Poema de agora: MUDEZ – Pat Andrade

MUDEZ

me faltam palavras
mesmo que o coração
fale aos berros
dentro do peito

minha boca se cala
ainda que meu corpo
grite e sinta o arrepio
em cada pelo

me falta a voz
ainda que o sentimento
se manifeste em mim
meio sem jeito

e sem conseguir
dizer o que quero
sigo assim muda
a te olhar pelo espelho

Pat Andrade

EquiNO/cio – A voz dos leitores – Por Fernando Canto

eu VENHO CINTILANTE e áspero calor eqüINO sobre o mundo ARAUTO que sou de um novo tempo desde a hora em que as ONDAS do Amazonas rebentaram o alúvio das encostas na primeira MANHÃ

eu VENHO CAVALGANTE no cerrado e nos estirões inebriado com o bramIDO das cachoeiras e com o ronco dos MACAréus CavALGO sim em banzeiros caudatários de uma pororoca enorme – estro sem fim – sacralizando vôos vindOUROs além desta procela que se instaura incompreensível no meu tempo

passará A VEZ do ÁZIMO pão posto bruto que agora é tempo de pousio da espera da nova fertilização da terra quando deveremos ARAR novas angústias e colher o juSTO fruto e descascá-lo e cortá-lo à lâMINA afiada na curva dos varadOUROs

(Canto, Fernando. EquinoCIO, Textuário do Meio do Mundo. Ed. Paka-Tatu. Belém-PA. 2004.)

Poema de agora: A POSE [em morte] – Marven Junius Franklin

A POSE [em morte]

um busto gótico
à esconder-se pudico
do olhar estrábico
do um público[estático]
um busto dúbio
à mostrar-se ambíguo
em flash mudo
cadavérico [em cântico]
oh, um busto!
à insinuar-se mórbido
em libido lógico
no pórtico [átrio]
em arroubo único [em pose]
em morte

Marven Junius Franklin

Poema de agora: Oito Ilhas – Aline Monteiro – @Alyne_Monteiro (Vídeo e voz de Áquila Almeida – @manudosertao)

OITO ILHAS

Não há luta entre margem e rio
Em doces encontros, água e encosta se beijam
navegam-se noite a dentro
Bailando as ilhas se reconstroem

Mas onde era campo cerrado hoje é rio
e seu gosto doce já não molha a sede das bocas
A boca já não canta novenas de santo

A cidade assoreada já não fala mais
assim que a maré subir…
A cidade já não vê a cidade.

Aline M. – Vídeo e voz de Áquila Almeida

Poeta Pat Andrade gira a roda da vida. Feliz aniversário, querida amiga!

A poeta Patrícia Andrade.

É onze de maio e Patrícia Andrade, a querida “Pat”, gira a roda da vida. A brilhante poeta chega aos 50 anos, mas nem parece. Tanto fisicamente, quanto espiritualmente. A bela e talentosa artista é uma livre pensadora e, como poucas pessoas que conheço, deu uma guinada em sua vida. Para melhor, claro. Por ser seu dia, hoje rendo homenagens à essa mulher sensacional.

Conheci Patrícia Andrade há 22 anos, quando ela desembarcou aqui, no meio do mundo, vinda de Belém (PA), em 1999. Safa, descolada e sem estar ideologicamente presa a nada, Pat se tornou rapidamente “chegada” de todos nós, os malucos da cidade. Logo virou broda de intelectuais, militantes culturais e, é claro, poetas e escritores. A menina sempre se distinguiu por ser inteligente e despudoradamente franca. Aliás, poesia é uma arte que essa linda domina. Patrícia é senhora do ofício de poetizar.

Pat Andrade, há 20 anos, nos saraus de Macapá

Cheia de papos legais e dona de vasta cultura geral, Patinha é uma mulher cheia de poesia, histórias hilárias, outras nem tanto, e uma trajetória bacana no cenário cultural de Macapá. Além de poeta, trata-se de uma multi-artista, pois ela também se garante nas artes plásticas, escritora/cronista, discotequeira (Vinil-DJ) e produtora de vídeo e ativista cultural. Pat, inclusive, foi uma das fundadoras do movimento do vinil na Floriano e em outros locais desta cidade cortada pela Linha do Equador. Também é figura presente em saraus ou qualquer manifestação cultural e de defesa de direitos da sociedade.

Eu vi o Artur gitinho e já é esse cara aí ao lado da mãe. O moleque é talentoso também. Gente querida!

O tempo passou, eu virei um velho gordo e a poupança Bamerindus levou o farelo. A Pat namorou, casou, se tornou mãe do querido Artur, trampou e pirou. Tudo com intensidade, paixão, sás coisas legais que gente como ela faz e acho muito firme, pois sou assim também.

O mais legal é que, nos últimos três anos, Patrícia e eu nos reaproximamos. Ela virou a poeta que mais contribui com este site e minha parceira de trampo. Patrícia colabora para este site, onde assina a sessão “Caleidoscópio de Pat Andrade”. Além de broda para papos bacanas e desabafos, que todos precisamos.

Pat e o marido, Marcelo Abreu.

Outra coisa porreta sobre Andrade é que ela se reinventou, começou a cuidar da saúde física e mental. Essa virada de chave é algo lindo de constatar. Hoje, casada com o também poeta Marcelo Abreu, a amiga vive feliz, com seu esposo e filho. Como diria Raulzito, ela não quer mais andar na contramão. Sempre vejo a querida postar em suas redes sociais fotos de atividades físicas, entre outras coisas bacanas e penso: será que um dia eu conseguirei? Enfim, se ela tá feliz, eu tô feliz.

Calistenia matutina de Pat e seus amores.

Pat também cursa Letras na Universidade Estadual do Amapá (Ueap), mas poderia dar aula, de tanta sintonia que tem com as palavras e com a língua portuguesa. A obra poética de Patrícia Andrade é resultante de uma mistura de vivências, amores, dores, tudo em tom de confissão.

A poesia de Pat Andrade é um passeio emocional entre as esquinas da arte e da vida, quando sentam para conversar. Há o ritmo do Equador e uma ternura própria, em suas linhas. Além de tudo dito e escrito, a Patrícia é uma pessoa que sei que posso contar. Amigos assim são bem raros. Ela é Phoda! E eu a amo como uma irmã.

Eu e Pat Andrade. Brodagem!

Patrícia, minha querida, que teu novo ciclo seja ainda mais produtivo, saudável, rentável e que tudo que couber no seu conceito de felicidade se realize. E que tua vida seja longa, por pelo menos mais uns 50 maios. Apesar destes tempos cinzas de pandemia que vivemos, hoje é um dia feliz pelo teu ano novo particular e tu mereces todo o amor que houver nessa vida. Parabéns pelo teu dia e feliz aniversário.

Elton Tavares

Poema de agora: Restauração – Patrícia Andrade

Restauração

nas noites insones
o olho arde e grita
a dor antiga

[violência instituída]

não há polícia que a contenha
não há Estado que a evite

na memória do corpo
a marca profunda
o abuso inconcebível

[irremediável ferida]

não há xarope que cure
não há pomada que cicatrize

mas é carne dura; resiste
constrói pontes interiores
pra vencer os abismos
rasgados pelo tempo

[vai sorrindo seu riso triste]

recolhe estilhaços
procura conserto
pro coração aos pedaços

[acredita que é possível
colar os cacos]

esbarra no limite da vida
chega ao limiar da morte
mas ainda persiste

sabe que nada sai de graça
e se refaz bem devagar

usa amor como argamassa

Patrícia Andrade

Poema de agora: BEM QUERER – Pat Andrade (para sua mãe, Assunção Andrade)

Patrícia e Assunção. Amor de mãe e filha.

BEM QUERER

quero derramar
poesia no teu cotidiano
declamar meu amor

quero dar cor às palavras
pra alegrar teu canto
e secar teu pranto

quero capturar raios de sol
que te iluminem
os dias cinzentos

quero movimentar os ventos
pra soprar as tuas dores
para onde não te alcancem

quero te oferecer
jardins etéreos
te desenhar mil flores

quero te fazer sorrir
te fazer sonhar
com dias melhores

quero que toda a palavra
nos sirva para fazer o bem
pra ti e pra mim também

Pat Andrade, para sua mãe, Assunção Andrade.

Eu e minha mãe – Crônica linda de Lulih Rojanski

Aí estamos, eu e minha mãe, numa tarde de um desses invernos passados em que todos diziam que o mundo ia acabar. Antes de sair, desliguei a TV, onde o jornal exibia a profecia, escrevi um texto de boas vindas ao apocalipse, vesti meu vestido mais vistoso para uma tarde de sábado e fui para a praça ver a vida passar. Sentei num banco, minha mãe se sentou comigo, segurou minha mão e me disse para confiar. Foi nessa tarde que meu velho mundo acabou. E sobre suas cinzas foi possível plantar o novo, com tudo o que hoje me faz feliz. Pela pieguice dessas palavras, eu me perdoo. Quanto à presença de minha mãe comigo, há quem a veja, há quem não. É preciso que se olhe com a delicadeza com que se deve olhar para os anjos.

Lulih Rojanski – Escritora

Poema de agora: SOBRE AUSÊNCIAS – Pat Andrade

SOBRE AUSÊNCIAS

esses silêncios
insondáveis
esses hiatos
impenetráveis
te levam
pra longe de mim

essas curtas
ausências
essas pequenas
distâncias
me dão a medida
da tua existência

me desconcertam
me desconcentram
me deixam no vácuo
do sentimento

me arrasto pra ti
a passos lentos
me arrisco
em teus precipícios
e reinicio
o movimento

sem cansaço
liberto o brado

ecoo nesse vazio
ilimitado

PAT ANDRADE

Não deu pra escrever algo legal. Então vamos beber! – Crônica de Elton Tavares (ilustrada por Ronaldo Rony)

Crônica de Elton Tavares

Mesmo que minha vontade grite em meus ouvidos: “escreva, escreva”, a força criativa não estava muito inventiva na sexta-feira. Mesmo assim, resolvi tentar atender tais sussurros.

Você, meu caro leitor, sabe que gosto de devanear/ “cronicar” sobre tudo. Escrevo sobre o que dá na telha e tals. Só que hoje não. Pensei em escrever uma lista de clássicos do Rock and Roll, shows das grandes bandas que assisti, uma lista de meus filmes preferidos; quem sabe redigir sobre futebol (pênalti perdido pelo Roberto Baggio em 1994, que me fez beber pra cacete), carnaval, amor (amor?) ou política, mas apesar da inquietação, nada flui. É, tudo pareceu tão óbvio, repetitivo e desinteressante este momento. Foda!

Quem dera ser um grande contista ou cronista. Ser escritor, de verdade, deve ser legal. Não falo de “pitacos” e devaneios em um site – sem nenhum tipo de ironia barata. E sim de caras que possuem livros publicados, bibliotecas na cabeça, bagagem cultural e não pseudo-enciclopédias, que só leram passagens ou escutaram fulanos contarem sobre obras literárias lidas. Talvez, um dia, eu chegue lá. Quem sabe?

Mesmo que seja sobre uma bobagem, precisa-se de merda engraçada, porreta de se ler. Às vezes escrevo assim, de qualquer jeito. Por que? Dá muito trabalho contar uma história ou estória de forma bem escrita, oras. Quem dera pensar: agora vou me “Drummonizar” e voilà: escrever um “textaço”. Não, não é assim. Já ri muito de alguns velhos posts pirentos por conta disso.

Por fim, vos digo: textos ruins parecem cerveja quente em copo de plástico, ou seja, não rola. Já uma boa crônica parece mais uma daquelas cervas véu de noiva de garrafas enevoadas, na taça, claro.

E já que não deu pra escrever algo caralhento, vamos beber, pois é sábado! Bom final de semana pra todos nós!

Acho que a gente devia encher a cara hoje, depois a gente fala mal dos inúteis que se acham super importantes” – Charles Bukowski

Quando eu me encontrar – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Na minha vida de admirador de pessoas dignas de admiração, não existe a vontade de ser fotografado ao lado de algum famoso, embora eu admire algumas pessoas famosas. Comigo, é tietagem zero. Portanto, nada de selfie com estranhos. Tudo bem que eu goste do personagem, reconheço seu talento, mas não é meu amigo e só faço selfie com amigos. Tem exceção? Sim, tem. Eu não veria problema algum se a Marta e a Megan Rapinoe, expoentes do futebol brasileiro e estadunidense, me deixassem fazer pose entre as duas. O Zé do Caixão, se vivo fosse e passasse por mim, poderia ser convidado para um registro. Chico Buarque? Arnaldo Antunes? Quem sabe…

Me especializei em esnobar celebridades. Se eu, por algum acaso, me vejo no mesmo ambiente que alguém desse patamar (na maioria das vezes, são subcelebridades ou nem isso), fico na minha e, se ele quiser, vai ser obrigado a vir falar comigo (nãããããooo! Mais chato logo! rsrsrsrs). Influenciadores digitais? Passo longe disso. Também não faço qualquer esforço para ver meus ídolos de perto. Ídolos? Logo eu, que vim ao mundo para destruir ídolos? Sim, sou um iconoclasta, mas livro a cara de algumas pessoas que brilham e que me parecem legais também fora de suas atividades.

Minha memória me trai e acaba de me lembrar de uma atitude típica de um ardoroso tiete. Foi num show do Beto Guedes, quando ainda morava em Belém (eu morava em Belém, não o Beto Guedes). Aconteceu no ginásio da Escola Superior de Educação Física, que nos anos 1980 era point certeiro de shows nacionais. Eis-me na primeira fila, a do gargarejo, como dizem. Minha intenção era absorver no meu peito uma gota de saliva que caísse da boca daquele mineiro tímido. Outra lembrança que me vem foi a minha total loucura cannábico-alcoólica num show do Belchior, na Universidade Federal do Pará, em que eu enfiava minha cabeça nos alto-falantes para ouvir com toda a potência a voz cearense com sotaque mundial que vinha daquele bardo conturbado.

Então fico aqui pensando: e se eu me deparasse com algumas pessoas que povoam os noticiários? Como seria? Não custa imaginar, e aqui cabem vivos e os sempre vivos (os que já se foram, mas permanecem na memória). Eis alguns:

– Quando eu me encontrar com Muhammad Ali direi que ele é um grande exemplo de ser humano.

– Quando eu me encontrar com Zico direi que ele é o meu ídolo no futebol e, quem sabe, em todos os esportes.

– Quando eu me encontrar com Elke Maravilha direi que ela é foda.

– Quando eu me encontrar com Caetano Veloso direi que ele é um artista que muito me inspira.

– Quando eu me encontrar com Tostão direi que ele vale milhões.

– Quando eu me encontrar com Walter Franco direi que nessa cabeça tem tutano.

– Quando eu me encontrar com Pelé direi que ele é um gênio dentro das quatro linhas e um tremendo perna-de-pau fora de campo.

– Quando eu me encontrar com Charles Bukowski direi que, em alguns momentos, ele poderia ter pegado menos pesado.

– Quando eu me encontrar com Carlos Drummond de Andrade talvez não diga nada, mas, se conseguir, direi que ele é o poeta da minha vida e que no meio do meu caminho tinha um poeta e esse poeta fez o caminho ficar bem mais interessante.

– Quando eu me encontrar com Henfil direi que tento seguir certos aspectos de seu estilo.

– Quando eu me encontrar com Mário Quintana sei lá o que direi.

– Quando eu me encontrar com Tom Zé ficarei só ouvindo.

– Quando eu me encontrar com Bob Marley pedirei uma peruana (entendedores entenderão).

Poema de agora: Kurimãtã – Luiz Jorge Ferreira

Peixes com grafismos indígenas – Imagem Maisi Garcia

Kurimãtã

Estou como Rita Lee.
Vestido de índio deitado na grama do quintal sem sol e sem sal engravidando os Horizontes.
Jogando cartas com as formigas, afogando Pirilampos na cicatriz do meu umbigo repleto de suor, olhando as unhas dos pés crescerem milímetros por Século, assoviando Ravel.
Sobrevivo absorto olhando aos céus para flagrar Deus acordando.

Estou do outro lado da vida.
O lado do avesso… depois do Arco Íris, que trago cristalizado na retina.
Ontem pedi ao dia que não corresse tão rápido como um Negro Corcel.
Implorei as Borboletas que não ousassem trocar suas cores por neons pálidos.
Ouvi trovões e raios, mas só me enamorei do rio, se alimentando da chuva vespertina que deliciosamente sufoca as maçãs.

Índio morador da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru toma banho no Rio Jari com seu papagaio. Foto: Victor Moriyama

Sou um velho índio pescador de nuvens e semeador de lembranças
no qual as Primaveras ruidosamente, cicatrizaram vidas.

Luiz Jorge Ferreira

 

Poema de agora: A greve dos motores assalariados – @juliomiragaia

A greve dos motores assalariados

A cidade para
Se os motores dormem
E os motores dormem
Se a jornada é podre
E se a jornada é podre
E o salário é pouco
A cidade para
E o trabalho quebra
Se o salário é rouco
E se a jornada aperta
O transporte greva
E o transporte é caro
E a lotação aperta
E o motor abafa
A chuva que não molha
O salário some
No transporte-merda
No lucro luso-podre
Na mais-valia aberta

Júlio Miragaia

*Poema do livro “O estrangeiro de pedras e ventos”, sobre a greve dos rodoviários de Ananindeua Marituba, em 2011.