Sobre o lançamento do livro “Crônicas de Rocha – Sobre Bênçãos e Canalhices Diárias” e um momento memorável da minha vida

Foto: Flávio Cavalcante.

Sabem, queridos leitores deste site, a vida é feita de ciclos  e é necessário compreender que eles são diferentes, que podem nos agregar experiências novas e também transformadoras. Afinal, somos instantes.

Fernando Canto, Randolfe Rodrigues e Ronaldo Rony – Foto: Flávio Cavalcante.

E a noite de ontem vai ficar guardada na minha memória afetiva e no meu coração. E, ainda, estou tão grato que nem consigo alinhavar aqui, mas tentarei, para ficar registrado. Sim, falo de ontem, do lançamento do meu livro “Crônicas de Rocha – Sobre Bênçãos e Canalhices Diárias”. Ainda estou em êxtase, meio atordoado, sem o nervosismo de 24h atrás, extremamente grato e feliz.

Com meu tio Paulo Tavares e meus primos Ana e Elder – Foto: Sal Lima.

Quando perguntavam qual a minha profissão, sempre dizia que sou jornalista, assessor de comunicação e editor de um site. Mas que, um dia, gostaria de ser escritor. Pois é, me tornei, de fato, escritor, em maio deste ano, em plena pandemia, quando à convite dos renomados escritores e poetas Alcinéa Cavalcante e Mauro Guilherme, aceitei o convite e integro o grupo de 10 autores que possuem seus textos na coletânea “Cronistas na Linha do Equador”, lançada no dia 17 daquele mês.

Minha tia Inês e minha mãe Lúcia – Foto: Flávio Cavalcante.

Porém, antes disso, eu já me sentia escritor. Em abril passado, chegaram as caixas, direto do Correiros para a minha casa, do livro “Crônicas de Rocha – Sobre Bênçãos e Canalhices Diárias”, de minha autoria. De lá pra cá, minha ansiedade me corroía, ao passo que a pandemia não dava trégua para o sonhado lançamento.

Foto: Flávio Cavalcante.

Idealizado pelo jornalista Tagaha Luz, que já partiu para as estrelas, e prefaciado pelo meu herói literário e querido amigo, Fernando Canto, a obra foi impressa com o apoio fundamental do senador Randolfe Rodrigues.

Fotos: Sal Lima

E neste projeto, além deles, contei com a ajuda essencial de muitos amigos, pois o livro foi ilustrado pelo cartunista Ronaldo Rony e diagramado pelo designer Adauto Brito, com a revisão e projeto das jornalistas Marcelle Nunes e Gilvana Santos, além do apoio técnico da bibliotecária Leidaina Silva. Serei eternamento grato a todas essas pessoas envolvidas para a realização deste sonho.

Fotos: Sal Lima

Sempre valorizei e apoiei a literatura local e ontem fui prestigiado por tanta gente que costumo divulgar! A vida é um eco mesmo. A gente recebe o que dá. A livraria Public, ali no centro de Macapá, de propriedade do genteboníssima Dóris, ficou lotada de gente muito querida.

Foto: Flávio Cavalcante.

Tenho muitos amigos, disso posso me gabar, graças a Deus. Vários deles estavam lá ontem para dividir aquele momento comigo. Difícil é nomear todos, mas lembro de cada um e agradeço demais.

Fotos: Sal Lima

Ah, é preciso falar das pessoas que ajudaram nos corres no dia de ontem: muito obrigado Maria Lúcia e Emerson Tavares (minha mãe e irmão, que deram uma força), Ana Esteves (que fez toda a ambientação na livraria), Sal Lima (transporte de livros e fotos), Charles Chelala (articulação), Júlio Pereira (transporte e venda de livros), Zé Falcão (logística), Flávio Cavalcante (fotos) e Igor Maneschy e Rita Bacessat (Banca Rios Beer Cervejaria, que deram uma moral na celebração pós lançamento).

Com mestre Fernando Canto – Foto: Flávio Cavalcante

Sou jornalista, cronista, contista…um escritor. Mas não um orador. Nervoso então, é mais difícil falar, por isso agradeço aqui, onde me sinto confortável, com letras e frases cheios de amor e gratidão.

Com o senador Randolfe Rodrigues – Foto: Flávio Cavalcante

Aos citados aqui, também aos que foram até lá ontem, aos que divulgaram, aos que não foram, mas torceram ou ajudaram indiretamente  para que esse livro e seu lançamento se tornassem realidade, minha eterna gratidão.

Foto: Sal Lima

Lá estava minha família, mãe, tios, primos, meus amigos que estão sempre comigo, meus amigos dos tempos de escola, meus amigos da faculdade, meus amigos jornalistas, meus amigos poetas, meus amigos contistas, meus amigos crônistas, atores, artistas plásticos. Gente jovem e gente da velha guarda. Sabem, meu coração é quase sempre repleto de coisas boas. Claro que tem algumas gavetas nele para sentimentos nada nobres, mas hoje, especialmente hoje, ele é só gratidão e amor.

Com meu primo Pedro Jr. – Foto: Flávio Cavalcante.

Vocês são demais. Muito obrigado mesmo!

Elton Tavares

Foto: Flávio Cavalcante.

*Ah, A obra tá linda. O livro está à venda na Public Livraria ao preço de R$ 30,00 ou comigo, Elton Tavares (96-99147-4038).

O DIA DO MEU ANIVERSÁRIO – Continho apocalíptico de Fernando Canto

Continho apocalíptico de Fernando Canto

Quando eu tinha 106 anos, a idade do meu avô morto no sítio dele num incêndio de setembro, eu queria viver um tempo em que no planeta não existissem mais pessoas se matando por deus e por Dinheiro (– Ô utopia velha besta!). Queria viver num tempo em que o carnaval matasse o tempo e abrigasse só alegria. Viver num tempo de expressões puras em que nenhuma fagulha de bomba, uma cinza de lava vulcânica, um novo vírus fugido de laboratório caísse sobre mim. Queria mesmo que uma pequena paina de samaúma flanasse no céu girando como uma borboleta sem rumo e pousasse sobre mim como pousa a luz do sol, assim quando eu ousava abrir minhas janelas, descerrando as grades para enfrentar sem medo os perigos rondantes. E foram tantos os perigos que nem mais os lembro, nem saberia contá-los. Venci a todos.

Carrego em minhas costas uma longa idade, eu sei. Mas ainda ando cheio de esperança e sonhos, apesar da cadeira de rodas. Ardo na expectativa de assistir ao futebol na TV nas tardes de domingo, acompanhado de um gole de aguardente para matar a saudade do meu tempo velho, e acelerá-lo. Hoje minhas memórias pertencem aos outros. Trago em mim apenas minha própria vida, imperturbável até a morte, respaldado que estou por um contrato assinado em cartório.

Lá fora a política e a ganância dos humanos não morreu de dor. Elas não doem para quem vive dela. Doem para os dependentes, para os bajuladores que há séculos rodeiam os poderosos. Doem para os religiosos, que em nome do que acreditam, de tudo fazem, ao contrário do que querem acreditar. Quem dói em mim é a própria dor, quando chega lancinante, emergindo dos ossos e dos tendões. Nem digo das dores do coração, do rim e do fígado transplantados, pois tenho remédios eficazes. Mesmo assim sou otimista e tenho sonhos e esperanças.

Se fui rico como poucos, já não tenho mais amigos, nem parentes nem herdeiros. Se fui detentor de poder político e econômico, a troco do suor dos pobres, agora tenho uma ótima renda que me permite usufruir dos avanços da tecnologia, principalmente das descobertas da química e da medicina deste mundo capitalista, mesmo que na solidão – meu destino de viver uma vida longa vida – fique à mercê das ordens de cuidadores num degredo social necessário – e não voluntário. Num tempo de esperança – e não de espera – da morte.

Hoje alguém me disse que completo 116 anos, que pareço jovem. É que estou sem rugas e com uma grande cabeleira preta, mas não rio mais. Nada em mim é meu, nem a memória nem meus esquecimentos de lampejo, como já disse antes. KKKKK! Nem meus dentes os tenho mais para sorrir. São de titânio. Trago sob a pele – só eu sei – as verdadeiras rugas – ruas da face – que não aparecem no meu rosto verdadeiro. Ninguém me cumprimenta. Não há bolo de chocolate, não cantam parabéns a você nesta data querida. Não existe o primeiro pedaço vai para quem? Talvez porque não haveria lugar para tantas velas e o pulmão não aguentaria soprá-los de uma só vez. Ainda assim persisto no meu otimismo. Lá fora está tudo queimando como no dia em que meu avô morreu.

Acho que este mundo vai mudar devido a tempestade de fogo dos meteoritos insólitos e seus bólidos resplandecentes. Vai mudar, sim, pela ablução ardente dos degenerados, dos sobreviventes. Ora se vai. Já disse a vocês, que me cercam e rasgam minhas vestes, que a dor é a origem da espécie e os humanos chovem antes da morte vaticinada. Ah, eu não paro de sonhar e de ter esperança em ver este mundo destruído.

Jornalista Elton Tavares lança o Livro “Crônicas de Rocha – Sobre Bênçãos e Canalhices Diárias” em Macapá

Arte: Ana Beatriz Santana

Nesta sexta-feira (18), a partir das 19h, será lançado o livro “Crônicas de Rocha – Sobre Bênçãos e Canalhices Diárias” em uma livraria de Macapá. A publicação, de autoria do jornalista Elton Tavares, é uma seleção das principais narrativas feitas no site De Rocha, pilotado pelo autor, fazendo uma contextualização despretensiosa do modo de ser e viver no Amapá. A obra é recheada de crônicas sobre o cotidiano da capital amapaense, memórias da cidade, boemia, histórias e relatos sobre a vida do autor. O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) apoiou a publicação da obra.

Sobre o livro

A gíria “De Rocha”, que nomeia o site e o livro, é usada por grande parte dos nortistas amapaenses e paraenses quando querem passar credibilidade sobre determinado assunto. Assim, se algo é de verdade, é ‘De Rocha’.

E isso é o que o site De Rocha realiza, virtualmente, há mais de dez anos, divulgando tudo que faz parte da construção histórica da cultura amapaense. As crônicas falam de tudo, trazem muito de nossas tradições, peculiaridades e literatura, absorvida e canalizada para o contexto regional e pessoal do autor, com seu jeito de contar a nossa história ou relatar uma situação pessoal inusitada.

Dessa narrativa virtual diária de uma década, surgiu o projeto para editar uma publicação impressa, intitulada “Crônicas De Rocha – Sobre bênçãos e Canalhices Diárias”, contendo essas narrativas, com base nas vivências e experiências próprias ou de terceiros, em uma linguagem leve, simples e, até divertida, em alguns casos.

Chancelas

O livro, prefaciado pelo escritor e poeta Fernando Canto, é ilustrado pelo cartunista Ronaldo Rony e diagramado pelo designer Adauto Brito. Ambos profissionais renomados no mercado literário amapaense. Também contou com a revisão e projeto das jornalistas Marcelle Nunes e Gilvana Santos, além do apoio técnico da bibliotecária Leidaina Silva e o apoio cultural do senador Randolfe Rodrigues, que é historiador e entusiasta da cultura amapaense.

Reúno aqui neste livro os contos e crônicas sobre histórias e estórias de minha vida da cidade de Macapá, além de relatos sobre minha amada e preciosíssima família, bem como aventuras com amigos. Tudo narrado sob o ponto de vista da cultura do nosso povo, das nossas crenças, nossas tradições e lembranças“, ressalta o autor Elton Tavares.

Serviço:

Lançamento do Livro “Crônicas de Rocha – Sobre Bençãos e Canalhices Diárias”, do escritor Elton Tavares
Dia: 18 de setembro (sexta-feira)
Local: “Livraria Public”, no Villa Nova Shopping, localizada no Villa Nova Shopping, Avenida Presidente Vargas, 341 – Centro de Macapá.
Hora: 19h
Entrada franca
Apoio: Mandato do senador Randolfe Rodrigues.

Esperança – Crônica de Evandro Luiz

Foto: Floriano Lima

Crônica de Evandro Luiz

Na sede da associação, na assembleia de domingo ficou decidido que os pescadores sairiam bem cedo. O objetivo era ganhar tempo e surpreender os concorrentes. Assim eles chegariam primeiro nos grandes cardumes. Na segunda-feira, os pescadores se reuniram na praia e o que eles viram não foi nada animador. Era uma madrugada fria com ventos fortes e o mar agitado.

Como é costume na região, as mulheres e filhos dos pescadores, vão ate a praia desejar uma boa pescaria. Mas, nessa manhã, as famílias tinham pressentimentos de algo inexplicável até então nunca sentido. Estava para acontecer algo. Era como se o mar não quisesse ninguém no seu leito e muito menos retirar das profundezas o que viu nascer e crescer. Ondas enormes quebravam na praia. Os dez barcos pesqueiros tinham pela frente o primeiro desafio: varar o paredão de água que se formava na frente deles. Nem todos conseguiram.

A força do mar era tão grande que em poucos minutos dois barcos tombaram sem a mínima chance de voltar a navegar. Com muita habilidade e certa dose de sorte, os outros conseguiram passar. Os barcos iam se distanciando da Vila e cinco horas depois da partida de Taperebá os pescadores começaram a sentir que estavam diante de um novo cenário. Uma grande tempestade se aproximava.

Uma nova situação se desenhava antes nunca vista. Não se tratava mais de uma pescaria e sim sair daquela situação vivo. Ondas com mais de três metros surgiam como fantasma saindo das profundezas do mar com força gigantesca. A luta entre a natureza e o homem era infinitamente desigual. O mar balançava de um lado para o outro como um pugilista esperando o momento certo para dar o golpe final.

Barcos de Pesca de Vincent van Gogh

Mas do outro lado, tinha o seu Antônio Pinheiro, de 75 anos. Ele dizia, que desde pequeno, a relação com o mar sempre foi conflituosa, mas respeitosa. Mesmo sem nunca ter visto e vivido situação igual a que estava enfrentando, ele acreditava que iria contar para os netos mais uma história sobre o mar. Mas para isso, ele iria precisar lembrar e colocar em prática, todas as orientações repassadas pelo pai, também pescador. Uma delas era pegar as ondas de frente, furando o paredão de água. Nunca ficar em paralelas com elas e jogar fora tudo o que não for necessário.

Seu Pinheiro tentava enxergar algum outro barco. Não via nada. Bateu a angústia de existir a possibilidade da perda. A tempestade o levava cada vez mais pra longe. Sete dias se passaram. E todos voltaram para a Vila. Apenas Antônio Pinheiro não tinha aparecido. Ele foi dado como morto. A vila do Tapereba, conhecida pela alegria do seu povo estava de luto.

Mas, a milhares de quilômetros dali, um homem lutava pela vida. Já bastante desidratado, viu pontos de luz se movendo. Viu três embarcações. Um homem começou a acenar tentando dizer que deveria navegar bem atrás deles. Assim ele fez. Desligaram os motores e entraram em um igarapé. Dez minutos depois, cerca de 30 pessoas começaram a fazer o desembarque em silêncio. Foram levados para um barracão.

Sem entender o que estava se passando perguntou para um homem ao seu lado o que estava acontecendo. O homem disse em voz baixa, que eles estavam em Caiena. Iam atrás de emprego. O franco valia muito mais que a nossa moeda. Bastaria trabalhar dois anos para arrumar a vida. O perigo estava no desembarque. Como tinha sido um sucesso, agora eles iam morar nas obras até serem registrados como trabalhadores.

No dia do fichamento, um homem com uma prancheta na mão, foi direto falar com o velho pescador. O homem com forte sotaque francês perguntou: como você se chama? Prontamente, o pescador respondeu: Antônio Pinheiro. Muito bem seu Pinheiro, você começa amanhã às duas horas da tarde.E assim dois anos se passaram. Aí a saudade bateu. Falou com o seu chefe e disse que gostaria de ver a sua vila, sua família e seus amigos. O mestre de obra coçou a cabeça e falou bem devagar para que o seu Antônio entendesse:

“Pinheiro, tú és o meu homem de confiança aqui na obra, faltam apenas dois meses para o verão aqui na Amazônia terminar”. Aguenta pelo menos esse período”. E esses foram os dois mais longos meses da vida do velho pescador. Mas o dia chegou. Ele pegou a melhor roupa, com muitas cores, estilo caribenho, chapéu Panamá e foi direto ao banco. Retirou todas as economias. O gerente do banco chegou a perguntar para onde ele ia com tanto dinheiro. Chegou a propor o serviço que o banco tinha e ele receberia o dinheiro em uma agência próxima à vila.

Experiente, Pinheiro achou que melhor seria assim. Pelo menos não correria o risco de ser assaltado e perder todo o dinheiro. Foram três dias de viagem ate a vila de Manducuru. Uma cidade pequena, onde a maioria dos pescadores vendia seus produtos. Pinheiro querendo fazer surpresa, foi direto para um pequeno hotel. Ficou o dia todo trancado no quarto. Às sete da noite, saiu do hotel e foi direto para o porto. Alugou uma pequena embarcação.

Até a Vila seriam mais duas horas. Durante a viagem ficou imaginando, como seria recebido. Em um dia como hoje sexta-feira, a família estaria reunida jogando dominó e tomando a cachaça preferida a “Canta Galo” e como tira gosto um porco assado. Pinheiro desceu da embarcação e pegou seus pertences. O caminho era o mesmo de tantas idas e vindas, mas agora era algo especial.

Foi se aproximando da vila, uma mulher viu Pinheirrô, e correndo como ninguém chegou na casa de Antônio e disse que viu alma do pescador indo em direção a casa deles. O medo tomou conta de todos. A qualquer momento ele apareceria na clareira antes de chegar em casa. Quando o seu Antônio apareceu com aquele andar já conhecido de todos. Ninguém teve maias duvidas: Antônio tinha voltado sabe lá de onde. Foi um correria pra tudo quanto é lado. Gente para o mato, outros subiam em árvores, a maioria buscava o rio.

A situação ficou mais complicada quando o seu Antônio disse que ia dar um abraço em cada um deles.” No meio de gritaria ouviu-se dois disparos. O velho pescador caiu dizendo: “eu sou Antônio Pinheiro, o “Pinherrô”. O mon DIEU, qu’ est ce que j’ai fait. “o meu Deus, o que foi que eu fiz. ”Aos pouco uma multidão foi se aproximando e constataram que o velho pescador, agora iria pescar para sempre em outras águas.

Do lado de dentro: chegou o novo livro virtual da poeta Pat Andrade

Capa: Artur Andrigues

Em tempos de pandemia, a arte se reinventa para sobreviver, para seguir respirando, com ou sem máscara.

A poeta Pat Andrade tem em seus livrinhos virtuais sua principal fonte de renda atualmente.

Já publicou quatro deles, nesse período, sempre buscando parcerias dentro ou fora de casa, desde a primeira publicação: Uma noite me namora conta com arte do também poeta, Pedro Stlks; a segunda – Em tempos de lonjura – tem a participação de seu filho, Artur Andrigues, que ilustrou e diagramou toda a edição. O terceiro livrinho, Delírios e subterfúgios, foi uma publicação solo.

Agora, chegou a vez de Do lado de dentro – de novo com a parceria do Artur, que fez a capa.

A publicação conta com 16 poemas autorais que refletem bastante o título do livro. Como diz a poeta, na apresentação da obra: “o lado de dentro de muita coisa: da casa, do cotidiano, da vida, da morte, do amor, de mim mesma”. Um livro cheio de experiências pessoais traduzidas em poesia, na sua forma mais simples: o verso livre.

Uma particularidade do trabalho da Pat Andrade é a maneira como vende seus livros: a poeta deixa os compradores à vontade para pagar o que quiserem por cada livro. Portanto, o leitor é quem sabe quanto custa adquirir suas publicações.

As vendas são feitas por ela, diretamente. Preferencialmente pelo Whatsapp. O pagamento é feito por transferência bancária. Contatos pelo fone (91)99968-3341 – Pat Andrade.

Sobre Fernando Canto – Por Renivaldo Costa – @renivaldo_costa

Nosso querido amigo Fernando Canto.

Por Renivaldo Costa

O Fernando Canto é um dos seres humanos mais extraordinários que conheci até hoje. Me permito chamar de “irmão” a poucos amigos. Fernando é um deles. Nos conhecemos há 25 anos, quando ele ainda morava em Belém e desde então estabelecemos uma relação de amizade e apreço. Muito daquilo que escrevo tem forte influência de Fernando. Afinal, cresci lendo seus livros.

Em maio Fernando Canto completou 66 anos, data que nem pudemos comemorar como de praxe em razão da pandemia. Ele nasceu em 29 de maio de 1954 em Óbidos, mesma terra que gerou outros ícones da cultura brasileira como Inglês de Sousa. Suas incursões pela música e literatura são conhecidas pelo Brasil afora, mas creio que o Amapá precisa redescobrir ainda Fernando Canto.

Outro dia, numa conversa com o ex-deputado Antônio Feijão, ouvi o seguinte comentário: “Se tivesse nascido em qualquer outro lugar do mundo, o Fernando Canto seria considerado um legado cultural pelo seu povo. O Amapá precisa olhar mais pelos seus heróis”. De fato. A contribuição dado por Canto ao longo de sua trajetória no Amapá é um legado do qual temos que nos orgulhar. Obras como “O Bálsamo” e “Eqüino Cio” são dignas de premiações internacionais.

Este editor com o Canto. Meu amigo e herói literário.

Ademais, foi somente na gestão de Fernando Canto que a Confraria Tucuju ganhou notoriedade.

Provavelmente uma das maiores contribuições de Fernando Canto à cultura amapaense tenha sido a “marabaixeta”, um marabaixo fora de época que ele idealizou num momento em que esta manifestação passava por momento agônico e corria o sério risco de desaparecer. À época, Fernando sofreu críticas mas hoje – quase 23 anos depois – sua iniciativa pode ser melhor entendida. Hoje proliferam grupos de marabaixo e até já se promoveu um festival dessa manifestação, ideia aliás que nosso sociólogo defendia há mais de 20 anos.

Renivaldo, com Fernando e outros ilustres cidadãos do Laguinho, na “marabaixeta”.

Por fim, encerro esta homenagem relembrando uma história ocorrida com o Fernando Canto e contada pelo saudoso amigo Hélio Pennafort. “Levado por amigos, o Fernando Canto participou de uma animada festança lá para as “blelbas” do furo do Assacu. Conhecendo a rígida disciplina que nesses lugares impera no salão, Fernando, depois de muita excitação, conseguiu aproximar-se de uma brejeira cabocla, triste e solitariamente encostada na desnivelada parede de paxiúba:

A senhorita me permite esta contradança?
– O que ?
– Vamos dançar?
– Num dá. Eu só danço abenetando.

Fernando encabulou. Desencabulou. Novamente convidou. Mas qual… a dama encasquetou: – Já disse, só danço abenetando.

Sociólogo de vastos recursos, imaginou tratar-se de algum passo novo e, quem sabe, poderia adaptar-se a ele no decorrer da contradança. Insistiu: – Mas sim, vamos dançar?

– De novo? Puxa, só danço abenetando.
– Pois eu sei dançar abenetando.
Mas quando?… A Bené num tá.”

VIVIDA – Crônica de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

Parem de jogar coisas sobre meu túmulo. Parem, parem, parem. Parem de escrever palavras vãs em cima dessa pedra de mármore tão quente do sol do meio do mundo. Parem de chorar, parem de lamúrias sobre o túmulo deste ex-pobre sofredor, chorão até à alma: que chorou por mulheres, chorou por amor, chorou por seus amigos e por causas perdidas, chorou por falta de dinheiro, mas nunca chorou de fome porque não tinha fome ao ver criancinhas raquíticas passarem fome na periferia da cidade quando foi candidato a um cargo público. Só chorou por elas. Por Deus.

Parem. É uma ordem. Parem de chorar sobre meu túmulo porque nele só estará o lugar da alma presa e um velho corpo que se diluirá em gotas destinadas a um poço artesiano no Japão.

Ainda é tempo de parar. Morte, ó morte!

Não me irritem. Este corpo aqui embaixo foi feliz. Apesar de sua cara às vezes brava, às vezes rabugenta, cantou, tocou, gozou, ironizou e riu de ouvir e de contar piadas. Parem de falar em morte e tragam-me uma vitória do meu time no campeonato nacional, debaixo de um sol alegre de domingo e com o sabor de uma cerveja impecavelmente gelada.

*Do livro EquinoCIO – Textuário do meio do mundo, Paka-Tatu, Belém, 2004.

“A Literatura no Amapá e a Lei Aldir Blanc”: em live, Conselho de Cultura e Associação Literária do Estado do Amapá, promovem escuta para debate e esclarecimentos neste sábado (12)

O Conselho Estadual de Política Cultural do Amapá (Cepc-AP) e Associação Literária do Estado do Amapá (Alieap), realizarão, a partir das 18h, neste sábado (12), o encontro virtual “A Literatura no Amapá e a Lei Aldir Blanc”. A live, que será transmitida pela plataforma Meet (https://meet.google.com/ayk-zkbr-uvg), tem o objetivo repassar as últimas atualizações sobre a lei, tirar dúvidas de como o escritor, editor ou profissional da área literária poderá fazer o seu cadastro para receber o auxílio e pontuar contribuições/sugestões  que possam somar com os gestores públicos, com foco nas especificidades e necessidades do segmento.

O evento virtual contatá com as participações do presidente e vice-presidente do Cepc-AP, Cléverson Baía e Cleide Façanha, receptivamente; do presidente da  Alieap, Ricardo Pontes; do diretor da Biblioteca Pública Estadual Elcir Lacerda, José Pastana e da conselheira de Estado da Cultura no segmento Literatura, Jô Araújo.

Conforme Jô Araújo, o encontro será democrático e propositivo. A conselheira reforça que o convite a participar é aberto, além de escritores, poetas e amantes da Literatura, à sociedade civil.

Escutas públicas, como a que faremos hoje, com a participações de escritores, poetas e demais trabalhadores do segmento da Literatura, fazem parte de um planejamento do Cepc-AP. Após escutarmos os segmentos de Cultura, produziremos um relatório que servirá de subsídio para as políticas públicas do Estado. Por meio desses encontros, pretendemos receber as sugestões, tomar ciência sobre as dificuldades e especificidades de cada segmento artístico/cultural e como melhor podemos atendê-los”, pontuou o presidente do Cepc-AP, Cléverson Baía.

Sobre a Lei Aldir Blanc

A Lei Aldir Blanc, criada para atender o setor cultural durante a pandemia de Covid-19.As inscrições iniciaram no último dia 17 de agosto e seguem até o dia 17 de setembro e não devem ser prorrogadas. O benefício é de três parcelas de R$ 600, mas deverão ser pagas em uma única vez totalizando R$ 1.800.

Os fazedores de cultura que ainda não fizeram suas inscrições devem acessar o formulário eletrônico no site cadastrocultural.ap.gov.br, criado especificamente para a inscrição. O cadastro é coordenado pela Secretaria de Cultura do Estado do Amapá (Secult), mas com seleção definitiva realizada pela Dataprev, sistema do Governo Federal.

Sobre o Cepc

O Conselho Estadual de Política Cultural é um órgão vinculado à Secretaria de Estado da Cultura (Secult), que integra o Sistema Estadual de Cultura, com a função de elaborar, acompanhar, executar, fiscalizar e avaliar as políticas públicas de cultura estabelecidas no Plano Estadual de Cultura (PEC).  A entidade é formada por 20 conselheiros, dos quais 16 são titulares e quatro suplentes, que representam os agentes da cultura amapaense.

Elton Tavares – Escritor, jornalista e editor do site Blog De Rocha.

Biblioteca pública do Amapá reabre para leituras e consultas por agendamento

Biblioteca Pública Estadual Elcy Lacerda – Foto: Maksuel Martins

Por Fabiana Figueiredo

A Biblioteca Pública Elcy Lacerda, localizada no Centro de Macapá, reabriu na última terça-feira (8) para receber o público externo. Os visitantes precisam agendar o dia que irão usufruir do espaço. Inicialmente, os empréstimos de livros não são permitidos.

O prédio estava fechado desde março, quando a pandemia de Covid-19 chegou no Amapá, com restrições para serviços não essenciais.

De acordo com o diretor José Pastana, regras foram definidas para que o usuário possa visitar o espaço com segurança.

“Nós elaboramos o nosso protocolo de atendimento público levando em consideração as orientações dos protocolos sanitários e decretos do Poder Executivo. Vamos retornar nossas atividades de forma gradual, atendendo o usuário das 8h às 12h, por agendamento”, informou.

O agendamento deve ser feito através do e-mail [email protected] ou na recepção da biblioteca. Só podem entrar pessoas com idades entre 12 e 60 anos.

Podem ser realizadas pesquisas nas salas “fundamental, médio e superior”, “amapaense”, “circulante”, “afro-indígena”, “infanto-juvenil”, e “obras raras e periódicos”.

Biblioteca Elcy Lacerda possui um acervo com mais de 60 mil livros — Foto: Rita Torrinha/G1

É obrigatório:

uso de máscaras;
limpeza das mãos com álcool em gel e aferimento de temperatura corporal;
levar garrafa de água de uso individual;
manter o distanciamento social de 2 metros;
uso de luvas e viseira facial (a critério do usuário);
álcool em gel de uso individual (a critério do usuário).
Será permitido o acesso de cerca de 100 pessoas no prédio, que significa 50% da capacidade. O empréstimo de livros deve retornar 60 dias após a reabertura, assim como a possibilidade de doações de livros usados. As outras atividades ainda não têm data para retornar. Tudo dependerá da situação epidemiológica e decisões do governo do Estado.

Fonte: G1 Amapá

O Pedido – Conto de Mauro Guilherme

Conto de Mauro Guilherme

Antes de nascer fiz um pedido a Deus: queria ser feliz no amor. Nasci, cresci, casei e era feliz. Mas a minha esposa não era. Andava sempre triste pela casa. Ela lhe perguntava por que ela estava assim, mas ela não sabia me dizer. Então, eu rezei a Deus para que ele desse uma luz sobre o problema. Aí tive um sonho com ele: vinha de barba branca, cabelos grisalhos, com um cetro na mão. Eu perguntei-lhe sobre o que me inquietava. Pedi que me dissesse por que eu era feliz no casamento, mas a minha esposa não.

Ele me respondeu com voz de trovão: “Quando antes de nascer pediste para ser feliz no amor, esqueceste que isso poderia influenciar a felicidade alheia. Para que fosses feliz no amor, tive que fazê-lo casar com a mulher que amavas. Mas a mulher que amavas, não te amava. Ela casou contigo e não pode se separar de ti, por força do teu pedido. Tu vais ser feliz para sempre, mas ela não”.

Acordei daquele sonho sem alegria. Eu amava uma mulher que não me amava. Por isso ela era infeliz. Eu também não poderia ser feliz assim. De noite, antes de dormir, pedi a Deus que anulasse o meu pedido. Quando amanheceu, ela havia partido. Eu envelheci e morri infeliz no amor. Mas ela casou-se de novo, e seu casamento durou a vida inteira. Agora vou nascer novamente. Deus veio até mim e perguntou-me se eu tinha algum novo pedido. Eu disse que tinha: queria ser feliz no amor, mas só se quem eu amasse, me amasse também. Deus sorriu, abençoou-me e partiu feliz para o céu.

*Do livro “Histórias de Desamor” (2012).

CONSTELAÇÃO BORDADA NO PEITO – Conto de Isabela Lima

Conto de Isabela Lima

Mamãe prepara mingau de macaxeira com leite. Sorri enquanto me conta do arroz queimado no almoço. A panela ficou com o fundo da cor-da-noite-na-amazônia. Mamãe não está com raiva. Ela ri. Faz tanto tempo que a vejo raivosa pela casa. Mas hoje, por algum evento cósmico, ela ri. Meus olhos marejam enquanto rio também. Marejam, marejam me levando pra um tempo onde a única coisa que corria era o rio lá pelas bandas do Guajará, no Pará.

Eu não fazia ideia do tempo do relógio, mas sei que quando o sol estivesse quase baixando já era aproximadamente cinco da tarde, a mãe dizia. Íamos de galera, os primos todos, pra pular no rio e brincar de “pira-mãe” ou fazer acrobacias na água. Certa vez, um vento medonho preencheu a paisagem e o céu mudou de azul pra cinza num segundo. Uns trovões se aproximavam e eu olhava do meio da ponte o horizonte. Um primo mais velho se aproximou contando que se eu batesse repetidas vezes, bem forte, os braços, era capaz de voar. Disse ainda: “mas tu tens que acreditar com força pra poder acontecer”. E saiu. Prontamente fechei os olhos e bati forte os braços em movimento de passarinho. O vento chacoalhava os cabelos e o corpo envergava feito o ingazeiro. Fiquei ali por um bom tempo, num devir-pássaro, até que uma voz familiar gritou: “— sai dessa chuva, menina! Daqui a pouco tu apanha uma doença e eu quero ver”.

O vento soprava a noite mais pra perto. No interior da casa o meu peito, agora, ardia junto ao fogão à lenha. A mãe com a tia assavam enormes tucunarés e amassavam a bacaba, enquanto as filhas mais crescidas arrumavam a mesa com a toalha de flor, farinha torrada, pratos e talheres. A pequena lamparina evitava que engolíssemos espinhas. Pronto! O pequeno milagre da vida acontecia.

Insurge os dezembros entre as memórias. As mesmas lamparinas com seus foguinhos-bailarinos iluminando as trilhas no mato e de repente estávamos na capela celebrando o nascimento do menino Jesus. Aos poucos, barcos e canoas atracavam no porto. Pelo barulho do motor já se sabia quem vinha adiante: é o compadre Dico com a Maria. Chegavam sempre anunciando aquilo que mais me fascina na vida: o renascimento e a partilha. É natal. Sim! Natal no meio do nada. E eu queria dizer que o nada muito me interessa já que as estrelas e vaga-lumes ainda piscam bonito pra caramba dentro do meu peito.

Distraidamente as lembranças chegam rompendo muros, embalando a enorme fotografia pendurada do lado de dentro. Consigo ouvir de relance ainda, lá fora, os rituais de pesca dos botos sob a luz da lua. Na cabeceira da ponte as histórias de visagens arregalavam olhos, enquanto um medinho vinha vindo até se agasalhar no colo de alguém. Ninho. Tela a céu aberto. Cheiro de tempo entranhado. Ou qualquer outra palavra-ponte que permita o fluxo dos instantes.

Arte e Literatura do Amapá em evento virtual mundial: a atriz, professora e escritora amapaense, Lucia Morais, participa do Focus Brasil New York

A atriz, professora, arte-educadora, contadora de histórias e escritora amapaense, Lucia Morais, participará, a partir das 15h desta sexta-feira (11), do Focus Brasil New York. O evento, iniciado na última quarta-feira (9), com abertura feita por nada menos que a cantora paraense Fafá de Belém, objetiva a divulgação e fortalecimento da cultura brasileira no exterior, principalmente nos Estados Unidos. O encontro mundial é realizado de forma on-line, nos canais do Youtube e Facebook do evento.

O evento é também um reconhecimento aos autores, editores e iniciativas que se destacam no panorama literário brasileiro. Ou seja, aos que contribuem para a expansão da presença literária brasileira, dentro e fora do Brasil.

A programação inclui painéis, palestras, presença de personalidades da literatura brasileira, editores, formadores de opinião e homenagem aos destaques literários. Lucia Morais fará sua participação no painel Arte Visual e Literatura. A escritora será a literatura amapaense representada no exterior.

O Focus Brasil New York conta com a participação de autores brasileiros de vários gêneros ou estilos literários e escritores de outras partes do mundo. O evento encerra nesta sexta-feira com show da dupla gaúcha Kleiton & Kledir.

Lucia Morais – Foto: arquivo da artista

Sobre Lucia Morais

A atriz Lucia Morais tem origem indígena e nasceu em Macapá. Além de atuar no teatro, é especialista em literatura infantil e juvenil pela Universidade Cândido Mendes. Ela escreve e conta histórias sobre sua naturalidade, sobre lendas e histórias do Norte do Brasil, em especial do Amapá. A artista, que possui uma carreira sólida há 18 anos no Rio de Janeiro (RJ), onde reside, também é incentivadora da leitura e é engajada em projetos de luta em prol da arte e cultura. Inclusive já montou três bibliotecas comunitárias na capital carioca.

Lucia Morais faz apresentações de mediação de leitura e contação de histórias em escolas, creches, bibliotecas, eventos literários / Culturais pelo Brasil. Também ministra oficinas de Mediação de Leitura e Contação de Histórias para Professores e público interessado em diversos lugares do Rio de Janeiro: Faculdades, Bibliotecas, Escolas, Creches, ONGs e outros.

Ela coordenou e realizou ações de Enraizamento e Fortalecimento Comunitário em diversas comunidades cariocas.

Lucia Morais fez muito sucesso e rodou o Brasil com a peça “Arandu Lendas Amazônicas”, um passeio poético entre as lendas amazônicas, a um Brasil ancestral, com direção de Adilson Dias. “Arandu”, do dialeto tupi-guarani, significa um misto de sabedoria e conhecimento. No espetáculo, a atriz conta histórias da grande floresta de nossa ancestralidade indígena, inspirada nas histórias contadas por sua avó. Ela é uma trabalhadora na perpetuação da cultura amapaense.

Conto com a audiência dos amigos, adeptos da literatura a prestigiarem o Focus Brasil New York. Estarei no painel “Arte Visual e Literatura, um encontro fundamental”. Honro minha ancestralidade! Sou Tucuju. Sou do Amapá“, comentou Lucia Morais ao convidar os amapaenses para assistir sua apresentação.

Elton Tavares, com informações de Lucia Morais

DESTEMPO – Conto de Lulih Rojanski

Conto de Lulih Rojanski

Era a primeira vez em muitos anos que eu não via Florentino Ariza* sentado sob a acácia da praça, que eu não pensava em Florentino Ariza. A manhã havia parado de correr às oito horas, cristalizada em um tempo imóvel, no ar inerte, no súbito silêncio do trânsito e dos cachorros que suspenderam a travessia da faixa de pedestres para olhar em direção às nuvens, pressentindo a imobilidade do tempo. O mendigo errante, que naquele dia morava no canteiro, ouviu a tristeza das raízes das papoulas sob a terra há dois meses sem chuva. Uma menina que viera de longe para assistir ao sol dos trópicos, com sua pele morim e sua sombrinha floral, paralisou-se atenta ao céu, espremendo entre as pálpebras o azul juvenil das íris.

Pelo tempo que durou o destempo. Passaram-se minutos que podem ter sido horas, que podem ter sido dias, meses, qualquer medida oficial de tempo, quando a manhã voltou a correr. Mas os relógios nos pulsos, nos bolsos, nos painéis ofuscados pela claridade das oito horas marcavam ainda oito horas. Foi quando os cachorros prosseguiram a travessia, o mendigo moveu o silêncio em direção à menina de sombrinha floral, que por sua vez apressou o passo atrás das borboletas que sobrevoavam as papoulas. Somente Florentino Ariza não voltou a aparecer sob a acácia. Foi necessário o destempo para apagar minha lembrança de Florentino Ariza.

*Personagem de Gabriel García Márquez em “O amor nos tempos do cólera”
**Conto publicado no livro Gatos Pingados

O DUPLO-ESTRANHO SOU EU? – Conto de Isabela Lima

Conto de Isabela Lima

É que ninguém ouve o que diz uma garganta entupida na multidão. Os olhos queimando, ardendo, falando uns sinais. Ninguém. A gente meio que se volta para projeções espalhadas nas vitrines das lojas nas ruas. Não é vazio um corpo sem rosto, sem tom, sem voz? Os teus gritos ultrapassam os vidros à sua frente?

Aos oito anos de idade, passeando pela feira, toquei no seio de uma manequim. Eu não acreditava que aquela mulher estava ali por vontade própria na mesma posição há horas. Queria saber sua história: de onde viera, quem a produziu e o porquê estava lá. Queria? Não mais, pois um olhar masculino reprovou o meu jeito de transver o mundo.

Mas oh, o ser humano é todo capaz de abrir novamente as suas frestas e compreender o que se passa lá fora. E há momentos em que ninguém nos olha. Então você sai de você e vai ser estrangeiro no mundo. Ele é seu palco. Mas eu fui sendo atriz pra dentro. Bem lá no fundo. Ouvi dizer que se quisermos algum dia mudar o exterior precisamos despertar e recriar primeiro o que temos por dentro. Descer até os porões? Arrancar os segredos da própria pele? Nossos muros ameaçando romper a céu aberto. Seus pensamentos ficam a ponto de estilhaçar quando alguém vem olhar mais de perto?

Raimundo perguntou, certa vez, como era viver fora da própria pele. Se eu gostava do que via lá fora, quando ia lá fora. Assim, pergunta à queima-roupa. Calei como quem espera uma sinfonia passar pela rua. – A gente sente o peito rasgando, meu bem. E se você força um pouco mais o cordão rebenta e o mundo te engole. Mas assim, eu não saberia explicar se ele primeiro te seduz antes de mastigar, ou se espera as tuas cores explodirem sozinhas.

E o que entendo de olhos, de jeito, de timbre, de mundo… De sinfonia? É que tudo isso, despretensiosamente, transpassa as janelas e rebenta no peito. Há um silêncio entre a travessia e o estouro: volto na feira, aos oito anos, tocando no seio daquela mulher.