Amapaense escreve, ilustra e edita uma Coletânea de Histórias do Amapá

Conhecido no mundo da arte como Joca Monteiro, talento amapaense que além de artista e professor, também produz artesanalmente, divulga e comercializa informalmente seus livros.

Joca percorreu por todo o Estado coletando histórias, 8 delas compõem a Coletânea Histórias do Amapá e são um sucesso entre os alunos das séries iniciais do ensino fundamental.

Ele era um menino malvado que adorava matar os animais por pura diversão. Praticando uma de suas maldades ele foi encantado, mora no fundo do rio e assombra até hoje a Comunidade Quilombola do Cunani.” – O CALÇA MOLHADA – CALÇOENE.

Joca, de 37 anos, produz livros artesanalmente fabricados com material de alta qualidade. Os livros são de grande durabilidade e vem numa embalagem charmosa e colorida, ideal para os apaixonados por leitura, e são vendidos a R$20.

É comum na Amazônia homens e mulheres que possuem o poder da metamorfose, em Pedra Branca do Amapari tem um homem que vira porco” – O HOMEM QUE VIRA PORCO – PEDRA BRANCA.

A editora do Joca Funciona na Baixada Pará onde conta com apoio da família e outros moradores do lugar na produção dos livros.

A COLETÂNEA VOL.1 está em uma super promoção de férias, no mês de julho ela pode ser adquirida por R$120,00 basta ligar (96) 32174325 ou mandar mensagem no zap que o Joca entrega 991585083.

Fonte: JOCA

Papo Literário com Pat Andrade

Os acadêmicos do curso de Letras da Universidade Federal do Amapá (Unifap), do Campus de Santana, fizeram este vídeo, para falar do trabalho da poeta e colaboradora deste site, Patrícia Andrade. Assistam:

Nesta sexta-feira (5), acontece a Sessão Solene em homenagem aos 66 anos da Academia Amapaense de Letras

Foto: Dulcivânia Freitas

Nesta sexta-feira (5), às 19h, na Biblioteca Pública Elcy Lacerda, ocorrerá a Sessão Solene que celebrará os 66 anos da Academia Amapaense de Letras (AAL). A AAL possui 22 acadêmicos imortais. A comemoração é em 5 de julho por conta de esta ser a data da posse da primeira diretoria do Silogeu

O atual presidente da entidade é o professor Nilson Montoril de Araújo, e o vice-presidente, o poeta Manuel Bispo Correa. Entre os 22 sócios titulares do colegiado (imortais), tenho três amigos, os poetas e escritores Carlos Nilson Costa, Fernando Canto e Alcinéa Cavalcante (aliás, posso me gabar que sou bem próximo destes dois últimos).

Escritores e poetas Fernando Canto e Alcinéa. Os meus muito queridos amigos, Alcinéa Cavalcante e Fernando Canto. Foto: Flávio Cavalcante.

Síntese da História

Fundada em 21 de junho de 1953, data escolhida por conta de ser o mesmo dia do aniversário do escritor Machado de Assis, a Academia Amapaense de Letras surgiu como uma entidade civil, sem fins lucrativos e com o objetivo de promover o desenvolvimento literário, cultural, científico e artístico do Amapá. Seu primeiro presidente foi o professor de português e literatura Benedito Alves Cardoso.

A posse da Diretoria aconteceu no dia 5 de julho de 1953, no Cine Teatro Territorial (anexo ao Grupo Escolar Barão do Rio Branco), ocasião em que o Governador Janary Gentil Nunes fez um belo discurso. Por mais de 30 anos o Silogeu ficou desativado, sendo reinstalado em agosto de 1988. Já faleceram 33 dos seus membros.

O Amapá precisa preservar, reconhecer e homenagear seus grandes nomes em todas as áreas de atuação. Meus parabéns aos imortais da AAL, em especial, aos meus amigos de lá.

Serviço:

Sessão Solene dos 66 anos da Academia Amapaense de Letras (AAL).
Data: 05/07/2019
Horário: 19h
Local: Biblioteca Elcy Lacerda, que fica na Rua São José, 1800, centro de Macapá.
Entrada: franca.

Elton Tavares, com informações do professor Nilson Montoril , presidente da AAL.

Brasa X Bala- Texto de J. Arthur Bogéa (*) sobre o conto de Fernando Canto

A publicação do conto de Fernando Canto – Brasa Balançante – na edição deste jornal de n° 105 (dezembro/janeiro), coloca em evidência a revisão do passado recente: militares versus guerrilha e a acertiva de que História e Literatura têm um embrião comum. Marx, que está na moda ser considerado out, disse que aprendeu mais da História da França nos romances de Balzac, a quem dedica um estudo, do que nos livros de História do País.

As palavras – permita-se o jogo com Canto/Conto – da Narrativa estendem – se como uma corda bamba em que Autor/Atores se equilibram entre os dois lados dos combatentes: um determina o outro com a pergunta do “Alemão” – quem era realmente o inimigo(?)”. Cadeia para ele.

A pergunta do “Alemão” se estabelece a partir do título; Brasa Bala [(nç) ante]. Uma troca de palavras e o título se converte em Brasa ante Bala. Ambivalência. Para os dois lados “(n)aquela sacanagem de guerrilha” resta a maldição de Brecht: “Infeliz do país que precisa de heróis”.

Há um Narrador, na primeira pessoa que se interpõe entre o Autor e um Narratário (pluralizando) que se interpõe, por sua vez, entre o Narrador e o Leitor. O Narrador – “Eu era um soldado” (como muitos) e o Narratário (vocês jornalistas” (como os outros anteriores).

Há no texto ressonâncias de Guimarães Rosa. Ninguém passa imprudente pela leitura de Grande Sertão: Veredas. A teia e a trama do escritor se estendem ao Pós-Moderno. Bakhtin explica: em cada texto há ‘vozes’ de outros autores que ‘dialogam’.

Não há heróis entre os Atores, como a Narratologia prefere chamar os Personagens. Entre os guerrilheiros aprisionados há “uma loura – pálida” e “um barbudo feio pra caralho”. O Narrador se reflete no Almeida – “Alemão”, no Ibrahim – “Mão Benta”, Antunes e o “sargento” – a autoridade é anônima como o comando. São anti-heróis que desfilam e desafiam pela escritura de Canto.

O narrador sonha “em ser um herói (…) quem sabe ser promovido, chegar a sargento…” – aos olhos da Mãe, apenas citada, mas figura concreta, que o inconsciente do texto revela o desprezo pela mulher com a expressão “loura – pálida” e, uma figura abstrata: Pátria. Não é à toa que troca o fuzil (símbolo fálico) pela vassoura – varrer é uma atividade feminina no âmbito do privado que assume caráter masculino em público. Outra ambivalência. Sonha em varrer “O lixo da Pátria” – a Magna Mater.

Este Narrador só tem uma certeza sintetizada no verbo saber, para ele e o(s) Narratário(s): “Eu sei que vocês sabem de quase tudo que aconteceu lá no Araguaia” O “quase tudo” remete à pergunta do “Alemão”. É, portanto, o avesso do conhecer. Impreciso. O ‘contar’ do Narrador é sempre introduzido por uma pergunta: “vocês vêm me indagar sobre esse assunto?” ou “Entrevistar para quê?” – todas como um eco do “Quem vem lá?” a que “Mão Benta” não responde, por isso encontra a morte. O Narrador também não responde à história quando finaliza com um “Não sei, não sei, sei não”. Três negações, da campanha na selva à morte do heroísmo, morte civil quando deixa o exército e assume um emprego servil e, finalmente, morte da cidadania.

Vale ressaltar que Canto se recusa a regionalizar por regionalizar a ficção, por isso a expressão “à beça” e os termos “tauari” e “muru–muru” não soam artificiais, fazem parte do ‘dialeto’ do Narrador que conta a hi(e)stória, quem escreve é o Narratário. Alquimia da fala para a escrita.

Há ainda a destacar que a narrativa traz um tempo cronológico, “Vinte anos depois” e um tempo fantástico, “o estrondo no meio da noite repercutiu séculos na floresta”. Duas Vertentes que deságuam num escritor que atravessa a ‘maldição’ de ter sido adotado – O Bálsamo – no vestibular.

O autor é docente do Centro de Letras e Artes da UFPA e professor visitante da Rijksuniversiteit te Utrecht (Holanda).

(*) O professor José Arthur Bogéa faleceu em 2005.

Macapá, 13 a 19 de Janeiro de 1996 Folha do Amapá – 15 – VARIEDADES
Jornal Folha do Amapá

Lançamento: Livro conta 30 anos de história de Santana

Na próxima sexta-feira (28), às 18h, na Câmara Municipal de Santana, acontece o lançamento do Livro “Santana: 30 anos de acontecimentos”, de Emanoel Jordânio, no plenário da Câmara de Vereadores de Santana. O livro foi público pela editora do Senado, por meio do apoio do senador Randolfe Rodrigues (Rede).

O livro tem 260 páginas com mais de mil fatos sobre o segundo maior município do Amapá. Foram dois anos de pesquisas realizadas pelo comunicador Emanoel Jordânio. Grandes acontecimentos, como os dois desabamentos da estrutura portuária em Santana – em 1993 e 2013 – são alguns dos registros.

“A obra é um passeio surpreendente e até dramático, outras vezes hilariante, através de um passado registrado dos últimos 30 anos, quando a cidade de Santana ganhou sua autonomia política e vivenciou fatos que jamais esqueceu”, disse o senador Randolfe no prefácio do livro. “Um fiel e verdadeiro registro carregado de indiscutíveis valores morais, materiais, sociais, históricos e culturais. Um tipo de enciclopédia cronológica que ficará ao longo de incontáveis gerações, passando, afinal, as situações ocorridas dentro da história de um povo guerreiro e trabalhador: o povo santanense.”, completou o senador.

“Levar ao conhecimento do leitor uma boa parte da história do segundo maior município do Estado do Amapá é colocar um dos meus braços à disposição dos interessados e apaixonados por nossa história”, disse o autor na apresentação da publicação, Emanoel Jordânio. Para quem quiser adquirir um exemplar, o livro será distribuído gratuitamente no lançamento.

Jornalista/Assessora de Comunicação
Carla Ferreira
Contato: (96) 98110-1234 (Whatsapp)
Twitter: @Carlinha_F
e-mail: [email protected]

O poeta e professor Carlos Nilson Costa – Antologia e Iconografia

Carlos Nilson em Veneza_ 2014
Professor Carlos Nilson em Veneza (ITA) – 2014

Por Paulo Tarso Barros

O professor Carlos Nilson Costa nasceu em Monte Alegre (PA), no dia 17 de novembro de 1941, mas chegou ao Amapá ainda muito jovem e aqui estudou, constituiu a família e realizou seus projetos profissionais e pessoais. Artista plástico, poeta, professor e um admirável ser humano, Carlos Nilson é formado em Matemática e tem especialização em Planejamento. Foi Secretário Municipal de Educação de Macapá, Secretário de Estado da Educação e integrante do Conselho Estadual de Educação, dentre outras atividades que exerceu no serviço público com grande destaque, pela sua competência e dedicação, o que o coloca entre os mais notáveis educadores do nosso Estado.

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Na imprensa publicou trabalhos nos jornais “Amapá”, “A Voz católica”, “A Fronteira”, “O Liberal” e “Jornal do Dia” e apresentou programas de música erudita nas rádios Difusora e Educadora.

Participou da antologia “Coletânea Amapaense”, de 1989.

Neste especial, vamos publicar uma seleção de poemas do autor – inclusive fac-símiles de publicações dos anos 60 do jornal Amapá.

 Poema de Carlos Nilson (1)Carlos Nilson_poema Descolorido_Jornal A Voz Católica_

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O SOM DO SILÊNCIO

Por que buscas
na tortura de teu silêncio,
o sopro da ventura favorável?
Amargo e torturante é o teu calar!

Infiltra-te na imensidão de tua voz
E traz à tona a alegria contagiante
E companheira
De nunca estar só!

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CÍRCULO

Daquela festa passada
Deixaste apenas o cavalo
Da carruagem que viajamos

Da tua fuga galopante,
No exílio angustiante que fiquei,
Restou o cavalo, que era a égua de nossa glória.

A distância do tempo que partiste
Voltou, em circunferência,
A encontrar, no ponto de partida,
A égua para a tua condução.

Fiquei a esperar a carruagem
Que viria buscar a montaria
Na fuga causada do amor perdido
Na espera fogosa do amor encontrado

Cantico delle Anime, di Roberto Ferri

TERNURA

Sinto a ternura
Feita de carne
– o teu corpo
O tempero de tua alma
leva-me saudade
de tua ausência presente

A imaginação do amor
constante
que desejo
é o mesmo amor
que sinto em ti
Mulher amada

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RAZÃO DO AMOR

Muitos cantam a vitória
em hinos que sublimam as conquistas
( em verdade, gostamos de cantar nossas glórias
nem tanto gloriosas assim )!

Eu canto o teu amor
que lampeja
na vez que recordo
teu ar triste
que, cinematograficamente,
reflete ternura
de uma lembrança viva.

Não sou grato ao teu amor!
Nem busco a razão,
já que não amo
porque quero,
mas se quisesse
te amaria mesmo assim.

Uecsa

LEMBRANÇA DE MINHA RUA

Lembro como se fosse presente
do primeiro dia em que cheguei
-tinha sete anos!
Fazia escuro
O mato crescia em terra estéril
e o cemitério era panorama mudo e
suas paredes cinzentas tinham o ar melancólico
daquele lugar.
Macapá terminava ali!

A rua era pequena
-Nem pensei que fosse beco!
Terminava no campo santo
As casas, em perfeito alinhamento
-uma longe da outra
Davam uma visão de que havia ordem
também por lá.

A casa onde fui morar
Era toda de barro. Estava caindo aos pedaços.
Cada um era uma parte do coração de minha mãe que ruia.
O mato crescia (como ele viceja em terra imprópria! ),
E brotavam algumas flores silvestres
Que faziam o jardim dali.

Rua, saudade de minha infância.
Das brincadeiras infantis
-de cowboys,
Apedrejador de passarinhos…
Hoje é avenida sem deixar a forma de beco

Rua da minha felicidade
E da minha tristeza,
Que no sorrir de minha existência,
Quando brotava para a vida
Na pós-adolescência,
Viste morto meu pai .

Rua triste, de onde não tive namorada.
– ela só veio depois que mudou o nome.
Rua querida, és saudade perene,
Vida em minha existência
Tão triste e só,
Oferecendo lembranças e saudades
Que parece não saem de lá.

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PENSAR BAIXINHO

Hoje volto:
Triste e pensativo…..
-a noite cai
E o silêncio vive a solidão.
Hoje é noite de ficar sozinho,
de pensar baixinho,
de pedir aos céus
o que não podemos na terra.
De fechar os olhos,
De chorar calado
E esperar a volta,
Que sabemos não vem:
Noite de ficar sozinho.

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ANJO DA GUARDA

Simplesmente dormi!
Meu anjo cansou-se de velar por mim
-teve sono e entregou-se a Morfeu.

Nos lampejos da vida,
com sede de afeto,
me precipitei a realizar.

Pobre de meu anjo,
Teve que dormir um pouco!
Fiquei só!
Perdi-me no caminho.
Andei errante: fugi demais.

Agora,
Tudo é frio.
O peito gela
O coração treme solitário
E irrealizável.
Por que dormi,
se tinha tanto a completar?
-e meu anjo, pobre coitado,
Não sei onde o encontrar.

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MINUTO ETERNO

Houve um minuto!
Os sinos deixaram de anunciar,
Mas o tempo chegou.
O tempo não passa, ele chega.

Os homens não param, esperando o fim.
…..Paira uma enorme expectativa
De no momento findo,
Haver o começo de novo.

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MÃE PRETA

A sombra do mundo
E o brilho do bem,
Escondem na sombra
O belo do amor.

Mãe Preta querida
Teu canto é passado
Na dor do passado
Que teu avo não contou.

Teu filho que dorme
O sono do nobre,
Não sabe de angústias vividas
Não sabe que lágrimas
Que o tempo esqueceu,
Rolaram baixinho
Nos prantos noturnos
Dos fundos dos barcos

Teu canto adormece
É diferente
Traz na tua voz
Mensagem antiga
Da dor já passada.
Não fala de bola,
Nem de brinquedos.
Só canta ternura
Do bem de tua alma

Mãe Preta querida,
Canta prá mim.
Tuas mãos calejadas,
Teu rosto queimado,
Teu corpo sofrido,
Mãe Preta
Só falam de amor.

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DESMATERIALIZADO

Deixo cair a carcaça e caminho…
Vou seguindo na terra
Como se fosse um espectro,
Sem resistência do ar

Deixo cair as vestes dos ossos,
E nu, o meu esqueleto vai procurar abrigo
Em uma tumba de glória,
Onde a árvore nasce em forma de espada
Ferindo as dores na solidão.

Assim, descaço de carnes,
Sem cabelos,
Sem rumo determinado,
Mas com chegada certa em uma luz,
Estendo minhas mãos de falanges
E imploro a felicidade
-ao menos uma vez.
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O RIO

Corre,
Margeando o leito calmo,
A folha caída.

Segue,
No caminhar constante
Levando lembranças
E saudades.

Vai,
Misturando às águas,
O barro santo
De vidas passadas.

E, com a terra sagrada,
Diluída na garapa gigante,
Desliza a tradição ferida
De um povo bravo e forte.

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A ROTA DO HOMEM

Acho simples voar
-até as aves voam!
Num voo curto e material
Sem a magnitude
Dos homens,
Que sobem tanto
E se perdem na grandeza
De um sorriso tácito
Bebido em taça
Com o gosto de cru.

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MORTE DOS NAMORADOS

Como é triste a morte dos namorados
Mas dos que se amam
Não dos que se falam
Mas dos que se sentem

Noites claras que brilham,
Passeios,
Encontros.
Tudo transformado em noite fria
-eternamente fria.

O calor dos beijos
Foi trocado pelo frio dos mármores
Na visão branca
Como o fantasma da saudade.
E a mão
O beijo
O calor:
Como estão gelados!

Todo o calor da imensidão da noite
Agora é eterna noite das coisa geladas
E de muita solidão.

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ONTEM, HOJE E ……….AMANHÃ

Enquanto as rosas perfumarem o sereno,
O sorriso da criança entreabrir,
E nos campos se amarem as borboletas,
Acredita, sou feliz.

Após, no pomar, as árvores derem frutos,
E os galos entoarem na madrugada,
E o seresteiro amar sua namorada.
Acredita, eu vivo.

E se ainda as folhas formam copas,
E poucas flores ainda existirem,
Mesmo assim, vacilante,
Acredita, eu existo.

Mas, se as árvores não brotam ramos,
E as pétalas caem no chão
E somente o arbusto cresce em saudade,
Acredita, sou ontem.

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EROSÃO

Na areia fina da praia
Está o pássaro ferido
-caído.

Na pedra lisa do riacho,
Está o velho pescador
-pescando.

Na brisa lenta do Amazonas
Estão as ondas tristes
Chegando.

E o pássaro caído,
Morto na praia
Mudo, deixou de cantar.

E a pedra gasta,
Continente ontem,
Desfez-se: erosão

E a brisa lenta
…muito lenta
Parou.

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O HORIZONTE

Que busca o homem ao olhar o horizonte
Que busca ele, achar em sua melancolia silenciosa, na imensidão das águas e na grandeza do céu?

Ele diante da distância é pequeno!
Busca no perder de vista,
Seu pensamento disperso.
Tenta o encontro da água com o céu
E chega ao êxtase
Arrancado das entranhas deste horizonte perdido
E vem
Docemente
De coração saciado,
Rezar a oração do amor.

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AO MEU PAI

Lampeja vibrante
A chama indormida
Do cintilante clarão da vida

Segue…
Ilumina o caminhar
De conquistas passadas
E das que ainda vão ocorrer

…e é tão grande a sua luz,
Que não precisa de séquito.
Este é o seu rastro de brilho
A clarear o caminho
Na ida segura.
E a chama revolta
Ilumina a saudade
-grande e profunda
Que ainda arde
Com a separação.

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ANJO DA GUARDA

Dormi muito!
Meu anjo cansou-se de velar por mim
-teve insônia

No balburdio da vida,
Com sede de afeto,
Me precipitei a realizar.

Pobre do meu anjo,
Teve que dormir um pouco!
Fiquei só.
Perdi-me no caminho.
Andei errante: -fugi demais.

Agora,
Tudo é frio
O peito gela
O coração treme solitário
E omisso.

Por que dormi
Se tinha tanto a completar?
E meu anjo, pobre coitado,
Não sei onde o encontrar.

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HOJE OU NUNCA

Não perca tempo,
Pois estou a esperar.
Vem enquanto és flor
Com orvalho
Na manhã radiosa.

Vem,
Enquanto não murchas,
Pois como a flor,
O tempo fadiga
E mata
Não esquece
Que estas deixarão
De ter perfumes
E de ser belas.

E tu,
Hoje linda,
Perfumada e viva
E amanhã
Feia e morta.

Longo tempo
Te espero
Para que não sintas
Como a flor
A queda para a volta
À terra
Com renúncia
E humilhação.

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NOITE SEM ESTRELAS

Despreocupado
em dia de meditação a vagar,
achei uma noite
tosca e sem estrelas
com malícia e ríspida.

Num dia sem sol,
Quando parava a natureza,
Descobri uma noite.
Dessas escuras,
E propícias para o medo
onde nossa oração é ouvida
Como eco.

Em um dia comum,
Achei uma noite.
-a minha,
Estranhamente bela
E misteriosa,
Onde a brisa vinha em forma de afago.

Em infinitos dias
Achei uma noite,
E nessa noite infinita
Achei um amor.

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DECLARAÇÃO

De todas as criaturas viventes
As fêmeas são mais astutas
E a mulher a mais buscada,
Procurada e fugidia.
Este sublime ser
Converge as luzes
e mantém o segredo da vida.
De tal forma é soberana
Que agasalha por nove meses
Um ser que quando livre
Chora a separação.

Assim, é a mulher a perfeição
Buscada no inatingível
Sopro do amor.

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SIMPLESMENTE

Gosto de teu sorriso
Pelas coisas simples
Que ele tem

Igualmente aprecio o voo cósmico,
Porque acho que é simples;
Pois sobe, e leve,
Não deixa que a poeira
Venha a corrompe-lo
E tirar a sua pureza

A beleza e a simplicidade são irmãs
-no riso
-na carne,
-no espírito
-e na visão.

Assim,
gosto do teu sorriso
pelas coisas simples
que ele tem.

Carlos Nilson falando
Professor e poeta Carlos Nilson.

*Carlos Nilson foi amigo de meu falecido pai e também do meu saudoso tio Ita. Ele é pai dos amigos Carlos, Cláudio, Verê e Tayná, além de marido da querida Regina. Nas minhas mais antigas lembranças, recordo do professor, poeta e educador sempre coerente, muitíssimo inteligente e gentil. A ele, meus parabéns pelo conjunto da obra.

Elton Tavares

Fonte: Escritores do Amapá

Hoje: escritora Alcinéa Cavalcante lança livro “Caneta Dourada” em Macapá – @alcinea

A escritora, poeta e jornalista do Amapá, Alcinéa Cavalcante, lançará hoje (7 ), às 19h, na Biblioteca Pública Elcy Lacerda, o seu livro “Caneta Dourada”. A obra publicada pela editora Mágico de Oz e lançada no início de maio em Portugal, reúne belos poemas ou crônicas da autora tucuju. A programação contará com apresentação musical do cantor, violonista e compositor Rambolde Campos, além de declamação de poesia por três crianças. A entrada será franca.

Alcinéa é imortal da Academia Amapaense de Letras (AAL) e escreve com colorida ternura e leveza. Seu lirismo é recheado de referências da memória afetiva amapaense, que se confunde com seu admirável talento. Tudo que li de sua autoria, sejam poemas, contos ou crônicas, além dos incontáveis textos jornalísticos, foi feito com brilho peculiar da escritora.

Estou orgulhosão dela. Meus parabéns à escritora, que representa a literatura do Amapá nacional e internacionalmente. Sucesso sempre!

Serviço:

Lançamento do livro “Caneta Dourada”, de Alcinéa Cavalcante
Data: 07 de junho de 2019
Horário: 19h
Local: Biblioteca Elcy Lacerda, que fica na Rua São José, 1800, centro de Macapá.
Entrada: franca.

Elton Tavares

Associação Pop-Cultural do Amapá promove Feira Diagonal na Biblioteca Pública Elcy Lacerda

A Feira Diagonal, organizada pela Associação Pop-Cultural do Amapá – Ápice, surgiu como uma proposta de fomento da cultura nerd no Estado do Amapá.

A ideia é que ela ocorra uma vez por mês, geralmente, nos primeiro fim de semana.

Para tanto, a Ápice fechou parceria com a Biblioteca Pública Elcy Lacerda, que cede algumas salas, os corredores, a área externa e o auditório para a programação, que caminha para a sua terceira edição.

Além dos diversos estandes de vendas de produtos relacionados à cultura pop, também há estandes de troca de livros e, na edição de 02 de junho, teremos também a palestra “Cosplay: origem e inserção na política cultural”, ministrada por Leno Serra Callins; a exibição do filme “Shazam” e uma oficina de desenho (estrutura de desenho e hachuras) com o ilustrador Igum D’Jorge.

A programação começa as 15:00 com a oficina na Sala de Informática da Biblioteca e a exibição do filme no auditório, após o qual ocorrerá a palestra. A entrada é franca.

Além disso, quem quiser participar regularmente da Feira Diagonal com estande de vendas, deve entrar em contato com o Presidente da Ápice, Leno Serra Callins (96 9 8405-8900), ou a Vice-Presidente, Monique Ribeiro (96 9 9152-5588). O estandista contribui com R$ 10,00 no primeiro mês e, nos meses seguintes, dá alguma contrapartida para a Biblioteca, como copos descartáveis, papel e afins.

SERVIÇO

FEIRA DIAGONAL

Dia 02 de junho, domingo.
Horário: de 15:00 até 19:00
Local: Biblioteca Pública Elcy Lacerda
Entrada Franca

6º Encontro Nacional de Fãs de Romances de Época da Editora Arqueiro

Por Andresa Façanha Oliveira

Sobre o evento / Quando surgiu

O 6º Encontro Nacional de Fãs de Romances de Época da Editora Arqueiro é um encontro de leitores voltado para o gênero, que tem encantado e conquistado várias pessoas ao longo dos anos. Esses livros fazem sucesso no mundo inteiro graças à combinação de uma bela e improvável história de amor com um final feliz – ou, pelo menos, otimista -, além de apresentarem ótimos diálogos, intrigas e protagonistas inspiradoras!

A Editora Arqueiro é uma das pioneiras na publicação de romances do gênero e uma das mais populares do Brasil. Desde 2014, realiza encontros nacionais para divulgar seus lançamentos no nicho.

Macapá/AP entrou na rota desses eventos em 2015, por meio da mediação do blog Um Dia Me Livro, que foi escolhido pela própria Editora para representar o Amapá. Desde então, realiza, para o público local, diversos eventos em parceria com a Editora, sempre tentando agregar novos leitores e difundir cada vez mais a cultura literária no Estado.

Nesse encontro, serão apresentadas autoras como Julia Quinn, Eloisa James, Lisa Kleypas e muitas outras.

Como funciona

Esse ano, o encontro será realizado no dia 01/06/2019 (sábado), às 18h, na Livraria Leitura do Amapá Garden Shopping.

Durante o evento, as mediadoras do blog Andresa Oliveira, Talita Boução e Samara Boução apresentam os novos lançamentos e as próximas novidades de romance de época da Editora Arqueiro, batem papo com os leitores sobre livros já lidos, realizam sorteio de brindes e brincadeiras para entreter os presentes, além de servir um lanche para confraternizar com os fãs.

Público-alvo

O evento é gratuito e aberto a todos os fãs do gênero e até mesmo para os que não o conhecem e querem ter uma nova experiência literária.

Não é necessário ter lido os livros para participar, uma vez que o objetivo do evento é a apresentação dos lançamentos, que muitas vezes ainda nem chegaram nas livrarias.

AGIR Produções leva ao bairro Infraero I a 10ª apresentação do Sarau “De Janeiro a Dezembro”

O espetáculo teatral “De janeiro a dezembro” fará nesta sexta-feira (31), a partir das 18h, a 10ª apresentação do Sarau “De Janeiro a Dezembro” no Ateliê Supernova, localizado no bairro Infraero I. Esta edição do espetáculo será em parceria com a Cia Supernova, companhia de teatro que já atua há 14 anos no Amapá, e contará também com a participação da Cia Trecos in Mundos, apresentando o espetáculo Coração de Paiaço e uma exposição de artes visuais com F. Damasceno. Além de ser a anfitriã da vez, a Cia Supernova exibirá o espetáculo Travessuras do palhaço Pitomba e TeiTei.

Com cenas teatrais repletas de declamações poéticas, o espetáculo “De Janeiro a Janeiro homenageia importantes datas e eventos do calendário brasileiro e amapaense como: A Banda, o Equinócio, o dia do Índio, das Mães, do Folclore e outros, agregando performance, cultura popular, contação de histórias, música, teatro de bonecos e interação com a plateia. Os textos que compõem o trabalho são de autoria própria de Allan Gomes, mas também composto de textos dos autores Giuseppe Chiaroni e Ju Nicolau, Gato Preto e uma lenda indígena. O sarau proporciona uma troca afetiva com o público e a experiência de viver um ano repleto de arte e muita emoção.

Já tendo passado pelos bairros Jardim I, Congós, Pacoval, Renascer, São Lázaro, Laguinho e Infraero II, o objetivo é circular com o espetáculo por todos os bairros de Macapá e, futuramente, por todo o Estado. Artistas que queiram mostrar sua arte, aqueles quer só querem prestigiar, pessoas que nunca viram uma apresentação artística, são todos bem vindos.

Sobre a AGIR Produções Artísticas

AGIR Produções Artísticas é uma dupla formada por Allan Gomes e Ingrid Ranna com o objetivo de produzir experimentos cênicos e literários próprios e levá-los a todos os locais possíveis de serem apresentados, procurando instigar o pensamento crítico do público através de sutis críticas sociais. Desde 2015 a dupla vem desenvolvendo trabalhos artísticos pelo Amapá, tendo participado em 2017 do projeto “Vamos Comer Teatro” do Sesc Amapá, da Caravana Sesc das Ates nos municípios de Laranjal do Jari e Oiapoque.

Serviço:

Sarau De Janeiro a Dezembro
Data: 31 de maio (sexta-feira)
Horário: 18 horas
Local: Ateliê Supernova (Travessa dos Bandeirantes, 388, bairro Infraero I)
Colaboração: Pague quanto puder
Informações: 99101-7831 (AGIR Produções Artísticas)

Sesc AP promove espetáculos e oficinas na 13ª edição do Projeto Aldeia de Artes

 

A programação será nos dias 27/05 a 01/06, no Sesc Araxá, com diversas atrações artísticas.

A Fecomércio AP, por meio do Sesc AP realiza a 13ª edição do Projeto Aldeia de Artes com uma programação que contemplará espetáculos de Teatro, Dança, Circo e oficinas com artistas do Amapá, Rio de Janeiro e São Paulo.

O projeto Aldeia de Artes tem como objetivo incentivar a produção local através de suas produções em Artes Cênicas, na medida em que oportuniza através de outras produções da grade de programação, as trocas em conhecimentos para com as Artes Cênicas. Nessa edição, o evento contará com a presença de dois analistas em Artes Cênicas e Curadoria em projetos de ressonância nacional para emitir seus pareceres no tocante as Reflexões Cênicas sobre as produções locais, como forma de contribuição para as produções encenadas.

Confira a programação completa AQUI

Assessoria de comunicação do Sesc/AP

Nesta sexta-feira (17), rola o lançamento da antologia “Semente na Educação” na Biblioteca Pública Elcy Lacerda

Nesta sexta-feira (17), às 18h, na Biblioteca Pública Elcy Lacerda, ocorrerá o lançamento do livro “Semente na Educação”. A antologia reúne textos de 11 (onze) professores escritores. A obra foi escrita em dois gêneros, prosa e poesia. O evento integra a programação da 17ª Semana Nacional de Museus. A entrada será franca.

O evento foi organizado pelos escritores Lenilson Silva e Leacide Moura, com o objetivo de oportunizar que colegas professores pudessem colocar seus escritos à disposição dos leitores amapaenses e também para que o público possa conhecer novos autores e estilos.

De acordo com a escritora Leacide Moura, que também possui material na antologia, os textos em prosa retratam temáticas regionais amazônicas, de Macapá, Santana e localidades do estado do Amapá; as poesias buscam temáticas diversas, com apanhados no social, regional e universal.

Essa antologia é muito especial para os professores, que guardavam textos nas gavetas, e esta obra têm a felicidade de publica-los. A linguagem é simples, com uso da norma culta e empréstimos da cultura regional no empoderamento do encanto das palavras que conquistam a atenção do leitor”, pontuou Leacide Moura.

Além de Leacide, há outros 10 professores escritores da antologia Semente da Educação. São eles: Fabio Nescal, Amanda Moura, Ana Valéria Oliveira, Annie de Carvalho, Selma Vieira, Afonso Colares, Iramel Lima, Thayná Oliveira, Patrick Oliveira e Santiago Júnior.

Serviço:

Lançamento do livro Semente na Educação, dos professores escritores Leacide Moura e Lenilson Silva
Data: 17 de maio de 2019
Horário: 18h
Local: Biblioteca Elcy Lacerda, que fica na Rua São José, 1800, centro de Macapá.
Entrada: franca.

Elton Tavares, com informações da escritora Leacide Moura.

O RETRATO AZUL – Conto de Fernando Canto sobre sua mãe

Conto de Fernando Canto

E agora estou aqui, engolindo este silêncio seco, sem saber o que dizer para você.

Por tantas vezes você me acariciou os sonhos e os cabelos e me aparou de quedas vertiginosas, falando em anjos guardiães. Às vezes, em pequenos pedaços de iracúndia você me insultou. – Burro, não é assim, é assado, é grelhado. Eu ouvindo, eu burro. Você me ralhava, dizia até com ponta de aspereza para que eu não me importasse com a perda das coisas, as que considerava tolas. Eu parado ouvia, mas dentro a cachoeira vinha abrupta e profusa. Havia de sentar ou fugir, me rebelando do trato ou a enchente me afogava.

Agora estamos nós dois sem saber o que fazer… Você aí sentado nessa rede com olhos brilhosos de lágrimas, olhando fixo o quadro que lhe demos de presente de aniversário. E você tem vergonha de chorar porque homem não chora, ainda mais um homem como você que sempre foi forte e capaz de transpor os obstáculos e desarmar, sorrindo, tantas armadilhas.

Você tem lembranças e elas são fantasias de nuvens. Você quer concreta a sua lembrança. Ela surge na forma que você quer. Ela vive em sua memória de um jeito estranho, pois o cenho não esconde a projeção e você a sente como se tivesse medo. Mas medo você não tem nem está triste, apenas lembra.

Eu ao seu lado toco em seus cabelos e na sua dor. Você me abraça. Nós, é óbvio, não temos a mesma idade nem a mesma opinião sobre os golpes que o tempo deixa, pois os ventos mudaram para outras pontas da grande rosa e os valores brilham em forma e conteúdo ou, como se diz comumente, qualitativa e quantitativamente. Hoje você vale o brilho que sabe demonstrar com sua esperteza. Hoje os fios do bigode são meros adornos de vaidade e moda. – E não culpe somente as mãos do mundo. Cuspa, se lhe aprouver. Eu vivo a contragosto esses valores e trago em mim a amargura do meu tempo. No entanto, estou aqui junto a você, agora sentindo uma reação esquisita, frente a essa tela.

Minhas lembranças não são mais nítidas que as suas porque o amor que eu sinto é diferente. Você esteve mais perto, então uma imagem lhe traz uma série de outras mais claras, mais tangíveis.

Para mim muita coisa é confusa. Os sentimentos da monocromia em azul saltitam sobre o retrato emoldurado. Consigo ver um tempo que não é meu e me sinto intruso perscrutando o que pertence a seu mundo, me metendo, penetrando no interior de seus sentimentos e elaborando apenas fantasia.

O retrato espelhado em seus olhos mexe com você até a alma. Um doce para mim se sou capaz de adivinhar. Você segura a minha mão com força como se de longe estivessem lhe chamando. Você está em dúvida. Eu respondo. Não quero que você vá. Mas quem sou eu para lhe impedir a vontade se você ama, se você quer ir.

Minha lembrança migra para uma tonalidade tênue e vejo você sentado no pátio de nossa velha casa de madeira conversando com ela sobre as atividades dos filhos, sobre a TV em preto-e-branco que desejam comprar, e especialmente sobre sua situação financeira que não está nada boa, desde que foi obrigado a vender seu comércio pra pagar dívidas contraídas pelo sócio mau-caráter.

Vejo vocês saindo da missa. Uma, duas, mil esperanças a cada domingo. Um almoço farto é imprescindível nesse dia da semana. Você diz orgulhoso:

– Em minha casa nunca faltou comida. E agradece a Deus. E come as delícias que ela fez.

Embora sua risada fosse discreta, os olhos demonstravam a cor do seu pensamento feliz. Havia tristeza, é claro. Ninguém vive sem sentir o gosto dos diferentes venenos que ingere. Porém, há remédio para tudo, isso até hoje você diz. Você pratica e ensina que há antídoto para as agruras; que existem meios e formas para superar qualquer barreira da vida; que não é necessário beber veneno, mas se for inevitável engole-se aos poucos para depois vomitá-lo todo. Então você vomita. Muitas passagens da vida são venenosas e a ação do tempo é emética, aprendo.

Não posso me arriscar a duvidar. Você foi feliz e sofre hoje. Todavia, a sua felicidade acabou no momento em que a paixão incrustou definitivamente, acho, assim como a tinta na parede, como o asfalto no leito da rua, como a cola no papel. Ora, você sabia da durabilidade das coisas porque consertou mil objetos. Sabia que nem tudo é resgatável, gastou horas e sentimentos lidando com minúcias para não esgotar a paciência. Perseverava sempre, até o limite técnico de sua vocação de engenheiro e alma de artesão incomparável. Sim, você sabia que a parede tomba com a violência do temporal, que a tinta escurece e descasca com as intempéries, que o asfalto rompe com o tráfego dos veículos, que a rua desnivela com as erosões, que a cola desgruda com as variações da temperatura, que o papel rasga e amarelece com o manusear constante. Você sabia tudo isso, mas levou tempo para admitir.

Você embala a rede que me roça as pernas. Eu afago seus cabelos brancos com uma ternura de me causar surpresa. Nós sempre fomos amigos, mas havia uma barreira. Talvez a do excesso de respeito, pelo que a aproximação arrefecia. Foi preciso tempo e esta situação para que eu me decidisse amá-lo com toda a força do meu coração, entendo-o agora, dizendo dentro de mim e, se eu quiser, bem alto e retumbante, um Eu Te Amo para impregnar este quarto onde mora a intimidade de sua memória, onde você cultiva sua solidão particular.

Há uma relação inquebrável, uma linha, um foco de luz entre seus olhos e a tela. Nela você penetra aos poucos. Eu deixo, porque a luz é sua, a transcendência é clara. Suas mãos emitem uma aura azul.

Você não percebe que eu desliguei a luz. Você enxuga uma lágrima cadente com a mão esquerda no rosto brônzeo e transmigra com os olhos fixos para dentro da figura tão bem pintada por um artista amigo da família. Com as mãos em seus cabelos acaricio, talvez, a necessidade de seu sonho. Sinto que alimento sua satisfação, embora a sua dor esteja explícita no cenho errado, duro, mas substancialmente alinhado agora. Você não parece ter a idade que tem. Eu observo seu rosto pelas réstias de luz fugidas da sala vizinha, através das frestas das tábuas. Há nele inevitáveis rugas. Mas um sorriso paira em sua boca. Um enigma.

O passado corre no quarto como um rio de volta para a nascente. Recordo suas velhas histórias. Longas e quase inacreditáveis. Histórias amazônicas, histórias que, sabemos, são verdadeiras, pois você nos ensinou que a mentira não é necessária, é sempre uma coisa dispensável. Todas elas traziam a liberdade sonhada nos quintais. Todas abrangiam um mundo particularizado, impenetrável porque aconteceram antes da devastação da floresta, o que tanto o entristece e o preocupa quando assiste aos jornais da televisão. Fogo, antes, só o fátuo – a ilusão. Eu criança e mesmo já adulto absorvia os mistérios dos seringais, as técnicas descobertas por extrema necessidade no meio da selva, e o idolatrava quando contava das farras feitas com seus irmãos, sempre aprontando alguma. Ríamos muito no final dessas histórias.

Um sentimento enorme tomava conta de nossa família. Você encanecia rápido, dizia que não era de preocupação, era genético. Mas eu sabia. Sabia quando você se preocupava, porque depois do almoço, quando mamãe saía para o trabalho, você ficava se embalando numa rede larga, de cor branca, fixando a vista em algum ponto da parede, assim como o faz agora na direção deste quadro. Depois saía sozinho, de bicicleta, ganhando a tarde.

Só você e ela sabiam das dificuldades que nos afligiam. Nós, os filhos, tínhamos o que queríamos e o que pedíamos no limite de nossa pobreza. Nunca reclamamos de nossa infância. Éramos felizes e tentamos até hoje dar um sentido racional a ela, sem, contudo, perdermos o vínculo do encantamento pretérito com a chuva de desencantos que às vezes caía sobre nós. Há um remédio para cada veneno. Lembra? Você não lembra. Está quintessenciado.

Será que erramos com a ideia do presente? Assim você sofre demais, deixando transparecer a debilidade do corpo que balança a rede. Você ainda me abraça e olha o perto/longe. Está lá dentro conversando com ela, caminhando nos paralelepípedos da cidadezinha do interior, de mãos dadas, com seu termo de linho branco, galante e contente, demonstrando o seu amor, inclusive às solteironas invejosas das janelas coloniais. Você sobe a ladeira com um sorriso de homem maduro. Mais alegre, ainda, é ela, a professorinha da Prefeitura Municipal, a desfilar com a graça de seu andar miúdo e um sorriso fulgurante, ajeitando de vez em quando a rosa amarela presa aos cabelos negros. É final da tarde de domingo.

Você a imagina assim, como no retrato. O retrato azul, transposto e ampliado de uma velha foto da década de 40. Minha impressão é que você confunde o real e o imaginário. Permanece o silêncio. Nós dois aqui.

Ah, falta o violão, imagino eu, para que você dê uns acordes harmônicos e cante músicas do seu tempo. Valsas, valsas. Mas o silêncio é seco. É áspero. É doído. Acho então que não estou errado. Seu semblante está feliz, está tocando, está ouvindo músicas. Não há amor sem música. Para ela havia muitas, dessas que entrelaçam e fortalecem uma relação aparentemente ingênua.

De repente você escuta o apito de um navio passando longe. E a convida para viajar, conhecer outras terras, começar a vidinha a dois. O apito do navio transporta o engano do futuro. Você é um aventureiro nato. Não desiste nunca. Mas não impõe. Os dois vão viajando trinta e poucos anos. E gostam. Não enjoam jamais da cara do outro. As brigas que se sucedem são só de vocês. Ai daquele que meter a colher.

Até parece que ela vive. Você devaneando me faz acreditar. Eu acredito. Você me diz: – Eu não estou triste, só lembro.

Lembrar é fato legítimo. É viver o presente com lucidez. E você vive. Apenas viajou.

Paro de afagar sua cabeleireira branca. Você me abraça e não me olha. Sei, no entanto, que está sorrindo, que está feliz. Você levanta, me dá três tapinhas nas costas e vai assuar o nariz no banheiro.

Acendo a luz fluorescente. Olho o retrato mais uma vez. O quarto está repleto de luz. Mamãe está sorrindo na tela com os olhos molhados de ternura.