Poema de agora: Parece não chorar, mas chove – Luiz Jorge Ferreira

Parece não chorar, mas chove

Baby deixa eu vasculhar teu passado
Prometo que não vou rasgar os retratos
Nem cuspir nos beijos que levastes
Não vou retirar do teu corpo tantos abraços que criaram trilhas intranquilas…

Baby deixa esconder os teus Domingos
Desenhar teus sonhos no grafite
Te dizer o que fizemos em 66
Te fazer ouvir Caetano
Raul e Simon e Garfunkel
Deixa eu criar enredos e te ler títulos de filmes que parecem pequenas historias de amor
Deixa eu voltar o Calendário
E te colocar não em Junho, mas em Setembro
Para te embriagares com a Primavera
Sobe na garupa desta bicicleta, anda nesta rua deserta
Que o tempo nos olha da janela, com uma incrível inveja de vir e nos ajudar a nos conhecermos
Não diga não, pois chove uma chuva vinda dos espelhos
Que eu espalhei no encontro das esquinas.

Baby… sorria… há um gosto de sal no ar… e não nos embriaga…
Temos um mar guardado em nossos olhos
E um vazio a bombordo, grávido de notas musicais.
E uma canção incrível que fala de ontens.
Incrivelmente aquela que a própria vida… com as nossas vidas… nunca dançou.

Luiz Jorge Ferreira

Versos, Retratos e canções: neste sábado (22), rola noite de autógrafos do livro “O avesso do verso, poemas de mim”, da escritora Pat Andrade, no Farofa Tropical Gastrobar

Neste sábado (22), a partir das 20h, no Farofa Tropical Gastrobar, rola noite de autógrafos do livro “O avesso do verso, poemas de mim”, da escritora Pat Andrade. O evento, denominado “Versos, Retratos e canções”, contará também com música ao vivo com os cantores Marcelo Abreu e Cássio Pontes (também violonista). A dupla ensaiou um repertório escolhido a dedo para a noite, que terá, ainda, exposição fotográfica de Aog Rocha. A noite poética respeitará todos os protocolos de prevenção à Covid-19.

Sobre o livro

O livro, lançado em 22 de dezembro de 2021, reúne poesia diversa, que fala de amor, arte, sociedade e cotidiano. A obra traz poesias cuidadosamente selecionadas para contemplar o subtítulo “poemas de mim”. Calmarias e tempestades permeiam suas páginas. Amores e desencantos se apresentam de maneira intimista. Alegrias, tristezas e resiliência se desenham entre os versos. É fácil identificar-se com a poesia nele contida.

A poeta arriscou-se um pouco mais e ilustrou alguns de seus poemas, colocando no traço a mesma delicadeza de sua pena. O escritor, cartunista e publicitário Ronaldo Rodrigues fez o prefácio. A OCA Produções é a agência responsável pelo projeto contemplado pela Lei Aldir Blanc, trabalhada pela Secult/AP. O avesso do verso vem pra festejar e brindar a vida da escritora na poesia.

Eu e Pat Andrade, a poeta que mais colabora com este site e querida amiga.

Sobre a autora

Pat Andrade é uma escritora / artista plástica / produtora cultural da Amazônia, que vive em Macapá, no Meio do Mundo.

Há pelo menos 14 anos, divulga seus poemas em livrinhos que ela mesma produz. São mais de 30 publicações – das quais seis são virtuais, produzidas em tempos de maior reclusão na pandemia. Também tem poemas publicados em várias coletâneas e em revistas digitais.

Colaboradora assídua do Site De Rocha! e membro do coletivo Urucum, Pat se considera uma militante da Literatura: quando possível, visita escolas, universidades e participa de eventos literários e culturais, os mais diversos. A poesia é sua arma / escudo / refúgio / conforto / sustento.

Serviço:

Evento: Versos, Retratos e canções – Noite de autógrafos do Livro “O avesso do verso, poemas de mim”, da escritora Pat Andrade.
Dia: 22 de janeiro de 2022.
Local: Farofa Tropical Gastrobar, localizado na Rua São José 1024, centro.
Hora: 20h
Entrada franca
TODOS OS PROTOCOLOS DE SEGURANÇA DEVEM SER SEGUIDOS: USO DE MÁSCARA, DISTANCIAMENTO SOCIAL E HIGIENIZAÇÃO COM ÁLCOOL

Elton Tavares, com informações de Pat Andrade. 

Poema de agora: Escalada – Naldo Maranhão

ESCALADA

Sabe aquela escada?
Desde aquele dia
Começou uma derrocada
Degrau por degrau
se degradando
Dentro de mim
uma comichão
Aflição, espanto e desespero
Desci demais
até só ter a escuridão.
Mas, subitamente,
Ascendeu um candeeiro
E uma outra escada eu vi
No nevoeiro e decidi subir
E a luz se fez forte
E mais presente
E lembrei de Judas
De Cristo, da cruz e Novamente, degrau
Por degrau eu escalei
E sai do calabouço
Aonde aquele beijo soturno
Me levou…
E emergi.

Naldo Maranhão

Hélio meu amigo Pennafort – Por Fernando Canto – @fernando__canto – (republicado por conta de hoje, 21 de janeiro, seria o aniversário de 84 anos de vida do escritor e jornalista Hélio Pennafort) .

Hélio Penafort – Foto encontrada no blog Porta Retrato

Por Fernando Canto

Ao dar o nome de Hélio Pennafort a sua biblioteca a instituição SESC realizou um ato de carinho às nossas letras e uma justa homenagem ao escritor e jornalista que muito contribuiu para que o Amapá tivesse as suas mais legítimas manifestações culturais conhecidas. Foi através do Hélio que a maioria dos que fazem a formação da opinião local hoje, se basearam para sistematizar a questão da identidade do homem amapaense. Fora ou dentro das academias seu trabalho ganhou a dimensão esperada e a valorização merecida, posto que só ele conseguia expressar com elegância nos seus textos as formas rudes (para nós) do falar cotidiano da vida do interior. Muitas vezes publiquei sobre a obra do Hélio por considera-lo um narrador excepcional das coisas da nossa gente. “Triste como um tamaquaré no choco”, “foi cocô de visagem” eram expressões do homem interiorano que ele usava no dia-a-dia. Para qualquer objeto ou situação complicada chamava “catrapiçal”. Vivia contando anedotas de caboclo se divertindo a valer com elas. Era extremamente sincero com seus amigos e não guardava o que tinha de dizer. Apesar de ter exercido inúmeros cargos importantes no Governo, tinha lá suas fraquezas e de vez em quando fugia do expediente para ir ao Abreu ingerir uma gelada, mas era também grave e sério nas suas responsabilidades.

Arquivo pessoal de F.C.

Ainda adolescente andei em sua companhia, juntamente com o Odilardo Lima, repórter e poeta que virou delegado de polícia, e o Manoel João, um telegrafista e caçador de primeira linha, bom contador de histórias. Minha função no grupo era tocador de violão e guardião da memória deles, afinal iriam precisar de detalhes que fatalmente esqueceriam, quando da redação das reportagens que faziam para a rádio Educadora e o jornal A Voz Católica. Hélio proporcionava muitas histórias engraçadas, como certa vez em Mazagão, no início dos anos 70. Fomos de barco até a sede do município, e de carro até Mazagão Velho registrar a festa da Piedade. Ele ia dirigindo (Pasmem!) um jeep, e nós vínhamos tensos, no maior medo, porque até então ninguém jamais o vira dirigir, a não ser uma bicicleta. Com alguns atropelos e barbeiragens chegamos ao destino. Anoitecia e ele foi à casa do seu Osmundo, que liderava o conjunto “Mucajá”. Era um grupo rústico, de pau e corda e clarinete que tocava samba, baião, polca e outros ritmos. Lá pelas tantas, devido sua generosidade etílica, acabou o suprimento de uísque e cachaça. Em toda a vila também não tinha nada de álcool. Ele chamou uma rapaziada e disse: – Vão ver se encontram cachaça que eu dou uma grana pra vocês. Eles voltaram com uma “meiota” de “canta-galo”. O Hélio deu uma golada e cuspiu: “Querendo me enganar… É, seus porras? Cachaça com água eu não bebo, inda mais se é de mulher que acabou de parir”. Fiquei sabendo depois que as mulheres do lugar usavam aguardente na assepsia do pós-parto e que os moleques haviam roubado a garrafa de uma senhora que parira uns dias antes. Esse episódio só fez solidificar a minha admiração pela figura simples e humana do jornalista.

Dia da posse da de Fernando Canto na Academia Amapaense de Letras, 1988. Com os jornalistas Jorge Basile e Hélio Pennafort. Arquivo pessoal de F.C.

Fecundo no seu trabalho, Hélio sempre procurou dar a ele novas formas em linguagens diferentes. Em 1984/85 associou-se ao talento do piloto e vídeo-maker Roberval Lavor e produziu inúmeros vídeos sobre aspectos turísticos do então Território do Amapá. Embora não se adaptasse ao computador, o apregoava como instrumento do futuro, pois era atualizado nas informações tecnológicas.

*Hoje, 21 de janeiro, o escritor e jornalista Hélio Pennafort faria 84 anos (nascido no Oiapoque (AP), em 1938).

Se vivo, o lendário jornalista Hélio Pennafort faria 84 anos hoje – Por Renivaldo Costa – @renivaldo_costa

O Amapá precisa preservar, reconhecer e homenagear seus grandes nomes em todas as áreas de atuação. Como sou fã de escritores, compositores, músicos, poetas e artistas, republico aqui o pequeno texto do jornalista Renival Costa sobre Hélio Pennafort, uma lenda do jornalismo amapaense que eu gostaria de ter conhecido (Elton Tavares): 

Acredito que o jornalismo amapaense deve muito ao Hélio Pennafort. O Hélio nasceu no Oiapoque em 21 de janeiro de 1938, onde também começou sua produção jornalística e literária, através do Jornal Vaga-lume. Foi repórter de A Voz Católica, Rádio Educadora São José e TV Amapá além de ter publicado diversos livros e escrito e dirigido curtas metragens e documentários para televisão com temas regionais.

Hélio atuou como correspondente do Jornal do Brasil e foi colaborador do Jornal da Tarde e de O Estado de São Paulo, sem falar que foi um dos nossos maiores cronistas. Se estivesse entre nós, hoje completaria 84 anos. Você faz falta, meu amigo.

Renivaldo Costa – Jornalista.

Desfeitas & Desfeiteiras (Crônica paid’égua de Fernando Canto)

Crônica paid’égua de Fernando Canto

A desfeita era uma injúria, uma ofensa que cavalheiro nenhum levava para casa sem antes não se vingar, depois de ser recusado em seu convite para dançar pela dama escolhida. O injuriado estapeava a dama e, formada a confusão, a festa invariavelmente acabava. Pelo menos era isso que acontecia há alguns anos.

A Desfeiteira provém disso. Era uma dança praticada em quase toda a Amazônia. Os caboclos dançavam em pares ao som de um conjunto pau-e-corda. De repente a música parava e o par que ficasse perto dos instrumentistas tinha de dizer um verso, na realidade uma quadra (ou uma trova ou poesia, rimada ou não), sob pena de pagar uma prenda e ainda ser vaiado. Era uma brincadeira divertida dos lugares onde não havia aparelhagem de som que ainda ocorre em Alter-do-Chão, e ocorria no Bailique e no litoral do Amapá.

O Hélio Pennafort contava a história de um caboclo que se meteu numa Desfeiteira lá no Sucuriju. Só faltava ele dizer o seu “velso”. Não conseguia articular palavra porque estava muito embriagado. Mas o adularam tanto que ele declamou a única sextilha que sabia. E começou; “Na cidade do Irará /No interior do Maranhão/ Existia um velho sacana/ Fdp e garanhão/ Cuja pele do culão/ encobria dez colchão”. Deram-lhe uma sova de remo que ele nunca mais apareceu no lugar.

De outra feita o mesmo Hélio em suas andanças jornalísticas pelo interior me levou junto para Mazagão Velho. Fomos de jipe, da sede do município até lá. O curioso é que ninguém nunca vira o Hélio dirigir em Macapá. Chegando à vila ele chamou o dono do conjunto “Mucajá” para tocar uma festa e o finado Osmundo não se fez de rogado: botou uns três solos de clarinete para animar a moçada do lugar e o “pau comeu”. Foi nessa ocasião que ele inventou a história da moça “que só dançava abenetando”. E que eu, justo eu, a teria convidado para dançar e ela recusara dizendo que só dançava abenetando. Como eu teria insistido ao dizer que sabia dançar abenetando, ela fechou a desfeita dizendo, tímida: “- Mas a Bené num tá!” A Bené era a sua irmã mais velha.

Depois disso visitei Mazagão Velho muitas vezes, pesquisando sua cultura e sua gente. Em uma roda de Marabaixo de rua, exatamente quando se preparavam para derrubar o mastro do Divino Espírito Santo, vi uma desfeita pesada. Quase todos os dançarinos já estavam “mais pra lá do que pra cá”, no dizer deles, tanto era o consumo de gengibirra. Um rapaz queria dançar um “dobrado” que os tambores tocavam na hora. A dança é feita em pares que se agarram pelos braços e giram o corpo para a esquerda e depois para a direita. É a parte mais rápida do Marabaixo. O rapaz, visivelmente tonto, viu uma jovem senhora e disse: – Quero dançar contigo. Ela respondeu: – Comigo não, violão. Então o rapaz, aborrecidíssimo, falou; – Tomara que tu morra amanhã às seis horas da tarde! A vingança foi a praga lançada.

Guardo ainda na memória uma desfeita acontecida na sede do Esporte Clube Macapá. Um rapaz de conceituada e tradicional família, hoje ilustre advogado, era apaixonado por uma moça. Tímido, porém, não tinha coragem de falar em namoro com ela. Os amigos lhe aconselharam a tomar uma dose de uísque para criar coragem e ir até ela.

Mas ele exagerou na dose. Assim mesmo, depois que “Os Mocambos” se preparavam para tocar “Devaneio”, sucesso da época, ele atravessou o salão olhou para ela com um olhar lânguido e disse: – Bora dançar? Ela respondeu na bucha: – Eu não danço com gente bêbada. Ele ficou meio desconcertado e ainda perguntou, meio afirmando: – Quer dizer que transar nem pensar, né?!

Poema de agora: O patriota – Eliete Miranda

O PATRIOTA

O déspota arvora-se patriota
E com fala solta e escrota
Sem pudor
Ao mundo arrota
As mentiras de agiota
E aos banqueiros, vende o Brasil
Servil o inútil
Do civil ao militar
Esbraveja a incentivar
o insano amotinar de acéfalos
Eis a pátria amada, salve salve
Às vias de ser assaltada, mal amada
e de miséria assolada.
Chora, pátria mãe gentil, que no covil do falso patriota
O lambe botas serve ao imperialismo
Sem lirismo ou poesia
Asfixia direitos civis
Embosca os incautos “irmãos”
Com auxilio dos falsos cristãos,
Gente de bem emanados no crime
Propõe um regime que da morte fez aliada
Amparada pela moral e os bons costumes
Da elite do atraso
Que ao lado do tal ex-soldado
Malogrado destino traça.
E ameaça a própria cabeça
Que não se esqueça…
Eu avisei!

Eliete Miranda

Como Mestre Yoda falar devemos, mas falar assim fácil não será! – Crônica de Elton Tavares (“Papos de Rocha e outras crônicas no meio do mundo”)

Yoda, o grande mestre Jedi, é uma das figuras mais marcantes da cultura pop. Mestre Yoda foi um guerreiro extraordinário da Ordem Jedi, e acima de tudo, um professor que marcou gerações de fãs da saga. Seus pensamentos filosóficos foram ensinamentos emblemáticos do cinema, transmitidos ao Luke e ao público, sobre disciplina, dedicação máxima e a Força.

Yoda falava uma versão incomum do Básico. Ele usualmente colocava os verbos (principalmente verbos auxiliares) após o objeto e do sujeito (um formato objeto-sujeito-verbo).

Cheguei à conclusão que seria muito mais prático se falássemos todos como o Yoda, colocando a ideia central – o que interessa – no início da frase e o sujeito no final. Muito mais simples seria se todos os Humanos assim falassem. Prática esta ideia irão achar. Resistentes a esta sugestão não devem ser, uma maior compreensão dos assuntos as pessoas iriam atingir.

Exemplos de fala de Yoda:

“Quando 900 anos você tem, ter aparência boa difícil é”.
“Aliada minha é a Força. E poderosa aliada ela é.”
“Por 800 anos treinei eu jedi. A mim decidir cabe quem treinado deve ser. Um Jedi precisa um profundo compromisso ter. A mente mais séria.”
“Iniciada, a Guerra dos Clones está.”
“A tempestade está piorando, temo eu.”
“Em um estado sombrio nós nos encontramos… um pouco mais de conhecimento iluminar nosso caminho pode.”
“O medo é o caminho para o Lado Escuro. O medo leva à raiva, raiva leva ao ódio; ódio leva ao sofrimento. Eu sinto muito medo em você.”
Algumas outras expressões legais colocadas na forma de falar do poderoso Mestre:
“Gelada, esta cerveja está!”
“Comigo cabreiros eles ficaram.”

Se expressar assim legal como Mestre Yoda falar devemos, mas fácil não será!

Estranheza sente vocês? Fácil é a adaptação, achar isto vocês irão em breve. Mais divertidas as conversas se tornariam, mais cedo o assunto perceberíamos e reduzida a especulação seria, muitas discussões desnecessárias evitar-se-iam assim. Pensar nisto devem vocês, mais prático, direto e interessante seria, não concordam vocês comigo?

Que a Força esteja conosco!

Elton Tavares

*Do livro “Papos de Rocha e outras crônicas no meio do mundo”, de minha autoria, lançado em novembro de 2021.

Poema de agora: Artimanhas – Pat Andrade

Casal de poetas Marcelo Abreu e Pat Andrade – Foto: arquivo Pat Andrade

ARTIMANHAS

eu adivinho teus olhos
por trás dos livros
e escrevo mil poemas
sobre eles

ensaio sorrisos
por trás da máscara
e invento causos
pra te fazer sorrir também

misturo as cores da tarde
com as estrelas da madrugada
capto sutilezas
antes que a eterna
nostalgia nos alcance

quebro a ampulheta
arranco os ponteiros do relógio
quero parar o tempo
mesmo sabendo
ser impossível

congelo o momento
para guardar na fotografia
te distraio com flores raras
e anuncio discretamente
o meu amor

Pat Andrade

Gino Flex, o Rei dos Malucos de Macapá – Crônica de Elton Tavares (Do livro “Papos de Rocha e outras crônicas no meio do mundo”)

Ilustração de Ronaldo Rony

Em novembro de 2013, dia 12, precisamente, morreu o artista, músico, inventor do Clube do Vinil, Dj oficial de encontros memoráveis e Rei dos Malucos de Macapá, Gino Flex. Não sei quantos anos ele tinha, mas acho que eram quase 60 verões.

Conheci o Gino em 1997, ainda com meus 20 e poucos e curta estrada na boemia da capital amapaense. O cara era querido por todos.

E não é porque morreu não.

O cara era do naipe do fictício Quincas Berro D’Água e do real Charles Bukowski.

O estilo de vida era “de boa”, verdadeiro ode à boemia e hedonismo. Sim, o velho Gino era “brother”. Gino Flex estava internado há dias com complicações no fígado. Chegou a ser operado, mas não resistiu. Que sua passagem para a outra vida seja como foi nessa, leve.

“A vida manda os seus sinais, basta ter o coração aberto e ser amalucado o suficiente pra entender” – Cabo Martim, personagem do livro “A morte e a morte de Quincas Berro D’água”, de Jorge Amado.

Vira e mexe, lembro do Gino Flex, o Rei dos Malucos de Macapá. Ali foi figuraça!

Até a próxima vez, Gino!


*Do livro “Papos de Rocha e outras crônicas no meio do mundo”, de minha autoria, lançado em novembro de 2021.

Às vezes, é preciso “botar quente” – Crônica de Elton Tavares (Do livro “Papos de Rocha e outras crônicas no meio do mundo”)

Ilustração de Ronaldo Rony

Se tinha uma coisa que eu adorava quando bebia no Bar da Euda, era escutar as histórias do meu amigo Fernando Bedran. Fernandinho é um sábio malandro, no bom sentido, claro.

Por conta de seus “causos”, devaneios e pontos de vista paid’éguas, meu irmão, Emerson Tavares, diz que o Bedran “é melhor que tira-gosto de charque para tomar umas cervas”.

Durante uma de nossas conversas regadas a cerveja, Fernandinho, que é contra qualquer tipo de violência, contou que, certa vez, precisou usar a força. Segundo ele, em uma fase de nossas vidas é preciso “botar quente”.

Bedran contou-me que tinha vinte e poucos anos, na década de 80, trabalhava no Ver-o-Peso, velho centro comercial de Belém (PA), e estudava à noite. Por causa de suas atribuições profissionais, faltava muito às aulas.

Por conta disso, um professor começou a perseguir o nobre amigo, mesmo após explicar a situação ao educador, que se manteve irredutível. Para completar, o tal docente da escola que Bedran estudava o ridicularizava na frente dos colegas de classe. Comportamento que, segundo Fernandinho, era comum com todos os alunos, mas acentuado em relação ao Fernando. “O cara era um “pentelho escrotal arruinado, um verdadeiro cri-cri”, desabafou Fernandinho.

Passados alguns meses naquela patinhagem, Bedran se aporrinhou com a “maquinagem pesônica” do professor em relação a ele e foi indagar o educador, que logo lhe disse: “quer saber, você não assistirá mais minhas aulas. Fora daqui!”.

Fernando disse que tentou e tentou, sem sucesso, resolver a situação. A reprovação era certa, já que ele não frequentava mais as aulas do nojento professor. Foi quando ele foi meditar no boteco, depois de um dia de trabalho, e decidiu cancelar sua matrícula.

Ao adentrar na escola, rumo à secretaria, Fernando Bedran passou pela sua turma e lá estava o dito cujo dando aula. Ao olhar para o professor, o debochado abriu um cínico sorriso, com um estranho ar de vitória e superioridade.

Foi quando Fernando Bedran explodiu e disse:

“Grande corno filho da puta. Mete a cara que eu vou te dá-lhe é porrada!”.

Aí ele fez a merda e, ao me contar, disse: “Elton, dei uma mina de porrada no filho da puta. E tu pensas que a galera apartou? Porra nenhuma! O pessoal vibrou com a surra que dei no frescão”, vibrou Fernandinho (e eu também!).

Resultado: Bedran foi expulso da escola, mas com a alma lavada. É, como ele mesmo disse no início da história: “é preciso ‘botar’ quente”.

Boto fé!

Essa foi só uma das inúmeras aventuras do Fernandinho, “figuraça” que alegra nossas noites quentes, assim como as cervejas geladas.

Vida longa ao espirituoso Bedran, dono de um dos melhores papos que conheço, principalmente nos botecos da cidade.

*Do livro “Papos de Rocha e outras crônicas no meio do mundo”, de minha autoria, lançado em novembro de 2021.

Rumo ao pó das estrelas – Crônica de Fernando Canto

 

Crônica de Fernando Canto

Como o silêncio é uma árvore dormindo e um oco à espera do desejo, expresso meu princípio e estratégia de beijar-te perante o fogo do amor e o som das palavras.

Não justifico esta vontade só pelo prazer de interpretar metáforas, pois tudo urge no rio em seu curso indômito, sobre o rosnar das águas que lhe arranham o dorso pétreo. É um compartilhamento perene de dons alimentados mutuamente depois de tantas estiagens e abruptas enchentes, desses vilipêndios que causamos pela nossa natureza, talvez humana.

Penso que um ciclo temporal da vida não satisfaz o beija-flor. Apesar da abundância de flores sequer ele dispensa primaveras.

O tempo abre caminhos que se estreitam ao sabor da gravidade. E os sulcos da epiderme onde outrora líquidos corriam, abrigam fótons de raios siderais e apenas lampejos de dores passadas.

O amor, então, não é fator de espanto, de risco ou substância para qualquer sobrevivência, antes é uma nítida energia que transforma as leis do tempo em furtivas estrelas.

Afirmo, pois, que o meu amor não é discurso que reduz insumos oriundos de sistemas prontos, não se mensura por linguagens de processos. Ele é fonte criadora, útil, nascida, morta e renascida da alquimia da alma, da música estelar que harmoniza a vida.

Eu beijo à reorientação do inesperado, porque o amor não colhe néctar diariamente nem se prende a primaveras ou solstícios invernais, é mais que uma tabela, uma equação, é a minha e a tua vontade em dois relógios atrasados na viagem que não planejamos ao rio, ao mar e às estrelas.

Eu conto com o cúmplice ardume do amor: a poesia. Eu trago a contemporaneidade do sonho: o pesadelo do futuro, o ambiente maltratado, a água impura. Eu vivo! Ora, eu canto a perplexidade da vida e a paradoxal ternura que há nesses caminhos que contigo andei e continuo andando, obstinado, rumo ao pó das estrelas.

Poema de agora: O primeiro amor na Amazônia – Pat Andrade

Ilustração de Ronaldo Rony

O PRIMEIRO AMOR NA AMAZÔNIA

quero te contar
que Eliana chorou
quando viu o barco
enfeitado de luz
cortar o rio
deixando o porto

a quilha cortando
laços e promessas

cheia de espanto descobriu
que a maré faz dançar
a lua e as estrelas
enquanto embala a saudade
pendurada no punho da rede

seu coração batia oco
no casco do barco
quase despedaçando
a cada onda mais forte

na beira do rio
(agora distante) ficaram
seus olhares mais longos
e seus gestos mais doces
para o moço pescador

durante a viagem
aprendeu com as águas
como dói renunciar
ao primeiro amor

Pat Andrade

Poema de agora: Eu quero é ver – Naldo Maranhão

EU QUERO É VER

Tudo que eu quero
É estar lá
Quando a embarcação naufragar.
Ser seu bote salva vidas.
Lhe socorrer, amparar
Respiração boca a boca
Lhe trazer de volta a vida.
Transcender o amor Platônico.
Quero-te carne osso e mundanismo.
Transitar meu verbo em teu Corpo é meu ofício.
Tantas curvas e abismos
Me lançar de cabeça
E sem aviso…


Quero chegar contigo ao Êxtase.
Deixar que soem os gritos.
Entrar e sair das cavernas e Orifícios.
Ver a luz, muito além das Brechas, teu sorriso.

Meu amor vamos voar
Além desse horizonte
Que se vê.
Caminhar sobre o arco-íris
Do prazer
Uma nova aurora, amanhecer
Viver a vida e não morrer.

Naldo Maranhão