Ronaldo na área – Crônica de Ronaldo Rodrigues e imagens de Ronaldo Rony

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Atenção, galera! Ronaldo entra em campo aos 44 minutos do segundo tempo para virar esse jogo! Agora o time engrena!

Não, senhoras e senhores! O Ronaldo a que me refiro não é o gajo Cristiano Ronaldo, o maior jogador do mundo da atualidade (pra você ver como o mundo e a atualidade andam carentes). O Ronaldo portuga mais parece um vaidoso pavão do que um jogador de futebol (aliás, como a maioria dos jogadores de agora).

Mas deixa ele pra lá e passemos a falar do Ronaldo que interessa. Além dos Ronaldos que já tivemos, o Gaúcho e o Fenômeno, o nosso futebol conta com o Ronaldo Anônimo, que reivindica agora, através desta crônica, seu justo lugar na História das Copas.

O COMEÇO DE TUDO

Inglaterra 1966

O Brasil já tinha perdido o complexo de vira-lata e vencido duas copas (Suécia/1958 e Chile/1962). Mas a nossa seleção se apresentou de maneira pífia e não trouxe a taça. Tudo porque o nosso Ronaldo não tinha sido convocado.

México 1970

Brasil Tricampeão. Ronaldo foi novamente ignorado e o mundo deixou de presenciar seu jovem talento. Tudo bem que ele só tinha 4 anos de idade, mas custava o técnico Zagallo dar uma chance à nova geração?

A ASCENSÃO DE UM ASTRO

Ronaldo foi crescendo e o craque se revelando. O técnico insistia em deixá-lo no banco de reservas, mas a torcida já reconhecia seu talento precoce e exigia sua entrada em campo.

Aos 10 anos, Ronaldo declarou todo o seu amor ao futebol, em vários idiomas, pra deixar claro que sua intenção era ser astro internacional.

Era uma paixão não correspondida. Ronaldo amava o futebol e o futebol o desprezava totalmente.

Argentina 1978

Apesar de não contar com Ronaldo, que continuava sem sua merecida chance, o Brasil não teve uma derrota sequer e, mesmo assim, não trouxe a taça. A anfitriã venceu o torneio com um time bom, a violência de sempre e a decisiva ajuda da ditadura argentina.

Espanha 1982

Ronaldo tentava de tudo para se inserir no mundo do futebol, mas nem como torcedor se dava bem. O futebol-arte do Brasil caiu diante da pálida Itália, que fazia uma Copa muito da miada. Poderíamos até empatar que a classificação viria, mas o até então apagado Paolo Rossi resolveu desencantar justamente naquele dia e fez três gols. A seleção canarinho voou de volta pra casa e Ronaldo levou toda a culpa.

México 1986

Onde estava Ronaldo? Assistindo pela TV ao show de Maradona, fazendo, contra a Inglaterra, um gol de malandragem com la mano de Dios e outro de extrema habilidade, quando enfileirou metade do time bretão. O Brasil foi eliminado pela França nos pênaltis e Ronaldo continuou seu sonho de um dia disputar uma Copa.

Itália 1990

A era Dunga não decolou. O Brasil foi desclassificado pela Argentina, num gol de Caniggia, recebendo o único passe que Maradona conseguiu fazer em todo o jogo.

Estados Unidos 1994

Acaba o jejum de 24 anos e o time mediano do Brasil sagra-se campeão nas terras do Tio Sam. A torcida teve que se contentar com um xará do nosso craque, que não saiu do banco.

França 1998

O Brasil amarelou na final e Zidane comandou a vitória da anfitriã. Culpa de quem?

Japão e Coreia do Sul 2002

Desta vez, acontece um fenômeno. Ronaldo faz dois na Alemanha e o Brasil é penta.

Alemanha 2006

Ah! Deixa essa Copa pra lá! A única coisa legal foi a cabeçada do Zidane no Materazzi!

África do Sul 2010

Outra chatice! Essa foi tão meia-boca que até a Espanha ganhou…

Brasil 2014

Nesta Copa, Ronaldo foi mais um dos brasileiros que conseguiram transformar em piada o que teria sido uma tragédia.

Rússia 2018

Mesmo com 52 anos, Ronaldo não para de treinar e ainda acredita em uma convocação de última hora. A torcida do Brasil está meio desmotivada, mas vamos deixar a bola rolar e ver no que vai dar. Pior do que tá não fica, como disse aquele pensador contemporâneo. Ronaldo está aí e, caso seja convocado, ainda tem muito jogo pra mostrar.

* Imagens de Ronaldo Rony.

A Moça do Tempo (Crônica firmeza de Ronaldo Rodrigues)

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Crônica de Ronaldo Rodrigues

Aos 19 anos, Mariana completou 30.

Sempre à frente de seu tempo, Mariana menstruou aos 70 e perdeu a virgindade aos três.

O tempo era seu passatempo. Seus banhos demoravam duas semanas, mas para comer cinco pizzas e três refrigerantes, dois segundos e meio bastavam.

Mariana se casou com seu avô, este com sete anos. Seu filho mais velho nasceu depois dos trigêmeos, que vieram ao mundo separadamente, em Estocolmo, Kingston e Bruxelas.

Seus netos a conheceram na festa de seu 15º aniversário, quando ela, já completamente senil, ainda não havia nascido.

Sempre que perguntada pelas horas, Mariana respondia que faltavam quinze dias para dois minutos, tempo em que viriam o calor infernal do inverno, as flores no outono, a primavera hostil e o verão glacial.tempo3 (1)

Mariana começou a escrever suas memórias antes dos 150 anos e as concluiu com apenas dois dias de nascida.

Seus pais começaram a namorar 20 anos antes de se conhecerem.

Depois do mestrado e doutorado, Mariana ingressou na alfabetização, onde aprendeu a ler todos os livros que ainda não haviam sido escritos. Foi quando Mariana pediu um tempo ao tempo……………………………………………………………


Então, todos os relógios do mundo marcaram a mesma hora. Quando seu primeiro ancestral iniciou sua proliferação, bem no começo de toda a existência, o tempo fechou para Mariana. As ampulhetas explodiram e os relógios, com seus ponteiros apontados para ela, gritaram numa só voz:

– Seu tempo acabou! Seu tempo acabou! Seu tempo acabou! Seu tempo acabou! Seu tempo acabou! Seu tempo acabou! Seu tempo acabou! Seu tempo acabou!

Ronaldo Rony definitivo (pelo menos, por enquanto…) – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Aconteceu uma coisa legal na carreira do Ronaldo Rony e ele achou que seria procurado para algumas entrevistas. Como isso não ocorreu, ele convocou o escritor Ronaldo Rodrigues, com quem tem uma certa (ou incerta) afinidade, e este levou um papo definitivo com o nosso cartunista. Vamos à entrevista!

Ronaldo Rodrigues: Olá! Estamos aqui com o cartunista Ronaldo Rony e vamos logo ao assunto: fala aí, Ronaldo Rony, o que é um cartunista?

Ronaldo Rony: Cartunista é o cara que desenha humor, faz graça com o cotidiano, extrai de fatos corriqueiros o tema para os seus desenhos. Gosto sempre de usar uma frase minha que acho muito legal: cartunista é o artista que fala sério brincando, enquanto a maioria das pessoas brinca de falar sério.

Ronaldo Rodrigues: Legal mesmo! Agora, a pergunta clássica que sempre está na pauta de quem entrevista cartunistas: qual a diferença entre charge e cartum?

Ronaldo Rony: A charge tem a ver com um fato jornalístico da atualidade, algum assunto que esteja em destaque no Brasil e no mundo. Ela tem data de validade porque, como a história e a vida são coisas dinâmicas, os assuntos vão sendo substituídos numa velocidade grande. A charge perde o impacto depois que o fato ou a pessoa deixa de ser notícia. Já o cartum é mais livre no sentido de tu teres uma ideia dentro de qualquer tema e fazer um desenho que pode ser entendido na maioria dos lugares do mundo e em qualquer época. O cartum é atemporal, ele retrata conceitos que não prescrevem e não perdem o impacto passe o tempo que passar. E pode ser algo que nem precisa provocar imediatamente o riso. Pode provocar estranheza, reflexão, dúvida… Pode ter uma pegada mais filosófica ou poética e tal.

Ronaldo Rodrigues: E a caricatura?

Ronaldo Rony: A caricatura é o retrato de uma pessoa com exagero nos traços, mas que não deixa de mostrar a semelhança entre o desenho e a pessoa desenhada.

Ronaldo Rodrigues: Tu fazes caricatura?

Ronaldo Rony: Essa é outra pergunta que sempre fazem. Mas eu não faço. Às vezes, eu consigo, mas não é algo que eu domine, portanto digo que não faço.

Ronaldo Rodrigues: Sei que tens vários personagens, mas eu gostaria de enforcar um em especial: o Capitão Açaí!

Ronaldo Rony: Pois é! O Capitão Açaí tem mais de 20 anos, surgiu quando eu morava ainda em Belém. Como o açaí é um produto bem característico de Belém, eu pensei num super-herói que obtivesse seus poderes tomando açaí. O açaí dá uma força imensa para o cara, mas vem acompanhado do sono, que é também imenso. E é com essa preguiça, mas com muito boa intenção, que o Capitão Açaí tenta resolver os problemas de quem precisa dele.

Ronaldo Rodrigues: E onde esse personagem aparece?

Ronaldo Rony: Ele foi publicado em tiras diárias em 1996 num jornal de Belém que já nem existe mais, A Província do Pará. Falar na Província é bom porque foi lá que publiquei meu primeiro desenho de humor, em 1986, quando eu tinha 20 anos. Esse jornal, através da página Xibé, deu espaço para cartunistas que começavam naquela época e hoje estão aí, como eu, Paulo Emmanuel, Junior Lopes, Atorres. Hoje, fazemos parte de um time muito bom de cartunistas do Pará, que conta com Biratan Porto, J. Bosco, Ropi, Luiz Pinto, Walter Pinto. Voltando ao Capitão Açaí, ele é o personagem que mais aparece. Olha ele aqui!

Ronaldo Rodrigues: Nós temos a notícia de que tiveste, muito recentemente, trabalhos selecionados em salões de humor! Fala aí pra gente sobre isso!

Ronaldo Rony: Pois é! Foi pra falar disso que vim aqui! Primeiro é bom falar o que é um salão de humor, que muita gente pensa que é festival de stand-up! Salão de humor é uma espécie de concurso de desenhos de humor. É lançada uma convocatória, o cartunista se inscreve, manda os trabalhos via Correio e, agora, pela internet. Aí tem a seleção, depois a exposição dos trabalhos, a premiação em dinheiro. Muitos salões publicam catálogos bem produzidos, com todos os trabalhos selecionados. O barato disso, pra mim, quando sou selecionado, é ver meu trabalho escolhido entre mais de 1.500, às vezes bem mais, de todas as partes do mundo.

Ronaldo Rodrigues: Diz aí alguns salões que já contaram com desenhos teus!

Ronaldo Rony: Fui premiado em dois: Salão Ri… Guamá, promovido pela Universidade Federal do Pará, em 1992. Em 2004, fui primeiro lugar no Salão de Humor de Bragança, Pará, com este desenho.

Ronaldo Rodrigues: Legal! E as outras participações?

Ronaldo Rony: Lá vai minha pequena galeria de títulos: Piracicaba, Campina Grande, Ceará, Pernambuco, Bahia, Volta Redonda. Fora do Brasil: Uruguai e Sérvia. Abaixo alguns catálogos de salões:

Ronaldo Rodrigues: E as mais recentes participações? Que é sobre isso que vieste falar aqui.

Ronaldo Rony: O 9º Salão Medplan de Humor, no Piauí, de 2017. E o mais recente: o 10º Festival de Humor da Amazônia, que vai rolar em Belém agora, de 1º a 10 de junho. O tema é Ecologia no Traço, o desenho que classifiquei foi este e ao lado tem a lista de selecionados:

Ronaldo Rony: O fato de enviar trabalhos para esses salões e ser classificado é uma maneira que tenho de me manter ativo dentro da cena, além de incentivar cartunistas de Macapá, que ainda estão engatinhando nessa área, a também enviarem seus trabalhos. Quando um desenho consegue varar, como se diz aqui, é motivo de comemoração e eu faço a maior onda! Por isso te convidei pra me entrevistar e falar disso. Abaixo, alguns desenhos selecionados em salões:

Ronaldo Rodrigues: Muito bom falar contigo! E esta é mesmo, como disseste nos bastidores, tua última entrevista, a definitiva?

Ronaldo Rony: Sim! É a definitiva! Ou quase…

A morte, a morte e a morte de Arthur Leandro – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Não se trata de exagero no título desta crônica. Para tanta vida como ele tinha e esbanjava, só mesmo três mortes para encerrá-la (caso seja isso. Ainda acho que se trata de mais uma de suas obras).

Em 2001 e 2002, Arthur Leandro publicou o anúncio de sua morte no jornal de maior circulação de Belém. Isso muito antes do fake news ou do termo se tornar popular. Era mais uma gozação, uma piada, mostrando que sua verve não poupava nem a própria vida, muito menos a credibilidade do jornal e do tipo de jornalismo que o Arthur combatia. Melhor dizendo: não era uma piada. Era uma intervenção artística com todos os requintes de seu anarquismo cultural-guerrilheiro, feita para incomodar, sim, mas também para provocar a reflexão sobre a possibilidade de se usar todo e qualquer veículo para se fazer e discutir arte.

Desta vez, parece que sua morte é de verdade. Escrevo “parece” porque o Arthur Leandro é (não vou usar o termo foi) desses artistas que surpreendem a qualquer momento, em qualquer situação. Claro que, por sua rebeldia, Arthur Leandro jamais seria unanimidade entre os que conheciam o seu poder de invenção. Ele era o escracho diante de pessoas lineares; era o deboche para pessoas enquadradas; era um acinte aos medíocres. Mas, para quem o compreendeu em meio a esse turbilhão de irreverência, ele é uma mente criativa, de inquieta imaginação, de incansável disposição para a luta em todas as frentes em que esteve empenhado.

Tive o prazer e a honra de estar com o Arthur Leandro em intervenções artísticas que ele instigou e encontrou abrigo no grupo de malucos em que eu me inseria: o Urucum. Em 2001, numa tarde ensolarada de setembro e contrariando o desejo de quem queria se livrar das andorinhas que infestavam os fios elétricos da esquina Padre Júlio/Cândido Mendes, nós espalhamos mais de 500 penicos para recepcionar o batalhão de pássaros e decepcionar o bando de gente desprovida de sensibilidade. Depois, vieram várias intervenções.

Pois é. Terminado o tempo que estipulei para mim mesmo, achando que o Arthur ia aparecer para desfazer a brincadeira, já estou dando como certa sua morte. Já o vejo na barca de Caronte fazendo a festa até chegar ao paraíso ou ao inferno reservado para as mentes e os corações apaixonados pela vida. Chegou em algum lugar e esse lugar deve estar muito animado.

Este mundo tão carente de pessoas assim, fica ainda mais órfão, menos interessante. Mas, para quem conheceu o Arthur Leandro, fica a lição e a missão de jamais se conformar com o tédio, com a falta de opção e enfrentar a vida alternando o mais terrível palavrão com a doce generosidade de quem leva às últimas consequências o ato de viver.

Valeu, Arthur Leandro!

Maldição! – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

De dois em dois anos, ele levanta a tampa do caixão, olha em volta, conferindo o ambiente, com seus olhos vermelhos de tanta cobiça guardada em todo o tempo em que ficou hibernando no limbo. E sente que o momento é propício para sua saída.

Este tipo de vampiro, com sua fome de dois anos e ambição de cinco milênios, vem saciar sua necessidade de sangue fresco para manter sua vida de vampiro. Ele está, neste momento, junto com mais vampiros da mesma laia, em plena ação e toda pessoa acima de 16 anos está ao alcance de suas mãos sujas de lama, que ele consegue disfarçar muito bem, maquiando-as de modo a parecer as imaculadas mãos de um anjo.

Ele sai do caixão e confere seu visual no espelho, ainda que não se enxergue, já que é um vampiro e todo mundo sabe que essas criaturas das trevas não podem ter suas imagens refletidas por espelhos. Mas ele percebe que precisa mudar de visual para iludir o maior número possível de vítimas. Neste momento, a equipe de campanha se apresenta, liderada por um tipo tão asqueroso, mentiroso e arrogante quanto o próprio vampiro. Um sujeito torpe e vil que não sabe nada, mas é especialista em tudo, que passa a atender pelo nome nebuloso de marqueteiro.

Em pouco tempo, estão criados o slogan, a estratégia de campanha e o programa de atuação que o vampiro terá que empreender em defesa dos interesses de seus eleitores, na verdade, na defesa dos próprios interesses.

A marca está criada, estão feitas as fotos que serão disparadas nas redes sociais, os discursos estão escritos por especialistas na arte de dizer e não dizer coisa alguma, usando conceitos como qualidade de vida, mudança de paradigma, austeridade no trato da coisa pública e outras expressões que inundam as falas do nosso personagem.

E o vampiro aparece em todas as plataformas midiáticas, com seus caninos retraídos, retocados pelos photoshops do momento. Caninos que só voltarão a compor o sorriso maligno do vampiro após a apuração das urnas.

Caso seja eleito, o vampiro vai cumprir a liturgia do cargo: participar dos conchavos, mamatas e falcatruas próprios daquilo que ele compreende ser um mandato público. E vai exercer, com toda a sua fúria, o poder, agora oficial, que foi outorgado por seus eleitores, de destruir toda e qualquer esperança de melhoria para a parcela mais necessitada da população. Claro que com sua impunidade garantida pelo foro privilegiado.

Caso não seja eleito, não pense que estará livre dessa praga. Ele se recolherá à sua tumba para voltar daqui a dois anos e disputar nova eleição. Mas você sempre poderá encontrá-lo e, antes que ele faça a sua investida fatal, confronte-o com o voto na ponta do dedo e a estaca na palma da mão. É só cravá-la no peito do vampiro e se livrar dessa terrível maldição.

Dois textinhos para eu não perder o emprego neste site (crônicas de Ronaldo Rodrigues)

Crônicas de Ronaldo Rodrigues

Sabe aqueles macacos que são usados como cobaias de experiências científicas? Zé Chimpanzé era um desses, um dos mais procurados por cientistas malucos de todos os quadrantes. Ele era um superstar da categoria. Seu cachê era o mais alto. Zé Chimpanzé ganhou tanta notoriedade que sua agenda vivia lotada. Zé Chimpanzé era uma celebridade, sua fama atravessava fronteiras, sua fuça era vista com muita frequência na National Geografic. Mas um dia, cansado de tanta bajulação a que os grandes astros são expostos, entediado com os holofotes e já sem paciência com os paparazzi, Zé Chimpanzé isolou-se em seu castelo à beira-mar e nunca mais quis saber de ser11139583_10200353094787564_362736756_n cobaia de cientista maluco. Imitando Greta Garbo, Zé Chimpanzé repetiu a célebre frase da diva – “ I want to be alone!” – e entrou numa reclusão que dura até hoje.

*** *** *** *** ***

Sempre que Mona Lisa sorria enigmática, Leonardo errava a pincelada. A cada retoque, a Mona Lisa, a pintura, se parecia menos com a Mona Lisa, a mulher. Após dar por terminada a tela, uma das mais famosas do mundo, Leonardo teve que fazer uma cirurgia plástica na modelo, usando sua perícia como grande estudioso da anatomia humana, para que ela ficasse parecida com a figura retratada na pintura.

Foi tanta a euforia de Leonardo com a experiência que ele passou a se dedicar a retratos femininos, como o que fez de Marilyn Monroe, deixando para que Andy Warhol, já no extinto século 20 assinasse. Coisas de gênio.

Segundo de abril (lá vem o Gino de novo)

Crônica de Ronaldo Rodrigues
 
O editor deste site bota uma pressão de vez em quando. Desta vez foi assim: E aí? Alguma coisa para hoje (ontem), primeiro de abril?
 
Retornei dizendo que de mentira, até aquele momento, só o meu salário. Rsrsrsrsrsr.
 
Mas hoje, segundo de abril, eu tenho algo a mostrar. Seria (seria, não. É!) aniversário do Ginoflex. A gente sempre festejava (aliás, continua festejando. Mais tarde, vou tomar umas por ele).
 
Depois que passou dos 50, o Gino não sabia exatamente qual a idade que inaugurava a cada 2 de abril. E eu dizia que ele não tinha nascido no dia primeiro de abril porque ninguém acreditaria. O Gino, qual o Tim Maia, era um personagem que extrapolava a vida real, transgredia qualquer padrão de normalidade. Nem os mais criativos ficcionistas conseguiriam imaginar suas verídicas aventuras.
 
Então, este texto vai em homenagem ao Ginoflex, que estaria completando 59 anos. Ou 57. Ou 58. Impossível saber. Ele mesmo não sabia, já que documentos de identidade já tinham se desgarrado dele há milênios. Eu brincava dizendo que ele era tão velho que, para saber com exatidão os números de sua existência, teríamos que submetê-lo ao teste do carbono 14, aquele elemento químico que detecta a idade dos fósseis. Não à toa ele era também chamado de Ginossauro.
 

Imagino o Gino (des)organizando sua festa de aniversário lá onde esteja neste momento. Som chiadinho de discos de vinil, muita cerveja e aquele cigarrinho que o deixava irritado. Quando faltava.
 
Parabéns, Gino! Continuaremos por aqui, festejando, fazendo um brinde a cada respiração, enquanto não somos convidados a nos retirar desta festa nem sempre divertida chamada vida.

De Nazaré (conto de Ronaldo Rodrigues)

De Nazaré estava passando em frente ao bar e os outros estivadores assoviaram alegremente, chamando-o para um trago.

Bom de copo como de trabalho, De Nazaré pensou um pouco e concluiu que um convite feito com tanta sinceridade e alegria não poderia ser recusado.

Deixou a pesada cruz encostada ao lado do bar e abriu os braços para os amigos.

Todos gostavam de ouvir De Nazaré cantar, mas ele só fazia isso quando estava bastante embriagado. Então bebeu, de uma só vez, meia garrafa de pinga.

A bebida explodiu quente nas engrenagens cerebrais e despertou o cantor apaixonado que De Nazaré sonhou ser em sua juventude. Abriu a garganta, libertando o pássaro da voz, e fez com que todos ali esquecessem, por alguns instantes, a miséria quotidiana e a coroa de espinhos que eram obrigados a suportar.

Mais do que uma simples distração, as músicas eram um alívio, acentuado pelo entorpecimento da cachaça. Uma trégua para quem tem que colocar a carga do mundo nas costas e encher os porões dos navios.

Depois de algum tempo de cantoria, De Nazaré resolveu ir embora, continuar seu amargo ofício. Era quatro horas da madrugada e ele tinha que carregar mais algumas dezenas de cruzes antes do amanhecer. Homem de palavra, De Nazaré honra os compromissos e nunca deixou uma entrega por fazer.

Os outros estivadores bem que queriam que De Nazaré continuasse a cantoria, mas sabiam que eles mesmos teriam que se retirar para enfrentar o batente. Voltaram à realidade e se foram, deixando os restos de peixe frito para os cachorros do cais.

Sozinho novamente, De Nazaré sentiu os pingos da chuva que começava a cair. Tomou o último gole e, sob a precária iluminação do poste, recolocou a cruz no ombro e caminhou em direção à ponte de tabuinhas irregulares que levava aos navios ancorados na escuridão.

Ronaldo Rodrigues

I poema de hoje: Pedalando no Domingo de Páscoa – Ronaldo Rodrigues

Pedalando no Domingo de Páscoa – Ronaldo Rodrigues

Recentes estudos afirmam que a utilização
de bicicleta concentra o maior número
de energia positiva ao seu redor.
As bicicletas são responsáveis
pela emissão de eflúvios
de agradável aroma,
excelente fragrância,
que adornam, confortam
e embelezam a tarde.
Vamos fazer um pedal
neste Domingo de Páscoa.
Eu já estou ao léu
e sei que estou no céu.
De bicicleta eu vou.
De bicicleta eu voo.
Cada um
na sua nave,
na sua arte
que é parte
da nave-mãe.
Até amanhã.
De manhã
pela manhãe.

Malhando os malhadores (Crônica porreta de Ronaldo Rodrigues)

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Semana Santa. Sempre que chega esta data fico pensando no sentido de justiça de certas pessoas. Elas pegam Judas e fazem o diabo com ele. Malham o cara de todo jeito. Dizem que é a única forma de fazê-lo pagar pelo crime de ter traído Jesus. Isso é o que mais me preocupa. Se tudo já estava escrito, segundo a própria Bíblia, qual é a culpa de Judas? Se há culpa, é de quem escreveu.

Prefiro acreditar que Judas foi um elemento para que a história se cumprisse da forma que se cumpriu. Judas foi um aliado de Jesus e agiu daquela forma para que tudo saísse segundo o roteiro do Todo (Todo é como chamo o Todo-Poderoso na intimidade). Ora! Parem com esse negócio de associar o nome de Judas à traição. E parem de fazer essa justiça esquisita que comporta todo tipo de torpeza que vocês veem no cara, que condenam nos outros, mas que em vocês é aceitável.JUDAS (1) (1)

Traidores são vocês! Traidores da palavra de Deus! (vocês são quem vestir a carapuça). Na verdade, sou a favor da reabilitação de todas as figuras malditas da Bíblia, pelo mesmo motivo: não foram elas responsáveis por seus destinos. Como dizem os árabes: maktub! (estava escrito!).

Portanto, Judas, Caim, Lúcifer, Barrabás, Pilatos, Herodes etc. devem ser vistos como personagens desempenhando seus papéis. Aí algumas pessoas dizem que há o livre-arbítrio, que esses personagens poderiam ter tomado outro caminho. E como ficaria a palavra do Todo?

religiãoIINa verdade, os cristãos (a maior parte deles) confundem tudo. Esse papo de dizer que Jesus morreu para nos salvar acho exagero e injusto com o cara. Cada um tem que fazer por si, pela sua salvação, e não achar que está tudo bem, bastando ir à igreja rezar que – abracadabra – estamos salvos. Muito confortável, não acham?

Agora vou me despedir porque tem uma multidão de fanáticos correndo atrás de mim querendo me linchar. E olha que eles nem leram esta linhas. É que estou com barba e cabelo grandinhos e estão me confundido, claro, com Judas. Por que não me confundem com Jesus Cristo? Ah, daria no mesmo! Só que, em vez de me linchar, eles me colocariam na cruz. Ó my God!

Ronaldo Rodrigues

O monstro da lagoa – Crônica de Ronaldo Rodrigues


Crônica de Ronaldo Rodrigues

A lagoa está no maior marasmo. As águas tranquilas não indicam qualquer movimentação, nenhum rumor de vida acima e abaixo da lagoa. Mas essa aparente tranquilidade não significa sossego, serenidade, calma. Nada disso. Significa falta de vida, paralisia causada pelo medo. Ou somente cansaço.

Eis que um marulhar se ouve e alguns círculos se abrem na superfície da lagoa. Um olho aparece, depois o outro. Por fim, vê-se uma cabeça enorme surgindo de dentro da lagoa. É o monstro que hibernava em seu reino, lá nas profundezas da solidão, do descaso, do desprezo, e agora mostra sua gigantesca vontade de voltar à vida.

O monstro aparece e espanta o marasmo, a preguiça, a falta de tempo, a falta de vergonha e o excesso de desculpas esfarrapadas.

Pois esse é o monstro da inspiração, a serpente do brilho criativo, a bendita iluminação. Após um longo período, o monstro finalmente responde aos estímulos, à centelha, ao impulso de criar. Ele retorna livre, amparado pelas musas, encantado pelas músicas, pronto a produzir textos, desenhos, pinturas, acordes, coreografias que fazem com que este mundo possa respirar um pouco mais suavemente.

É assim o meu monstro. Ele fica por longo tempo sem querer ou sem poder sair do seu ninho, casulo, castelo, labirinto, canto de gaveta, que ficam lá no fundo da lagoa. Às vezes, bate um desespero e aquela sensação que assalta muitos seres criativos: será que a fonte secou? Os assuntos se esgotaram? Já não existem temas inéditos? Ou chegaram ao fim as formas novas de abordar os velhos temas?

Às vezes, é preciso que alguém venha jogar algumas pedras na água, gritar à beira da lagoa, desafiar os brios do monstro para que este retorne. É o que está ocorrendo agora, o meu monstro respondendo a uma provocação de um amigo que acredita na necessidade dos escritos e dos escritores para a sobrevivência do gênero humano na Terra. E que os monstros da inspiração devem ser frequentemente instigados para que não fiquem jazendo nas profundezas da lagoa. E que venham para a vida e que esta seja, assim, retomada.

Valeu, Elton! Taí uma crônica. Tuas provocações sempre funcionam.

No manicômio – Conto de Ronaldo Rodrigues

De repente, ouviu-se um barulho ensurdecedor. Era a tarde que caía.

O diabo do filho do vizinho passou com sua banda, fazendo um barulho dos infernos.

O silêncio que imperava pegou sua coroa e saiu de mansinho, já caindo no chão, morto de vergonha.

Sentiu-se um forte cheiro de tinta. Era a meninada pintando o sete.

Com uma enorme colher, a empregada alimentava a vã esperança de que tudo se ajeitasse.

As pessoas atiravam em todas as direções, tentando matar o tempo.

Ouviu-se uma pancada e um berro desafinado. O relógio tinha batido a hora errada.

O cheiro de comida veio da cozinha armado até os dentes de alho e invadiu a sala prometendo matar todo mundo… de vontade de comer.

Ronaldo Rodrigues

Pedalando na chuva – Crônica porreta de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

A chuva bateu na janela do meu quarto. Estava me convidando pra sair. Ela sempre faz isso. Demora pra chegar e quando chega é devagarinho. Ainda vem chuva da grossa por aí, mas deixa ela assim, fazendo esse suspense. Segunda-feira, 11 de janeiro, pela manhã, caiu uma chuva forte em Macapá (não tão forte como as que ainda vêm) e ficou pingando de leve durante quase todo o dia. Pois bem, essa chuva bateu na minha janela e eu fui ao seu encontro. Peguei a minha bicicleta e fui desbravar essa segunda-feira chuvosa.

Eu contrario o serviço de meteorologia dos telejornais. Acho uma injustiça tremenda quando aquelas garotas bonitas que comentam o clima dizem que vai cair chuva em tal lugar do país e por isso vai ser tempo ruim. Ruim pra quê? Ruim pra quem? Quem disse que chuva é ruim? Em princípio não é. Pode ser que caia um temporal que inunde tudo e isso é ruim. Mais por culpa daquela parcela da população que joga lixo nos esgotos, que entope os canais, do que da chuva propriamente dita. Mas voltemos ao tema inicial, que isso pode dar numa outra discussão e o que me interessa da chuva neste momento é a sua poesia.

Quem não gosta de um banho de chuva? Tem que ser muito sem graça pra não curtir. Ainda que as demandas do dia a dia nem sempre nos permitam essa modalidade de liberdade, não podemos nos esquecer das abençoadas chuvas da nossa infância, adolescência, vida enfim. Os pingos batendo no rosto, a brincadeira de pular nas poças e levantar água, o vento cortando e nos obrigando a manter o corpo em movimento pra que ninguém morra de frio. Que delícia!

Proponho uma vingança sempre que o serviço de meteorologia classificar dias chuvosos como tempo ruim. Vamos sair das casas, dos escritórios, dos bares, e invadir as ruas. A pé, de tênis, descalço, de bicicleta, de skate, seja como for. Vamos mergulhar nesse mar que inunda a cidade de liberdade, de sonho, de esperança.

Quem já tomou banho de chuva aí levanta a mão!

No meu tempo… (Crônica de Ronaldo Rodrigues)

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Bem lá no fundo da minha infância, sempre achava estranho quando ouvia meu pai dizer:

– No meu tempo não era assim. No meu tempo era assado.

Aí eu pensava (sim, senhores! Eu já pensava naquela época!): como assim no meu tempo? (quero dizer: no tempo dele). Se o sujeito está vivo, então o tempo que está rolando é o tempo dele.

Achava que aquilo era papo de velho. Achava bobagem. Acreditava que mesmo quando muitos janeiros passarem sobre minha carcaça, sempre estarei no meu tempo, porque o meu tempo é este tempo, o tempo que vivo.

Aí o tempo passou e me confere agora 52 anos vividos sobre este chão, sob este sol. Não sei se bem vividos ou mal vividos, só sei que idos. Percebi que comecei a envelhecer no exato momento em que fiz soar meu primeiro choro sobre a face da terra. Percebi que meu pai tinha razão. Afinal, este tempo, em que já cumpri mais da metade da minha existência (a não ser que eu seja, como muitos pensam, uma tartaruga e ainda tenha os meus 200 anos para viver) já me escapa entre os dedos. As areias da ampulheta já me sufocam, os papos que rolam já não têm nada a ver comigo, não aplacam minha ânsia de saber mais. Já me enchem o saco as coisas aprendidas, as discussões sobre a imortalidade da alma, o tempo perdido em discussões sobre a relação, as gozações nascidas no seio da turma. Vejam como estou velho. Já não se diz mais turma, agora é galera. As minhas gírias já são de outro tempo.

Eis outro exemplo: escrevo no computador, mas, de vez em quando, bate uma saudade danada da máquina de escrever. Aquela máquina em que escrevi meus poemas adolescentes. Uma adolescência de outro tempo, agora sei. A máquina de escrever que nunca aprendi a digitar. A digitar não, a datilografar. O meu diploma de datilografia na parede acusa meu tempo fora do tempo.

E essa vontade e velocidade toda para se comunicar. Redes sociais, amizades virtuais. Sei muito bem que estou ficando chato com esse papo, meu caríssimo leitor. Deve ser a velhice. Sou um homem imprensando entre dois séculos, compreenda isso. Não pertenço à tecnologia, à blogosfera. Não sei escrever como os internautas. Faço questão de pontos, vírgulas, clareza. Minha insistência nesse campo do computadorismo exacerbado deste tempo deve-se ao leve desespero de me manter no tempo. Sou um dinossauro deitado na rede escutando discos de vinil, fato ainda não explicado pela ciência.

Mas nem tudo é ruim, claro. Sinto em mim e em alguns dos meus companheiros de um remoto tempo que meus valores carcomidos pelo tempo não estão fora de moda, jamais estarão fora do tempo. Ainda penso em respeito ao próximo, coisa que as pessoas deste tempo estão perdendo, ao mesmo tempo em que disparam, nos facebooks da vida, frases de confiança no ser humano. Pois bem!

Meu pai tinha razão quando dizia que seu tempo era outro. Foi preciso que o tempo passasse para compreender a importância dessas e de muitas outras coisas que ouvi sem dar a devida importância. Tempo de fazer as pazes com Deus, convidá-lo para uma cerveja, bater um bom papo ou ficar no mais beatífico silêncio.

Agora me despeço e vou cultivar as flores banais da minha existência, que parecem tão artificiais neste tempo de odores artificiais. Além do mais, já passou do tempo de terminar esta crônica.