Horário Político do Povo

Por Ronaldo Rodrigues

Os programas de candidatos a vereador são verdadeiros quadros de humor. O problema é que os “humoristas” em questão falam sério. É cômico porque é trágico e vice-versa. Isso me deu uma ideia: assim como existe horário gratuito no rádio e na televisão para os candidatos esculhambarem a língua portuguesa e fazer propostas esdrúxulas, deveria também haver horário para o povo, para nós, eleitores, expostos a todo tipo de promessas e projetos absurdos.

Seria uma forma de nos vingarmos de tanta hipocrisia e de tanto despreparo dos candidatos. Imagino um programa em que cada parcela da população faria suas propostas, sempre numa linha de raciocínio bem despropositada:

– As donas de casa proporiam duas creches para cada filho, uma empregada doméstica para cada membro da família e uma cabeleireira/manicure à disposição, 24 horas por dia, todos os dias da semana.

Os motoristas proporiam o asfaltamento do rio Amazonas para desafogar o trânsito.

Os guias de turismo proporiam que se fizesse um complexo em que fossem juntados a Fortaleza de São José e o Monumento Marco Zero do Equador, para que num único passeio se conhecesse os dois locais.
Os operários proporiam que a carga horária semanal passasse de 40 para 4 horas e que fossem implantados dois domingos seguidos: um para a farra, outro para a ressaca da farra.

Os maconheiros proporiam a implantação do Programa Bolsa-Maconha, que iria cuidar da produção e da distribuição da erva, trazendo mais qualidade e segurança aos usuários.

E por aí seguiriam as propostas, desafiando o bom senso e a paciência dos candidatos, que seriam obrigados a ver e ouvir todas as propostas e a reconhecer seus próprios excessos.

Não sei se seria uma boa. É mais uma proposta, tão insensata (?) quanto às que nós somos obrigados a engolir todo dia. Mas se tiver alguém aí que tope, não custa nada tentar. Será?

Um santo na minha infância – Por Ronaldo Rodrigues


Eu conheci um santo. Ele se aproximava de nós e imediatamente a paz se fazia. Ele passava sem nada dizer. Simplesmente passava. Nós continuávamos a brincar, na maior tranquilidade.

Um dia o santo foi acusado de sei lá o quê. Como criança, eu não podia me inteirar do acontecido. Só sei que parte da cidade virou a cara para ele. Até tentativas de linchamento ele sofreu. E não dizia nada em sua defesa.

Em casa, a conversa sobre o fato era velada. Mamãe pedia para papai não comentar nada diante de nós, as crianças da casa. Mas aqui e ali se pegava pedaços de conversa.

Um dia acordamos com a notícia que o santo seria executado. Tinha pena de morte na minha cidade? Pelo jeito, sim. Talvez tenha sido instaurada só para o caso do santo. A parte da cidade que acreditava na santidade do santo fez o maior barulho: protestos, passeatas, manifestações violentas. Teve gente que fez até greve de fome. A outra parte da cidade, a que queria a condenação do santo, fez festa o dia todo, estourou foguetes, fez churrasco, cantou e dançou até a hora da execução.

Ninguém nunca soube mesmo se ele era santo. Para mim era. Só com aquela passada que deixava a gente sem pensar em briga. Agora, depois de 30 anos de sua morte, ao passar pela cidadezinha que deixei aos doze anos, o túmulo do santo continua visitado diariamente. A sepultura está sempre com flores novas. E os descendentes da parcela da cidade que festejou sua morte juram que ele é santo mesmo. E faz cada milagre!

Ronaldo Rodrigues

Ronaldo Rodrigues, nosso novo colaborador

Esse blog já contou com a colaboração de muita gente inteligente. Mas a correria do dia-a-dia e compromissos fazem com que nossos colaboradores parem de escrever para o De Rocha. Há meses, convidei o amigo Ronaldo Rodrigues (o popular Ronaldo Rony) para juntar-se a equipe desta página. Algumas semanas atrás, ele começou a enviar-me suas crônicas, por sinal, muito boas. 

É com satisfação que hoje (1), apresento-lhes o nobre artista como colaborador do blog De Rocha. Aliás, melhor ele mesmo se apresentar: 

Vim para semear a dúvida! Sou Ronaldo Rodrigues quando escrevo. Sou Ronaldo Rony quando desenho.

Quando escrevo sou redator publicitário, roteirista, poeta, contista, cronista e letrista.

Quando desenho sou cartunista, chargista, quadrinhista, ilustrador e (às vezes) artista plástico. Arrisco uma caricatura ou outra. De vez em quando, acerto.

Trocaria tudo isso descrito acima para ser bom de futebol. Sou casado com a liberdade, amante do prazer e fiel ao desejo.

No mais, é isso talvez nem tanto. 

Tenho dito! E escrito!”

Ronaldo Rodrigues

Vexame no restaurante


Todo mundo já passou vexame em restaurante, né? Eu sou campeão dessa modalidade. Chego ao restaurante e lá vem o garçom:

– Vai querer o quê, patrão?

Eu já fico mordido. Como é que eu, chegando muito confortável na minha condição de cliente, sou recebido com esse xingamento? O cara, sem a menor cerimônia, já me recebe com esse palavrão: patrão! Tenho vontade de dizer:

– Se eu fosse teu patrão, já estarias demitido!

Há um tipo de garçom que já vem dizendo aquela frase, que me deixa inquieto:

– Fique à vontade!

Como assim ficar à vontade? Estou me sentido muito à vontade, por que diabos o garçom me pede pra ficar à vontade? Será que não pareço suficientemente à vontade?

Certa vez entrei num restaurante bem pé-sujo. O garçom nem notou minha presença. Ficou lá no fundo do balcão discutindo futebol com um cliente. Fiquei sentado por mais de oito minutos, rigorosamente cronometrados, até que alguém se atreveu a me atender. Era a dona da espelunca que veio da cozinha com um avental engordurado, com sujeira acumulada desde a Idade Média, e me disse à queima-roupa:

– Vai querer o quê?

Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, ela disparou a frase, junto com um resto de catarro que espirrou no balcão:

– Só tem carne assada. É pegar ou largar. Quem manda chegar tarde? Tá pensando que isso aqui é uma bodega? 

Com toda aquela delicadeza só me restou aceitar. Ela acionou o garçom, que me encarou furioso, mas se acalmou logo em seguida, por força da profissão. Abriu o velho baú de utilidades, tirou um sorriso forçado, colocou no rosto barbado e trouxe uma carne assada só o filé. De dura!

Pra quebrar o gelo, elogiei a tatuagem que ele tinha na mão. Ele respondeu que não era tatuagem. Era uma ferida crônica.

Abaixei a cabeça e enfrentei aquela coisa disforme que o cardápio deles classificava como carne assada de panela. Panela suja, claro!

Depois de me regalar com tal acepipe, pedi um palito de dente. O garçom me pediu pra esperar um pouco. No momento, os palitos estavam todos sendo usados. Pedi um cafezinho e ele me mandou tomar cafezinho na casa da minha mãe.

Paguei a conta, mais apimentada do que o tempero, mais salgada do que a batata frita. Paguei com ticket-alimentação e o garçom não gostou. Pegou o baú de utilidades e tirou de lá uma cara mais feia do que o bife de carne de sol, especialidade da casa, pintado na parede ao lado do banheiro. Sim, senhores! O restaurante tinha banheiro!

Engoli os desaforos em seco e sai correndo daquele lugar. Recomendo aos meus desafetos mais íntimos.

Ronaldo Rodrigues

Comunicação?


Se o ser humano tivesse realmente evoluído, estaríamos nos comunicando por telepatia. Nada de celular, e-mail, rede social, chat, blog… Essas nomenclaturas todas que invadiram nosso cotidiano.

Hoje, comunicação é imediatismo, é a pressa confundida com agilidade. Quem tem paciência de esperar uma carta pelos correios? A mágica de receber uma correspondência que percorreu grandes distâncias físicas, bem maiores que as distâncias virtuais. Quem quer experimentar esse encantamento? A comunicação ganhou em velocidade e perdeu em poesia.

A mente humana é realmente prodigiosa. A internet é uma invenção fantástica, certo? Mas a mesma humanidade, capaz de criar tal máquina, também é capaz de usá-la com requintes de frivolidade. E com muita maldade.

Parte dos internautas usa as possibilidades oferecidas para pesquisar e enriquecer seus conhecimentos. Outra parte, bem maior infelizmente, usa essas possibilidades para disseminar ideias toscas, que já nasceram atrasadas, como homofobia, xenofobia e outras fobias, que nesses casos não significam medo, mas aversão. Aversão a tudo o que não se encaixa nos padrões abrir aspas normais fechar aspas. Existem gangues disfarçadas de torcidas de futebol marcando, pela internet, encontros para enfrentamentos, pancadarias e outros meios truculentos de arrotar superioridade babaca.


E o que dizer dos vídeos íntimos que algum idiota dispõe na rede e atiça a curiosidade de milhares de outros idiotas? É a fofoca chegando mais rápido e mais longe. É a vigilância da vida alheia praticada com mais eficácia e obscurantismo. É o ti-ti-ti de bairro, o âmbito da paróquia dominando o pensamento da aldeia global. É a mentalidade da Idade Média com os recursos do século XXI, potencializando sua virulência.

Mas não pensem que sou retrógrado, atrasado, essas coisas. Também me utilizo de computador e internet, procurando não desmerecer o gênio dos que a criaram, a favor da troca de informações que possam valer para a vida de alguém.

Sou avô do homem de neanderthal em termos de tecnologia. Domino o básico dessa relação, o suficiente para não ser dominado pelo computadorismo radical dominante. Sei que é tão chato o sujeito que nada entende de informática quanto o que entende tudo. Ou supõe entender.


Especialistas estão à solta. Designers gráficos em profusão. Balance uma árvore e cairão centenas de técnicos de informática, milhares de cinegrafistas, o mesmo número de fotógrafos e um menu inteiro de DJs. Criei este slogan e brinco sempre com ele: apertou o play, virou DJ. Os especialistas em marketing também pontificam, exibindo seus talentos pra lá de questionáveis, seus diplomas outorgados por universidades caça-níquel. 

Não estou isolado do mundo, mas acho engraçado o sujeito que se isola em seu mundo/quarto, diante de seu monitor de alta definição, conversando com o mundo inteiro sem falar com ninguém, sem olho no olho. Ou trocando insultos, replicando frases de autoajuda e piadas tolas.

Não sou avesso à modernidade, mas excesso é sempre ruim. E não esqueçam que estou usando equipamento moderno para escrever esta crônica, que será enviada pelas ondas dessa tal de web.

É. Eu também tenho que me alinhar.

Ronaldo Rodrigues

Jogos eletrônicos


Saca Nintendo? Nem entendo!

Minha falta de habilidade com jogos eletrônicos é quase traumática, a ponto de me fazer dedicar uma crônica a essa total falta de intimidade com os tais jogos eletrônicos. Com qualquer jogo, aliás.

Tenho uma paixão platônica por futebol. Eu amo futebol, mas ele me odeia. Já fui classificado de perna-de-pau, cabeça-de-bagre, pereba e outros nomes menos elogiosos.

Deixei de praticar vôlei quando desloquei o dedo numa rebatida fácil.
Basquete nem tentei. Nunca estive à altura desse esporte, para incorrer num trocadilho infame. 

Tênis de mesa, totó, futebol de botão, xadrez, damas…E por aí vai uma lista de quantos jogos existem cujas galerias de honra jamais ostentarão meu nome.

Quando era criança, os tele-jogos, ou videogames, como se chamam hoje, eram verdadeira febre entre a criançada. Eu passava ao largo desse interesse, me limitando a vibrar (não muito) com os lances mais arriscados e admirar (sem grande entusiasmo) o domínio que os garotos tinham com aquela engenhoca.

Nunca tive paciência, raciocínio ou velocidade para entrar na jogada. Claro que isso me isolava dos papos que rolavam depois das partidas, os comentários arrogantes dos vencedores e as desculpas dos vencidos. Pensando bem (ou nem pensando), ficar fora disso era até um ponto positivo.

Hoje, com a sofisticação que os jogos alcançaram, não me sinto digno nem de me aproximar deles, que evoluíram tanto quanto meu desinteresse. Mas, pra não dizer que não cometo minhas raquetadas virtuais, devo admitir que sou entusiasta de dois joguinhos desses que já vêm instalados em qualquer computador: pinball e paciência. O pinball por causa dos barulhinhos. Não entendo sequer a pontuação. O outro jogo que merece um pouco da minha atenção é paciência. Quando jogo paciência, penso nos milhares de pessoas que diariamente jogam com minha paciência.

E a paciência que jogo é no nível mais fácil. Paciência…

Ronaldo Rodrigues

O único animal inteligente do planeta


O homem é o único animal inteligente do planeta. É o que ele costuma arrotar em suas bravatas. Mas que outro animal coloca esse planeta em risco? Errou quem disse a vaca, o camelo ou o ornitorrinco.

Quem criou a bomba atômica? O burro não foi, que ele não é tão burro assim. Aliás, é uma injustiça associar o burro à falta de inteligência. Burro mesmo é o cavalo. Ao ser cavalgado, o cavalo segue tudo o que o cavaleiro quer. Se o cavaleiro se dirige a um rio profundo, de águas tormentosas, o cavalo continua sua marcha. Tente fazer isso com um burro! Ele empaca na hora e não tem quem o faça atravessar aquele rio. Sinal de inteligência e de muita personalidade.


Mas voltando ao único animal inteligente do planeta: quem é que afeta a camada de ozônio? Não é o pum dos lhamas, dos iaques ou dos elefantes. É a ação do único animal inteligente do planeta, com todo tipo de invenções que emitem resíduos poluentes.

É fácil seguir as pegadas do único animal inteligente do planeta. É só andar um pouquinho para encontrar latas de cerveja, embalagens de biscoito ou pontas de cigarro pelo chão. Sinais evidentes de que o único animal inteligente do planeta passou por ali.

O único animal inteligente do planeta é também o único que mata os outros animais sem precisar estar com fome. O único que caça por esporte.


As guerras não são exclusivas do único animal inteligente do planeta. Os outros animais também têm suas brigas por comida, por território ou para defender seus filhotes. Mas o único animal inteligente do planeta é o único que comercializa suas guerras, que cria e alimenta uma indústria para elas.

Eu, que faço parte, sem orgulho, dessa fauna inteligente do planeta, ficaria páginas e páginas enumerando as virtudes do único animal inteligente do planeta, que nem respirar corretamente sabe. Morde a língua, tropeça nos próprios pés, estaciona em lugar impróprio e manda às favas qualquer vestígio de gentileza.

O único animal inteligente do planeta é assim. E o planeta está nas mãos dele. Cuidado!

Ronaldo Rodrigues

Um gol inesquecível


Começo parafraseando Paulinho da Viola: tinha eu 12 anos de idade (e não 14, como no samba) quando meu pai me chamou para assistir, pela TV, a um jogo sem interesse para a torcida brasileira, que só admite disputa pelo primeiro lugar. A data: 24 de junho de 1978. O local: Estádio Monumental de Nuñez, Buenos Aires. O evento: decisão do terceiro lugar da Copa do Mundo, entre Brasil e Itália.

A conquista da Argentina foi embalada por muitas polêmicas. Sua classificação para a final veio através de uma suspeitíssima goleada de 6 a 0 sobre o Peru.

A seleção argentina, bastante forte, contava com craques como Fillol, Passarella, Ardilles e o artilheiro Kempes. A força da equipe ganhou um reforço de fora das quatro linhas: a pressão do governo argentino. O título mundial cairia como uma luva para a glorificação do regime do general Videla. E foi o que ocorreu.

Mas voltando ao jogo: a Itália abre o marcador com Causio, no primeiro tempo. O próximo gol da partida é uma obra-prima que ficará marcada para sempre na minha memória de torcedor. 

Aos 19 minutos do segundo tempo, o lateral direito Nelinho pega uma bola pela direita, próxima ao bico da grande área, e chuta com sua potência característica. A bola descreve uma curva muito acentuada, sai do alcance do goleiro Zoff e estufa o canto direito da rede. Depois, com o gol de Dirceu aos 25 minutos, o Brasil conquistava o terceiro lugar daquela Copa do Mundo.

A minha revolta de garoto recusou o título de “campeão moral”, expressão cunhada pelo técnico Cláudio Coutinho e aceita por muita gente, mas o gol de Nelinho fez meu jovem coração vibrar como o de um campeão.

Quer ver o gol? 

Copa 1978 – Gol Nelinho – Brasil 2×1 Itália: 

Ronaldo Rodrigues