Dinalva, que o quintal emendava com o lago, e fomos munidos de pedaços de madeiras e uma faca pra nos livrar do mato afiado. Vi então, de perto, as árvores de mucajá, taperebá e tucumam, que eu só enxergava de longe as copas e seguimos adiante.

Depois de uma longa estirada, rezando pra não encontrar o Pretinho do Lago, desviando de carapanãs, com as pernas em sangue, suados e com sede, finalmente chegamos em nosso destino. Sonho realizado, e corremos pra pegar as cédulas que brotavam dos galhos. Foi então que olhei pra árvore da fortuna, e depois pro chão, e tive a certeza que a Casa da Moeda não era no Laguinho. Voltei decepcionada e forçando o pensamento pra lembrar quem começou a mentira. Pegamos o mesmo caminho, os mesmos mosquitos e capim, e eu, mais um contratempo dolorido. Com a raiva na garganta e pressa, porque estava escurecendo, tropecei em um tucumanzeiro derrubado no chão e caí com as coxas em cima do tronco espinhoso. Terminei a aventura em casa, depois de levar um ralho de mãe, que ficou com pena do estrago nas minhas pernas e não me deu umas boas rimpadas. Dormi com a perna pintada de iodo, cheirando a azeite de andiroba e com o sonho de encontrar a árvore do dinheiro frustrado. Apenas uma certeza: o Pretinho do Lago existia, e defendeu sua riqueza de moleques curiosos, por isso não achamos a árvore. Ele foi enterrado junto com seu tesouro quando o lago foi aterrado de lixo e fezes, e com eles, minha infância bem vivida no Laguinho.

Mariléia Maciel

*OBS: a foto é de quando o lago não havia sido invadido

Quem morre vai pra Caiena – Crônica paid’égua de Fernando Canto

 

ademarXXXVII.txt1

Crônica de Fernando Canto

Dizem que depois que alguém “leva o farelo”, “bate as botas” ou “foi para a cidade dos pés-juntos” só tem um destino: Caiena.

Apesar de ter indagado várias pessoas sobre essa afirmação (que muita gente leva a sério), ninguém, ninguém mesmo soube me dizer o porquê. Nem o Paulinho Piloto que já foi lá tantas vezes ousou sequer inventar uma resposta.

Há, entretanto, uma versão um pouco aceitável, que é a de quem vai para lá nunca volta. É antiga: nossos emigrantes se mandavam para trabalhar na construção civil da base espacial de Kourou, se davam bem por lá e nunca mais retornavam. Uns ficavam e faziam suas carreiras como trabalhadores esforçados, e com o compromisso de apenas mandarem umas valiosas notas de franco para a família (na época não existia a união europeia e nem o euro). Outros, por não gostarem muito do pesado, acabavam ficando nas mãos dos gendarmes e consequentemente amargando uma pena nas prisões má afamadas do lugar, tipo Ilha do Diabo (que diga o seu Plancantã, pai do Waldir do Calçadão).

A maioria dos brasileiros que vai para lá vai se arriscando. São inúmeros os relatos dos que se aventuraram como clandestinos e acabaram ficando pelo meio do caminho. Perto de casa, quando criança, ouvia notícias de vizinhos que morreram afogados nas travessias do rio Oiapoque, em naufrágios de pequenas e frágeis embarcações. Todos eles eram muito pobres e tinham essa ideia fixa de ter um bom emprego e voltar com uma pequena fortuna para se restabelecer em Macapá. Lembro que uma dessas pessoas foi a Maria Lúcia, irmã da saudosa Maria Piçarra. A notícia de sua morte deixou consternados os moradores do Morro do Sapo, no Laguinho, mesmo assim, isso não inibiu o desejo de outros se aventurarem na mesma rota.

O engraçado é que Caiena é uma cidade aparentemente bonita, não tem problemas graves de trânsito e seu centro histórico é agradável aos olhos dos turistas, como a Place des Palmistes, o mercado de frutas, a área comercial, o porto e os prédios administrativos. Nada ali indica que é um inferno, ainda que como qualquer cidade cosmopolita tenha lá seus problemas sociais.

Mas se Caiena é a estação final de quem morre em Macapá, por que os caienenses não acham que quem morre lá vem para cá? Talvez o inferno daqui seja mais certo. Ninguém quer padecer depois da vida no Brasil, muito menos aqui em Macapá. Então parece ser mais cômodo “dar um jeitinho” brasileiro para ser condômino do paraíso de Caiena (com possibilidade de ser eleito síndico, comprando voto ou não) do que ficar com a alma vagando aqui, mesmo que o corpo esteja enterrado lá no “Barcelão”.

A expressão ”foi pra Caiena” ou “viajou pra Caiena”, é uma metonímia e um eufemismo, que serve para suavizar a rudeza da morte indesejável dos amigos e conhecidos. Mas como não tem jeito para ela nós vamos inventando maneiras de driblá-la, e esta certamente é uma delas, afinal a morte representa o fim absoluto de qualquer coisa que existe de positivo, e simboliza tudo o que é perecível e destrutível da existência.

Mas se “ir pra Caiena” é morrer, é bom também lembrar que a morte significa libertar-se das preocupações e penas e que ela abre o acesso ao reino do espírito. Dizem que a morte suscita a necessidade de ir mais longe, pois ela é a condição para o progresso e para a vida.

Certa vez, lá em Caiena, participando de um desses festivais culturais, o Bomba D’água reconheceu um gari que varria a praça do centro da cidade. Era o Maiambuco, um amapaense que tinha saído de Macapá para a Guiana Francesa há mais de trinta anos e que ninguém mais sabia dele. Bomba D’água, também conhecido por Joaquim, chamou o Pavão, apontou com o dedo e disse: – Olha o Maiambuco lá! O Pavão ficou tremendo e meio amarelo de medo, quase não acreditando, mas exclamou: – É mesmo, Bomba. É por isso que dizem que quem morre vem pra Caiena. Égua, vamo embora daqui.

(*) Publicado no Jornal do Dia. 2007.

Viagem para mudar – Crônica porreta de Fernando Canto sobre a chegada do ano novo

Crônica de Fernando Canto

Na cachaça do ano novo é muito comum fazermos resoluções e promessas de mudança no comportamento, no trabalho e nas relações sociais. Planejamos novas ações e juramos mudar, custe o que custar. E temos poder para isso. Se quisermos mudar para melhor porque não tentar? O problema é sair da nossa zona de conforto e experimentar algo que pode ser ruim ou bom. No entanto resistimos às mudanças.

Um famoso psiquiatra austríaco, Viktor Franki, disse que a coisa mais importante que a psicologia pode e deve fazer é nos impressionar com nossos próprios poderes, principalmente nosso poder de mudar e crescer. Porém não é sempre que nos esforçamos se estamos no nosso conforto e nem sempre desejamos mergulhar em águas desconhecidas, correr esses riscos…

Assistindo ao mundo em movimento é que podemos perceber que estamos indo junto com ele, em uma viagem sem volta, num trem galáctico, rumo às estrelas do infinito. Daí é possível entender que consciente ou inconscientemente somos empurrados a estados e condições diversos, pois os processos de mudança são inexoráveis e inerentes à dinâmica da vida. E assim também as organizações sociais.

Desta forma, ao pensarmos as mudanças que querermos por necessidade, certamente tomamos consciência dos eventos a nossa volta e seus efeitos em relação às nossas escolhas. E é então que alimentamos nossas expectativas sobre a nossa atuação no passado recente. Nessa expectativa é melhor fazer um sobrevoo sobre nós mesmos e olhar os sinais e sintomas de mudança que precisamos, para que possamos mudar.

Lá fora nossas esperanças ainda não morreram. Há sinais de troca e de mudanças estruturais. Novos sonhos são acalentados diariamente pelas pessoas e muitas delas que exercem ou que exercerão cargos de decisão indubitavelmente terão de fazer surgir, pelo trabalho, mudanças em todos os níveis, que serão acompanhadas pelas pessoas que os escolheram numa dialética constante, praticada cotidianamente, principalmente pela imprensa

Transformar, modificar, revolucionar não é apenas mais uma necessidade dos seres humanos. As organizações aprendem muito rapidamente que suas fronteiras mudam a cada minuto, e por isso se voltam para o enfrentamento de novos desafios e buscam nos seus servidores graus maiores de eficiência que podem evoluir e acompanhar suas novas necessidades com pragmatismo e equilíbrio. No entanto nem sempre os debates, cursos, palestras e ensinamentos sensibilizam os atores sociais, notadamente no serviço público, onde se percebe claramente que a empolgação das pessoas é efêmera, e que elas oferecem mais suas próprias críticas e medos que suas habilidades, conhecimentos e capacidades analíticas. Quase em nada contribuem para a totalidade e missão das instituições pelo conformismo e conforto que estão aninhadas com suas limitações em se adaptarem às novas tecnologias, na tensão infindável da luta diária.

Nem tudo, porém, está perdido. Apesar de sempre haver resistência ao novo, a História está aí para dar seu testemunho de sucesso àqueles que ousaram acreditar em si mesmos e conseguiram mudar o mundo. Para transformar, e para transformar-se é necessário ter suporte emocional e equilíbrio, algo que estabeleça a harmonia e desperte o potencial interior que todos os seres humanos possuem para mudar.

Nesse sentido podemos aprender que falar em mudança não requer se basear em livros de auto-ajuda, nem sequer na espiritualidade. Na viagem do trem rumo às estrelas começamos a nos conscientizar dos impactos que causamos quando decidimos fazer mudanças e o que elas provocam nas dimensões físicas de um órgão ou nos conteúdos culturais das pessoas e nas suas emoções.

(*) Publicado no Jornal do Dia em dezembro de 2008.

NENHUM GALO OUSA ANUNCIAR – Crônica de Fernando Canto

images (10)

Crônica de Fernando Canto

Os galos não mais tecem a manhã. Nem sozinhos nem cantando em uníssono, apanhando o grito de um e o lançando a outro.

Pode parecer estranha esta desconstrução que faço na poesia de João Cabral de Melo Neto. Porém, nenhum canto de galo se ouve mais perto da minha casa. A cidade deve ter crescido e engolido o resto de poesia rural num tempo de expansão e de medo. O medo o afugentou e o descreditou das alvoradas louras, das manhãs de fogo flutuante no céu equatorial, onde reinava absoluto antes dogalo2s carros acordarem.

Era cedo. Perto de clarear já se ouviam os trinados dos caraxués e sabiás vindos da direção do aeroporto, talvez fugindo do barulho dos jatos viajores. Nenhum galo cantava. Uma revoada de bicos-de-lacre fez a primeira sombra, ainda tênue na manhã. Nenhum galo ousou cantar. Bem-te-vis escreviam suas notas musicais “nos fios tensos da pauta de metal”; suís azuis e pipiras devoravam o mamoeiro do vizinho, todavia o canto do galo ficou no vazio.

Confesso que era grande a expectativa do seu canto. Os ouvidos aguçados nada compreendiam. Relógios e celulares lhe substituíram na função, e os quintais – seu reino e território – cimentados, não mais permitem que cisque avidamente o chão em busca de aliimages (15)mento.

Onde está o galo com suas qualidades de curar as psicoses, de acordar aqueles que querem deter o crescimento, fingindo que o tempo não passa; que denuncia a mentira e anuncia a luz?

O galo é o símbolo solar, representa a altivez, a coragem e a vigilância e foi nomeado pelos antigos como o “organizador do caos”. Sua imagem se identificou com a de Cristo, denunciador da mentira e condutor da luz que penetra as trevas do mundo. Mas antes Dele a imagem do galo era tão popular que foi cunhada em moedas gregas (século images6 a.C.).
Entre os gregos e depois entre os latinos o galo branco foi consagrado primeiro a Zeus-Júpiter, depois a Apolo, deus solar. Por essa razão Pitágoras proibiu seus discípulos de comerem o animal. Chamado também de “profeta do dia”, ao anunciar o advento certo da luz do sol mesmo em meio à noite mais espessaimages (17), foi associado ao culto de Hermes-Mercúrio, o deus do comércio, pois todo o sucesso comercial depende da vigilância e também porque os antigos caldeus acreditavam que o galo recebia, desde a aurora, do planeta mercúrio, um influxo divino. Daí os alquimistas tomarem o animal como símbolo do calor natural, ligado a Mercúrio. Foi consagrado a Esculápio, o deus da medicina, filho de Apolo, por seu suposto poder sobre influências malignas. É emblema da coragem militar, por sua altivez, lealdade e fecundidade. Suas entranhas serviam parporquesejustifican_clip_image008a a prática da alecryomancia, um modo de adivinhação que se revela na perscrutação de suas carnes. É encontrado em esculturas e desenhos de campanários de igrejas e catedrais porque é um dos símbolos plenos de Jesus como esposo místico e fecundo da Igreja, pai e chefe dos fiéis, seu guia e defensor.

4654838238_21ea7e2bc4 (1)O galo está presente em todas as culturas humanas e nas religiões como um animal simbólico. É rixento e polígamo e tem parentesco direto com os jacus, mutuns e jacutingas. É o galo o anunciador da idéia da vitória e da ressurreição, pois o dia renasce depois da morte simbolizada pela noite que estende sobre o planeta seu manto de silêncio e sombra.

61 barnabyEm meu bairro os galos foram parar nas panelas e substituídos pelos cães que ladram e uivam em noites de lua. O medo das pessoas falou mais alto que o canto anunciador das boas novas. O medo agora é quem rasga com suas esporas o ventre da noite para se esconder nas sombras incrustadas no dia. O galo não canta mais. Não grita com outros galos tecendo a manhã. Mesmo assim o sol nasce e se revela no vasto terreiro que é este mundo com seus cantos diferentes.

É Natal (Belíssima crônica de Natal de Alcy Araújo Cavalcante)

É Natal

Por Alcy Araújo Cavalcante
(1924-1989)

Sabeis que é Natal. Não é necessário que eu diga isto. O anúncio da renovação do milagre do nascimento de Jesus está nesta música que vem de longe, que desce do céu e flutua, em pianíssimo, em torno de nossa alma e toca de leve o coração dos homens. O milagre está, também, nesta luz que vem do alto e ilumina os espíritos, está no riso das crianças, na oração da rosa, na lágrima dos que sofrem, no canto dos pássaros, no sussurro da brisa, no murmúrio do rio e na saudade de minha mãe rezando.

Tudo é tão bonito que as lágrimas de dor e de saudade de infâncias inexistentes são poesia pura. O belo é tanto que não resisto à vontade vesperal de anunciar que é Natal, antes que a noite chegue, antes que seja oficiada a Missa do Galo, antes que dobrem os sinos na igreja comunicando a vinda do Messias.

Tudo é luz em torno do mundo. As trevas não prevalecerão quando cair a noite acendendo mistérios. As vozes dos anjos, o coral dos pastores de Israel, a lembrança dos Reis Magos estão presentes. Há perfume. Os turíbulos de Deus espargem incenso e mirra, porque é Natal no mundo e renasce a esperança no cumprimento da palavra dos profetas.

Mais uma vez é Natal!

Chegam as vozes da infância perdida nos caminhos e o coração enxuga saudades. Os sinos, à meia-noite, vão bimbalhar lágrimas distantes. Vêm de presépios inanimados e risos perdulários afogam angústias cotidianas. A dor se esconde por trás de mágoas indormidas e as horas se ocultam nos relógios, para que a poesia do Natal não passe e o musical minuto dure mais um segundo na eternidade deste dia.

É Natal!

Reza a minha alma de joelhos pelo menino sem brinquedos que perdi, na minha pobreza de sempre.

É Natal!

Repetem meus arrependimentos nas estradas.

E uma alegria imensa absorve as tristezas que fabriquei no mundo. Um sentimento infinito de bondade apaga as dores que construí durante o meu ontem irreversível. Uma ternura imensa acende felicidades futuras, porque é Natal, neste sábado do mundo. Há um polichinelo no bazar. Pertence ao menininho doente que Jesus chamou para o seu reino. Uma boneca abandonada já não chama mamãe para a garota loura que um anjo levou pela mão naquela manhã de sol. Mas outros brinquedos coloridos fazem ciranda em torno das árvores de Natal e milhares de crianças são felizes nos lares cristãos de meu país sem coordenadas. Enquanto isto, Deus sorri, pleno de Amor, por trás da Eternidade.

Fonte: Blog da Alcinéa Cavalcante

O pente niquelado (crônica de Fernando Canto)

Crônica de Fernando Canto

Nos tempos áureos do Morro do Sapo, no bairro do Laguinho, quando a sede do Sete de Setembro Esporte Clube disputava com a do América Futebol Clube para ver qual era a mais social, nem tudo era só tranquilidade. Crimes ocorriam. Eventuais, sem grandes consequências, e outros violentos, envolvendo jovens que se perderam na cachaça. Alguns deles eram jogadores e frequentadores desses clubes, que cumpriram suas penas no chamado “cajual”, do Beirol.

Do pátio de casa acompanhei o movimento dos adultos, principalmente nas festas juninas realizadas no entorno da sede do Sete, com aquele arraial tão característico, onde o pau-de-sebo, o quebra-pote e a pescaria faziam a alegria da molecada. Vi, ali, “moças-donzelas” lindas que desfilavam nos concursos de “miss caipira” e que se tornariam moças casadoiras e objetos de desejo dos rapazes solteiros que já tinham uma “boa colocação” no Governo do Território.

Num desses domingos de festa eu soube da história do Rubens que virara desafeto de um sujeito do Igarapé das Mulheres por causa de uma jovem miss.

Por essa época a Rua São José era empiçarrada e cheio de capim alto nas suas margens, propícia para atos obscuros. Então, certo de que o Rubens viria para a festa, seu desafeto escondeu-se num capinzal da esquina com a Terceira Avenida do Laguinho, hoje General Osório, aonde iria surpreendê-lo. E assim foi: num átimo saltou sobre o Rubens e aplicou-lhe um golpe nas costas com um brilhante pente niquelado que parecia um canivete “Corneta”, muito usado pelos brigões da época. Rubens caiu no chão, levantou-se em seguida, cambaleando e pedindo socorro aos passantes, dizendo que fora esfaqueado pelo fulano, para em seguida desmaiar. Formou-se aquele deus-nos-acuda, pensamentos de vingança, chama-a-polícia-e-o-delegado-Olavo, vai-de-bicicleta-chamar-a-ambulância-que-o-Jagunço-vem-com-beira, etc. E eis que o nosso herói, ainda atordoado pelo golpe covarde acordou sem nenhum sangue esvaindo, um arranhãozinho de nada na costa e um enorme susto, que lhe marcaria a vida como a facada que não houve.

Na central de polícia tiveram que soltar o agressor, que se derretia de rir, no dia seguinte, já que não houve vítima. Mas o pente niquelado ficou retido por muito tempo como uma possível arma branca.

Enquanto o Sete de Setembro disputava o campeonato da segunda divisão no campo do América Futebol Clube (hoje Praça Chico Noé), o presidente Otacílio do Carmo, com suas eternas roupas de linho branco, dançava por horas seguidas sobre o assoalho encerado do clube com as moças de saias plissadas. Era um verdadeiro pé-de-valsa, imbatível na dança de boleros e merengues. Quando todos dançavam a molecada mais taludinha ia para embaixo do assoalho realizar suas primeiras experiências sexuais, olhando a paisagem pelas frestas.

Muitas histórias aconteceram ali naquela sede. Coisas que marcaram as testemunhas ainda crianças de uma cidade em evolução, nos meados da década de 1960. É inesquecível, para mim, o movimento de uma briga que durou mais de uma hora entre dois jovens e fortes atletas. Ela ocorreu após uma partida de futebol entre o Sete de Setembro e o Tijuca Futebol Clube, do Igarapé das Mulheres. Foi a consequência do resultado de uma partida entre os rivais Saci, atacante do Sete, e Macaco, do Tijuca, que explodiu na frente da sede do Sete até os dois cansarem e alguém considerar a briga empate. A história ficou famosa, pois nem a polícia se meteu.

Às vezes fico pensando nessas coisas incríveis do meu tempo de moleque. Incríveis mesmo, como o rosto brilhoso de suor do Otacílio, alcunhado de “Urubu Balado” por causa do seu jeito malandro de andar e de segurar a mulher para dançar; esta história da facada que não houve e da vítima desmaiada; da briga que não acabava e os oponentes já desprovidos de energia, combalidos, mas sorridentes e felizes com o resultado.

Do Sete ficaram, Indelevelmente, as cores das festas dominicais e o murmúrio da chuva deslizando sobre a piçarra da Rua São José.

Nostalgia e Luz – Crônica de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

Hoje de manhã me vi subitamente abatido por um ataque de nostalgia.

No meu caminho para o trabalho observei um homem ateando fogo no lixo. Tinha uma vassoura nas mãos e cuidava com atenção para que as chamas não se espalhassem sobre a calçada. Aquele ato, pensei, era um resquício da herança cultural indígena tão presente em nossa vida cotidiana.

De repente me veio a lembrança do tempo que Macapá caminhava lenta, em sua vivência pacata sob o sol do equador, quando vizinhos se respeitavam e eram amigos; quando cada um sabia das necessidades do outro e ninguém hesitava em pedir uma xícara de óleo, um pouquinho de farinha, um teco de colorau, de pó de café ou de pimenta-do-reino, ou quando trocavam gentilmente deliciosos pratos de comida, feita com abundância para a família.

Lembro que às vezes, pela manhã, minha mãe varria as folhas do cutiteiro que sombreava a frente de nossa casa e fazia a sua fogueira no lixo amontoado. Ele também era o alvo dos moleques da baixada que quebravam nossas telhas com as tentativas de apanharem os frutos jogando pedras e paus na árvore. A pequena fogueira fazia pouca fumaça, mas ia se juntando com a fumaça da vizinha e da outra vizinha e da outra vizinha. E ninguém se incomodava porque a fumaça era fugaz, se dispersava com o vento vindo das marés do Amazonas, lá adiante.

À noite trafegava em sua beleza estelar na escuridão. Crianças brincavam de roda à boca da noite e adolescentes gastavam suas energias na brincadeira de “pira” ou de “bandeirinha”, sob a luz da lua ou das lâmpadas pálidas dos postes da CEA. E, quando a luz se apagava, íamos até mesmo ouvir dos mais velhos as histórias de assombração, pregar peças de visagens aos poucos passantes da noite ou observar os satélites que cruzavam os céus do equador entre as estrelas.

Naquele tempo meu pai deixava aberta a porta de casa para que eu e meus irmãos não incomodássemos seu sono, certo de que ninguém ousaria abri-la para roubar. Era um tempo em que bastava a presença de um cãozinho para o possível gatuno se escafeder. E até as criações de galinhas e patos não eram protegidas da ousadia das “mucuras velhas” de plantão, que roubavam os animais para fazer tira-gosto de suas bebedeiras noturnas. Ah! E como eles sabiam fazer isso. Há casos em que roubavam a própria casa.

Os quintais não tinham cerca, tinham caminhos de atalhos, tinham campinhos, leiras de verduras e árvores frutíferas. As ruas eram tão nossas que ao fim da tarde viravam campos de futebol, em jogos que só terminavam ao anoitecer. Cada um respeitava seu cada qual: o dono da bola podia ser ruim no jogo, mas era o dono, e pronto. Ninguém furtava a merenda do colega nem caderno nem brinquedo.

Ainda que eu não queira culpá-la, mas depois que a televisão chegou nada mais foi igual. A molecada ia assistir a programação na casa do seu João de Deus onde havia o único aparelho de TV no bairro. Seu João colocava um vidro azul no vídeo para que as cenas das novelas “Meu Pedacinho de Chão” e “Vejo a Lua no Céu” parecessem mais coloridas. Doce ilusão! E dava o exemplo de patriotismo acompanhando em pé com a mão no peito o Hino Nacional, no fechamento da programação, por volta de meia-noite. O sagrado jantar familiar ficou mais apressado porque a novela ia começar e todos iam para a sala assistir aos folhetins de Janete Clair.

Mas ainda que brote da minha memória, eu não vejo com saudade essas lembranças. A saudade é mais profunda, é mais poética e mais densa que a nostalgia, que é uma palavra originária do grego e significa “regressar”, “voltar para casa”. E nesse regresso emocional, observo que as pessoas quase já não varrem as folhas que caem das árvores na frente de suas casas, nem fazem mais fogueira com medo de denúncias de vizinhos aos órgãos ambientais e por acharem que é um trabalho exclusivo dos garis da Prefeitura. E assim, as fumaças que eram como bandeiras ou cantos de galos se espalhando, já não enfeitam mais as manhãs ensolaradas da minha cidade. A solidariedade dos vizinhos foi substituída pela individualidade de cada morador aprisionado em suas portas e muros gradeados, pelo medo tácito da violência urbana.

As pedras jogadas nas mangueiras e cutiteiros se transformaram em duras palavras atiradas até em quem não tem telhado de vidro. A energia vital dos adolescentes é gasta nas baladas, quando longe dos pais, muitos enveredam pelos caminhos das drogas. As antigas histórias de assombração agora são contadas pelo Rádio e pela TV nos noticiários da violência no trânsito, brigas de gangues e mortes cruéis por motivos fúteis. O olhar real da juventude que acompanhava o curso dos satélites no céu escuro da noite tornou-se um virtual olhar, onde o romantismo de outrora foi trocado pela racionalidade dos programas dos computadores e celulares on line na Internet e pela comunicação ingênua das redes sociais.

Ah, os ladrões… Desde que mundo é mundo temos ladrões, prostitutas e assassinos e os seus trabalhos diferenciados sob a Lei, porque não há sociedade sem crime, ainda que teimemos em construir nossa utopia. Os ladrões de um passado (nem tão longe assim) eram de patos e galinhas, que ao menos não sujavam o nome de nossa terra e nem nos envergonhavam nacionalmente com negociatas políticas e atos de corrupção explícita.

Nem se comparam com muitos da atualidade que usam a pele de cordeiro para, como lobos ferozes, roubar o dinheiro público, enriquecer às custas do povo e trair cinicamente os que neles confiaram pelo voto. Naquele tempo as cercas inexistentes nos quintais davam a todos a liberdade de fazer seus próprios caminhos, de realizar seus atalhos e se apressar para a vida que viçava lá fora, principalmente pelo caminho da educação, pulsante nas escolas públicas, onde os professores eram mais que isso: eram educadores e amigos. Ensinavam também, como no ato do seu João de Deus em frente à TV ouvindo o hino nacional, a respeitar os valores da Pátria, apesar da era de obscurantismo da ditadura militar.

Hoje olhamos para os costumes sociais e familiares em mudança e nos molhamos de nostalgia. Tudo mudou com os avanços tecnológicos, que tanto facilitam a nossa vida. E tudo começou com a televisão, essa invenção incrível, pois quando a luz apagava na hora de um programa ninguém mais conversava. A família ia para o pátio da casa olhar a rua espelhada de chuva, e uns se perguntavam aos outros: será que foi geral? Será que ela vai voltar? Já pensou? Ficar sem TV o resto da noite… Afirmo, pois, com certa tristeza que foi aí que começou a morte do diálogo familiar.

E as ruas? Ora as ruas. Ruas de tempos abençoados que não testemunharam atropelamentos fatídicos, apenas quedas de bicicleta ou boladas na cara de algum passante desatento. Ruas da minha cidade transformada, ruas que hoje absorvem o sangue dos mortos diariamente em cada esquina, ruas não mais tangidas pelos protestos do povo inconformado, ruas esburacadas pela angústia no rosto da juventude sem emprego, ruas que se tornam rios de chuva e trazem doenças inevitáveis, ruas que lêem os passos cansados dos que tem pouca mobilidade física, ruas escuras, ruas das violências noturnas, ruas dos loucos, dos bêbados, das putas, dos travestis e dos moralistas de plantão.

Mas elas são também as ruas dos sonhadores como nós, que tentamos enfeitar a madrugada e trazer a música e o sol no cavalo alado da nostalgia, para iluminar um mundo futuro ausente de dor e de vergonha, mas cheio de luz e de perdão.

Não deixemos, pois, por isso mesmo, a luz ir embora dos nossos corações.

O Velho das Latas – Crônica de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

Aquelas barbas espessas no rosto do homem, brancas, brancas, se esvoaçavam com o vento da Beira-rio. Eram barbas longas que chamavam a atenção de qualquer um, mas que logo, logo, provocavam uma sensação de desprezo pela figura. As pessoas nas mesas ao meu redor comentavam sobre ela e após constatarem que era um mendigo se desinteressavam.

Que era um velho o dono das barbas parecia óbvio. Jamais vira aquela pessoa na praça e creio que ninguém a conhecia também. Era um ser estranho. Não fossem as barbas longas diria que era um ancião indígena há muito tempo expulso da vida selvagem e degradado na cidade. Talvez tivesse vindo lá do sul do Pará ou do Maranhão, onde se vê tanto índio mendigando, bêbados, pelas rodoviárias.

Acompanhei seus gestos. De vez em quando ele apanhava uma lata de alumínio do chão, ajeitava-a e pisava nela com força, até achatá-la. Depois a punha num saco que carregava às costas e ia e vinha embalando seu cansaço. Calculei que ele se aproximara dos quiosques no finzinho da tarde quando os frequentadores dos bares surgiam para suas confabulações habituais. Certa hora ele se aproximou de uma mesa onde estava um casal bebendo cervejas em lata. Muitas delas já haviam sido consumidas e, amontoadas, tomavam a forma de pirâmide. Ele chegou devagar e pediu as latas vazias com os olhos. O rapaz o encarou e jogou uma lata no chão. O velho abaixou-se para pegá-la, mas o rapaz o empurrou sobre umas cadeiras de plástico, rindo de um jeito antipático e covarde. A moça que acompanhava o valentão repreendeu-lhe nervosamente, pagou a conta e foi embora na frente. Tentei ajudar o velho a se levantar, mas ele se desvencilhou de mim, atravessou a pista e sumiu.

A lua minguante surgiu como um imenso olho de cachorro dentro de uma nuvem negra e a maré subia, subia, arrebentando o muro de arrimo, o último anteparo de uma enchente ameaçadora. O vento intenso parecia orquestrar o bailado das águas, vigoroso e circular, provocando frio. Eu não duvidei que naquele momento e naquele pedacinho da cidade a natureza estava conspirando contra mim. Havia muitas luzes em toda parte, e eu estava ali ensimesmado, viajando em desilusões e lembranças amargas, esperando um tempo novo para mim. Sentia-me como uma roupa lavada e posta para secar no varal em dias de inesperados chuviscos.

De repente tomei um susto ao erguer os olhos. O velho surgiu na minha frente me encarando como se eu lhe devesse alguma coisa. Tinha o olhar severo e desafiador. Intrigado, pedi que sentasse e resolvi lhe encarar do mesmo jeito. Seu semblante foi mudando devagar até que sorriu. Então pude ver que seus dentes eram de uma brancura inquietante, mas ele tentava mesmo era falar com os olhos, numa comunicação inusitada que surpreendentemente eu compreendia. E foi “falando, falando em silêncio”. Pelos seus olhos dizia dos fenômenos das marés e dos ventos como um mestre em Geografia; falou do céu e das constelações como um velho astrônomo egípcio; dos homens como um santo e do coração como um deus que abre todas as portas para o amor. Enquanto “falava”, percebi que manuseava uma lata de alumínio com movimentos suaves, assim como quem modela uma peça de argila. E após tantas viagens imaginadas, que quase fizeram esquecer minha tristeza, o estranho homem se despediu e foi caminhando com sua sabedoria em direção à fortaleza de Macapá.

Ilustração de Fernando Canto.

Ficou em mim uma momentânea sensação de felicidade e a boca seca de vento e vinho. Mas logo voltaria aquele estado de amargura, de ter o coração fechado e um gosto de desamor e de abandono. Meus olhos apenas contemplavam o infinito. Foi então que ouvi o espocar de fogos de artifício e caí na realidade. Sobre a mesa estava uma chave retorcida feita de lata. Olhei ao redor, as mesas vazias. Um casal de garçons me acenava sorridente. Pensei no velho das latas, apertei a chave com força e uma sensação de paz abriu em meu coração para nunca mais se fechar para o amor. Olhei novamente em volta. O relógio do trapiche marcava meia-noite. Era natal e as luzes piscavam como meus olhos cheios de marés lançantes.

Tempos de natal (texto legal da @MarileiaMaciel)

Vem aí mais um natal com todas as tradições, e com ele, um clima que só temos em dezembro, mesmo nos raros dias do ano em que as nuvens escuras tomam o lugar do sol dilacerante, mas não e mesma coisa. Tempo da chuva imprevisível, de sair com roupa de verão e cair uma tempestade, ou o contrário. Tempo de manga, quando podemos andar nos bairros mais tradicionais de Macapá e espocar frutinhas verdes no chão, correr o risco de uma madura cair na cabeça, e ver os vendedores com as varas cutucando as árvores.

Lembro dos antigos natais, quando o dinheiro era pouco pra ganhar todos os presentes e papai noel marcava presença grudado na parede, em papel laminado, com barba de algodão e estáticos olhos azuis. Era costume criar um porco no quintal, alimentá-lo com restos de refeições e na véspera de Cristo nascer, ter que tampar os ouvidos para não ouvir os gritos do bicho na hora do abate. Depois só víamos o suíno quando era pelado e mais tarde na ceia, com o corpo dourado e a cabeça servindo de tira-gosto, quando o vinho subia para a cabeça. Nada se perdia do coitado.

Nos dezembros antigos, era quando se tirava das caixas as embalagens que só víamos com fartura em dezembro. O leite moça, as cerejas e as compotas há tempos compradas e alvo de cobiças da molecada por meses. Por isso que existem comidas que só têm sentido no natal, nos outros meses come-se, mas não tem o mesmo gosto da infância, sem a chuva, as luzes, e os cheiros da época. Comer panetone ou peru recheado em junho, é como tomar mingau de milho em dezembro, ou ver papai noel em agosto. Uva-passa, frutas cristalizadas, nozes, só têm significado em época natalina, nas outras, só pra tentar matar a saudade, mas o gosto que deixa na boca é de papelão.

Antes em Macapá, as lojas que vendiam pisca-pisca e outros enfeites natalinos eram poucas, e não tinha muita opção. Então papai, que amava o natal, esperava seu fornecedor chegar da Zona Franca de Manaus para despejar em nosso pátio as centenas de quinquilharias importadas que ficariam pendurados até Dia de Reis. Da árvore de natal à guirlanda, tudo vinha do Amazonas, o resto a gente fazia em casa, mesmo. Era o tempo em que se entregava cartões de natal, e as árvores ficavam cheias deles pendurados. “Feliz natal e próspero ano novo, da família tal”, “Boas festas”, diziam.

No Laguinho, dezembro é esperado com ansiedade. O mês começa com a ressaca do Encontro dos Tambores, uma pausa para arrumar as casas e disputar, sem que haja concurso, pra ver quem enfeita mais e melhor a fachada, do mais humilde ao mais remunerado. Esperamos com ansiedade para ver como vai fluir a imaginação de alguns moradores ao decorar a casa, e enxergamos, com reflexo nos olhos, as centenas de luzes cadenciadas. Alguns exageram e iluminam até o contador de água e a casa do cachorro. Mas não há limite para o único mês em que a cabeça não está preocupada com conta de energia.

Alguns moradores mudaram do bairro, e outros ocupam as casas, mas a magia do bairro permanece. Mesmo com a General Rondon tomada de comércios, continua o clima de quando moravam famílias nascidas aqui, e nas esquinas ainda acontecem os encontros bebemorativos, relembrando histórias e moradores, com as intermináveis e inesquecíveis piadas do Miguelão, Pururuca, Bomba-D’água, Rato, Sacaca, e toda sorte de moradores destinados a nascer ali, na beirada do Poço-do-Mato. É o tempo mais esperado porque tem a festa do Banco da Amizade, quando os moradores que moram longe fazem uma visita, e as divergências políticas, de carnaval e futebol acabam, e o que vale por aqui é confraternizar e esperar chegar o carnaval, pro ano poder começar.

Mariléia Maciel – Jornalista e cronista laguinenese.