Fantasia real – Crônica de carnaval do Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

No Carnaval, saí fantasiado de mim, de eu, de eu mesmo. Ninguém me reconheceu. Andei pelos lugares que frequento, pelo Caos, pelo Formigueiro, pelo Bar do Nego, pelo Underground. Nessa ordem. Eu estava com minha fantasia intitulada “Eu, Eu, Demasiadamente Eu, Absolutamente Eu” e ninguém sacou quem era aquela pessoa ali fantasiada. Quase cheguei ao ponto de gritar para aquela multidão de foliões:
– Ei! Sou eu que estou aqui!

Só não fiz isso porque achei que, mesmo assim, não se levantaria um cristão sequer a me apontar o dedo pra fazer a revelação que eu precisava, gritando no mesmo tom do meu grito:
– Olha só! Descobri quem está por trás dessa fantasia! É ele!

Acompanhei a Banda, na esperança quase desesperada de que alguém me descobrisse, e nada. Quando, finalmente, rasguei a fantasia, me desnudando totalmente, mesmo assim não ouvi o que tanto desejava há tantos Carnavais. Que alguém, se descobrindo, me descobrisse:
– Sou eu! É ele!

Ao fim do Carnaval, que se estendeu pra muito além do calendário, desisti da ideia de que me revelassem. Voltei pra casa, já quase em cinzas, e um cachorro de rua chegou a mim, retornando também de sua quadra carnavalesca. Tirando a fantasia de cachorro e ainda permanecendo cachorro, ele rosnou de uma forma que não sei se foi de raiva, carinho, surpresa ou alerta. Ou todas as respostas anteriores. Esse rosnado eu traduzi assim:
– Ei! Eu sei quem tu és!

Ele se calou, contrariando a minha vontade de que aquele cachorro fizesse um comentário mais longo, mais abrangente. Ficamos em silêncio e o nosso segredo se sagrou, sangrou, se cristalizou. Quem sabe se, no próximo Carnaval, a gente se revela…

Bloco do Eu Sozinho – Crônica de carnaval de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Sigo eu, sozinho, seguindo a mim mesmo, neste bloco de amigos e inimigos invisíveis, alguns inexistentes, sobras de outros carnavais. Pálidas lembranças de confetes e serpentinas. Fantasmas de pierrôs e arlequins. Saudade de colombinas.

Sigo cego, a esmo, sempre o mesmo, sob a chuva. Não a chuva de papel picado. A chuva, essa que vem devagarinho e fica por muito tempo, a desmanchar a maquiagem, a se misturar às lágrimas que caem da máscara, as lágrimas formando outra chuva.

Meu samba atravessa a avenida e eu atravesso o samba. Sou desclassificado, é lógico. A corte marcial do Rei Momo é implacável. Se ano que vem ainda existir carnaval, se houver ano que vem, devo desfilar no segundo grupo. Mas, como sei que não posso deixar o samba morrer, que não posso deixar o samba acabar, o jeito é me acabar no samba.

Sigo esse bloco, sou esse bloco, despido de fantasias, em choque com a realidade, e espero me recuperar da ressaca nas cinzas de outro carnaval. Quarta-feira há de chegar, a me cobrar responsabilidades de quem sobreviveu ao folguedo, e eu estarei preparado (estarei preparado?) para ir ao seu encontro.

Alegria é lei – Crônica legal de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Noite de Carnaval, uma das Mil e Uma Noites de Carnaval, e eu diante da televisão. Em retiro espiritual? Nem tanto. Estava olhando as bundas rebolativas maravilhosas, reais e artificiais, que desfilavam nos sambódromos e passarelas deste carnavalesco Brasil.

Meu programa de folião se resumia a isso. Mas, depois que a exuberância bundística cansasse meu tarado, porém inofensivo, olhar, eu iria me entregar ao resto do programa: um bom livro e uma xícara de chá, embaixo do meu solitário edredom. O Rei Momo dominava o resto do Brasil e só eu me encontrava enclausurado nesta ilha que é o meu quarto. Que maravilha!

Mas ei que a campainha tocou. Quem estaria a estas horas longe da esbórnia cívica nacional? Abri a porta e me deparei com um pierrô, uma colombina, um arlequim, um pirata do Caribe, um sheik e cinco Fridas Khalo, que este ano estiveram em alta, disparadas na preferência de muitas pessoas. E tinha também um delegado de polícia. O delegado era delegado mesmo, não uma fantasia. E foi ele quem falou pelo grupo:

– Boa noite, cavalheiro! Viemos informar que o senhor está infringindo vários artigos do Código Civil. Onde já se viu uma coisa dessas?

– Mas o que foi que eu fiz?

– A questão não é o que o senhor fez e, sim, o que o senhor não fez!

– E o que foi que eu não fiz?

– O senhor, em pleno período de Carnaval, neste país, que é, nada mais nada menos, que o País do Carnaval, está recolhido aos seus aposentos. Os seus vizinhos, aqui representados por estes cidadãos, que prezam as tradições do lugar em que vivem, exigem que o senhor troque esse pijama por uma fantasia qualquer, o seu chá por uma bebida alcoólica e o seu livro por um adereço de mão. E venha para a rua pular, cantar, festejar a alegria e a liberdade de um país que decreta feriado nacional, universal e intergalático para que seus filhos possam se jogar, sem temor, nos braços da felicidade.

O grupo de foliões aplaudiu o delegado, que estufou o peito em resposta, muito satisfeito de seu discurso. Eu protestei:

– Já que o senhor falou em liberdade, será que uma pessoa não é livre para escolher se quer participar das festas? Assim como as pessoas que aqui estão têm o direito de dançar, eu tenho o direito de não dançar, de ficar no meu canto sossegado e….

O delegado, que procurava algo para me incriminar, me interrompeu:

– Aí é que está, cidadão! O senhor está sossegado no seu canto. Os seus vizinhos afirmam que o seu silêncio está atrapalhando o barulho que eles estão fazendo com tanta dedicação!

Aí foi que eu me confundi mesmo! Já sem força, nem raciocínio, para protestar contra aquele absurdo, me limitei a perguntar, já procurando minha carteira para uma providencial propina:

– E o que devo fazer para reparar esse dano?

– O senhor escolhe: pagar uma multa altíssima, ser recolhido ao xadrez ou cair na folia com seus semelhantes.

Escolhi a última opção. Vocês viram um folião todo desajeitado por aí? Era eu.

Pela janela azul do manicômio – Crônica porreta de Ronaldo Rodrigues

 

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Um mundo ainda não corrompido se estende pelas ramificações da cidade, em alamedas de flores, que atravessam o grande oceano. É o mundo não corrompido que vejo pela janela azul do manicômio.

Um mundo desprovido de césares e eunucos, de tédio e de policiais. Onde foram abolidas todas as penas, de morte e de vida. Em cujas praças, esquinas e avenidas olhares se atrevem, se atravessam e se comunicam com os segredos da vida, sem colisão de pensamentos. Esse mundo quer existir para todas as pessoas através de mim. Esse mundo me quer como mensageiro de sua paz cotidiana, de respeito mútuo, de fraternidade.

Eu necessito urgentemente de uma caneta para descrever esse mundo, anotar sua fórmula. Corro em direção à escrivaninha em busca de caneta. Quero deixar registrado esse mundo fabuloso, que me acena na noite, pela janela azul do manicômio. Quero dizer que esse mundo existe e pode ser por nós alcançado.

Abro as gavetas, uma por uma. Reviro os papéis na escrivaninha e não encontro caneta, lápis, qualquer coisa com que se possa escrever. Não acredito! Não pode ser! Nunca fiquei sem caneta em toda a minha vida e justo agora que mais preciso…

Começo então uma busca frenética. Remexo pastas. Violo armários. Coloco pelo avesso os bolsos de todas as roupas. Atropelo objetos. Mas tudo é inútil! Não encontro uma caneta sequer e o mundo ainda não corrompido aguarda lá fora, navegando na noite.

Lembro que na esquina da rua do manicômio azul há um boteco onde poderei comprar uma caneta ou quantas eu quiser ou puder ou precisar. Abro a porta do quarto, desço as escadas, pulo a janela do andar térreo e saio correndo pela rua em direção ao boteco. Os enfermeiros de plantão logo são avisados e partem em meu encalço. Não há tempo para explicar a eles que não se trata de uma fuga. Eles não entenderiam a urgência de se comprar uma caneta em plena madrugada.

Continuo correndo em direção ao boteco, o último, o único aberto na noite, em todo o planeta. Acelero a marcha porque o sonolento dono do boteco, sem desconfiar da importância daquele ato, fecha va-ga-ro-sa-men-te a porta antes que eu consiga alcançá-la. Inutilmente, fico batendo desesperado na porta do boteco que abriga vários e vários pacotes de caneta.

Os enfermeiros chegam, trazendo uma camisa de força. Eu me rendo e sou conduzido de volta ao quarto. Me aplicam um tranquilizante e eu fico inerte na cama, observando pela janela azul do manicômio um mundo ainda não corrompido se dissipando na noite.

Piquenique (conto de Ronaldo Rodrigues)

Chapeuzinho Lilás e Lobo Blau estavam nus, passeando pelo bosque. Suas roupas ficaram próximas ao lago, onde haviam passado a manhã inteira, em doces brincadeiras de mergulho, se procurando com ansiedade e se encontrando com sofreguidão.

Escolheram um lugar bastante aprazível, entre árvores cúmplices de vários amores.

Estenderam a toalha que Chapeuzinho Lilás trouxera da casa da avó. Estavam completamente despreocupados com a possibilidade de ser vistos. Tinham resolvido que naquele dia assumiriam seu amor proibido e ficariam juntos para sempre, de maneira que ninguém pudesse interferir.

Com movimentos lentos, ritualísticos, Chapeuzinho Lilás abriu a cesta e retirou uma garrafa de mel. E passou a lambuzar os corpos dos dois amantes, entre beijos e ridos de êxtase.

O Lobo Blau abriu outra garrafa e despejou em volta uma colônia de formigas vermelhas, que passaram a trafegar pela toalha, com finalidade estratégica.

Depois, Chapeuzinho Lilás e Lobo Blau se abraçaram, se beijaram, gemeram e gozaram em meio ao mel e às formigas que começavam a devorá-los.

Ronaldo Rodrigues

Maldito escritor – Conto de Ronaldo Rodrigues

Conto de Ronaldo Rodrigues

Sou um escritor maldito. Estou aqui na minha mesa, diante de uma máquina de escrever. Sim, ainda uso máquina de escrever. Recuso computador. Já disse que sou um escritor maldito. Quando aperto a tecla de um computador, não recebo a carga de volta aos meus dedos. Acho isso essencial para o ato de escrever.

Só escrevo bebendo e fumando. A bebida, de preferência, barata e certeira na embriaguez, aquela que vai direto ao ponto e deixa logo o cérebro a poucos passos de um nocaute. O cigarro é de tabaco e pode ser o mais vagabundo.

Provavelmente você não vai ler um dos meus escritos nem saber que existo. A cada vez que escrevo um conto, releio mil vezes para saber que não está bom e o lugar mais digno para ele é a lata de lixo. É lá que meus escritos vão parar, invariavelmente.

Não tenho intenção de lançar livros. Na certa, você jamais verá meu nome na capa de um livro, muito menos nos cadernos de jornais especializados em literatura. Não vou ficar rico nem famoso escrevendo, não vou ter nem casa nem carro. O máximo que poderei conseguir com este ofício será uma úlcera ou uma cirrose, algo assim. Gostaria muito de morrer de tuberculose, mas parece que isso anda meio fora de moda e creio que escritores já não morrem disso.

Meu nome não vai constar em nenhum catálogo de escritores, nem será tese de trabalhos universitários. Acho mesmo que jamais conseguirei reunir mais de cinco contos, já que ou não termino os que começo ou acho que não estão à altura de serem publicados. Por isso rasgo, queimo, jogo fora e tal.

Agora você deve estar se perguntando, se chegou até este ponto da leitura, por que diabos então eu escrevo? Taí uma coisa que eu não saberia dizer. Ainda bem que nunca fui a um programa de entrevistas. Essa pergunta nunca foi feita e eu me sentiria embaraçado em ter que respondê-la. Talvez eu esteja pedindo socorro, talvez eu queira participar dessa festa chamada vida de forma mais atuante, por assim dizer. Talvez para eu me sentir poderoso, já que posso dispor de personagens e acontecimentos ao meu bel-prazer. Posso me sentir Deus, criando os personagens, matando-os, fazendo-os sofrer ou deixando-os alçar voos ou recebendo o tiro de misericórdia para dar fim às suas miseráveis existências.

Escrever é uma necessidade que se impõe. Isso acontece sempre e, se a vontade de escrever não chegar naturalmente, vou ao seu encontro para satisfazer a vontade e me satisfazer à vontade. Percorro os desertos e as latrinas procurando. Procuro nos castelos e nas pocilgas e no corredor da morte. Sei que os antros estão impregnados de histórias, como se fossem jardins. A gente só precisa ter um olhar mais aguçado e ir lá e colher as histórias. Mas nem sempre é assim. Também é preciso cavar, escalar montanhas, descer aos infernos para se ter um pouco dessa literatura, que pode ser o fim de toda a vida, mas pode também ser a redenção.

Chega de papo. Dou um trago no cigarro e outro no copo. Vou agora passar para o papel tudo aquilo que está guardado aqui, no coração, na cabeça, na medula, no sexo. E talvez um dia, mesmo passados cinquentas anos após a minha morte, alguém poderá encontrar algum escrito meu que ficou perdido por aí e esse alguém possa ter uma vaga ideia de que existiu um escritor que chamou a si mesmo de maldito e esse escritor fui, sou eu. E tenho dito.

Não tire seu cavalinho da chuva

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Leio na internet que vai cair chuva, mas não é aquela chuva que aguardamos há tanto tempo. É chuva de meteoro. Quê isso? Será que os deuses lá de cima estão entendendo errado as nossas preces? A chuva que queremos é a nossa mesmo, de água límpida e necessária.

A chuva está se anunciando há alguns dias. Chegou até a cair umas gotas devidamente festejadas por quem espera, como eu, que ela caia em toda a sua magnitude. Agora mesmo, enquanto escrevo, algumas gotículas atravessam a janela e vêm pousar na mesa, bem ao lado do computador.

A chuva está vindo, aos poucos, meio tímida, mas não é assim que nós a queremos. Queremos que ela chegue farta e poderosa, escandalosa, espalhafatosa, gostosa. Que ela lance a sua magia e nos faça retornar aos quintais da nossa infância. Que ela venha, banhe as avenidas e afogue os 50 tons de cinza da fumaça que infesta a cidade. Que ela apague as queimadas que incendeiam Macapá e o mundo. Que dissipe a lama que afogou Mariana e ameaça outras cidades que têm mineradoras ao seu redor. Que ela lave aquela outra chuva: o dilúvio de escândalos de corrupção que inundam os meios de comunicação.

A chuva virá, impávida que nem Muhammad Ali, tranquila e infalível como Bruce Lee. E vamos inverter o ditado. Em vez de tirar o cavalinho da chuva, vamos colocar o cavalinho na chuva. Vamos deixá-lo livre, brincando, esperando e torcendo. Eu sei que ele está louco pra tomar banho de chuva, junto com todos nós.

Sei também que estou repisando este assunto. Creio que isso se deve à vontade que estou de sentir a chuva. Tomara que ela venha, me faça mudar de assunto ou simplesmente me deixe continuar chovendo no molhado.

Neste final de ano, feliz chuva pra todo mundo.

Neste texto, fiz referência à canção Um Índio, de Caetano Veloso.

Pedalando na chuva – Crônica porreta de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

A chuva bateu na janela do meu quarto. Estava me convidando pra sair. Ela sempre faz isso. Demora pra chegar e quando chega é devagarinho. Ainda vem chuva da grossa por aí, mas deixa ela assim, fazendo esse suspense. Segunda-feira, 11 de janeiro, pela manhã, caiu uma chuva forte em Macapá (não tão forte como as que ainda vêm) e ficou pingando de leve durante quase todo o dia. Pois bem, essa chuva bateu na minha janela e eu fui ao seu encontro. Peguei a minha bicicleta e fui desbravar essa segunda-feira chuvosa.

Eu contrario o serviço de meteorologia dos telejornais. Acho uma injustiça tremenda quando aquelas garotas bonitas que comentam o clima dizem que vai cair chuva em tal lugar do país e por isso vai ser tempo ruim. Ruim pra quê? Ruim pra quem? Quem disse que chuva é ruim? Em princípio não é. Pode ser que caia um temporal que inunde tudo e isso é ruim. Mais por culpa daquela parcela da população que joga lixo nos esgotos, que entope os canais, do que da chuva propriamente dita. Mas voltemos ao tema inicial, que isso pode dar numa outra discussão e o que me interessa da chuva neste momento é a sua poesia.

Quem não gosta de um banho de chuva? Tem que ser muito sem graça pra não curtir. Ainda que as demandas do dia a dia nem sempre nos permitam essa modalidade de liberdade, não podemos nos esquecer das abençoadas chuvas da nossa infância, adolescência, vida enfim. Os pingos batendo no rosto, a brincadeira de pular nas poças e levantar água, o vento cortando e nos obrigando a manter o corpo em movimento pra que ninguém morra de frio. Que delícia!

Proponho uma vingança sempre que o serviço de meteorologia classificar dias chuvosos como tempo ruim. Vamos sair das casas, dos escritórios, dos bares, e invadir as ruas. A pé, de tênis, descalço, de bicicleta, de skate, seja como for. Vamos mergulhar nesse mar que inunda a cidade de liberdade, de sonho, de esperança.

Quem já tomou banho de chuva aí levanta a mão!

Em Macapá é assim – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Prestando atenção no modo de ser e falar desse povo, do qual orgulhosamente faço parte há 21 anos, saiu este texto. Ele é minha homenagem aos 261 anos de Macapá.

Sobre uma mulher bonita, diz-se: – Presta muito!

Sobre quem está doente ou sem dinheiro: – Esse tá blefado!

Sobre uma festa: – É um piseiro!

Sobre um lugar muito cheio de gente: – Tá teitei!

Sobre alguém afobado: – Esse tá afudegado!

Sobre alguém que vai transar: – Esse vai furar couro!

Sobre algo feito rapidamente: – É um-dois!

Quem vai passar o fim de semana no sítio: – Vou para o terreno.

Quando um papagaio corta outro, a garotada grita: – Au vaite-se! (com as variações Au vai-se! e Ovaite-se!).

Quando a coisa comentada não merece muita atenção: – À toa…

Quando alguém é muito sorridente, alto astral, alegre: – Hummm… Só ele quer ser feliz…

Se alguém marca um compromisso para, digamos, meio-dia: – Vamos nos encontrar de meio-dia.

E a campeã das campeãs das expressões: quando algo ou alguém escandaliza ou surpreende ou causa muita admiração, fala-se o indefectível: – Fooooooda-se! E quando a pessoa quer amenizar a expressão, vira: – Fôôôôôôlego!

*** *** *** *** ***

Claro que tem muito mais e vou contar com vocês para completar esta crônica. Quem conhecer outras expressões acrescente aí nos comentários. Tenho que sair agora porque deu uma vontade de… – Tu saaaabes, Patinhas…

À venda – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

O Brasil é tristemente notabilizado pela corrupção. E eu, brasileiro confesso, não me confesso corrupto. Mas estou reivindicando meu direito à corrupção. O lado ativo da corrupção, quero dizer. Aquele que se dá bem: não trabalha, enriquece e se aposenta em pouco tempo e com uma aposentadoria porruda. Talvez eu esteja prestando um desserviço à minha consciência e a tantos irmãos brasileiros, que se mantêm honestos toda a vida, mesmo em meio a tanta roubalheira, falcatrua, mamata, negociata.

Claro que isso que estou escrevendo é fruto de desesperança e serve pra exorcizar esse sentimento de impotência e revolta diante dos fatos que se descortinam nos meios de comunicação envolvendo os nossos parlamentares, governantes, “autoridades”.

Por que estou sempre entre as vítimas da corrupção? Se desviam dinheiro da saúde, sou eu que sofro, que tenho que ir marcar consulta de madrugada, pra ser atendido daqui a três meses, que não consigo leito nos hospitais, que tenho que dormir jogado no corredor, que sofro com a falta de medicamento. Se a escola não oferece condições necessárias para o aprendizado, porque o desvio de verba deixa toda a educação à míngua, adivinhe quem será afetado: os meus filhos. Se um grupo político rouba a grana do asfalto, quem cai no buraco da rua? Euzinho aqui. Por isso, resolvi que, se alguém tem que ser lesado nessa história, não serei eu. Não mais.

Eu quero ser corrupto, mesmo que me sinta incompetente pra tal função. E não é brincadeira. Já tentei ser corrupto e vejam só o que aconteceu.

Certo dia, me coloquei na esquina de casa segurando um cartaz. Era um pedaço de papelão com uns garranchos feitos com caneta piloto: “Estou à venda. Aproveitem. Preço de ocasião. Quem dá mais?”.

Devo ter cara de honesto mesmo, pois passei o dia inteiro na esquina segurando esse cartaz e ninguém se interessou. Nem uma tentativa sequer de suborno, nem um convite pra participar de uma maracutaia qualquer. Nem pra ser laranja, o laranja mais otário, aquele que só está no lance pra levar toda a culpa se tudo der errado. Nem pra isso me convidaram.

Resolvi fazer um curso intensivo, uma graduação na área. Catei as minhas últimas merrecas e parti pro maior centro de corrupção do Brasil, talvez do mundo, já que Sodoma e Gomorra foram riscadas do mapa há muito tempo pela ira divina. Cheguei a Brasília, me deparei com aquele antro do crime institucionalizado e respirei bem fundo, pra ver se me entranhava daquele ar viciado de corrupção.

Os corruptos profissionais me ignoraram completamente. A maioria é muito ignorante mesmo e o que resta aos ignorantes é ignorar. Só não ignoram a arte de enriquecer ilicitamente. Além do mais, não fui num período eleitoral, não estavam em campanha, logo não precisavam do meu voto. O único político que notou minha presença me deu um forte abraço e disparou um sorriso onde brilhavam seus caninos de vampiro muito bem cuidados. Estranhei, claro, mas o fato se esclareceu logo. O sujeito me deu aquele tradicional tapinha nas costas e se perdeu no meio da quadrilha. Fui procurar minha carteira, com meus últimos tostões e… nem sinal! O cara tinha levado tudo!

Eu, ovelha pirenta andando entre os lobos granados, empanturrados do meu dinheiro e dos seus, caríssimos leitores, voltei a pensar numa coisa bem irônica que de vez em quando me vem à cabeça: as pessoas morrem de medo de ser assaltadas por quem anda vestido de camiseta, bermuda e sandália e são assaltadas todo dia por quem usa paletó, gravata e os perfumes mais caros, pra cobrir o cheiro da podridão de caráter.

Voltei pra minha cidade, antes de ser totalmente tosquiado, e sigo minha vida de cidadão honesto, já que não sei ser de outra forma. E, para que esta crônica não termine em baixo astral, acredito que esses caras vão prestar conta com suas consciências, se é que eles têm isso e se é que vai chegar algum dia o momento da prestação de contas. O que me resta é seguir o conselho do meu pai, outro honesto incorrigível, esse bem das antigas mesmo, um incorruptível raiz. Ele sempre dizia que trabalho e honestidade são valores que jamais devem ser esquecidos e que, ainda que sejam motivos de chacota, um dia farão toda a diferença.

Verônica, a submersa (conto porreta de Ronaldo Rodrigues)

 
Quando Verônica chegou em casa eu era uma criança a mais numa família de noventa e oito irmãos. Naquela cidade eram comuns famílias numerosas, que envelheciam muito cedo.
 
Verônica, quieta, tranquila, limitava-se a permanecer no fundo do tanque que lhe fora destinado. Comia pouco, apenas algumas algas que brotavam nas paredes do tanque. Parecia resignada, mas havia algo de resoluto em seus movimentos. Uma silenciosa determinação. Uma calma revolucionária, que tanto afligia quanto encantava. Sua diáfana presença a tornava forte, intacta.
 
Verônica gostava da minha companhia. Nos entendemos bem desde o primeiro olhar. E sem trocar palavras. A cumplicidade de nosso silêncio nos bastava. E nos fortalecia.
O silêncio selou um pacto entre nós. Eu arquitetei um plano para tirá-la daquela casa onde aprisionavam lindas mulheres em tanques frios e não davam a mínima atenção. Deixavam lá, no fundo do quintal, como prova de algo que eu não conseguia compreender.
 
Verônica era altiva e simulava distância de sua condição de prisioneira. Quando eu entrava para dormir, ficava imaginando Verônica entre as pedras do tanque. Linda. Enigmática. Verônica.
 
Finalmente, chegou o dia de realizar o plano. Acordei bem cedo, antes de todos. A casa era enorme e foi trabalhoso atravessá-la no escuro, desviando de tantas redes.
 
Eu estava fugindo de casa levando Verônica num aquário gigantesco, roubado no dia anterior. O aquário, preso a uma plataforma com rodinhas, era frágil, mas daria para chegar até o rio.
 
Rapidamente, Verônica foi remanejada do tanque para o aquário. Tudo aconteceu conforme o plano e chegamos ao rio antes que dia clareasse. Eu estava esgotado pelo esforço de empurrar aquele aquário imenso pelas trilhas tortuosas da floresta. Verônica me animava com seu olhar completo, inquebrantável.
 
E foi com o olhar que Verônica me fez compreender que nossa história de amor era impossível. Eu não poderia acompanhá-la, por não poder viver dentro d’água. Ela não poderia ficar comigo, por não poder viver fora d’água. Era uma barreira definitiva. Eu precisava compreender.
 
E compreendi. Verônica foi lançada ao rio e mergulhou bem fundo até desaparecer. Antes, acenou com os olhos, que transbordavam lágrimas iguais às minhas. A lembrança de seus olhos ficou comigo pelo caminho de volta para casa e por toda a minha vida.
 
Outras mulheres foram morar no velho tanque, ao longo dos anos. Belas e silenciosas como Verônica, que também precisavam de liberdade. Mas eu já estava velho demais para pensar em libertá-las. Como disse no começo desta história, envelhecia-se muito cedo naquela cidade.
 
Ronaldo Rodrigues

Não joga pedra na Geni (conto de Ronaldo Rodrigues)

“De tudo que é nego torto / do mangue e do cais do porto / ela já foi namorada”. Eu era um perdido no caos do porto da vida e ela me amava assim mesmo. Desconsiderava minhas feridas e lambia meu corpo inteiro. Me colocava pra dormir em sua cama de papelão, sob a marquise de alguma loja. Ou no chão de um banheiro imundo. Ela acolhia a todos os famintos e dava de comer. Os que tinham frio, ela aquecia entre seus seios. Eu era mais um em sua teia, mas cada um sabia que era único. 

 
Ela nos fazia amados e preparados pra amar. Nos fazia crer que era possível continuar a sugar da vida tudo o que ela trazia de bom. O que era ruim já se conhecia tanto. Não devíamos desperdiçar energia em ofícios vãos, preocupações metafísicas, o segredo dos astros, a fofoca da esquina. Que vivêssemos! Vivêssemos! Vivêssemos! Só isso!
 
Ela não fraquejou nem quando a carruagem parou na entrada do beco. O Dono do Mundo desceu reclamando suas carícias. Ele desejava ter aquela mulher que tantos tinham. Ele começou oferecendo dinheiro, joias, roupas, viagens ao exterior. Ela disse não a um homem que não estava acostumado a ouvir essa palavra tão pequena na forma e tão grande em sua significação. Ele ofereceu toda a sua fortuna e ouviu outro não. 
 
Por fim, ofereceu apenas o seu amor. Quando ela duvidou disso, ele passou à chantagem. Colocou todos nós, os mendigos, como reféns. Ele só queria uma noite de amor, senão mandaria nos matar. Ela olhou o Dono do Mundo por longo tempo. A limpeza de suas ricas roupas a enojava. Seu perfume caro causava náuseas. Seu sorriso com todos os dentes lhe dava repugnância. Ela nos olhou e sorriu. Aceitaria aquela tortura por nós. E nós, covardes, não fizemos um gesto de impedimento. Também podíamos tão pouco. Ele apenas anteciparia a matança. 
 
“Ele fez tanta sujeira / lambuzou-se a noite inteira” e foi embora, nos deixando vivos. Ela nos abraçou e abençoou nosso cheiro azedo, nosso hálito de cachaça, tabaco e fome. Aquele homem que era dono de tudo não era nada perto de nós. E se a cidade toda quiser, um dia, apedrejá-la vai encontrá-la subindo aos seus céus, como uma santa, levando pelas mãos todos os perdidos.
 
Ronaldo Rodrigues
*Geni e o Zepelim – Letícia Sabatella (Chico Buarque):

Solidão (crônica de Ronaldo Rodrigues)


É possível que minha vida faça parte de um filme. Se assim for, gostaria que a câmera pegasse um ângulo favorável do meu rosto. Meu nariz é torto visto de frente. Bobagem.
 
Alguém abre a porta e mete a cara. Levanto a cabeça, por não ter muito o que fazer, a tempo de ver uma mulher fechando a porta, com um certo ar de decepção. Por falar em ar, nesta sala de leitura tem um cartaz pedindo silêncio, bem abaixo de uma central de ar condicionado que faz um barulho dos infernos. A muito custo é possível não deixar que o barulho atrapalhe a leitura.

O sol entra pela vidraça. Em breve será noite, a biblioteca irá fechar e eu terei que levar minha solidão para se distrair em outro lugar. Solidão é um bicho que fica fazendo cócegas aqui dentro.
 
Em meio a tantos livros, fico pensando como seria minha vida se eu fosse um autor consagrado. Um cara que escreveu só um livro e ficou rico e famoso com ele. E nunca mais teve que trabalhar. Outro tipo de solidão vem mostrando suas garras, junto aos últimos raios de sol desta tarde igual às outras tardes, antecedendo uma noite igual às outras noites.
 
Saio da biblioteca e vou procurar refúgio. Atravesso a praça, olhando o grande relógio da matriz. O tempo é parceiro inseparável da solidão. Mas o tempo não me diz nada, não marquei encontro com ninguém, não tenho plano algum. No momento, estou no centro da praça e as nuvens anunciam tempestade. Gostaria imensamente que um raio caísse em cima de mim e eu pudesse concluir este texto.
 
Ronaldo Rodrigues

Super-herói da Amazônia em mais uma missão

De mão em mão

Impressão xerográfica e venda de mão em mão. É assim que o Capitão Açaí chega aos seus inúmeros leitores. O Capitão Açaí é um personagem criado em Belém que vive em Macapá, junto com seu criador, o cartunista Ronaldo Rony, há 21 anos. Chegou a ser publicado em tiras diárias, em 1996, no jornal A Província do Pará e, hoje, aparece em revistas produzidas artesanalmente, com periodicidade aleatória. O personagem é um super-herói às avessas, nos moldes do Chapolin Colorado, que desempenha suas missões em meio a muitas trapalhadas.

Superforça

Os poderes do Capitão são alimentados por uma fórmula infalível: uma cuia de açaí grosso com farinha baguda. Essa mistura dá uma força fenomenal, mas, com a força, vem também a preguiça e o sono, que dão o tom engraçado ao personagem e marcam suas histórias.

Sucesso com a criançada

O Capitão Açaí não foi pensado inicialmente para o público infantil, mas faz um grande sucesso junto às crianças. Por isso, o autor Ronaldo Rony, sempre que possível, dá um enfoque educativo às intervenções do super-herói. O cartunista afirma, filosoficamente: “O Capitão Açaí é uma leitura para as crianças e também para os adultos que mantêm viva a criança interior”.

Pelo açaí raiz

A nova aventura traz o herói travando uma batalha a favor do açaí tradicional, cujo final você vai saber, claro, comprando a revista no lançamento ou em algum ponto da cidade em que o autor se encontre. Ajude este super-herói tucuju (e o seu criador) a sobreviver.

Serviço:

Lançamento da revista do Capitão Açaí: produção artesanal, impressão xerográfica, tamanho A4, 20 páginas, capa colorida, miolo P&B, preço: R$ 10,00 (se o choro for bom, o autor faz um desconto).
Dia: 12 de janeiro de 2019
Hora: 18h
Local: Biblioteca Pública Elcy Lacerda

Assessoria de imprensa do Capitão Açaí