Escritora, poeta e agente cultural, Pat Andrade, gira a roda da vida. Feliz aniversário, querida amiga!

Com a Patrícia Andrade, a popular e genial PAT. Uma amiga que admiro e respeito.

Sempre digo aqui que gosto de parabenizar neste site as pessoas por quem nutro amor ou amizade. Afinal, sou melhor com letras do que com declarações faladas. Acredito que manifestações públicas de afeto são importantes. Quem gira a roda da vida neste décimo primeiro dia de maio é Patrícia Andrade. Uma mulher admirável e um ser humano sensacional, além de querida amiga minha há mais de duas décadas. E por isso lhe rendo homenagens.

A “Pat” é uma poeta brilhante e autora do livro “O avesso do verso, poemas de mim”, lançado em dezembro de 2021. Uma artista ímpar, versátil, com um coração bondoso, atitude e espírito de luz. Há uma ‘aura’ de poesia que chega junto com a Pat, por onde anda. Além de bela, é talentosa, livre pensadora e, como poucas pessoas que conheço, deu uma guinada em sua jornada. Para melhor, claro. Hoje em dia é um exemplo de superação na vida.

Pat Andrade, há mais de 20 anos, nos saraus de Macapá

Conheci Patrícia Andrade há 25 anos, quando ela desembarcou aqui, no meio do mundo, vinda de Belém (PA), em 1999. Safa, descolada e sem estar ideologicamente presa a nada, Pat se tornou rapidamente “chegada” de todos nós, os malucos da cidade. Logo virou broda de intelectuais, militantes culturais e, é claro, poetas e escritores. A menina sempre se distinguiu por ser inteligente e despudoradamente franca. Aliás, poesia é uma arte que essa linda domina. Patrícia é senhora do ofício de poetizar.

Cheia de papos legais e dona de vasta cultura geral, Patinha é uma mulher cheia de poesia, histórias hilárias, outras nem tanto, e uma trajetória bacana no cenário cultural de Macapá. Além de poeta, trata-se de uma multi-artista, pois ela também se garante nas artes plásticas, escritora/cronista, discotequeira (Vinil-DJ) e produtora de vídeo e ativista cultural. Pat, inclusive, foi uma das fundadoras do movimento do vinil na Floriano e em outros locais desta cidade cortada pela Linha do Equador. Também é figura presente em saraus ou qualquer manifestação cultural e de defesa de direitos da sociedade.

Pat entre o marido Marcelo e o filho Artur.

O tempo passou, eu virei um velho gordo e a poupança Bamerindus levou o farelo. A Pat namorou, casou, se tornou mãe do querido Artur, trampou e pirou. Tudo com intensidade e paixão, essas coisas legais que gente como ela faz e acho muito firme, pois sou assim também.

Patrícia é a poeta que mais contribuiu com este site, onde assina a sessão “Caleidoscópio de Pat Andrade”. Além colaboradora talentosa, é uma broda para papos bacanas e desabafos. Uma pessoa que sei que, se precisar, posso contar.

Encontro porreta com Pat Andrade e Alzira Nogueira. Duas mulheres PHODAS!

Outra coisa porreta sobre Andrade é que ela se reinventou, começou a cuidar da saúde física e mental. Essa virada de chave é algo lindo de constatar. Hoje, casada com o também poeta Marcelo Abreu, a amiga vive feliz, com seu esposo e filho. Como diria Raulzito, ela não quer mais andar na contramão.

Pat também cursa Letras na Universidade Estadual do Amapá (Ueap), mas poderia dar aula, de tanta sintonia que tem com as palavras e com a língua portuguesa. A obra poética de Patrícia Andrade é resultante de uma mistura de vivências, amores, dores, tudo em tom de confissão.

Em 2023 e 2024, Pat foi premiada, passou a ser mais valorizada e seu trabalho reconhecido. Isso resultou na ida dela para fora do Estado, quando levou sua linda e mágica poesia para fora do Amapá e nos encheu de orgulho.

Ano passado, quando eu e Patrícia recebemos o o troféu Destaque Cultural 2023, da Academia Amapaense de Letras. Dia memorável!

A poesia de Pat Andrade é um passeio emocional entre as esquinas da arte e da vida, quando sentam para conversar. Há o ritmo do Equador e uma ternura própria, em suas linhas. Além de tudo dito e escrito, a Patrícia é uma pessoa que sei que posso contar. Amigos assim são bem raros. Ela é Phoda! E eu a amo como uma irmã.

Patrícia, minha querida, que teu novo ciclo seja ainda mais produtivo, saudável, rentável e que tudo que couber no seu conceito de felicidade se realize. E que tua vida seja longa, por pelo menos mais uns 100 maios. Parabéns pelo teu dia e feliz aniversário.

Elton Tavares
*Texto adaptado e republicado, mas de coração.

Os Tulius Detritus – Crônica de Elton Tavares (do livro “Crônicas De Rocha – Sobre Bênçãos e Canalhices Diárias”)

Ilustração de Ronaldo Rony

Adoro gibi, sempre gostei. Fui leitor fanático de várias sagas de diversos personagens do universo dos quadrinhos. Meu amigo Fernando Bedran, durante nossas bebedeiras, sempre falava que é aficionado pelos quadrinhos de Asterix, o herói gaulês.

Ah, para quem não saca: “Asterix é uma série de quadrinhos, francesa, que conta a história de uma aldeia de gauleses (antepassados dos franceses) que teima em resistir ao invasor romano – enquanto toda a Gália já se rendeu. A aldeia de Asterix resiste graças a poderes especiais conferidos por uma poção mágica”.

Há anos, Bedran emprestou-me uma revista intitulada “Asterix e a Cizânia” (que aliás eu ainda não devolvi). O quadrinho conta a história de Tullius Detritus, personagem que semeia a discórdia, a cizânia entre os gauleses para enfraquecê-los e assim Roma possa vencê-los. Mas, ao fim, Asterix e seus amigos conseguem derrotá-lo.

Na trama, Tullius Detritus é o mestre da discórdia, astúcia, bandalheira onde ele chega, ele destrói, é a cizânia em pessoa – fofoca, manipulação, articulador da discórdia, dedo de seta, o veneno em pessoa.

Aí penso nos Tullius Detritus do cotidiano. Figuras com jogadas sombrias, ataques sinuosos. Seres com a necessidade constante de mostrar superioridade. Muitos tentam se passar por espirituosos ou autênticos, mas são ardilosos, sombrios e perigosos.

Portanto, tenham muito cuidado com o que vocês falam e principalmente para quem vocês falam suas coisas. Pois tá cheio de secador de pimenteira, escrotos, posers, soberbos , incoerentes e insensatos. Crápulas à espreita, motivados por inveja e armados de calúnias. Enfim, grandes filhos da puta.

Deixo aqui um conselho: não dê papo, muito menos confiança. Acreditem, aprendi isso da pior forma. Além do mais, cedo ou tarde, eles se lascam. É isso!

Elton Tavares

*Texto do livro “Crônicas De Rocha – Sobre Bênçãos e Canalhices Diárias”, de minha autoria, lançado em setembro de 2020.

 

Mães dos dias – Por Manoel Duvale

Por Manoel Duvale

Tem mães que parecem segunda-feira, sempre correndo pra não perder a hora. As segundas são dos corres da vida pra garantir que tudo corra bem durante a semana, com faz-me rir no bolso e com as lições das crianças em dia.

Outras já têm a cara da terça-feira. Já superado o choque de realidade da segunda, as mães terça-feira são focadas e dedicadas a aproveitar bem o dia, pra não deixar nada pro dia seguinte, que, quando vê, já é quarta-feira.

As mães que têm o espírito da quarta-feira já se permitem fazer algo fora da caixa e da folhinha, procurando problemas para as soluções que elas têm pra dar e vender.

Mas tem as mães que são a cara da quinta-feira, querem mais é que a sexta se instale e ela possa tomar umas pra aliviar o peso da semana.

As mães cujo espírito é de sexta-feira têm os olhos mais brilhantes e ficam cantarolando pela casa ou trabalho, felizes como regularmente são as sextas-feiras.

As que são o sábado têm o dom da criação, como ensina o poeta Vinícius:

“…Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar …”

E o sábado segue em ondas de rádio ou de rio.

O domingo é o que toda mãe gostaria de ser na vida, porque cabe toda a família e os amigos. Cabem os dias de sol ou de chuva, cabem todos os abraços possíveis, os sabores mais inusitados, os sorrisos mais sinceros, cabem os gatos, cachorros, gritos de crianças, gargalhadas às pencas.
E assim é o dia a dia das mães.

Reconheça um pouquinho do amor recebido: Mãe é mãe e a 2A tem presente para todas elas

Ah, o Dia das Mães! Aquela data especial que todo mundo espera ansiosamente para demonstrar o quanto ama e valoriza suas queridas mães. Sim, preocupações, problemas na escola, traquinagens, doenças, broncas na rua, cada machucado, tudo isso e muito mais só pode ser aguentado por uma pessoa: a nossa mãe. Com a árdua, nobre e linda missão de criar, educar os filhos e ainda conciliar sua vida pessoal em rotinas fora ou dentro de casa.

Porque, vamos combinar, mãe é mãe, né? Aquela pessoa que sempre está ao nosso lado, nos apoia, cuida e nos ama incondicionalmente. Então, nada mais justo do que retribuir todo esse amor com um presente que realmente faça a diferença.

É tanta amorosidade doada e sem pedir nada em troca. Quem não possui na infância uma série de memórias felizes produzidas somente por lembrar da mãe? Sem falar nas histórias de superação dessas verdadeiras heroínas, guerreiras de verdade.

A mãe faz até a bainha da calça pra não ficar “tucandeira”… Égua, moleque, tu é doido, mais paid’égua logo esse lance de mamãe!

Mesmo quando a gente é criança ou adolescente, que apanhamos de nossas mães (palmadas com efeito pedagógico-corretivo-anti-travessura), é bom. A gente reconhece quando vira adulto.

Lembro bem de quando eu era moleque e a mamãe entrava na escola rumo à secretaria para ver minhas médias (que quase sempre estavam, em sua maioria, vermelhas). Era rapidola pra ela passar na volta por mim e dizer: “tu é o belo, né?’. Naquele momento dava um frio no espinhaço e a alma saía do corpo. Era certeza de um quebrado/surra em casa. Horrível aquela sensação!

Claro que hoje em dia, outros tempos, nem rola mais esse lance de bater nos filhos. Mas agradeço cada ralho ou palmada. Sobretudo, exemplo de como ser uma boa pessoa.

Até hoje quando vejo uma sandália virada, desviro para que fique na posição de calçar, pois me ensinaram a acreditar que minha mãe morreria se o chinelo não estivesse de cabeça para cima. Discunjuro!

Não adianta se ela já está engilhadinha e você porrudo, tua mãe sempre vai zelar por ti, te defender, amar você com todas as forças que ela tiver. Não que não!

Por conta disso, as lojas 2A resolveram dar uma mãozinha para quem quer acertar em cheio no presente deste ano. E pensaram em tudo! Desde aquele presente que facilita o dia a dia, até aquelas opções que vão deixar qualquer mãe com um sorriso de orelha a orelha. Porque a mãe merece presentes que facilitam, que trazem conforto e que, acima de tudo, mostram o quanto ela é importante. Reconheça um pouquinho do amor recebido. Certeza que vais emocionar e mostrar o seu amor de forma única e especial.

Como disse o poeta Mário Quintana: “…Mãe que bem dos filhos sabe a todos dar valor. Ela multiplica o afeto, subtrai deles a dor. Com seus filhos amados, soma carinhos, cuidados e divide muito amor”. Sim, uma mãe é um Deus palpável, acessível e real que atende as nossas preces mais absurdas… é no coração das mães que o amor verdadeiro encontra o seu lugar.

Feliz Dia das Mães!

Elton Tavares

 

Querida Fran! – Por Jorge Herberth

Por Jorge Herberth

Eu não poderia imaginar que aquele aroma de amor me acompanharia eternamente. Quando criança, aprendi todos os dias com minha mãe a me alimentar de sonhos. O mingau morno na mamadeira carregava um amor imensurável, pra toda a vida. Nele, o sabor do tempo e da sua ternura. Os sabores dos seus sonhos eram servidos de manhã, à tarde e à noite, junto com canções e histórias no seu olhar sorridente da alegria de viver.

Podia ser no verão de sol brilhante ou em dias de chuvas contínuas com os caruanas, quando tambores ecoavam madrugadas adentro para saudar os Deuses, Orixás e caboclos. Ou quando o Marabaixo expressava seus cantos, vozes, corpos e caixas de amor, dor, alegrias, gengibirra e essa cultura ímpar da gente negra linda do Amapá. E ficavam lindos também quando o samba dos Boêmios desfilava no Laguinho querido, pra onde trabalhaste costurando sonhos e belezas. Como sabias costurar sonhos e sorrir feliz.

Sabias plantar como ninguém. Rosas, papoulas e frutíferas. Eram tua fertilidade em pessoa. Eras da terra do amor. Como minhas doces lembranças são do tempo e dessa trilha que me ajudas a seguir. Por isso és e somos do teu coração singular, cheio de sonhos e sempre fértil.

Junto com o mingau, vinham sempre outros aromas e sabores de todos os sentimentos que transformam criança em pessoa, em gente. Minha mãe sabia fazer essa costura com rendas ou retalhos. Ela sempre deixava no meu berço, na minha rede ou na minha cama uma camisa de meu pai. Porque eu precisava estar com o cheiro dele encostado em meu rosto para saborear esse amor indelével do mingau da mãe e do aroma de meu pai. Era perfumado e às vezes tinha até marcas e cheiro de graxa, do seu árduo trabalho como um grande mecânico. Era preciso lavar suas mãos com bastante sabão grosso nos fins de tarde. Era meu prazer. Assim como enfiar a linha nas agulhas de mão ou das máquinas dela. Assim, eu rebobinava meus sonhos e meu amor por eles dois.

Um dia serei mais filho terno a ti, a vocês dois. Eternamente louco de amor por ti, pelos ensinamentos em um rosário infinito de sonhos, que carregaste como Iara em canoas desde Peixe Boi, no lindo nordeste do Pará, até essas margens do grandioso rio Amazonas, e despejaste com todo amor em Macapá, no Laguinho e por onde desfilaste tua aura brilhante.

Ah seu Abel, ah dona Chica. Feliz dia das mães, das bruxas lindas como tu, querida Fran.

*É uma homenagem às mães, em nome de Francisca de Souza Ferreira, mãe de quatro filhos. Foi costureira, formou técnica em secretariado no CCA. Depois tornou-se técnica em enfermagem e serviu no Hospital Geral de Macapá (Alberto Lima?). Em nome dela e de sua vida de amor esta é uma singela homenagem às mães e mulheres que se tornam estrelas e luz de sua e de nossa vida.

O Capitão Caverna, o meu super- herói favorito – Crônica de Elton Tavares (do livro “Crônicas De Rocha – Sobre Bênçãos e Canalhices Diárias”)

Adoro desenhos animados antigos, mas não sou muito chegado nos que são exibidos agora. Normal, tô ficando velho. Concordo que as animações antigas perdem em recurso tecnológico para os “mangás & Cia” que passam na TV atualmente, mas ganham, e muito, em criatividade dos de hoje. Pois eles eram engraçadíssimos e possuíam uma originalidade fantástica.

Também sou chegado em histórias de heróis diferentes. O Capitão Caverna, por exemplo, era um dos mais esquisitos. Pesquisando sobre o personagem, li em alguns sites basicamente isso: “O Capitão Caverna foi criado por Joe Ruby e Ken Spears, em setembro de 1977. Entre os seus poderes estavam a super força e uma variedade de trecos escondidos sob seus abundantes pelos”.

Ah, ele ainda tinha um tacape, com o qual o herói voava e que também se transformava em vários objetos, dependendo das situações inusitadas. Capitão Caverna é um personagem dos estúdios Hanna-Barbera, que produziu os clássicos “Os Flintstones e Scooby Doo”, entre tantos outros.

Além de seu peculiar visual, cabeludo e descabelado, baixinho, troncudo, narigudo e com um terrível apetite. O Capitão Caverna tinha um vocabulário próprio, que contava com as palavras “unga-bunga” antes de qualquer frase mal construída que ele emitia. Sem falar no seu grito estridente: “Capitão Caveeernaaaaa!!”. Um verdadeiro super-homem da idade da pedra.

Tudo bem que sua história é clichê, pois ficou congelado durante eras e acordou no século 20, despertado por Brenda, Kelly e Sabrina, “As panterinhas”. Mas ele formou uma parceria infalível com essas meninas, solucionou mistérios e combateu o mal por toda a minha infância. Com certeza, o Capitão Caverna era, com toda a sua patetice, o meu super- herói favorito. Bons tempos aqueles. É isso.

Elton Tavares

*Texto do livro “Crônicas De Rocha – Sobre Bênçãos e Canalhices Diárias”, de minha autoria, lançado em setembro de 2020.

Ninguém lê! – Crônica de Lulih Rojanski

Crônica de Lulih Rojanski

O que você está lendo? Qual foi o último livro que leu? Onde está o último livro que comprou? Quando o comprou? Onde está o último livro de cujo lançamento participou? Na estante, intacto, ignorado? Eu sinto muito por tudo isso. Honestamente, sinto muito, porque conheço as verdadeiras respostas a estas perguntas, por mais que nas redes sociais a maioria prefira dizer orgulhosa que está atolada em leituras, que tem dormido com Honoré de Balzac debaixo do travesseiro, que gastou em livros boa parte do décimo terceiro salário, que não vive sem Fernando Pessoa… Livros estão ficando no tempo do era uma vez. Editoras estão fechando as portas. Editores estão negociando selos com distribuidoras de literatura vendável e meia-boca. Escritores estão morrendo de desilusão com a cara enfiada na poeira de velhos livros, em arcaicas bibliotecas.

O grande leitor está morrendo. Ele sabe que só é importante para uma geração que está se extinguindo, vagando espaço para os grandes leitores de palavras abreviadas e emoticons sorridentes. Poesia é uma coisa de que o grande leitor de agora ouviu falar mas não sabe exatamente o que significa, como funciona, em que botão se aperta. Conto e crônica são coisas que um professor mencionou, mas ele não se lembra se foi na aula de geografia ou no último filme que baixou no computador. Ele pensa que romance é apenas uma anacrônica história de amor, mais desusada que um rádio de pilhas.

Estou contrariada. Não pertenço a este tempo em que redes sociais influenciam mentes mais do que os livros…

Eu não me preocupo com quem vai se ofender com o que digo. Os ofendidos estão de carapuça. Os que não estão compartilham da minha dor.

Hoje é o Dia Mundial de Star Wars – Que a Força esteja conosco! #MayThe4thBeWithYou

Hoje, 4 de maio, é o Dia mundial de Star Wars! A data foi escolhida devido a um trocadilho com a célebre expressão “May the Force be with you”. May (maio) the Fourth (dia 4) be with you.

A primeira alusão ao termo “May the 4th” aconteceu em maio de 1979 quando o partido conservador parabenizou a eleição de Margaret Thatcher como a primeira mulher ministra da Inglaterra, com um anúncio no jornal The London Evening News que dizia: “May the Fourth Be with You, Maggie. Congratulations.”

Durante uma entrevista em 2005, para o canal N24 de notícias da TV alemã, pediram ao criador de Star Wars, George Lucas, que ele falasse a famosa frase “Que a Força esteja com você.”

O intérprete simultaneamente interpretou a frase em alemão como Am 4. Mai sind wir bei Ihnen (“We shall be with you on May 4”, em português, “Vamos estar com você em 4 de maio”). Isso foi captado pela TV Total e foi ao ar em 18 de maio de 2005. [Wikipédia]

Em 2011, a primeira celebração organizada do Dia de Star Wars aconteceu em Toronto, Ontário, Canadá no Cinema Subterrâneo de Toronto.

As festividades incluíram um Game Show de Trivia sobre a Trilogia Original; um concurso de fantasias com os júri composto por celebridades; e a exibição em tela grande dos melhores filmes, mash-ups, paródias, e remixes da web. A segunda edição anual aconteceu na sexta-feira, 4 maio de 2012.

De fato, é uma data em que a Força está presente nos fãs de Star Wars. Neste dia costuma-se rever os filmes, falar as frases mais famosas dos personagens, ou cantarolar Imperial March.

Coisas simples, mas que fazem o 4 de maio uma data memorável para todos os fãs, pois são mais de 40 anos de fascínio pela série de filmes fantásticos. Eu sempre fui fascinado pelo fictício universo dessa saga. E que a Força esteja conosco!

Elton Tavares

NEM LÍNGUA DE CACHORRO AJUNTA – Crônica de Fernando Canto (sobre a força destrutiva da fofoca)

Crônica de Fernando Canto (sobre a força destrutiva da fofoca)

As más línguas, quando querem, destroem qualquer situação, pessoa ou relação aparentemente estável. Já vi coisas se transformarem da noite para o dia em verdade absoluta, bastando para isso uma pequena interrogação irônica ou uma afirmação leviana, por um balançar de cabeça de pessoas consideradas sérias.

Em muitas dessas situações inventadas está escondida a verdadeira intenção do difamador, que lança seus “diabinhos” e deixa que eles corram como rastilho aceso em direção à banana de dinamite. Daí, os pedaços voam e se esmiúçam cada vez mais na cabeça dos ingênuos que se convencem dos fatos e espalham a falsa notícia, para a satisfação do interessado. A estratégia do caluniador conta sempre com o apoio das “rádios cipós” que se ancoram pelos corredores das repartições públicas, pelas esquinas e bares. Elas são fontes secundárias de informações pelo princípio empírico e popular de que “onde há fumaça há fogo”, e, aliás, aproveitada com muita competência por apressados comunicadores locais, nem um pouco interessados em checarem a “notícia” plantada.

Muitas vezes, e sem querer, somos atores nesse processo, que é da natureza humana, uma vez que vivemos em grupo, nos comunicamos por diversos meios e temos interesses comuns e particulares. Temos desejos e conflitos políticos e portamos uma conduta psicológica calcada em personalidades próprias e bem diferentes uma das outras. Talvez por isso nem nos damos conta que ao recebermos uma mensagem, seja de onde e de quem vier, nos tornamos personagens que vão beneficiar ou maltratar alguém ou alguma coisa.

Os políticos, de modo geral, se valem desses expedientes quando querem salvaguardar seus interesses, mormente na hora que os argumentos se esgotam. Já descrevi aqui neste espaço invenções articuladas com o propósito de inverter o jogo das eleições. Lembro que ouvi pessoas sérias afirmarem ter visto o marido de certa candidata a prefeita sangrando no Pronto Socorro, por causa de um tiro dado pelo irmão do candidato que venceria as eleições. Lembro ainda que em outra eleição deu no rádio que o candidato mais velho a prefeito da capital havia falecido. O boato crescera tão rápido logo pela manhã que um batalhão de repórteres saíra à cata do suposto morto. Quando ele se manifestou nas rádios já era tarde. Seus eleitores não queriam “perder o voto” e já haviam votado em outros candidatos. Esses são apenas pequenos episódios que envolvem boatos e fofocas no meio político, onde um criativo mundo se articula diariamente em permanente conflito na busca da estabilidade e poderes.

A calúnia, a difamação e a injúria são crimes previstos em lei. São palavras diferentes para ações legais muito semelhantes que tiram o sono dos “bocudos” quando têm de pagar indenizações na justiça a alguém a quem ofenderam moralmente de forma leviana e irresponsável. São elementos do controle social necessários à estabilidade da sociedade, dada à variabilidade e às diferenças das influências ambientes.

Nosso comportamento é motivado pelas necessidades psicológicas herdadas e pelos anseios sociais adquiridos. Somos induzidos a agir por isso e conforme nossas necessidades, ambições e interesses de ordem pessoal. Daí, também, advém os desvios de conduta, os excessos temperamentais e a ausência de educação e controle que fazem as pessoas disseminarem suas opiniões ofensivas à dignidade de alguém. A Lei serve para controlar e punir esses crimes. Mas, uma vez feito o estrago, difícil é a reparação. Segundo o seu Jurandir, do Bailique: “Depois que o caldo cai no chão nem língua de cachorro ajunta”.

* Crônica de novembro de 2007 e publicada no livro Adoradores do Sol, de 2010.

Da série Crônicas do Fim do Mundo: “Sobre os dogs e os outros humanos” – Por Manoel Duvale

Por Manoel Duvale

Tua vida vale um osso roído, quando você é um dog de rua.

Nada é fácil. O que salva é a sensação de liberdade, de ser bicho solto como naqueles filmes de motos grandes e estradas infinitas.

Sonho de dog leso, zarolhado com o girar da roda das bicicletas, pois já não se garante correr atrás das motos que carregam a liberdade.

E dog de rua é o que mais tem por estes tempos em marcha pela cidade, seguindo o nariz atrás de comida.

Livres, mas com todos os ônus que a vida de bicho solto cobra. Uma matilha de solitários, cuja vida vale um osso roído.

Mais do que seres livres, os dogs são abandonados. Os que nasceram nas ruas, vagam de boa, abicorando um petisco de boa, sonhando com a picanha maturada de boa, uma bola pra brincar de boa.

Pero os perros têm o ímpeto dos guerrilheiros. Marcham silenciosamente focados em manter um horizonte a seguir. Um caos sem dono, assim se parecem as matilhas que sobem e descem as ruas da cidade, ameaçando carros, motos e bicicletas. Mas parecem um bando de quixotes a lutar contra os moinhos do abandono.

Nas lutas pela vida, o dog de rua vai ganhando suas cicatrizes. A do abandono é a mais sofrida. Um Nego Matapacos travando suas lutas solitárias contra o sistema que tritura as gentes e pets. Ele anda sozinho, a matilha não o aceita.

Mas o dog de rua é um forte e segue na sua batalha corriqueira atrás do que comer, uma água fresca debaixo de uma árvore bem barriguda, as que dão as melhores sombras.

O melhor amigo do homem. Mas nem sempre o homem é amigo a ponto de sacar que cachorro também é da família. Não se abandona.

Publicitária Bruna Cereja gira a roda da vida. Feliz aniversário, amor! – @tiktokcica

Sempre digo aqui que gosto de parabenizar neste site as pessoas por quem nutro amor ou amizade. Afinal, sou melhor com letras do que com declarações faladas. Acredito que manifestações públicas de afeto são importantes. É 2 de maio de novo e, graças a Deus, Bruna Cereja gira a roda da vida mais uma vez. Tenho a sorte e honra dela ser a minha linda namorada/esposa/companheira de jornada, entre outras tantas coisas porretas que essa mulher é. Sim, ela é o meu amor e por isso, lhe rendo homenagens.

Bruna é, além de publicitária, designer, webdesigner, editora de vídeo, fotógrafa, consultora em Marketing e, para mim e muitos que conhecem seu trabalho, a melhor nessa área. Cereja é super inteligente, competente, talentosa, empenhada, determinada, impetuosa, corajosa, audaciosa, e PHODA em tudo que se propõe a fazer. Ela já foi minha colega de trampo em um passado recente e posso confirmar sua expertise em publicidade com propriedade. A menina é genial.

Conheci a Bruna há 13 anos, quando trabalhamos juntos na comunicação do Governo do Amapá. Depois se tornou amiga. E, depois de tantos desencontros, começamos a namorar em julho de 2022, após mais de uma década de amizade, quando o “Feitiço de Áquila” foi quebrado. Afinal, ”O acaso tem voto decisivo na assembleia dos acontecimentos” (Machado de Assis, em Esaú e Jacó).

“A gente vive junto e a gente se dá bem…”. Isso é verdade. São poucas as vezes que não estamos grudados. Somente no horário de trampo mesmo, pois fora do local onde labuto ou a agência da Bruna (escritório), quando um se move ou outro tá lá colado. O que importa é que estamos felizes. Aprendemos cotidianamente esse lance de dividir a vida. Com ela nada é menos, é sempre mais. Seja amor, admiração ou respeito.

Furamos as previsões dos jogadores de búzios, cartomantes e os Nostradamus (secadores) de plantão da (dú)Vida, que pensavam que a gente não ia durar juntos. Tá certo que às vezes a gente até faz desse namoro um drama novelesco, mas passa logo (risos).

Ah, a passagem do tempo não afetou a minha Cereja. Ela escandaliza na elegância, na chiqueza, no charme e na beleza que lhe é peculiar Bruna segue linda, com seus trinta e alguns maios.

Amo as pequenas coisas, como ir ao supermercado, farmácia, shopping ou qualquer lugar do cotidiano com essa mulher fantástica. Amo quando ela ri (o som é engraçado e gostoso), amo quando ela canta, pois sua voz é firme. Amo quando ela faz caretas legais depois de falar alguma merda engraçada. Amo o lance de ela me mostrar besteiras cômicas na internet. Amo quando ela cuida de mim. E cuido dela também, que fique registrado!

Trata-se de uma filha e sobrinha prestativa, uma boa amiga, uma pessoa que respeita as outras pessoas. Ela exercita boas ações como poucos que conheço. Cereja também é atenciosa com minha mãe, com meu padrasto, com minha tia e com todos que ela nutre afeto. Ah, é a tia perfeita da Maitêzinha, nossa sobrinha que é louca pela Bruna.

Sou a pessoa que mais elogia a Cereja. Seja como profissional ou a linda pessoa que ele é. Também sou o que mais torce pelo sucesso dessa mulher. Por tudo dito e escrito, desejo sempre o melhor para a minha pessoa.

Bruna é a mais completa tradução do que eu sempre quis em uma mulher. E como disse Nelson Motta: “o amor é a primeira coisa. É o começo do resto”. É isso!


Cereja, que teu novo ciclo seja ainda mais feliz, produtivo e iluminado. Que sigas (e que seja comigo, rs) pisando firme e de cabeça erguida em busca dos teus objetivos e que tudo que couber no seu conceito de sucesso se realize. Que a Força sempre esteja contigo. E que tua vida seja longa, repleta de momentos porretas. Amo-te, Bruna. Parabéns pelo seu dia. Feliz aniversário!

Elton Tavares

PERTO DA COBAL, O ABREU – Crônica de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

– “Perto da Cobal”. Era a indicação, código, informação, referência. Assim a gente se comunicava naquela época, no início dos anos 80, para se encontrar e bater um bom papo nos finais de tarde do gostoso bairro do Laguinho, atrás da sede dos escoteiros. O bar do Abreu ficava na esquina da Odilardo Silva com a Ernestino Borges.

Creio que o Zé Ronaldo nem imaginava a importância que tinha o bar, naquele momento gerenciado só por ele, terminada a sociedade Rodrigo & Ronaldo na antiga lanchonete e açougue RR. Rodrigo foi para o Pacoval e Ronaldo ficou no Laguinho ajudado pelo seu dentuço irmão, um adolescente muito legal chamado Marquinhos.

Pode-se dizer que o bar tinha um “chama”, que atraía boêmios, artistas e intelectuais, políticos e malandros, como qualquer bom bar. Era uma espécie de casa da mãe, útero, boate, palco e tribuna. Algo meio surrealista: enquanto o Hélio lançava o seu livro os fregueses das redondezas compravam cupim ou alcatra entre um pronunciamento emocionado do Pedro Silveira e um riso tímido do Alcy. E assim escutavam o Grupo Pilão e os toques mágicos das violas do Nonato e do Sebastião.

Foto: Blog Direto da Redação

Bêbados contumazes, como dizem os jornalistas, costumavam encher o saco dos fregueses contumazes e comportados, acostumados a beberem após as 11 horas de sábado. Vinham do Jussarão, dum tal bar de chorinho do Noé (quando ele ainda era boêmio), duma tal Dama de Macapá e de outros bares com nome de Quebra-Mar ou coisa que valesse. E falavam, e exigiam bebidas, e vomitavam e dormiam. Só a paciência do Ronaldo era a mesma de Jó. Um guardanapo de pano atravessado no ombro, um sorriso e o gesto de limpar a mesa amainavam as tentativas de exasperação de fregueses chatos, e principalmente daqueles que adoravam se exibir falando inglês mas espalhavam perdigoto.

O bar era sério como qualquer bar sério. Porém só veio a ter o nome atual quando um velhinho simpático e meio atrapalhado, pai do Ronaldo e do Marquinhos ficou por trás do balcão, dando descanso aos dois. Era o seu Abreu, que logo se tornou amigo de todos. Dos homens e das mulheres, dos bêbados e dos inconformados, dos santos e dos capetas. Um homem que muitas vezes era importunado às quatro horas da manhã por alcoólatras para a primeira dose do dia, mas que fazia da sua profissão de dono de bar um sacerdócio, como dizem os assistentes sociais e os políticos agnósticos.

Caricatura do artista plástico Wagner Ribeiro

E como todos sabem o bar do Abreu era um bar itinerante, como diziam os advogados e os vagabundos líricos. Já rodou meio mundo macapaense, fazendo histórias e presenciando casos de amor e de morte, juntando paixões e separando olhares, refazendo vidas e acompanhando vitórias e derrotas de times e de jogadores. Viu amores entre militares e garçonetes, entre pintores e enfermeiras, observou transeuntes eventualmente entrando no bar para matar sua sede ou engolir uma moela guisada, antiga especialidade da casa.

Depois de mudar de lugar o bar tinha nas paredes televisores enormes; quadros impressionantemente horríveis, como diria o esteta, e uns fregueses que achavam bonito tudo o que o Bolachinha imitava nas madrugadas em que se refugiava para não imitar a si próprio.

Este era o bar do Abreu que conheci desde sua inauguração em 1981. Um bar feito com categoria e estilo que proporcionava união, contradição e o ato de beliscar a lua, montado no sonho dos fregueses, ouvindo “a música das moedas deslizando nas máquinas caça-níqueis do Eduardo”, como poderia dizer o Max Darlindo cantando um samba bem alegre. Um local onde o freguês tinha o rei na barriga e o imperador na boca, onde quem bebia sem brindar ficava três anos sem transar, onde quem brindava sem beber ficava três anos também sem. Onde um “murmúrio ofegante” do celular do Bira Burro era escutado a 100 metros de distância. “Ali há uma ilusão para continuar jogando”, dizia o Tavares ao observar o prefeito atravessando a rua para “tomar uma” no bar.

O rodízio citadino do bar do Abreu infelizmente cansou, ficou sem fôlego na pandemia e fechou suas portas. Mas bar é um fênix. Certamente um dia volta com outro estilo. E o velho balcão de inúmeras conversas e grandes alegrias estará lá como imã atraindo os velhos fregueses.

– “Égua”! Eu exclamo agora ao lembrar que o “perto da Cobal” confunde e troca o espaço pelo tempo em quase 40 anos que o mundo rodou dentro e fora de mim, para que pusesse referência nos passos que dei pela vida e nas construções que a lida diária, as reflexões e os bons amigos me proporcionaram realizar.

A foto do comandante Guerreiro – Crônica de Fernando Canto

Foto: Arquivo pessoal de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

Contemplo a foto aérea tirada no ano de 1948 pelo comandante Guerreiro, piloto e instrutor de vôo do Aeroclube de Macapá, e gentilmente cedida pelo também piloto Paulinho Lopes.

Lá embaixo, depois do retilíneo trapiche Eliezer Levy, está a velha fortaleza de São José, encravada sobre a terra bruta, além das falésias de granito que a separam do grandioso rio. Ao lado dela a praia de areia branca, um dos pouquíssimos lugares da cidade privilegiados com a bela paisagem natural do Amazonas, junto ao Araxá, a vacaria e o Aturiá, que também se espraiam no horizonte. Árvores circundam a estrela de cinco pontas concebida por Gallucio e abrigam um lugar ainda sem o círculo militar, construído 20 anos depois.

A cidade parece puxá-la de dentro do rio, procurando trazê-la para mais perto do coração, mas ela resiste: é o próprio coração da cidade a pulsar ofegante em sua pujante trajetória de amor e de proteção a esta terra. A preamar mostra que ela se situa em uma península dividindo a orla em duas pequenas baías e não há dúvida que abarca o sonho territorial de mais de dez mil almas ávidas de progresso e bem estar, contidos nos inflamados discursos janaristas da “Mística do Amapá”. É ela o único vínculo que temos com o passado. É o legado arquitetônico que simboliza o desenvolvimento da cidade, apesar da igreja de São José ser mais antiga. Único elo, enfatizo, posto que gerações anteriores se omitiram da necessidade de preservar nossa memória e nossas referências dentro da cidade. Posto que por muito tempo ela quase era engolida pelo mato e um dia foi até curral de bois num tempo de degredos e segredos revelados pelos entes do rio-mar.

A frente da cidade jaz, ali, gravada na fotografia do comandante Guerreiro e até o rio é uma massa estática sob um trapiche sem embarcações observado pela pedra do Guindaste, antes de ser quebrada e abrigar o santo protetor. O velho Macapá Hotel espera imponente novos rostos que se aproximam à procura de trabalho e exibe orgulhoso o seu recente corpo construído para receber os visitantes. À sua direita o estaleiro emite os barulhos do calafetar os barcos que partirão para suprir novas necessidades. Casas se escondem sob as árvores frutíferas em bairros ainda desabitados e a asa do avião do comandante plana em vôo sobre a cidade que cresceria sob a égide do sol e a energia que brota diariamente entre a água e a luz.

*Crônica escrita em 2009. 

Uma casa coberta de flores – Crônica de Alcinéa Cavalcante – @alcinea

Foto: Alcinéa Cavalcante

Crônica de Alcinéa Cavalcante

Gosto de andar pela cidade prestando atenção na paisagem. Nessas caminhadas encontro de tudo: coisas feias, bonitas, diferentes, únicas, uma flor despetalada na calçada, um jardim, lixo amontoado na frente de alguns prédios, calçadas sujas e outras limpas, casas de ar alegre, outras de ar triste e ainda outras que dão a impressão de que ali mora o mau humor e aquelas onde a gente tem certeza que mora a felicidade.

Na tarde de sábado, andando pelo bairro do Trem, deparei-me com esta casa coberta de flores. Fiquei encantada com tanta beleza. Poderia simplesmente ter parado do outro lado da rua, fotografado pra compartilhar com você e ir embora.

Mas não. Eu não ia perder a oportunidade de conhecer alguém que mora numa casa coberta de flores. “As pessoas que moram aí devem ser lindas, amorosas e de sentimentos belos”, pensei. E como é bom conhecer, ouvir, conversar com gente assim.

Bati palmas. Uma senhora com um largo sorriso me atendeu. Disse-lhe que achei tão linda a casa coberta de flores que queria a permissão para fotografar. Permissão concedida, fotografei.

Dona Floriza – é este o nome dela (e que nome combinaria mais com ela?) – convidou-me para o pátio cercado de plantas e passarinhos. E ali, em confortáveis cadeiras brancas de vime, conversamos sobre flores, frutas, pássaros, amor, natureza e Deus. “Sou feliz e minha casa é protegida, não preciso colocar grades nas janelas e portas porque Deus está aqui para nos proteger. Deus está onde tem flores, onde tem natureza”, disse-me. “Você já prestou atenção que pessoas que cultivam plantas são mais felizes, mais gentis e nunca estão de mau humor?”, perguntou-me.

Sim, dona Floriza. É isso mesmo. Afinal, quem ama o belo tem sentimentos belos. Né não? Trocamos informações sobre espécies de roseiras, falamos de hortas caseiras. Ela me contou dos pássaros que visitam seu jardim, eu contei dos passarinhos que moram no meu quintal.

Não demorou muito já nos sentíamos como velhas amigas que se visitam nas tardes de sábado. Floriza me levou para ver as rosas que cultiva no quintal.

Foto: Alcinéa Cavalcante

Depois, como velhas amigas, sentamos na cozinha (sempre ouvi dizer que só se leva para a cozinha da casa as pessoas mais íntimas) e comemos bolo e tomamos suco. O bolo, delicioso por sinal, ali em cima da mesa me deu a impressão de que tinha sido feito para aguardar uma visita, o suco de soja geladinho servido num copo de vidro tão límpido, delicado e com a borda dourada, foi um dos mais gostosos que já tomei nos últimos tempos.

E ali, na cozinha, comendo bolo e tomando suco, como velhas amigas de infância, conversamos sobre a vida, filhos, trabalho e tantas outras coisas que só grandes amigas conversam.

Saí de lá bem mais feliz de que quando cheguei e com a certeza de que voltarei outras vezes. Até já combinamos um churrasco num sítio que Floriza tem na zona norte com um imenso pomar. “Nós somos desocupadas (aposentadas), podemos qualquer hora estar juntas pra conversar”, diz ela. E depois corrige: “Quer dizer, desocupadas não. Não trabalhamos mais, mas nos ocupamos em fazer o bem, cuidar de plantas, levar alegria para as pessoas e é isso que Deus quer”.

É verdade. Há ocupação mais prazerosa do que essa?

Ao nos despedirmos, ela renova o convite: “Volta sempre pra gente conversar, falar de coisas boas, tomar um café fresquinho…“.

Com toda a convicção eu respondo: “Claro que voltarei, pois amei te conhecer”.

Já na rua, olhei mais uma vez encantada para aquela casa coberta de flores, pedi a Deus que abençoe e proteja sempre Floriza e sua família e agradeci a Ele o privilégio de ganhar naquela tarde de sábado uma “nova velha amiga de infância”.