Morre Nelson Mandela, um herói da liberdade!


Ex-presidente da África do Sul, dono de um Prêmio Nobel da Paz e um dos homens mais respeitados do planeta, Nelson Mandela morreu aos 95 anos em Pretória, na África do Sul. Ele lutava contra um câncer desde 2001. 

Ele foi o maior símbolo de combate ao regime de segregação racial conhecido como Apartheid, que foi oficializado em 1948 na África do Sul e negava aos negros (maioria da população), mestiços e asiáticos (uma expressiva colônia de imigrantes) direitos políticos, sociais e econômicos. A luta contra a discriminação no país o levou há ficar 27 anos preso, acusado de traição, sabotagem e conspiração contra o governo em 1963. 

Condenado à prisão perpétua, Mandela foi libertado em 11 de fevereiro de 1990, aos 72 anos. Durante sua saída, o líder foi ovacionado por uma multidão que o aguardava do lado de fora do presídio.

Mandela defendeu o ideal de uma sociedade democrática e livre, na qual todas as pessoas convivam em harmonia e com oportunidades iguais. 

Frases: 

“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar.”

“A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo.”

“Se você falar com um homem numa linguagem que ele compreende, isso entra na cabeça dele. Se você falar com ele em sua própria linguagem, você atinge seu coração.”

“Sonho com o dia em que todos levantar-se-ão e compreenderão que foram feitos para viverem como irmãos.”

“Não há nada como regressar a um lugar que está igual para descobrir o quanto a gente mudou.”

“Aprendi que a coragem não é a ausência do medo, mas o triunfo sobre ele. O homem corajoso não é aquele que não sente medo, mas o que conquista esse medo.”

“Bravo não é quem sente medo, é quem o vence.”

Nelson Mandela (1918-2013), que ontem virou o eterno ícone da liberdade e da igualdade.


Sou filho, neto e bisneto de negros, sou negão. E um dos mais importantes negros da história, senão o maior de todos, foi passear nas estrelas ontem (5). Sim, Nelson Mandela, o Madiba, foi importante demais, não somente para um povo ou uma raça, mas para a humanidade. 

Como não admirar e agradecer intimamente a um homem destes? Certamente, o líder sul-africano é um espírito iluminado, um exemplo para seguirmos, um homem do bem. Que siga com os anjos, pois o caminho de luz, ele abriu aqui. Valeu, Mandela!

Elton Tavares, com algumas informações do amigo Tãgaha Luz

Nilton Cardoso, o militante cultural esquecido


Existem, em todo lugar, algumas injustiças históricas. Dizem que o brasileiro não tem memória. Concordo. No Amapá não é diferente, o pioneiro do antigo Território Federal do Amapá e militante da cultura local, Nilton Cardoso, é um destes casos.

Natural de Uruçuí (PI), o militar piauiense, herói da Segunda Guerra Mundial, veio para Macapá em 1946, a convite de seu amigo e então governador do antigo Território Federal do Amapá, Janary Gentil Nunes. Cardoso se estabeleceu na capital e por aqui constituiu família.

No mesmo ano, na capital amapaense, Nilton, que entendia de cultura em várias vertentes, deu grandes contribuições para nossa Macapá. Foi o fundador da Biblioteca Pública de Macapá, hoje Biblioteca Elcy Lacerda.

Em 1948, foi fundador e diretor do Museu Territorial, que funcionava dentro da Fortaleza de São José. No ano seguinte, Nilton foi pioneiro em expedições arqueológicas no Amapá, onde acompanhou arqueólogos americanos em escavações pelo Rio Maracá, Rio Vila Nova, Rio Araguari e município de Amapá.

Daí não parou mais, se especializou em Arqueologia, explorou e mapeou sítios arqueológicos nas regiões de Cassiporé, Cunany e Calçoene, além de territórios indígenas. Versátil, também trabalhou com Zoologia e ocupou vários cargos do serviço público local. Em 1963, voltou a trabalhar com cultura, pois foi nomeado diretor do Museu Joaquim Caetano da Silva, em Macapá.

Durante suas aventuras, Nilton Cardoso acumulou um grande acervo histórico. Ao deixar o serviço público, em 1963, doou ao Museu Territorial cerca de 4916 peças de Zoologia, 254 de Arqueologia, das antigas civilizações indígenas do Amapá. Entre elas, urnas funerárias antropomorfas e zoomorfa; uma coleção e moeda e cédulas antigas, além de duas coleções do Jornal Pinsônia, primeiro impresso amapaense.

Essas peças estão catalogadas e expostas no Museu Joaquim Caetano da Silva, no centro de Macapá.

O velho militante cultural e pioneiro do Amapá morreu em março de 1987, aos 68 anos, vítima de um infarto fulminante. Segundo seu filho, Enilton José Cardoso, não existe nada com o nome do pai, nenhuma rua ou qualquer outra homenagem a este cidadão que contribuiu, e muito, para as peças deste grande quebra cabeça, chamado história. Uma falha que ainda pode ser corrigida.

Elton Tavares

*Escrevi essa matéria em 2010, para o extinto Correio do Amapá, com o pseudônimo “Renato Flexa”. Na época, trabalhava como assessor de comunicação e fui proibido de redigir para impressos. Driblei a proibição e produzi alguns textos para o jornal.

O TCC da minha mãe e sua vitoriosa história


Já falei aqui, em muitos textos, sobre a minha mãe, Maria Lúcia Vale Cardoso. Dia desses, mexendo em documentos antigos, ela achou o seu Trabalho de Conclusão de Curso (o famigerado TCC). 

Minha genitora é formada em Licenciatura em Pedagogia e Orientação Educacional, pela Universidade Federal do Pará (Ufpa). A graduação foi concluída em 1990, no então Núcleo da Ufpa em Macapá, que depois se tornou Universidade Federal do Amapá (Unifap). 

Pois bem, até aí, nada de “ó, que coisa”. Mas o grande lance é que, na época que mamãe começou a cursar seu nível superior, Emerson, meu amado irmão caçula e eu, éramos crianças. E demos muita dor de cabeça a ela. Sem falar na dificuldade financeira que meus pais enfrentavam na época (anos antes, meu pai tinha perdido o emprego e mama segurou a onda sozinha). 

Foram dias difíceis aqueles. Mas para nós, não. Meu irmão  e eu sempre tivemos tudo que estava ao alcance dos meus velhos. Era um lance meio filme “A vida é bela”, eles estavam até a tampa de dificuldades, mas Emerson e eu estudávamos no Santa Bartolomea (escola particular bastante cara na época), tínhamos brinquedos e éramos levados para passear, lanchar, etc. 

Enfim, tivemos uma infância feliz. Escrevi este texto por ter me emocionado com a dedicatória no TCC. Ela diz: “A meu esposo, José Penha, a meus filhos Elton e Emerson, pela compreensão, carinho, paciência e dedicação no decorrer do curso”. 

Que nada, mãe! Nós é que agradecemos por você cuidar de nós, mesmo com tantas dificuldades impostas e ainda alcançar sua formação universitária. 

Maria Lúcia é exemplo de superação e determinação. Natural de uma família muito humilde, começou a trabalhar ainda adolescente, no comércio da antiga Macapá. Cidade onde nasceu,  casou-se, estudou, criou os filhos e avelhanta-se (ela está muito bem para alguém que caminha para a sexta década) com muita dignidade. Foi lojista, professora e orientadora educacional. 

Com toda a certeza, o sacrifício valeu a pena. Obrigado por tudo mãe, nós te amamos!

Elton Tavares

Centenário de Vinícius de Moraes


“É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração” – Vinícius de Moraes.
O poeta, compositor, jornalista, advogado, músico, dramaturgo, teatrólogo, diplomata e escritor Vinicius de Moraes faria 100 anos hoje (19). Ele foi/é um dos maiores compositores da Música Popular Brasileira. O “poetinha” era carioca e foi parceiro de outros monstros da MPB, como Tom Jobim, Toquinho, João Gilberto, Chico Buarque e Toquinho.

Vinicius de Moraes viveu intensamente a boemia e os amores. Aliás, poetinha casou-se nove vezes. Ele foi aclamado e amado em nosso país e resto do mundo. Seu legado para a cultura brasileira é indiscutível. 

Ele morreu em 9 de julho de 1980, em sua casa, no bairro da Gávea, perto do Jardim Botânico, onde nasceu. O centenário de nascimento de Vinícius de Moraes será celebrado por dois eventos em algumas cidades do Brasil como Rio de Janeiro e São Paulo.

Eu cresci escutando Vinícius de Moraes, o “branco mais preto do Brasil”. E agradeço à minha família por isso. Ele foi um gênio da música. Além disso, ele amou os bares, a boemia e as mulheres. Com toda a certeza, foi feliz. 

Por tudo isso, rendo homenagens a Vinícius de Moraes. Parabéns, poetinha!

“Quem já passou
Por esta vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu” – Vinícius de Moraes.

Elton Tavares

17 anos da morte de Renato Russo


Numa sexta-feira de outubro de 1996, dia 11, para ser preciso. Acordo com um telefonema de uma amigo que dizia: “Cara, o Renato Russo morreu!”. Fiquei no mínimo uns 10 minutos processando a informação, quase em choque. 

Renato Manfredini Júnior não foi só mais um carioca que cresceu em Brasília (DF), mas sim um cantor e compositor sem igual. O cara liderou a Legião Urbana (composta por ele, Marcelo Bonfá, Dado Villa Lobos e Renato Rocha) e obteve o sucesso de público e crítica. 

A Legião foi e sempre será a maior de todas as bandas deste país. Eles venderam 20 milhões de discos durante a carreira, mais de uma década após a morte de Russo, a banda ainda apresenta vendagens expressivas. O som dos caras me remete ao passado, à situações, pessoas, alegrias e perrengues, enfim, foi a trilha sonora da adolescência de minha geração. A Legião Urbana acabou oficialmente no dia 22 de outubro de 1996. 

Renato foi genial, sereno e místico. Um melancólico poeta românico, quase piegas, mas visceral. Era capaz de compor canções doces, musicar a história cinematográfica de do tal João do Santo Cristo, cantada na poesia pós-punk de cordel (159 versos e quase 10 minutos) intitulada Faroeste Caboclo ou melhorar Camões (desculpem a blasfêmia lírica), como em Monte Castelo.

Como disse meu sábio amigo Silvio Carneiro: “Renato Russo foi Poeta pós-punk, de toda uma “Geração Coca-Cola. Intelectual, bissexual assumido desde os 18 anos de idade, ele foi uma espécie de Jim Morrison brasileiro, não tanto pela sua beleza física, mas pela consistência de suas letras que poderiam muito bem ter sido publicadas em livro sem a necessidade de ser musicadas“. Cirúrgico! 

Hoje (11), completam 17 longos anos sem Renato, que foi vitimado pela Aids. E como ele mesmo dizia: “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”, pois o para sempre não dura muito tempo. 

Por tudo isso e muito mais, hoje homenageio Renato Russo, que se eternizou pela sua música, poesia e atitude.  Urbana Legio Omnia Vincit !

Elton Tavares

Se vivo, John Lennon faria 73 anos


John Lennon foi um músico, compositor e cantor brilhante e um ativista fervoroso. Um artista original, que fazia questão de expressar o que pensava e sentia, ainda que várias vezes caísse em contradição ou criasse confusão com isso. O cara foi, além de talentosíssimo, muito polêmico. 

Além da trajetória com os Beatles, teve uma carreira solo consistente e recheada de sucessos inesquecíveis, como a canção “Imagine”. Sim, ela transformou suas alegrias e tristezas em música, de forma sublime.

Se estivesse vivo, John teria 72 anos e, com toda certeza, seria ainda maior do que é e do que representa para todos que admiram ótimas idéias, belas músicas e atitude. 

Ele não foi o mais louco, o melhor guitarrista e nem o mais boa pinta, mas foi o maior de todos os rock stars. Um cara genial, com um talento ímpar, que viveu como quis. Ele foi PHODA demais!

Sim, o velho Lennon sabia das coisas. Certa vez ele disse:

Eu acredito em Deus, mas não como uma coisa única, um velho sentado no céu. Eu acredito que o que as pessoas chamam de Deus, está dentro de cada um de nós. Eu acredito que Jesus ou Maomé ou Buda e todos os outros estavam certos. Foi só a tradução que foi feita errada” John Lennon

Um relato para finalizar: certa vez, um colega jornalista (daqueles chegados num pagode, micaretas e afins) me perguntou por que sou “tão fã” de Lennon. Nem me dei ao trabalho, só disse: “Eu realmente preciso explicar?” (risos).

Fonte: Revistas, filmes, discos, livros, sites, papos com os amigos nos bares da vida e minha imensa admiração por John Lennon. 

Elton Tavares

JOHN LENNON, MAIS IMORTAL DO QUE NUNCA!! (hoje ele faria 73 anos)


John Lennon completaria 73 anos hoje. Numa época cada vez mais carente de ídolos originais e relevantes, John Lennon vai se tornando cada vez mais imortal. Certamente um artista como John Lennon, que fazia questão de expressar o que pensava e sentia, ainda que várias vezes se contradizendo ou criando uma grande confusão com tudo isso, dificilmente se encaixaria em um mundo confuso como o de hoje onde os disfarces, que já faz parte do que nós nos acostumamos a chamar de “moda”, escondem a verdadeira natureza do “quem é quem?” ou “de que lado estamos afinal?”.

O vazio causado pela ausência de John Lennon parece crescer na mesma proporção em que cresce as nossas dúvidas com relação ao futuro da cultura pop que, diga-se de passagem, é fruto legítimo da passagem de Lennon pelo planeta Terra.

John Lennon, sempre foi o meu Beatle preferido. Parece fácil escolher, e há quem diga: “Ah, muito facil, John Lennon era o líder!”. Eu, particularmente, conheço muitas pessoas que escolheram o George pela simplicidade ou o Ringo pela discrição. John Lennon é muito óbvio, de fato, mas ás vezes não há como fugir disso. Pois bem, eu fico com o John porque ele era o artista crucial dos Beatles. Os outros integrantes, especialmente George e o Ringo, apenas tiveram sorte de tê-lo por perto. E pronto.

Minha familiaridade com a figura de John Lennon e os Beatles, me remete a minha infância. Eu fui uma criança muito tímida. Eu era tímido ao ponto de não perguntar pra ninguém sobre coisas que eu queria muito saber, e isso se deve ao medo que eu tinha de receber respostas com ar de deboche como: como é que tu não sabe quem é esse cara?? ha-ha-ha. E era examente isso que eu queria saber, enquanto eu tomava várias garrafas de refrigerante olhando pra figura de um cabeludo de óculos com lentes redondas desenhado na parede de um bar muito popular em Macapá na década de 80, o Lennon, que ficava aos arredores da Praça da Bandeira, onde hoje se encontram uma pastelaria e uma farmácia.

Tempos depois, quando eu já tinha decidido na minha mente que aquele cara só podia ser o dono do bar, que por algum motivo, nunca estava presente, lá estava eu, vasculhando os discos da minha mãe, e no meio dos Chicos, Gils e Caetanos, eu puxei um disco que mudaria o que eu pensava do mundo. “Olha o dono do bar aqui, atravessando a rua com mais 3 pessoas” Pensei. O nome do disco era Abbey Road.
Hoje, quase 30 anos depois da sua morte trágica, nas cidades de Liverpool e Nova York, iniciativas, como exposições, concertos e cerimônias multiplicam-se para comemorar o aniversário de John Lennon.

Liverpool ofereceu-lhe o tributo mais importante, que teve início ontem e foi planejado para durar dois meses com mais de vinte eventos no programa com espetáculos  inclusive no Cavern Club, o berço dos Beatles. Um monumento à paz também foi inaugurado ontem pela amanhã pelo seu filho Julian e sua primeira mulher Cynthia.
Em Nova York, onde foi assassinado no dia 8 de Dezembro de 1980 e onde viveu por dez anos, a celebração do 70 aniversário de John Lennon aconteceu no City Winery com vários artistas fazendo cover das suas músicas.

O Google também fez uma homenagem a John Lennon. Em seu endereço britânico, o site de buscas adicionou um desenho do rosto do músico à sua logomarca. Ao lado, traz um botão que, quando clicado, torna toda a logomarca animada e toca um trecho da música “Imagine”.

A editora EMI lançou uma série de onze álbuns com seus discos solo remasterizados, e além disso tudo, Lennon pode ser imortalizado nas moedas britânicas. A Casa da Moeda britânica, chamada de Royal Mint, está fazendo uma pesquisa popular para escolher a efígie que irá estampar uma série de moedas. Shakespeare, Charles Darwin e Isaac Newton já foram homenageados .

O mito “Lennon” é muito forte e presente ainda hoje em grande parte do mundo. Só para ilustrar: recentemente, um vaso sanitário que pertenceu a John Lennon foi leiloado, por 9.500 libras (mais de 25 mil reais), cerca de 10 vezes o valor estimado inicialmente, durante um leilão de objetos ligados aos Beatles em Liverpool. O vaso foi usado por John Lennon por 3 anos, entre 1969 e 1972, o que faz aumentar muito a possibilidade de ele ter composto alguns versos de “Imagine” sentado nesse trono.

Contudo, o que foi dito, falar que John Lennon era genial ou fantástico é uma redundância. Ele partiu para imortalidade, lugar que pertence somente as pessoas que, como ele, fizeram da sua existência uma grande diferença pra humanidade.
Algumas frases geniais e fantásticas dele:
“Amo a liberdade, por isso deixo as coisas que amo livres. Se elas voltarem é porque as conquistei. Se não voltarem é porque nunca as possuí.”
“Quando você fizer algo nobre e belo e ninguém notar, não fique triste. Pois o sol toda manhã faz um lindo espetáculo e no entanto, a maioria da platéia ainda dorme”
“Quando você estiver muito apaixonado por você mesmo, vai poder ser muito feliz e se apaixonar por alguém”

“Vivemos num mundo onde nos escondemos para fazer amor! Enquanto a violência é praticada em plena luz do dia.”

A opinião de alguns artistas brasileiros sobre suas músicas preferidas de John Lennon.

Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura

“Imagine”

A música mais genial dele é “Imagine”. A letra é forte e a melodia é simples, mas intensa. O mais legal é que é uma música que parece ter sido feita em cinco minutos.

Lobão, músico e apresentador. “Instant Karma”

Gosto do trabalho do Lennon integralmente. No livro mesmo [a autobiografia de Lobão, com lançamento previsto até o fim do ano], falo que tem cinco pessoas que fazem parte da minha alma: Carlos Lacerda, Nelson Rodrigues, Salvador Dali, Nietsche e John Lennon. Então o Lennon é uma pessoa importantíssima na minha vida. Dos discos, pode colocar o “Imagine”, “Rock ‘n’ Roll”, “Double Fantasy”… Cada álbum tem uma coisa. “Instant Karma” é uma canção fodaça. Enfim, é um cara que mudou tudo.

Edgard Scandurra, músico.”Mother”

Minha música preferida do John Lennon é “Mother”. É uma canção muito sentida, triste, e mesmo assim foi um sucesso. Quando você se aprofunda na vida do Lennon e descobre como era a relação dele com a mãe, vê a razão de ele ter feito essa música.

Fernando Meirelles, cineasta. “(Just Like) Starting Over”

Pode soar estranho com tanta música boa, mas a que me toca mais é “(Just Like) Starting Over”, do disco “Double Fantasy”. O disco saiu aqui quase junto com a notícia da sua morte. Ganhei um de natal. No reveillon daquele ano eu estava acabando um namoro com uma menina que eu gostava, tinha tido um rápido caso com outra garota no meio desta confusão emocional e na festa de fim de ano, além delas duas, apareceu uma outra menina que já havia me impressionado. A música não parava de tocar e eu não sabia o que fazer. Acabei ficando com a terceira com quem estou casado há 26 anos.

André Mont’alverne (foto) é apreciador de Rock, Cinema e Futebol. Também é ex colaborador do blog De Rocha e velho amigo deste blogueiro. este texto foi publicado em 2010 (então aniversário de 70 anos ) e repostado por conta do aniversário do genial e eterno Lennon. 

Bacana => Unifap homenageia jornalista Hélio Pennafort


Nesta sexta-feira, 20, às 9h, a Rádio Universitária 96,9 FM presta homenagem ao jornalista amapaense Hélio Pennafort. A sala do estúdio de transmissão passou por reformas que possibilitaram uma melhor acústica. De “cara nova”, o espaço foi batizado com o nome do jornalista nascido na cidade de Oiapoque em 21 de janeiro de 1938. De acordo com o diretor da rádio, Fernando Canto, o ato da Universidade Federal do Amapá (Unifap) é um singelo e justo tributo ao profissional de imprensa que sempre pautou seus trabalhos na consolidação da identidade amapaense.

“O Hélio foi pioneiro é realizou grandes e inusitados trabalhos entre nossos interioranos, ilhéus, índios e negros, além de narrar com maestria as nossas manifestações populares”, lembra Fernando Canto. Hélio Pennafort circulou em diversos meios de comunicação local: televisão, impressos, assessorias e rádios. Este último, segundo afirmam os que o conheceram, era sua maior paixão. O amor pelo radiojornalismo gerou, segundo relata a jornalista e professora Graça Pennafort, irmã do homenageado, as primeiras radionovelas locais.

“O Hélio reunia uma equipe e, a partir de fatos reais, vivenciados por ele nas andanças pelos interiores amapaenses, criavam as paisagens sonoras e textos que se tornavam radionovelas. Tudo era feito de improviso, mas o produto final agradava algumas pessoas”, relata. O interior do Amapá era outro apego do jornalista. A convivência se refletia nos seus textos que sempre apresentavam uma linguagem simples e direta. Com esse estilo, o jornalista publicou diversos livros: “Microreportagem”, “Entrevista ao Leitor”, “Um Pedaço Fotopoético do Amapá”, “Estórias do Amapá”. “Os Heróis da Ribanceira”, “Barcellos – Síntese de dois Governos” e “Amapaisagens”.

Pennafort também formou a equipe pioneira da TV Amapá. Na emissora trabalhou como repórter e depois como diretor de telejornalismo. Capitaneou o departamento de jornalismo da Rádio Educadora São José, escreveu e apresentou documentários focados em diversos pontos do Estado, como o rio Oiapoque, a antiga vila do Beiradão e a Base Aérea do Amapá. Hélio Pennafort faleceu no dia 19 de fevereiro de 2001, em São Paulo, em decorrência de problemas respiratórios.

“É bom saber que a memória dele (Hélio) estará preservada em um local tão importante da nossa Universidade. A preocupação é que as novas gerações de jornalistas saibam, ou pelo menos tenham a curiosidade de saber, quem ele foi. Certamente estará feliz com a homenagem”, Graça Pennafort.

Kleber Soares; com informações de João Lázaro (blog Porta-Retratos)
Universidade Federal do Amapá (UNIFAP)

Mazagão: A cidade que atravessou o mar ( trajetória de criação do município amapaense contada na revista Aventuras na História )

Mazagão: A cidade que atravessou o mar

Texto Marcelo Testoni | Ilustrações Bruno Algarve | 04/09/2013 18h15

Arqueólogos da Universidade Federal de Pernambuco não acreditavam no que haviam encontrado. Ao sul de Macapá, às margens do Rio Mutuacá, ruínas de um projeto colonial, organizado e modesto, envolvendo traçados de ruas, tumbas coletivas e alicerces de uma igreja surgiram a seus pés. As construções, encravadas na Floresta Amazônica, foram descobertas em 2003. A História do Brasil acabava de ganhar um novo capítulo: Mazagão, a fortaleza que atravessou o Atlântico na tentativa de renascer feito fênix do outro lado do mundo.

Entre os anos de 1770 e 1773, fidalgos portugueses (cerca de 2 mil pessoas distribuídas em 470 famílias) exilados pela invasão muçulmana da Vila de Mazagão, no Marrocos, desembarcaram em Belém do Pará com o objetivo de reconstruir, na foz da Bacia Amazônica, no Amapá, sua cidade-forte. O povoado também serviria de apoio tático à expansão territorial pelo interior do país. No entanto, bastaram alguns anos e, em 1783, o plano de reconstrução seguiu rio abaixo. A obra, cópia da versão africana, não resistiu às condições hostis da América portuguesa.

O fascínio por trás da odisseia de Mazagão é tão grande que inspirou lendas e festas regionais, como a de São Tiago, que trata de batalhas travadas entre portugueses e mouros, ainda mais difundida depois das recentes descobertas no meio da floresta. “Trata-se de uma história muito importante não apenas para a cultura do Brasil como também para Portugal e Marrocos, pois dessa forma podemos entender um pouco mais sobre o passado comum a esses três países”, diz o arqueólogo e membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil Marcos Albuquerque, líder da pesquisa.

A fundação

Em 1513, os portugueses ergueram na Baía de Dukkala, no Marrocos, uma fortaleza que até hoje surpreende especialistas em engenharia de fortificações. Batizada de Mazagão, do árabe “água quente”, devido à abundância de poços artesianos na região, a base militar servia aos navegantes que faziam a rota do Cabo, em direção às Índias, e defendia cristãos de ataques dos nativos muçulmanos.

O auge chegou em 1534, durante o reinado de dom João III. Com a ocupação islâmica de diversas colônias portuguesas no norte da África, como Safim, Azamor e Arzila, Mazagão se transformou em um baluarte das forças portuguesas. Para ser considerada uma rocha impenetrável e permanente, passou por uma total restauração de suas defesas. No início do projeto, foram convocados os melhores matemáticos e consultores de geometria do Renascimento. De acordo com o historiador Rafael Moreira, autor de História das Fortificações Portuguesas no Mundo, sua presença inabalável “imitava um navio de guerra pétreo pronto para zarpar”. Segundo ele, o rei teria dito ao arquiteto Miguel de Arruda, em 1541: “Quanto mais metida no mar, melhor e mais segura será”. Um dos arquitetos envolvidos na reforma, Benedetto de Ravenna, havia sido auxiliar de Leonardo da Vinci. Portugal foi capaz de erguer uma verdadeira barreira amuralhada, com fossos profundos, com planta em formato de estrela de quatro pontas, em uma ilha na costa marroquina. No lado interno, na vila, ainda foram construídas algumas casas, uma prisão, uma igreja paroquial e um hospital. A cidade-forte de Mazagão foi, até 1769, a maior obra pública construída por portugueses fora da Europa.

“A proximidade do litoral garantia o embarque e desembarque de mercadorias e pessoas, sem grandes sobressaltos, conforme o movimento das marés”, afirma Paulo de Assunção, doutor em História pela Universidade de São Paulo e Universidade Nova de Lisboa. Mas isso não freou as investidas contra Mazagão. Ao longo do século 16, a fortaleza foi alvo de cercos e sempre saiu ilesa dos ataques. Cada nova vitória era comemorada pela população com procissões e jogos que exaltavam a supremacia católica diante do islã. Contudo, a privação e a tensão sempre estiveram atreladas à rotina daquela gente. Tarefas comuns como buscar água ou arar os campos eram sempre arriscadas.

No século 17, os mazaganistas foram catalogados em duas classes sociais e ocupavam mais de 700 casas e lotes agrícolas, segundo registro feito pelo estatístico francês Pierre Davity, publicado em 1660. Os mais ricos, denominados fronteiros, pertenciam à nobreza, como governantes, generais e barões, que permaneciam com suas famílias no local até o cumprimento dos mandatos. A outra parte, pobre em sua totalidade, era composta de militares, marinheiros, agricultores, artesãos, médicos e escravos com suas famílias, além de migrantes das Ilhas do Açores, prestadores de serviços aos nobres.

O êxodo

Essa sociedade múltipla estava com os seus dias contados. Ao longo do século 18, crises recorrentes comprometeram as finanças públicas e o controle das despesas para manter a defesa de Mazagão. “A crise dos produtos coloniais, que se desencadeou nos anos 1750, ampliou o déficit metropolitano, ainda mais aprofundado pelo imenso canteiro de obras de reconstrução de Lisboa, depois do tremor de terra de 1755”, afirma Laurent Vidal, autor de Mazagão: A Cidade que Atravessou o Atlântico e professor da Universidade de La Rochelle, na França.

Como se não bastasse, os exércitos mouros haviam se multiplicado, assim como as epidemias e pragas. Sem o auxílio da metrópole, o caos era inevitável. Diante de mais um problema, o rei dom José I resolve convocar o primeiro-ministro Sebastião José de Carvalho Melo, o futuro Marquês de Pombal, para modernizar a geopolítica do reino. “Em setembro de 1763, Carvalho e Melo, aconselhado por seu irmão, o ministro da Marinha, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, decidiu substituir o governador Vasques da Cunha, rancoroso demais, pelo próprio sobrinho, Dinis Gregório de Melo Castro de Mendonça”, diz Laurent Vidal.

O novo governador tinha consciên-cia de que gerir Mazagão não seria fácil. Logo depois de desembarcar, enviou ao tio relatos sobre as condições em que se encontrava a população e solicitou ajuda imediata. De nada adiantaram os esforços de Pombal, enviando embarcações com munição, dinheiro e suprimentos. Na medida em que Lisboa tentava revigorar a fortaleza para não deixá-la à própria sorte, em Marrakesh o sultão e mulá Mohamed entendia que era o momento certo para atacar. Silenciosamente, reuniu 75 mil combatentes, uma possante artilharia e ainda intimou todos os xerifes árabes de suas tribos para suscitar o pavor no jovem governador. Em janeiro de 1769, a rendição da cidade foi reivindicada sob mais de 200 disparos de granadas.

A essa altura, ressalta Paulo de Assunção, da USP, `”Mazagão não atendia mais aos interesses comerciais, marítimos, administrativos e religiosos de Portugal”. Com isso, a decisão de abandonar a fortaleza tornou-se irrevogável.

No início de março, uma trégua de três dias ficou estabelecida entre as partes para a retirada dos moradores. Enquanto mulheres e crianças eram levadas a bordo junto com as riquezas da igreja e de documentos oficiais do governo, os homens esvaziavam casas, prédios públicos e destruíam tudo aquilo que pudesse cair nas mãos dos muçulmanos. Ao final, o “espírito¿¿ da fortaleza deixou o litoral marroquino, provisoriamente repartido em 14 caravelas, rumo a Lisboa.

Ao ancorarem às margens do Rio Tejo, os mazaganistas não imaginavam o que seria de seu destino, mas o governo português, sim. O plano para a futura Mazagão já estava traçado. “A fuga do Marrocos coincidia com um perío-do em que a política portuguesa buscava intensificar o povoamento das fronteiras de sua colônia americana, havendo a necessidade de transferir mais gente para dominar o norte do Brasil¿¿, diz Marcos Albuquerque. Antes da longa travessia pelo Atlântico, os exilados tiveram de esperar oito meses até que a Coroa definisse o local e condições efetivas para que o projeto fosse estabelecido. Nesse ínterim, algumas pessoas fugiram e novos grupos, de camponeses e soldados, aderiram à empreitada. A frota em direção a Belém do Pará partiu em setembro de 1769. As primeiras embarcações traziam os colonos, o restante carregava mercadorias, materiais de construção, objetos de culto e recursos para viabilizar a Nova Mazagão na Amazônia. Nas palavras do historiador Paulo de Assunção: “Vestígios de um passado que seriam lançados como semente no novo local”.

O recomeço

Em janeiro de 1770, Mazagão aportou no Brasil. Ao analisar cartas e registros da época, o professor Laurent Vidal ressalta que as caras novas que chegaram ao Pará foram muito bem acolhidas pelas autoridades locais. “Já em suas primeiras semanas em Belém eles encontram alimentos em abundância, um hospital bem aparelhado e habitantes satisfeitos em alojá-los.” Temporária, a presença dos mazaganistas ali, até a reconstrução de sua cidade-forte, em Macapá, representava uma oportunidade financeira inesperada e vantajosa para a região.

O governo português aproveitou a hospitalidade dos anfitriões para aplicar um calote nos novos colonos. Como todos já haviam sido devidamente instalados, Portugal achou melhor atrasar e cortar, aos poucos, as pensões, a distribuição de escravos para o trabalho agrícola e o investimento com o transporte dos operários até a obra. Acreditava-se que a reconstrução da nova Mazagão levaria os cofres públicos à falência.

A situação se agravaria ainda mais à medida que o traslado das famílias para a Vila Nova de Mazagão ia sendo adiado. Os meses de espera logo evoluíram para anos, e, ao final de 1776, Belém ainda acolhia mais de 300 hóspedes. O restante das famílias foi separado e transportado para regiões próximas. Em comum, todos esperavam se reencontrar em uma cidade de estrutura espantosa. Um local que justificasse tantos atrasos. Pura expectativa. “A Vila Nova de Mazagão era precariamente erguida, a começar pelas casas modestas e de estrutura questionável”, registrou o historiador Paulo de Assunção.

Com a morosidade no andamento das obras, não demorou muito para que o vínculo entre os antigos vizinhos mazaganistas se perdesse. A interação com os trabalhadores indígenas e moradores de Belém possibilitou o surgimento de comunidades mistas, com interesses e costumes próprios. De início, a situação não agradou as autoridades coloniais, receosas em terem suas terras invadidas por outras nações europeias, mas verificou-se que, tendo os nativos como aliados, a população se fotaleceria. O projeto seguia a proposta do complexo marroquino, mas teve de ser adaptado às feições tropicais da Amazônia e às práticas indígenas para melhor atender as necessidades da nova sociedade. A cidade-fortaleza se erguia como um monumento à resistência do homem na região inóspita da floresta. No entanto, a força da natureza logo se faria sentir.

A degradação

Tão logo o quarteirão com igreja e poucos edifícios públicos foi inaugurado, os habitantes começaram a chegar de barco. Mas o clima e as condições do local não ajudavam. Apavorados, os viajantes cortavam a mata fechada, sob o sol implacável, ensopados pela umidade e transtornados pelos mosquitos. Os que sobreviviam, ao chegar à curva do Rio Amazonas encontravam ainda o que parecia ser uma cidade-forte em construção. Um dos problemas dos mazaganistas é que não possuíam um sistema político bem organizado – disputas entre os líderes dos colonos e o governador eram constantes. Protestos e reivindicações contra os descasos por parte da Coroa aconteciam quase todos os dias.

Para se adaptar ao novo lar, não havia outra opção a não ser deixar de lado o passado militar e se adaptar à vida de camponês. Mas plantar naquela região pantanosa era uma tarefa desgastante. “Quando não o calor, era a vez da chuva e da umidade destruírem as colheitas, decomporem as casas feitas de palha e madeira e proliferarem as doenças”, afirma o arqueólogo Albuquerque.

Em pedaços, Vila Nova Mazagão ainda suportou virar o século 19 antes de entregar os pontos. Sua sentença se consumou em 18 de outubro de 1828, com a instituição da Vila de Macapá como capital da região. Mas somente em 1833 os últimos 40 moradores da vila receberam uma notificação real que suprimia o nome da localidade, agora substituído pelo de “Regeneração”.

O legado na floresta

Os cerca de 500 habitantes do atual município de Mazagão Velho, fundado a dezenas de quilômetros da extinta Vila de Nova Mazagão, herdaram de seus ancestrais, vindos do Marrocos, a festa de São Tiago, sobre batalhas entre portugueses e mouros. “Esse tipo de festa, cuja origem remonta à época colonial, é muito difundido na América Latina¿¿, diz o historiador Laurent Vidal. “A conquista da América estava deliberadamente inscrita pelas coroas ibéricas no prolongamento da Reconquista.” Realizado em julho, o evento atrai mais de mil pessoas vindas de Macapá, moradores ribeirinhos e famílias de mazaganistas dispersas na região – até na Guiana Francesa – que fazem questão de acompanhar as atrações. Ao longo de gerações, a missa, os bailes e as encenações folclóricas passaram por transformações. No início do século 20, ex-escravos que se reagrupavam em quilombos introduziram elementos da cultura africana à festa, como os orixás e as batucadas. Hoje, cabe aos mais jovens fazê-la evoluir. “As máscaras modernas, o Judas com o nome de George Bush, dão testemunho desse desejo”, comenta Vidal. Mas até a tradição está ameaçada. O governo do estado do Amapá, que investiu R$ 150 mil nas descobertas científicas, agora promove marchas “ecoturísticas religiosas” no local dos sítios arqueológicos e pretende transportar a festa de São Tiago, com suas imagens e simbologias, para um museu de entretenimento. Mazagão, mais uma vez, está em apuros.

Meu comentário: Em janeiro de 2012, visitei as ruínas da antiga Igreja de Mazagão Velho, construída pelos marroquinos em 1770. Minha família paterna veio do Mazagão para Macapá na década de 50. Meu avô, João Espíndola Tavares foi prefeito daquele município nos anos 60. Foi legal voltar lá. A comunidade mazaganense respira cultura, história e tradições. Muito firme!


Mazagão Velho e Festa de São Tiago. Turismo religioso e cultural na cidade que atravessou o Atlântico (texto da @MarileiaMaciel)


E o acontecimento da semana é a festa de São Tiago, em Mazagão Velho, que iniciou dia 16 e segue até 28 de julho. Distante cerca de 70 km de Macapá, os festejos atraem fiéis e turistas interessados em conhecer mais e participar da programação que tem como ápice a Batalha entre Mouros e Cristãos, encenada a céu aberto, além da procissão de Fé ao Santo Católico.

O Governo inaugurou a Central de Atendimento ao Turista (CAT), para mais informações e auxílio aos que participam da bicentenária festa.

São 236 anos de cultura e fé e  desde o ano passado, o dia 25, é feriado estadual, por força de lei da deputada Marília Góes.

Para chegar até Mazagão Velho é preciso atravessar o rio Matapi de balsa, numa travessia de cinco minutos. Estão disponíveis quatro balsas durante 24 horas. De lá segue-se até o centro de Mazagão Novo em uma viagem de 15 minutos. O restante da viagem é em estrada de terra, que está em obras. Com as chuvas, o percurso de 30 km, de modo tranquilo e em segurança, pode ser feito em 1 hora. Quem não puder ir em carro particular, é só pegar micro-ônibus ou uma das vans que fazem transporte para o município.

O ápice da festa são nos dias 24 e 25. No dia 24 às 15:00, inicia  a grande batalha entre Mouros e Cristão, encenada pelos próprios moradores, que envolve toda a cidade. Começa com a entrega dos presentes envenenados aos Cristãos, o que deu aos Mouros  a certeza da vitória. Às 20:00 tem  a ladainha e logo após começa o Baile de Máscaras, feito pelos Mouros festejando a suposta vitória. Somente os homens mascarados entram no Baile.

O dia 25 amanhece mais cedo, às 4:00 começa a alvorada festiva, e às 6:30 o Arauto sai cavalgando pela vila chamando para o Círio, que acontece após a missa, iniciada às 7:30.  O resto da manhã é de confraternização nas casas e ruas. Faz parte da paisagem o desfile charmoso de moradores vestidos dos personagens, montados em cavalos. Ao meio-dia o Bobo-Velho sai nas ruas para espionar os Cristãos mas é alvejado com bagaços de laranja. Às 14:00 O Arauto anuncia nas ruas o início da batalha, que segue o roteiro da lenda. Destaque para a participação das crianças na cena da venda das crianças e a dança do Vominê, que é a dança da vitória dos Cristãos. Depois tem o recírio, ladainha, shows e baile dançante.

Nesta época, a histórica Mazagão Velho recebe muitos turistas, devotos e autoridades. Os moradores se empenham para receber muito bem a todos e abrem as portas das casas e fornecem refeições, sorrisos e simpatia. É também um tempo bom pra ganhar dinheiro. Todas as vestimentas e adereços da batalha é feita por moradores. É comum a venda de bebidas, refeições e café da manhã, e quem tem um quarto sobrando aproveita pra quem alugar. É uma oportunidade também de conhecer o belo município com ruas em bloquetes, apreciar o rio que passa em frente à cidade e visitar as ruínas da igreja do século XVIII que fica no sítio arqueológico no centro da cidade.

Mariléia Maciel – Jornalista

33 anos sem Vinícius de Moraes (por @JucaraMenezesAM)

Por Juçara Menezes 

Há 33 anos, num 9 de julho, morria o poeta Vinícius de Moraes. O poetinha – apelido dado por Tom Jobim – era um boêmio, fumante, amante dos bons uísques e das mulheres. Casou-se nove vezes. Apesar disso, teve tempo de criar obra literária, musical e teatral. Foi parceiro de toda uma geração de grandes músicos brasileiros como o citado Tom, além de Chico Buarque, Toquinho, Baden Powell, Carlos Lyra, Edu Lobo e João Gilberto, dentre outros.

Marcus Vinícius da Cruz de Mello Moraes nasceu em 1913 no Rio de Janeiro, na Gávea, filho de um funcionário da prefeitura e de uma dona de casa que era também pianista amadora. Em 1930, ingressou na Faculdade de Direito do Catete, hoje integrada à UERJ. Na chamada “Faculdade do Catete”, conheceu o romancista Otavio Faria, que o incentivou na vocação literária. Vinícius de Moraes graduou-se em Ciências Jurídicas e Sociais em 1933, aos 20 anos. Após um período na Inglaterra, fez concurso para o Ministério das Relações Exteriores. Na primeira vez foi reprovado, mas na segunda tentativa acabou aprovado, sendo enviado para Los Angeles como vice-cônsul.

Depois, Vinícius de Moraes atuou no campo diplomático em Paris e em Roma, onde costumava realizar animados encontros na casa do escritor Sérgio Buarque de Holanda. A carreira de diplomata fui subitamente interrompida pelo AI-5, através de uma aposentadoria compulsória. O motivo alegado foi a boemia. Em entrevista, o presidente João Figueiredo explicou as causas da demissão: “O Vinícius diz que muita gente do Itamaraty foi cassada por motivos políticos, por corrupção ou por pederastia. É verdade. Mas no caso dele foi vagabundagem mesmo. Eu era o chefe do Serviço Nacional de Informações, o SNI, e recebíamos constantemente informes de que ele, servindo no consulado brasileiro de Montevidéu e ganhando 6 000 dólares por mês, não aparecia por lá havia três meses. Consultamos o Ministério das Relações Exteriores, que nos confirmou a acusação. Checamos e verificamos que ele não saía dos botequins do Rio de Janeiro, tocando violão, se apresentando por aí, com copo de uísque na mão. Nem pestanejamos. Mandamos brasa.”

Hoje, ninguém se incomoda com seu mau comportamento funcional. Afinal, o ganho cultural foi muito mais importante.

Vinícius de Moraes é conhecido pelo grande público muito mais por sua música e por seu trabalho como letrista do que por sua obra literária. Porém, estes estão de tal forma interligados com a vida do autor que certamente não é muito inteligente separá-los. Nos anos 40, Vinícius era um poeta lírico de linguagem simples que muitas vezes enveredava pelo social. Os poemas desta época certamente não lhe garantiriam nenhuma “imortalidade”e ele era mais conhecido por sua atuação como jornalista e crítico de cinema.

O manuscrito de “Soneto da Separação”

Só em 1953 o poeta começou a abrir espaço para o letrista e músico. Naquele ano, Aracy de Almeida gravou “Quando Tu Passas Por Mim”, primeiro samba de sua autoria. Escrito com Antônio Maria, o samba marcava, na vida pessoal do poeta, mais um fim de casamento. No ano seguinte, Aracy de Almeida voltou a gravar outra música com letra de Vinícius.

Em 1954, foi publicada sua coletânea Antologia Poética, ao mesmo tempo em que finalizava sua peça teatral Orfeu da Conceição, premiada no concurso associado ao IV Centenário de São Paulo, cidade por ele apelidada de “o túmulo do samba”. Dois anos depois, quando andava atrás de alguém para musicar a peça, um amigo indicou-lhe um jovem pianista e arranjador chamado Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, de 29 anos. O encontro entre Vinícius e Tom, entre Tom e Vinícius, deveria ser saudado com fanfarras não fosse a bossa nova tão avessa a estas barulheiras. Ali nascia uma das mais fecundas parcerias da música brasileira, uma que a marcaria definitivamente. Os dois compuseram a trilha sonora para Orfeu e seguiram compondo uma vertiginosa sucessão de clássicos que acabaram na criação da bossa nova juntamente com João Gilberto. Se Todos Fossem Iguais A Você, Eu e Você, A Felicidade, Chega de Saudade, Eu sei que vou te amar, Garota de Ipanema, Insensatez, entre outras belas canções canônicas.

A pedra fundamental da bossa nova veio com o LP Canção do Amor Demais, gravado por Elizeth Cardoso. Além da faixa-título, o LP trazia ainda com outras músicas da parceria, como Luciana, Estrada Branca, Outra Vez e a indiscutível Chega de Saudade, em interpretações vocais intimistas, bastante estranhas ao comum da época — o da voz empostada e do berro. No ano seguinte, era lançado o LP João Gilberto que trazia como música de abertura a mesma Chega de saudade gravada por Elizeth e abria definitivamente o período da bossa nova. Aliás, é importante dizer que a famosa batida do violão de João Gilberto já se fazia presente no disco de Elizeth.

Tom e Vinícius

Mas Vinícius ainda teria outras participações fundamentais na história da MPB. Em 1965, o “I Festival Nacional de Música Popular Brasileira” (da extinta TV Excelsior) consagrou Arrastão (composta em parceria com Edu Lobo) como vencedora. O segundo lugar foi a Valsa do Amor que Não Vem , do mesmo Vinícius com Baden Powell, defendida por Elizeth Cardoso.

Em 1966, uma nova parceria com Baden Powell gerou “Os Afro-Sambas”, uma brilhante coleção de canções de influência africana que recebeu sua maior homenagem há poucos anos, com a regravação feita por Mônica Salmaso e Paulo Bellinati. No mesmo ano, lançou o livro de crônicas Para uma menina com uma flor.

Entre um parceiro e outro, eram criadas uma série de obras-primas da MPB. Samba da Bênção, com Baden; Marcha da Quarta-feira de Cinzas, com Carlos Lyra; Valsinha e Gente Humilde, com Chico Buarque; a lista é imensa.

Toquinho e Vinícius

Depois de 1970, foi a vez de encetar outra longa parceria, talvez a mais duradoura e prolífica delas, aquela com o violonista e compositor Toquinho. Formavam uma dupla bem diferente em qualidade das atuais. Também era diversos na postura: Toquinho empunhava um violão e Vinícius um copo de uísque. O primeiro LP já trazia Na Tonga da Mironga do Kabuletê, Testamento, Tarde em Itapoã, Morena Flor e A Rosa Desfolhada. Em 1972, eles lançaram o álbum São Demais os Perigos Dessa Vida, contendo — além da faixa-título — grandes canções como Cotidiano nº 2, Para Viver Um Grande Amor e Regra três.

Em 1979, participou de leitura de poemas no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo (SP), a convite do líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva. Voltando de viagem à Europa, sofreu um derrame cerebral no avião. Perderam-se, na ocasião, os originais de Roteiro lírico e sentimental da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

No dia 17 de abril de 1980, é operado para a instalação de um dreno cerebral. Morre na manhã de 9 de julho, de edema pulmonar, em sua casa na Gávea, em companhia de Toquinho e de sua última mulher.

O poetinha em 1977

A poesia de Vinícius, seja na música ou nos livros de poesia, transpira paixão. Paixão pela mulher, paixão pelo divino, paixão pelo prazer transitório e pela dignidade humana. Outra palavra fundamental de seu léxico é a busca. Busca da religião que logrou encontrar na África, busca das inumeráveis musas — mulheres reais ou inventadas — e a busca do perdão para tantas infidelidades. Poeta entre o viril e o terno, entre o metafísico e o carnal, fez de sua poesia um local de encontros e de despedidas. Morreu como uma reeencarnação de Dioniso. Era o rei das festas, o mais saudado, o poeta do fumo, das religioões afro-brasileiras num tempo em que isso era quase escandaloso, da irresponsabilidade, da insânia e, sobretudo, da intoxicação — através do amado uísque — que une o bebedor com a deidade. E, para nossa alegria, ainda deixou-nos uma grande obra que, se não chega a ser a de um Drummond, a de um João Cabral, a de um Murilo ou a de uma Cecília, chegou mais facilmente ao coração do povo através da música.

Abuso policial e de manifestantes marcam protesto em Macapá


Cumprindo às manifestações nacionais, ontem o Amapá foi às ruas, tendo como pauta principal melhorias no transporte público, e, como subsidiário, a indignação de uma Nação com a deturpação escrachada da democracia, em seus mais diversos âmbitos: corrupção, má prestação de serviços públicos, ingestão da coisa pública, entre outros.

20 mil pessoas, munidos de cartazes, não obedecendo a lideranças partidárias (movimento livre e espontâneo), pediam os olhos dos poderes para os problemas locais e nacionais que temos enfrentado. Vinte mil indignados, jovens, velhos, crianças, uns compreendendo bem o porquê do protesto, outros com aquele leve quê de “algo está errado nesta merda”.

Dois fatos sobre a manifestação de ontem precisam ser pontuados:


No primeiro momento, a passeata foi linda, as 20 mil pessoas protestaram pelas ruas da cidade com cartazes, bandeiras, muita criatividade e pacificidade. Por volta das 18:40h, na esquina do Palácio do Governo, bandidos infiltrados no movimento (que conseguiram, em parte, estragar a manifestação) provocaram os policiais, arremessando pedaços de pau, latas de cerveja, pedras e rojões. A polícia, que além de manutenção da paz, é o órgão repressor do Governo, mostrou as suas armas. Foram bombas de gás de pimenta e tiros de balas de borracha. 

Aí sim, ocorreu a quebra da ordem, depredação do patrimônio público, violência absurda e idiota de ambas as partes. Vale ressaltar que a maioria de nós, manifestantes, não causamos os tristes fatos de ontem, mas sim menos de 5% de oportunistas (que aguardavam o protesto para semear o caos). A polícia mostrou despreparo na ação, pegou pesado, muito pesado, e a Praça da Bandeira virou uma Praça de Guerra, literalmente. 

Após deixar o protesto, soube que o quebra-quebra tomou as ruas, vândalos destruíram prédios públicos e a polícia não se fez de rogada. Segundo relatos, desceu o pau até em quem não tinha nada com o tumulto. Achei uma falta de respeito o gás de pimenta, pois deviam identificar os culpados e prendê-los. Eu vi um punhado de gente provocando e arremessando coisas na polícia, mas uma minoria. 


Ontem foram tantas cenas lindas e outras tantas horrendas. Uma mistura de liberdade, pacifismo, vandalismo e truculência. Espero que sirva de reflexão para todos. Estou orgulhoso da manifestação pacífica que participei e decepcionado pela violência que vi no segundo momento. No entanto, ressalto a legitimidade do protesto: É preciso lutar pelos nossos direitos, sempre. Mas de forma coerente e inteligente. O Brasil acordou e promete mudar. Que isso ocorra no voto, que junto com manifestações populares, é a arma do povo.

Vamos fazer nosso dever de casa
E aí então vocês vão ver
Suas crianças derrubando reis
Fazer comédia no cinema com as suas leis

Elton Tavares