Discos que formaram meu caráter parte I: Mondo Bizarro (1992) –  28 anos que o álbum foi lançado. – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Existem fatos marcantes na vida das pessoas que realmente só são importantes para elas mesmas. O que quero contar nessas humildes linhas é sobre a importância de fatos que ocorreram em minha vida,  que formaram ou deram esboço sobre o que sou hoje.

Corria o ano de 1992 e eu tinha 12 anos. Estava naquela fase que não sabemos se somos moleques ou homens. Etapa que começamos ser cobrados por atitudes ou pensamentos e responsabilidades nos começam a ser jogadas.

Foi mais ou menos nessa época de transição que conheci algo que pautaria minha vida até os dias atuais e me fazem ser o que sou hoje. Agradeço profundamente a meu irmão que me deu uma k7 (jovens as músicas já vieram em retângulos plásticos, com furos e eram chamados de “fita”), em um esquema assim “Toma, não gostei disso”.

Ouvir aquilo pela primeira vez foi FANTÁSTICO. Eu tinha em mãos um verdadeiro tesouro algo relativamente como o “Santo Graal”, simplesmente um pequeno esboço da banda que eu passei automaticamente achar a melhor de todas.

Pra começar pela capa, uns caras todos deformados, com uma atmosfera de “Foda-se, não estamos nem ai”, ou algo como “Não somos os mais bonitos, somos os mais fodas”. E era isso que realmente importava. Lembro-me que tinha em minha casa artefatos que hoje são jurássicos como um “Toca Fitas”, vermelho que atendia pela alcunha de “Meu primeiro Gradiente” (muitos vão saber o que é isso).

Ao colocar aquele famigerado k7 e ouvir os primeiros acordes de “Censorshit”, minha vida realmente ganhou sentido. Ver aquela figura, de voz esquisita, mandado aquelas verdadeiras farpas contra a censura americana foi algo que me fez refletir sobre o que fazemos no mundo. Ramones mostrava pra mim naquele som, que tudo estava errado. Que temos que fazer algo para melhorar e que o melhor e fazer por nossas mãos.

Mondo Bizarro, também foi o disco em que a banda conseguiu seu maior apelo e sucesso comercial, chegando a receber discos de ouro e platina em vários países como Brasil, Argentina e Chile (Pra ficarmos em nosso continente). Também foi o primeiro disco de estúdio que o C.jay Ramone gravou com a banda. Esse cara é responsável pela excelente “Strengh To Endure”. É para mim a melhor formação de todos os tempos de uma banda de rock: Joey, Johnny, C.Jay e Marky.

O disco brinda os fãs com uma bela mensagem em “It´s Gonna Be Alright”, “Isto é dedicado aos nossos fãs pelo mundo,mais fiéis e com certeza, quando a vida fica frustrante vocês fazem valer a pena…Não é ótimo estar vivo?”, exemplo de respeito e dedicação a os fãs é algo muito raro.

Sem contar claro da participação de Dee Dee Ramone que mesmo fora da banda nos brinda junto com Daniel Rey com a gloriosa “Poison Heart” Trilha sonora de “Pet Cemetery 2” (Clássico), bom podem ver que realmente um “Discão”.

A partir dessa audição e de muitas que fiz depois deste dia, minha vida ganhou relevância, pra começar o gradiente vermelho foi decorado logo com uma oriunda caveira desenhada toscamente por mim no esquema “Faça você mesmo”. Agradeço-te muito meu irmão por ter me dado sentido. Durante muitos anos o que eu realmente quis foi uma jaqueta preta, uma calça jeans rasgada, uma moto e uma camiseta dos Ramones.

VIDA LONGA A O PUNK!

*Marcelo Guido é jornalista, professor, assessor de comunicação, pai da Lanna e Bento e marido da Bia, além de amante de Rock and Roll.

**Mondo Bizarro é 12º álbum de estúdio dos Ramones. Em 1 de setembro de 1992, a banda lançou este, há 28 anos. Por conta da data, republicamos este texto porreta do Marcelo Guido. 

Discos que formaram meu caráter (Parte 29) – “Back In Black” – AC/DC (1980) – Republicado por conta dos 40 anos deste álbum, completados ontem, 25 de julho. Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Muito bem moçada!

Estamos de volta com nossa programação normal, ou não. Perdidamente em um espaço sinistro de um mundo particularmente miraculoso, eis que retornamos com nossa muito louca nave para mais uma edição dos “Discos que formaram meu caráter”.

Sei que devo ter deixado várias pessoas chateadas e putas da vida, principalmente o dono desse blog, que é um cara muito legal (faz logo uma farofa), mas não voltaríamos à toa. Sem mais delongas e “eltontavarices” à parte, é com orgulho que volto do inferno para apresentar para vocês o sétimo disco dessa turma de Sidney (AUS). Senhoras e senhores, com toda a pompa e circunstância que a ocasião permite, orgulhosamente, apresento a vocês: “Back In Black” do AC/DC. Todos de pé de PÉ.

Muito bem; corriam os anos 80 – a ressaca dos famigerados anos 70 ainda estava no ar e os caras do AC/DC já tinham provado à Europa que na Austrália não existia só Canguru, coalas e o Men At Work (grande banda, por sinal). Mas faltava ainda a conquista da América, a invasão australiana aos EUA já era um objetivo. Os planos da banda quase foram abortados por uma tragédia. Em fevereiro de 1980 o carismático e competente Bon Scott morre afogado no próprio vômito (yeah), mais rock impossível.

Sem muito tempo para frescuras e digerindo a perda – coisa que Scott não fez direito (rá) – os caras recrutaram o não menos foda ex-vocal do Geordie, Brian Johnson. Com nova formação, o AC/DC partiu para um estúdio e resolveu fazer uma homenagem ao finado frontman. Sem as 15 músicas escritas por Bon Scott para um novo álbum (um sinal de respeito dos caras), as cartas estavam na mesa.

Lançado em 25 de julho de 1980, o disco foi uma homenagem póstuma, um tributo a Bon Scott. Caras, que tributo!!

Sem mais salamaleques e leros vamos dissecar este belo artefato:

A bolacha começa com a hoje clássica “Hells Bells”, nada mais justo do que tocar os “sinos do inferno” para homenagear o saudoso e “vomitão” vocalista; aí o clima sombrio dá espaço a um alucinado riff de Angus; aí, meus velhos, a pauleira corre solta com Brian falando em alto e bom som que “se você é mal, então é dos meus”.

Entra a não menos alucinante “Shoot To Thrill”, que particularmente considero atemporal; mesmo com quase 30 anos, ainda pode ser aproveitada pela grande indústria – não é à toa que é o tema da vida de Tony Stark (só os bem fodas).

Vamos para “What Do You Do For Money Honey”, a mais digamos “pop” do disco; fala o que as pessoas podem fazer por dinheiro, segundo os caras “principalmente as mulheres”. “Giving The Dog A Bone”, o clássico “balance a cabeça e acompanhe o refrão”, recheada de conotações sexuais, é uma das melhores da bolacha. Chegando a “Let Me Put My Love Into You”, começa vagarosa, mas logo é dominada por riffs e uma bateria insana.

Sem deixar a peteca cair “Back In Back” – a faixa título do discão – mostra exatamente o que os caras estavam passando, a volta do “luto” ou você não sente isso quando ouve “de volta do luto/eu caí na cama/Estive longe por muito tempo….Sim eu fui libertado da forca”. O clássico dos clássicos, a melhor música já composta, os acordes, riffs e letras mais perfeitos; sim, amigos: “You Shook Me All Night Long” é, sem dúvida alguma, um dos hinos do rock no mundo, uma homenagem de Brian a sua namorada da época (risos).

“Have A Drink On Me”: em time que está ganhando não se mexe, ou seja, mesma fórmula, começa calma e termina em um espetáculo de porradaria. “Shake A Leg”, cantada por Brian com um vozeirão dos infernos, mostra o que seria a banda a partir daquele momento. E no fim de tudo, “Rock And Roll Ain`t Noise Pollution” – uma introdução improvisada na hora, e riffs animalescos – fecha o álbum com chave de ouro. São quarenta e um minutos e trinta segundos de pura porrada nos ouvidos. Sem dúvida nenhuma, um disco que já nasceu para ser foda. Medalha de clássico em primeira linha.

Esta bolacha foi um sucesso de vendas, vendeu até hoje 51 milhões de cópias é o disco de rock mais vendido de todos os tempos, e o segundo álbum mais vendido de toda história (perde apenas para “Thriller” do Michael Jackson, que realmente não conheço ninguém que tenha).

Se Bon Scott precisou morrer para a concepção desde verdadeiro míssil sonoro em ode ao rock, cara, sua morte não foi em vão.

Este álbum foi um verdadeiro “chute nos colhões” da dita New Wave da época. Tive a imensa felicidade de receber meu mais novo exemplar das mãos da Bia (minha garota), que viu o quanto fiquei feliz com o presente.

Muito bem macacada, é isso! Velhos, quem não conhece o disco, não merece nem em 100 anos a patente de foda, pegue seu dito passado roqueiro e jogue no lixo. No mais, é só.

* Marcelo Guido é Punk, Pai da Lanna e Bento, barba (malfeita) e marido da Bia… “nem a morte, muito menos o Diabo podem parar o Rock In Roll”.
**Publicado neste site originalmente em novembro de 2014. Republicado por conta dos 40 anos deste álbum, completados ontem, 25 de julho.

Discos que formaram meu caráter (Parte 19) – Closer – Joy Division (1980)

 

 
Muito bem, estamos aqui de novo, com aquela conversa deveras agradável, com um papo empolgante sobre som, disco e afins. Muitos podem achar estranho, mas acredito fielmente que a música sempre esta relacionada com algo importante em sua vida.
 
Hoje eu tenho a honra de apresentar a vocês, um dos maiores discos de todos os tempos, algo realmente marcante para muitos, o começo do que ficou conhecido como “pós Punk”, o inicio que acabou sendo o final de uma das maiores bandas de todos os tempos, senhoras e senhores sem mais delongas eu lhes apresento: “Closer”.
 
Gravado em 1979, mas por problemas de tiragem, foi lançado apenas em 1980. O vinil mostra uma singularidade marcante da banda, que já tinha sido apresenta com louvores em seu “debú” com o excelente “Unknown Pleasures” de 1979 (Falaremos em breve deste). A diferença é que agora os caras de Manchester (NG) estavam a fim de conquistar o mundo e “Closer” foi preparado para isso. A melancolia chuvosa da terra da rainha estava preste ser colocada a prova no mercado internacional. Sim eles estavam indo para a América.
 
Falando de uma maneira compreensiva sobre temas que vão do dia marcante, cotidiano inflexível, depressão e tristeza, aliados a forma magistral que seu vocalista, Ian Curtis, conseguia transmitir toda sua melancolia em versos para os ouvintes, sem contar a competência da trupe que o acompanhava Bernard Summer, Peter Hook, Stephen Morris (se você, caro leitor, não souber quem são essas pessoas pegue sua patente de “FODA” e jogue no lixo), sem contar em um certo “pioneirismo” nas batidas eletrônicas, coisa que poucos estavam se aventurando em fazer na época.
 
O disco foi gravado sob uma abóboda de estuque, que foi especialmente construída para a captação da ressonância de uma capela. Que deixa o disco ainda mais sombrio, e sério.Com todo respeito vamos às faixas:
 
O disco começa com a sombria “Atrocity Exhibition”, com guitarras estranhas, cheias de efeitos nos levam uma atmosfera inquietante, versos como “o silencio com as portas escancaradas, onde as pessoas podem pagar para ver por dentro…” é um convite. Vamos para “Isolation” (uma de minhas preferidas), um retrato conturbador da personalidade de Ian. Chegamos em “Passover” uma bela canção, que fala de crises, equilíbrio pessoal, sobre o quanto somos seguros na infância. Vai para “A Means To An End”, fala de uma amizade. 
 
Chega em “Heart And Soul” coragem para superar os desafios que estão por vir, sua coragem nunca deve acabar “…Coração e alma um irá queimar”. Agora “Twenty Four Hours” magnificamente agitada, mas que não perde a influencia “dark” das outras canções. Indo para “The Eternal”, posso classifica-la como “perigosamente depressiva”. Encerando tudo com a belíssima “Decades” a perfeição maior com teclados, contrastando  com o voz de Ian. 
 
É realmente um disco pesadíssimo, que transpira emoções fortes, mas que com certeza afligem muitos ou já afligiram. A edição nacional desde álbum, o qual me orgulho de ter em Lp (presente de meu velho pai) trás ainda “Love Will Tear Us Apart”, uma das mais belas canções de todos os tempos.
 
Podemos prestar atenção, que não existia mais diferença entre a personalidade conturbada de Ian Curti e sua poesia, não tinha mais como separar seus problemas do que ele escrevia. 
 
Sem duvidas, a semente foi jogada. Batidas eletrônicas e guitarras dissonantes, que influenciaram varias bandas depois como The Cure, Bauhaus, Sister of Mercy, New Order para ficar só no algumas. Não tem como não merecer a patente maior de clássico.
 
Como disse no começo do texto, poderia ser o começo da “Maior banda do mundo”, mas foi fim precoce. O disco foi lançado logo após o suicido de Ian. Que nos privou de seu talento agonizante em 19 de maio de 1980.
 
Perfeito para se ouvir em uma tarde chuvosa, com vinho barato (ixi, muitas vezes), melancólico sem dúvidas, mas com extrema beleza que só as mais sinceras cartas de adeus possuem. Por hoje é só.
 
Marcelo Guido é Punk, pai da Lanna e Banto, marido da Bia, jornalista,  professor e servidor público “…o amor pode sim, nos separar rasgando” .
*Republicado por este disco completar 40 anos hoje. 

Discos que Formaram meu Caráter (Parte 49) – “Adiós Amigos” – Ramones (1995) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Salve moçada!

Todos trancados em seus lares escolhendo quem matar para a economia não parar… O viajante dos sons está de volta para mais uma rodada de discos, músicas e afins.

Com a nave a toda velocidade, som na altura máxima, com orgulho apresento a vocês:

“Adiós Amigos”, o 14º álbum dos Ramones. Todos de pé!

Estamos agora em 1995, e os caras dos Ramones encaravam a velhice. Estava ou não na hora de se aposentar? A relevância da banda nunca esteve em xeque, mas os tempos eram outros.

Passando incólumes pelos tempos da discoteca, pelos anos 80, a “new wave”, o pós-punk, o grunge e outros caralhos, Joey e Jonhy já pareciam cansados da vida que escolheram.

Somando isso aos problemas de saúde de Joey (que teve em toda a sua vida adulta um constante entra e sai de hospitais), a idade e o estilo de vida começavam a cobrar um preço; Joey acabara de ser diagnosticado com um severo câncer linfático e, como bom Ramone que era, deixou a doença em segredo.

Com 13 discos de estúdio e discos ao vivo que pareciam transportar os fãs para os shows, reconhecimento formado por uma legião de fãs no mundo inteiro, sempre citados como referência por vários músicos e banda planeta afora, os caras já tinham salvado o Rock and Roll da ameaça do “Progressivo” com seus solos intermináveis e suas reflexões sem sentido de bons músicos que sabiam ler partituras. Os Ramones não deviam nada a ninguém.

A preocupação maior era não se tornar uma paródia de si mesmo e aceitar de uma vez que a estrada dos tijolos amarelos estava chegando no fim.

Os shows que nos tempos áureos chegavam a 150 no ano, tinham sido reduzidos a um terço, o acolhimento da América do Sul para os caras depois de “Mondo Bizarro” deu um gás na banda, os problemas de saúde de Joey já eram bastante latentes, ausências em parte das apresentações, máscara de oxigênio no palco, o Ramone que mais vestiu a camisa da eterna adolescência parecia realmente querer um descanso.

Os Ramones, estavam realmente em dúvidas quanto ao futuro e, talvez, as crises que todos nós temos tenham também chegado nos caras naquela época. As 13 faixas do disco trazem profundas reflexões sobre amor, dor, ódio e futuro, mas tudo muito rápido e intenso como só eles sabiam fazer e, sendo assim, por respeito a seus muitos admiradores, entraram em estúdio em fevereiro de 1995 e em junho do mesmo ano apresentaram este belo exemplar de som, anunciando que seria o derradeiro trabalho.

Vamos ao que interessa e dissecar essa bolacha:

O disco começa com “I Don`t Want To Grow Up”, cover do Tom Waits é desafiadora, uma franca negação do mundo real, incertezas sobre o futuro, dúvidas sobre a própria vida. “Maki Monsters For My Friends” a autocrítica feita, somos os nossos próprios monstros. “Its Not for Me to Know”, a desistência contra o que não pode ser evitado, você fez tudo o que era possível. “The Crusher”, composta por Dee Ramone, já tinha sido gravada no primeiro disco solo dele, ganhou nova roupagem na voz de Joey, mostra que ainda se tem disposição para lutar contra desafios. “Life`s a Gas”, simples, são daquelas canções que marcam pela intensidade, foi o single do disco. “Take the Pain Away”, pessoal, uma caminhada constante pelo alivio, você só quer acabar com a dor. “I Love You”, cover do Johnny Thunders , a simplicidade em falar de amor. “Cretin Family”, todos contra você uma resposta à o clássico “Pinhead”, se antes os Ramones era o lar dos desajustados, tinha agora tornado parte do Mainstrean. “Have Nice Day”, ironia nas saudações diárias, escuta se sempre um bom dia em uma derrota. “Scattergun”, a segurança que você se propõe a ter. “Got a Lot Say”, tudo a dizer, mas não sabe agora. “She Talks To Rainbows”, triste, mas verdadeira, mostra o lado desesperançoso de quem se entretém com tudo e com todos. “Born To Die in Berlin”, uma significativa ode aos entorpecentes.

Rápido, intenso e formidável que puta disco.

O respeito pelos fãs – algo que sempre foi uma marca dos caras – esteve presente neste álbum. Essencial na discografia de quem pretende gostar de Rock and Roll.

Medalha de ouro. Se tu não conheces, na moral, mereces ser deitado na porrada.

Um disco que, apesar de ter sido anunciado como último trabalho, não perdeu a “aura Ramônica” e, longe de ser um caça-níquéis, feito por caras cansados e desgostosos, soa como um verdadeiro “The best of”, de tanto esmero e vontade.

A capa, uma das mais horríveis e esdrúxulas já feitas, eram dois dinossauros com sombreiros, com o título em espanhol.

É sem dúvida alguma, um daqueles discos verdadeiramente pensados, com canções eternas; um daqueles que tu colocas pra tocar do começo ao fim sem medo.

Sim, foi o último e acabaram em grande estilo. O mundo teve que sobreviver sem os Ramones. “Não queremos nos estender além da conta”, declarou Joey Ramone.

E no final, a saída por cima; “Adiós Amigos” mostrou que máxima de Bruce Wayne é verdadeira: “Ou você morre como um herói, ou vive o bastante para se tornar um vilão”. Os Ramones foram simplesmente fodas do começo ao fim.

Este texto é dedicado a Renato Atayde, Luis “Espalha Lixo” Xavier, Fábio “Macumba” Evangelista e Alex “Skoria” Rodrigues que, assim como eu, também tiveram o caráter formado por Ramones.

Ramones Forever.

*Marcelo Guido é jornalista. Pai da Lanna Guido e do Bento Guido. Maridão da Bia.

Discos que formaram meu caráter (Parte 48)…“Lavô tá Novo” – Raimundos (1995) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Salve moçada! Encarcerados em casa por uma boa razão, fiquemos ligados porque o bicho tá pegando! O viajante das notas, solos e riffs vem de longe com sua nave, munido de máscaras, álcool gel e sons para falar de mais uma bela bolacha sonora. Apertem os cintos e aumentem o som para:

“Lavô tá Novo”, o segundo trabalho dos caras dos Raimundos. Podem ficar de pé e aplaudir.

Corria o ano de 1995, o Brasil vivia a ressaca do tetra, Romário era o melhor do mundo e caia nos braços da nação rubro negra, o Real valia pra caralho e o povo tinha elegido o ministro responsável pela bonança; eram os primórdios do governo FHC.

No campo musical, o rock estava batendo de frente com axé e sertanejo nas rádios e na televisão, uma enxurrada de bandas boas de todo lugar do Brasil fazia a molecada bater a cabeça sem parar, nas festas, bailes e afins.

Vivendo os louros conquistados pelo lançamento do primeiro disco (que já falei aqui), os Raimundos viviam a tensão do segundo disco. Sim, o fantasma da cobrança assombrava os caras; é difícil lançar um trabalho tão relevante quando o primeiro é muito bom. Seria os Raimundos uma banda de um disco só? A história provou o contrário.

Entre junho e setembro de 1995, Rodolfo, Fred, Digão e Caniço entraram em estúdio, cheios de moral com a gravadora e recrutaram Mark Dearnley, que já tinha no currículo Ozzy, AC/DC e Motorhead. Ou seja, o som seria porradaria novamente.

As letras magistralmente escatológicas, com a mistura do forró com hardcore e a participação do sanfoneiro Zenilton deixam claro que essa era a marca da banda: ousar sempre.

As paredes de guitarras bem trabalhadas, a bateria virando a mil – com um Rodolfo bastante à vontade nos vocais – fizeram com que canções como “Tora-Tora” e “Eu quero ver o oco” (pesadas do começo ao fim) tocassem sem parar nas rádios e, seguindo o caminho de “Selim”, a baladinha “I Saw You Saying” (Parceria com o Gabriel Thomas) era a música ideal para se chegar junto da mina nas festinhas.

Em 2 de novembro de 1995, o disco saiu para ganhar o imaginário coletivo e consolidar a banda como um dos expoentes da nova safra roqueira no país do futebol e carnaval, os Raimundos realmente tinham vindo para ficar.

Deixemos as chorumelas de lado e vamos logo dissecar esse belo apetrecho musical:

O disco começa a mil por hora com “Tora Tora”, com um riff seco no começo e cheia de referências à maconha, ensinava a manha da ariranha que proibia de contar pro pai, e diz que vem ele não vai. “Eu quero ver o oco”, gíria dos calangos dos calangos do cerrado para confusão, história de opalão. “Opa! Peraí, Caceta”, ela gosta do saco grande porque quando balança enche o cu de terra, menção honrosa ao herói Sidney Magal. “O Pão da Minha Prima”, cover do Zenilton, homenagem a prima gostosa. “Pintando no Kombão”, história de uma certa perua que carregava as bandas de Brasília. “Bestinha”, saga de uma mina novinha, mas muito pra frente.

“Esporrei na Manivela”, clássico da 5º série. “Tá Querendo Desquitar”, outro clássico do Zenilton, a história de seu Vavá com uma nova roupagem. “Sereia da Pedreira”, a saudade plena daquele amor sujo e escuso e gostoso. “I Saw You Saying (That You Say That You Saw), a dificuldade de se encontrar a Madonna, e não saber falar inglês. “Cabeça do Bode”, uma larica selvagem, tem a participação do X. “Herbocinética” uma homenagem à erva.

Putaquepariu que disco foda! Redondinho da primeira à última música.

Com certeza um dos discos que eu mais ouvi em toda minha vida e, com certeza – de novo, moldou não só o meu caráter, mas o de muitos que ouviram.

Mais de 400 mil cópias vendidas logo de cara; se algum cristão não conhece nem deve sonhar com medalha de foda.

Este disco mostrou que os Raimundos não eram aquela banda engraçadinha que seria só uma febre de um verão; afastou os caras do grande público pop, que se pauta em modinhas (sorte dos Mamonas Assassinas que ficaram com eles), tornou os moleques de Brasília uma consolidada banda de respeito, e provou sim que os caras realmente tinham um caminhão de hits.

Tanta referência à maconha, quase fez o disco se chamar “Dedo Amarelo”, sinceramente não entendi (risos).

Um dos melhores discos de rock já feitos no Brasil; didático, aprendemos nele que o coletivo é muito bom pra nossa raça, que em inglês ovo é egg , que a rainha do pop não entende uma palavra em português, a manha da ariranha e que falar da vida alheia é feio.

Hoje, há mais de 20 anos de seu lançamento, continua sendo um dos pilares do hardcore.

É por isso que os Raimundos nunca vai se acabar.

Escute no volume máximo.

* Marcelo Guido é jornalista. Pai da Lanna Guido e do Bento Guido. Maridão da Bia.

Discos que Formaram meu Caráter (Parte 46) – “Sobrevivendo ao Inferno” – Racionais MC`S (1997) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Muito bem moçada esperta!

Estamos de volta da batalha, andando vagarosamente pelo caminho torto das notas, rifs e viradas. A nave louca do som está presente novamente para tentar salvar a vida de vocês do tédio minguante que a vida adulta traz. Por menos normal que pareça, venho de longe com esta digníssima bolacha…

É com muita honra que apresento a vocês:

“Sobrevivendo ao Inferno” – segundo álbum dos caras do Racionais MC’s.

Por favor, todos de pé.

Corria o ano de 1997. No Brasil, o rock nacional estava em alta, com o Planet Hemp, O’Rappa, dentre outros, seguindo o caminho que os Raimundos tinham aberto nas rádios e nas grades de TV. A MTV Brasil fazia o seu papel muito bem, apresentando bandas que caíam no gosto da juventude; os medalhões do Rock Nacional, pareciam ter reencontrado o tesão para fazer discos bons. Realmente, o clima estava muito legal.

Dentro deste contexto, a molecada com a mente aberta começa a experimentar outras vertentes e o movimento musical brasileiro começa a abrir os olhos para outros conceitos e algo quase esquecido nos anos 80 começa a sair das cinzas: o Rap pede passagem.

E assim a galera do Racionais MC`S apresenta seu segundo disco de estúdio. Na batalha desde 1989, Mano Brow, Edi Rock, KL Jay e Ice Blue já tinham mostrado ao que tinham vindo, com o espetacular “Raio X do Brasil” de 1993, e hits como “Fim de semana no Parque” e o clássico “O Homem na Estrada” já tinham caído no gosto popular e era difícil alguém naquela época que não conhecesse pelo menos um verso dessas duas bombas.

O desafio para o segundo disco era algo que não assustava os caras do Capão Redondo. Com certeza havia muito o que falar ainda, os temas recorrentes de uma realidade miserável que muitos eram testemunhas no dia-a-dia.

A denúncia presente nas letras deste disco, vem de encontro com a imagem que o Brasil vendeu durante muito tempo; ter a pobreza como enredo, o racismo que é mascarado em nossa sociedade, a truculência policial e vida ceifada de milhares de jovens – em sua maioria negros ou pardos. Realmente a nossa sociedade tinha mesmo que engolir esse disco.

Afiados como lanças, os caras não se comediam em mostrar seu descontentamento com a situação social brasileira, o abismo crescente entre ricos e pobres, onde a maioria sucumbe a uma realidade que sempre favorece a uma pequena parcela, as classes A e B tinham que escutar o grito que vinha das massas periféricas e o Racionais tomaria a cena na marra, mais uma vez.

Com letras que mostravam a verdade de um país desigual, onde o sol brilha para poucos, onde o Apartheid social é uma política extraoficial do estado, mas acaba sendo a realidade de uma maioria.

Sem mais delongas, vamos esmiuçar esta obra prima da música brasileira:

O disco começa a todo vapor com “Jorge da Capadócia”, resgatando esse clássico do Jorge Ben Jor. “Genesis”, litúrgico, uma introdução na voz de Mano Brow. “Capítulo 4 Versículo 3”, a ressureição da fúria negra, o dia comum na quebrada, a luta diária pela sobrevivência em uma dura realidade, o esforço para se manter bem e um lugar onde o fracasso é comum e sempre esperado. “Tô ouvindo alguém me chamar”, história de Guina, alguém que era parceiro, professor no crime, conseguiu tudo, o sistema nos pés, mas o fim trágico que sempre o aguarda. “Rapaz Comum”, o encontro com a morte em mais um dia comum. “Instrumental”, para relaxar. “Diário de um Detento”, olhar por dentro de uma das maiores tragédias da humanidade, o massacre do Carandiru. “Periferia é Periferia (Em qualquer lugar)”, uma verdadeira viagem pelas periferias de todo país, são iguais em todo lugar. “Qual mentira vou acreditar”, uma ode ao racismo disfarçado do Brasil. “Mundo Mágico de Oz”, o singelo olhar de quem quer que sua realidade seja um sonho .

“Fórmula Mágica da Paz”, como encontrar a paz em uma realidade que não te oferece isso, um estado de guerra todo tempo. “Salve”, uma lembrança a todas as comunidades.

Putaquepariu, que disco realmente fantástico! Sem dúvida alguma, uma aula de história do Brasil. Cumpre com maestria seu serviço didático de mostrar uma realidade que infelizmente continua escondida para muitos.

Quem não conhece, além de nunca conseguir uma medalha de foda, sinceramente merece ser deitado na porrada. Ultrapassou fácil os números de um milhão e quinhentas mil cópias logo no lançamento, algo realmente foda para um disco gravado e distribuído por uma gravadora independente.

Com certeza, formador de caráter.

Conheci esse disco ainda bem cedo, no ano de seu lançamento; abriu minha mente para outras realidades e fez ser quem eu sou. A voz dos excluídos precisa ser sempre ouvida.

Musicalmente falando, um verdadeiro show de batidas e grooves, que foram harmoniosamente bem pensados para que nenhum erro fosse cometido.

É, com muita justiça, considerado o álbum mais importante de todos os tempos do Rap Nacional, virou leitura obrigatória para o vestibular da Unicamp, e é literatura, pois virou livro. Sem contar que foi o presente dado por Fernando Haddad – então prefeito de São Paulo – para o Papa Francisco.

Na lista da Rolling Stone, é um dos discos mais importantes da música brasileira.

Organizado: como movimento litúrgico, te tira da bolha em que vive e te convida para uma reflexão, que pode te acompanhar para o resto da vida. Atemporal: mesmo depois de mais de 20 anos de seu lançamento, continua atual. Muitos brasileiros passaram a se reconhecer como seres humanos ouvindo “Sobrevivendo ao Inferno”

Muito obrigado ao Racionais MC’S.

*Marcelo Guido é jornalista, pai da Lanna Guido e do Bento Guido, além de maridão da Bia.

Discos que Formaram meu Caráter (Parte 45) – “The Stooges”… The Stooges (1969) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Muito bem moçadinha esperta, atuante e atenuante estamos de volta com nossa programação normal, a nave e a cabeça deram pane mas já estão recuperadas e prontas para o serviço. As ondas sonoras continuam muito loucas e o tédio escarlate já pode começar a ruir por que vem ai mais uma porrada sonora, com muito orgulho que trago para vocês:

“ The Stooges” primeiro álbum dos caras do The Stooges, todos de pé e máximo respeito.

Corria o ano de 1969, e o mundo fervilhava em explosões joviais, na França a molecada já havia bagunçado o coreto nas ruas um ano antes, e essa rebeldia que se espalhou pelo mundo, começava a dar muitos frutos positivos. O verão do amor em 1967, conhecido como o “verão hippie” com suas discussões sobre a vida e o por que devemos nos rebelar contra o sistema um verdadeiro caos positivo instaurado.

Dentro desse contexto as bandas de rock começaram entrar em uma fase nova, e os medalhões conhecidos mundialmente como o Led Zeppelin, Pink Floyd , e os Beatles que ainda bem já tinham conhecido o Bob Dylan (O fânio mais incrível do mundo) dentre outros já conheciam as coisas boas que o sucesso podia proporciona, era uma experimentação danada, um progressismo com viradas de bateria e solos intermináveis, uma viajem muito louca que para mim e muitos acabava deixando o Rock muito Progressivo, ou seja chato pra caralho.

Assim na cidade de Ann Arbor no Michigan, caras como Iggy Pop começavam a formar suas bandas , mas tinha um diferencial as letras e as melodias eram para as massas, temáticas comuns e nada muito complicado para se tocar assim o bardo recrutou Dave Alexander para o baixo e os irmãos Ron e Scott Asheton estava formada a espinha dorsal da banda que meteoricamente explodiria em popularidade.

As apresentações eram extremamente insólitas, com Iggy sujo de pasta de amendoim, carne crua e se cortando adoidado a galera ia a loucura, parte se identificando com as letras e outra só xingando a banda mesmo. A adoração por ídolos passava longe daqueles caras.

A banda foi a guerra e em um show em Detroit acabaram sendo vistos por Danny Fields , que tinha ido ver o MC5 (Banda boa pra porra, falaremos dela) e gostou de toda aquela insanidade e simplicidade apresentada por Iggy e seus garotos.

Fechado contrato entre Junho e Julho de 69 os caras entram em estúdio para imortalizar o que já apresentavam no palco, produzidos nada mais nada menos por John Cale do Velvet Underground. Tudo em cima, tudo na paz mas só tinham 5 músicas. Rejeitados pela gravadora que dizia precisar de mais material, precisaram de uma noite para escrever mais 3. Que foda!

Deixando as enrolações de lado, vamos a o que interessa e dissecamos a bolacha:

O disco começa com “ 1969” , a crítica sobre o que não ter o que se fazer, dane se se é ouro ano, o tédio é o mesmo. “ I Wanna Be Your Dog”, a submissão para alguém que se gosta, você a quer mesmo com todos os defeitos. “We Will Fall”, a luta contra seus próprios impulsos. “No Full”, a famosa ressaca moral depois dos excessos, quem nunca ?. “Real Cool Time” a expectativa pelo o que está por vir. “Ann” bela homenagem a pessoa amada. “Not Rigth” ela está certa, muitos acreditam ser para heroína outros para uma garota. “Little Doll” , homenagem para uma group.

Visceral, cru , escroto, reto e direto nada mais nada menos que um disco foda, foda demais.

Nem chegue perto de uma medalha de foda se ousar não conhecê-lo. Os caras simplesmente mandaram a merda o que estava sendo feito e colocaram a verve própria, mesmo que meteoricamente apresentaram ao mundo o conceito clássico do faça você mesmo.

O Rock and Roll não é e nunca foi erudito, é música de protesto, da massa, esses caras foram os que chegaram e mostraram como se fazer.

O disco não vendeu porra nenhuma na época, o que levou os caras pra Los Angeles e o mundo pode conhecer melhor o Iggy Pop, que antes era Iggy Stooges.

Reverenciado na lista da revista Rolling Stone como um dos 200 discos mais importantes de todos os tempos, foi a apresentação de “1969” e “I Wanna Be Your Dog” que ainda hoje são referências.

Se na época o rock sujo, cru e barulhento dos Stooges foi mal compreendido, a banda no decorrer dos anos foi influencia maior de caras como Ramones, Sex Pistols , The Clash, Mudhoney dentre outros e pelos serviços prestados esse disco e indispensável na coleção de quem pretende gostar de rock.

“THE STOOGES” FOI O PONTA PÉ INICIAL DO QUE CHAMAMOS DE PUNK ROCK.

*Marcelo Guido é jornalista, pai da Lanna Guido e do Bento Guido e maridão da Bia.

Discos que Formaram meu Caráter (Parte 44) – “Selvagem”…Os Paralamas do Sucesso (1986) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Muito bem moçada esperta, o Lunático Viajante das notas e riffs esta de volta de algum lugar muito louco, dentro da própria cabeça para trazer a vocês mais um indefectível disco.

Todos e de pé, salva de tiros e honrarias em geral para:

“ Selvagem” , terceiro álbum de estúdio dos caras do Paralamas do Sucesso, enxuguem as lagrimas de emoção e vamos a ele.

Corria o ano de 1986, já contamos aqui que a década perdida estava demais para as bandas de rock no Brasil, o fresco da liberdade estava sendo muito bem aproveitado pela molecada, os anos de ditadura que colocaram uma mancha negra na história do país, estavam de saída. A abertura politica, anistia e outras conquistas começavam a gerar frutos, e mesmo com o Sarney na presidência realmente o rincão brasileiro parecia ser o país do futuro.

Dentro deste contexto, Hebert, Bi e Barone que já haviam mostrado ao tinham vindo com os espetaculares “Cinema Mudo”, de 83 e o “Passo do Lui” de 84, e eram um dos baluartes da nova geração do rock brazuca, resolveram que já estava na hora de mostrar as mazelas do nosso país em letras contundentes, mesmo por que falar de sol, mar e mulatas já era função da bossa nova. E se antes eles estavam felizes por irem tocar na capital, a verve séria e rebelde do segundo disco iria ser mais uma vez aproveitada. A Função de banda bonitinha já era muito bem trabalhada pela turma da Blitz.

A inesquecível apresentação no Rock in Rio colocaram os caras na crista da onda, pasmem o rock estava em alta e tocando em rádios no brasil todo, e um pensamento politico era necessário.

A mistura salutar e marcante do reggae com o rock, a lá The Police já estava conhecida e uma brasilidade nas letras e atitudes já era aguardada por muitos fãs, ter o que dizer era quase que uma obrigação. Não seria só uma moda de verão, o movimento tinha que se consolidar.

Credenciados por serem os padrinhos da turma de Brasília, leia se Legião Urbana, Capital Inicial , Plebe Rude dentre outras tiveram a oportunidade e confiança de entrarem em estúdio para fazer o que queriam fazer no terceiro disco. A proposito a banda é do Rio de Janeiro, e não do Planalto Central.

Entraram em estúdio entre fevereiro e março de 86, trabalharam as letras em conjunto e ainda fizeram uma ótima parceria com o Gilberto Gil, o ministro, reza lenda que o pai da Preta recebeu uma fita com toda melodia de a “Novidade” e
pelo telefone , passou toda letra. Testemunhas do episódio dizem que Hebert veio as lagrimas com genial letra do mestre Gil.

Vamos deixar de delongas e dissecar este belo exemplar de boa música:

O disco começa com “ Alagados”, maravilhosamente critica, expondo as mazelas dos mais sofridos e excluídos dentro da sociedade brasileira, fazendo uma alusão clássica entre a comunidade onde nasceu o rei Bob Marley, com a comunidade da Maré. “Teerã”, denuncia de uma guerra, que apesar de na letra falar de uma cidade do outro lado do mundo, mostra quem mais sofre nas batalhas diárias. “ A Novidade”, as dimensões do paradoxo, um mundo desigual, de um lado a eterna festa, para outros a miséria. “Melô do Marinheiro”, uma viagem clandestina, para conhecer o primeiro mundo, nada é fácil para o brasileiro mesmo de “gaiato”. “Marujo Dub”, instrumental para relaxar. “ Selvagem”, a apresentação real dos vários segmentos sociais, as armas para defesa. “ There`s Party”, a uma festa no mundo, mas você esta sozinho. “ O Homem”, mostra as várias facetas do ser humano, que pode ser bom ou ruim. “Você”, versão própria de um clássico do Grande Rei do Soul Tim Maia.

Putaqueopariu que disco foda, não menos que fantástico. Politizado realmente deu um recado que deveria ser ouvido por todos. Se alguém se atrever a cogitar uma medalha de foda sem conhecer este artefato, nem vai passar na seletiva.

Vendeu pra porra, segundo maior sucesso de vendas dos caras. Rendeu ouro e Platina além de abrir as portas para o festival de Montreux na Suíça em 1987, deste show saiu o ao vivo “D”. Os caras excursionaram também pela América Latina onde ficaram muito conhecidos do Uruguai, Argentina , Venezuela e Chile (do Pinochet).

Pode colocar na conta dos caras, a primeira realização brasileira de um álbum de rock com influencias anglo – americanas magistralmente mescladas (eita) com sons locais e principalmente latinos, deixou que som saísse da classe média atingisse como um raio as camadas mais populares.

Hoje sabemos que se tornou, um verdadeiro caminhão de hits e duvido que alguém ainda não tenha se pego cantando pelo menos um trecho de alguma musica presente neste disco.

Conheci este disco através do meu Tio Ibis, que apesar de muita onda errada, manjava muito de som e não tinha pudores em apresentar pra molecada, valeu Tio.

A capa uma das mais sensacionais já feitas, cria do Ricardo Leite com o irmão do Bí o Pedro Ribeiro, uma semana sem tomar banho, acampado e com um arco e flexa que ganhou de um índio , tal foto estava pregada na parede do cômodo na casa dos avós dos irmãos onde a banda ensaiava, do lado do pôsteres do Alceu , do Hendrix e de outros. Antes de qualquer musica ser composta já havia sido decidido que aquela seria a capa, pois segundo Bí, mostrava a independência , provocação e que a eles podiam fazer o que queriam, e podiam mesmo.

A temporal, mais de 30 anos de seu lançamento continua atual, por que os punhos ainda continuam fechados pra vida real, os negros, a policia , o governo continuam apresentando suas armas e para uns a festa continua e é eterna tal qual a miséria de outros.

No mais, a Rolling Stone o coloca na lista dos melhores discos de Rock Nacional já feitos e colocou os Paralamas do Sucesso no Hall das melhores bandas que este país já produziu.

*Marcelo Guido é Jornalista. Pai da Lanna Guido e do Bento Guido. Maridão da Bia.

Discos que Formaram meu Caráter (Parte 43) – “Never Mind The Bollocks, Her`es The Sex Pistols” … Sex Pistols (1977) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Salve moçadinha esperta!

Ondas sonoras e nebulosas trazem de volta a nave louca do som. O alardeado viajante musical vem novamente salvar os leitores do tédio secular que, infelizmente, ainda assombra a vida de muitos.

Agora, deixem de lados suas preocupações mundanas, para celebrar mais um histórico artefato musical. Peço o mais digno respeito e salva de palmas para:

“Never Mind The Bollocks, Here’s The Sex Pistols”, o primeiro álbum de estúdio dos caras do Sex Pistols.

Corria o ano de 1977, e a merda estava agarrada na Inglaterra; a terra da Rainha andava mal das pernas: recessão fodida, desemprego em alta, inflação galopante. Uma verdadeira apatia tomava conta da população – principalmente da parte mais jovem. A ideia de seguir à risca a vida pré-moldada de seus pais doía nos nervos da garotada.

Em um espaço tomado pelo conformismo, uma centelha de revolta floresceu em Londres, para tomar de assalto e abalar todas as seculares estruturas da sociedade britânica. Estava vivo o Sex Pistols.

Capitaneados por Johnny Rotten e Sid Vicious, sobre a batuta de Malcolm McLaren, a molecada instaurou o caos nas rádios britânicas e colocou um alfinete sujo no chá das cinco daquela galera bem-nascida.

Aos poucos os caras chamaram a atenção da opinião pública. Seus shows eram um misto de cagada com energia; eram sempre motivo de problemas para os organizadores e autoridades; sempre acabavam em confusão. Nada mais Punk.

Canalizar aquilo tudo que estava ocorrendo, era questão de tempo e nesse contexto os caras entraram em estúdio para, da forma mais simples, com acordes pobres e sonoridade suja com letras que falavam o que os jovens queriam ouvir, atacaram a chutes de coturno toda a mesmice que pairava sobre a sociedade britânica.

Depois de serem rejeitados por quase todas as gravadoras do Reino Unido, finalmente assinaram com a Virgin e lançaram o single “God Save The Queen”, no qual atacavam veementemente a família real e toda a submissão imposta por ela à sociedade.

As rádios se recusavam a tocar e os caras eram atacados por onde andavam. Mas, o melhor aconteceu: a música estourou e – mesmo de forma clandestina – a molecada caiu no gosto da turma de Londres e de todo o Reino Unido.

Vamos deixar de lari-lari e esmiuçar todo esse histórico calhamaço de sons subversivos e revolucionários:

O disco começa a todo vapor com “Holidays in The Sun” uma crítica mensurável a os que tem grana para passar as férias em bons lugares. “Bodies” uma ode sobre aborto. “No Feelings”, a valorização das relações interesseiras. “Liar”, cobrança aos políticos, promessas não cumpridas. “God Save The Queen”, mesmo nome do hino nacional, uma ferrenha crítica à família real. “Problems”, problemas causados pelo conformismo, você não pode ficar só reclamando. “Seventeen”, questões sobre a idade. “Anarchy in the U.K.”, a chamada para a revolução anárquica. “Submission”, a submissão de todos perante a família real, e seus asseclas. “Pretty Vacant”, contra o sistema e contra todos, a mais bela identificação de um vagabundo. “New York”, crítica feroz à cena londrina. “E.M.I.” a aceitação cega é sempre um mau sinal.

Foda-se do disco! Forjado na amargura dos tempos difíceis, onde o grito de rebeldia – que estava preso a todo descontentamento de uma geração inteira – finalmente pode ser ouvido por todos.

Foi lançado dentro de um barco, para a polícia não encher o saco. Ficou em 38º lugar nas paradas britânicas e ganhou o mundo. Seu sucesso acabou implodindo o grupo, mas essa é outra história.

Não menos que medalha de ouro para ele na categoria disco foda. Essencial em qualquer coleção de quem se mete a entender de Rock.

Se você não conhece, nem tente sonhar com seu certificado de foda.

Never Mind The Bollocks, Here’s The Sex Pistols representou uma mudança radical em todo mundo; bandas como The Clash ou caras como o Billy Idol só surgiram depois dele. Antes de tudo, um disco que abriu muitas portas. A semente estava plantada.

Conheci este belo exemplar de som ainda nos meus 14 anos, e isso já era 1994; ajudou a moldar minha vida. Depois dele, nada de se conformar com o que estava preparado. Agora era viver pelas próprias perspectivas.

Importante historicamente, o último gênero musical que chutou tudo para o alto, destruiu e reconstruiu. E sem tirar ou colocar méritos de quem inventou o Punk. Este disco levou o movimento para as massas.

E mesmo hoje, 43 anos depois, continua inspirador, porque contra a mesmice do dia-a-dia não tem melhor remédio.

Não esquentem seus colhões, chegaram os Sex Pistols.

Marcelo Guido é Jornalista. Pai da Lanna Guido e do Bento Guido , Maridão da Bia.

Discos que Formaram meu Caráter (Parte 42) – “Vivendo e não Aprendendo” … Ira! (1986) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Muito bem galera! O louco viajante das notas musicais vem novamente, das profundezas inconstantes do ser, completamente no espaço líquido (menção honrosa para stereovitrola) trazendo na bagagem mais um calhamaço de sons pra vocês. Levantem e contemplem o magistral:

“Vivendo e não Aprendendo”: segundo álbum dos caras do Ira! Palmas pra ele. 

Corria o ano de 1986, Sarney na presidência, a ditadura indo embora há pouco tempo, ressaca gloriosa do Rock in Rio, as rádios dominadas pelas bandas nacionais e internacionais e o Brasil passando a ser escala dos grandes shows. O Rock começava a fazer parte do dia-a-dia dos brasileiros.

Dentro desde contexto deveras agradável, a rapaziada de São Paulo, capitaneados por Nasi e Edgar entraram em estúdio para preparar essa verdadeira bolacha explosiva de sons.

Na batalha desde 1981 e com um disco muito bom intitulado “Mudança de Comportamento” (1985) na bagagem, o pessoal estava passando pela velha pressão do segundo disco, ou iria para frente ou ficaria marcada por ser mais uma banda de um disco só – a história da vida na música costuma ser cruel com alguns bons grupos.

Com brigas constantes entre o conjunto e o produtor, o mais provável era que a missão fosse abortada antes mesmo de existir, por insistirem em fazer uma sonoridade mais próxima do The Jam (Grande Banda) e influência marcante para os caras. Essa tensão toda fez com que os caras atrasassem as gravações e chegassem a trocar de produtor.

Frescuras e rugas resolvidas, eles entram em estúdio em maio de 86 e começam a trabalhar nas melodias que completariam as letras escritas por Nasi e Edgar. Em 25 de agosto do mesmo ano estava pronto.

Lançado em um apoteótico (hummmmm) show na praça do Relógio, campus da USP, onde 40 mil privilegiados – dentre eles Renato Russo e Paula Toller – com abertura do Violeta de Outono (excelente banda), a banda extremamente afinada apresentou ao grande público os clássicos “ Envelheço na cidade”, “Dias de Luta” e “Flores em Você”.

Discos estourando nas rádios, tema de abertura de novela na Globo (O Outro) tudo caminhando bem para os caras até chegar o Especial de Natal do Chacrinha, fazer aquele velho e bom playback onde o Ira! boicotou o programa ao ver o Biafra pegar uma sonora cagada do Velho Guerreiro, apenas por tirar a merda do gorro vermelho na hora da apresentação. Juro que, quando li isso na biografia do Nasi, intitulada “A Ira de Nasi” dos geniais Alexandre Petillo e Mauro Beting, eu achei rokenroll pra caralho.

Vamos ao que interessa, que é dissecar tal elemento sonoro:

O disco começa com um dos acordes mais conhecidos do rock brazuca em “Envelheço na Cidade”, sobre o tempo que vivemos. “Casa de papel”, a dureza do dia-a-dia, a realidade da vida adulta. “Dias de Luta”, as nossas vitórias diárias que muitas vezes são só importantes para nós mesmos. “Tanto quanto eu”, sobre a capacidade de cada um. “Vitrine Viva”, critica voraz ao modismo, ordens de consumo. “Flores em Você”, bem trabalhada, com quarteto de cordas, quase clássica, falando das escolhas individuais. “Quinze Anos (Vivendo e não Aprendendo)”, baladona, sobre como olhamos a vida quando somos mais novos. “Nas Ruas”, uma homenagem à selva de pedra. “Gritos na Multidão”, gravada ao vivo, saiu primeiro no obscuro compacto de estreia da banda em 1984 e veio com essa versão para o disco de estúdio. “Pobre Paulista”, polêmica, por causa dela os caras foram acusados de fascistas e os caralhos, mas é uma critica as pessoas que apoiavam a ditadura, os feios e ignorantes.

Putaquepariu que disco foda bicho!

Não preciso dizer que foi o maior sucesso comercial da banda, até o lançamento do “Ao Vivo MTV” e do “Acústico MTV”.

Se tu não conheces este disco, nem deve sonhar com a medalha de foda.

Lembro-me das tardes ouvindo “Dias de Luta”, com a suavidade na voz, e a singela interpretação que nos faz pensar sobre como podemos mudar de pensamento e atitude durante nossas vidas.

Conheci este sensacional trabalho, ainda no ano de 1993, e coloquei pessoalmente pra mim uma regra: se você quiser entender o Rock nacional dos anos 80 no Brasil, tem que ouvir o “Dois”, “As quatro Estações” ( Legião Urbana), Já falei deles aqui, “Selvagem” (Paralamas do Sucesso), falarei em breve deste, “Longe Demais das Capitais” (Engenheiros do Hawaii), já falado por aqui, “ Cabeça Dinossauro” (Titãs) – já falei desse também e “ Vivendo e Não Aprendendo” (Ira!) se tu passar por cima desses, não vai entender porra nenhuma.

No mais, não se indigne a escutar este disco no volume que não seja o Máximo.

* Marcelo Guido é Jornalista. Pai da Lanna Guido e do Bento Guido. Maridão da Bia.

Discos que Formaram meu Caráter (parte 41) – “Dookie” …Green Day (1994) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Muito bem meus estratosféricos amigos! Galera do bem, o viajante estrelar vem com sua nave medonha, mas não obsoleta, trazendo mais um belo petardo de sons históricos, deem um chega pra lá no tédio envolvente e preparem-se para “Dookie”: o terceiro álbum de estúdio da galera do Green Day.

Palmas, muitas palmas pra ele!

Corria o ano de 1994; um ano deveras próspero. Em pouco tempo, rolaria a Copa das copas e a gente ainda não sabia, mas estávamos extremamente confiantes na dupla Bebeto e Romário. No campo musical, o grunge dominava as paradas e bandas como Nirvana e Pearl Jam já trilhavam um caminho muito próspero e estavam estourados mundialmente. A música vivia um momento muito bacana.

E na ensolarada Califórnia fervilhava um novo movimento que viria resgatar o sentimento punk, que andava meio esquecido e que mais uma vez daria a volta por cima e salvaria o Rock and Roll. Bandas como o Sublime, The Offspring e o próprio Green Day, dentre outras, estavam prestes a escrever uma nova história.

Formada no lendário clube 924 Gilman Street, o Green Day já tinha mostrado seu poder com os seminais “1,039/ Smoothed Out Slappy Hours (1990)” e “Kerplunk (1991)” e conquistado uma verdadeira horda de fãs. O underground começou a ficar pequeno para Billie Joe Armstrong, Mike Dirnt e Tré Cool e algo muito bom estava prestes a acontecer para os caras.

Com letras de temáticas variadas como depressão, indignação, sexo, drogas além do combate aos velhos demônios pessoais, a volta medonha que a vida na transição quase sempre que problemática da adolescência para a vida adulta. Quem nunca passou por isso? Tudo alinhado em primeira ordem, com guitarras magistralmente distorcidas, um baixo deveras muito bem trabalhado e uma cozinha onde o batera ditava o ritmo.

A porradaria iria de encontro a toda choradeira que existia na época e aos poucos estava dominando o rock – que me perdoe a turma grunge mas já tinha dado a hora de algo novo acontecer.

E, com esse sentimento renovador e com energias a mil, os caras entraram em estúdio em setembro de 1993 e no dia 1 de fevereiro de 1994 mostraram ao mundo este senhor disco.

Vamos deixar de “lenga-lenga” e esmiuçar logo essa preciosidade sonora:

O disco começa logo arrebentando com a estridente “Burnout”, a vitória sobre o tédio, e a apatia constante. “Having a Blast”, a explosão de felicidade que se tem quando se consegue deixar para trás tudo o que realmente incomoda. “Chump”, uma ode à raiva operante, as vezes o próprio inimigo está dentro de você. “Longview”, uma linha de baixo composta na base do ácido, fala de tédio, masturbação e fumar maconha. “Welcome To Paradise”, original do álbum anterior, veio para este com uma versão mais crua. “Pulling Teeth”, sobre a depressão. “Basket Case”, umas das músicas que mais ouvi na vida, ataques de ansiedade. “She”, composta para a agora esposa, Adrienne Armstrong, foi a resposta de Billy para um poema feminista escrito pela amada. “Sassafras Roots”, também composta para a amada, que na época tinha se mudado para o Equador. “When I Come Around”, fala sobre separação. “Coming Clean”, as confissões para consigo mesmo, a trajetória vivida para se tornar um adulto. “Emenius Sleepus”, as mudanças pessoais, que podem ser boas ou ruins. “In The End”, sobre a mãe do Frontman. “F.O.D/ All Bay Myself”, baladinha para encerrar – engano: uma das mais porradas do disco.

Meu irmão que puta disco bom. Não menos que “Du caralho”.

Com este disco, o Green Day rompeu todas as linhas que o seguravam no Underground e foi comandar o Mainstrean. Colocou o Punk Rock em voga novamente, devolvendo-o ao seu Patamar (palavra da moda) único.

Vendeu como água, na época: mais de trinta milhões de copias no mundo. Hoje, quase 26 anos depois de seu lançamento, esse número ultrapassa os 80.

É o numero 193 na lista dos 500 maiores álbuns de todos os tempos da Rolling Stone; figura entre Os 1001 Álbuns que você precisa ouvir antes de morrer, e é o numero 50 na lista do Rock and Roll Of Fame.

Se tu não conheces, tu és muito Júnior para sonhar com uma medalha de foda.

Parece que foi ontem que peguei uma grana com meu pai e fui até a Lobrás, onde comprei o “Dookie”, “Nevermind” e o “Smash”, junto de um garrafão de vinho e uma carteira de Free… Neste dia fiz barulho. Já vai longe, 1995.

No mais, é essencial em qualquer discografia, além de ser um disco que abre portas.

Vida Longa ao Punk Rock.

*Marcelo Guido é Jornalista. Pai da Lanna Guido e do Bento Guido e maridão da Bia.

Discos que Formaram meu Caráter (Parte 39) – “V” …. LEGIÃO URBANA (1991) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Muito bem meus consagrados, o viajante das ondas sonoras vem de muito, mas de muito longe… Especificamente das profundezas dos pensamentos desconexos da pífia e vã realidade para trazer mais um disco para o deleite de vossas senhorias. Preparem seus ouvidos e suas melhores memórias afetivas para:

“V” – quinto trabalho dos caras da Legião Urbana. Salva de palmas, por favor.

Corria o ano de 1991 e as coisas por aqui não andavam menos que caóticas, no campo de visão que abrange a economia e o social. A ressaca da última eleição presidencial já tinha passado, a alegria pela eleição direta depois de mais de 20 anos de ditadura era passado e convivíamos com uma recessão escrota, inflação nas alturas, moeda sem valor e sem as nossas cadernetas de poupança – um abraço dona Zélia Cardoso de Melo.

No meio musical, a invasão do centro oeste tomou de vez as rádios, TVs e afins. Calças apertando os colhões eram moda e, capitaneados por Leandro e Leonardo, e pelos filhos do seu Francisco, músicas com temática de amores sofridos e desilusões tomavam conta das programações. Estava realmente uma merda.

Mas era 1991, o ano mágico para o Rock, onde todos os deuses da inspiração estavam conspirando juntos para que as bandas lançassem discos não menos que fodas – e um pouco dessa luz tinha que brilhar pra cá. Coube a Russo, Dado e Bonfá salvarem nossas vidas.

Já gozando de uma popularidade avassaladora e colhendo os ótimos frutos do excelente “As Quatro Estações” de 1989 (Já falamos desse por aqui) a rapaziada da Legião entrou em estúdio para conceber essa obra prima.

A pressão sofrida pelos caras, para não serem repetitivos, depois do grande sucesso do disco anterior e os problemas com álcool e drogas do frontman estavam em voga na época; e a responsabilidade em cima do trio, que iria pela primeira vez lançar um álbum diretamente em CD, era muito grande, chegando a incomodar.

Mas as temáticas das letras que iam de crise econômica até os problemas com álcool e drogas, passando pelo cotidiano junto de um belo trabalho de melodias, não deixaram a peteca cair e este disco consagrou-se como um dos mais belos exemplares musicais já produzidos em todo o rock nacional.

Nele, sem dúvida alguma, estão reunidas as mais belas letras escritas por Renato Russo que, com um minuciosos cuidado, fez questão de nos deixar músicas atemporais e eternas: “… Me preocupo em fazer texto, que daqui a 200 anos, a pessoa que pegar e não vai precisar de nota de rodapé.” Explicou na época.

A turnê de lançamento do álbum – que foi a mais bem preparada de todas, com ensaios constantes, palco exclusivo, som, luz e outros badulaques especialmente escolhidos pela trupe – era para ser uma maravilhosa ópera rock em três belas partes, mas acabou sendo um fracasso, por conta da fase sombria de Renato, que entrou em um esquema autodestrutivo. Sua descoberta da Aids em 1990, seu flerte com a heroína e seu longo histórico com o álcool fizeram esta bela Nau naufragar depois de algumas apresentações em Natal- RN.

Vamos deixar de papo e desmontar esse excelentíssimo santuário de boas canções:

“Love Song”, cover de uma cantiga escrita em português arcaico no século XIII por Nuno Fernandes Torneol, fala de amor. “Metal Contra as Nuvens”, soturna, com 11 minutos e 28 segundos, dividida em quatro partes (e a preferida da Bianca Lobato), uma maravilhosa opereta. “A Ordem dos Templários”, bela e instrumental, inclui a peça “Douce Dame Joule” de Guillaume de Machaut, escrita no século XIV é a “Pornography” da Legião. “A Montanha Mágica”, a dependência química retratada em versos. “Teatro de Vampiros”, retrato da crise econômica vivente na época, introdução adaptada da peça “Canon” de Johann Panchelbel. “Sereníssima”, um sagaz flerte com o rock progressivo. “Vento no Litoral”, romântica, mas saborosa ganhou versão da Cassia Eller. “O Mundo anda Tão Complicado”, o cotidiano de quem aventura se na vida a dois. “L’Âge D’Or”, uma alusão a Young Marble Giants – grande banda punk do País de Gales que Renato Russo era fã declarado. “Come Share My Life”, canção tradicional do folclore estadunidense.

Espetacular, sombrio, mas não menos que belo. Que disco foda do começo ao fim das rotações.

Se tu não conheces nem deves sonhar com uma medalha de foda.

Vendeu menos que o anterior, foi massacrado pela crítica na época, mas caiu no gosto dos fãs; Platina Triplo, colocou o Rock nacional de volta nas rádios e rendeu até uma apresentação para o projeto “Acústico MTV”, que foi lançado depois.

A inscrição “Bem-vindo aos anos 70” no CD nos faz alusão aos ganchos sonoros, que vão do progressivo ao Hard Rock.

Lembro me de me dirigir até a “Na Figueiredo” em Belém e comprar uma camiseta deste disco lá por 1995 (comprei a do Arise do Sepultura também). Não lembro quem ficou.

Sem dúvida alguma, é um disco atemporal e essencial em qualquer discografia de alguém que pretende entender de rock.

Antes de tudo nos ensina que nenhuma história termina do avesso sem final feliz, sem coisas bonitas para contar, e que vale a pena viver, porque temos sempre muito ainda por fazer.

*Marcelo Guido é Jornalista. Pai da Lanna e do Bento, maridão da Bia.

Discos que Formaram meu Caráter (Parte 38) – “Tears Roll Down (Greats Hits 82-92)”…Tears For Fears (1992) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Muito bem moçadinha vivente e alegre deste mundo inebriante e consciente, o espetacular viajante muito louco das ondas sonoras vem com sua nave repleta de histórias, para trazer a vocês mais um disco marcante.

É com muita honra que apresento a vocês:

“Tears Roll Dow”, coletânea que pegou o melhor do trabalho dos caras do Tears For Fears entre os anos de 1982 e 92.

Palmas pra ele!

Formada em 1981 na Inglaterra, pelos remanescentes do Graduate (banda legal) Roland Orzabal e Curt Smith o Tears For Fears (TFF) já gozava de um reconhecimento mundial e sucesso pela extrema qualidade da obra, um dos marcos na segunda invasão britânica nas paradas americanas, que foi promovida pela então recém criada MTV.

Conhecida por ser umas das precursoras no uso de sintetizadores e batidas eletrônicas – onda que varreu o rock nos anos 80 e ficou conhecida como “new wave” -, a banda se mostrou sempre contundente no que fez, seus discos nunca deixaram a desejar, o debut (uiuiui) “The Hurting” (1983) alcançou, logo na primeira semana, o Disco de Ouro nas paradas da terra da Rainha. O segundo, o excelentíssimo “Songs From The Big Chair” (1985), já de cara levou logo multiplatina nos EUA e na Inglaterra, ou seja, o mundo era dos caras.

A fama alcançada, levou-os a serem convidados a se apresentar no “Live Aid” em 1985, o que acabou não rolando por problemas contratuais; eles foram substituídos em última hora pelos rapazes do George Thorogood and the Destroyers. Esta apresentação, que seria histórica, rolaria no JFK Stadium na Filadélfia.

Então como já escrito, material para uma coletânea já existia. Dez anos de banda na crista da onda, com vários sucessos tocados a esmo nas rádios – sim rock tocava na rádio (pasmem) – já me fazia ter um interesse pela banda. Mas era daquelas bandas “música legal, mas quem toca?” (risos).

Conheci esse belo exemplar de bons sons em um velho e bom churrasco (um frango e milhares de latas de antártica), lá por 1996, naquele esquema “escuta isso aqui”. Puta merda, o disco do sol na capa. Sim, confesso meu total desconhecimento até aquele momento sobre os caras. Josean Torres me passou. E eu ouvi, na segunda feira estava adentrando a importadora Nely Monte, onde comprei meu exemplar das mãos do Gilson Rodrigues (o cara mais parecido com meu irmão que eu).

Ao ouvir a primeira “Sowing The Seeds of Love”, me veio a memória afetiva, quase que nítida do clipe que passava na programação da Tv Equatorial, que transmitia a programação da finada Manchete (Jaspion, Jiraya e afins)

Deixemos as lágrimas pelos anos que não voltam mais pra trás e vamos dissecar o elemento sonoro:

“Sowing The Seeds Of Love”, uma destacada canção de amor, mas que fala das várias formas como esse amor pode ser vencedor ou não. “Everybody” “Whants To Rule The Word”, clássica para embalar o namorinho, trilha sonora de muito romance. “Woman in Chains”, a bateria eletrônica já te chama a dançar.

“Shout”, com certeza a porta de entrada para muitos que gostam da banda. “Head over hells”, uma declaração de amor puro, para a pessoa merecedora. “Mad World”, critica a procura pela perfeição, é difícil viver em círculos no mundo louco. “Pale Shelter”, a proteção dada por alguém, mas você não esta satisfeito. “I Believe”, as lições que as dores das derrotas na vida nos passam. “Laid so Low”, até então inédita, foi gravada especialmente para este disco. “Mothers Talk”, as mudanças que o tempo faz você sofrer. “Change”, clássica e dançante, não faltava nas festinhas. “Advice For Young At Heart”, uma relevante ode sobre o tempo.

Genial! Sensacional! Com certeza, alguma dessas músicas já tocaram um período ou mais na vida de cada um que está lendo essas frases tortas que estão sendo escritas.

O cara que não conhece esse disco nem tem que se candidatar a ter uma medalha de foda.

As batidas eletrônicas, mescladas (hummm) com as letras tortuosas dos caras mostraram estar em sintonia perfeita em toda carreira da dupla.

Entre idas e vindas, a banda continuou e continua relevante até os dias atuais. Este disco foi relançado em 2005 com um disco bônus, álbum duplo. Com edições das músicas sendo remixadas, versões novas e atualizadas, mas a icônica capa com o sol está lá.

Antes que falem algo do tipo, “Ah, coletânea não vale”, eu digo: Foda-se! Esta obra está longe de ser um caça níqueis. É um serviço didático para apresentar uma banda do caralho. Um belo cartão de visitas, assim como “Standing on a Beach” (Disco do velho na capa) do The Cure e os The Best Of 1 e 2 do The Smiths.

Este texto é dedicado a todos aqueles que andaram no “Maldito”, um chevette preto que aterrorizou a cidade na década de 1990.

*Marcelo Guido é Jornalista, Pai da Lanna e do Bento, maridão da Bia.

Discos que Formaram meu caráter (parte 37) – “Brasil” Ratos de Porão (1989) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido 

Salve moçada de bem! O louco que viaja pelas ondas sombrias e sonoras vem mais uma vez de um universo distante, situado em escalas abissais, diretamente do fundo da própria cabeça, trazendo mais um punhado de sons e agouros para quem o lê. Tenho a honra de lhes apresentar:

“Brasil”, o quarto álbum dos caras do Ratos de Porão. Palmas pra ele!

Corria o ano de 1989, final da década perdida no nosso tropical país. As coisas por aqui não iam nada bem. Inflação na casa do caralho, uma enxurrada de planos econômicos falidos, cruzeiro sem valer quase que porra nenhuma e uma eleição presidencial com uma porrada de candidatos, com um povo completamente desqualificado para votar. É galera, a situação estava escrota pra cacete.

Nesse contexto que andava o Brasil, os caras do R.D.P procuraram inspiração para entrar em um estúdio e produzir este álbum que com o tempo provou ser um dos melhores na extensa discografia do grupo.

Na ativa desde o começo dos anos 80, a banda já era considerada um dos expoentes na cena punk brasileira, fazendo sempre um som coeso e de protesto. A inspiração vem sempre do dia-a-dia comum, das mazelas e desigualdades sociais vivenciadas pela maioria dos brasileiros. Você é o reflexo de uma sociedade que te oprime, não pode ser algo muito bonito. Mentir sobre nossa realidade, falar de sol, praia whisky e mulher de biquíni é função da bossa nova.

Com a inclusão de bases mais trabalhadas, e um som deveras mais “profissional” os caras que já tinham feito uma incursão pelo Metal não poderiam deixar de lado a influência vinda do Sepultura, que participara do disco anterior “Vivendo Cada dia Mais Sujo e Agressivo (1987)” e, com isso, já conseguia ser observada pelo mercado internacional.

O vocal crossover ao extremo, não foi mudado em absolutamente porra nenhuma, muito menos a temática das letras. Apesar de terem sido mordidos pela víbora metaleira, os caras não se propuseram a falar de dragão, castelo, cavalo alado e RPG. Miséria, violência policial e vícios continuaram na ponta da caneta nas letras dos caras. Por isso este disco se torna especial. O discurso Punk, recheado de revolta, não foi mudado. E foda-se o dragãozinho, a técnica apurada e as bruxas e os caralhos a quatro que as letras das bandas de rock pesado falavam na época.

Conheci este disco no ano de 1993, em um K7 mal gravado, uma fita TTK (imitação fajuta das boas TDK, que foi adolescente e curtiu som nos anos 90 sabe muito bem do que eu estou falando) e desde essa época este disco me acompanha.

Vamos ao que interessa e desmontar esse míssil sonoro:

O disco começa logo denunciando a sacanagem com nossos recursos naturais em “Amazônia Nunca Mais”. “Retrocesso”: o medo constante da volta dos tempos áureos da Ditadura militar. “Aids, Pop, Repressão”: clássico da banda cantada em todos os cantos do mundo, mostra o real caminho escolhido pela juventude na época. “Lei do Silêncio”: o medo da população, vítima do estado que deveria prover a segurança, principalmente na periferia dos grandes centros urbanos. “S.O.S País Falido”: os problemas sociais de um país falido, corroído pela inflação. “Gil Goma”: homenagem ao grande Gil Gomes. “Beber até Morrer”: uma espécie de autocritica. “Plano Furado II”: ode magnifica feita aos planos econômicos que prometiam a solução e só metiam no cu do povo mais pobre. “Heroína Suicida”: um alerta contra a badalada droga que tinha acabado de chegar por aqui. “Crianças sem Futuro”: o descaso com as crianças carentes no Brasil. “Farsa Nacionalista”: mais atual impossível. “Traidor”: alcunha cuspida pelos punks para a banda que se aproximava do Metal. “Porcos Sanguinários”: grito contra a opressão policial. “Vida Animal”: olhos vendados como gado, assim caminha a sociedade. “O Fim”: instrumental. “Máquina Militar”: o sistema te condiciona a matar e a servir. “Terra do Carnaval”: a apatia social, e a “bundamolice” do brasileiro. “Herança”: uma crítica sobre os programas policiais que expõe os familiares das vítimas.

Putaquepariu que disco foda meu irmão.

A singular capa desenhada pelo quadrinista Marcatti, com um cara com roupas maltrapilhas, campo de futebol e toda a sacanagem ao redor, serviu de denúncia ao mundo que ainda achava que nossa terra era só alegria, com o Zé Carioca do Wall Disney.

Este disco abriu muitas portas para os caras. Gravado na Alemanha, e com duas versões, uma em português outra em inglês. Se tu te metes a entender de rock e não conhece, tua medalha de foda não merece estar contigo.

Um disco atual, que pode ser tocado em alto e bom som hoje em dia. Um marco essencial na carreira do RDP. A mistura do Metal Crossover na mistura com Punk Hardcore, que coloca o Ratos na vanguarda, cria para si um estilo próprio e hoje em dia muito copiado.

Na real, um disco atualíssimo, pelo simples fato de que pouca coisa mudou em 30 anos. Enquanto existir miséria e opressão e a destruição da educação for política de estado em prol de uma minoria, este disco será imprescindível.

Infelizmente, a apatia é grande e a crise é Geral.

Punk Rock na veia. Vida Longa ao Ratos de Porão!

* Marcelo Guido é Jornalista, Pai da Lanna Guido e do Bento Guido e Maridão da Bia.