Poesia de agora: Comentários a respeito da Vida – Jaci Rocha

Comentários a respeito da Vida

Vida! Quem dera um remoto controle,

mas ao vivo não tem replay
Pausa para ir ao banheiro
não tem mocinhos ou bandidos
nem mesmo um super-herói
dentro de um secreto esconderijo.

Ah! deve ser por isso
que a gente corre para o cinema
ou põe na telinha um romance
meio que comédia
– esquece o apelo cotidiano da tragédia –

existir é coisa de gente bruta, meu bem
amar é para quem tem coragem de ir além
e é cada coisa louca que inspira emoção
– Mesmo tudo que habita o apelo do não.

Aqui, o segundo vira sem garantia de sucesso
às vezes nem mesmo um nexo,
e a nossa temporada é cancelada inesperadamente
há tempos de flor, outros de esperar e regar a semente…

ah! mundo real,
belo e cruel.

A dor é mesmo dor
Na tragicomédia ambígua de um maluco inventor
pois eis, que entre o concreto e o cotidiano
Nasce flor, verso, arte e amor…

O código reto da realidade,
não tem título, não existe segunda temporada
Apenas os fios do agora,
puxados entre o nunca mais e a eternidade…

E eu, que brinco de normalista*
Ando por aí cheia de fórmulas e antigas teorias
Finalmente descobri na última curva da estrada
Que não sei mesmo nada,
não sei nada e talvez jamais saiba…

É que ao vivo, meu bem, não tem sinopse
é de sustentar o porte
Como bem me disse Martha
“Pena a vida não ter corte”!

(E se tiver, esteja certo:
“às vezes não sara nunca,
às vezes, sara amanhã”)

Jaci Rocha

Poema de agora: Por ti – Alcinéa Cavalcante (@alcinea)

Por ti

Gosto de ser assim
– livre.
Sem relógio
sem telefone
sem hora de partir
ou de voltar.

Gosto de ser assim
– livre.
Não ter que dizer
estou aqui
vou ali
irei acolá.

Gosto de ser assim
– livre.
Sem hora marcada
pra dormir
acordar
comer
passear
cantar
trabalhar.

Mas se me quiseres
compro um relógio
e um celular.
Organizo o tempo
e até aprendo a cozinhar.

(Alcinéa Cavalcante)

Como escrever um texto polêmico – Crônica de Elton Tavares ( e ilustração de Ronaldo Rony)

Ilustração de Ronaldo Rony

Faz tempo que aprendi como escrever um texto polêmico e “cool”. Você contextualiza e detona o objeto que já está na pauta do momento. Sim, pega carona com a merda que já está na palheta (implantação da pena de morte no país, diminuição da maioridade penal, legalização do aborto e maconha, enfim, atualidade, política, religião, pessoas, música, etc…). Sim, textos de revolta, sangue nos olhos e tals. Ou crônicas dúbias, mas inteligentes (o problema é que nem todo mundo entende a segunda opção).

Desenvolvimento: durante o artigo ou crônica, esmiúça um “porém” e descreve alguma hipocrisia de ordem genérica, absolvendo o objeto. Com falsidade, claro. Ah, use frases de impacto. Tipo => como disse Bill Gates : “O sucesso é um professor perverso. Ele seduz as pessoas inteligentes e as faz pensar que jamais vão cair” ou Oscar Wilde, quando disse que ”o descontentamento é o primeiro passo na evolução de um homem ou uma nação”. Isso sempre funciona.

Ah, faça perguntas? O sistema é falho, portanto deixa brechas para críticas no bandão. Aliás, falar mal é sucesso garantido!

Já na conclusão, você moraliza no formato bunda-mole tipo: “um tapa na cara da sociedade”. Todo mundo, aliás, é bunda-mole, em algum aspecto, claro. Só não aqueles que concordarem com este texto (Rá!).

Por fim, você pega o embasamento de alguma pessoa consideradona no meio de comunicação para o epílogo e afirma que aquele é o melhor texto produzido sobre o tema.

Claro que, brincadeiras à parte, devemos criticar, discernir e entender as coisas como elas são, de fato. Ver o mundo de outra ótica, a dos que não querem que a verdade venha à tona. Então, textos polêmicos são mais que necessários. O importante é seguir questionando os fatos e acontecimentos ao nosso redor. Seguimos discordando, sempre. E fim de papo!

A desobediência é uma virtude necessária à criatividade” – Raul Seixas

Elton Tavares


*Texto do livro “Crônicas De Rocha – Sobre Bênçãos e Canalhices Diárias”, de minha autoria, lançado em setembro de 2020. 

Poesia de agora: NATIVO – Luiz Jorge Ferreira

Foto: Floriano Lima

NATIVO

Eu não quero ser Ianque em Miami Beach
Quero doar meu sangue para os Carapanãs, em Apurema.
Quero chamar Deus de Manitu…
E ser chamado de Tuchauã.
Quero voar com as asas brancas das Garças, rumo ao rumo que soprar os ventos.
Quero estar atento a luz…
E estar sedendo das águas dos Igarapés, que deixam profundas lembranças as terras das margens, por onde correm.
Quero estar Kaipora, Mapinguari, ou vagalume, expelindo um arco-íris submergido em trevas.

Sou Aurora e anoiteço.
Sou esperança e não creio.
Sou a Preguiça que amanhece cedo, e chega quando o sol se foi.
Estou de volta, no início.
E estou no início, quando finda.

Eu não quero o destino dos carapalidas, sugados pelos Carapanãs.
Quero ser o Pajé.
Quero ser a crista da onda, espumante e bela…
Não seu barulho assustador e voraz.
Quero ser o Plácido Igarapé, onde lavo a voz…
Onde afogo o Ontem, e ponho a nadar as lembranças…
As mesmas que ele escavou nas margens…
Exatamente, gêmeas, das que ele incrustou em mim.

Luiz Jorge Ferreira

Poema de agora: Irmãos – Marven Junius Franklin

Índios wajãpi do Amapá – Foto: Victor Moriyama.

Irmãos

Sou daqui, irmão
— nortenho entristecido pela vida,
que segue o voo incerto
pelos rios contaminados de mercúrio.
Sou dos cafundós, irmão
— meus olhos enfadaram
ao ver a imensidão de mata demolida.
Sou indígena, irmão
— ancestral sem moeda de troca,
que luta & sonha com a sua terra edificada
(já passou o tempo
de espelhos & miçangas).

Marven Junius Franklin

Mais vida, menos grana – Crônica hedonista de Elton Tavares (com Ilustração de Ronaldo Rony)

Ilustração de Ronaldo Rony

Crônica hedonista de Elton Tavares

Certa noite , ao conversar com amigos e dizer que não guardo um vintém do que ganho com o meu suado trabalho, eles ficaram assombrados. Disseram que é loucura, que ‘issos’ e ‘aquilos’, especialmente sobre reservas econômicas para possíveis emergências. Eu disse que prefiro mais vida e menos grana.

Não, não é que eu não goste de dinheiro. Claro que gosto, mas tudo que ganho, no batalho e sempre honestamente, é repassado para custos operacionais e caseiros. O restante é gasto e muito bem gasto em vida. E não sobra nadica de nada para acumular.

Além da minha incorrigível falta de perspicácia financeira, nunca ganhei somas consideráveis com meus trampos, seja este site, na assessoria de comunicação ou escritos (sim, vivo literalmente de palavras). Mas o que entrou no meu bolso, apesar de eu não conhecer essa tal de economia, jamais foi desperdiçado.

Eu bebo e não é pouco. Como da mesma forma. Gosto de viagens e dos momentos em que fiz um monte de merdas legais com os meus brothers. Isso tudo custa caro. Em nem todo o dinheiro do mundo poderia comprar aqueles dias de volta. Ou seja, mais vida, menos grana.

Quando não usei minha grana pra curtir a vida com amigos, ajudei pessoas. E essa é a melhor forma de torrar os trocados. Como disparou outro gordo louco no passado: “não quero dinheiro, eu só quero amar”. Grande Tim!

Falando em citações (amo usar frases de ídolos), uma vez o Belchior disse: “e no escritório em que eu trabalho e fico rico, quanto mais eu multiplico, diminui o meu amor“, na canção “Paralelas”. Boto fé nisso.

Algumas pessoas que conheci no passado, amigos e até familiares, após se estribarem, ficaram um tanto pavulagem demais e com suas vidas muito menos divertidas.

E isso me recorda o bom e velho Johnny Cash, que certa vez pontuou: “às vezes eu sou duas pessoas. Johnny é o legal. O dinheiro causa todos os problemas. Eles lutam”.

Ou os Paralamas do Sucesso, na canção “Busca a vida”: “…Ele ganhou dinheiro, ele assinou contratos, e comprou um terno e trocou o carro. E desaprendeu a caminhar no céu …e foi o princípio do fim!“.

Aos que desaprenderam o caminho, deixo a canção-poema : “Desejo que você ganhe dinheiro, pois é preciso viver também. E que você diga a ele pelo menos uma vez quem é mesmo o dono de quem“.

No meu caso, sigo dando mais valor em viver do que em poupar para um futuro incerto. Menos grana, mais vida, meus amigos.

É isso!

Elton Tavares

A MALÁRIA DE GALLUCIO – Crônica porreta de Fernando Canto

 

Quando leio nos jornais que um novo surto de malária está ocorrendo nas comunidades indígenas do Oiapoque, pergunto logo quando será que essa doença, que já vitimou tanta gente, será erradicada.

Amigos e conhecidos morreram dessa doença terrível. Vi pessoas no interior e aqui mesmo em Macapá tremendo de febre e me senti impotente diante da falta de remédio e de outros recursos para poder ajudá-las. Sabia que ela era uma doença infecciosa causada por um parasito do gênero plasmodium, transmitida entre pessoas por um mosquito chamado anofelino, mas me confundia com os nomes dados a ela: maleita, sezão, impaludismo, febre intermitente, tremedeira, febre terçã, febre quartã, etc…

E se hoje ela ainda mata muita gente, imaginem então nos tempos da Colônia. Em 1752 Mendonça Furtado veio à Macapá para tentar conter uma grande epidemia de malária, acompanhado do único médico da província do Grão-Pará. Anos depois, em 1769, Galúcio, o engenheiro construtor da Fortaleza de São José, morreria de “hidropezia” (segundo o médico-cirurgião da obra), a acumulação de líquido seroso em tecido ou em cavidade do corpo, e uma consequência da maleita, pois os plamódios vivem nos glóbulos vermelhos e no fígado do homem. Outros sintomas são os acessos febris, a anemia, que resulta da destruição contínua dos glóbulos vermelhos e a esplenomegalia, que é o aumento do baço.

Mas ainda que a malária seja uma doença frequente nos países tropicais, não é exclusiva deles. Nas vastas regiões pantanosas do norte da Europa, nas regiões bálticas, no sul da Suécia, Holanda e muitas outras regiões têm ocorrido focos de malária. Ela é uma enfermidade conhecida desde a Antiguidade. Os textos de Hipócrates já falavam de febres intermitentes acompanhadas da descrição dos sintomas característicos, como aumento do tamanho do baço e anemia. Hipócrates discorria ainda sobre as causas da doença. Por exemplo, recomendava construir as cidades no alto das montanhas ou em ladeiras, evitando os vales e a proximidade com os pântanos e zonas úmidas. Segundo os escritos, nos vales e zonas pantanosas o “ar impuro” provocava enfermidades de todo tipo. Daí se pode compreender melhor o significado do termo malária, que vem do italiano “mal aria”, ou seja, mal ar.

O papel que esse mal tem desempenhado na humanidade é muito maior que supomos habitualmente. Há testemunhos escritos de que as “febres” despovoaram cidades inteiras. Éfeso, na Grécia, cidade que São Paulo sempre visitava foi destruída por ela. A transformação do rio Caistro em zona pantanosa, as guerras, os terremotos e a expansão dos pântanos contribuíram para a sua destruição, precipitada pelas epidemias de malária que selaram para sempre o destino de seus habitantes. Durante as campanhas napoleônicas no norte da Itália (1796 e 1797, em especial em Mantua, muitas baixas foram causadas pelas temidas febres. Curiosamente foi nessa cidade que nasceu Henrique Galúcio.

Os conquistadores espanhóis trouxeram a malária ao Novo Mundo, de onde precisamente vem o primeiro remédio eficaz contra a doença: o quinino, que se obtém das árvores do gênero Chinchona. Sua eficácia gerou a importação indiscriminada da árvore pelos europeus, a partir do século XVII, e se converteu num negócio muito lucrativo em que os jesuítas também participavam. A produção do quinino provocou uma elevação generalizada nos preços e o aparecimento de falsificações. Só em 1854 é que os holandeses começaram a cultivar as árvores nas suas colônias da Ásia, o que veio cobrir totalmente a demanda.

Muitos avanços ocorreram na história da malária, mas apesar disso os estados do norte ainda convivem com ela. E são preferencialmente os pobres e necessitados das mais longínquas paragens da Amazônia os mais atingidos por ela.

Poema de agora: FOGO BRANDO – Pat Andrade

FOGO BRANDO

cortaram
sua existência
pela metade

no cartaz
mal escrito e tosco
a curta história de vida
em cada linha do rosto
um sorriso que foi roubado

o mundo virou-lhe
as costas
arrancaram-lhe
a dignidade
falta-lhe a cama
e a mesa
não tem endereço
nem identidade

o semáforo
lhe rouba o tempo

deixa o ponto
de mãos vazias
volta pra casa
a passos lentos
pensando na vida
sem jeito

hoje é mais um dia
em que vai cozinhar
apenas desespero

Pat Andrade

Resenha do livro “O som e a fúria”, de William Faulkner – (Por Lorena Queiroz – @LorenaadvLorena)

Resenha literária de Lorena Queiroz

O som e a fúria é uma obra de William Faulkner publicada em 1929, e que, sem dúvidas, foi o maior e mais recompensador quebra-cabeças que já desvendei.

Antes de falarmos da obra é importante entender quem foi Faulkner para compreender este mundo criado e assinado por ele. William Faulkner ganhou o Nobel de literatura em 1949. Trabalhou em Hollywood escrevendo roteiros durante 1930 até 1940. E a respeito desta experiência ele disse em 1947 – ‘’Compreendi recentemente o quanto escrever lixo e textos ordinários para o cinema corrompeu minha escrita”. Mas o detalhe mais importante sobre Faulkner é o local e o período de seu nascimento. Nosso querido nasceu em 1897, em New Albany, no Mississipi. Vinha de uma família aristocrática tradicional e financeiramente decadente. O período de seu nascimento, a virada do século que carrega as mudanças. O sul dos EUA, o racismo, aquela atmosfera sulista pós guerra de secessão, o contraste entre norte e sul, tudo serviu como base para ambientação do mundo criado por Faulkner. É importante frisar que a influência para construção deste livro é o modernismo, que quebrou paradigmas e inovou a forma de ser fazer literatura, como também podemos observar nas obras de Virginia Woolf, Proust entre outros.

Este livro está entre os cem livros mais importantes pelo Le Monde, e em 1998, a Modern Library o classificou em sexta colocação entre os cem melhores romances da literatura inglesa do século XX.

O enredo da obra é bem simples, trata-se da história da decadência financeira e moral de uma família, os Compson. Uma família aristocrática que vivia no sul dos EUA, na fictícia Yoknapatawpha Country. Essa família é composta pelo Pai Jason, a mãe Caroline, uma mulher fraca que passa a maior parte do tempo acamada, seus quatro filhos; Benji, Quentin, Caddy e Jason. A escravidão já era abolida à época, mas era comum que as famílias conservassem seus antigos escravos na casa como empregados, assim, temos também nesta casa Dilsey, a empregada preta que é a pessoa mais sensata de toda a trama. Dilsey tem três filhos, T.P, Froney e Luster, que a ajudam nos cuidados com a casa.

O que tem de mais difícil na leitura e compreensão deste livro não é o enredo e sim a estrutura narrativa escolhida pelo autor. O livro é narrado em quatro partes e por quatro narradores diferentes, e adianto que o único spoiler dado aqui será a identidade destes quatro narradores, e com isso já facilitarei bastante a sua vida. O mais desafiador neste livro é conseguir passar do primeiro narrador, que é Benji. Benji nasceu com uma deficiência mental, ou como eles mesmos o descrevem: “nasceu bobo’. Benji, que antes era Maury, nome de um tio, foi rebatizado Benjamim com intuito de que a mudança do nome lhe mudasse a sorte. É importante ressaltar que há uma grande influência bíblica nesta obra. Assim, a mudança do nome da personagem conversa com Gênesis 35.18, que diz que o nome Benjamim foi dado pelo seu pai Jacó, pois antes de morrer no parto, Raquel, sua mãe, tinha lhe dado o nome de Benoni (filho da minha aflição). Entretanto, Jacó lhe renomeou como Benjamin, o filho próspero.

O livro se inicia em 1928 sendo narrado por Benji, um homem de 33 (trinta e três) anos, com deficiência mental que ama três coisas na vida: o pasto, a luz do fogo e sua irmã, Caddy. Benji tem alguns sentidos bem aguçados, como um som ou cheiros, que lhe remetem a lembranças que se misturam em uma narrativa que se dá através de fluxo de consciência. Ou seja, além da narrativa não ser linear, ainda encontramos fatos que estão soltos dentro de uma história que o leitor ainda não conhece, e que está inicialmente sendo narrada por uma personagem que não   compreende a própria história que narra. Então, neste momento nos deparamos com a influência da peça Macbeth, de Shakespeare. Na 5 cena do 5 ato de Macbeth, encontramos o seguinte trecho: ‘’ …. A vida é um conto narrado por um idiota cheio de som e fúria e sem nenhum significado”.

A segunda parte do livro é um pouco mais inteligível que a primeira, aqui encontramos o sensível e atormentado Quentin como narrador. Temos um retrocesso no tempo, pois Quentin narra acontecimentos que se passam em 1910, como já mencionei, a narrativa não é linear. Ainda encontramos bastante fluxo de consciência que se intercalam com a narrativa do presente. O importante sobre Quentin, ainda sob a influência de Macbeth, é o trecho: ‘’ A vida é uma sombra errante; um pobre comediante que se pavoneia no breve instante que lhe reserva a cena, para depois não ser mais ouvido”.

Outra coisa muito cara a Quentin, devido a influência do pai, é o tempo. Como fica claro em um dos meus trechos favoritos do livro, quando Quentin ganha de seu pai o relógio que foi de seu avô; “Dou-lhe este relógio não para que você se lembre do tempo, mas para que você possa esquecê-lo por um momento de vez em quando e não gaste todo seu fôlego tentando conquistá-lo. Porque jamais se ganha batalha alguma, ele disse. Nenhuma batalha sequer é lutada. O campo revela ao homem apenas sua própria loucura e desespero, e a vitória é uma ilusão de filósofos e néscios.’’

A terceira parte deste livro volta para 1928 e é narrado por Jason, um homem mesquinho, racista, ganancioso, misógino e amargurado, pois acredita que teve seu futuro prejudicado por decisões e caminhos seguidos por sua família. Apesar de ser um sujeito odioso Jason é muito direto, o que facilita bastante a compressão do que já foi lido através dos dois narradores anteriores. Aqui já não temos mais o fluxo de consciência, e sim, um monólogo interior. Aqui sabemos mais sobre Caddy. Pois essa personagem não tem voz na trama. Todos os traços de personalidade de Caddy chega até o leitor através dos dois primeiros narradores que amam a irmã, como também através de Jason que a odeia.

É importante advertir que o leitor encontrará bastante a repetição de nomes como: Jason ( pai ou filho?) O Quentin, A Quentin. Mas isso tudo será esclarecido conforme a leitura avançar, então, vá até o fim.

A quarta e última parte deste livro é a mais esclarecedora e a única narrada em terceira pessoa. Aqui o narrador se concentra mais em Dilsey, a empregada preta que cuidava da família incansavelmente. Aqui conhecemos mais sobre a fibra moral de Dilsey e demais questões sobre racismo que não podem passar despercebidas, como no trecho; ‘’…Os brancos morrem também. Tua vó morreu como qualquer negro’’.  Em uma entrevista na Univesp, a professora Munira Mutran, esclareceu que com os primeiros narradores o leitor poderia ter a dúvida sobre se eles são confiáveis, mentem? Então Faulkner usa um narrador onisciente para contar o fim de uma forma mais precisa.

Em 1946 o autor inseriu um apêndice no livro que esclarece a linhagem e o destino dos Compson. Além disso, na edição mais recente encontramos um ensaio de Jean-Paul Sartre, intitulado A temporalidade na obra de Faulkner, que é bem interessante.

Para finalizar destaco um trecho do discurso de Faulkner durante a recepção do Nobel de 1950; ‘’Nossa tragédia, hoje, é um geral e universal temor físico suportado há tanto tempo que podemos mesmo tocá-lo. Não há mais problemas do espírito. Há somente uma questão: quando irão me explodir? Por causa disto, o jovem ou a jovem que hoje escreve tem esquecido os problemas do coração humano em conflito consigo mesmo, os quais por si só fazem a boa literatura, uma vez que apenas sobre isso vale a pena escrever, apenas isso vale a angústia e o sofrimento’’.

* Lorena Queiroz é advogada, amante de literatura, devoradora compulsiva de livros e crítica literária oficial deste site.

Posia de agora: (Res)Piração- Jaci Rocha (sobre esperança)

(Res)Piração – Jaci Rocha

A chuva cai, vai pela esquina
O vento movimenta o espaço
Os prédios gemem
Formam traços
Alheios a quem passa.

A vida passa, pega o trem
Às vezes, perde a estação.
O tempo mói e a gente tenta
Segurar o instante na respiração!

Mas tudo vai,
A tarde cai,
Ávida por emoção…

A máquina das semeaduras
Ceifa tudo que já é passado
E, por outro lado
A seiva da esperança escorre sobre nós…

E, se há pedras debaixo dos pés,
Há sempre um maravilhoso céu
Onde um estranho pincel
Desenha um sorriso nas estrelas.

Jaci Rocha

Os motivos de eu escrever – Crônica de Elton Tavares #diadoescritor

Escrevo ao longo dos últimos 16 anos. Onze deles para o meu site, que já foi um blog, o De Rocha. Sempre tento me ater à verdade. Redigir textos onde dados e fatos me levam. Com exceção de sandices, devaneios e contos, que são escritos mágicos para mim. Pois ficção exercita a criatividade.

Um dia, há alguns anos, me perguntaram: “Elton, porque você perde tempo com esse papo de blog. Porque não faz algo útil com o tempo gasto nessa página de besteiras”. Neste instante, consegui evitar um surto psicótico e palavrões a esmo para o meu questionador.

Aí expliquei para o pateta porque escrevo. Escrevo porque amo a noite, futebol, samba, rock and roll, minha família, meus amigos e amo ser eu (com todos os defeitos e chatices), não necessariamente nesta ordem, claro. No meu caso, leituras alternativas tornam o dia menos tedioso. Principalmente quando tais escritos são sobre cultura em geral.

Gosto de usar um senso de humor cortante nos meus textos para este site, assim como muita nostalgia, sentimentalismo barato (que pra mim é caro), transformar relatos em memória da minha cidade, do meu estado. Vez ou outra, até fazer velhas piadas com novos idiotas, ser um tanto antipático, chato ou adorável encrenqueiro. E sempre amoroso com minhas pessoas do coração. Sim, gosto disso.

Certa vez, li a frase: “escrever não é desistir de falar, é empurrar o silêncio para fora”, do poeta Fabrício Carpinejar. É esse o papo mesmo; escrever é uma válvula de escape, vicia e extravasa.

Escrevo até sobre o que finjo que acredito. Sabe aquelas pequenas porções de ilusão e mentiras sinceras de que o Cazuza falou? Pois é. Às vezes, detritos do cotidiano, grandeza desprezada, coisas bobas que parecem socos na cara – é bem por aí.

Mas gosto muito mais de escrever sobre o amor, sobre atitudes legais, sobre manifestações públicas de afeto e sobre pessoas admiráveis. Falar ou escrever sobre positividade é tão melhor.

Antes redigia um texto ou mais por dia – e com muita facilidade. Agora, a falta de tempo e os períodos de entressafra de inspiração tornam os autorais mais raros. Quem dera fosse só querer e baixasse o espírito de Rui Barbosa, Charles Bukowski, Mário Quintana, Drummond ou do meu amigo Fernando Canto, e eu começasse a redigir como um gênio. Seria firmeza. Acreditem, um dia lançarei um livro de crônicas e contos.

Em tempo, escrevo para não deixar meus pensamentos parados. Queria poder escrever como Carlos Drummond de Andrade, que disse: “A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.”

Como não dá, sigo rabiscando minhas certezas, achismos, incertezas, chatices, amor, entre outro tantão de coisas que vivem neste meu universo particular que gosto de expor aqui. E fim de papo.

Elton Tavares

* Crônica republicada por conta de hoje ser o Dia do Escritor.
*Crônica do meu livro “Crônicas De Rocha – Sobre bênçãos e canalhices diárias”, que será lançado em 2020.

Hoje é o Dia Nacional do Escritor (minha homenagem aos confrades literatos) #diadoescritor

Hoje (25) é o Dia Nacional do Escritor. O conceito diz: Escritor é o artista que se expressa através da arte da escrita ou, tradicionalmente falando, da Literatura. É autor de livros publicados, embora existam escritores sem livros publicados (chamados, por alguns, de amadores, mas não para mim).

A data foi instituída em 1960 pelo então presidente da União Brasileira de Escritores (UBE), João Peregrino Júnior, e pelo seu vice-presidente, o célebre escritor Jorge Amado.

O Dia do Escritor, no Brasil, surgiu após a realização do I Festival do Escritor Brasileiro, iniciativa da UBE. O grande sucesso do evento foi primordial para que, por intermédio de um decreto governamental, a data fosse instituída com a finalidade de celebrar a importância do profissional da palavra escrita – profissão que, infelizmente, nem sempre tem sua relevância reconhecida.

Meus queridos amigos escritores Alcinéa e Fernando. Dois ícones. Foto: Flávio Cavalcante (que além de excelente fotógrafo, é escritor).

Hoje parabenizo os escritores que conheço e sou fã: Fernando Canto (para mim o melhor escritor do Amapá), o talentoso Paulo de Tarso, o genial Ronaldo Rodrigues,  a fantástica Alcinéa Cavalcante, a doce Angela Maria de Carvalho, os impressionantes Lara Utzig, Marven Junius Franklin, Flávio Cavalcante, Mauro Guilherme (em memória), Kassia Modesto, Áquila Almeida, Arilson Souza, Aline Monteiro, Gian Danton, Mayara La-Rocque, Tiago Quingosta, Luiz Jorge Ferreira, Renivaldo Costa, Maria Ester, Mary Rocha, Hernani Marinho, Mary Paes, Jô Araújo, Júlio Miragaia e Lulih Rojanski. Os poetas sensacionais Jaci Rocha, Pat Andrade, Annie de Carvalho, Bruno Muniz, Carla Nobre, os maravilhosos Poetas Azuis Pedro Stkls e Tiago Soeiro e o professor e poeta Carlos Nilson. Admiro muito todos vocês.

Também parabenizo grandes escritores amapaenses que não conheço pessoalmente, mas possuem grandes obras e contribuições expressivas para a literatura do nosso lugar no mundo. Deste grupo, em especial, o admirável Manoel Bispo, de quem sou fã, mas nunca troquei uma palavra. Minhas homenagens aos que viraram saudade há pouco tempo, como Gabriel García Márquez, João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e Ariano Suassuna.Também felicito os meus grandes e velhos amigos Victor Hugo, Mário Quintana, Fiódor Dostoiévski, José Saramago, Franz Kafka, Manuel Bandeira, Mário Prata, Machado de Assis, Luís Fernando Veríssimo, Charles Bukowski Friedrich Nietzsche, Carlos Drummond de Andrade, Nelson Rodrigues, entre outros tantos, que me ajudaram a melhorar a percepção das coisas.

Os exímios escritores, que com habilidade e criatividade usam as palavras e ajudaram a abrir cabeças e ensinaram pessoas a ler nas entrelinhas, são, como diz a minha amiga jornalista manauara Juçara Menezes, “máquinas pensantes para outros começarem a pensar”. De fato!

Quando perguntavam qual a minha profissão, dizia que “sou jornalista, assessor de comunicação e editor de um site. Mas que, um dia, gostaria de ser escritor”. Pois é, me tornei escritor e estou feliz com isso. Fiz a estreia na antologia “Cronistas na Linha do Equador”, lançada em maio do ano passado e também integro a obra “61 Cronistas do Amapá”, de junho de 2020. Sobre essas duas publicações, agradecimentos aos escritores Mauro Guilherme (saudoso amigo que fez a passagem há pouco tempo) e Alcinéa Cavalcante, querida amiga que sempre me apoia.

Também tenho um livro publicado, o “Crônicas De Rocha – Sobre bênçãos e canalhices diárias”,  lançado em 2020. Esse é especial, pois foi o primeiro de muitos que virão, se Deus permitir. Sobre esse, tenho muita gente a quem agradecer, mas em especial, os agradecimentos vão para o escritor Fernando Canto e sua esposa Sônia Canto, que fizeram a seleção de textos e prefácio; ao Ronaldo Rony, que ilustrou o livro e ao senador Randolfe Rodrigues, que foi fundamental na prublicação da obra.

Também já rodado, mas ainda não lançado, o meu segundo livro vem aí, o “Papos de Rocha & outras crônicas no meio do mundo”. Sobre esse falarei depois de lança-lo e agradecerei a todos os que ajudaram neste projeto.

Voltando à data celebrada hoje,  parabenizo ainda os jornalistas que escrevem crônicas e contos. A licença poética (da poesia marginal, claro) e liberdade de expressão me permitem dizer: o que vocês fazem é bom pra caralho!

Ah, aos que nunca conseguiram publicar seus livros, deixo o recado: continuem tentando, sempre!

Enfim, senhores escritores, meus parabéns por rabiscarem ou digitarem seus pontos de vista, histórias e estórias próprias ou de terceiros, causos, contos, devaneios, tudo com muita sagacidade, inteligência e humor. A nós, literatos imparáveis, desejo muita insPiração e um feliz Dia do Escritor.

Elton Tavares – Jornalista e escritor.

Poema de agora: Delonga – Lara Utzig (@cantigadeninar)

 


Delonga

taciturno
o controle de Saturno
se põe sobre a gente
e eu que sempre fui paciente
percebo a pressa
emergência submersa
que se tatua
na pele
nos olhares
nas mensagens
na urgência de ser tua

nos desencontros do destino
[esse nosso adversário]
esbarrei em ti tantas vezes
e acenei para seguir caminho
em outro itinerário
mas permanecia sempre olhando pra trás
e para o que eu havia deixado
[um amor que nunca se liquefaz]

eis minha sina
mística fase:
os dias que nos separam agora
são esses intervalos do quase
que tecem junto com a aurora
o senão
que é a certeza
do teu sim

não mais tardo:
em breve
chegarás como uma prece
pois eu, que sou filha do Tempo,
te aguardo
como quem espera um milagre

Lara Utzig

Poema de agora: Músicas que aperfeiçoam o coração (de Marcelo Guido para Nonato Leal)

Foto: Chico Terra

Músicas que aperfeiçoam o coração

Salve Nonato Leal.
Talvez, o mais emblemático músico deste estado.
Talvez, melodia em estado bruto.
Talvez, um mago das cordas.
Mas com certeza, um ser iluminado.

Como vinho enobrece com tempo.
Uma vida de alegrias e melodias.
Embaladas por cordas de um violão
Músicas que aperfeiçoam o coração.

Nonato Leal 94 anos. Vida longa ao grande mestre….

Marcelo Guido