A MOEDA – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Os cães se espantaram com o barulho da pá de encontro à terra seca e dura. Ele arrumou as moedas que tilintavam dentro do bolso de modo que não ruidassem. E continuou a cavar. Cavava ali desde Janeiro.

O condutor da carroça de leite foi quem primeiro viu aquele vulto sob a lua cavando a esmo ao lado da Igreja.

Dona Doroteia e Dona Faustina que vinham rezando de cabeça baixa, um pouco depois das cinco horas da manhã, enxergaram o vulto como se fosse um fantasma debaixo da chuva fina.

Erguendo-se, e curvando-se.

– Voltamos Comadre Dorotea? – Calor que não Faustina, pode ser uma alma penada com a sina de cavar. Nós vamos para a Igreja. Para a Igreja iremos.

O padre no começo não se incomodou muito. Mas aquele era o terceiro mês. Que aquele homem cavava. O monte de terra que de início de avolumava próxima a Igreja, agora já impedia a visão dos fiéis que desciam a rua vindos lá do Porto do sal.

O padre já fora ter com ele. Até mesmo lhe levará uma caneca de água e um naco de pão. Objetos, que o homem apenas pusera sobre uma folha de papel que mais parecia um mapa de todo rabiscado. O homem cavava, chovesse, fizesse sol, de noite, ou de dia, como se não ficasse cansado nunca.

O próprio chão da Igreja já registrava rachaduras, pelas pancadas interruptas do homem com a sua enxada dentro do buraco, que agora ultrapassava alguns palmos acima da sua cabeça.

Um dia veio o Governador, o Prefeito, o Bispo da Capital e o Chefe de Polícia.

Vieram acompanhados de uma comitiva de tradutores, poliglotas, digitadores de Morse e entendidos no alfabeto dos surdos mudos. Veio o carro dos bombeiros que teve dificuldade em estacionar devida a largura da rua reduzida a um pequeno espaço entre dois montes enormes de terra. De longe ainda se avistava as duas torres da Igreja com seus relógios agora quase ao nível do monte de terra retirada do grande buraco.

O alvoroço foi quando alguém notou que a frente do Porto, este cavar desesperado provocará um afundamento desta margem da Baia, que via suas águas se encaminhando para o buraco, embora ainda estivessem dele separadas por uns dezoito metros de terro firme. E que muitos barcos navegando próximos ao canal, lutavam com suas velas e motores, para escapar do fluxo da correnteza, escavando a margem da baixa em direção ao buraco. E o homem cavava.

As autoridades gritaram por um megafone. Tenha cuidado vamos descer. Desceram tradutores. Telegrafistas. Especialistas na linguagem dos surdos mudos, em línguas mortas. Todos retornavam exaustos e desorientados. O homem falava um misto de Neozelandês arcaico.

Repetia Abazulu, Utulazu,e Oitibabo. Os jornais apregoavam que deviam prendê-lo. Uns militares propagavam sua explosão ali mesmo dentro do buraco, que agora já era uma grande cratera.

Depois D’maior…O Guarda Noturno da terceira rua após a Igreja o viu sentado na beira do buraco extenuado e sujo, já madrugada adentro, com alguma coisa na mão que parecia uma moeda.

E por outras noites seguidas notou que o cume do monte de terra perdia altura. O homem que cavará estava entupindo o buraco com a terra amontoada numa velocidade muito grande.

De maneira que a Romaria de Julho foi realizada na Igreja sem o incômodo das pancadas fortes do lado de fora, do cheiro de podre de pântano vindo do buraco, e da lama grudando nos sapatos dos fiéis.

Na eleição de Novembro o Governador se reelegeu.

Com o Slogan Abazulu Utuzalu Oitibabo.

 

*Osasco (SP) – BRASIL 2020.

O FANTASMA – Conto de Mauro Guilherme

Conto de Mauro Guilherme

É meia-noite, mas fantasma não existe. O meu carro deu prego em frente ao cemitério, mas fantasma não existe. O motor morreu o que pelas circunstâncias daria um trocadilho. Vejo o portão do cemitério se abrir e um homem, não um fantasma, caminhar na minha direção. O homem vem capengando – todo coveiro é coxo. É um homem baixo, magro, que veste um gibão e usa uma bengala.

Ele pergunta seu eu quero ajuda, eu lhe pergunto se é mecânico. Ele responde que não, que é coveiro, mas diz que todo mundo entende um pouco de carro. Eu lhe digo que não entendo nada. Ele dá uma olhada no motor e diz que a bateria morreu. Não gostei nada do “morreu” dele. Parece que foi dito de propósito. Ele volta ao cemitério: foi buscar uma bateria lá dentro para dar uma carga.

Depois de quinze minutos, nada. Fui atrás dele porque fantasma não existe. Vejo um homem vindo em minha direção. Este não manca. Eu lhe digo que vim atrás do coveiro, que ficou de trazer uma bateria para dar carga na do meu carro, mas não voltou. O homem responde que nem poderia voltar porque o único coveiro ali era ele. Eu lhe digo que não pode ser e lhe dou as características do coveiro: um homem baixo, magro, vestindo um gibão, que mancava e usava uma bengala. Ele me diz esse era o coveiro antigo, mas que já morrera há dez anos.

O coveiro vai embora, e eu fico só. A lua cheia toma o céu, enfeitando a noite, mas a escuridão parece piorar. Uma sombra passa sobre mim, desaparecendo no ar. É meia-noite ainda no meu relógio, que deve ter parado. De repente, ouço um uivo. Vejo alguém passar correndo em direção a outra rua, uma mulher de branco, muito pálida, vinda não sei de onde, entra no cemitério, um homem alto, roupa rasgada, coberta de areia, vai caminhando por ali.

Peço um Uber e vou para casa. Amanhã de manhã levarei um mecânico para ajeitar o meu carro. Entro em minha residência e tranco bem a porta. Ouço um cachorro – e não um lobo- uivar, porque fantasma não existe. Começa a chover e trovejar, há um tropel de cavalos, uma porta range, gritos vêm da rua, ouço um assobio, a luzes apagam, há alguma coisa estranha no banheiro e ela pula sobre mim. A nossa luta é encarniçada, e saímos rolando pelo chão…

As luzes voltam. Eu me vejo sozinho no assoalho com a camisa toda rasgada. Chamo a polícia, que chega rapidamente. Eles entram na casa e procuram por todos os cômodos, mas não encontram ninguém. Avisam outras viaturas sobre o fato criminoso. Pedem que amanhã eu vá na delegacia fazer o boletim de ocorrência. Quando eles saem, tranco novamente bem a porta, porque fantasma não existe.

Temos Rei! – Conto de Ronaldo Rodrigues

Conto de Ronaldo Rodrigues

No ponto seguinte, embarcou o cego. Movia-se com tal desenvoltura que se poderia jurar não se tratar de um cego. Orientava-se com um tosco cajado e trazia na mão direita uma taça:
– Eu me chamo Samuel! Por favor, não tenham medo de mim!

Samuel falava de uma maneira extremamente solene, uma característica marcante, que ganhava maior autenticidade ao entrar em choque com sua pobre indumentária, uma túnica suja e esfarrapada até as últimas fibras:
– Venho das páginas sagradas de um livro muito antigo! Estou aqui para sagrar o Rei!

Eu sabia da existência de Samuel através de algumas pessoas minhas conhecidas que comentavam sobre um mendigo cego e louco visto todos os dias nos ônibus da cidade em busca de um Rei:
– Este povo ingrato, a quem tenho a missão de guiar, resolveu ignorar as palavras daquele que me enviou! Não querem mais o Rei semeador de jardins espirituais! O Rei utópico, o Rei onírico, não querem mais! Querem um Rei que possam tocar com as mãos e beijar os pés! Querem um Rei para lhe pagar tributos e esperar sua proteção, sua misericórdia! Se assim querem, assim terão!

Agora eu estava ali no ônibus constatando pessoalmente a presença de Samuel, ouvindo suas palavras, que me pareciam lúcidas demais.

Num dado momento, Samuel ergueu sua taça e um silêncio arrasador foi sentido no interior do ônibus, como uma presença física:
– Vejam todos! Dentro desta taça, trago o óleo perfumado que irá ungir o Rei, que deve estar entre vocês, passageiros deste ônibus que cruza esta metrópole!

Samuel percorria o ônibus procurando o Rei, olhando detidamente cada passageiro. Ninguém escapava daquele olhar opaco, parado nas órbitas, perdido no caos, mas que tinha uma iluminação diversa de qualquer outra luz.

Eis que seu olhar parou exatamente na minha direção. O meu olhar tentou fugir, por não se considerar digno de um olhar tão sábio. Nesse momento, Samuel ganhou grande vivacidade:
– Encontrei! Encontrei o que tanto procurava!

Fiquei perplexo e isso se estampou em todo o meu ser. Senti que todos os olhares se fixaram em mim. E não só os olhares das pessoas que se encontravam naquele ônibus. Me senti sendo visto por todas as pessoas do mundo.

Samuel ergueu sua taça e derramou todo o seu conteúdo sobre minha cabeça. Um óleo que exalava o mais agradável odor que já pude sentir. A voz de Samuel ganhou proporções acústicas de uma gigantesca trombeta:
– Temos Rei! Temos Rei! Temos Rei!

Imediatamente, o trânsito parou e todas as pessoas que estavam no ônibus se ajoelharam diante de mim, em adoração. Fato esse seguido por todos os que se encontravam nos outros carros e também pelos pedestres que enchiam as ruas, pessoas que estavam nos edifícios, nos comércios, nas casas.

Seguindo essa corrente, percebi que já o bairro inteiro fervilhava em aclamações ao Rei, isto é, eu. E não demorou um segundo até o país e o mundo inteiro se fazerem ouvir numa só voz:
– Temos Rei! Temos Rei! Temos Rei!

Quando eu já havia percebido que não se tratava de um sonho e, investido de toda a responsabilidade e autoridade que aquele cargo me conferia, desci do ônibus, com a temerária tarefa de governar aquela gente instável, desordenada e confusa.

Samuel, designado por sagrada decisão daquele que o enviou, seria meu conselheiro supremo. Ele havia, no momento da revelação do meu destino, retomado sua faculdade de enxergar.

Sentei no meu trono triunfalmente, aclamado pela infinita multidão, apenas uma pequena parcela do povo que eu deveria conduzir sem nunca mais poder olhá-lo novamente, pois, no exato momento em que Samuel recuperava sua visão, eu perdia a minha. Para o resto da vida.

A REVOLUÇÃO – Conto de Mauro Guilherme

Conto de Mauro Guilherme

Eu sabia que aqui seria ruim, mas não sabia que seria tanto. Cheguei aqui há um ano, mas parece que estou aqui há um século. Algumas regras eu entendo, mas outras não tem sentido. Fogo e tridente todo dia tudo bem. Uma vez por semana o caldeirão fervente, nada contra. Mas essa história de proibir festa, bebida e mulher, não tem nenhum sentido.

Questionei o gerente da minha ala, que era a ala justamente dos que gostavam de festa, bebida e mulher, por que lá não havia nada disso. Ele me respondeu que cumpria ordens superiores. Então eu lhe pedi para falar com o seu superior, e ele me disse que o seu superior não atendia ninguém.

Eu me retirei, mas não havia desistido de mudar aquela situação. Nos meses seguintes comecei a planejar uma revolução. Muitos, como eu, não estavam gostando nada da atual gestão. Eles tinham medo do governante do local, mas eu lhe prometia que no meu governo, festa, bebida e mulher estariam liberados.

Fiquei sabendo das justificativas da proibição. O governante não liberava as festas e as bebidas, porque não queria ver ninguém alegre ali. Mulheres existiam, mas estavam na ala feminina. Segundo me disseram, ele não deixava homem e mulher misturados, porque quem juntara Adão e Eva fora Deus, não ele.

O interessante é que enquanto havia aquela proibição, uma vez por mês o governante promovia alguém para o céu, uma regra totalmente absurda, e que me dava medo. Durante toda a minha vida, nunca gostei de padre, igreja ou reza. O meu negócio era bar, bebida e mulher. Eu nunca quis ir para o céu, aquele lugar sem graça.

O nome do escolhido saia pelos autofalantes. Toda vez eu respirava fundo, quando ouvia um nome que não era o meu. Eu estava no lugar certo, onde eu queria estar. Eu só tinha que mudar algumas coisas, e tudo ficaria às mil maravilhas, e estava me preparando para isso.

Depois de um ano de planejamento, explodiu a revolução. Não era só a minha a minha ala que estava insatisfeita, todas as alas estavam. Eu prometi que faria as mudanças necessárias para que todos tivessem o que quisessem, caso chegasse ao poder.

O poder central tinham muitos ajudantes, mas nós éramos era quantidade bem maior. Alguns ajudantes do governo, quando viram que a luta estava perdida, renderam-se. Outros foram convencidos a se unir à nós, sob a promessa de serem anistiados.

Foram dez dias de luta, até que vencemos a peleja. O governante havia fugido, não se sabe para onde. Tomei posse no governo sem muitas formalidades, mas não cumpri algumas promessas feitas. Agora que era governante, tinha que governar com responsabilidade.

Mulher, bebida e festa, só uma vez por mês. Para os outros, porque para mim todo dia. Afinal, eu era o governante. Aboli a regra de promoção para o céu, que não estava entre as reivindicações, porque ali quem mandava era eu. Tive que prender alguns dos meus aliados mais fiéis, porque viviam dando pitaco na minha administração, e assim por diante.

Depois de seis meses da minha administração, comandada com mão de ferro, como era certo se fazer naquele lugar, o clima começou a ficar quente de novo entre os residentes. A insatisfação era gera.

Por isso explodiu uma nova revolução, comandada pelo antigo gestor, que, finalmente, resolvera dar as caras. Ele prometera o dobro do que eu havia prometido, razão pela qual foi deposto facilmente, até porque de tanto prender os meus aliados, acabara ficando sozinho.

Foi a primeira vez que o vi. Ele estava sentado na cadeira executiva para me julgar. Só que eu não estava muito preocupado, pois eu já tinha sido condenado ao fogo eterno. O que poderia ser pior? Ele se levantou, caminhou até onde estava e me olhou fixamente. Depois me promoveu para o céu.

O AMOR EM TEMPOS DE PANDEMIA – Conto de Osmar Júnior

Conto de Osmar Júnior

Aquele sítio abandonado era como que mal assombrado. Entrávamos por uma porta de ferro amarrado com arame. O vírus deixara tudo deserto, sem pessoas. Ali já fora local de festejos, pois havia restos de lixo como se tivessem desmontado um grande palco com cenário e luzes, pedaços de coisas sem sentido, um cemitério de objetos onde as coisas não se encaixavam.

Era tão abandonado que achamos na casa um quarto com uma boa cama, espelho, guarda-roupas com tudo que precisávamos, lençóis, colchas…enfim, a energia funcionava e achamos também um gerador. Isso era importante, pois a energia faltava por dias. Deixamos o resto da propriedade do jeito que encontramos, como se ninguém ali habitasse.

Então passamos a fugir pra lá. Passávamos o tempo fazendo amor e assistindo velhos filmes em uma TV com um DVD que ficou no espólio daquela família, cujos membros tinham morrido todos, todos mesmo. Às vezes dormíamos, outras vezes voltávamos para nossas casas com os fantasmas de nossos entes. Era uma volta triste, mas por algum motivo nós fazíamos aquilo numa espécie de tradição, de culto à morte e trégua para o nosso sexo exagerado sentir saudade.

Era comum o desapego material e não tinha desemprego. Na verdade desapareceu a ambição e o egoísmo, mesmo assim ficamos um pouco arredios naquela cidade quase fantasma. Homens e mulheres pararam de ter filhos, eram estéreis, silenciosos e tristes. Um departamento público funcionava com uma só pessoa. Um voo por semana, às vezes nenhum, com poucos passageiros em avião pequeno. O abastecimento de mercadorias era feito por embarcações piratas. Aquela ilha era tão triste e vazia quanto Chernobyl, não tinha festas, ninguém cantava.

Ela me perguntou sobre o meu dia. Eu apenas disse que o cara da funerária tinha me falado que não existia mais outras doenças, a morte tinha chegado a um estágio de banalidade, mas a maioria morria da peste ou de depressão, muitos eram os suicídios, alguns à beira de suas próprias covas.

Foto: Estadão

Era algo que fazia desaparecer sentimentos e lágrimas. Eram sacos plásticos para sepultar pessoas, não rezávamos, perdemos Deus de vista, apenas levantávamos a mão como sinal de adeus, enquanto o carro fúnebre passava.

Inventamos uma espécie de arqueologia, eu e minha namorada, entrávamos nas casas fechadas de famílias que morreram ou abandonaram e foram para cidades mais populosas. Olhávamos as histórias descobríamos as verdades e ligações familiares, como romances secretos e outras curiosidades. Era uma romântica invasão de privacidade.

Nós perdemos tanta gente naquela ilha… ficávamos lembrando dos conhecidos e dizendo: “Lembra do fulano?” “Sim, quando ele morreu?” “Não lembro”… Nós continuávamos vivos e a cada dia mais jovens. Éramos dois fantasmas e não sabíamos.

Resenha do livro “O Senhor das Moscas”, de Willian Golding – (Por Lorena Queiroz – @LorenaadvLorena)

Por Lorena Queiroz

A natureza humana é extremamente complexa e curiosa. O que seria a matriz que nos segura enquanto sociedade? A Democracia? As regras e leis? Os costumes? Analisando a história da humanidade, nos deparamos com guerras, disputas, entre outros episódios, que trazem a reflexão do quanto já subjugamos, ou fomos subjugados, durante séculos. O que nos faz bons ou maus? Somos um produto do meio, sendo esta condição definidora de nosso caráter? Nascemos bons e somos corrompidos pelo meio? Ou nós somos seres maus que precisam de Leis como um freio para nossos desejos mais infestos?

Foi toda essa reflexão que me trouxe Willian Golding, em Senhor das Moscas. O autor da obra, que viu os horrores da Segunda Guerra Mundial – acredito eu – estava vivendo o confronto que faz o homem desacreditar da humanidade.

Golding, em sua obra, narra a história de garotos, entre seis e doze anos, que ficam isolados em uma ilha deserta após um acidente aéreo. A obra não dá muitos detalhes sobre a vida dos meninos fora da ilha. A única coisa que sabemos é que são evacuados da Inglaterra. Acredito que eram os evacuados da Segunda Guerra. Quando Londres foi bombardeada, crianças foram evacuadas para outras localidades mais seguras. Mas isso é uma suposição minha. Não fica claro no livro. Eram ingleses, e o orgulho inglês aparece em vários momentos quando os garotos buscam por motivação .

Ralf e Porquinho são as primeiras personagens a aparecer. Encontram uma concha que é tocada por Ralf, fazendo assim, os garotos que ainda estavam espalhados pela ilha, se agruparem. Logo os garotos começam a surgir. Entre eles, Jack, que surge com um grupo de garotos que logo se auto denominam, caçadores. Os meninos estabelecem que precisam de um líder, e que isso consistirá em regras. Uma das regras mais importantes estabelecidas por Ralf é que uma fogueira teria que estar constantemente acesa, para que um possível resgate pudesse vir até eles. Porquinho era a voz da razão em meio à imaturidade daqueles garotos, mas ninguém o levava a sério, simplesmente, pelas suas características físicas.

Os garotos enxergavam a ilha como algo mágico; todas as fantasias e aventuras que qualquer garoto deseja teriam se realizado. “A Ilha é nossa”, diz Ralf, em sua primeira visão. Mas logo isso mudaria. Ocorre que as divisões de tarefas começam a gerar conflitos, pois Jack e seu grupo de caçadores tinham a fixação na caça. “Precisamos de carne”, dizia Jack, quando interpelado por Ralf, em relação às tarefas que eram de sua responsabilidade. Jack havia despertado em si e nos demais meninos o prazer pela caça. A humanidade caça desde os primórdios, está embutido em nossa natureza. Mas até onde isto é justificável? Caçar para alimento e sustento ou caçar pelo prazer de subjugar o mais fraco? Estaria embutido em nosso DNA, algo animalesco que desencadeia o prazer em matar? Duas palavras: caça esportiva.

Dentro deste emaranhado, se inicia uma disputa pelo poder entre Jack e Ralf. Os meninos – agora antagonistas – representam características em nossa sociedade. A fragilidade da Democracia mediante a sedução da tirania. O senhor das moscas – ou, simplesmente, Belzebu – é a representação do mal que existe no âmago dos seres humanos. Algo que aparece o tempo todo nos mais variados formatos. No fim das contas, a única verdade, é que sim, somos animais.

* Lorena Queiroz é advogada, amante de Literatura e devoradora compulsiva de livros.

O NOVO DILÚVIO – Conto de Mauro Guilherme

Conto de Mauro Guilherme

O meu nome é Fausto e não Noé, mas sou o único sobrevivente do segundo dilúvio do mundo. Ninguém veio me avisar que a haveria um dilúvio, mas sonhei que haveria, e acreditei. Sendo mais verdadeiro, nas primeiras trintas vezes que sonhei, achei que era para jogar no bicho, mas como nunca ganhava, tive que mudar a minha interpretação do sonho.

Não tive que construir arca nenhuma, porque como sou pescador, já possuía o meu próprio barco. Não é um barco grande como a arca de Noé, mas para mim dava. Como sou solteiro, não trouxe mulher, nem filhos para a minha viagem. Como no meu sonho ninguém mandava eu trazer animais, viajo sozinho.

A única coisa que meu deu trabalho foi ter que comprar alimentos e muitas outras coisas para a minha viagem de quarenta dias e quarenta noites. Eu sou pescador, mas não iria passar todo esse tempo só comendo peixe, até porque eu não sabia se ainda haveria peixe depois do dilúvio. O tempo pode ter passado, mas Deus continua com a mesma matemática dos quarenta.

Choveu muito, e tudo alagou. A minha cidade virou um rio gigantesco. Então eu fui navegando e vivendo como podia. Mas agora parou de chover. Se deu os quarenta dias previstos, não sei, isso é com Deus. Eu não fiquei contando os dias da minha navegação. Eu fui naquela da música do Paulinho da Viola: “Faça como um velho marinheiro/Que durante o nevoeiro/Leva o barco devagar”.

Fui levando o barco com toda a perícia que o tempo me deu, porque a chuva era forte, não era garoa, e porque as águas do rio ficaram turbulentas por muito tempo. Eu não sei por que eu fui escolhido para sobreviver ao segundo dilúvio, mas certamente o fato de eu ser marinheiro contou. Quem não soubesse navegar, iria afundar na primeira onda.

A chuva parou faz dez dias, e desde então procuro terra firme, como fez Noé. Só não tenho um pássaro para mandar por aí a procura de pedaço de folha ou graveto, a fim de saber se já existe terra em lugar. Antes eu estava mais tranquilo, mais toda carne acabou, e agora só como o que pesco.

Por outro lado, quando estava chovendo eu ficava sempre ocupado em pilotar o barco, para que ele não afundasse. Mas depois da tempestade veio a bonança, e ponha bonança nisso. Por isso fiquei sem ter muito o que fazer. Agora é tudo como aquela música do Martinho da Vila, que Deus o tenha: “É devagar/ É devagar/ É devagar é devagar devagarinho…

O que é que estou vendo ali!? É terra firme, graças a Deus! O senhor ouviu as minhas preces! É só maneira de falar porque não sou muito de reza, e não rezei para encontrar terra firme. Direciono o meu barco para aquele oásis no deserto. É também só maneira de falar também, porque água aqui é o que não falta. O que faltava era terra firme.

Cheguei na ilha, porque agora toda terra firme tem que ser uma ilha. Vejo que a ilha tem árvores, e árvores frutíferas. É um local belíssimo, onde a areia da praia é branca como a areia da praia de mar. Passo a explorar a ilha e vejo que existem pequenos animais, por isso caço logo um com o meu arpão para o jantar.

De repente, deparo-me com uma cabana. Aí a coisa ficou complicada na minha cabeça. Entro na cabana, mas não encontro ninguém lá. Só que é uma cabana que tem cama grande, mesa, uma cadeira, utensílios de barro ou madeira. Até forno de barro existe. Logo, alguém mora aqui. Preparo a minha janta e devoro a carne com o tamanho da fome de vários dias só comendo peixe. Estou muito cansado da longa viagem de barco. Por isso deito na cama e durmo.

Acordo no outro dia, e parece que estou no paraíso quando vejo uma mulher nua deitada ao meu lado. Mulher nua e linda. Levanto-me devagar e, como homem da casa, saio para caçar. Mato outro animal. Subo nas árvores para colher frutas também. Sou recebido pela mulher nua com abraços, beijos e carinho. Ela não disse nada, embora eu lhe fizesse muitas perguntas. Só fez sorrir para mim. Eu olho para o alto e digo: Obrigado, meu Deus, por atender as minhas preces! Dessa vez é verdade. Foi o único pedido que fiz para Deus durante a viagem: Que encontrasse uma mulher.

Durante os primeiros trinta dias fui vivendo aquela vida maravilhosa, com uma mulher que não conhecia e que não dizia nada. Para mim estaria tudo bem, se não fosse o fato da nossa união nunca se consumar. Ela era de uma santa ingenuidade. Foi então que tive uma ideia. Saí pela floresta e voltei com uma maça. Dei para ela. Foi tiro e queda. Ela começou a falar no mesmo instante. Também começou a me olhar diferente.

Eu estava enlouquecido de amor, e ela também. Assim, nos conhecemos biblicamente. Aquele mulher não poderia ser da terra, deveria ser do céu. Depois ela me disse que se chamava Eva, e eu lhe disse que me chamava Fausto. Seu semblante mudou. Ele perdeu o sorriso, deu-me um tapa no rosto e me chamou de cafajeste. Ela estava esperando alguém com o nome de Adão.

Mais vida, menos grana – Crônica de Elton Tavares

Noite dessas, ao conversar com amigos e dizer que não guardo um vintém do que ganho com o meu suado trabalho, eles ficaram assombrados. Disseram que é loucura, que ‘issos’ e ‘aquilos’, especialmente sobre reservas econômicas para possíveis emergências. Eu disse que prefiro mais vida e menos grana.

Não, não é que eu não goste de dinheiro. Claro que gosto, mas tudo que ganho, no batalho e sempre honestamente, é repassado para custos operacionais e caseiros. O restante é gasto e muito bem gasto em vida. E não sobra nadica de nada para acumular.

Além da minha incorrigível falta de perspicácia financeira, nunca ganhei somas consideráveis com meus trampos, seja este site, na assessoria ou escritos (sim, vivo literalmente de palavras). Mas o que entrou no meu bolso, apesar de eu não conhecer essa tal de economia, jamais foi desperdiçado.

Eu bebo e não é pouco. Como da mesma forma. Gosto de viagens e dos momentos em que fiz um monte de merdas legais com os meus brothers. Isso tudo custa caro. Em nem todo o dinheiro do mundo poderia comprar aqueles dias de volta. Ou seja, mais vida, menos grana.

Quando não usei minha grana pra curtir a vida com amigos, ajudei pessoas. E essa é a melhor forma de torrar os trocados. Como disparou outro gordo louco no passado: “não quero dinheiro, eu só quero amar”. Grande Tim!

Falando em citações (amo usar frases de ídolos), uma vez o Belchior disse: “e no escritório em que eu trabalho e fico rico, quanto mais eu multiplico, diminui o meu amor“, na canção “Paralelas”. Boto fé nisso.

Algumas pessoas que conheci no passado, amigos e até familiares, após se estribarem, ficaram um tanto pavulagem demais e com suas vidas muito menos divertidas.

E isso me recorda o bom e velho Johnny Cash, que certa vez pontuou: “às vezes eu sou duas pessoas. Johnny é o legal. O dinheiro causa todos os problemas. Eles lutam”.

Ou os Paralamas do Sucesso, na canção “Busca a vida”: “…Ele ganhou dinheiro, ele assinou contratos, e comprou um terno e trocou o carro. E desaprendeu a caminhar no céu …e foi o princípio do fim!“.

Aos que desaprenderam o caminho, deixo a canção-poema : “Desejo que você ganhe dinheiro, pois é preciso viver também. E que você diga a ele pelo menos uma vez quem é mesmo o dono de quem“.

No meu caso, sigo dando mais valor em viver do que em poupar para um futuro incerto. Menos grana, mais vida, meus amigos.

É isso!

Elton Tavares

O Bar é uma Antena Social – crônica porreta de Fernando Canto

Caricatura do artista plástico Wagner Ribeiro

Crônica porreta de Fernando Canto

Cansados estamos de saber que o bar é um espaço democrático, principalmente se é popular, aberto. No entanto é o lugar onde as ideologias emergem até com fundamentalismo. É um mundo em que os fatos ali ocorridos e as histórias contadas também são objetos de exposição de valores, de ocultação de defeitos e de promoção e marketing pessoal, demandados pelas incertezas do futuro, pelo processo político e pelas contingências da história.

Bar Xodó – bebi muito aí.

Logicamente também é um espaço de festa e de lazer; local onde as emoções se eriçam e se cruzam, onde notícias quentinhas esclarecem novos conhecimentos; amores secretos são aprofundados ou descobertos e por isso geram descontroles emocionais e físicos entre pessoas que até então nunca podíamos pensar tão valentes ou covardes. No bar as emoções se revelam em paradoxos inusitados.

Antigo Bar do Abreu da Avenida Fab – Foto: O Canto da Amazônia

Talvez por isso, e nesta crônica despretensiosa, eu possa entrar no mundo do bar para dizer o quanto ele é, também, um gueto disfarçado, às vezes uma roda violenta de preconceitos, que envolve quase todos os integrantes dessas assembleias ocasionais. O bar, antes de ser um balcão onde as pessoas ficam em pé ou sentadas em bancos altos consumindo bebidas alcoólicas, é também uma unidade de medida de pressão, segundo o Aurélio. O interesse pelo bar tem um condicionamento sociológico que vai além da mera vontade de tomar uma cerveja gelada, ou de querer ficar só por alguns momentos, ou mesmo se envolver em assuntos antagônicos aos problemas sentidos para não ter que cair na real.

Cada qual sabe a casca que tem para aguentar o que ronda cada cabeça pensante e a sua sentença sarcástica, pois inúmeros são os que ali vão para somente consumir o inconsumível, ou seja, a paz que o outro carrega. Os chatos, de certa forma dão vida ao bar.

Canto, Emerson, eu, Sal e Sônia – Bar da Maria – 2018

A família dos chatos é grande, tradicional, seus membros estão em todas as partes; muitos são perdulários e só demonstram humildade quando perdem tudo no jogo ou quando têm suas contas confiscadas por ordem judicial. Mas esses são os que conseguiram se ascender na escala social à custa do dinheiro público. Mesmo depois que são soltos da cadeia continuam chatos e arrogantes. Existem os chatos desmemoriados: aqueles que contam as mesmas piadas, mas sempre se esquecem dos finais, assim mesmo só eles riem da sua própria graça. Os chatos pedintes são os mais comuns. Revelam-se humílimos, franciscanos ao extremo e matam a mãe para acertar em cheio no alvo da comiseração alheia. Ao contrário desses existem os chatos barulhentos, que no jogo de futebol, na televisão, gritam tanto que cospem no copo de todo mundo num raio de três metros. E haja perdigoto na cerveja dos torcedores contrários. É claro que se podem identificar muitos desses elementos e até classificá-los, o que para tanto peço ajuda dos companheiros que não se autorrotulam nesse metier. Quem sabe não façamos um tratado sobre esse bloco afamado e muito peculiar, cujos elementos também são conhecidos cientificamente como insetos anopluros da família dos pediculídeos, os famosos Phthirius pubis (L.), que vivem no mundo inteiro sugando as pessoas.

Carnaval do Abreu da Fab, em 2016. Foto: arquivo pessoal de Elton Tavares

Desde muito tempo frequento bares e neles tenho encontrado pessoas de todos os tipos: políticos, beberrões inveterados, jogadores de futebol, profissionais liberais, padres, estudantes, gente de preferências sexuais diversificadas, funcionários públicos, poetas, jornalistas então… No bar há excelentes contadores de piadas e cantadores da noite com suas alegres vaidades. Mas também há os professores de Deus, que do alto de suas sapiências enojam, mas recebem os olhares irônicos dos mais humildes que acham que eles “só querem ser o que a folhinha não marca”.

Eu, Fernando Bedran e Fernando Canto – Mestres em boemia produtiva (papo bom demais)

O bar pode dar condições para o diagnóstico de uma sociedade. É uma antena extremamente poderosa e propícia para captar preferências individuais e coletivas. Pode ver! Pelo meu lado, faço minhas observações e bebo. E vice-versa. Malograda alguma companhia, só penso no ditado do Paulinho Piloto: “passarinho que acompanha morcego dorme de cabeça pra baixo”.

(Do livro “Adoradores do Sol”, de Fernando Canto. Scortecci, S. Paulo, 2010).

Resenha do livro “O sol é para todos”, de Happer Lee – (Por Lorena Queiroz – @LorenaadvLorena)

Por Lorena Queiroz

Não tem como você não refletir sobre o mundo quando escuta o título “O sol é para todos”. A não ser que você seja um sujeito muito alheio, você não consegue ignorar o significado do que este título diz. Esse foi o título dado a esta obra que é um clássico da literatura mundial, e que, apesar de impactante, eu discordo que seria a tradução de título mais fiel. Pois se tem uma coisa que eu entendi, é que, o sol não é para todos.

O livro se passa em plena depressão na década de 30 em Maycomb, uma cidade fictícia no sul do Alabama. Tudo nos é contado através dos olhos de Jean Louise Finch, a Scout. Ela e seu irmão, Jem, desfrutam da infância juntos. Cuidados por Calpúrnia, uma empregada preta que já estava neste lar antes deles nascerem.Eram arteiros mas com inteligência superior a de outras crianças. Tudo lhes tinha sido ensinado pelo pai. Tendo essa a superioridade intelectual incomodado a professora de Scout, que ao perceber que a menina já sabia ler, ordena-lhe que o pai pare de lhe ensinar “errado”. O pai era Atticus Finch, um advogado de personalidade cativante e justo, que assume a defesa de um preto acusado de estuprar uma mulher branca.O racismo é um dos temas centrais do livro. Atticus compra uma briga com sua comunidade. O que não é surpresa quando lembramos que nesta época ocorria a segregação racial nos EUA, e era o Alabama.

Ocorre que a narrativa não limita -se as questões raciais, e sim, abrange as diferenças como um todo. Desde o vizinho que Scout, Jem e seu amigo de férias, Dill, atazanavam com uma curiosidade infantil e mórbida, pelo fato do mencionado vizinho nunca sair de casa.

Atticus assume a causa mesmo sabendo que estava perdida. Assume o risco e a hostilidade de uma cidade porque acredita na inocência daquele homem, e alguém teria que fazer isso.

A beleza do livro, na minha opinião, está na visão que a criança têm sobre as diferenças. As crianças que são os seres mais brutalmente sinceros com suas reações e julgamentos, mas que ainda não foram corrompidas pelo resto da sociedade. Julgar despido das amarras que a sociedade e os costumes nos impõe é coisa que fica para os inocentes e os corajosos. E nada melhor do que a frase de Charles Lamb encontrada ao abrir o livro: “Os advogados, suponho, um dia foram crianças “.

* Lorena Queiroz é advogada, amante de Literatura e devoradora compulsiva de livros.

Poeta Marven Franklin participa do Recital de Premiação e Lançamento da Antologia do 2° Prêmio Literário AFEIGRAF 2020.

O poeta da fronteira Marven Junius Franklin, estará no recital de premiação e lançamento da antologia 2° PRÊMIO LITERÁRIO AFEIGRAF 2020, que acontecerá no dia 26/11/2020 (Quinta-Feira). O Prêmio AFEIGRAF 2020 tem por objetivo prestigiar a literatura brasileira e descobrir novos talentos com a publicação em antologia dos trabalhos selecionados por uma comissão julgadora. É da expertise da entidade patrocinadora, fornecedora de tecnologia para o mercado gráfico, promover através da comunicação gráfica, o conhecimento sustentável da cultura impressa.

O lançamento que seria durante a 26ª Bienal Internacional do Livro De São Paulo, acontecerá de forma virtual devido a COVIDE-19. O prêmio, da qual o poeta da fronteira foi vencedor, teve uma comissão julgadora formada por grandes nomes da literatura brasileira, como o poeta Celso de Alencar, paraense radicado em são Paulo, considerado um dos maiores poetas brasileiros em atividade, João Scortecci, editor e livreiro e Maria Esther Mendes Perfetti, que foi coordenadora da Escola do Escritor em São Paulo.

O evento que acontece das 19h30 às 21h, é um grande passo para afirmação da literatura produzida na fronteira e como diz o poeta Marven Franklin, já com um vasto currículo literário – apesar do pouco tempo de produção, a literatura amapaense está sendo feita em seus 16 municípios, não só em Macapá.

O prêmio, iniciativa da Associação dos Agentes de Fornecedores de Equipamentos e Insumos para a Indústria Gráfica, contou com o apoio cultural do Grupo Editorial Scortecci e Bignardi Papeis.

Site De Rocha completa 11 anos no ar

Parece que foi ontem, mas já faz 11 anos. O ano de 2009 foi bem legal, mas as duas coisas que mais gostei nele foram o show do Radiohead e a criação do blog De Rocha.

Incentivado por uma ex-namorada, comecei escrever na página virtual. Foi no dia 15 de novembro, há exatos 11 verões e um dia.

A gíria “De Rocha” nomeia este site porque nós, grande parte dos nortistas amapaenses e paraenses, a usamos quando queremos passar credibilidade sobre determinado assunto.

Na página, sempre publiquei fotografias, notícias, músicas, poesias, futebol, crônicas, contos, gifs, informes sobre fatos, eventos, pessoas públicas, bandas, arte, muita arte, e assuntos de interesse da população.

A promoção da cultura, em todas as suas vertentes, sempre foi o principal objetivo do De Rocha, além de expor meus pontos de vista, críticas leves e pesadas ou elogios amenos e exagerados aos que merecem. Foram tantos artistas, músicos, bandas, incontáveis eventos. Também publiquei textos do trampo por onde passei como assessor de comunicação. Além disso, falei muito da minha amada e preciosíssima família. E isso tudo misturando blá-blá-blá abobrístico, pois a vida sem humor é horrível.

Apesar da “internet soviética”, como diz o amigo jornalista Régis Sanches (ex-colaborador deste site), dos acusadores, fiscais e críticos, o De Rocha virou sucesso. Confesso que, quando comecei a escrever, nem imaginava que minha página virtual seria tão bem aceita. Isso aqui abriu portais, portas, janelas, gavetas e até alçapões em minha vida (risos).

Sei que rolou muito atrevimento, ironia, polêmicas, sarcasmo, verdades doloridas de se ler, alfinetadas, acidez e até bobagens de minha parte. Mas também rolou tanta homenagem, tanto amor real, tanta coisa legal. Claro que cometi alguns erros, não poderia ser de outro jeito. Mas tudo é aprendizado. Me arrependo de ter magoado algumas pessoas. De verdade!

Por aqui passaram vários colaboradores. Alguns deles nem são mais meus amigos, mas sou grato pelas contribuições. Cada um teve papel importante na formação deste espaço. Também agradeço aos parceiros que continuam por aqui. Em especial aos amigos Fernando Canto, Ronaldo Rodrigues, Jaci Rocha, Patrícia Andrade, Alcinéa Cavalcante, Luiz Jorge, Marcelo Guido e Marcelle Nunes, além do velho e saudoso Tãgaha Luz (In memoriam). Ah, os caras que fazem a manutenção do boteco: Rômulo Ramos e Laerte Diniz. Obrigado, meninas e caras.

O blog morreu há seis anos, quando foi criada esta página eletrônica (dados do antigo endereço foram migrados para cá). Passado todo esse tempo, mantenho-me como comecei: jornalista, assessor de comunicação, compulsivo por atualizações da página, cronista, crítico, ex-blogueiro e editor de um site ético sem rabo preso com ninguém (apesar de muita gente confundir o espaço dado a amigos assessores com favorecimento).

Tenho a ousadia de usar as palavras do escritor Caio Fernando Abreu: “acho que fiz tudo do jeito melhor, meio torto, talvez, mas tenho tentado da maneira mais bonita que sei”. Uma eterna luta do bem contra o mal dentro de mim, mas com 99% de vitórias da luz.

Ah, desculpem os palavrões em alguns textos, mas isso também é liberdade de expressão.

Muitas das crônicas de minha autoria foram reunidas em um livro, o “Crônicas De Rocha – Sobre Bençãos e Canalhices Diárias”, lançado em setembro passado (à venda na Public Livraria ao preço de R$ 30,00 ou comigo. Contato: 96-99147-4038).

Aqui a bola sempre foi minha. Você pode discordar, mas é isso o que penso e ponto. Com essa frase, agradei a maioria. Meu muito obrigado a vocês, senhores e senhoras que compõem o leitorado do De Rocha, sejam admiradores, críticos e detonadores (que de certa forma também são admiradores). Sigamos aplaudindo, criticando, discordando e incentivando as boas práticas. Valeu!

Elton Tavares

Muro Branco – Texto Poético de Luiz Jorge Ferreira

De costas Cláudio Reis parece menor, mas mesmo assim alcança seu objetivo e arruma como notas musicais, as Andorinhas, os Bem te vis, e alguns Canários da Terra, nos fios da Celpa…Centrais Elétricas do Pará… Presos por anzóis.

Na Praça em frente, João Urso, fica cutucando a unha do dedão do pé, com a ponta da lâmina de um canivete Corneta.Observa com o olho esquerdo.Enquanto aguarda o fim do Mundo.

O Outdoor anuncia.
Quem se candidata a fotografar com esta Polaroide a festa de Debutante da Miss Suéter.
E mostra a foto da Máquina Moderníssima…
Fotografe.
Frente.Perfil…e dos dois lados.
Por favor enviar as fotos para Estrada Nova …Rua Veneza S/N.Um Sobrado tosco.
Onde a Avó da Miss, cheia de saudades, tece um pano de prato rico em temas regionais…Araras e Nhambus.

Ei!
Aponto para Cláudio com dois dedos pequenos e calejados.
Lembra -se de mim?
Assustado derruba dois Macucos, e a pauta que era um Samba Sincopado, virá um Fado.

Aqui na esquina, úmida de cuspe de lua, e do suor do guarda noturno em pânico, amedrontado com o miar dos gatos estrangeiros.
Coloco na caixa de correio, um telegrama.
Nele estão anotadas todas as datas em que desovaram todos os pássaros dependurados no Pentagrama de Cláudio, coisa que eu nem sabia, que sabia.

Escuto um forte.-Boa Noite!
Olho… João Urso sangrando, acabará de extrair as unhas de todos os seus dedos e deixava atrás de si um rastro de sangue, que atraía, formigas de fogo, baratas, e saúvas.
Coloco seus pés, dentro de uma lata vazia de marmelada, e adiciono Creolina.
Segunda-Feira… virei vê-lo, digo, me afastando.
Aviso-o…e se por acaso chegar uma carta a mim endereçada, contendo a data da morte de todos os meus amigos…abra e leia.
É provável que chegue antes do Telegrama.
E por acaso o seu nome estando nela, a queime.
Ficou abalado, recitando um Salmo sobre a luz e a escuridão.

Não por acaso os Curiós saíram da pauta, para se alimentarem das baratas, saúvas, e formigas de fogo, abandonando o Sol Sustenido Maior.

A pauta em que Cláudio Reis havia criado um Fado, transformou-se em uma Valsa.
Batem a porta com força.
Saio de dentro das retinas e esfrego as mãos no dorso da minha foto de costas na Capa de um LP. De Tangos.
Boa Noite …Uma carta?
O reflexo ferido da lua, brilha no Selo.
Provavelmente deva ser para mim.
Rasgo-a nos dentes temendo que ela noticie que em Dezembro não vão parir as Sereias.
No entanto apregoa…Teremos Praga!
Do outro lado da rua, de costas, sob a chuva suja do cheiro dos Cajus.
Cláudio desenha um silêncio sem cor, e quando eu me aproximo para um abraço.
Ele pálido, finge que não me conhece.
E eu colorido de descolorido, finjo que não sou.

Texto Poético de Luiz Jorge Ferreira

 

*Do Livro…Defronte da Boca da Noite ficam os dias de Ontem.

“Trovão Azul”, o Chevette do Bruno (uma crônica minha sobre um carro, amizade e boas lembranças)

Trovão Azul, o chevette do Bruãno

Ao procurar curiosidades sobre a data de hoje, li que o último Chevrolet Chevette, carro da General Motors que foi lançado no Brasil em 1973, saiu de fábrica em 12 de novembro de 1993. E lá se vão 27 anos.

Meu pai teve esse modelo de automóvel. Aliás, meu velho possuiu dois Chevettes: um branco, que comprou zero Km na Sevel, todo bonitão, com painel emadeirado e tudo, e outro na época de vacas magras, amarelo e todo corroído, que apelidamos de “fuinha”. Era horrível aquele carango!

Mas sobre Chevettes, lembrei mesmo foi do “Trovão Azul” (em alusão à série de TV na qual um helicóptero era chamado assim), o carro do querido amigo Bruno Jerônimo. A gente aprontou muito naquela viatura de doidos.

O Trovão Azul era igual a coração de mãe, sempre cabia mais um maluco. Ali não pegava mau olhado, era protegido por São Raul Seixas e devidamente defumado. Bons tempos aqueles do Chevette do Brunão, Quiosque Norte Nordeste (na Praça Floriano Peixoto), da antiga turma.

Meu velho amigo Brunão.

O Trovão Azul não tinha acessórios e nem ar condicionado. Nem era superconfortável, mas todos queriam andar naquele Chevette. Ora, senão!

Lembro de uma vez que íamos, eu e Bruno, para a casa da Giselda, lá no Boné Azul, era niver da Luíza, filha dela. Dois motoqueiros bateram com capacete em cima do Trovão Azul… deu muita raiva, quase sai porrada, mas eles foram embora. “Tantas emoções”, já diria o Roberto Carlos.

Ilustração de Ronaldo Rony

O Trovão Azul percorreu Macapá e nos levou em várias aventuras e poucas desventuras. Ele era um carro velho, mas cheio de histórias bacanas, totalmente impublicáveis.

Os anos passaram, o Brunão vendeu o Trovão para o Samuel (que o transformou num Chevette de playboy), as coisas mudaram muito, cada um da velha turma cuidou de si e a vida seguiu.

Naquela época, a gente vivia contanto moedas para nossas reuniões etílicas regadas a rock. E isso é uma lembrança feliz. E como é!

Livro “Crônicas De Rocha – Sobre Bençãos e Canalhices Diárias” – Foto: Flávio Cavalcante.

*Do livro “Crônicas De Rocha – Sobre Bençãos e Canalhices Diárias”, de minha autoria,lançado no último dia 18 de setembro. A obra tá linda e está à venda na Public Livraria ao preço de R$ 30,00 ou comigo. Contato: 96-99147-4038.

Elton Tavares