Palavras, palavras, palavras…


Pouco me interesso pelo real. Somente os sonhos e os delírios me deixam em estado de alerta. Ou letargia total, sei lá! Agora, por exemplo, não sei se é sonho: o momento em que pouso o copo de uísque barato na mesa barata do boteco barato e tento continuar escrevendo estas linhas toscas, que ninguém lerá. 

O sonho em que pareço mergulhado nem sempre me dá prazer. Prazer é artigo de luxo. A TV mostra bombardeios horrendos narrados por repórteres em modelitos impecáveis. Os comentários das pessoas ao lado me desagradam profundamente. São opiniões equivocadas, que revelam o nível precário de consciência em que o ser humano chegou neste princípio de milênio. Penso em Caetano Veloso. Ele tem razão quando fala de uma nova Idade Média situada no futuro.

Posso pensar que a amargura dos ultrarromânticos escreveu belas páginas da literatura mundial. Em verdade, posso pensar qualquer coisa. E, quando estou de posse de uma caneta e um pedaço de papel, esse poder se transforma em palavras que revelam poder nenhum. A não ser uma sensação de aniquilamento. Mas prosseguiremos. Prosseguiremos?

Não há motivo aparente para desespero. E o desespero não existe realmente. Mas se existe no delírio, e é o delírio que me interessa, o desespero passa, então, a existir. Eu coloco uma distância entre o desespero que há e o sofrimento que ele pode causar. É como se eu fosse apenas o cinegrafista do filme que é minha vida. Um observador desatento, mas privilegiado, das coisas que acontecem comigo e que alguém, sentado na poltrona do cinema, pode dizer: “Ei! essa é a vida de alguém!”.

Um trabalhador que pega no batente às sete da manhã, o que o obriga a acordar às cinco, dirá: “Frescura! Na minha terra, homem que é homem não tem tempo ou disposição para questões que esse cara acha que abriga no peito, na cabeça”. É verdade. O tempo disso já passou. A adolescência não voltará para me redimir, me colocar nos eixos. Hoje, adulto, eu deveria saber que não há eixo algum. Há somente uma tentativa, por muitas vezes frustrada, de consciência. Saber-se na escuridão, tentando manter os olhos abertos.

Ronaldo Rodrigues

NARIZ (Ronaldo Rodrigues)

Por Ronaldo Rodrigues

Meu nariz cansou de mim. Diz que não sou digno dele. E propõe que nos separemos. Que eu fique com os olhos, que não aceitaram a proposta de ir embora. Que eu fique com a perna, com o pé. Que eu não conte com o dedão, que deve fugir na primeira bobeada. Uma topada serve.

Mas o que é isso? Meu nariz acaba de dizer, na minha cara, que vai embora e ainda instiga a debandada de todos os meus órgãos!

Segurei os óculos imediatamente. Temi que a orelha, dando ouvidos ao nariz, se evadisse, levando os óculos pra, sei lá, ter uma companhia, no mínimo.

Eu estava de mãos atadas com aquela situação e espero não vê-las dando aceno de despedida e se juntando ao nariz naquela tresloucada deserção.

Como vou negociar com meu nariz se tenho apenas 16 anos, não tenho a chave de casa, ainda não ganho o meu sustento?

Como vocês podem ver, eu não sou dono do meu nariz.

O DIA DA TRAVESSIA

Por Ronaldo Rodrigues

O canal se estendia à minha frente. Toda manhã, ao abrir a janela, lá estava ele, num permanente desafio.

Do outro lado do canal ficava a fonte da juventude, bem ao lado do castelo da mulher com mais de 300 anos que, segundo diziam, todo dia bebia da fonte e assim mantinha seus traços de 16 anos. Muitos homens tentavam atravessar o canal para vê-la. A maioria retornava depois de poucas braçadas. A correnteza era muito violenta. Muitos morreram na travessia. Todos os homens da cidade tentavam. E estava chegando a minha vez.

Sempre que se entrava na adolescência era o momento de se tentar a travessia. Antes disso, a vida se resumia em treinar. Meu cachorro Madrugada me acompanhava nos treinamentos e quando me senti preparado para realizar o feito, Madrugada se mostrou muito interessado em ir comigo:

– Você não precisa ir. Deixe que eu trago um pouco da água da fonte da juventude pra você. E à mulher do castelo eu digo que você mandou saudações.

Madrugada não entrou em acordo e, no dia da travessia, lá estava ele ao meu lado, recebendo os cumprimentos e as recomendações de toda a população.

Mergulhamos no canal e percorremos uma grande distância até Madrugada se afastar. Ele tomou a dianteira e eu o perdi de vista. Eu já estava exausto quando cheguei ao outro lado. Andei pela praia, em direção à fonte da juventude e a encontrei seca. Fui ao castelo e percebi que ele era de areia e se desmanchava com o sopro da minha respiração. 

Saí procurando Madrugada e a menina de 300 anos. Só os vi quando olhei para o outro lado do canal, de onde eu havia saído. Lá estavam os dois passeando pela tarde, acenando para mim. Ao retribuir o aceno foi que reparei em minhas mãos se tornando flácidas, a pele e a carne se desmanchando igual ao castelo de areia, igual ao sonho de encontrar a juventude, igual a este conto e a tantas coisas que chegam ao fim.

Texto quase de humor


Com quantos paus se faz uma canoa em Noa Noa? Será que o sol da meia-noite é mais forte que a lua do meio-dia? E a sereia? Seria de cera ou será que anoitecera?

Não sei responder às questões mais simples, dizer aquilo que ninguém sabe, saborear a comida a quilo que ninguém come.

A TV continuará, afinal, transmitindo a final do campeonato em que me mato torcendo pelo time que precisa fazer trinta e cinco gols para levar a decisão pros pênaltis?

Muitas perguntas e nada de dicas tipo vide o verso ou confira na página 44.

Eis que ouço a explosão. São pincéis atômicos explodindo em vários pontos do planeta. E não causam destruição. Pelo contrário. Há Um incêndio também. São corações incendiados de emoção fazendo a cidade arder de paixão.

Ouço o rugir da tempestade, mas calma! Trata-se de flores de várias cores caindo do céu e inundando a cidade.

Peço pausa para pichar o muro da folha de papel pra dizer que perdi o fio da meada, morri no frio da geada, perdi a última moda, fui moeda de troca e não me restou nada.

Voltemos, então, a este texto fora de contexto que soa apenas e a duras penas como pretexto pra minha vontade de escrever.

Lembro dos contos de fadas que minha avó contava. Ela gostava de interferir nas histórias, começando pelos títulos: A Raposa e as Saúvas, A Bela e a Fera Adormecida, João e Mariah Carey, O Grito Falante, Erram os Deuses e os Astronautas, Abominável Mundo Novo e por aí vai.

E o meu universo continuará rolando em prosa, em verso, em setembro, oitembro, novembro, dezembro. Ah! Nemlembro.

Até que, de repente, enfim: FIM!

Ronaldo Rodrigues


Microcontos de Ronaldo Rodrigues (parte II)


MINHA VIDA É UM MAR DE ROSAS
Disse Elvira se afogando mais uma vez.

ONANISMO
(ou está tudo acabado entre nós)
Ao deceparem minhas mãos
dissolveram meu harém.

CAPITÃO GANCHO TAMBÉM AMA
Numa dessas ainda leva Sininho pro navio.

E SE EU ESCALASSE ESSA MONTANHA?
Pensou a aranha pouco antes de aceitar a missão.

AI, MEU FÍGADO…
Você ainda me mata do coração!

QUERIDO DIÁRIO
Vou rasgar-te, queimar-te, perder-te…
Apagar-me.

MEMORANDO DE DEUS PARA LÚCIFER
Considere-se demitido!

ORELHÃO QUEBRADO NO MEIO DA MADRUGADA
– Caraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaalho!

OVERDOSE
Depois do pó
o pós.

BANDA SEM FUTURO
Aqui jazz
(esta teve colaboração de Marconi Lima)

A FLOR
Despetala para despertá-la.

COM A MORTE
– Enfim, sós…

Ronaldo Rodrigues

Microcontos de Ronaldo Rodrigues (parte I)


BUROCRACIA É O FIM

– Vim falar com Deus.
– Tem hora marcada?

MUDARAM AS ESTAÇÕES
No outono, no inverno,
minha prima Vera vira verão.

BLÁ-BLÁ-BLÁ
Quando faltar assunto, fique em silêncio.

CUIDADO – FRÁGIL
Quebrei meus olhos nas plumas do caminho.

BALA PERDIDA NÃO EXISTE
Todo coração tem endereço fixo.

MATOU A SAUDADE
Deu um tiro no peito.

GANGORRA
– Olha como eu toco no chão!
– Olha como eu toco no céu!

BASEADO BLUES
Fumaça colorida no ar de Barcelona.

FOLHA DE PAPEL A ME DESAFIAR
Te risco.
Me arrisco.

NO PAÍS DO CARNAVAL
Na quarta-feira, deparou com as cinzas do pierrô.

PÁSSARO NA GAIOLA
Só a ilusão conseguiu fugir.

ME DEIXASTE!
Me vingo te amando mais.

EM BRANCAS NUVENS
Lá vai a vida assim
sem saber se foi bom ou ruim.

MUDARAM AS ESTAÇÕES
A flor e a folha mudaram de ramo.

Ronaldo Rodrigues

Drops

Um submarino viaja atravessando os esgotos da cidade. Vez em quando, sempre que descobre um bueiro, mete por ele o periscópio e fica olhando cá pra fora. E vê que aqui fora tem muito mais lixo que dentro dos esgotos.

Sem sono/ sem sonho, atravesso a madrugada. Navego no ego, à deriva. Atravesso um oceano de insônia. Navego sem balsa, sem bálsamo, a nado, sem nada no bolso. Sem alcançar horizonte, sem alçar vôo. Amanheço a esmo. Permaneço o mesmo.

Um enfermo, um vampiro, um sábio chinês. Olhando-os rapidamente percebo serem as faces de uma mulher que se recusa envelhecer.

Papai Noel passeia pelas ruas desertas da cidade. Como/onde achar um bar aberto a essa hora da madruga?

Os dedos passeiam pelas cordas do violão. Pelo buraco saltam golfinhos verdes, azuis, brancos, laranjas… e ficam nadando na partitura.


Olhos atentos do cyborg na silhueta de Marilyn.

O balão estoura: bolhas de sabão no ar, cacos de vidro no chão.

A lágrima do olho esquerdo do palhaço cai no centro do picadeiro. Dela nasce uma flor gigantesca de onde saltam peixes e cristais.

Na mais movimentada avenida da metrópole os arranha-céus se movimentam em direção ao iceberg. O naufrágio é inevitável.

Em frente ao computador os dedos pressionam as teclas. As impressões digitais ficam impressas no monitor.

Ronaldo Rodrigues

Uma crônica por dia

Uma crônica por dia. É a tarefa que me impus. E até que tenho dado conta do recado direitinho, devo admitir.

Imagino-me, guardadas as proporções, um desses cronistas com coluna no jornal, que precisa escrever todo dia para garantir o pão, ou a dose de uísque, de cada dia, o cigarro de cada noite.

Tenho me esforçado para atingir esse intento, que não chega a ser uma promessa. É uma intenção, apenas. Talvez nem tenha talento suficiente para manter um número razoável de crônicas com qualidade mínima.

Não tenho a pretensão de me igualar a Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos ou, pobrezinho de mim!, Rubem Braga, mestre supremo desse gênero que transforma fatos corriqueiros em verdadeiros vislumbres de humanidade e poesia.

A crônica é um gênero autossustentável. Explico: podemos escrever sobre o tema que se apresentar e, quando esse tema não surgir, o tema será a própria falta de tema, o assunto será a falta de assunto. Fácil, não? É o que parece. Escrever é sempre difícil. 

Drummond fala, em um de seus poemas, sobre o verso que está na mente e a caneta não consegue escrever. O que torna o ato de escrever tão fascinante é justamente essa característica: não sabermos se aquilo que está escrito em nossa cabeça pode ser escrita no papel, se vamos encontrar a palavra certa, encaixar o termo que pulsa em nosso coração e que nem sempre estará à disposição de nosso intelecto.

Como o Elton Tavares abriu este espaço para mim, vou continuar cometendo as minhas crônicas e enfrentar a fúria dos leões, alguns críticos mordazes que andam (ou rastejam) por aí.

Termino citando o já citado Drummond: “Lutar com palavras / é a luta mais vã / entanto lutamos / mal rompe a manhã”.

Paciência comigo, gente. Valeu!

Ronaldo Rodrigues

Horário Político do Povo

Por Ronaldo Rodrigues

Os programas de candidatos a vereador são verdadeiros quadros de humor. O problema é que os “humoristas” em questão falam sério. É cômico porque é trágico e vice-versa. Isso me deu uma ideia: assim como existe horário gratuito no rádio e na televisão para os candidatos esculhambarem a língua portuguesa e fazer propostas esdrúxulas, deveria também haver horário para o povo, para nós, eleitores, expostos a todo tipo de promessas e projetos absurdos.

Seria uma forma de nos vingarmos de tanta hipocrisia e de tanto despreparo dos candidatos. Imagino um programa em que cada parcela da população faria suas propostas, sempre numa linha de raciocínio bem despropositada:

– As donas de casa proporiam duas creches para cada filho, uma empregada doméstica para cada membro da família e uma cabeleireira/manicure à disposição, 24 horas por dia, todos os dias da semana.

Os motoristas proporiam o asfaltamento do rio Amazonas para desafogar o trânsito.

Os guias de turismo proporiam que se fizesse um complexo em que fossem juntados a Fortaleza de São José e o Monumento Marco Zero do Equador, para que num único passeio se conhecesse os dois locais.
Os operários proporiam que a carga horária semanal passasse de 40 para 4 horas e que fossem implantados dois domingos seguidos: um para a farra, outro para a ressaca da farra.

Os maconheiros proporiam a implantação do Programa Bolsa-Maconha, que iria cuidar da produção e da distribuição da erva, trazendo mais qualidade e segurança aos usuários.

E por aí seguiriam as propostas, desafiando o bom senso e a paciência dos candidatos, que seriam obrigados a ver e ouvir todas as propostas e a reconhecer seus próprios excessos.

Não sei se seria uma boa. É mais uma proposta, tão insensata (?) quanto às que nós somos obrigados a engolir todo dia. Mas se tiver alguém aí que tope, não custa nada tentar. Será?

Um santo na minha infância – Por Ronaldo Rodrigues


Eu conheci um santo. Ele se aproximava de nós e imediatamente a paz se fazia. Ele passava sem nada dizer. Simplesmente passava. Nós continuávamos a brincar, na maior tranquilidade.

Um dia o santo foi acusado de sei lá o quê. Como criança, eu não podia me inteirar do acontecido. Só sei que parte da cidade virou a cara para ele. Até tentativas de linchamento ele sofreu. E não dizia nada em sua defesa.

Em casa, a conversa sobre o fato era velada. Mamãe pedia para papai não comentar nada diante de nós, as crianças da casa. Mas aqui e ali se pegava pedaços de conversa.

Um dia acordamos com a notícia que o santo seria executado. Tinha pena de morte na minha cidade? Pelo jeito, sim. Talvez tenha sido instaurada só para o caso do santo. A parte da cidade que acreditava na santidade do santo fez o maior barulho: protestos, passeatas, manifestações violentas. Teve gente que fez até greve de fome. A outra parte da cidade, a que queria a condenação do santo, fez festa o dia todo, estourou foguetes, fez churrasco, cantou e dançou até a hora da execução.

Ninguém nunca soube mesmo se ele era santo. Para mim era. Só com aquela passada que deixava a gente sem pensar em briga. Agora, depois de 30 anos de sua morte, ao passar pela cidadezinha que deixei aos doze anos, o túmulo do santo continua visitado diariamente. A sepultura está sempre com flores novas. E os descendentes da parcela da cidade que festejou sua morte juram que ele é santo mesmo. E faz cada milagre!

Ronaldo Rodrigues

Ronaldo Rodrigues, nosso novo colaborador

Esse blog já contou com a colaboração de muita gente inteligente. Mas a correria do dia-a-dia e compromissos fazem com que nossos colaboradores parem de escrever para o De Rocha. Há meses, convidei o amigo Ronaldo Rodrigues (o popular Ronaldo Rony) para juntar-se a equipe desta página. Algumas semanas atrás, ele começou a enviar-me suas crônicas, por sinal, muito boas. 

É com satisfação que hoje (1), apresento-lhes o nobre artista como colaborador do blog De Rocha. Aliás, melhor ele mesmo se apresentar: 

Vim para semear a dúvida! Sou Ronaldo Rodrigues quando escrevo. Sou Ronaldo Rony quando desenho.

Quando escrevo sou redator publicitário, roteirista, poeta, contista, cronista e letrista.

Quando desenho sou cartunista, chargista, quadrinhista, ilustrador e (às vezes) artista plástico. Arrisco uma caricatura ou outra. De vez em quando, acerto.

Trocaria tudo isso descrito acima para ser bom de futebol. Sou casado com a liberdade, amante do prazer e fiel ao desejo.

No mais, é isso talvez nem tanto. 

Tenho dito! E escrito!”

Ronaldo Rodrigues

Vexame no restaurante


Todo mundo já passou vexame em restaurante, né? Eu sou campeão dessa modalidade. Chego ao restaurante e lá vem o garçom:

– Vai querer o quê, patrão?

Eu já fico mordido. Como é que eu, chegando muito confortável na minha condição de cliente, sou recebido com esse xingamento? O cara, sem a menor cerimônia, já me recebe com esse palavrão: patrão! Tenho vontade de dizer:

– Se eu fosse teu patrão, já estarias demitido!

Há um tipo de garçom que já vem dizendo aquela frase, que me deixa inquieto:

– Fique à vontade!

Como assim ficar à vontade? Estou me sentido muito à vontade, por que diabos o garçom me pede pra ficar à vontade? Será que não pareço suficientemente à vontade?

Certa vez entrei num restaurante bem pé-sujo. O garçom nem notou minha presença. Ficou lá no fundo do balcão discutindo futebol com um cliente. Fiquei sentado por mais de oito minutos, rigorosamente cronometrados, até que alguém se atreveu a me atender. Era a dona da espelunca que veio da cozinha com um avental engordurado, com sujeira acumulada desde a Idade Média, e me disse à queima-roupa:

– Vai querer o quê?

Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, ela disparou a frase, junto com um resto de catarro que espirrou no balcão:

– Só tem carne assada. É pegar ou largar. Quem manda chegar tarde? Tá pensando que isso aqui é uma bodega? 

Com toda aquela delicadeza só me restou aceitar. Ela acionou o garçom, que me encarou furioso, mas se acalmou logo em seguida, por força da profissão. Abriu o velho baú de utilidades, tirou um sorriso forçado, colocou no rosto barbado e trouxe uma carne assada só o filé. De dura!

Pra quebrar o gelo, elogiei a tatuagem que ele tinha na mão. Ele respondeu que não era tatuagem. Era uma ferida crônica.

Abaixei a cabeça e enfrentei aquela coisa disforme que o cardápio deles classificava como carne assada de panela. Panela suja, claro!

Depois de me regalar com tal acepipe, pedi um palito de dente. O garçom me pediu pra esperar um pouco. No momento, os palitos estavam todos sendo usados. Pedi um cafezinho e ele me mandou tomar cafezinho na casa da minha mãe.

Paguei a conta, mais apimentada do que o tempero, mais salgada do que a batata frita. Paguei com ticket-alimentação e o garçom não gostou. Pegou o baú de utilidades e tirou de lá uma cara mais feia do que o bife de carne de sol, especialidade da casa, pintado na parede ao lado do banheiro. Sim, senhores! O restaurante tinha banheiro!

Engoli os desaforos em seco e sai correndo daquele lugar. Recomendo aos meus desafetos mais íntimos.

Ronaldo Rodrigues

Comunicação?


Se o ser humano tivesse realmente evoluído, estaríamos nos comunicando por telepatia. Nada de celular, e-mail, rede social, chat, blog… Essas nomenclaturas todas que invadiram nosso cotidiano.

Hoje, comunicação é imediatismo, é a pressa confundida com agilidade. Quem tem paciência de esperar uma carta pelos correios? A mágica de receber uma correspondência que percorreu grandes distâncias físicas, bem maiores que as distâncias virtuais. Quem quer experimentar esse encantamento? A comunicação ganhou em velocidade e perdeu em poesia.

A mente humana é realmente prodigiosa. A internet é uma invenção fantástica, certo? Mas a mesma humanidade, capaz de criar tal máquina, também é capaz de usá-la com requintes de frivolidade. E com muita maldade.

Parte dos internautas usa as possibilidades oferecidas para pesquisar e enriquecer seus conhecimentos. Outra parte, bem maior infelizmente, usa essas possibilidades para disseminar ideias toscas, que já nasceram atrasadas, como homofobia, xenofobia e outras fobias, que nesses casos não significam medo, mas aversão. Aversão a tudo o que não se encaixa nos padrões abrir aspas normais fechar aspas. Existem gangues disfarçadas de torcidas de futebol marcando, pela internet, encontros para enfrentamentos, pancadarias e outros meios truculentos de arrotar superioridade babaca.


E o que dizer dos vídeos íntimos que algum idiota dispõe na rede e atiça a curiosidade de milhares de outros idiotas? É a fofoca chegando mais rápido e mais longe. É a vigilância da vida alheia praticada com mais eficácia e obscurantismo. É o ti-ti-ti de bairro, o âmbito da paróquia dominando o pensamento da aldeia global. É a mentalidade da Idade Média com os recursos do século XXI, potencializando sua virulência.

Mas não pensem que sou retrógrado, atrasado, essas coisas. Também me utilizo de computador e internet, procurando não desmerecer o gênio dos que a criaram, a favor da troca de informações que possam valer para a vida de alguém.

Sou avô do homem de neanderthal em termos de tecnologia. Domino o básico dessa relação, o suficiente para não ser dominado pelo computadorismo radical dominante. Sei que é tão chato o sujeito que nada entende de informática quanto o que entende tudo. Ou supõe entender.


Especialistas estão à solta. Designers gráficos em profusão. Balance uma árvore e cairão centenas de técnicos de informática, milhares de cinegrafistas, o mesmo número de fotógrafos e um menu inteiro de DJs. Criei este slogan e brinco sempre com ele: apertou o play, virou DJ. Os especialistas em marketing também pontificam, exibindo seus talentos pra lá de questionáveis, seus diplomas outorgados por universidades caça-níquel. 

Não estou isolado do mundo, mas acho engraçado o sujeito que se isola em seu mundo/quarto, diante de seu monitor de alta definição, conversando com o mundo inteiro sem falar com ninguém, sem olho no olho. Ou trocando insultos, replicando frases de autoajuda e piadas tolas.

Não sou avesso à modernidade, mas excesso é sempre ruim. E não esqueçam que estou usando equipamento moderno para escrever esta crônica, que será enviada pelas ondas dessa tal de web.

É. Eu também tenho que me alinhar.

Ronaldo Rodrigues

Jogos eletrônicos


Saca Nintendo? Nem entendo!

Minha falta de habilidade com jogos eletrônicos é quase traumática, a ponto de me fazer dedicar uma crônica a essa total falta de intimidade com os tais jogos eletrônicos. Com qualquer jogo, aliás.

Tenho uma paixão platônica por futebol. Eu amo futebol, mas ele me odeia. Já fui classificado de perna-de-pau, cabeça-de-bagre, pereba e outros nomes menos elogiosos.

Deixei de praticar vôlei quando desloquei o dedo numa rebatida fácil.
Basquete nem tentei. Nunca estive à altura desse esporte, para incorrer num trocadilho infame. 

Tênis de mesa, totó, futebol de botão, xadrez, damas…E por aí vai uma lista de quantos jogos existem cujas galerias de honra jamais ostentarão meu nome.

Quando era criança, os tele-jogos, ou videogames, como se chamam hoje, eram verdadeira febre entre a criançada. Eu passava ao largo desse interesse, me limitando a vibrar (não muito) com os lances mais arriscados e admirar (sem grande entusiasmo) o domínio que os garotos tinham com aquela engenhoca.

Nunca tive paciência, raciocínio ou velocidade para entrar na jogada. Claro que isso me isolava dos papos que rolavam depois das partidas, os comentários arrogantes dos vencedores e as desculpas dos vencidos. Pensando bem (ou nem pensando), ficar fora disso era até um ponto positivo.

Hoje, com a sofisticação que os jogos alcançaram, não me sinto digno nem de me aproximar deles, que evoluíram tanto quanto meu desinteresse. Mas, pra não dizer que não cometo minhas raquetadas virtuais, devo admitir que sou entusiasta de dois joguinhos desses que já vêm instalados em qualquer computador: pinball e paciência. O pinball por causa dos barulhinhos. Não entendo sequer a pontuação. O outro jogo que merece um pouco da minha atenção é paciência. Quando jogo paciência, penso nos milhares de pessoas que diariamente jogam com minha paciência.

E a paciência que jogo é no nível mais fácil. Paciência…

Ronaldo Rodrigues