Discos que Formaram meu Caráter (Parte 45) – “The Stooges”… The Stooges (1969) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Muito bem moçadinha esperta, atuante e atenuante estamos de volta com nossa programação normal, a nave e a cabeça deram pane mas já estão recuperadas e prontas para o serviço. As ondas sonoras continuam muito loucas e o tédio escarlate já pode começar a ruir por que vem ai mais uma porrada sonora, com muito orgulho que trago para vocês:

“ The Stooges” primeiro álbum dos caras do The Stooges, todos de pé e máximo respeito.

Corria o ano de 1969, e o mundo fervilhava em explosões joviais, na França a molecada já havia bagunçado o coreto nas ruas um ano antes, e essa rebeldia que se espalhou pelo mundo, começava a dar muitos frutos positivos. O verão do amor em 1967, conhecido como o “verão hippie” com suas discussões sobre a vida e o por que devemos nos rebelar contra o sistema um verdadeiro caos positivo instaurado.

Dentro desse contexto as bandas de rock começaram entrar em uma fase nova, e os medalhões conhecidos mundialmente como o Led Zeppelin, Pink Floyd , e os Beatles que ainda bem já tinham conhecido o Bob Dylan (O fânio mais incrível do mundo) dentre outros já conheciam as coisas boas que o sucesso podia proporciona, era uma experimentação danada, um progressismo com viradas de bateria e solos intermináveis, uma viajem muito louca que para mim e muitos acabava deixando o Rock muito Progressivo, ou seja chato pra caralho.

Assim na cidade de Ann Arbor no Michigan, caras como Iggy Pop começavam a formar suas bandas , mas tinha um diferencial as letras e as melodias eram para as massas, temáticas comuns e nada muito complicado para se tocar assim o bardo recrutou Dave Alexander para o baixo e os irmãos Ron e Scott Asheton estava formada a espinha dorsal da banda que meteoricamente explodiria em popularidade.

As apresentações eram extremamente insólitas, com Iggy sujo de pasta de amendoim, carne crua e se cortando adoidado a galera ia a loucura, parte se identificando com as letras e outra só xingando a banda mesmo. A adoração por ídolos passava longe daqueles caras.

A banda foi a guerra e em um show em Detroit acabaram sendo vistos por Danny Fields , que tinha ido ver o MC5 (Banda boa pra porra, falaremos dela) e gostou de toda aquela insanidade e simplicidade apresentada por Iggy e seus garotos.

Fechado contrato entre Junho e Julho de 69 os caras entram em estúdio para imortalizar o que já apresentavam no palco, produzidos nada mais nada menos por John Cale do Velvet Underground. Tudo em cima, tudo na paz mas só tinham 5 músicas. Rejeitados pela gravadora que dizia precisar de mais material, precisaram de uma noite para escrever mais 3. Que foda!

Deixando as enrolações de lado, vamos a o que interessa e dissecamos a bolacha:

O disco começa com “ 1969” , a crítica sobre o que não ter o que se fazer, dane se se é ouro ano, o tédio é o mesmo. “ I Wanna Be Your Dog”, a submissão para alguém que se gosta, você a quer mesmo com todos os defeitos. “We Will Fall”, a luta contra seus próprios impulsos. “No Full”, a famosa ressaca moral depois dos excessos, quem nunca ?. “Real Cool Time” a expectativa pelo o que está por vir. “Ann” bela homenagem a pessoa amada. “Not Rigth” ela está certa, muitos acreditam ser para heroína outros para uma garota. “Little Doll” , homenagem para uma group.

Visceral, cru , escroto, reto e direto nada mais nada menos que um disco foda, foda demais.

Nem chegue perto de uma medalha de foda se ousar não conhecê-lo. Os caras simplesmente mandaram a merda o que estava sendo feito e colocaram a verve própria, mesmo que meteoricamente apresentaram ao mundo o conceito clássico do faça você mesmo.

O Rock and Roll não é e nunca foi erudito, é música de protesto, da massa, esses caras foram os que chegaram e mostraram como se fazer.

O disco não vendeu porra nenhuma na época, o que levou os caras pra Los Angeles e o mundo pode conhecer melhor o Iggy Pop, que antes era Iggy Stooges.

Reverenciado na lista da revista Rolling Stone como um dos 200 discos mais importantes de todos os tempos, foi a apresentação de “1969” e “I Wanna Be Your Dog” que ainda hoje são referências.

Se na época o rock sujo, cru e barulhento dos Stooges foi mal compreendido, a banda no decorrer dos anos foi influencia maior de caras como Ramones, Sex Pistols , The Clash, Mudhoney dentre outros e pelos serviços prestados esse disco e indispensável na coleção de quem pretende gostar de rock.

“THE STOOGES” FOI O PONTA PÉ INICIAL DO QUE CHAMAMOS DE PUNK ROCK.

*Marcelo Guido é jornalista, pai da Lanna Guido e do Bento Guido e maridão da Bia.

Discos que Formaram meu Caráter (Parte 44) – “Selvagem”…Os Paralamas do Sucesso (1986) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Muito bem moçada esperta, o Lunático Viajante das notas e riffs esta de volta de algum lugar muito louco, dentro da própria cabeça para trazer a vocês mais um indefectível disco.

Todos e de pé, salva de tiros e honrarias em geral para:

“ Selvagem” , terceiro álbum de estúdio dos caras do Paralamas do Sucesso, enxuguem as lagrimas de emoção e vamos a ele.

Corria o ano de 1986, já contamos aqui que a década perdida estava demais para as bandas de rock no Brasil, o fresco da liberdade estava sendo muito bem aproveitado pela molecada, os anos de ditadura que colocaram uma mancha negra na história do país, estavam de saída. A abertura politica, anistia e outras conquistas começavam a gerar frutos, e mesmo com o Sarney na presidência realmente o rincão brasileiro parecia ser o país do futuro.

Dentro deste contexto, Hebert, Bi e Barone que já haviam mostrado ao tinham vindo com os espetaculares “Cinema Mudo”, de 83 e o “Passo do Lui” de 84, e eram um dos baluartes da nova geração do rock brazuca, resolveram que já estava na hora de mostrar as mazelas do nosso país em letras contundentes, mesmo por que falar de sol, mar e mulatas já era função da bossa nova. E se antes eles estavam felizes por irem tocar na capital, a verve séria e rebelde do segundo disco iria ser mais uma vez aproveitada. A Função de banda bonitinha já era muito bem trabalhada pela turma da Blitz.

A inesquecível apresentação no Rock in Rio colocaram os caras na crista da onda, pasmem o rock estava em alta e tocando em rádios no brasil todo, e um pensamento politico era necessário.

A mistura salutar e marcante do reggae com o rock, a lá The Police já estava conhecida e uma brasilidade nas letras e atitudes já era aguardada por muitos fãs, ter o que dizer era quase que uma obrigação. Não seria só uma moda de verão, o movimento tinha que se consolidar.

Credenciados por serem os padrinhos da turma de Brasília, leia se Legião Urbana, Capital Inicial , Plebe Rude dentre outras tiveram a oportunidade e confiança de entrarem em estúdio para fazer o que queriam fazer no terceiro disco. A proposito a banda é do Rio de Janeiro, e não do Planalto Central.

Entraram em estúdio entre fevereiro e março de 86, trabalharam as letras em conjunto e ainda fizeram uma ótima parceria com o Gilberto Gil, o ministro, reza lenda que o pai da Preta recebeu uma fita com toda melodia de a “Novidade” e
pelo telefone , passou toda letra. Testemunhas do episódio dizem que Hebert veio as lagrimas com genial letra do mestre Gil.

Vamos deixar de delongas e dissecar este belo exemplar de boa música:

O disco começa com “ Alagados”, maravilhosamente critica, expondo as mazelas dos mais sofridos e excluídos dentro da sociedade brasileira, fazendo uma alusão clássica entre a comunidade onde nasceu o rei Bob Marley, com a comunidade da Maré. “Teerã”, denuncia de uma guerra, que apesar de na letra falar de uma cidade do outro lado do mundo, mostra quem mais sofre nas batalhas diárias. “ A Novidade”, as dimensões do paradoxo, um mundo desigual, de um lado a eterna festa, para outros a miséria. “Melô do Marinheiro”, uma viagem clandestina, para conhecer o primeiro mundo, nada é fácil para o brasileiro mesmo de “gaiato”. “Marujo Dub”, instrumental para relaxar. “ Selvagem”, a apresentação real dos vários segmentos sociais, as armas para defesa. “ There`s Party”, a uma festa no mundo, mas você esta sozinho. “ O Homem”, mostra as várias facetas do ser humano, que pode ser bom ou ruim. “Você”, versão própria de um clássico do Grande Rei do Soul Tim Maia.

Putaqueopariu que disco foda, não menos que fantástico. Politizado realmente deu um recado que deveria ser ouvido por todos. Se alguém se atrever a cogitar uma medalha de foda sem conhecer este artefato, nem vai passar na seletiva.

Vendeu pra porra, segundo maior sucesso de vendas dos caras. Rendeu ouro e Platina além de abrir as portas para o festival de Montreux na Suíça em 1987, deste show saiu o ao vivo “D”. Os caras excursionaram também pela América Latina onde ficaram muito conhecidos do Uruguai, Argentina , Venezuela e Chile (do Pinochet).

Pode colocar na conta dos caras, a primeira realização brasileira de um álbum de rock com influencias anglo – americanas magistralmente mescladas (eita) com sons locais e principalmente latinos, deixou que som saísse da classe média atingisse como um raio as camadas mais populares.

Hoje sabemos que se tornou, um verdadeiro caminhão de hits e duvido que alguém ainda não tenha se pego cantando pelo menos um trecho de alguma musica presente neste disco.

Conheci este disco através do meu Tio Ibis, que apesar de muita onda errada, manjava muito de som e não tinha pudores em apresentar pra molecada, valeu Tio.

A capa uma das mais sensacionais já feitas, cria do Ricardo Leite com o irmão do Bí o Pedro Ribeiro, uma semana sem tomar banho, acampado e com um arco e flexa que ganhou de um índio , tal foto estava pregada na parede do cômodo na casa dos avós dos irmãos onde a banda ensaiava, do lado do pôsteres do Alceu , do Hendrix e de outros. Antes de qualquer musica ser composta já havia sido decidido que aquela seria a capa, pois segundo Bí, mostrava a independência , provocação e que a eles podiam fazer o que queriam, e podiam mesmo.

A temporal, mais de 30 anos de seu lançamento continua atual, por que os punhos ainda continuam fechados pra vida real, os negros, a policia , o governo continuam apresentando suas armas e para uns a festa continua e é eterna tal qual a miséria de outros.

No mais, a Rolling Stone o coloca na lista dos melhores discos de Rock Nacional já feitos e colocou os Paralamas do Sucesso no Hall das melhores bandas que este país já produziu.

*Marcelo Guido é Jornalista. Pai da Lanna Guido e do Bento Guido. Maridão da Bia.

Discos que Formaram meu Caráter (Parte 43) – “Never Mind The Bollocks, Her`es The Sex Pistols” … Sex Pistols (1977) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Salve moçadinha esperta!

Ondas sonoras e nebulosas trazem de volta a nave louca do som. O alardeado viajante musical vem novamente salvar os leitores do tédio secular que, infelizmente, ainda assombra a vida de muitos.

Agora, deixem de lados suas preocupações mundanas, para celebrar mais um histórico artefato musical. Peço o mais digno respeito e salva de palmas para:

“Never Mind The Bollocks, Here’s The Sex Pistols”, o primeiro álbum de estúdio dos caras do Sex Pistols.

Corria o ano de 1977, e a merda estava agarrada na Inglaterra; a terra da Rainha andava mal das pernas: recessão fodida, desemprego em alta, inflação galopante. Uma verdadeira apatia tomava conta da população – principalmente da parte mais jovem. A ideia de seguir à risca a vida pré-moldada de seus pais doía nos nervos da garotada.

Em um espaço tomado pelo conformismo, uma centelha de revolta floresceu em Londres, para tomar de assalto e abalar todas as seculares estruturas da sociedade britânica. Estava vivo o Sex Pistols.

Capitaneados por Johnny Rotten e Sid Vicious, sobre a batuta de Malcolm McLaren, a molecada instaurou o caos nas rádios britânicas e colocou um alfinete sujo no chá das cinco daquela galera bem-nascida.

Aos poucos os caras chamaram a atenção da opinião pública. Seus shows eram um misto de cagada com energia; eram sempre motivo de problemas para os organizadores e autoridades; sempre acabavam em confusão. Nada mais Punk.

Canalizar aquilo tudo que estava ocorrendo, era questão de tempo e nesse contexto os caras entraram em estúdio para, da forma mais simples, com acordes pobres e sonoridade suja com letras que falavam o que os jovens queriam ouvir, atacaram a chutes de coturno toda a mesmice que pairava sobre a sociedade britânica.

Depois de serem rejeitados por quase todas as gravadoras do Reino Unido, finalmente assinaram com a Virgin e lançaram o single “God Save The Queen”, no qual atacavam veementemente a família real e toda a submissão imposta por ela à sociedade.

As rádios se recusavam a tocar e os caras eram atacados por onde andavam. Mas, o melhor aconteceu: a música estourou e – mesmo de forma clandestina – a molecada caiu no gosto da turma de Londres e de todo o Reino Unido.

Vamos deixar de lari-lari e esmiuçar todo esse histórico calhamaço de sons subversivos e revolucionários:

O disco começa a todo vapor com “Holidays in The Sun” uma crítica mensurável a os que tem grana para passar as férias em bons lugares. “Bodies” uma ode sobre aborto. “No Feelings”, a valorização das relações interesseiras. “Liar”, cobrança aos políticos, promessas não cumpridas. “God Save The Queen”, mesmo nome do hino nacional, uma ferrenha crítica à família real. “Problems”, problemas causados pelo conformismo, você não pode ficar só reclamando. “Seventeen”, questões sobre a idade. “Anarchy in the U.K.”, a chamada para a revolução anárquica. “Submission”, a submissão de todos perante a família real, e seus asseclas. “Pretty Vacant”, contra o sistema e contra todos, a mais bela identificação de um vagabundo. “New York”, crítica feroz à cena londrina. “E.M.I.” a aceitação cega é sempre um mau sinal.

Foda-se do disco! Forjado na amargura dos tempos difíceis, onde o grito de rebeldia – que estava preso a todo descontentamento de uma geração inteira – finalmente pode ser ouvido por todos.

Foi lançado dentro de um barco, para a polícia não encher o saco. Ficou em 38º lugar nas paradas britânicas e ganhou o mundo. Seu sucesso acabou implodindo o grupo, mas essa é outra história.

Não menos que medalha de ouro para ele na categoria disco foda. Essencial em qualquer coleção de quem se mete a entender de Rock.

Se você não conhece, nem tente sonhar com seu certificado de foda.

Never Mind The Bollocks, Here’s The Sex Pistols representou uma mudança radical em todo mundo; bandas como The Clash ou caras como o Billy Idol só surgiram depois dele. Antes de tudo, um disco que abriu muitas portas. A semente estava plantada.

Conheci este belo exemplar de som ainda nos meus 14 anos, e isso já era 1994; ajudou a moldar minha vida. Depois dele, nada de se conformar com o que estava preparado. Agora era viver pelas próprias perspectivas.

Importante historicamente, o último gênero musical que chutou tudo para o alto, destruiu e reconstruiu. E sem tirar ou colocar méritos de quem inventou o Punk. Este disco levou o movimento para as massas.

E mesmo hoje, 43 anos depois, continua inspirador, porque contra a mesmice do dia-a-dia não tem melhor remédio.

Não esquentem seus colhões, chegaram os Sex Pistols.

Marcelo Guido é Jornalista. Pai da Lanna Guido e do Bento Guido , Maridão da Bia.

Discos que Formaram meu Caráter (Parte 42) – “Vivendo e não Aprendendo” … Ira! (1986) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Muito bem galera! O louco viajante das notas musicais vem novamente, das profundezas inconstantes do ser, completamente no espaço líquido (menção honrosa para stereovitrola) trazendo na bagagem mais um calhamaço de sons pra vocês. Levantem e contemplem o magistral:

“Vivendo e não Aprendendo”: segundo álbum dos caras do Ira! Palmas pra ele. 

Corria o ano de 1986, Sarney na presidência, a ditadura indo embora há pouco tempo, ressaca gloriosa do Rock in Rio, as rádios dominadas pelas bandas nacionais e internacionais e o Brasil passando a ser escala dos grandes shows. O Rock começava a fazer parte do dia-a-dia dos brasileiros.

Dentro desde contexto deveras agradável, a rapaziada de São Paulo, capitaneados por Nasi e Edgar entraram em estúdio para preparar essa verdadeira bolacha explosiva de sons.

Na batalha desde 1981 e com um disco muito bom intitulado “Mudança de Comportamento” (1985) na bagagem, o pessoal estava passando pela velha pressão do segundo disco, ou iria para frente ou ficaria marcada por ser mais uma banda de um disco só – a história da vida na música costuma ser cruel com alguns bons grupos.

Com brigas constantes entre o conjunto e o produtor, o mais provável era que a missão fosse abortada antes mesmo de existir, por insistirem em fazer uma sonoridade mais próxima do The Jam (Grande Banda) e influência marcante para os caras. Essa tensão toda fez com que os caras atrasassem as gravações e chegassem a trocar de produtor.

Frescuras e rugas resolvidas, eles entram em estúdio em maio de 86 e começam a trabalhar nas melodias que completariam as letras escritas por Nasi e Edgar. Em 25 de agosto do mesmo ano estava pronto.

Lançado em um apoteótico (hummmmm) show na praça do Relógio, campus da USP, onde 40 mil privilegiados – dentre eles Renato Russo e Paula Toller – com abertura do Violeta de Outono (excelente banda), a banda extremamente afinada apresentou ao grande público os clássicos “ Envelheço na cidade”, “Dias de Luta” e “Flores em Você”.

Discos estourando nas rádios, tema de abertura de novela na Globo (O Outro) tudo caminhando bem para os caras até chegar o Especial de Natal do Chacrinha, fazer aquele velho e bom playback onde o Ira! boicotou o programa ao ver o Biafra pegar uma sonora cagada do Velho Guerreiro, apenas por tirar a merda do gorro vermelho na hora da apresentação. Juro que, quando li isso na biografia do Nasi, intitulada “A Ira de Nasi” dos geniais Alexandre Petillo e Mauro Beting, eu achei rokenroll pra caralho.

Vamos ao que interessa, que é dissecar tal elemento sonoro:

O disco começa com um dos acordes mais conhecidos do rock brazuca em “Envelheço na Cidade”, sobre o tempo que vivemos. “Casa de papel”, a dureza do dia-a-dia, a realidade da vida adulta. “Dias de Luta”, as nossas vitórias diárias que muitas vezes são só importantes para nós mesmos. “Tanto quanto eu”, sobre a capacidade de cada um. “Vitrine Viva”, critica voraz ao modismo, ordens de consumo. “Flores em Você”, bem trabalhada, com quarteto de cordas, quase clássica, falando das escolhas individuais. “Quinze Anos (Vivendo e não Aprendendo)”, baladona, sobre como olhamos a vida quando somos mais novos. “Nas Ruas”, uma homenagem à selva de pedra. “Gritos na Multidão”, gravada ao vivo, saiu primeiro no obscuro compacto de estreia da banda em 1984 e veio com essa versão para o disco de estúdio. “Pobre Paulista”, polêmica, por causa dela os caras foram acusados de fascistas e os caralhos, mas é uma critica as pessoas que apoiavam a ditadura, os feios e ignorantes.

Putaquepariu que disco foda bicho!

Não preciso dizer que foi o maior sucesso comercial da banda, até o lançamento do “Ao Vivo MTV” e do “Acústico MTV”.

Se tu não conheces este disco, nem deve sonhar com a medalha de foda.

Lembro-me das tardes ouvindo “Dias de Luta”, com a suavidade na voz, e a singela interpretação que nos faz pensar sobre como podemos mudar de pensamento e atitude durante nossas vidas.

Conheci este sensacional trabalho, ainda no ano de 1993, e coloquei pessoalmente pra mim uma regra: se você quiser entender o Rock nacional dos anos 80 no Brasil, tem que ouvir o “Dois”, “As quatro Estações” ( Legião Urbana), Já falei deles aqui, “Selvagem” (Paralamas do Sucesso), falarei em breve deste, “Longe Demais das Capitais” (Engenheiros do Hawaii), já falado por aqui, “ Cabeça Dinossauro” (Titãs) – já falei desse também e “ Vivendo e Não Aprendendo” (Ira!) se tu passar por cima desses, não vai entender porra nenhuma.

No mais, não se indigne a escutar este disco no volume que não seja o Máximo.

* Marcelo Guido é Jornalista. Pai da Lanna Guido e do Bento Guido. Maridão da Bia.

Discos que Formaram meu Caráter (parte 41) – “Dookie” …Green Day (1994) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Muito bem meus estratosféricos amigos! Galera do bem, o viajante estrelar vem com sua nave medonha, mas não obsoleta, trazendo mais um belo petardo de sons históricos, deem um chega pra lá no tédio envolvente e preparem-se para “Dookie”: o terceiro álbum de estúdio da galera do Green Day.

Palmas, muitas palmas pra ele!

Corria o ano de 1994; um ano deveras próspero. Em pouco tempo, rolaria a Copa das copas e a gente ainda não sabia, mas estávamos extremamente confiantes na dupla Bebeto e Romário. No campo musical, o grunge dominava as paradas e bandas como Nirvana e Pearl Jam já trilhavam um caminho muito próspero e estavam estourados mundialmente. A música vivia um momento muito bacana.

E na ensolarada Califórnia fervilhava um novo movimento que viria resgatar o sentimento punk, que andava meio esquecido e que mais uma vez daria a volta por cima e salvaria o Rock and Roll. Bandas como o Sublime, The Offspring e o próprio Green Day, dentre outras, estavam prestes a escrever uma nova história.

Formada no lendário clube 924 Gilman Street, o Green Day já tinha mostrado seu poder com os seminais “1,039/ Smoothed Out Slappy Hours (1990)” e “Kerplunk (1991)” e conquistado uma verdadeira horda de fãs. O underground começou a ficar pequeno para Billie Joe Armstrong, Mike Dirnt e Tré Cool e algo muito bom estava prestes a acontecer para os caras.

Com letras de temáticas variadas como depressão, indignação, sexo, drogas além do combate aos velhos demônios pessoais, a volta medonha que a vida na transição quase sempre que problemática da adolescência para a vida adulta. Quem nunca passou por isso? Tudo alinhado em primeira ordem, com guitarras magistralmente distorcidas, um baixo deveras muito bem trabalhado e uma cozinha onde o batera ditava o ritmo.

A porradaria iria de encontro a toda choradeira que existia na época e aos poucos estava dominando o rock – que me perdoe a turma grunge mas já tinha dado a hora de algo novo acontecer.

E, com esse sentimento renovador e com energias a mil, os caras entraram em estúdio em setembro de 1993 e no dia 1 de fevereiro de 1994 mostraram ao mundo este senhor disco.

Vamos deixar de “lenga-lenga” e esmiuçar logo essa preciosidade sonora:

O disco começa logo arrebentando com a estridente “Burnout”, a vitória sobre o tédio, e a apatia constante. “Having a Blast”, a explosão de felicidade que se tem quando se consegue deixar para trás tudo o que realmente incomoda. “Chump”, uma ode à raiva operante, as vezes o próprio inimigo está dentro de você. “Longview”, uma linha de baixo composta na base do ácido, fala de tédio, masturbação e fumar maconha. “Welcome To Paradise”, original do álbum anterior, veio para este com uma versão mais crua. “Pulling Teeth”, sobre a depressão. “Basket Case”, umas das músicas que mais ouvi na vida, ataques de ansiedade. “She”, composta para a agora esposa, Adrienne Armstrong, foi a resposta de Billy para um poema feminista escrito pela amada. “Sassafras Roots”, também composta para a amada, que na época tinha se mudado para o Equador. “When I Come Around”, fala sobre separação. “Coming Clean”, as confissões para consigo mesmo, a trajetória vivida para se tornar um adulto. “Emenius Sleepus”, as mudanças pessoais, que podem ser boas ou ruins. “In The End”, sobre a mãe do Frontman. “F.O.D/ All Bay Myself”, baladinha para encerrar – engano: uma das mais porradas do disco.

Meu irmão que puta disco bom. Não menos que “Du caralho”.

Com este disco, o Green Day rompeu todas as linhas que o seguravam no Underground e foi comandar o Mainstrean. Colocou o Punk Rock em voga novamente, devolvendo-o ao seu Patamar (palavra da moda) único.

Vendeu como água, na época: mais de trinta milhões de copias no mundo. Hoje, quase 26 anos depois de seu lançamento, esse número ultrapassa os 80.

É o numero 193 na lista dos 500 maiores álbuns de todos os tempos da Rolling Stone; figura entre Os 1001 Álbuns que você precisa ouvir antes de morrer, e é o numero 50 na lista do Rock and Roll Of Fame.

Se tu não conheces, tu és muito Júnior para sonhar com uma medalha de foda.

Parece que foi ontem que peguei uma grana com meu pai e fui até a Lobrás, onde comprei o “Dookie”, “Nevermind” e o “Smash”, junto de um garrafão de vinho e uma carteira de Free… Neste dia fiz barulho. Já vai longe, 1995.

No mais, é essencial em qualquer discografia, além de ser um disco que abre portas.

Vida Longa ao Punk Rock.

*Marcelo Guido é Jornalista. Pai da Lanna Guido e do Bento Guido e maridão da Bia.

Discos que Formaram meu Caráter (Parte 39) – “V” …. LEGIÃO URBANA (1991) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Muito bem meus consagrados, o viajante das ondas sonoras vem de muito, mas de muito longe… Especificamente das profundezas dos pensamentos desconexos da pífia e vã realidade para trazer mais um disco para o deleite de vossas senhorias. Preparem seus ouvidos e suas melhores memórias afetivas para:

“V” – quinto trabalho dos caras da Legião Urbana. Salva de palmas, por favor.

Corria o ano de 1991 e as coisas por aqui não andavam menos que caóticas, no campo de visão que abrange a economia e o social. A ressaca da última eleição presidencial já tinha passado, a alegria pela eleição direta depois de mais de 20 anos de ditadura era passado e convivíamos com uma recessão escrota, inflação nas alturas, moeda sem valor e sem as nossas cadernetas de poupança – um abraço dona Zélia Cardoso de Melo.

No meio musical, a invasão do centro oeste tomou de vez as rádios, TVs e afins. Calças apertando os colhões eram moda e, capitaneados por Leandro e Leonardo, e pelos filhos do seu Francisco, músicas com temática de amores sofridos e desilusões tomavam conta das programações. Estava realmente uma merda.

Mas era 1991, o ano mágico para o Rock, onde todos os deuses da inspiração estavam conspirando juntos para que as bandas lançassem discos não menos que fodas – e um pouco dessa luz tinha que brilhar pra cá. Coube a Russo, Dado e Bonfá salvarem nossas vidas.

Já gozando de uma popularidade avassaladora e colhendo os ótimos frutos do excelente “As Quatro Estações” de 1989 (Já falamos desse por aqui) a rapaziada da Legião entrou em estúdio para conceber essa obra prima.

A pressão sofrida pelos caras, para não serem repetitivos, depois do grande sucesso do disco anterior e os problemas com álcool e drogas do frontman estavam em voga na época; e a responsabilidade em cima do trio, que iria pela primeira vez lançar um álbum diretamente em CD, era muito grande, chegando a incomodar.

Mas as temáticas das letras que iam de crise econômica até os problemas com álcool e drogas, passando pelo cotidiano junto de um belo trabalho de melodias, não deixaram a peteca cair e este disco consagrou-se como um dos mais belos exemplares musicais já produzidos em todo o rock nacional.

Nele, sem dúvida alguma, estão reunidas as mais belas letras escritas por Renato Russo que, com um minuciosos cuidado, fez questão de nos deixar músicas atemporais e eternas: “… Me preocupo em fazer texto, que daqui a 200 anos, a pessoa que pegar e não vai precisar de nota de rodapé.” Explicou na época.

A turnê de lançamento do álbum – que foi a mais bem preparada de todas, com ensaios constantes, palco exclusivo, som, luz e outros badulaques especialmente escolhidos pela trupe – era para ser uma maravilhosa ópera rock em três belas partes, mas acabou sendo um fracasso, por conta da fase sombria de Renato, que entrou em um esquema autodestrutivo. Sua descoberta da Aids em 1990, seu flerte com a heroína e seu longo histórico com o álcool fizeram esta bela Nau naufragar depois de algumas apresentações em Natal- RN.

Vamos deixar de papo e desmontar esse excelentíssimo santuário de boas canções:

“Love Song”, cover de uma cantiga escrita em português arcaico no século XIII por Nuno Fernandes Torneol, fala de amor. “Metal Contra as Nuvens”, soturna, com 11 minutos e 28 segundos, dividida em quatro partes (e a preferida da Bianca Lobato), uma maravilhosa opereta. “A Ordem dos Templários”, bela e instrumental, inclui a peça “Douce Dame Joule” de Guillaume de Machaut, escrita no século XIV é a “Pornography” da Legião. “A Montanha Mágica”, a dependência química retratada em versos. “Teatro de Vampiros”, retrato da crise econômica vivente na época, introdução adaptada da peça “Canon” de Johann Panchelbel. “Sereníssima”, um sagaz flerte com o rock progressivo. “Vento no Litoral”, romântica, mas saborosa ganhou versão da Cassia Eller. “O Mundo anda Tão Complicado”, o cotidiano de quem aventura se na vida a dois. “L’Âge D’Or”, uma alusão a Young Marble Giants – grande banda punk do País de Gales que Renato Russo era fã declarado. “Come Share My Life”, canção tradicional do folclore estadunidense.

Espetacular, sombrio, mas não menos que belo. Que disco foda do começo ao fim das rotações.

Se tu não conheces nem deves sonhar com uma medalha de foda.

Vendeu menos que o anterior, foi massacrado pela crítica na época, mas caiu no gosto dos fãs; Platina Triplo, colocou o Rock nacional de volta nas rádios e rendeu até uma apresentação para o projeto “Acústico MTV”, que foi lançado depois.

A inscrição “Bem-vindo aos anos 70” no CD nos faz alusão aos ganchos sonoros, que vão do progressivo ao Hard Rock.

Lembro me de me dirigir até a “Na Figueiredo” em Belém e comprar uma camiseta deste disco lá por 1995 (comprei a do Arise do Sepultura também). Não lembro quem ficou.

Sem dúvida alguma, é um disco atemporal e essencial em qualquer discografia de alguém que pretende entender de rock.

Antes de tudo nos ensina que nenhuma história termina do avesso sem final feliz, sem coisas bonitas para contar, e que vale a pena viver, porque temos sempre muito ainda por fazer.

*Marcelo Guido é Jornalista. Pai da Lanna e do Bento, maridão da Bia.

Discos que Formaram meu Caráter (Parte 38) – “Tears Roll Down (Greats Hits 82-92)”…Tears For Fears (1992) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Muito bem moçadinha vivente e alegre deste mundo inebriante e consciente, o espetacular viajante muito louco das ondas sonoras vem com sua nave repleta de histórias, para trazer a vocês mais um disco marcante.

É com muita honra que apresento a vocês:

“Tears Roll Dow”, coletânea que pegou o melhor do trabalho dos caras do Tears For Fears entre os anos de 1982 e 92.

Palmas pra ele!

Formada em 1981 na Inglaterra, pelos remanescentes do Graduate (banda legal) Roland Orzabal e Curt Smith o Tears For Fears (TFF) já gozava de um reconhecimento mundial e sucesso pela extrema qualidade da obra, um dos marcos na segunda invasão britânica nas paradas americanas, que foi promovida pela então recém criada MTV.

Conhecida por ser umas das precursoras no uso de sintetizadores e batidas eletrônicas – onda que varreu o rock nos anos 80 e ficou conhecida como “new wave” -, a banda se mostrou sempre contundente no que fez, seus discos nunca deixaram a desejar, o debut (uiuiui) “The Hurting” (1983) alcançou, logo na primeira semana, o Disco de Ouro nas paradas da terra da Rainha. O segundo, o excelentíssimo “Songs From The Big Chair” (1985), já de cara levou logo multiplatina nos EUA e na Inglaterra, ou seja, o mundo era dos caras.

A fama alcançada, levou-os a serem convidados a se apresentar no “Live Aid” em 1985, o que acabou não rolando por problemas contratuais; eles foram substituídos em última hora pelos rapazes do George Thorogood and the Destroyers. Esta apresentação, que seria histórica, rolaria no JFK Stadium na Filadélfia.

Então como já escrito, material para uma coletânea já existia. Dez anos de banda na crista da onda, com vários sucessos tocados a esmo nas rádios – sim rock tocava na rádio (pasmem) – já me fazia ter um interesse pela banda. Mas era daquelas bandas “música legal, mas quem toca?” (risos).

Conheci esse belo exemplar de bons sons em um velho e bom churrasco (um frango e milhares de latas de antártica), lá por 1996, naquele esquema “escuta isso aqui”. Puta merda, o disco do sol na capa. Sim, confesso meu total desconhecimento até aquele momento sobre os caras. Josean Torres me passou. E eu ouvi, na segunda feira estava adentrando a importadora Nely Monte, onde comprei meu exemplar das mãos do Gilson Rodrigues (o cara mais parecido com meu irmão que eu).

Ao ouvir a primeira “Sowing The Seeds of Love”, me veio a memória afetiva, quase que nítida do clipe que passava na programação da Tv Equatorial, que transmitia a programação da finada Manchete (Jaspion, Jiraya e afins)

Deixemos as lágrimas pelos anos que não voltam mais pra trás e vamos dissecar o elemento sonoro:

“Sowing The Seeds Of Love”, uma destacada canção de amor, mas que fala das várias formas como esse amor pode ser vencedor ou não. “Everybody” “Whants To Rule The Word”, clássica para embalar o namorinho, trilha sonora de muito romance. “Woman in Chains”, a bateria eletrônica já te chama a dançar.

“Shout”, com certeza a porta de entrada para muitos que gostam da banda. “Head over hells”, uma declaração de amor puro, para a pessoa merecedora. “Mad World”, critica a procura pela perfeição, é difícil viver em círculos no mundo louco. “Pale Shelter”, a proteção dada por alguém, mas você não esta satisfeito. “I Believe”, as lições que as dores das derrotas na vida nos passam. “Laid so Low”, até então inédita, foi gravada especialmente para este disco. “Mothers Talk”, as mudanças que o tempo faz você sofrer. “Change”, clássica e dançante, não faltava nas festinhas. “Advice For Young At Heart”, uma relevante ode sobre o tempo.

Genial! Sensacional! Com certeza, alguma dessas músicas já tocaram um período ou mais na vida de cada um que está lendo essas frases tortas que estão sendo escritas.

O cara que não conhece esse disco nem tem que se candidatar a ter uma medalha de foda.

As batidas eletrônicas, mescladas (hummm) com as letras tortuosas dos caras mostraram estar em sintonia perfeita em toda carreira da dupla.

Entre idas e vindas, a banda continuou e continua relevante até os dias atuais. Este disco foi relançado em 2005 com um disco bônus, álbum duplo. Com edições das músicas sendo remixadas, versões novas e atualizadas, mas a icônica capa com o sol está lá.

Antes que falem algo do tipo, “Ah, coletânea não vale”, eu digo: Foda-se! Esta obra está longe de ser um caça níqueis. É um serviço didático para apresentar uma banda do caralho. Um belo cartão de visitas, assim como “Standing on a Beach” (Disco do velho na capa) do The Cure e os The Best Of 1 e 2 do The Smiths.

Este texto é dedicado a todos aqueles que andaram no “Maldito”, um chevette preto que aterrorizou a cidade na década de 1990.

*Marcelo Guido é Jornalista, Pai da Lanna e do Bento, maridão da Bia.

Discos que Formaram meu caráter (parte 37) – “Brasil” Ratos de Porão (1989) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido 

Salve moçada de bem! O louco que viaja pelas ondas sombrias e sonoras vem mais uma vez de um universo distante, situado em escalas abissais, diretamente do fundo da própria cabeça, trazendo mais um punhado de sons e agouros para quem o lê. Tenho a honra de lhes apresentar:

“Brasil”, o quarto álbum dos caras do Ratos de Porão. Palmas pra ele!

Corria o ano de 1989, final da década perdida no nosso tropical país. As coisas por aqui não iam nada bem. Inflação na casa do caralho, uma enxurrada de planos econômicos falidos, cruzeiro sem valer quase que porra nenhuma e uma eleição presidencial com uma porrada de candidatos, com um povo completamente desqualificado para votar. É galera, a situação estava escrota pra cacete.

Nesse contexto que andava o Brasil, os caras do R.D.P procuraram inspiração para entrar em um estúdio e produzir este álbum que com o tempo provou ser um dos melhores na extensa discografia do grupo.

Na ativa desde o começo dos anos 80, a banda já era considerada um dos expoentes na cena punk brasileira, fazendo sempre um som coeso e de protesto. A inspiração vem sempre do dia-a-dia comum, das mazelas e desigualdades sociais vivenciadas pela maioria dos brasileiros. Você é o reflexo de uma sociedade que te oprime, não pode ser algo muito bonito. Mentir sobre nossa realidade, falar de sol, praia whisky e mulher de biquíni é função da bossa nova.

Com a inclusão de bases mais trabalhadas, e um som deveras mais “profissional” os caras que já tinham feito uma incursão pelo Metal não poderiam deixar de lado a influência vinda do Sepultura, que participara do disco anterior “Vivendo Cada dia Mais Sujo e Agressivo (1987)” e, com isso, já conseguia ser observada pelo mercado internacional.

O vocal crossover ao extremo, não foi mudado em absolutamente porra nenhuma, muito menos a temática das letras. Apesar de terem sido mordidos pela víbora metaleira, os caras não se propuseram a falar de dragão, castelo, cavalo alado e RPG. Miséria, violência policial e vícios continuaram na ponta da caneta nas letras dos caras. Por isso este disco se torna especial. O discurso Punk, recheado de revolta, não foi mudado. E foda-se o dragãozinho, a técnica apurada e as bruxas e os caralhos a quatro que as letras das bandas de rock pesado falavam na época.

Conheci este disco no ano de 1993, em um K7 mal gravado, uma fita TTK (imitação fajuta das boas TDK, que foi adolescente e curtiu som nos anos 90 sabe muito bem do que eu estou falando) e desde essa época este disco me acompanha.

Vamos ao que interessa e desmontar esse míssil sonoro:

O disco começa logo denunciando a sacanagem com nossos recursos naturais em “Amazônia Nunca Mais”. “Retrocesso”: o medo constante da volta dos tempos áureos da Ditadura militar. “Aids, Pop, Repressão”: clássico da banda cantada em todos os cantos do mundo, mostra o real caminho escolhido pela juventude na época. “Lei do Silêncio”: o medo da população, vítima do estado que deveria prover a segurança, principalmente na periferia dos grandes centros urbanos. “S.O.S País Falido”: os problemas sociais de um país falido, corroído pela inflação. “Gil Goma”: homenagem ao grande Gil Gomes. “Beber até Morrer”: uma espécie de autocritica. “Plano Furado II”: ode magnifica feita aos planos econômicos que prometiam a solução e só metiam no cu do povo mais pobre. “Heroína Suicida”: um alerta contra a badalada droga que tinha acabado de chegar por aqui. “Crianças sem Futuro”: o descaso com as crianças carentes no Brasil. “Farsa Nacionalista”: mais atual impossível. “Traidor”: alcunha cuspida pelos punks para a banda que se aproximava do Metal. “Porcos Sanguinários”: grito contra a opressão policial. “Vida Animal”: olhos vendados como gado, assim caminha a sociedade. “O Fim”: instrumental. “Máquina Militar”: o sistema te condiciona a matar e a servir. “Terra do Carnaval”: a apatia social, e a “bundamolice” do brasileiro. “Herança”: uma crítica sobre os programas policiais que expõe os familiares das vítimas.

Putaquepariu que disco foda meu irmão.

A singular capa desenhada pelo quadrinista Marcatti, com um cara com roupas maltrapilhas, campo de futebol e toda a sacanagem ao redor, serviu de denúncia ao mundo que ainda achava que nossa terra era só alegria, com o Zé Carioca do Wall Disney.

Este disco abriu muitas portas para os caras. Gravado na Alemanha, e com duas versões, uma em português outra em inglês. Se tu te metes a entender de rock e não conhece, tua medalha de foda não merece estar contigo.

Um disco atual, que pode ser tocado em alto e bom som hoje em dia. Um marco essencial na carreira do RDP. A mistura do Metal Crossover na mistura com Punk Hardcore, que coloca o Ratos na vanguarda, cria para si um estilo próprio e hoje em dia muito copiado.

Na real, um disco atualíssimo, pelo simples fato de que pouca coisa mudou em 30 anos. Enquanto existir miséria e opressão e a destruição da educação for política de estado em prol de uma minoria, este disco será imprescindível.

Infelizmente, a apatia é grande e a crise é Geral.

Punk Rock na veia. Vida Longa ao Ratos de Porão!

* Marcelo Guido é Jornalista, Pai da Lanna Guido e do Bento Guido e Maridão da Bia.

Discos que formaram meu caráter (parte 36) – “Metallica (Black Álbum – 1991)” – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Muito bem moçada, estamos de volta neste obscuro universo dos discos, nesta nave muito louca com este viajante que vos escreve de algum ponto distante da galáxia. Inebriantemente posso dizer a vocês aumentarem o som que hoje é dia de porrada. Com muita honra que eu trago para vocês:

Metallica (Black Álbum) palmas pra ele.

Corria o ano sagrado de 1991, como já disse algumas vezes o ano que todos os deuses da boa música estavam do lado das bandas e providenciaram uma safra imensa de clássicos. 1991 é realmente um marco na história dos bons discos.

E o Metallica foi contagiado por essa nevoa de inspiração e veio com essa bomba (no ótimo sentido) de boas canções.

Já aclamados como uma super banda no universo do Metal e consolidados com uma multidão de fãs no mundo todo, os caras do Metallica já tinham provado a todos que o som pesado era a praia deles, os excelentes “ Kill Em Mall” (1983), “ Ride The Lightning” (1984), “Master Of Puppets” (1986) e “…And Justice For Hall” (1988) não deixavam dúvidas que os caras de San Francisco não brincavam em serviço quando o assunto era bater cabeça.

Mas como continuar arrebentando nas paradas e tendo uma continuação no bem sucedido trabalho sem parecer repetitivo? Talvez com essa dúvida na cabeça os caras voltam ao estúdio para preparar um novo disco. A atenção tinha que ser milimétrica, o metal já começava a ser ameaçado pelo grunge de Seattle e as bandas daqueles caras sofridos com blusa de flanela também já estavam alcançando o mainstrean , o recado era claro, quem não tivesse a coragem de tentar, iria ficar para trás.

Cartas na mesa, opções claras, ficar no mundinho metal e usufruir sabe lá por quanto tempo da confortável posição já conquistada ou partir para novas águas rumo a um desconhecido caminho.

E assim, no dia 12 de agosto de 1991 , os caras surpreenderam os fãs e o mercado da música deixando de lado o Thrash Metal e se colocando de vez no Heavy Metal .

Vamos ao que interessa e dissecar logo esse míssil sonoro:

O disco começa com a sombria “ Enter Sadman”, uma explanação sobre os sonhos ruins. “ Sad But True”, nem todas as verdades são boas. “ Holier Than Thou”, faça sempre uma autocrítica, você não é melhor que ninguém , “ The Unforiven”, até onde podemos culpar alguém que sempre foi sabotado pela vida. “Wherever I May Roan”, opção de ser só, sem compromisso. “Don`t Tread On Me”, para assegurar a paz é preciso estar preparado para guerra. “ Through The Never”, temos fome de estar vivo. “Nothing Else Matters”, nada mais importa, somos o que somos. “Of Wolf and Man”, somos nosso próprio lobo, sempre vagamos. “ The God That Failed”, siga o Deus que falhou. “ My Friend Of Misery” a diversão de um homem é o inferno do outro. “ The Struggle Within”, procure sempre o melhor dentro de você.

Antes de tudo um disco que abre portas, medalha de ouro 18 quilates na categoria “foda”.

Maior sucesso da banda, disco de rock mais vendido de todos os tempos, a banda nunca vendeu menos de 1000 cópias por semana desde o seu lançamento. Todos os 5 singles lançados ficaram entre os 100 mais vendidos da Bilboard.

O que isso quer dizer? Que realmente os caras fizeram bem em se reinventar e quem não tem coragem está fadado à mesmice. Os caras realmente tiraram o pé, mas fizeram um disco ruim? Porra nenhuma.

Confesso que no começo estranhei , mas tive que aceitar e dar o braço a torcer pro trabalho dos caras. Incrivelmente como este álbum me tocou. E sei que muitos começaram a escutar o Metallica depois dele. E se até aquele teu primo esquisito fã de Duran Duran passou a escutar Metallica, paciência.

Foda-se a polícia Headbanger, sim este disco marcou o fim para muitos fãs, mas o começo para milhares. E o Metallica provou ser uma banda autêntica, sem ligar para opinião de ninguém.

Vida Longa ao Heavy Metal.

* Marcelo Guido é Jornalista, Pai da Lanna Guido e do Bento Guido e Maridão da Bia.

Discos que Formaram meu Caráter (Parte 35) – “Lado B Lado A” …O Rappa (1999) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Muito bem moçada Rocker que nos acompanha nessa linda, longa e salutar viagem muito louca pelas ondas sonoras e discos revolucionários! Diretamente de sua nave, o viajante da música vem trazer mais um grande e indiscutível clássico. Apresento a vocês:

Lado B lado A – terceiro trabalho do Rappa.

Palmas pra ele!

Corria o ano de 1999 e a boa turma d’O Rappa, colhia os bons frutos conquistados com o esplendoroso “Rappa Mundi” (Já falei desse por aqui) e encontravam-se tranquilos já extremamente consolidados como banda de respeito no cenário nacional.

Visto isso, a intenção não seria de relaxamento; pelo contrário, Yuka, Falcão, Lauro, Xandão e Lobato, estavam cada vez mais se esmerando no discurso de ordem e procurando uma evolução musical que talvez nunca tenha sido vista por essas bandas. Não era hora daquele disco experimental que geralmente as bandas fazem para continuar um “tour” eterno falando sempre mais do mesmo.

Os caras preparavam uma surpresa para os fãs da banda; algo que além de ser ouvido, pudesse ser pensado. Nada muito progressivo, para ser chato e não tão difícil nas letras, para não passar batido. Era um disco para se viver, sentir.

Mesmo sendo reconhecidamente uma banda rock, os caras nunca esconderam suas influências ligadas ao Hip Hop, samba e afins; o que para muitos poderia parecer uma heresia, a rapaziada conseguia unificar e assim fazer algo próprio. As letras, magnificamente bem dosadas e falando do cotidiano fantástico do cidadão comum, que vive nas inúmeras comunidades cariocas e, por que não, nos muitos “brasis” que se espalham por todo nosso território.

Eu tinha 19 anos quando tive contato com este disco, e realmente pirei com os grooves e batidas eletrônicas misturadas a baixo, guitarra e bateria – muito bem trabalhados pelos caras. A poesia de Yuka, estava afiada e não teria como dar errado.

O disco é pancada do começo ao fim. Deixando o papo furado, vamos logo ao que interessa e dissecar este disco:

Começamos com uma batida suave que vai para uma porrada sonora em “Tribunal de rua”, uma batida policial intimidante, todos do bairro já conhecem essa lição. “Me Deixa”, estar de bobeira querendo apenas se divertir, deixar de lado o que te oprime. “Cristo e Oxalá”, o encontro de suas entidades positivas, falando a verdade, mostrando que o que salva é realmente a cultura e a fé. “O que sobrou do céu”, o dia-a-dia de quem é realmente excluído, vítima de uma opressão. “Se não avisar o bicho pega”, o sempre ‘Estar ligado’ para não ficar para trás. “Minha Alma (a paz que eu não quero)”, o comodismo, aquilo que não te atinge, não faz parte do teu cotidiano, não te interessa. “Lado B Lado A”, as incertezas diárias, desafios diários, a necessidade de ter o corpo fechado ou ser um guerreiro para poder passar por isso. “Favela”, ode a todas as comunidades, da onde pulsa o sangue e movimenta a cidade, homenagem aos grandes do samba. “O Homem Amarelo”, a ida para o desconhecido, mas central do ‘buzum’ fala outra língua.

“Nó de Fumaça”, a esperteza e sagacidade necessária para sobreviver às dificuldades. “A todas as Comunidades do Engenho Novo”, um samba rock, estilo Jorge Ben, um abraço nas comunidades, onde tem coisa boa e ruim. “Na palma da Mão”, o silêncio constrangedor depois de um tiroteio.

Uma bolacha realmente fantástica, onde crítica social e brasilidade são recorrentes em todas as letras e sons, sem o vitimismo geralmente exacerbado neste tipo de obra.

Medalha de ouro na categoria disco foda.

Este foi o trampo que consolidou Marcelo Yuka como um dos maiores letristas críticos desse país e mostrou o total comprometimento da banda com as causas sociais.

Eleito pela revista Rolling Stone como um dos cem maiores discos de música brasileira.

Um disco ímpar, que rendeu duas obras primas, se formos falar de clipe. Os vídeos de “O que eu sobrou do céu” e “Minha Alma” levaram o Brasil a outro patamar quando o assunto é esse.

Se você não conhece esse este trabalho, não tem gabarito para empunhar a medalha de foda, fique na sua e saia fora.

Por que no TRIBUNAL DE RUA da vida, você não pode dizer ME DEIXA, muito menos esperar por CRISTO E OXALÁ, ou o que vai te restar é somente O QUE SOBROU DO CÉU, meu brother SE NÃO AVISAR O BICHO PEGA, e MINHA ALMA, não é LADO A LADO B da vida, ela é de FAVELA. Sou HOMEM AMARELO dou muito NÓ DE FUMAÇA nas dificuldades da vida e agradeço de coração A TODAS AS COMUNIDADES DO ENGENHO NOVO, tendo levar minha história na PALMA DA MÃO.

Este texto é dedicado a João Moraes, Ramon Lamoso, Fabricio Ofuji, Fábio Evangelista, Gustavo Sousa Cruz, Rodrigo Ramthum, Alex Rodrigues, Eduardo Nicholas e Vinicius Loures. Todos meus irmãos de Brasília.

* Marcelo Guido é Jornalista. Pai da Lanna Guido e do Bento Guido e Maridão da Bia.

Discos que Formaram meu Caráter (Parte 34) – “… And out come The Wolves” – Rancid (1995) – Por Marcelo Guido

 


Por Marcelo Guido

Muito bem companheiros Rockers perdidos mundo afora, seus escarlates seres da não-obviedade, o mensageiro dos discos e sons do universo paralelo vem com sua nave muito louca trazendo para vocês mais um disco que marcou minha vida e provavelmente a vida de muitos de vocês. Com vocês :
“…And out come The Wolves” – Rancid (1995)! Palmas pra ele!

Formada em 1991 em Albany, na Califórnia, o Rancid já figurava como uma das principais influências da nova fase do Punk Rock, junto ao Bad Religion, The Offspring e Green Day: a turma da lendária gravadora Epitaph Records, sem dúvida alguma, a nata da boa música.

Vindos de dois seminais álbuns, (1993) e “Lest´s Go” (1994) os caras estavam na pressão para manter o caldo fervendo. Um eventual fracasso poderia colocar os planos de Tim Armstrong e Matt Freeman por água abaixo. Com as guitarras em riste, os caras abusaram da criatividade e lançaram os singles “Roots Radicals” e “I Wanna Riot”. Com boa aceitação do público, saíram em uma grande tour se apresentando nas grandes cidades americanas. Tudo parecia convergir bem para que a linha continuasse reta rumo ao sucesso.

Com letras que falam do dia de pessoas comuns, vitórias pessoais e desafios que aparecem no decorrer da vida e crítica social, os caras conseguiram arrematar uma multidão de fãs em toda parte.

A Juventude clamava por isso no rock and roll; era a nova virada do punk, arquitetada por caras que deixavam os dragões alados para o metal e a depressão para as grandes bandas conceituadas e surfavam em uma nova onda; o legal era falar de coisas comuns, mais Punk Rock impossível.

Eu, então com 15 anos, ser em formação, camisa preta e All Star, comecei a prestar mais atenção nisso; acabei chegando a este disco sem conhecer a banda, sem informação nenhuma. Me deparei com o disco na seção de “Rock” no estande de disco da Domestilar, loja onde um dia foi o Tecidos do Povo (momento histórico e nostálgico ) e confesso que comprei no impulso – no esquema “pela capa” -, junto com o “ Vamos invadir sua Praia” do Ultraje a Rigor (já falei desse).

Ao escutar os primeiros acordes de “Maxweel Murder”, a energia pulsante dos caras me contagiou e eu, a partir daquele momento, já me considerei fã da banda. As levadas de baixo e guitarra junto a uma letra bem trabalhada, que me fez pesquisar bem e, inclusive, tentar melhorar meu inglês de quinta série, junto a atitude dos caras que balanceavam um Ska bem digno e um punk contundente. Nada mais Hardcore possível.

Vamos ao que interessa e destrinchar este belo artefato de boas canções :

“Maxwell Murder”, história de um velho punk que morreu assassinado, mas que não perdeu sua influência. “The 11th Hour”, a hora de acordar para a realidade, todos temos esse momento. “Roots Radicals” , levada um pouco mais para um Ska , com a vivacidade do punk clássico. “Time Bomb”, você pode se tornar uma bomba relógio quando o conformismo toma conta da sua vida. “Olimpya WA”, a volta para sua cidade, uma ode aonde você se sente realmente seguro. “Lock, Step & Gone”, o sentimento de que você pode fazer alguma coisa, coisas quietas geralmente escondem o errado. “Junkie Man”, o problema de quem convive com elas, as drogas. “Listed M.I.A”, a vontade de desaparecer dos problemas. “Ruby Soho”, o término de relação sempre leva um pouco dos dois. “ Daly City Train”, a historia de Jackyl, que era um artista completo e não teve reconhecimento em vida. “Journey To The End Of The East Bay”, a história que remete a muitas bandas, que mesmo com muita força de vontade não encontram o sucesso, mas fazem por diversão. “She`s Automatic” , história de amor, um cara que encontra uma garota perfeita . “Old Friend”, a preocupação com os que realmente importam. “Disorder and Disarray” , quando não se intende o que está se passando, o por quê de tanta busca por poder, grana e afins. “The Wars End” , a incompreensão por parte da sociedade, o diferente não comum geralmente assusta. “You Don`t Care Nothin” , a importância que damos para quem realmente não merece . “As Wicked”, pequenas observações de histórias cotidianas, a sua pode estar presente. “Avenues and Alleyways” , a descoberta da onde vêm seus problemas, agora procure resolver todos. “The Way I Feel About You”, desculpas são algo desnecessário quando se quer mudança .

Um disco raivoso, seguro e extremamente sincero. Não tinha como dar errado.

Lançado no dia 22 de agosto de 1995, figurou logo entre os 40 mais da lista da Billboard .

Um Álbum que já nasceu clássico. Com momentos do mais puro e revivalista punk real. Sem ser cometido, não deixa nunca de ser um disco de puro fervor underground; a bolacha está qualificada na lista da revista Rock Hard dos 500 álbuns de rock e metal de todos os tempos .

Se você não conhece, corre atrás. Tua medalha de foda corre risco.

A arte da capa é uma homenagem ao Minor Threat (Banda super foda). O nome é um epígrafe de um dos poemas presente no livro “The Basketball Diares” de Jim Carroll, (vivido por Leonardo DiCaprio nos cinemas) .

Uma bolacha que começa bem, a partir do nome, capa, letras e, claro, no som e atitude. Punk em tudo.

Um disco realmente fundamental feito pelo Rancid, uma banda que abre portas.

Quando a mesmice tomar conta da música, o Punk Rock sempre vai estar a postos para mudar o cenário

Lembro que apresentei este disco pro Antônio Malária, e o bicho pirou no som. Ainda bem que ficamos brothers.

Marcelo Guido é Jornalista. Pai da Lanna Guido e do Bento Guido . Maridão da Bia.

Discos que Formaram meu Caráter (Parte 33) – Engenheiros do Hawaii – “Longe Demais das Capitais” (1986) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Muito bem meninos e meninas!

Estamos de volta do mundo incrédulo, vagando por ondas muito loucas – mas extremamente sonoras – com a cabeça a mil neste Brasil tropical que – sei lá por que caralhos – está a ficar conservador demais da conta para trazer a vocês mais um discão.

Apresento a vocês diretamente do Rock Grande do Sul:

“Longe Demais das Capitais” – disco de estreia dos caras dos Engenheiros do Hawaii. Palmas pra ele.

Já corria o ano de 1986: a nossa democracia estava jovial, os ares de liberdade sopravam por essas bandas e nossa juventude ainda respirava os bons fluidos trazidos pelas grandes atrações do “Rock in Rio”. Nossa jovem e democrata nação estava banhada pela influência rock and roll… Bons tempos aqueles.

Uns caras da faculdade de arquitetura da UFRGS, que já faziam um som contundente e já apresentado na grande coletânea “O Rock Grande do Sul” de 1985 (corra atrás desse disco), foram chamados nos acréscimos pra essa empreitada, só entraram pela desistência de uma das bandas vencedoras do concurso que escolheu as bandas do disco (Replicantes, Garotos de Rua , TNT, De Falla). Consolidados como banda Gessinger Licks e Maltz, eles preparavam uma verdadeira porrada sonora. E o que esperar de uma banda com nome desses? É, amiguinhos… a rixa com os estudantes de engenharia que usavam bermudas de surfista batizou a banda. Muito inspirador por sinal.

O rock fervia no eixo Rio-São Paulo, e não seria diferente no sul. Um disco gravado praticamente por acidente – só foi viável depois do estouro de “Toda forma de poder” e “Segurança” presentes na coletânea sulista. Algo que poderia ficar só pra lá, acabou pegando o país inteiro de “cabo a rabo”. Também pudera; quem conhece esse míssil sonoro, sabe do que estou falando.

As influências marcantes do “The Police”, eram características dos bons ventos vindos da Inglaterra. O lirismo impressionante das letras compostas por Humberto são e sempre serão uma marca consolidadora desse disco; ele realmente chegou para ficar e fixar os caras no panteão das grandes bandas nacionais.

Crítica social, amarrada de forma inquestionavelmente envolvente pelos caras, não tinha como dar errado.

Conheci este disco ainda bem moleque (acho que deveria ter uns nove anos), não me lembro por qual influência. Só sei que o mesmo faz parte da minha vida e, com certeza, da vida de muitos que agora estão lendo essas frases e parágrafos.

Vamos ao que interessa e esmiuçar esse bombardeio de boas canções:

O disco começa com tudo, logo em “Toda Forma de Poder”: uma raiva incrédula sobre o controle e a passividade, a inércia de um povo que, sem posicionamento político, sem ideais vive em um comodismo. “Segurança”: ganhou versão em inglês, interpretada pelo grande Nei Lisboa, com as bênçãos do excepcional Manito, fala das inseguranças em um relacionamento, você realmente precisa de alguém que te dê segurança e não te troque por um escroto de carro importado. “Eu ligo pra você”: a passividade de um relacionamento vivido a três. “Nossas Vidas”: a mais influenciável The Police do disco, chega a ser parecida com os Paralamas do Sucesso. “Fé Nenhuma”: um ralho visceral aos rebeldes sem causa. “Beijos pra Torcida”: crítica ao extremo, a preocupação com o rumo que as coisas estão: guerra iminente (fique com a letra, não se deixe levar pelo som alegre). “Todo Mundo é uma Ilha”: uma bela canção de amor ao avesso. “Longe Demais das Capitais”: a cara do disco, nada por menos batiza o álbum. “Sweet Begônia”: rejeição e insistência, quem nunca? “Nada a ver”: na carência, não há nada a perder. “Crônica”: uma reflexão pessoal sobre tudo o que está errado em nossa volta. “Sopa de letrinha”: trilha sonora de novela (Corpo Santo), uma paixão quase adolescente, algo doce porem destrutivo.

E aí, quem se atrever a dizer que não conhece este disco tem mais é que pegar a medalha de foda e enterrar no panteão da vergonha.

Sem dúvida alguma um dos melhores álbuns do rock nacional. Este disco é atemporal. Seria lindo se fosse lançado nos dias de hoje. Este disco foi o começo da consolidação de Humberto Gessinger como um dos grandes poetas do Rock Brazuca.

Impressionante como o fascismo fascinante ainda hoje deixa a gente ignorante fascinada.

*Marcelo Guido é Jornalista, Pai da Lanna Guido e do Bento Guido, Maridão da Bia.

“Não foi fácil esse fim de semana…”

Discos que formaram meu caráter (parte 32) – The Smiths – The Smiths (1984) – Texto porreta do jornalista Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Salve nação rocker, estamos voltando para mais uma transmissão singular, de algum lugar perdido neste espaço sideral musical para o mais espetacular disco. Este viajante manteve-se profundamente ébrio para vir das mais longínquas margens do caos orgânico para trazer para vocês:

“The Smiths – 1984”, o primeiro disco da banda independente mais importante de todos os tempos. Palmas pra ele.

Formados na industrial e sombria Manchester em 1982, os Smiths galgaram seu espaço nas rádios pouco a pouco; o encontro fundamental entre as letras melancólicas de Steven Patrick Morrissey, com a melodia marcante de Jonh Maer (mais tarde rebatizado Johnny Marr) foi o caminho encontrado para muitos jovens cercados de sintetizadores e sobreviventes da onda punk e pós-punk que varreu a Inglaterra no começo dos anos 80.

Surrupiada da revista do Elton Tavares, em 1995

O lirismo exacerbado, uma preparação quase que mitológica nos acordes, competência acima de todos os integrantes (Mike Joyce – bateria e Andy Rouke baixo), fazia realmente a diferença para as bandas da época. Estourar seria questão de tempo.

Com som praticamente industrial – como falei logo acima – feito por exemplo pelo New Order (Grande banda – falaremos em breve), com sintetizadores e recursos eletrônicos tocando nas rádios e TVs da Inglaterra, os caras vieram com uma proposta totalmente diferente, som completamente galgado em harmonia, arpejos de guitarra sóbrios e a voz extremamente marcante uma postura singular do frontman, algo que foi novidade e não esperado para uma banda de rock na época.

Capa de caderno de 96 (8ª série) de Marcelo Guido

As letras falando do cotidiano dos jovens ingleses na época, uma recessão braba, desemprego, Manchester estava realmente um lixo. Nada mais inspirador do que a melancolia do dia-a-dia para que o poder da inspiração de quem vive isso na pele aflore e comece ferver para fora. Realmente o clima ajuda e muito.

Mas como uma banda tão trabalhada chegou em minhas mãos?? Eu, na época com 15 anos, mais brutal impossível, porradas e camisas pretas faziam parte do meu cotidiano, nunca, jamais me rebaixaria a escutar algo que não fosse porradaria e ainda o visual play (pra mim da banda) não colaboravam para que eu me interessasse em escutar. Aí entra em ação o Adriano Joacy, o “Bago” e o saudoso Helton “ He – Man”, que em uma tarde etílica me deram uma fita K7 com o primeiro disco da banda. Foda-se! Que presente!

Quem não conhece essas figuras, aí vai uma palhinha dos caras. Adriano Bago para os íntimos era uma espécie de curador. O cara tinha de tudo de som bom na casa dele (ou melhor, no quarto), em um período pré-jurássico, sem youtube e outros caralhos, era legal ter um brother assim. He-Man era outra figura singular no erário amapaense, dono de um humor sagas e de tiradas homéricas o cara tinha por característica sacar bastante de som. E com essas palavras me passaram o presente: “Escuta essa porra, tu tá muito Johnny Lydon”. (referencia clássica ao vocalista do Sex Pistols e do PIL).

Velhos, o que foi aquilo? Não tenho outra expressão pra dizer do que CARALHO! Como pude ficar tanto tempo longe disso.

Vamos deixar de delongas e conversa mole e vamos explorar logo essa ode à boa música.

Descascando a bolacha:

O disco começa com uma introdução bem trabalhada e fantástica para “Reel around the Fountain”, uma belíssima e melancólica canção sobre um término de relacionamento, uma linha marcante como uma carta de despedida para quem se ama. Vamos para “You`ve Got Everting Now”, sem perder a ternura, uma porrada, outra despedida mas onde se tem mais raiva que saudade. Chegamos em “Miserable Lie” , antevendo e muito o grunge, um misto de melancolia e porradaria colocados em doses milimetricamente pensadas e, sem dúvidas, programadas para ser uma canção inesquecível – a letra nos fala de despedida… Fique com os seus, eu ficarei com os meus.

“Pretty Girls Make Graves”: Garotas bonitas fazem túmulos; uma ode a baixa auto-estima. “The Hand That Rocks The Cradle”, uma baladinha para apertar o coração. “Stiil ill”, a dificuldade do dia-dia, “Inglaterra é minha e me deve sustento”, dúvidas recorrentes da juventude. “A mente governa o corpo …” “Hand in Glover”, uma fenomenal introdução de gaita. Amigos uma música sobre o amor perfeito.

“What Difference Does It Make”, a confiança depositada em alguém, que depois por motivos singulares sai de sua vida levando consigo seus maiores segredos. “I Don`t Owe You Anything”, baladinha perfeita para aquele sofrível domingo. “Suffer a Little Children” soturnamente maravilhosa, crianças sofrem. “This Charming Man”, a primeira música que eu realmente gostei dos caras, foi o single do disco e lançada em 1983. Eu sempre quis ser apenas um homem charmoso (risos).

Se você não conhece esta obra prima, por favor vá ao RH e entregue seu distintivo de foda, e não toque mais no assunto.

Medalha de ouro na categoria disco foda, um dos 100 maiores discos britânicos segundo o The Gardian, e a Rolling Stone o coloca entre os 100 maiores álbuns de estreia de todos os tempos.

Um disco foda, de uma banda foda, com dois caras fodas. Talvez nada igual tenha sido feito até hoje. Este disco muda vidas. Vai por mim. De repente, eu empunhava com orgulho uma capa de caderno feita a mão com uma foto do Morrissey, e tu tinha que ser bem escroto para ter essa coragem.

Esperar o quê, de uma banda formada pelo presidente do Fã Clube do The New York Dolls .

Algo tão espetacular, nunca deve ser esquecido; talvez por isso pagamos pau para Marr e Morrissey ate hoje.

Guardadas as devidas proporções, esse encontro foi mais importante que Lennon e McCartney.

*Marcelo Guido é Jornalista, Pai do Bento e da Lanna, Maridão da Bia.

**Este texto é dedicado ao He-Man, saudades eternas caro amigo Adriano Bago, uma das melhores almas que eu conheço.

Discos que formaram meu Caráter – (Parte 31) – Afrociberdelia – Chico Science e Nação Zumbi (1996) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Salve moçada do bem!

Dentre destinos lógicos ou ilógicos de um mundo repletamente miraculoso, eis que este viajante retorna.

Com a vitrola completamente restaurada e com significância maior que a obviedade escarlate, volto das profundezas com minha nave sonora. Chega de papo e vamos ao que realmente interessa!

Abram alas para mais um discaço que realmente é de suma importância para mim e com certeza para muitos de vocês. Aumente o som para…

Afrociberdelia. Todos de pé …

Corria o ano de 1996, e a música brazuca estava realmente já tomada por feras; a juventude da época estava se esbaldando em muita coisa boa.

Tínhamos o Planet Hemp que já era consolidado como um grande nome; Os Raimundos eram o suprassumo da nova rebeldia; Charlie Brow Jr, com o chorão mandado ver em tudo que é lado e o O Rappa, fazendo a sempre boa e pontual crítica social que nos gostávamos e tínhamos que saber.

Vindos de outro eixo, deveras esquecidos, uns caras de Pernambuco (sim o Nordeste é Rock!) chegavam para abalar estruturas e cabeças por todo o solo brasileiro.

Curtindo louros do ótimo, Da Lama ao Caos (safra de 1994) – que vou falar em outra oportunidade -, os caras tinham consolidado o manguebeat e passavam pela pressão do segundo disco. Nada melhor que voltar às raízes e preparar algo realmente como gostamos de dizer hoje em dia: Raiz.

O peso constante do que a banda representava no palco, agora poderia ser degustado de forma condizente onde o ouvinte poderia sentir a energia dos tambores, rabecas, cocos misturadas à guitarra e ao baixo, à bateria, aos grooves e a porra toda. Um verdadeiro suco de brasilidade e história nordestina.

A poesia de mestre Salustiano, misturada com Jorge Mautner, junto com as letras de Chico de Assis deu uma aura diferente a tudo isso que estava proposto no disco. E caiu como uma verdadeira chuva de sobriedade na cabeça de gente como eu – na época só mais um escravo do rock internacional – que realmente olhava com aquele preconceito juvenil pra tudo que parecia diferente. Ainda bem que a música abre portas.

Vamos a uma verdadeira autópsia da bolacha:

“Mateus Enter” – Abre alas na porrada, anunciando a todos quem estava chegando. “Cidadão do Mundo” – Mostrava quem era a nação, e dizia que ali não existia nenhum besta. “Etnia” – A mistura latente de todas as nossas raças formadoras, mostrando a mistureba que somos. “Quilombo Groove” – Instrumental, sem deixar cair a potência. “Macô” – Mostra com outros olhos o interesse. “Um passeio no mundo livre” – Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar. “Samba de Lado” – Uma ode ao samba, o ritmo africano mais brazuca que existe. “Maracatu Atômico” – Releitura excepcional de um clássico. “O encontro de Isaac Asimov com Santos Dumont no céu” – Onde mais o firmamento e desejo idílico soberbo de voar iriam se encontrar? “Corpo de Lama” – Que o sol não segue pensamentos e, se o asfalto for amigo, continuo caminhando. “Sobremesa” – Borboletas se equilibram no espaço, tais como pensamentos. “Manguetown” – onde iremos, onde estamos, aceitar ou não a realidade. Somos seres pensantes, independente da situação. “Um satélite na Cabeça” (Bitnick Generation) – Andando por cima da terra, controlando seu próprio espaço é onde você pode estar agora. “Baião Ambiental” – Instrumental pra relax. “Sangue de Bairro” – Baile Perfumado. “Enquanto o Mundo explode” – somos batizados pelo batuque. “Interlude Zumbi” – Onde o pensamento apareceu pela primeira vez no mesmo lugar. “Criança de Domingo” – Homenagem a o domingo, dia morto “Amor de muito” – A inebriante espera pelo amado (a). Fecha com a elementar e instrumental “Samidarish”.

Um verdadeiro míssil sonoro nos ouvidos. Medalha de ouro na categoria disco foda.

Esse artefato de boa música, quebrou barreiras com sua singularidade, mostrou que o legal era tocar em Recife, remete a vanguarda, apenas os gênios tem a coragem de fazer algo assim. E Chico era Gênio.

Largar as batidas americanizadas e fazer algo brasileiro e perspicaz é algo que necessita esforço, inteligência e ousadia. Tal qual um drible de Dener na mesmice.

Este foi o último trabalho de Chico Science, sua vida nos foi retirada de maneira esdruxula, por que não imbecil. Mas sua arte é e sempre será eterna.

Salve Chico! Salve a Nação Zumbi!

Marcelo Guido é Jornalista, Pai da Lanna e do Bento …Maridão da Bia.

Fui no mangue catar lixo, pegar caranguejo e conversar com urubu.”