Boca de lata (crônica de Ronaldo Rodrigues)

Ronaldo Rodrigues

Como no samba do Paulinho da Viola, “Tinha eu 14 anos de idade...”. Pois bem. Tinha eu 14 anos de idade e estudava no colégio Lauro Sodré, em Belém do Pará. Na minha sala, estudava um colega japonês. O que tenho a falar desse colega japonês é que ele era chamado de Boca de Lata. Era o bullying, sem esse nome, praticado sem a vigilância politicamente correta de hoje. Já era chato naquela época. Quem sofreu/sofre bullying sabe. Quem praticou/pratica, nem tanto.

Prosseguindo. O japonês (não vou citar o nome aqui porque seria meio chato e o Maurício Ishihara jamais me perdoaria, mesmo passados tantos anos) tinha o apelido de Boca de Lata por um motivo que hoje seria totalmente descabido: ele usava aparelho nos dentes. E tinha vergonha daquele sorriso envolvido por um monte de grampos. Pouquíssimas pessoas tinham aparelho nos dentes naquela época, só quem era abastado. O japonês era abastado (e um pouco abestado, mas deixa pra lá. Ao contrário das meninas, aos 14 anos os meninos são muito abestados). Naquele tempo, só quem tinha algum defeito dentário muito sério – e família com grana – usava aparelho. O sarro dos colegas era certo.

Como os tempos e os comportamentos mudam! Hoje em dia, aparelho dentário é a coisa mais comum. O incomum é ver algum adolescente sem aparelho. Alguns ficam até deslocados na turma e arranjam uma maneira de exibir um sorriso enlatado, mesmo que tenham a arcada perfeita e todos os dentes no lugar certo. E não são apenas os adolescentes.

Será que o meu colega japonês, personagem desta crônica e da minha vida colegial (fica frio que não vou entregar o teu nome, Maurício!), desconfiou que seria precursor dessa moda que virou mais um símbolo de ostentação, como o carro, o celular e uma porção de coisas que foram criadas para ter utilidade?

E para terminar a crônica, um filme que a turma ficava imaginando: o Maurício (ih! Falei o nome do cara!) namorando a menina mais chata da escola, odiada por ele e por todo o universo estudantil. Na cena que a gente criava para os dois, a menina beijava apaixonadamente o Maurício e ficava com a boca engatada na boca de lata do japonês.

Desculpa, aí, Maurício, mas aquela menina merecia e essa era a única vingança legal que a gente conseguia imaginar.

Nota do autor: o primeiro nome do japonês é Maurício mesmo, mas o segundo nome (Ishihara) é fictício, já que não lembro do nome verdadeiro. O final, a história do filme, também é de mentirinha. Eu precisava terminar esta crônica com um toque de humor, né?

Balanço de fim de ano (por Ronaldo Rodrigues)

Ronaldo Rodrigues

Balancei como os países que sofrem terremoto, maremoto, tsunami. Mas continuo firme, às vezes bêbado, às vezes equilibrista.

Se cheguei ao fim do ano é porque o ano foi legal comigo. Também não dei muito trabalho. Só aos bombeiros, por causa do incêndio que causei com minha mania de dormir fumando.

Fui ausência marcante nos grandes shows. Nos de Madonna e Paul McCartney, não estive na primeira fila. O show do Stevie Wonder não vi. Nem ele.

Também estive fora das Olimpíadas. Lá em casa, na galeria dos troféus, uma medalha de barro brilha em seu estado opaco, me colocando no podium da minha olímpica nulidade. 

Como o mar não estava pra peixe, deixei a barba crescer pra colocar a barba de molho. É uma piada infame, mas a estas alturas até que cola. Na verdade, deixei a barba crescer para infundir respeito. Pela tiração de onda que enfrento todo dia, parece que não deu muito certo. Talvez eu aceite o papel de Cristo na próxima semana santa. Afinal de contas, as porradas já estou levando há muito tempo.

Ponto positivo do ano que agora finda: provocado pelo amigo Elton Tavares, piloto deste superacessado blog, voltei a escrever crônicas. Obrigado pelo gás e pelo espaço, Elton. Espero que, com minha colaboração, teu blog não passe de acessado a processado (rsrsrsr).

O Capitão Açaí deixou a preguiça de lado e foi à luta, lá à maneira dele. Em 2013, o sub-herói do terceiro mundo vai encarar, finalmente, sua missão número 1: tirar o cartunista Ronaldo Rony da linha da pobreza.

O coletivo de quadrinhos do qual sou o decano levantou voo. A revista Mixtureba Comix enfrenta algumas crises editoriais, mas prossegue impávida. No começo de 2013, vai rolar o Segundo Encontro de Histórias em Quadrinhos do Amapá. Agora não tem kriptonita que faça essa galera perder a força.


Com a idade avançando, a barriga ganhando cada vez mais espaço, a gente vai começando a pensar no tempo. Fica pensando em mudar algumas atitudes. O problema é justamente esse. Geralmente só se faz pensar. Agir, que é bom, mas quando…

No dia 17 de janeiro do ano que entra (ui!), estarei completando 47 bisonhas primaveras. Nada mal pra quem achou que ia morrer aos 30. Não tive coragem ou covardia suficiente para me matar aos 20. Devo confessar que acho suicídio um ato podre de chique.

Apesar dos muitos percalços, tive algumas vitórias nesse tempo que até agora me foi dado para exercer minha falta de habilidade em lidar com a existência. Perdoei aqueles que praticaram bullying comigo na infância. Só não deixo eles saberem, senão vão me encher de porrada de novo.

O mundo não acabou e já estou me conformando com isso. Esse negócio de fim do mundo deve ser promessa de campanha. Nunca rola e quando rolar vai ser meia-boca, com certeza.
Então é isso. Ou não é nada disso. Adeus, ano velho! Feliz, ano novo! e tal. 

A VERDADE SOBRE O CALENDÁRIO MAIA (crônica de Ronaldo Rodrigues)


Este é um ano especial. É o momento de passar a régua e pedir a conta da bebedeira. É hora de a onça beber água poluída. É hora de se saber com quantos paus se faz uma canoa furada. De se fazer o balanço final do planeta e ver quem vai cair primeiro, o ovo ou a galinha.

O fim do mundo é um evento anunciado desde que o mundo é mundo. Desde que a serpente virou Cupido e fez Eva comer a maçã e Adão comer Eva. Esse acontecimento inaugurou o fim, foi o pontapé inicial de uma partida de futebol que já extrapolou o tempo regulamentar. Agora a humanidade está na marca do pênalti e os batedores estão a postos. Resta saber quem vai ficar no gol.

Segundo a Bíblia, o fim do mundo já ocorreu, através de um aguaceiro sem precedentes, o famoso dilúvio. Mas, em sua infinita sabedoria, Deus fez com que Noé escapasse para perpetuar a espécie. E as pessoas que não quiseram embarcar na arca ficaram, literalmente, a ver navios.

Anunciado o fim do mundo para a virada do ano 999 para o ano 1000, a humanidade de então ficou na espera, deixou de trabalhar, entrou num período de férias coletivas, aguardando o fim. Frustrando as previsões das Mães Dinahs da época, o lance não rolou. Paciência. A galera voltou ao trabalho, esperando novas oportunidades.

A chegada do ano 2000 seria o fim. Também furaram as previsões dos jogadores de búzios, as cartomantes e os Nostradamus de plantão do Fantástico, o Show da (dú)Vida. Agora é o tal Calendário Maia que assinalou a data do fim do mundo para o dia 21 de dezembro de 2012 e está causando a maior confusão, rendendo discussões nas redes sociais e argumentos para filmes e minisséries.

Entre as muitas controvérsias que o tema inspira, resolvi dar a minha contribuição e esclarecer de uma vez por todas, tim-tim por tim-tim, o mistério do Calendário Maia. A verdade é esta:

O cantor Tim Maia, chegando ao outro lado da vida, encontrou uma monotonia tremenda. Para movimentar a pasmaceira do paraíso, o nosso talentoso gordinho não perdeu tempo e armou essa pegadinha para deixar a galera doida. Aproveitando um cochilo do Todo (Todo é a maneira carinhosa com que me refiro ao Todo-Poderoso), entrou no gabinete celestial e mexeu nos papéis do velho. Inverteu a ordem dos fatos, revirou os grandes enigmas, misturou os mitos. Fez uma confusão dos diabos (com o perdão da palavra), inventou esse calendário e o colocou entre as ruínas do império maia. 


O resultado é isso que estamos vivendo agora: expectativa e dúvida sobre o Calendário Maia, sobre a possibilidade de o planeta levar o farelo.

Portanto, como acabei de mostrar, o Calendário Maia tem, sim, autenticidade, mas como uma brincadeira, uma armação. Trata-se do Calendário do Tim Maia, tão louco quanto ele, que está se divertindo lá nas alturas.

Ronaldo Rodrigues

NO AVIÃO PARA BELÉM


Estou a bordo do avião, indo para Belém. Nessa ocasião, sempre trago papel e caneta para anotar as impressões de viagem. Pois cá estão:

– O nome do comandante: Alexandre Braille. Claro que minha imaginação não perderia a chance de ver um piloto cego, tateando os controles.

– Sinto um sacolejar leve no avião. Turbulência, normal. Mas vejo que o avião ainda não decolou. Aí é preocupante.

– Zona de turbulência: uma aeromoça linda acaba de invadir meu espaço aéreo.

– As aeromoças, que hoje são chamadas de comissárias de bordo (perdeu a poesia), passam para lá e para cá, esbanjando aquela sensualidade indiferente à libido dos passageiros. Minha fantasia: me trancar no banheiro com uma dessas aeromoças e cair nas nuvens.

– Viajar de avião me faz descobrir superstições que ficam por muitos anos guardadas e só aparecem neste momento. Exemplo: descruzar as pernas quando o avião está decolando. Nesses momentos é preciso contar com todas as forças.

– Belém fica a pouco tempo de Macapá. Viagem curta. Não dá tempo nem de sentir medo.

– E lá vêm as instruções de como proceder em caso de acidente. Que acidente? Eu nem estava pensando em acidente! Socoooooooorro! 

– Hora do lanche: peço coca-cola, mas, bem enfaticamente, peço que não se coloque gelo. A coca-cola sem gelo diminui o poder devastador do meu arroto. Meu arroto, em sua potência máxima, seria prejudicial à pressurização do avião.

– Viajar de avião, um objeto mais pesado que o ar. Vejo as caras dos passageiros simulando tranquilidade e penso na banalidade do absurdo, a simplicidade de correr o risco. Sei lá.

Consegui pousar em paz. A distância de Macapá a Belém parece diminuir cada vez mais. Estou em Santa Maria das Mangueiras. Marambaia me espera. Cuité, Buscapé, Mauro Vaz, Universidade, Praça da República, Theatro da Paz, estou aqui. Vamos à farra. Em breve, mando outro relato. Boas férias pra mim.

Ronaldo Rodrigues

Sei que se movia

Por Ronaldo Rodrigues

Sei que se movia numa região pantanosa.

Entre a muralha do castelo da realidade e seu coração, havia uma ponte elevadiça há séculos emperrada.

Setenta anos se passaram sem notícias dele. A cidade não dormia. Ele tinha levado não só o sonho, mas o sono de toda a gente. E somente aos domingos, embaixo da árvore da dúvida, era permitido falar nisso.

Sua família amealhou posses. Seus irmãos enriquecidos ostentavam poses. E sua amada chorava entre a espada cega da verdade e a colcha de retalhos de tristeza que tecia na beira do cais desde que ele sumiu no mundo, submundo, imundo, mundano. Sua casa foi comida pela hera. Era após era. Após hora.

Quando ele retornou, numa quarta-feira de cinzas, comandando a nau do esquecimento, sua barba o escondeu tão bem que nem seu cachorro Madrugada, grande devorador de sábados, o reconheceu. E seu irmão gêmeo jurou nunca ter visto aquele rosto.

Quando ele pousou o pé descalço sangrando gotas de azul e pisou o território selvagem de sua infância, a sombra da torre da igreja, muito antiga e já desprovida de sinos, soou do meio-dia às seis da tarde. O pássaro do dia, que há muito não voava pelo firmamento da imaginação, abriu suas asas e fez o silêncio despertar as nuvens, que partiram céleres levando uma notícia muito boa para um país muito longe.

No outono, veio a revelação. Quando sua barba caiu por completo, seu melhor amigo de infância, que se tornara próspero comerciante, lhe cobrou aquela dívida de jogo, motivo de sua fuga.

Então, a cidade inteira o reconheceu, o cercou junto ao poço da solidão e passou a devorá-lo como antigamente. Só as árvores o reverenciaram, tangendo no deserto da noite um rebanho de estrelas cadentes.

Palavras, palavras, palavras…


Pouco me interesso pelo real. Somente os sonhos e os delírios me deixam em estado de alerta. Ou letargia total, sei lá! Agora, por exemplo, não sei se é sonho: o momento em que pouso o copo de uísque barato na mesa barata do boteco barato e tento continuar escrevendo estas linhas toscas, que ninguém lerá. 

O sonho em que pareço mergulhado nem sempre me dá prazer. Prazer é artigo de luxo. A TV mostra bombardeios horrendos narrados por repórteres em modelitos impecáveis. Os comentários das pessoas ao lado me desagradam profundamente. São opiniões equivocadas, que revelam o nível precário de consciência em que o ser humano chegou neste princípio de milênio. Penso em Caetano Veloso. Ele tem razão quando fala de uma nova Idade Média situada no futuro.

Posso pensar que a amargura dos ultrarromânticos escreveu belas páginas da literatura mundial. Em verdade, posso pensar qualquer coisa. E, quando estou de posse de uma caneta e um pedaço de papel, esse poder se transforma em palavras que revelam poder nenhum. A não ser uma sensação de aniquilamento. Mas prosseguiremos. Prosseguiremos?

Não há motivo aparente para desespero. E o desespero não existe realmente. Mas se existe no delírio, e é o delírio que me interessa, o desespero passa, então, a existir. Eu coloco uma distância entre o desespero que há e o sofrimento que ele pode causar. É como se eu fosse apenas o cinegrafista do filme que é minha vida. Um observador desatento, mas privilegiado, das coisas que acontecem comigo e que alguém, sentado na poltrona do cinema, pode dizer: “Ei! essa é a vida de alguém!”.

Um trabalhador que pega no batente às sete da manhã, o que o obriga a acordar às cinco, dirá: “Frescura! Na minha terra, homem que é homem não tem tempo ou disposição para questões que esse cara acha que abriga no peito, na cabeça”. É verdade. O tempo disso já passou. A adolescência não voltará para me redimir, me colocar nos eixos. Hoje, adulto, eu deveria saber que não há eixo algum. Há somente uma tentativa, por muitas vezes frustrada, de consciência. Saber-se na escuridão, tentando manter os olhos abertos.

Ronaldo Rodrigues

NARIZ (Ronaldo Rodrigues)

Por Ronaldo Rodrigues

Meu nariz cansou de mim. Diz que não sou digno dele. E propõe que nos separemos. Que eu fique com os olhos, que não aceitaram a proposta de ir embora. Que eu fique com a perna, com o pé. Que eu não conte com o dedão, que deve fugir na primeira bobeada. Uma topada serve.

Mas o que é isso? Meu nariz acaba de dizer, na minha cara, que vai embora e ainda instiga a debandada de todos os meus órgãos!

Segurei os óculos imediatamente. Temi que a orelha, dando ouvidos ao nariz, se evadisse, levando os óculos pra, sei lá, ter uma companhia, no mínimo.

Eu estava de mãos atadas com aquela situação e espero não vê-las dando aceno de despedida e se juntando ao nariz naquela tresloucada deserção.

Como vou negociar com meu nariz se tenho apenas 16 anos, não tenho a chave de casa, ainda não ganho o meu sustento?

Como vocês podem ver, eu não sou dono do meu nariz.

O DIA DA TRAVESSIA

Por Ronaldo Rodrigues

O canal se estendia à minha frente. Toda manhã, ao abrir a janela, lá estava ele, num permanente desafio.

Do outro lado do canal ficava a fonte da juventude, bem ao lado do castelo da mulher com mais de 300 anos que, segundo diziam, todo dia bebia da fonte e assim mantinha seus traços de 16 anos. Muitos homens tentavam atravessar o canal para vê-la. A maioria retornava depois de poucas braçadas. A correnteza era muito violenta. Muitos morreram na travessia. Todos os homens da cidade tentavam. E estava chegando a minha vez.

Sempre que se entrava na adolescência era o momento de se tentar a travessia. Antes disso, a vida se resumia em treinar. Meu cachorro Madrugada me acompanhava nos treinamentos e quando me senti preparado para realizar o feito, Madrugada se mostrou muito interessado em ir comigo:

– Você não precisa ir. Deixe que eu trago um pouco da água da fonte da juventude pra você. E à mulher do castelo eu digo que você mandou saudações.

Madrugada não entrou em acordo e, no dia da travessia, lá estava ele ao meu lado, recebendo os cumprimentos e as recomendações de toda a população.

Mergulhamos no canal e percorremos uma grande distância até Madrugada se afastar. Ele tomou a dianteira e eu o perdi de vista. Eu já estava exausto quando cheguei ao outro lado. Andei pela praia, em direção à fonte da juventude e a encontrei seca. Fui ao castelo e percebi que ele era de areia e se desmanchava com o sopro da minha respiração. 

Saí procurando Madrugada e a menina de 300 anos. Só os vi quando olhei para o outro lado do canal, de onde eu havia saído. Lá estavam os dois passeando pela tarde, acenando para mim. Ao retribuir o aceno foi que reparei em minhas mãos se tornando flácidas, a pele e a carne se desmanchando igual ao castelo de areia, igual ao sonho de encontrar a juventude, igual a este conto e a tantas coisas que chegam ao fim.

Texto quase de humor


Com quantos paus se faz uma canoa em Noa Noa? Será que o sol da meia-noite é mais forte que a lua do meio-dia? E a sereia? Seria de cera ou será que anoitecera?

Não sei responder às questões mais simples, dizer aquilo que ninguém sabe, saborear a comida a quilo que ninguém come.

A TV continuará, afinal, transmitindo a final do campeonato em que me mato torcendo pelo time que precisa fazer trinta e cinco gols para levar a decisão pros pênaltis?

Muitas perguntas e nada de dicas tipo vide o verso ou confira na página 44.

Eis que ouço a explosão. São pincéis atômicos explodindo em vários pontos do planeta. E não causam destruição. Pelo contrário. Há Um incêndio também. São corações incendiados de emoção fazendo a cidade arder de paixão.

Ouço o rugir da tempestade, mas calma! Trata-se de flores de várias cores caindo do céu e inundando a cidade.

Peço pausa para pichar o muro da folha de papel pra dizer que perdi o fio da meada, morri no frio da geada, perdi a última moda, fui moeda de troca e não me restou nada.

Voltemos, então, a este texto fora de contexto que soa apenas e a duras penas como pretexto pra minha vontade de escrever.

Lembro dos contos de fadas que minha avó contava. Ela gostava de interferir nas histórias, começando pelos títulos: A Raposa e as Saúvas, A Bela e a Fera Adormecida, João e Mariah Carey, O Grito Falante, Erram os Deuses e os Astronautas, Abominável Mundo Novo e por aí vai.

E o meu universo continuará rolando em prosa, em verso, em setembro, oitembro, novembro, dezembro. Ah! Nemlembro.

Até que, de repente, enfim: FIM!

Ronaldo Rodrigues


Microcontos de Ronaldo Rodrigues (parte II)


MINHA VIDA É UM MAR DE ROSAS
Disse Elvira se afogando mais uma vez.

ONANISMO
(ou está tudo acabado entre nós)
Ao deceparem minhas mãos
dissolveram meu harém.

CAPITÃO GANCHO TAMBÉM AMA
Numa dessas ainda leva Sininho pro navio.

E SE EU ESCALASSE ESSA MONTANHA?
Pensou a aranha pouco antes de aceitar a missão.

AI, MEU FÍGADO…
Você ainda me mata do coração!

QUERIDO DIÁRIO
Vou rasgar-te, queimar-te, perder-te…
Apagar-me.

MEMORANDO DE DEUS PARA LÚCIFER
Considere-se demitido!

ORELHÃO QUEBRADO NO MEIO DA MADRUGADA
– Caraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaalho!

OVERDOSE
Depois do pó
o pós.

BANDA SEM FUTURO
Aqui jazz
(esta teve colaboração de Marconi Lima)

A FLOR
Despetala para despertá-la.

COM A MORTE
– Enfim, sós…

Ronaldo Rodrigues

Microcontos de Ronaldo Rodrigues (parte I)


BUROCRACIA É O FIM

– Vim falar com Deus.
– Tem hora marcada?

MUDARAM AS ESTAÇÕES
No outono, no inverno,
minha prima Vera vira verão.

BLÁ-BLÁ-BLÁ
Quando faltar assunto, fique em silêncio.

CUIDADO – FRÁGIL
Quebrei meus olhos nas plumas do caminho.

BALA PERDIDA NÃO EXISTE
Todo coração tem endereço fixo.

MATOU A SAUDADE
Deu um tiro no peito.

GANGORRA
– Olha como eu toco no chão!
– Olha como eu toco no céu!

BASEADO BLUES
Fumaça colorida no ar de Barcelona.

FOLHA DE PAPEL A ME DESAFIAR
Te risco.
Me arrisco.

NO PAÍS DO CARNAVAL
Na quarta-feira, deparou com as cinzas do pierrô.

PÁSSARO NA GAIOLA
Só a ilusão conseguiu fugir.

ME DEIXASTE!
Me vingo te amando mais.

EM BRANCAS NUVENS
Lá vai a vida assim
sem saber se foi bom ou ruim.

MUDARAM AS ESTAÇÕES
A flor e a folha mudaram de ramo.

Ronaldo Rodrigues

Drops

Um submarino viaja atravessando os esgotos da cidade. Vez em quando, sempre que descobre um bueiro, mete por ele o periscópio e fica olhando cá pra fora. E vê que aqui fora tem muito mais lixo que dentro dos esgotos.

Sem sono/ sem sonho, atravesso a madrugada. Navego no ego, à deriva. Atravesso um oceano de insônia. Navego sem balsa, sem bálsamo, a nado, sem nada no bolso. Sem alcançar horizonte, sem alçar vôo. Amanheço a esmo. Permaneço o mesmo.

Um enfermo, um vampiro, um sábio chinês. Olhando-os rapidamente percebo serem as faces de uma mulher que se recusa envelhecer.

Papai Noel passeia pelas ruas desertas da cidade. Como/onde achar um bar aberto a essa hora da madruga?

Os dedos passeiam pelas cordas do violão. Pelo buraco saltam golfinhos verdes, azuis, brancos, laranjas… e ficam nadando na partitura.


Olhos atentos do cyborg na silhueta de Marilyn.

O balão estoura: bolhas de sabão no ar, cacos de vidro no chão.

A lágrima do olho esquerdo do palhaço cai no centro do picadeiro. Dela nasce uma flor gigantesca de onde saltam peixes e cristais.

Na mais movimentada avenida da metrópole os arranha-céus se movimentam em direção ao iceberg. O naufrágio é inevitável.

Em frente ao computador os dedos pressionam as teclas. As impressões digitais ficam impressas no monitor.

Ronaldo Rodrigues

Uma crônica por dia

Uma crônica por dia. É a tarefa que me impus. E até que tenho dado conta do recado direitinho, devo admitir.

Imagino-me, guardadas as proporções, um desses cronistas com coluna no jornal, que precisa escrever todo dia para garantir o pão, ou a dose de uísque, de cada dia, o cigarro de cada noite.

Tenho me esforçado para atingir esse intento, que não chega a ser uma promessa. É uma intenção, apenas. Talvez nem tenha talento suficiente para manter um número razoável de crônicas com qualidade mínima.

Não tenho a pretensão de me igualar a Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos ou, pobrezinho de mim!, Rubem Braga, mestre supremo desse gênero que transforma fatos corriqueiros em verdadeiros vislumbres de humanidade e poesia.

A crônica é um gênero autossustentável. Explico: podemos escrever sobre o tema que se apresentar e, quando esse tema não surgir, o tema será a própria falta de tema, o assunto será a falta de assunto. Fácil, não? É o que parece. Escrever é sempre difícil. 

Drummond fala, em um de seus poemas, sobre o verso que está na mente e a caneta não consegue escrever. O que torna o ato de escrever tão fascinante é justamente essa característica: não sabermos se aquilo que está escrito em nossa cabeça pode ser escrita no papel, se vamos encontrar a palavra certa, encaixar o termo que pulsa em nosso coração e que nem sempre estará à disposição de nosso intelecto.

Como o Elton Tavares abriu este espaço para mim, vou continuar cometendo as minhas crônicas e enfrentar a fúria dos leões, alguns críticos mordazes que andam (ou rastejam) por aí.

Termino citando o já citado Drummond: “Lutar com palavras / é a luta mais vã / entanto lutamos / mal rompe a manhã”.

Paciência comigo, gente. Valeu!

Ronaldo Rodrigues