Temporada 2018: população comparece e Luau na Samaúma mantém sucesso

Na primeira edição da temporada 2018 do Luau na Samaúma, centenas de pessoas prestigiaram o evento realizado na Praça da Samaúma. O evento multicultural foi promovido pelo Ministério Público do Amapá (MP-AP) em parceria com a Prefeitura Municipal de Macapá (PMM) e levou famílias e grupos de amigos para o espaço em frente à Procuradoria-Geral de Justiça – Promotor Haroldo Franco. A iniciativa aproxima a população do MP-AP e promove lazer com segurança à sociedade.

Durante o Luau, os cidadãos vivenciaram experiências artísticas e tiveram oportunidade de comprar produtos diversificados, de artesanato a comidas, transformando a praça em um espaço gastronômico e cultural.

No Luau teve grafitagem ao vivo com Ashley Moura, Moara Negreiros e Kash Alves; comercialização de artesanato com a Feira Preta, do Instituto de Igualdade Racial (Improir); e do projeto “Mulheres que Fazem”, da Coordenadoria de Mulheres; venda de livros, discos de vinil, comidas típicas e de food trucks; exposições de quadros, fotografias, objetos antigos e mostra de arte da galeria ArteAmazon. A noite contou ainda com intervenção do Corais da Amazônia, com o grupo de voluntários do Greenpeace de Macapá.

A ampla programação cultural iniciou com Angelita e contadores de história do Proler (Semed), que atraiu crianças e adultos. Em seguida o DJ Selecta Branks fez sua discotecagem. A performance musical agradou ao público. Na sequência, o grupo de Marabaixo Manoel Felipe fez o resgate das tradições amapaenses, com muita dança e batuque. A atração que veio depois foi a banda de Rap Maniva Venenosa e Zion, com sonoridade visceral e letras inteligentes, que chamou a atenção dos presentes.

Uma feliz surpresa fez parte da programação: o renomado cantor, músico e compositor amapaense Amadeu Cavalcante cantou sua icônica canção Samaúma, para deleite do público.

A festa popular contou ainda com Marabaixo da Juventude, reafirmando o compromisso do Luau com a cultura amapaense. Diego Moura e banda Sislop trouxeram rock autoral e pop rock ao evento, que fizeram a alegria do público jovem presente no Luau.

Artesãs que participam pela primeira vez do Luau

Mulheres que Fazem é um coletivo formado por cerca de 50 artesãs que expõe em Macapá seus produtos, e foram convidadas para participar do Luau da Samaúma e aprovaram. “O público está frequentando nosso estande, conhecendo e comprando, e isso é muito importante para divulgar o trabalho”, disse Marcilene Pacheco.

Quem está desde o primeiro Luau

O vinil tem espaço no Luau da Samaúma desde a primeira edição e garante que é uma grande vitrine cultural no Amapá. “Aqui tenho público fiel, que sempre adquire quando exponho, e foi formado embaixo da samaumeira. É interessante porque eles não vão na loja, mas esperam o luau para adquirir discos para suas coleções”, disse Charles Figueiredo, do Lado B.

Público jovem

Pedro Gabriel e Mateus Serra têm 18 anos, são estudantes e aceitaram o convite de um amigo para vir ao Luau. “O clima é maravilhoso, música boa, gente bacana, muito bom. Vou indicar para outros amigos, com certeza”, disse Mateus.

Izete Magalhães, 61 anos e Nazareno Rocha, 62, reuniram a família e vieram prestigiar pela primeira vez o Luau da Samaúma. “Trouxemos netos e sobrinhos para este lugar maravilhoso. Viemos ver uma banda e estamos adorando toda a programação”, disse Izete.

Músicos de gerações diferentes

Amadeu Cavalcante, intérprete amapaense, veio prestigiar o Luau como público, e para conhecer o trabalho de novos músicos. “A proposta do Luau é muito linda, o horário, o espaço para todas as gerações, muita qualidade musical, trabalhos autorais maravilhosos, sem falar que este ambiente é perfeito”.

Diego Moura é um artista da nova geração e disse estar realizando um sonho. “Isso tem que acontecer sempre; é muito bacana estar aqui ser ouvido por este público, mostrar meu trabalho, é muito importante para minha carreira”.

Valorização do servidor

Dóris Brandão é arquiteta e funcionária do MP-AP, e desde a adolescência tem como hobby fazer doces para amigos e família, e na última Páscoa descobriu seu lado empreendedor. “As pessoas gostaram e fazer trunfas passou a ser uma fonte de renda que me dá prazer. O bom do Luau é que valoriza empreendedores de fora e também da instituição, e isso é muito importante para auto estima do servidor que tem um talento”.

O procurador-geral de Justiça do MP-AP, Márcio Augusto Alves, acompanhado da secretária-geral do órgão ministerial, promotora de Justiça Ivana Cei, falou sobre a realização do evento.

“Trabalho, empenho e talento dos envolvidos para a realização do Luau na Samaúma foram os componentes que resultaram neste lindo cenário, que é a Praça Samaúma montada e repleta de crianças, jovens e adultos, formando uma excelente atmosfera familiar, somando-se ao ambiente seguro para o cidadão. Estamos felizes por promover essa ocupação deste espaço com uma programação tão rica para a sociedade”, salientou o PGJ.

O próximo Luau na Samaúma está previsto para o dia 28 de setembro de 2018.

SERVIÇO:

Elton Tavares
Assessoria de Comunicação do Ministério Público do Amapá
Contato: (96) 3198-1616
E-mail: [email protected]

Lançamento do Livro “Rio Oiapoque in Blues” – De Marven Junius Franklin

 


O Sistema Fecomércio, por meio Sesc Amapá, realiza hoje (31), na unidade Sesc Centro, a partir das 19h, o lançamento do livro “Rio Oiapoque [in Blues]” do autor Marven Junius Franklin.

A obra “Rio Oiapoque [in Blues]” traz a materialização de uma fronteira imaginária, que se concretiza aos olhos do leitor graças à poética ficcional do autor. Como o próprio nome do livro já sugere, a obra mostra a experiência de vida à realidade tucuju o que resulta em linguagem poética em constante transmutação.

Marven Junius Franklin

Descente de confederados norte-americanos que aportaram e apostaram no Brasil, professor de educação física, poeta ativista, com várias publicações e premiações literárias em seu currículo. Encantou-se com rios, floresta, aborígines, amores, cultura e o sentimento de grandiosidade que emana ininterruptamente destas plagas magnificas. E isso é ótimo para as letras poéticas que precisam dessas aparições para que se mantenha o encanto e a beleza da poesia. Certamente Marven vai despertar nos leitores aquele estado singular de fruição da beleza dos seus versos bem construídos.

Serviço

Sesc Araxá
Rua Jovino Dinoa, 4311 – Beirol – Macapá/AP
Coordenadoria de Cultura
Fone: (96) 3241-2220 (Ramal – 239)
Coordenadoria de Comunicação e Marketing

Oficina de “ Criação Literária” – Inscrições gratuitas abertas no Sesc Amapá

No período de 27 a 31 de agosto, o Sistema Fecomércio, através do Sesc Amapá, realiza no horário das 14h às 18h, na unidade Sesc Araxá, a oficina de “Criação Literária”, que está inserida no projeto “Arte da Palavra Sesc – Rede Sesc de Leituras”.

A oficina será ministrada pela facilitadora Michelly Dominiq, de Mato Grosso do Sul (MS) e objetiva facilitar o acesso a metodologias para o desenvolvimento de habilidades de leitura, narração, criação literária e expressão poética, estimulando o surgimento de novos escritores, contadores e leitores públicos, reconhecendo as narrativas da cultura local e estabelecendo repertório de promoção da cultura do Estado do Amapá.

As inscrições estão sendo realizadas exclusivamente presencialmente na Coordenação de Cultura Sesc em horário comercial. São ofertadas 25 vagas limitadas, voltada para professores, arte educadores, estudantes de teatro e literatura.

O projeto Arte da Palavra Sesc – Rede Sesc de Leituras é um circuito atuante em todas as regiões do país que estimula a formação de leitores e a divulgação de novos autores, além de valorizar obras e escritores brasileiros e as novas formas de produção e fruição literária. Com um circuito de autores e outros de apresentações que privilegiam a oralidade, pretende-se que diversas possibilidades de manifestações literárias sejam contempladas.

Michelly Dominiq

Natural de Mato Grosso do Sul (MS), contadora de história, atriz e pedagoga formada pela UFMS, (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul), idealizadora do projeto “Prosa e Segredo”, foi contemplada com os editais “Bolsa Funarte de Circulação Literária” – FUNARTE/MinC, “Fundo de investimentos Culturais” – FIC/MS e ganhadora do prêmio “Professores do Brasil 2016”, sua atuação atende as áreas de pesquisa em “Cultura Popular, Patrimônio Imaterial, Educação e Teatro”.

Serviço

Sesc Araxá
Rua Jovino Dinoa, 4311 – Beirol – Macapá/AP
Coordenadoria de Cultura
Fone: (96) 3241-2220 (Ramal – 239)

Lançado edital do Concurso de Poemas do projeto Escola de Leitores

O Município lançou oficialmente o edital do Concurso de Poemas do projeto Escolas de Leitores. O certame irá promover a seleção de poemas feitos por estudantes da rede municipal de ensino, que serão compilados em um livro, com previsão de lançamento para o fim deste ano, como uma culminância do projeto.

A proposta é valorizar as produções escritas de pequenos escritores, de acordo com o Plano Municipal de Educação. Esta é a primeira edição do concurso, que irá selecionar uma produção textual de cada uma das 80 escolas municipais de Macapá. O resultado disso será o lançamento do livro Coletânea dos Pequenos Escritores Tucujus.

O edital pode ser acessado nas escolas municipais ou por meio do link:
https://drive.google.com/file/ d/1ax-63Ii3Y-52hQTmnvZC9_ rFiX4m62gZ/view?usp=drivesdk

Rafaela Bittencourt
Assessora de comunicação/Semed
Contato: 98805-8150

Sobre o livro “Rio Oiapoque [in Blues]” – Por Lara Utzig (@cantigadeninar)

Rio Oiapoque [in Blues] traz a materialização de uma fronteira imaginária, que se concretiza aos olhos do leitor graças à poética ficcional do autor. Conhecemos a cidade mesmo sem nunca termos posto os pés naquele chão do extremo Norte do Brasil. Um chão repleto de girassóis petrificados e bélicos, antemanhãs no cais, fins de tarde verborrágicos e abstrações alaranjadas.

(Lara Utzig, poeta, escritora e professora de língua inglesa do IFAP e revisora do livro RIO OIAPOQUE IN BLUES).

*Em breve informaremos sobre o lançamento da obra do poeta Marven Junius Franklin.

Uma luminária pensa no céu – Por Mayara La-Rocque

Por Mayara La-Rocque

Navego, pesco relíquias na margem do tempo, reorganizo os horizontes – olhos feitos de água e imagens que nascem de estrelas caídas e pedras diluídas. Que mundo corre por abaixo desse mar de outras épocas em que homens suspendiam velas e guiavam naus sob a luz dos astros enquanto mulheres pariam no breu? Que fluxo inundou os caminhos, alterou as rotas e os destinos da história, alastrando feito maremotos os campos sitiados dos sonhos, os deixando em uma cidade submersa e abandonada?

Navego por esses mares esquecidos, vejo a fundo os corais em pó e em brilho, assemelham-se a espantalhos e espigas de milho dum campo dourado, das colheitas do passado, ou a caravelas náufragas das viagens seculares e solitárias pelos os oceanos de outrora.

Revolvem-se as águas e lançam sobre a margem, conchas que guardam e reviram outro tempo. Que mundo percorre a beira da praia e as veias de novas terras? Ao acostar à orla, os terremotos avançam em trânsito, entre pessoas e bichos, já não distingo os personagens dos meus sonhos daqueles que inventei no mundo real, os monstros de caras pintadas, máscaras de todos os tipos, as lantejoulas e os olhos tão negros; os vejo nas esquinas e nos bares, nos homens com seus bafos e falas vazias, as alegorias do medo nas revistas e nos telejornais, o alucinado discurso das ditaduras que aprisionam gentes e gestos, e aqui não me refiro a políticos ou governantes senão e somente às gentes e gestos, com seus desgostos e dores, distâncias e esquecimentos, onde o humano tornou-se um campo minado de guerras. E aqui não me refiro tão somente a Hiroshima e Nagasaki, Irã, Iraque, Cisjordânia, mas ao vizinho da casa ao lado que acimentou o jardim, cortou a árvore, construiu o muro, esqueceu-se de recolher o lixo da frente e que por isso deu mosca, acumulou estrume, gás metano, explodiu e incendiou a vila inteira.

Mas enquanto as casas pegam fogo, há – uma luminária pensa no céu. São tantas fantasias que habitam entre os olhos! São murmúrios oníricos que nascem de madrugada e só culminam na alvorada, quando o orvalho alcança a folha mais grávida de neblina derramada. É nessa hora que se ouve, em um fisgar milimétrico de não tempo e lugar algum, o tombar do silêncio sobre o mundo. Nada de estrondo, explosão, bólidos ou fogaréus. Há quem diga o princípio do mundo, ser de fundo negrume e vazio, e há outros destros de ciências mais antigas e ocultas, do tempo de Delfos e da esfinge, que alegam algo a mais: nada tem principio nem fim.

De todo feito, o que nos resta e não menos nos custa lembrar é que, hoje, enquanto as barragens se erguem sobre rios e sobre moradas de deuses para, então, se acenderem os luzeiros elétricos e as maquinarias da cidade, tudo o que ainda se move e resiste entre terras, águas, flores e constelações reina sobre uma só órbita soberana, onde se alinham entre os glóbulos oculares e as íris terrestres, a memória, a terna lembrança – quase uma saudade infinda – o mistério – de onde viemos, para onde vamos depois daqui, quem somos – e claro: O Sonho. E assim caminha a humanidade.

*Mayara La-Rocque é paraense, educadora, escritora. Publicou a plaquete literária “Uma luminária pensa no céu”, pela Editora Escriba, em 2017. (além de velha amiga minha e colaboradora deste site).

Se vivo, Mario Quintana faria 112 anos hoje. Viva o eterno poeta!

Mario de Miranda Quintana foi um poeta, tradutor e jornalista. É considerado um dos maiores poetas brasileiros do século 20.

Mario de Miranda Quintana nasceu prematuramente na noite de 30 de julho de 1906, na cidade de Alegrete, situada na fronteira oeste do Rio Grande do Sul. Seus pais, o farmacêutico Celso de Oliveira Quintana e Virgínia de Miranda Quintana, ensinaram ao poeta aquilo que seria uma de suas maiores formas de expressão – a escrita. Coincidentemente, isso ocorreu pelas páginas do jornal Correio do Povo, onde, no futuro, trabalharia por muitos anos de sua vida. Se vivo, ele faria 112 anos hoje.

O poeta também inicia na infância o aprendizado da língua francesa, idioma muito usado em sua casa. Em 1915 ainda estuda em Alegrete e conclui o curso primário, na escola do português Antônio Cabral Beirão. Aos 13 anos, em 1919, vai estudar em regime de internato no Colégio Militar de Porto Alegre. É quando começa a traçar suas primeiras linhas e publica seus primeiros trabalhos na revista Hyloea, da Sociedade Cívica e Literária dos Alunos do Colégio Militar.

Cinco anos depois sai da escola e vai trabalhar como caixeiro (atendente) na Livraria do Globo, contrariando seu pai, que queria o filho doutor. Mas Mario permanece por lá nos três meses seguintes. Aos 17 anos publica um soneto em jornal de Alegrete, com o pseudônimo JB. O poema era tão bom que seu Celso queria contar que era pai do poeta. Mas quem era JB? Mario, então, não perde a chance de lembrar ao pai que ele não gostava de poesia e se diverte com isso.

Em 1925 retorna a Alegrete e passa a trabalhar na farmácia de propriedade de seu pai. Nos dois anos seguintes a tristeza marca a vida do jovem Mario: a perda dos pais. Primeiro sua mãe, em 1926, e no ano seguinte, seu pai. Mas a alegria também não estava ausente e se mostra na premiação do concurso de contos do jornal Diário de Notícias de Porto Alegre com A Sétima Passagem e na publicação de um de seus poemas na revista carioca Para Todos, de Alvaro Moreyra.

Corre o ano de 1929 e Mário já está com 23 anos quando vai para a redação do jornal O Estado do Rio Grande traduzir telegramas e redigir uma seção chamada O Jornal dos Jornais. O veículo era comandado por Raul Pilla, mais tarde considerado por Quintana como seu melhor patrão.

A Revista do Globo e o Correio do Povo publicam seus versos em 1930, ano em que eclode o movimento liderado por Getúlio Vargas e O Estado do Rio Grande é fechado. Quintana parte para o Rio de Janeiro e torna-se voluntário do 7.º Batalhão de Caçadores de Porto Alegre. Seis meses depois retorna à capital gaúcha e reinicia seu trabalho na redação de O Estado do Rio Grande.

Em 1934 a Editora Globo lança a primeira tradução de Mario. Trata-se de uma obra de Giovanni Papini, intitulada Palavras e Sangue. A partir daí, segue-se uma série de obras francesas traduzidas para a Editora Globo. O poeta é responsável pelas primeiras traduções no Brasil de obras de autores do quilate de Voltaire, Virginia Woolf, Charles Morgan, Marcel Proust, entre outros.

Dois anos depois ele decide deixar a Editora Globo e transferir-se para a Livraria do Globo, onde vai trabalhar com Érico Veríssimo, que lembra de Quintana justamente pela fluência na língua francesa. É por esta época que seus textos publicados na revista Ibirapuitan chegam ao conhecimento de Monteiro Lobato, que pede ao poeta gaúcho uma nova obra. Quintana escreve, então, Espelho Mágico, que só é publicado em 1951, com prefácio de Lobato.

Na década de 40, Quintana é alvo de elogios dos maiores intelectuais da época e recebe uma indicação para a Academia Brasileira de Letras, que nunca se concretizou. Sobre isso ele compõe, com seu afamado bom humor, o conhecido Poeminha do Contra.

Como colaborador permanente do Correio do Povo, Mario Quintana publica semanalmente Do Caderno H, que, conforme ele mesmo, se chamava assim, porque era feito na última hora, na hora “H”. A publicação dura, com breves interrupções, até 1984. É desta época também o lançamento de A Rua dos Cataventos, que passa a ser utilizado como livro escolar.

Em agosto de 1966 o poeta é homenageado na Academia Brasileira de Letras pelos ilustres Manuel Bandeira e Augusto Meyer. Neste mesmo ano sua obra Antologia Poética recebe o Prêmio Fernando Chinaglia de melhor livro do ano. No ano seguinte, vem o título de Cidadão Honorário de Porto Alegre. Esta homenagem, concedida em 1967, e uma placa de bronze eternizada na praça principal de sua terra natal, Alegrete, no ano seguinte, sempre eram citadas por Mario como motivo de orgulho. Nove anos depois, recebe a maior condecoração que o Governo do Rio Grande do Sul concede a pessoas que se destacam: a medalha Negrinho do Pastoreio.

A década de 80 traz diversas honrarias ao poeta. Primeiro veio o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra. Mais tarde, em 1981, a reverência veio pela Câmara de Indústria, Comércio, Agropecuária e Serviços de Passo Fundo, durante a Jornada de Literatura Sul-rio-grandense, de Passo Fundo.

Em 1982, outra importante homenagem distingue o poeta. É o título de Doutor Honoris Causa, concedido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Oito anos depois, outras duas universidades, a Unicamp, de Campinas (SP), e a Universidade Federal do Rio de Janeiro concedem o mesmo tipo de honraria a Mario Quintana. Mas talvez a mais importante tenha vindo em 1983, quando o Hotel Majestic, onde o poeta morou de 1968 a 1980, passa a chamar-se Casa de Cultura Mário Quintana. A proposta do então deputado Ruy Carlos Ostermann obteve a aprovação unânime da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul.

Ao comemorar os 80 anos de Mario Quintana, em 1986, a Editora Globo lança a coletânea 80 Anos de Poesia. Três anos depois, ele é eleito o Príncipe dos Poetas Brasileiros, pela Academia Nilopolitana de Letras, Centro de Memórias e Dados de Nilópolis e pelo jornal carioca A Voz. Em 1992, A Rua dos Cataventos tem uma edição comemorativa aos 50 anos de sua primeira publicação, patrocinada pela Ufrgs. E, mesmo com toda a proverbial timidez, as homenagens ao poeta não cessam até e depois de sua morte, aos 88 anos, em 5 de maio de 1994.

Meu comentário: Quintana foi um dos maiores e melhores escritores do Brasil. Um poeta na essência. Versava sobre a simplicidade e falava o óbvio de forma genial. O leio há pouco tempo, somente uns 14 anos. Aquele coroa sabia das coisas. Minhas homenagens ao eterno poeta.

Fontes: Garrancho Digital e O Pensador

Hoje é o Dia Nacional do Escritor (meu texto em homenagem aos heróis da literatura)

Hoje (25) é o Dia Nacional do Escritor. O conceito diz: Escritor é o artista que se expressa através da arte da escrita, ou, tradicionalmente falando, da Literatura. É autor de livros publicados, embora existam escritores sem livros publicados (chamados, por alguns, de amadores).

A data foi instituída em 1960 pelo então presidente da União Brasileira de Escritores, João Peregrino Júnior, e pelo seu vice-presidente, o célebre escritor Jorge Amado.

O Dia do Escritor surgiu após a realização do I Festival do Escritor Brasileiro, iniciativa da UBE. O grande sucesso do evento foi primordial para que, por intermédio de um decreto governamental, a data fosse instituída com a finalidade de celebrar a importância do profissional das letras, profissão que, infelizmente, nem sempre tem sua relevância reconhecida.

Ser escritor, escrever um livro e tals é um sonho. Quem sabe um dia chego lá. Hoje parabenizo os escritores que conheço e sou fã: Fernando Canto (para mim o melhor escritor do Amapá), o talentoso Paulo de Tarso, o genial Ronaldo Rodrigues, o louco Obdias Araújo, a fantástica Alcinéa Cavalcante, a doce Angela Maria de Carvalho, a incrível Jaci Rocha, a competente Ivana Cei, os impressionantes Lara Utzig, Marven Junius Franklin, Mayara La-Rocque, Luiz Jorge Ferreira, Renivaldo Costa, Maria Ester, Júlio Miragaia e Bruno Muniz, a sensacional Lulih Rojanski, a poeta Carla Nobre, os Poetas Azuis Pedro Stkls e Tiago Soeiro e o professor e poeta Carlos Nilson . Admiro muito todos vocês.

Minhas homenagens aos que viraram saudade há pouco tempo, como Gabriel García Márquez, João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e Ariano Suassuna.

Também felicito os meus grandes e velhos amigos Victor Hugo, Mário Quintana, Fiódor Dostoiévski, José Saramago, Franz Kafka, Manuel Bandeira, Mário Prata, Machado de Assis, Luís Fernando Veríssimo, Charles Buchowisk, Friedrich Nietzsche, Carlos Drummond de Andrade, Nelson Rodrigues, entre outros tantos, que me ajudaram a melhorar a percepção das coisas.

Os exímios escritores, que com habilidade e criatividade usam as palavras e ajudaram a abrir cabeças e ensinaram pessoas a ler as entre linhas, são, como diz a minha amiga Juçara Menezes: “máquinas pensantes para outros começarem a pensar”, de fato!

Tá, tudo bem. Sei que é escritor somente quem possui livro publicado. Mas parabenizo ainda os jornalistas que escrevem crônicas e contos, a licença poética (da poesia marginal, claro) e liberdade de expressão me permitem dizer: o que vocês fazem é bom pra caralho!

Ah, aos “malsucedidos” escritores, que nunca conseguiram publicar seus livros, deixo o recado: continuem tentando, sempre!

Enfim, senhores escritores, meus parabéns por rabiscarem ou digitarem seus pontos de vista, histórias e estórias próprias ou de terceiros, causos, contos, devaneios, tudo com muita sagacidade, inteligência e humor. A vocês, escribas, desejo um feliz Dia do Escritor.

Elton Tavares

Porque escrevo (Fernando Canto) – Por Fernando Canto

Escrevo porque o ato de escrever é aprendizado “imparável”, constante, é forma de enclausuramento voluntário, evocação de mistérios que instigam a (re)criação da (i)realidade. É como navegar, no dizer de Pessoa. Mas necessariamente, contatar o estranho, rir do absurdo e ultrapassar barreiras que o real não permite. O escritor tem passaporte para qualquer lugar porque escrever é processo conduzido pelo voo imaginativo. É flecha, é corredeira, é bólido que tem destinação. É paradoxo porque cada frase sua pode ser recriada ou refeita pelo leitor.

Escrevo porque posso fotografar na minha mente formas, ambientes e personagens; diluir e transformar sonhos e expressar várias visões de mundo através deles.

Escrever é ato libertário. Deve-se escrever para ser lido, óbvio, mas, sobretudo para ser debatido, criticado, odiado, amado; para provocar reações e sentimentos diversificados. Escrever é como produzir fluidos no corpo e fazê-los sair pelos poros da alma.

Fernando Canto – Escritor (o maior do Amapá), jornalista, compositor, sociólogo, meu amigo e um cara paid’égua.

As palavras vivas! – Crônica de Jaci Rocha

Crônica de Jaci Rocha

São 21h23 no relógio de bordo de painel. Olho para o carpete do carro e vejo pontas de um jornal amassado por debaixo do tapete. Algo incomoda na cena: sei, são apenas recortes de jornal.Com palavras aleatórias, esquisitas. Aliás, mesmo juntas, não fazem sentido! sim, o abecedário inteiro está ali, desperdiçado.

Explico.

Não gosto de palavras mortas. Gosto de poemas, pois as palavras voam e se eternizam. De canções, pois elas dançam. Gosto de palavras como: Quintal…

Eu caibo inteirinha em um quintal.
Ou em uma varanda.
Um varal.
Poesia…
Coração.
Amor. 
Abraço.
Saudade.
Oração…
Felicidade!

Palavras nos chamam para dançar. Aliás, gosto de gente que baila com as palavras e forma mundos. Por isso, o amor pela literatura. Paixão antiga: Lembro que me apaixonei pelas palavras através do uso do dicionário, algo vivo e divertido, pois me foi apresentado como riqueza, e como era bonito ver no olhar de meu pai a alegria por ensinar o valor e o significado das palavras. Por outro lado, nunca gostei de quem fala difícil para esconder a mensagem. Mensagem tem de ser coisa clara, bem dita, eis outra palavra bonita: Bendita.

Também não gosto de gírias de laboratório, aquelas criadas por agências de publicidade para testar seu poder das “massas”. Aquelas coisas atuais,meio grotescas. Falta à elas a originalidade do impulso criativo. Mas acho bonitas as regionalizadas, as criadas sob contexto e acho que tem que ter atitude para sustentar um bom vocabulário “sujo”.

Pensei quantas palavras já usei e quantas me valeram, as muitas palavras repetidas, geralmente as minhas preferidas…e no quanto certas palavras nos levam diretamente à lembrança de algumas pessoas. É como uma playlist linguística!

…Olho novamente o jornal, na parte debaixo do banco.

Retiro aquela coisa estranha de lá, mais parece um corpo, morto, no porta-malas. Graças a Deus não tenho estes instintos (rs). São só palavras. Só? Não. São palavras! as amadas palavras, letrinha por letrinha de um alfabeto, dispostas aleatoriamente. Confesso que isso me dói um pouco, a prostituição da palavra: “Vendo palavrinhas rasas,em textos pequenos,para leitores amenos” – é o título do jornal.

Se você chegou até aqui, neste texto com bem mais do que 140 caracteres, sabe como é chato coisas resumidas. Aquela coisa espremida no espaço.

É que bom mesmo são versinhos à vontade, em meio a rua, praças,nuvens… é, sou daquela gente que escreve para se salvar do mundo. Sou da ‘tribo’ que quer que a mensagem chegue, se aconchegue, faça coisas bonitas no corpo das pessoas.A roda que se salva e se enamora, por isso escreve…aliás, pensa em outra palavra amada: E….s….c….r….e….v…e….r….

AMOR, POESIA E PRECONCEITO (carta colhida por Hélio Pennafort) – Fernando Canto

A pena do Hélio parece voar por aí reportando as histórias dos ribeirinhos da costa setentrional do país, onde suas pegadas ainda resistem à chuva.

A pena do Hélio. Apenas ela sabia da grandeza da alma do dono da pena. Sabia de uma alma grandona que não esperava marés e atravessava jardins de espuma sem jamais ter se perdido nos escantilhões deste mundo.

Fernando Canto

AMOR, POESIA E PRECONCEITO (carta colhida por Hélio Pennafort)

Querida Noca,

Escrevo-te somente esta porque não agüento mais a cuíra de saber de nossas difíceis notícias, Noca.

Domingo, no ucuubal, como eu te mandei dizer, não deixa de falar comigo, porque eu quero falar contigo, Noca.

Eu gosto do teu amor, da tua paixão, dos teus carinhos, tão bem como o buritizeiro que adora a mãe lua, quando ela tange com seu clarão as nuvens que não querem deixar o seu luar tocar os brotos das palmeiras, mexer com o siriubal ou alegrar o furo do Jenipapo.

Ainda me lembro, Noca, da primeira vez que te vi na reza da casa do tio Macário. Enxerguei teus cabelos, Noca, clareados pela lamparina, mais bonito do que os cabelos das espigas de milho da roça do Zé Manduca. Teus olhinhos, Noca, eram uma graça… brilhavam mais do que duas porongas de pesqueira, na noite escura, chuventa e panema de peixe…

Tudo em ti é belo, linda Noca, por isto eu gosto de ti. E tu também gosta de mim? Quando já… Eu não sou suficiente nem tenho competência para possuir o amor da garota mais faceira que existe em toda a extensão do Cassiporé. Mas espero um dia ao menos poder te tocar, te acariciar, te cheirar, te beijar… Noca.

*Texto de Fernando Canto, publicado no livro Equinócio – Textuário do Meio do Mundo. Ed. Paka-Tatu. Belém-PA: 2004

O RETRATO AZUL – Conto de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

E agora estou aqui, engolindo este silêncio seco, sem saber o que dizer para você.

Por tantas vezes você me acariciou os sonhos e os cabelos e me aparou de quedas vertiginosas, falando em anjos guardiães. Às vezes, em pequenos pedaços de iracúndia você me insultou. – Burro, não é assim, é assado, é grelhado. Eu ouvindo, eu burro. Você me ralhava, dizia até com ponta de aspereza para que eu não me importasse com a perda das coisas, as que considerava tolas. Eu parado ouvia, mas dentro a cachoeira vinha abrupta e profusa. Havia de sentar ou fugir, me rebelando do trato ou a enchente me afogava.

Agora estamos nós dois sem saber o que fazer… Você aí sentado nessa rede com olhos brilhosos de lágrimas, olhando fixo o quadro que lhe demos de presente de aniversário. E você tem vergonha de chorar porque homem não chora, ainda mais um homem como você que sempre foi forte e capaz de transpor os obstáculos e desarmar, sorrindo, tantas armadilhas.

Você tem lembranças e elas são fantasias de nuvens. Você quer concreta a sua lembrança. Ela surge na forma que você quer. Ela vive em sua memória de um jeito estranho, pois o cenho não esconde a projeção e você a sente como se tivesse medo. Mas medo você não tem nem está triste, apenas lembra.

Eu ao seu lado toco em seus cabelos e na sua dor. Você me abraça. Nós, é óbvio, não temos a mesma idade nem a mesma opinião sobre os golpes que o tempo deixa, pois os ventos mudaram para outras pontas da grande rosa e os valores brilham em forma e conteúdo ou, como se diz comumente, qualitativa e quantitativamente. Hoje você vale o brilho que sabe demonstrar com sua esperteza. Hoje os fios do bigode são meros adornos de vaidade e moda. – E não culpe somente as mãos do mundo. Cuspa, se lhe aprouver. Eu vivo a contragosto esses valores e trago em mim a amargura do meu tempo. No entanto, estou aqui junto a você, agora sentindo uma reação esquisita, frente a essa tela.

Minhas lembranças não são mais nítidas que as suas porque o amor que eu sinto é diferente. Você esteve mais perto, então uma imagem lhe traz uma série de outras mais claras, mais tangíveis.

Para mim muita coisa é confusa. Os sentimentos da monocromia em azul saltitam sobre o retrato emoldurado. Consigo ver um tempo que não é meu e me sinto intruso perscrutando o que pertence a seu mundo, me metendo, penetrando no interior de seus sentimentos e elaborando apenas fantasia.

O retrato espelhado em seus olhos mexe com você até a alma. Um doce para mim se sou capaz de adivinhar. Você segura a minha mão com força como se de longe estivessem lhe chamando. Você está em dúvida. Eu respondo. Não quero que você vá. Mas quem sou eu para lhe impedir a vontade se você ama, se você quer ir.

Minha lembrança migra para uma tonalidade tênue e vejo você sentado no pátio de nossa velha casa de madeira conversando com ela sobre as atividades dos filhos, sobre a TV em preto-e-branco que desejam comprar, e especialmente sobre sua situação financeira que não está nada boa, desde que foi obrigado a vender seu comércio pra pagar dívidas contraídas pelo sócio mau-caráter.

Vejo vocês saindo da missa. Uma, duas, mil esperanças a cada domingo. Um almoço farto é imprescindível nesse dia da semana. Você diz orgulhoso:

– Em minha casa nunca faltou comida. E agradece a Deus. E come as delícias que ela fez.

Embora sua risada fosse discreta, os olhos demonstravam a cor do seu pensamento feliz. Havia tristeza, é claro. Ninguém vive sem sentir o gosto dos diferentes venenos que ingere. Porém, há remédio para tudo, isso até hoje você diz. Você pratica e ensina que há antídoto para as agruras; que existem meios e formas para superar qualquer barreira da vida; que não é necessário beber veneno, mas se for inevitável engole-se aos poucos para depois vomitá-lo todo. Então você vomita. Muitas passagens da vida são venenosas e a ação do tempo é emética, aprendo.

Não posso me arriscar a duvidar. Você foi feliz e sofre hoje. Todavia, a sua felicidade acabou no momento em que a paixão incrustou definitivamente, acho, assim como a tinta na parede, como o asfalto no leito da rua, como a cola no papel. Ora, você sabia da durabilidade das coisas porque consertou mil objetos. Sabia que nem tudo é resgatável, gastou horas e sentimentos lidando com minúcias para não esgotar a paciência. Perseverava sempre, até o limite técnico de sua vocação de engenheiro e alma de artesão incomparável. Sim, você sabia que a parede tomba com a violência do temporal, que a tinta escurece e descasca com as intempéries, que o asfalto rompe com o tráfego dos veículos, que a rua desnivela com as erosões, que a cola desgruda com as variações da temperatura, que o papel rasga e amarelece com o manusear constante. Você sabia tudo isso, mas levou tempo para admitir.

Você embala a rede que me roça as pernas. Eu afago seus cabelos brancos com uma ternura de me causar surpresa. Nós sempre fomos amigos, mas havia uma barreira. Talvez a do excesso de respeito, pelo que a aproximação arrefecia. Foi preciso tempo e esta situação para que eu me decidisse amá-lo com toda a força do meu coração, entendo-o agora, dizendo dentro de mim e, se eu quiser, bem alto e retumbante, um Eu Te Amo para impregnar este quarto onde mora a intimidade de sua memória, onde você cultiva sua solidão particular.

Há uma relação inquebrável, uma linha, um foco de luz entre seus olhos e a tela. Nela você penetra aos poucos. Eu deixo, porque a luz é sua, a transcendência é clara. Suas mãos emitem uma aura azul.

Você não percebe que eu desliguei a luz. Você enxuga uma lágrima cadente com a mão esquerda no rosto brônzeo e transmigra com os olhos fixos para dentro da figura tão bem pintada por um artista amigo da família. Com as mãos em seus cabelos acaricio, talvez, a necessidade de seu sonho. Sinto que alimento sua satisfação, embora a sua dor esteja explícita no cenho errado, duro, mas substancialmente alinhado agora. Você não parece ter a idade que tem. Eu observo seu rosto pelas réstias de luz fugidas da sala vizinha, através das frestas das tábuas. Há nele inevitáveis rugas. Mas um sorriso paira em sua boca. Um enigma.

O passado corre no quarto como um rio de volta para a nascente. Recordo suas velhas histórias. Longas e quase inacreditáveis. Histórias amazônicas, histórias que, sabemos, são verdadeiras, pois você nos ensinou que a mentira não é necessária, é sempre uma coisa dispensável. Todas elas traziam a liberdade sonhada nos quintais. Todas abrangiam um mundo particularizado, impenetrável porque aconteceram antes da devastação da floresta, o que tanto o entristece e o preocupa quando assiste aos jornais da televisão. Fogo, antes, só o fátuo – a ilusão. Eu criança e mesmo já adulto absorvia os mistérios dos seringais, as técnicas descobertas por extrema necessidade no meio da selva, e o idolatrava quando contava das farras feitas com seus irmãos, sempre aprontando alguma. Ríamos muito no final dessas histórias.

Um sentimento enorme tomava conta de nossa família. Você encanecia rápido, dizia que não era de preocupação, era genético. Mas eu sabia. Sabia quando você se preocupava, porque depois do almoço, quando mamãe saía para o trabalho, você ficava se embalando numa rede larga, de cor branca, fixando a vista em algum ponto da parede, assim como o faz agora na direção deste quadro. Depois saía sozinho, de bicicleta, ganhando a tarde.

Só você e ela sabiam das dificuldades que nos afligiam. Nós, os filhos, tínhamos o que queríamos e o que pedíamos no limite de nossa pobreza. Nunca reclamamos de nossa infância. Éramos felizes e tentamos até hoje dar um sentido racional a ela, sem, contudo, perdermos o vínculo do encantamento pretérito com a chuva de desencantos que às vezes caía sobre nós. Há um remédio para cada veneno. Lembra? Você não lembra. Está quintessenciado.

Será que erramos com a ideia do presente? Assim você sofre demais, deixando transparecer a debilidade do corpo que balança a rede. Você ainda me abraça e olha o perto/longe. Está lá dentro conversando com ela, caminhando nos paralelepípedos da cidadezinha do interior, de mãos dadas, com seu termo de linho branco, galante e contente, demonstrando o seu amor, inclusive às solteironas invejosas das janelas coloniais. Você sobe a ladeira com um sorriso de homem maduro. Mais alegre, ainda, é ela, a professorinha da Prefeitura Municipal, a desfilar com a graça de seu andar miúdo e um sorriso fulgurante, ajeitando de vez em quando a rosa amarela presa aos cabelos negros. É final da tarde de domingo.

Você a imagina assim, como no retrato. O retrato azul, transposto e ampliado de uma velha foto da década de 40. Minha impressão é que você confunde o real e o imaginário. Permanece o silêncio. Nós dois aqui.

Ah, falta o violão, imagino eu, para que você dê uns acordes harmônicos e cante músicas do seu tempo. Valsas, valsas. Mas o silêncio é seco. É áspero. É doído. Acho então que não estou errado. Seu semblante está feliz, está tocando, está ouvindo músicas. Não há amor sem música. Para ela havia muitas, dessas que entrelaçam e fortalecem uma relação aparentemente ingênua.

De repente você escuta o apito de um navio passando longe. E a convida para viajar, conhecer outras terras, começar a vidinha a dois. O apito do navio transporta o engano do futuro. Você é um aventureiro nato. Não desiste nunca. Mas não impõe. Os dois vão viajando trinta e poucos anos. E gostam. Não enjoam jamais da cara do outro. As brigas que se sucedem são só de vocês. Ai daquele que meter a colher.

Até parece que ela vive. Você devaneando me faz acreditar. Eu acredito. Você me diz: – Eu não estou triste, só lembro.

Lembrar é fato legítimo. É viver o presente com lucidez. E você vive. Apenas viajou.

Paro de afagar sua cabeleireira branca. Você me abraça e não me olha. Sei, no entanto, que está sorrindo, que está feliz. Você levanta, me dá três tapinhas nas costas e vai assuar o nariz no banheiro.

Acendo a luz fluorescente. Olho o retrato mais uma vez. O quarto está repleto de luz. Mamãe está sorrindo na tela com os olhos molhados de ternura.

De Super-Homem a Asterix, minhas HQ favoritas – Crônica porreta de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

Quando leio uma revista em quadrinhos hoje é natural que as lembranças povoem repentinamente na minha cabeça, tão importantes o foram como instrumento de aprendizado, num tempo em que não havia grandes obras para serem lidas, a não ser na Biblioteca Pública, um lugar obscuro e quase inacessível para alunos adolescentes como eu que não tinham a orientação dos professores para essa atividade. Na época tudo parecia se resumir no aprendizado de sala de aula.

Lembro que as portas dos cines Macapá e João XXIII ficavam cheias de jovens com revistas debaixo do braço nas tardes e noites de domingo. Estavam ali para trocarem suas revistas já lidas, por outras não lidas, ou preferencialmente por novas. Era uma prática saudável num tempo sem televisão quando a cultura visual estava mais direcionada para o cinema, com seus filmes e seriados, e para os quadrinhos. Era tempo do Território Federal governado por militares. Todos viviam sob uma ditadura severa que se estendia aos seus prepostos: diretores, professores e inspetores das escolas. Os quadrinhos nem sempre eram vistos como instrumentos educativos. Frequentemente os pais eram chamados pelos mestres quando um aluno era flagrado com alguma revista “imprópria”, tipo quadrinhos eróticos. O resultado era uma suspensão na escola e em casa sempre uma repreensão ou surra de galho de cuia no moleque aluado.

Romantismo ou saudosismo, a leitura dos quadrinhos possibilitava viajar com os heróis na luta contra o mal e dava para imaginar que um dia derrotaríamos o inspetor, o professor e o diretor que nos controlavam e eram nossos “inimigos mortais”, nessa ordem.

Batman e Robin, Super-homem, Zorro, Jim das Selvas, Tarzan, Congo Bill, Tex, Búfalo Bill, Príncipe Valente e tantos outros, descortinavam novos horizontes naquela garotada ávida por conhecimento e que esperava dias melhores para as suas vidas. As revistas traziam propaganda de pé de página, anúncios de cursos por correspondência, como o de madureza ginasial (um tipo de curso supletivo), o de detetive profissional, de rádio e eletrônica, etc. É inesquecível o anúncio de um tipo de brilhantina: “Dura lex sed lex, no cabelo só gumex – fixa e dá brilho aos cabelos”.

Mas a gente lia de tudo, inclusive as histórias dos personagens de Walt Disney e de Maurício de Souza, que chegavam recentemente naquele restrito mercado que se resumia nas livrarias Zola, de Francisco (…) e Martins, de (…) Martins, onde também se podia comprar livrinhos de literatura de cordel, como as aventuras de Pedro Malazarte e de Bocage, entre outros.

Anos depois, já na Universidade, pude defrontar com personagens mais sofisticados dos HQ, como os famosos (…) japoneses, os coloridos e novos super-heróis, tais como o Hulk, o Surfista Prateado e o Quarteto Fantástico. Nessa ocasião conheci as aventuras de Asterix, o Gaulês, dos franceses Gosciny e Uderzo. Pirei. Fiz coleção, mandei encadernar e releio sempre. Os personagens dessas histórias são os habitantes de uma aldeia que detém o poder de uma poção mágica usada para derrotar os romanos em situações e aventuras muito loucas.

Há alguns anos ganhei de um filho um presentão: uma edição comemorativa dos 80 anos do velho Uderzo, com histórias desenhadas por famosos artistas das HQ da Europa, nas quais seus personagens encarnam os heróis Asterix e Obelix e sua aldeia irredutível na Gália de 50 anos A.C. Um primor de desenhos de discípulos agradecidos.

Agora só me resta reler o livro comemorativo e esperar que “o céu não caia na minha cabeça”, como dizem os personagens dessas belas e engraçadas histórias.

Barca das Letras comemora dez anos de incentivo à leitura

A Biblioteca Itinerante Infantil Barca das Letras nasceu em abril de 2008, idealizada pelo amapaense Jonas Banhos, com o objetivo de democratizar o acesso ao livro, leitura, literatura às crianças que vivem em comunidades ribeirinhas, quilombolas e indígenas do Amapá e Pará, inicialmente. Os locais por onde circula a biblioteca são comunidades isoladas, às margens de rios, igarapés, lagos, lagoas, aonde dificilmente o livro chega. É lá que os voluntários da Barca das Letras mais gostam de ir, pois são nestes lugares que vivem as pessoas que, com seu modo tradicional e originário de vida, mais respeitam e protegem a mãe natureza. “São pessoas que têm uma relação muito espiritual e especial com a floresta, com a água, com os animais, pois sabem que todos fazemos parte de um só ser vivo, a mãe Terra” destaca Jonas.

A Barca das Letras vem distribuindo milhares de livros infantis e gibis nestes dez anos de circulação, para motivar crianças que moram à beira do rio Amazonas e seus afluentes, a criar o saudável hábito da leitura. Mensalmente são organizadas expedições rumo às comunidades. Cerca de dez voluntários se unem para promover uma ocupação lúdica e colorida de incentivo à leitura, com duração de quatro a seis horas, em cada comunidade vivenciada. Durante esse período, as crianças são motivadas a: montar a biblioteca, cuidar do espaço, ter contato direto com os livros levados, recitar poesias, ler livros, assistir espetáculo circense/teatral, ouvir e contar histórias, pintar/desenhar, ver exposição fotográfica, assistir cinema animado, participar das apresentações de grupos culturais da própria comunidade. E, ao final, todas são presenteadas com livros e gibis que podem levar para suas casas.

Em dez anos de vida, a biblioteca já passou por mais de 70 comunidades de todas as regiões brasileiras e esteve também em um evento cultural na Bolívia. No Amapá, já fez atividades em comunidades rurais de Macapá, Itaubal, Mazagão, Laranjal do Jari, Vitória do Jari, Santana. Cerca de 70 mil livros de literatura e gibis foram arrecadados e distribuídos, sendo que a maioria dos doadores está em Brasília/DF. Todo final de ano, a Barca das Letras promove a Festa da Leitura Infantil do Rio Guamá(FliGuamá) em Ourém(PA) para encerrar o ano celebrando com as crianças-leitoras que vivem às margens do Rio Guamá, no nordeste do Pará, o amor pela leitura, pela natureza, pelas águas e pela cultura viva comunitária. Em 2010 ganhou o Prêmio “Tuxaua Cultura Viva” e em 2014 o Prêmio “Leitura para Todos: projetos sociais de leitura”, ambos do Ministério da Cultura. Em 2017 aprovou dois projetos culturais para captação de recursos por meio da Lei Rouanet(principal mecanismo de fomento à Cultura do Brasil), sendo um para Amazônia e outro para o nordeste brasileiro e está em busca de doações de pessoas físicas/patrocínios de empresas para continuar circulando e incentivando a leitura.

Na manhã de 26 de maio(sábado), a Barca das Letras vai comemorar o aniversário de dez anos de incentivo à leitura com distribuição de livros e gibis, além de rodas de leitura e exposição fotográfica das ações da biblioteca. O evento ocorre na sede da Associação de Mulheres Ribeirinhas e Vítimas de Escalpelamento da Amazônia, localizada na Praça Zagury 279, Perpetuo Socorro, das 9h às 12h.

Contatos:
Jonas Banhos – (61)98355 7232(whatsapp)
[email protected]