“Uma Noite Me Namora”, livro da poeta Pat Andrade está disponível para aquisição em versão virtual. Compre e incentive a cultura local!

A poetisa, escritora e colaboradora deste site, que assina a sessão “Caleidoscópio da Pat”, Patrícia Andrade, lançou uma versão virtual de seu 24º livro de poemas. A obra, denominada “Uma Noite Me Namora”, nesse formato, ganhou a ilustre participação do também poeta Pedro Stlks, que assina a arte do livro. A publicação contém 16 poemas da brilhante mestra da arte poética.

A iniciativa de Patrícia Andrade visa arrecadar recursos financeiros nessa época de isolamento social, por conta da epidemia de coronavírus.

Há 21 anos em Macapá, a poetisa paraense escreve belos poemas, declama e edita seus livros. Ela sempre comercializa suas obras em eventos culturais bares e da capital amapaense, o que não é possível nestes tempos de Covid-19.

Sempre compro e recomendo o trabalho de Pat Andrade, de quem sou fã e tenho a honra de ser também amigo. Aliás, já tenho o meu “Uma Noite Me Namora”. Corre, fala com a Pat, e adquire o teu exemplar virtual. A cultura agradece.

Serviço:

“Uma Noite Me Namora”, de Pat Andrade, em formato virtual
São 16 poemas . A publicação tem arte de Pedro Stlks
Pague o quanto puder e compre o seu.
(96)99188-6565 (W’app – Patrícia Andrade)

Elton Tavares

O SALto mortal do peixE engAsgaDOR – Conto de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

Todos riam sem acreditar na história que eu contava. Aí, eu tirava logo da carteira um amarelo recorte de jornal e mostrava a eles que não era mentiroso. Ainda comentava que o jornal concorrente publicara àquele dia o fato, a foto e a desgraça de um cara muito azarado que morrera de má sorte entalado por um peixe.

O pescador infortunado Natan Coelho de Tal saiu com mais dois amigos numa pequena canoa no Furo do Maguari para pescar douradas e garantir o alimento da prole faminta e doente. Aproveitaram a lua cheia para tomar umas pingas enquanto os peixes brincavam com caruanas loirinhos ali no fundo do rio.

Natan Coelho de Tal, o primeiro a se embriagar, deitou-se na canoa ressonando seu cansaço de trabalhador e pai, bocejando a toda hora com a face para o luar, sem esperar a desdita que o rio ali lhe ofertava.

Foi então, bem de repente, que um peixe prateado pulou de dentro d’água e se alojou na garganta do pescador desgraçado. Ele acordou-se sofrendo, mas nenhum dos seus amigos entendeu o que se passava.

Só depois de muito tempo quando o sangue do infeliz fugia pelos buracos é que foram compreender o que havia acontecido. Então levaram Natan para um hospital da cidade, em vão, porque no caminho o pescador já era morto. Mortinho como o tal peixe que numa noite enluarada morreu por falta de ar.

*Do livro “Equino CIO – Textuário do meio do Mundo”. Ed. Paka-Tatu, Belém, 2004.

O tempo de uma fotografia (Rubem Braga)

Eu, na época que estudava no Santa Bartolomea – 1984

Não era nem ontem, e nós éramos um rostinho inocente posando para um retrato escolar. Olhinhos apertados, espertos, ávidos por ver a vida crescer. Crescemos nós. Já no mundo adulto, aquela foto da escola perdeu-se em alguma caixa parda que guarda fotografias do tempo em que elas eram reveladas. Eram aguardadas no suspense de seu conteúdo. Havia prazer em esperar. Fala-se disso:

_ As fotos ficaram boas? _ Vem aqui em casa pra ver!. Diálogos dos século passado.

O mundo adulto, hoje, é cheio de pressa. Nem bem viveu-se algo, e esse algo já foi postado em alguma rede. Desfruta de uns segundos de visibilidade, para depois perder-se, em memórias cibernéticas.

Eu, o único moleque de bermuda, estou de joelhos. Escola Santa Bartolomea Capitânio. Foto de 1985. Há 35 anos

Será que as crianças de hoje ainda tiram fotos do tipo grupinho escolar? Todas as carinhas reunidas, professora do lado, e um fotógrafo gorducho mandando fazer xis.Não há muito tempo para esperas e aguardos.

Hoje, é tudo para hoje. Será que no meio de tanta aceleração, dá tempo de se perguntar onde estarão aqueles meninos e meninas do nosso retrato escolar? Caminhos que nos engolem enquanto tentamos acrescentar alguns minutos à mais nas nossas horas corridas, e lá se foram os nossos primeiros melhores amigos.

Rubem Braga

Se vivo, Renato Russo faria 60 anos hoje. Viva o maior poeta do Rock brasileiro!

Renato Manfredini Júnior não foi só mais um carioca que cresceu em Brasília (DF). Renato Manfredini Júnior nasceu em 27 de março de 1960 no Rio de Janeiro. Ele viveu parte da infância com a família em Nova York e, aos 13 anos, se mudou para Brasília. O cara foi um cantor e compositor sem igual. Liderou a Legião Urbana (composta por ele, Marcelo Bonfá, Dado Villa Lobos e Renato Rocha) e obteve um enorme sucesso de público e crítica. Se estivesse vivo, hoje o maior poeta do Rock brasileiro faria 60 anos.

A Legião foi e sempre será a maior de todas as bandas deste país. Eles venderam 20 milhões de discos durante a carreira, mais de uma década após a morte de Renato Russo, a banda ainda apresenta vendagens expressivas. O som dos caras me remete ao passado, à situações, pessoas, alegrias e perrengues; enfim, foi a trilha sonora da adolescência de minha geração. Renato foi genial, sereno e místico. Um melancólico poeta românico, quase piegas, mas visceral. Era capaz de compor canções doces, musicar a história cinematográfica do tal João do Santo Cristo, cantada na poesia pós-punk de cordel (159 versos e quase 10 minutos) intitulada Faroeste Caboclo ou melhorar Camões (desculpem a blasfêmia lírica), como em Monte Castelo.

Como disse meu sábio amigo Silvio Neto: “Renato Russo foi Poeta pós-punk, de toda uma Geração Coca-Cola. Intelectual, bissexual assumido desde os 18 anos de idade, ele foi uma espécie de Jim Morrison brasileiro, não pela sua beleza física, mas pela consistência de suas letras que poderiam muito bem ter sido publicadas em livro sem a necessidade de ser musicadas”. Cirúrgico!

Em 11 de outubro de 1996, Renato Russo morreu, vitimado pela Aids. E como ele mesmo dizia: “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”, pois o para sempre não dura muito tempo. A Legião Urbana acabou oficialmente no dia 22 de outubro de 1996 e reuniu-se novamente 20 anos depois, em 2016, com outro vocalista e saiu em turnê pelo Brasil. Mas essa é outra história.

A força e universalidade das composições de Renato emocionaram toda uma geração e continuam mexendo com a gente. Acho que será sempre assim. Não sei o que Renato teria feito se tivesse mais tempo, mas com o pouco tempo que teve, fez muito. Fez demais pela música e arte nacional. O artista foi um dos nossos heróis (ainda tem quem não goste ou reconheça, mas paciência). Pena que o futuro não será mais como foi antigamente. Por tudo isso e muito mais, hoje homenageio Russo, que se eternizou pela sua música, poesia e atitude.

Valeu, Renato. Força sempre!

Elton Tavares

Cultura amapaense pela internet: hoje começa o Festival On-Line “FicaDiBubuia”

Nesta quinta-feira (26), a partir das 16h50, começa o Festival On-Line “FicaDiBubuia”. Promovido pela produtora Duas Telas, o festival é totalmente independente e conta com artistas voluntários, sem nenhum tipo de remuneração.

A ideia é quebrar a sensação de distância gerada pelo isolamento comunitário por conta da prevenção ao coronavírus (Covid-19), e promover cultura por meio da internet, além de manter vivo o espírito criativo dos artistas locais. De 26 a 29 de março serão dezenas de apresentações ao vivo.

O Festival Cultural On Line será transmitido pelo perfil da Duas Telas na rede social @duastelasproducoesap, onde rolarão shows musicais e performances em formato pocket. Qualquer pessoa poderá acompanhar as programações e interagir com o evento e artistas.

Hoje, a abertiura do Festival On-Line “FicaDiBubuia contará com as apresentações de Poetas Azuis, Joãozinho Gomes, Alan Yared, Enrico Di Miceli, Cley Lunna, Colibris, Roniel Aires, Nani Rodrigues, Laura do Marabaiaxo, Naldo Maranhão, Malabarista Flor, Grupo Guá, Rambolde Campos, João Amorim e Quarteto Casa Nova.

O festival cultural on-line é uma alternativa de entretenimento na quarentena. Uma maneira de estarmos juntos, conectados em uma corrente de empatia.

Sobre a expressão “dibubuia”

A expressão Bubuia vem do nosso “caboclês”, virou gíria popular, e é uma forma gentil de pedir: fica de boa, fica tranquilo, fica aí parado. É desse jeito jeito que pedimos a todos que fiquem em casa para segurança dos mais vulneráveis…

Então é isso. Vamos combater essa batalha com o melhor que podemos dar, com nosso amor pela cultura e pela responsabilidade de doar o que temos de mais precioso em nosso fazer diário: Nossa produção artística! POR FAVOR FICA EM CASA! #FicaDiBubuia … Não fica mufino! Espia nossa programação! #producao #arte #bubuia #musica #literatura #poesia #artista #amazonia #norte #corona #quarentena #amapa #macapa

E o melhor: é de graça! Assista e prestigie!

Patrícia Andrade e Elton Tavares

D. Aristides e a terapia de Deus – Por Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

Quando o Santo Padre visitou o Brasil, em julho de 1980, esteve também no Pará. João Paulo II foi a Belém para ver os hansenianos da Colônia de Marituba, onde seu amigo, D. Aristides Piróvano, há pouco mais de dois anos, desenvolveu um extraordinário trabalho de amor e dedicação ao próximo.

Aristides Piróvano era ligado ao PIME – Pontifício Instituto das Missões Estrangeiras – órgão que tem missões espalhadas em vários países do mundo. Depois de deixar o cargo de Superior Geral daquele instituto, optou servir no Brasil: “Quando consegui passar o encargo para outro, eleito e aprovado pela Santa Sé, como bispo, tive o direito de escolher – aposentar-me ou optar por serviço à minha escolha. Decidi voltar ao Brasil e vir para Marituba.”

O trabalho que D. Aristides desenvolveu na Colônia de Marituba (23 km. de Belém) foi praticamente a continuação de uma série de esforços empreendidos no decorrer de uma vida eclesiástica. Alto, magro, barbas longas e brancas, de um falar agradável e quase sem sotaque, bastante dinâmico no seu trabalho, o bispo dizia que uma de suas principais metas na Colônia era “ser amigo de todos”, em virtude de ali existirem pessoas de várias religiões.

D. Aristides Piróvano trabalhou no sentido de proporcionar aos internos a oportunidade de sair da Colônia e juntarem-se às suas famílias, através do aprendizado de uma profissão. “Minha tarefa é terrível. Começo às cinco e meia da manhã e termino geralmente às onze da noite. Não tenho mais um minuto de tempo.”

Como primeiro Prelado em Macapá, D. Aristides e seu grupo conseguiram construir escolas e prédios e ainda prestar assistência até o interior para os mais necessitados. Para o clérigo, Macapá representava uma grande família, com algumas divergências, mas depois tudo voltava a seu devido lugar. D. Aristides chegou a comentar o Marabaixo, confessando-se muito amigo de Julião Ramos, porém arrematou: “Folclore é folclore, religião é coisa séria e não podemos misturar as coisas. A Igreja não é contrária à diversão do povo, mas não se pode misturar a água benta com o diabo”.

Dessa forma, lembrou ele da proibição feita aos negros, que antes dançavam o Marabaixo dentro da Igreja-Matriz, por ocasião da Festa do Divino Espírito Santo: “Reclamávamos desse folclore que depois acabava sempre com festa, sempre com orgias, principalmente no interior. Quando você voltava lá, no ano seguinte, tinha filhos para batizar daquela festa”(risos).

*Texto dos anos 80.
* Dom Aristide Pirovano morreu em 3 de fevereiro de 1997. Ele foi o segundo bispo prelado da Diocese de Macapá.
Fotos encontradas no Blog Porta Retrato, PIME Amapá e Tribuna Amapaense. 

A Fortaleza de São José de Macapá e as cartas dos construtores – Resgate histórico de Fernando Canto

Foto: Manoel Raimundo Fonseca

Por Fernando Canto

Os fogos que cruzaram os céus de Macapá para comemorar os 238 anos da Fortaleza, na véspera do equinócio das águas, foram poucos diante da grandeza e importância que ela tem para o povo do Amapá.

A Fortaleza de São José é produto de múltiplas temporalidades, percepções e apropriações, mormente na sua condição de monumento tombado, protegido por Leis que fizeram a frente da cidade de Macapá tomar outro rumo na construção de seu espaço urbano nos últimos anos.

A essas transformações, onde se emolduram concepções distintas de espaços públicos, imagens e intervenções urbanas eficazes ou não, públicas ou particulares, também estão presentes, indubitavelmente, o olhar artístico, o discurso ufanista e político, a mídia direcionada, a observação crítica e todas as tensões desafiadoras dos conceitos constitutivos e questionamentos que requerem a significação desse monumento tão importante para a vida da cidade de Macapá.

Aliás, a Fortaleza de São José é a gênese da cidade de Macapá. Mesmo que a vila tenha surgido antes, possivelmente ela não sobreviveria como tal sem as obras, as alteridades e as transformações que ao longo do tempo a Fortaleza enfrentou.

Durante a sua construção, as cartas e relatórios emitidos pelos seus construtores tornam-se peças literárias de valor, não apenas pelo que indicam sobre a obra em si, mas pelos aspectos inerentes aos comportamentos sócio-ambientais de homens e mulheres que se tornaram rudes pelas circunstâncias, individualistas pelas necessidades e até sentimentais diante das injustiças e violências experimentadas naquele período. Esses documentos falam de saudade da família, de pedidos de promoções, de lista dos remédios mais usados para tentar sanar as doenças, e também das preocupações com detalhes de figuras e medidas de pedra “que sobre a porta principal da Fortaleza deve conter uma daquelas inscrições que em semelhantes monumentos passam à memória de seus fundadores aos séculos futuros” (Carta de Gallúcio, Códice 200, doc. 07. De 10.07.1769 – APP).

Foto: Mateus Brito

Nessas cartas, notadamente Henrique Gallúcio, Henrique João Wilkens, João Geraldo de Gronfelds e Lobo da Almada (todos eles diretores da fortificação em construção), mostram-se homens cultos. Gallúcio, por exemplo, cita versos latinos da Eneida, de Virgílio, em epígrafes de suas epístolas; assiste a eclipses do sol e da lua e informa que recebeu instrumentos de astronomia. Eles são invariavelmente vítimas de intrigas e doenças tropicais e nas suas demandas mostram-se subservientes até ao extremo na sua lealdade ao general governador e ao soberano. Uns como Gallúcio e Gronfelds são estrangeiros e, mesmo pertencendo ao Exército Português, são alvos de discriminações. Gallúcio faleceu e foi substituído por Wilkens, e este por Gronfelds. Mais tarde Wilkens foi transferido para a Província do Rio Negro e ali escreveu a “Muhuraida”, o primeiro poema épico da Amazônia.

Foto: Manoel Raimundo Fonseca

Cremos que a história da Amazônia se mescla no seu sentido interpretativo a uma literatura real, feita de sangue e ossos, do testemunho relatorial e missivista dos que por aqui passaram, independentemente do seu intento de “fazer literatura”. O que escrevem confunde-se com o discurso ideológico-iluminista da época pombalina e reflete a experiência hegemônica dos conquistadores que a ferro e fogo construíram a Fortaleza de Macapá. Tais textos também podem ser vistos como elementos literários de grande valor, para além de meros relatórios que detalham cada passo da construção daquele edifício. Trata-se, portanto, de textos que contam uma epopéia amazônica, onde cada carta é um longo verso heroico. Ou uma pedra de cantaria na construção dessa memória.

*Do livro “Literatura das Pedras: a Fortaleza de São José de Macapá como lócus das Identidades Amapaenses”.

Barca das Letras de 2020, que acontecerá de 22 a 25 de março, contará com apresentações do “Tio Nescal”

Vem aí a primeira Barca Das Letras de 2020. O voluntário Fabio Nescal estará nesta edição, que acontecerá de 22 a 25 de março, nos municípios de Macapá e Santana no Estado do Amapá e em Afuá/PA. A ação visa incentivar a leitura, as artes, a cultura viva comunitária, o voluntariado e alegrias nos corações de crianças de periferias e rios do Amapá e Pará!

Fabio Nescal é Contador de Histórias, Arte-Educador, ator, escritor, recreador. Nascido em Macapá(AP) é amante da leitura desde criança. Licenciado em Pedagogia, faz parte da Divisão de Recursos Didáticos-DIRED da Secretaria Municipal de Educação de Macapá, que desenvolve o trabalho de incentivo à leitura para os alunos da Educação Infantil e Ensino Fundamental, além de ministrar oficinas e palestras aos professores (Formação Continuada). Tio Nescal também é Animador de festas infantis, fazendo parte do grupo ‘Tio Nescal e Banda’ que percorre os municípios dos Estados do Amapá e Pará realizando shows infantis em datas comemorativas(Carnaval, Páscoa, Natal etc). Fabio Nescal já participou de 3 coletâneas literárias. Conheceu a Barca das Letras por meio das redes sociais e, a partir de então, surgiu o imenso desejo de contribuir com o projeto.

Vem com a gente espalhar o amor, livros, gibis e poesias!

Conheça mais em http://santanadoamapa.blogspot.com/2018/01/tio-nescal-um-poeta-um-animador-um.html?m=1

✅Facebook: Nescal Animações/Fabio Nescal
✅Fanpage: Tio Nescal e banda
✅Whatsapp: (96) 991663817
✅Iinstagram. @tio_nescal

Doe livros e gibis:
61 98355 7232 – Jonas Banhos
[email protected]
barcadasletras.blogspot.com

A SORVETEIRA DE AMARELO – Crônica de Rui Guilherme

Crônica de Rui Guilherme

Cor que se destaca no pincel furioso de Vincent van Gogh é o amarelo. Aparece nos girassóis, nos trigais batidos de vento, no autorretrato com chapéu de feltro, na casa amarela.

Ninguém desconhece que o negro é a ausência de cor; o branco, a fusão de todas elas; o azul, o vermelho e o amarelo são as cores base, aquelas que dão origem aos demais matizes. Por exemplo, junte ao amarelo o azul, e terá o verde; o vermelho, e terá o laranja; o azul ao vermelho, o roxo; o vermelho, o azul e o amarelo, o marrom. Juntando o branco às cores fundamentais e seus tons intercambiantes, estes ficarão mais claros; juntando o preto, ficam mais escuros; e assim vai.

Ora, bem. Saindo do espectro de Newton, voltemos a van Gogh; e do genial holandês, vamos, neste fim de tarde luminoso do equador, sob um cintilante céu anil, para uma esquina da rua Padre Júlio Maria Lombaerd, em Macapá. Movimentadíssima em dias úteis, naquele fim da tarde de sábado, o comércio fechado, apenas um persistente comerciante permanece sentado à porta de seu estabelecimento. Sentado em uma grade vazia de cerveja, a camisa aberta a exibir impudente barrigão, colocou um CD de brega no som que mantém a seu lado: aumentou exageradamente o volume do equipamento (ora, bolas! Não tem ninguém na rua para reclamar!); aproveita a brisa e sorve a goles generosos a cerveja da latinha.

Homem prevenido, tem à mão um isopor cheio de louras geladas, gostosamente refrescantes. – “Ora, bolas!”, volta meu comerciante a refletir. – “A mulher, esta hora, não deve estar em casa. O filho já saiu com a turma dele. Minha filha achou de casar, e não dá sinal de querer voltar da lua de mel no nordeste… Que diabos vou fazer em casa sozinho?” Filosoficamente, aumenta mais um pouquinho o brega e cata mais uma birra estupidamente gelada no isopor, olhando-a amorosamente. Leva-a à boca. O gole é quase um ultraje público ao pudor.

Pouco mais adiante, Vincent Willem van Gogh surge em todo seu esplendor diante de meus olhos. É uma vendedora de sorvete. O carrinho é amarelo berrante; da mesma cor, o enorme guarda-sol. Amarelo vangoguiano é o uniforme da moça, como falsamente louros são seus longos, lisos e amarelos cabelos, soprados com doçura pela brisa do entardecer.

Ela está sentada em um banquinho de plástico (amarelo, da cor do carrinho, precisa dizer?). Dirige-me, esperançosa, seu olhar gateado, na esperança de que lhe compre ao menos um sorvete. Mas eu não estava lá movido pelo desejo de tomar nada gelado. Perguntei-lhe sobre um feirante que faz ponto naquela esquina, de quem eu queria comprar um banquinho de macacaúba. A pintura de van Gogh olhou-me como se eu fosse um alienígena. Devia estar se perguntando o que é que este idiota vem fazer aqui neste fim de tarde em que não tem ninguém na rua, se ela mesma estava ali de teimosa e apenas para não perder o emprego: só estava autorizada a empurrar o carrinho de volta para a empresa depois das dezenove horas, e ainda nem deram as seis, caramba! Além de tudo, continuava a mulher de amarelo a cismar, será que o babaca não notou que a rua está deserta, que só o carro dele parou?

Informa, enfim, o óbvio: não, o vendedor nunca fica até aquela hora na rua, porque não vai vender nada para clientes que simplesmente não existem. No sábado, depois que as lojas fecham, a Padre Júlio fica um cemitério.

– “Está quente, não está? Um sorvetinho, com esse calor…” -, fala, sem conseguir se conter. – “Sabe, meu turno começou duas horas. A essa hora, o comércio já fechou, e não tem movimento nenhum aqui na Padre Júlio. Não consegui vender nada até agora…” E piscou seus longos cílios, dirigindo-me cintilações douradas para ver se conseguia pelo menos tirar o zero.

– “Pois é, né? Pena que o diabetes não me deixa tomar sorvete…”

Não comprei meu banquinho de macacaúba. A mulher de van Gogh mentalmente rogou-me uma praga: não tirara o zero, e só depois das dezenove poderia devolver à firma o carrinho cheio de sorvete. O céu continuava escandalosamente azul, já ao longe se anunciando um por de sol muito bonito.

Só o comerciante de camisa aberta e barrigão ao vento, certo de que não ia achar ninguém em casa, teimosamente colocou no equipamento mais um disco de brega; aumentou um tiquinho o volume; tirou do isopor mais uma lata de cerveja, olhando-a com paixão. O jeito como chegou a latinha à boca era cena digna de um filme pornô.

*Macapá, 30/08/2015

Professores amapaenses fazem noite de autógrafo no lançamento do livro “Vivendo na beira: Teoria e prática pedagógica no ensino de história no Amapá”

As missões jesuíticas no Oiapoque, educação patrimonial, memórias da Segunda Guerra no Estado e possibilidade de ensino de história local no Amapá. Esses são alguns dos capítulos do livro “Vivendo na beira: Teoria e prática pedagógica no ensino de história no Amapá”, que será lançado na próxima sexta-feira, 13, de março, na biblioteca Pública Elcy Lacerda. O lançamento terá também autógrafo com os autores.

“Possibilidades de ensino de história local no Amapá”

A obra é composta de onze artigos dos alunos da primeira turma do Mestrado Profissional em Ensino de História da Universidade Federal do Amapá (Unifap). O volume é resultado de dois anos de pesquisa para a finalização do trabalho de conclusão do mestrado.

O exemplar traz propostas para a História ensinada na sala de aula no Amapá. Os autores apresentam aqui resultados da experiência por eles acumulada ao longo de vários anos de trabalho no “chão da escola”.

O exemplar será comercializado no lançamento ao preço de R$ 60, e já está sendo vendido também nas livrarias on line das editoras Autografia, Amazon e Martins Fontes.

Sinopse da obra

O livro enfoca o ensino de história indígena no capitulo “As fronteiras da fé: missões jesuíticas no Oiapoque e ensino de História”, de Bruno Nascimento; a “Educação patrimonial e cultura Maracá: possibilidades educativas para o ensino de história”, de Jackeline Maciel; “De volta à Mairi: Narrativas míticas, História e Ensino de História”, de Vitor Ferreira da Silva; “Memórias em sala de aula: uma análise das entrevistas realizadas pela Comissão Estadual da Verdade do Amapá e suas potencialidades para o Ensino de História”, de Danilo Pacheco.

Além de destacar a abordagem de Arleno Correa em “Uma base para o Ensino de História: memórias da Segunda Guerra na Amazônia”; o “Projeto Guia Histórico de Macapá: uma proposta metodológica para o ensino de história local”, de Angela Nascimento; “Novos modelos educacionais e a história do Buritizal” é o capítulo de Walbi Pimentel.

Os demais capítulos da coletânea nos convidam a pensar sobre a exploração de diferentes linguagens na educação histórica. Orione Vilhena, apresenta o texto “História, cinema e Ensino de História: anotações acerca das possibilidades quanto ao uso de filme em sala de aula”. “Em Laranjal do Jari: possibilidades para o ensino de história local no Amapá”, de Marília Nascimento. Danilo Sorato, em “A Questão do Amapá e as possibilidades de uso de imagens no Ensino de História”. E a articulação entre linguagens visuais e aprendizagem histórica no capítulo “Heteronormatividade e estigmatização na cultura escolar do Amapá (1988-2018)”, de Josean Silva.

Serviço:

Lançamento do livro e noite de autógrafos
Data: 13/03 (Sexta-feira)
Hora: 19h
Local: Biblioteca Pública do Amapá Elcy Lacerda

Cássia Lima
Assessora de comunicação
Contatos: 981049355

Papo Casal: fui o primeiro a comprar o livro

Há exatos 12 anos, em 11 de março de 2008, visitei o Ronaldo Rodrigues, que também é Rony. Era noite. Ele morava na casa da Floriano Peixoto (a galera sabe onde) e estava feliz. Tinha chegado os exemplares de seu livro ‘Papo Casal’.

Tenho orgulho de ter sido o primeiro comprador da obra. Nela, RR ironiza o cotidiano e situações comuns dos casais de forma inteligente e divertida. Tenho o livro até hoje, pois a publicação é atemporal.

Elton Tavares

Hoje: Quarta de arte da Pleta apresenta Sarau lítero-musical Meu Vício é PoEsia

Palavras palavras postas Poesia para alma

Quarta de arte da pleta: Meu vício é Po E sia. Nosso encontro de amor e arte saúda hoje a Poesia Amapaense. Convidamos você para celebrar junto com Alcineia Cavalcante, Negra Áurea, Mary Paes, Carla Nobre, Hayam Chandra, Pat Andrade, Grupo Tatamirô de Poesia, Poetas Azuis, Afrologia Tucuju, Fernanda Canora, Augusto Oliveira, Afrane Tavora, Joãozinho Gomes, Ricardo Iraguany, Aroldo Pedrosa, Ademir Pedrosa, Ronaldo Rodrigues, Tiago Quingosta, Rostan Martins e os músicos Helder Brandão, Wendell Cordeiro, Edu Gomes, Alan Yared e Yana Mc.

Muita gente, muito talento, muita poesia, arte e cultura.

Nosso encontro está confirmado. E temos um bom motivo:

O dia 14 de março é o Dia Nacional da Poesia – uma homenagem a um dos nossos maiores poetas: Antônio Frederico de Castro Alves, nascido em 14 de março de 1847. Essa celebração tornou-se oficial a partir de 3 de junho de 2015, por lei.

Castro Alves é considerado a maior figura do Romantismo. Desenvolveu uma poesia sensível aos problemas sociais de seu tempo e defendeu as grandes causas da liberdade e da justiça.

Denunciou a crueldade da escravidão e clamou pela liberdade, dando ao romantismo um sentido social e revolucionário que o aproximava do Realismo. Sua poesia era como um grito explosivo a favor dos negros, sendo por isso denominado “O Poeta dos Escravos”.

Sua poesia é classificada como “Poesia Social”, pois aborda o inconformismo e a abolição da escravatura, através da inspiração épica e da linguagem ousada e dramática como nos poemas: Vozes d’África e Navios Negreiros, da obra Os Escravos (1883), que ficou inacabada.

Só um gostinho da poesia de Castro Alves.


Basta!… Eu sei que a mocidade
É o Moisés no Sinai;
Das mãos do Eterno recebe
As tábuas da lei! — Marchai!
Quem cai na luta com glória,
Tomba nos braços da História,
No coração do Brasil!
Moços, do topo dos Andes,
Pirâmides vastas, grandes,
Vos contemplam séc’los mil!

Navios Negreiros

Era um Sonho dantesco… O tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho,
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros… estalar do açoite…
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar… (…)
E rir-se a orquestra, irônica, estridente…
E da ronda fantástica, a serpente
Faz doidas espirais…
Se o velho arqueja… se o chão resvala,
Ouvem-se gritos… o chicote estala.
E voa mais e mais… (…)

(Fonte) https://www.ebiografia.com/autor/dilva-frazao/

Serviços:

Quarta de arte da Pleta
Sarau lítero-musical Meu Vício é PoEsia
Local: Sankofa Av. Beira-Rio, 1488
Hora: 19h
Data: 11/03/2020

OS VELHOS E “O VELHO”, DE RUI GUILHERME – Crônica de Fernando Canto

Por Fernando Canto

O livro “O Velho” (Scortecci. S. Paulo, 2009), de Rui Guilherme, traz à tona um problema que atinge alguns milhões de brasileiros, com suas mazelas pessoais e o drama do abandono, no conto que dá título à obra.

O autor toca num ponto crucial ao falar das doenças da velhice e dos episódios de saudade que o principal personagem sofre no contexto ficcional, desenvolvido em flash back. Aliás, o verbo lembrar, recorrente no texto, demonstra sempre situações de relações sociais “do tempo do velho”, como os divertimentos e lazeres e formas meio puritanas de falar: um certo estado de pureza, mormente quando a paixão retraída fazia do velho “um menino com um coração de poeta”, diz o autor.

A trágica situação psicológica vivida pelo personagem, como veremos adiante, remete à situação de que o mundo está envelhecendo rapidamente devido a diversos fatores. Dados do IBGE (PNAD:2003) demonstraram que a população brasileira, a partir de 60 anos ou mais representava 9,6% da população total. As projeções demográficas para 2020 sugerem que o Brasil terá 32 milhões de idosos, ou seja, 15% de seu contingente. Com isso, atualmente se desenvolvem inúmeros processos que fazem da velhice um quadro estonteante.

A mídia, por exemplo, lança o estereótipo de que o idoso é um sujeito emancipado e com o espírito jovem. Daí o cuidado com o corpo se torna a principal preocupação dos indivíduos, que por isso vão buscar uma “aparência mais aceitável”. Assim, se concebe a ideia de que a velhice não é mais uma condição física, biológica e psicológica, mas uma questão de escolha, coisa que pode ser evitada a todo custo.

Para Santos, Moreira e Moreira (Unisuam:2008) a nova relação com o corpo propicia uma nova significação com o envelhecimento e, consequentemente, com a longevidade. Há, segundo esses autores, um intenso movimento de “retorno à jovialidade”, que assume um papel central nessa nova identificação para o idoso. Esses “jovens velhos” ganham perante a sociedade uma nova representação que difere explicitamente daquela elaborada em décadas anteriores.

Não é o caso do personagem do conto de Rui Guilherme que, aborrecido com o mundo, joga os exames geriátricos no lixo e quebra o cartão do plano de saúde. A realidade, hoje, é que os consultórios médicos do mundo inteiro estão repletos de idosos que procuram não só a medicina terapêutica, mas também soluções estéticas. É crescente o número de idosos que se submetem às cirurgias plásticas guindados pela mídia. Ela reforça o comportamento dos idosos ao relacionar beleza, juventude e vigor. E o capitalismo tomou essa parcela da população como um forte mercado consumidor, cuja demanda por produtos estéticos, sexuais e por novas maneiras de prolongar a vida é cada vez maior.

O velho, simples em seus hábitos, convivia com fantasmas. Desprezava os sonhos míticos da humanidade tais como a imortalidade e a eterna juventude, ao passo que os idosos atuais vivem num período em que a expectativa de vida cresceu e que a longevidade está relacionada a condições de vida saudáveis, como as práticas de esporte, alimentação saudável, e de novas formas de lazer e entretenimento.

“O Velho”, de Rui Guilherme, talvez retrate uma faixa de pessoas que certamente abandonaram suas famílias, em vez de serem abandonadas por ela. É a história de um aposentado que queria a morte, pois achava que não valia mais a pena viver. É uma história do ponto de vista psicológico um tanto cruel, centrada num episódio fisiológico, traumático para o velho, que pode acontecer com qualquer um. Fato real, mas trágico. Daí a sacada do autor para enfatizar o aspecto mnemônico do personagem e com isso chamar a atenção para o tema da velhice.

Quase coloquial devido às falas e diálogos dos personagens, o texto é permeado por uma narrativa densa e rebuscada, mas que se comunica com o leitor e o leva a procurar saber o desfecho do drama. Os outros contos, tangentes à vida e aos sonhos do autor, também refletem/refratam as (des)memórias do cotidiano e as (i)realidades (im)possíveis. Leia. Faz bem. Você vai gostar.

26 anos da morte de Charles Bukowski, o genial velho safado!

O saudoso escritor marginal, bebum e pervertido em tempo integral, também conhecido como “velho safado”, Charles Bukowski, subiu há exatos 26 anos. Ele morreu em 9 de março de 1994, em decorrência do excesso de goró, vítima de pneumonia, na cidade de San Pedro. O genial poeta sacana tinha 74 anos e é considerado o último escritor “maldito” da literatura norte-americana.

Henry Charles Bukowski Jr. nasceu em 16 de agosto de 1920, na cidade de Andernach, na Alemanha, filho de um soldado americano e de uma jovem alemã. Ele foi levado, aos três anos de idade, para morar nos Estados Unidos. Espancado pelo pai, viciado em birita desde adolescente e formado na marginalidade de Los Angeles, onde morou por mais de 50 anos, Buk escreveu sobre sua própria e longa vida (boemia e desgraça).

Obsceno como poucos, Buk fez a alegria de muita gente, pois possui milhões de fãs ao redor do mundo. Seus livros são cheios de situações inusitadas e chocantes, sempre com muita birita, aflições, jogos de azar, sexo e putaria. Vários devaneios e realidade do dia-a-dia dos malucos.

Há anos, minha prima Lorena me apresentou ao poeta e romancista americano. Sua obra tarada, anticonvencional e ofensiva a moral e bons costumes é genial. Sobretudo para fãs da literatura sacana e escrachada como eu. Li somente quatro livros do velho Buk, “Numa Fria”, “Misto-quente”, “Hollywood” (1989) e “Pulp”. Mas me deleitei com vários artigos e crônicas do cara.

O que se pode dizer? Citar Bukowski é trazer todos aqueles bares pelos quais passou, seus bêbados e seus problemas que eles afundam no copo. Como ele mesmo gosta de se vangloriar em suas histórias, um médico disse que, se ele não parasse de beber, morreria em trinta dias: nada aconteceu. Depois desse episódio, Bukowski deu a guinada na sua vida literária, começando a escrever poesia. Dizer Bukowski invoca ao leitor o sabor de cerveja, vinho e outras coisas; citá-lo nesta lista não é uma obrigação, é uma honra.

Claro que o goró estimula a criatividade, é só lembrar dos fascinantes papos que batemos durante uma simples reunião etílica. Ainda não sou escritor, quem sabe no futuro? Mas sou um biriteiro assumido e já que berber e escrever tem tudo a ver, sigo na esperança de um dia publicar um livro (risos).  Um brinde ao velho safado, esteja ele onde estiver!

“A gente devia encher a cara hoje, depois a gente fala mal dos inúteis que se acham super importantes” – Charles Bukowski

Elton Tavares

Como ser um grande escritor, por Charles Bukowski

você tem que trepar com um grande número de mulheres
belas mulheres
e escrever uns poucos e decentes poemas de amor.

não se preocupe com a idade
e/ou com os talentos frescos e recém-chegados;

apenas beba mais cerveja
mais e mais cerveja

e vá às corridas pelo menos uma vez por
semana

e vença
se possível.

aprender a vencer é difícil –
qualquer frouxo pode ser um bom perdedor.

e não se esqueça do Brahms
e do Bach e também da sua
cerveja.

não exagere no exercício.

durma até o meio-dia.

evite cartões de crédito
ou pagar qualquer conta
no prazo.

lembre-se que nenhum rabo no mundo
vale mais do que 50 pratas
(em 1977).

e se você tem a capacidade de amar
ame primeiro a si mesmo
mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma derrota total
mesmo que a razão para esta derrota
pareça certa ou errada

um gosto precoce da morte não é necessariamente uma cosa má.

fique longe de igrejas e bares e museus,
e como a aranha seja
paciente
o tempo é a cruz de todos
mais o
exílio
a derrota
a traição

todo este esgoto.

fique com a cerveja.

a cerveja é o sangue contínuo.

uma amante contínua.

arranje uma grande máquina de escrever
e assim como os passos que sobem e descem
do lado de fora de sua janela

bata na máquina
bata forte

faça disso um combate de pesos pesados

faça como o touro no momento do primeiro ataque

e lembre dos velhos cães
que brigavam tão bem?
Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.

se você pensa que eles não ficaram loucos
em quartos apertados
assim como este em que agora você está

sem mulheres
sem comida
sem esperança

então você não está pronto.

beba mais cerveja.
há tempo.
e se não há
está tudo certo
também.