Resenha do livro “Menina Má”, de Willian March – (Por Lorena Queiroz – @LorenaadvLorena)

Por Lorena Queiroz

Este livro é um clássico do suspense escrito por Willian March e publicado pela primeira vez em 1954. Muito bem recebido pela crítica e elogiado por Ernest Hemingway que, inclusive, escreveu para March, enaltecendo sua obra. Ocorre que Willian March faleceu um mês após a publicação do livro que inspirou uma série de filmes e personagens como Damien de A profecia, Chucky o boneco assassino, Anabelle, entre outros.

O livro conta a estória de Rhoda Penmark, uma menina de oito anos que, aparentemente, é a criança perfeita. Rhoda é aplicada nos estudos, organizada, educada, simpática e adorada pelos adultos, pois Rhoda sabia – como uma espécie de instinto – como tratar e agradar as pessoas. Ao contrário da relação que a menina tinha com os adultos, Rhoda não possui amigos de sua idade, as crianças não brincam com Rhoda.

A mãe de Rhoda, Christine Penmark, tem como tarefa a criação e os cuidados com a menina, já que seu pai, Kenneth, ficava meses fora de casa viajando a trabalho.

A trama se desenrola a partir de um concurso de caligrafia em que Rhoda se dedicava incansavelmente com a finalidade de ganhar a medalha de vencedor. Ocorre que o prêmio é dado para um menino de sua escola. Durante um piquenique ocorre um “acidente”. O episódio desperta as desconfianças da mãe da menina que, após recapitular algumas situações igualmente estranhas e trágicas no passado de Rhoda, inicia sua investigação sobre o caráter da filha.

A mulher então começa a se auto indagar sobre o comportamento da criança, pois percebe a falta de compreensão da filha no que tange os sentimentos. Rhoda apenas tinha coisas que lhe interessavam e sabia muito bem calcular de que forma agir para consegui-las, inclusive na relação com a mãe, que ela tratava diariamente com indiferença, mas sabia como agradar quando queria retirar algo: “Mamãe, o que você me dá se eu te der uma cesta de beijinhos ?” .

O livro se mostra sob a ótica de três personagens, Christine Penmark, a amiga Sra Breedlove e Leroy, um detestável zelador que nutre uma estranha atração por Rhoda, onde seu odioso cortejo consiste em irritar a menina. Dentro das três visões, o leitor nunca sabe o que se passa realmente na mente de Rhoda Penmark.

A obra não aborda só Rhoda como protagonista, a mãe de Rhoda, Christine, na minha humilde opinião, é a verdadeira protagonista do livro. Seu sofrimento materno, suas indagações e, posteriormente, suas investigações acerca do próprio passado, revelam fatos e sentimentos que, para ela, poderiam ser a origem do mal que a filha carrega.

É uma leitura interessante, pois aborda temas incomuns para a década de 50, que vai desde o homossexualismo à maldade criminosa proveniente de crianças.

Muito já se discutiu sobre a origem da psicopatia. Não tenho conhecimento técnico e científico para falar sobre o assunto, pois até os estudiosos do tema, ainda não têm uma opinião pacificada sobre como e quando a patologia se manifesta, mas ela existe nas mais diversas idades e parafraseando o príncipe palhaço: “A loucura é como a gravidade, só precisa de um empurrãozinho”.

* Lorena Queiroz é advogada, amante de Literatura, devoradora compulsiva de livros e crítica literária oficial deste site.

 

Penumbra colorida – Pequeno Conto Poético de Luiz Jorge Ferreira

Pequeno Conto Poético de Luiz Jorge Ferreira

Enquanto mamãe lava a roupa usada na Quarta-feira, quando fomos ao rio assistir o balé do cio dos Botos.
Meu pai morre na sala, em pleno o jogo da Seleção do Haiti…
Na Praça em frente eu encontro um jeito de colocar LED na luz dos Vagalumes.
Enquanto a lua prenhe no Sexto Mês, tece com pétalas de Rosa , roupas para a estrela anã.
No portão, meu terceiro irmão seleciona cantos de Pintassilgos e Curiós, todos uníssonos na terceira voz…habitualmente usada por Tenores, nos Canticos Natalinos.

Doutro lado da cidade, a eternidade recebe meu pai de braços abertos…
Ele pensa em voltar para vir buscar os chinelos, fechar a porta da geladeira, por a tampa da Bic no lugar, aspergir um pouco de Desodorante Phebo, sob as axilas, pode ser que haja fila, e o clima parece que vai esquentar, há também a luz do banheiro acesa, a descarga por acionar, e um pouco de café derramado na toalha bordada sobre a mesa, e muita saudade no corredor.

Um pouco depois da Praça, estranhamente desligada de tudo, a vida caminha com sua bengala de velhinha, chutando polens, cuspindo saliva perfumada, desconhece a próxima visita, e o próximo endereço, caminha de braços dados com a morte, ambas tem tanto em comum.
Ela para e escreve na areia molhada.
…Essas pinceladas com cores do passado…mexem demais.
A morte sisuda até então, a lê.
E morre de rir.

*Osasco – São Paulo – 24.02.2021

Poema de agora: DISTOPIA – Fernando Canto

DISTOPIA

Aqui
Onde a língua corta a faca
Há um jogo de eternidades
Na memória dos falantes
– Esses deuses que sabem todas as senhas dos mortais,
Seres que aplainam a tábua dos fatos
Para lhes tirar os excessos que lhes condenariam

Aqui
Há casas sobre as águas
Feitas com os crassos troncos das marés
Aqui mora a ira
Mora a iracúndia profunda expressa em rugas
E o costume de engolir palavras nunca articuladas

Do convívio estreito com o sol
Dentes se oxidam e línguas apodrecem
Sem sonhar futuros e a embotar o brilho das estrelas

Talvez numa estrada de águas e ínguas
Uma légua de língua corte a jugular
Para sair a palavra evasiva ao último esforço
Aqui, onde se mastiga a sílaba silente

Fernando Canto

Tecendo a memória – Sobre o livro “Tecituras de Helena”, da autora Helena Bermerguy – Por @luizadejobim

Aos 80 anos, Helena Bemerguy reconta sua infância em livro bordado – Foto: Arquivo Helena Bemerguy.

Por Luíza Nobre

Faltando 15 minutos para o horário marcado para o início das fotos, eu ainda procurava no quarteirão o “excelentíssimo jardim” indicado no convite. Noto movimento e portas abertas em uma casa com muros de vidro onde funciona um escritório de advocacia e desço ali. Ainda molhadas, as plantas pareciam cabisbaixas por conta da chuva que tinha acabado de cair. Olho para o chão e vejo uma paleta de tinta gigante, na qual se encaixam vasos de flores. Tive a certeza de que estava no jardim certo.

O final do corredor estreito abria para um quintal aconchegante e coberto, onde se distribuíam cadeiras para os convidados se acomodarem. Uma lona comprida com ilustração de estante de livros prevenia que as cadeiras fossem molhadas. Os guarda-chuvas abertos, no entanto, em nada protegiam da água, mas cumpriam seus papéis decorativos pendurados no teto.

À direita, uma mesa com doces e chocolate quente foi disposta ao lado dos bordados emoldurados da autora, organizados em uma escada com flores. Os bastidores formavam um varal de bordados que balançava com o vento ou com a curiosidade de quem queria ver de perto as obras. Uma boneca de pano escorava-se na garrafa quente e ao fundo dela, via-se um baú aberto repleto de exemplares do livro.

Procurei um lugar para me sentar e montar a câmera, enquanto observava dona Helena, que socializava em uma rodinha de senhoras. Percebi que não via Helena há uns 15 anos, desde a época dos os aniversários de Maíra, sua neta e também minha amiga. Sorri e me apresentei como a moça que faria as fotos do lançamento. Ela sorriu de volta e perguntou meu nome, enquanto sentava em uma poltrona vermelha que combinava com o vestido azul e o tênis moderninho cheio de brilhos e amarrações, para fazer os primeiros registros.

Já com um volume considerável de pessoas, Amélia, a filha caçula da anfitriã, pediu licença para iniciar a apresentação do “Tecituras de Helena”. Ela, a Helena a quem o título do livro se refere, comentava o processo de criação junto dos desenhos de Bárbara Damas, que foram adaptados em linhas de costura e depois impressos em papel.

Abria-se o momento de perguntas e eu, que até então estava com os olhos na câmera tentando me camuflar atrás do móbile de sapatos, levantei a mão. “Queria saber como foi o processo de ressignificação das suas memórias”, ela me olha e diz “Olha, minha filha, acho que ainda está sendo. Quer dizer, eu sento e bordo, tendo motivo ou não. Esse livro eu fiz para deixar de herança para os meus netos, junto das muitas histórias que eu quero contar no livro e fora dele”, assenti com a cabeça e um “muito obrigada” e voltei para o meu lugar de espectadora.

Mais tarde, enquanto ela autografava os livros e eu registrava tudo bem de frente para a mesa, tentando não enquadrar o copo que ela escondeu atrás das flores, dona Helena me olha e pergunta se minha dúvida foi sanada. “Profunda a sua pergunta, menina, eu preciso pensar melhor sobre ela”. E eu, uma jornalista que nutria imensa curiosidade para além das histórias contadas, pedi timidamente para entrevistá-la no dia seguinte. Tempo suficiente para que ela processasse o que perguntei.

Na minha época

Nascida em Belém, capital do estado do Pará, no ano de 1937, Helena Aben Athar Bermerguy teve uma infância movimentada, mas sempre tranquila. Irmã mais velha entre os seis filhos, era ela quem comandava as brincadeiras e, quando necessário, ajudava a mãe em casa. “Eu vivi o século XX, minha infância não teve internet e televisão, precisávamos ser criativos”, comenta olhando para o meu celular que fazia papel de gravador no momento.

Das tecnologias da época que a menina gostava, o rádio era a predileta. Conta que passava tardes sentadas na mesa do pai ouvindo as canções e novelas, e só aprendia músicas se copiasse a letra. Um apreço que foi da palavra falada para a palavra escrita e a fez criar afinidade com as narrativas textuais.

“Na minha época, a menina que não tinha diário não estava por dentro da moda, e tinha que manter ele bem escondido. Eu escondia debaixo do colchão para a mãe não ver. Tive uma adolescência inteira, logo que entrei no ginásio”. Ela dividia com o caderno os sentimentos do dia e os sonhos juvenis. Mas engana-se quem pensa que confidenciar segredos fosse um ato movido pela timidez. Helena gostava mesmo de ter um motivo para contar histórias.

Ainda no início do livro a escritora descreve Belém como uma cidade única, e para ela, o melhor lugar. As comidas, os sabores, os igarapés e as mangueiras que subia para apanhar fruta da janela de casa. Pontualmente fala do pai, que ia à feira e trazia o paneiro carregado de frutas, depois reunia todos os filhos em volta da mesa para que provassem e aprendessem os sabores de cada uma.

”Como disse, meus primeiros pontos foram praticados nos enxovais dos meus irmãos mais novos”, dona Helena fazia dos bordados mais uma de suas brincadeiras em uma rotina em que boa parte do tempo era dentro de casa. De família tradicional judaica, ela sempre foi uma moça reservada pelas questões religiosas, mas o suficiente para não deixar de se destacar.

“É que no meu tempo as coisas eram mais diferentes, a juventude era outra”. E percebo que ela repete essa frase muitas vezes enquanto fala. Mas sem saudosismo. Sem o desejo de retornar ao passado. Fala com apreço às memórias afetivas que ainda são vivas na lembrança, e agora eternizadas em um livro que eu tenho em minhas mãos.

Vou te contar

Os bordados que antes eram passatempo ganharam outro significado na vida da jovem. Aos 17 anos, Helena foi “deportada” para Macapá, para que se afastasse de um namorado cristão. “Eu vim morar aqui muito cedo e sentia muita saudade dos meus pais, então comecei a bordar minhas histórias e alinhavar algumas coisas no meu texto”.

Na expectativa de seguir vivendo um amor impossível, o rapaz veio atrás dela na nova cidade, e lhe propôs um casamento onde ela não precisaria se preocupar em trabalhar e como diz Vinícius de Moraes: ser só perdão. Tudo o que ela não esperava da vida. “Eu sempre sonhei com minha independência financeira, porque eu acho que a mulher tem que ser dona da vida dela”, e preferiu seguir a vida sozinha e focada nos novos interesses.

Mas como diz a expressão popular: casamento e mortalha no céu se talha. E fugindo ou não da orientação do pai, o destino amoroso dela foi com um judeu. “Eu era a única judia em Macapá e só havia um judeu aqui, que era noivo na época. Quando me conheceu, desmanchou o noivado e nos juntamos, casamos e tivemos quatro filhos.” E mesmo trabalhando fora e tendo autonomia, Helena dedicou-se à construção de uma família sólida.

Mair Naftali Bemerguy e Helena Aben-Athar formaram juntos uma das famílias tradicionais de Macapá quando a mesma ainda estava em processo de deixar de ser território do Pará e se tornar uma cidade. “A família é como uma célula, minha filha, quando ela é boa na sua base, aqui embaixo, ela tende a seguir próspera”. Apesar de ter se casado cedo, ela se tornou viúva ainda jovem, quando completou 52 anos.

“Depois dos meus sessenta anos, quando comecei uma nova fase na minha vida, época em que meus filhos foram morar em Brasília, passei a fazer muitos cursos de crochê, frivolité, macramê e outros. Foi nesse movimento entre armarinhos que comecei a pensar na possibilidade de bordar minha história”, diz ela sobre a descoberta dos livros bordados. Por algum motivo, lembrei-me do poema “O Menino Que Guardava Água na Peneira” de Manoel de Barros que fala da infância e pergunto se ela conhece, recitando o primeiro verso para facilitar a lembrança. Ela balança a cabeça positivamente e diz que foi o primeiro livro bordado que leu e a inspirou. Ri da coincidência e tira da mala cópias dos desenhos originais que Bárbara Damas fez para o Tecituras de Helena.

O desejo de dar continuidade a um trabalho que se propôs a fazer na construção da família não lhe permitiu criar interesse em buscar outro casamento, e assim, o foco de sua vida voltou-se para a educação dos filhos. “A Bossa Nova passou em minha vida e não vi”. E nesse momento eu, que a ouvia sentada no chão aos pés da poltrona onde ela deitava esticando as pernas e permaneço observando os olhos dela.

Os olhos de Helena são de um acinzentado límpido, mas sem suavidade. Um olhar que não têm nada de tranquilo e que me atravessaram como a agulha atravessa o tecido para abrir uma nova casa em um ponto corrido. Penetram e constrangem, mas não um constrangimento ruim, e sim de quem se perde na transparente da expressividade deles. E penso que o maior baú de histórias dela talvez esteja guardado no olhar.

Livro Tecituras de Helena.

Das memórias que não soube tornar possíveis

“O meu neto de quinze anos sempre diz: vovó você foi professora, hoje você não é mais. E realmente, o ensino mudou muito, a maneira de ensinar. Confesso que pelo pouco que vejo meus netos estudarem, percebo uma evolução na forma de estudar, tem a internet, a leitura dinâmica”. Aposentada como professora de ciências e matemática, Helena não acredita que existam outros caminhos para o sucesso que não sejam construídos através da educação.

E entender a educação como fator modificador a faz se aproximar da realidade dos netos. Viver e se adaptar ao tempo presente sem grandes esforços e dialogar com diferentes gerações. “Eu sou um ser político, gosto de acompanhar o movimento do mundo. E sempre pugnou pelo social, não admito preconceito racial, de gênero… sou a favor das cotas, políticas públicas para as minorias”. E me mostra em seu celular os contatos do WhatsApp dos netos, com quem ela fala diariamente.

Quando lhe perguntei sobre a rotina, recebi um “eu faço qualquer coisa diariamente” como resposta e achei graça da objetividade dela. Mas compreendi que, para uma senhora de 80 anos com uma mente pensante e inquieta “qualquer coisa” sempre há de ser algo construtivo e interessante. Hoje ela nutre o desejo de ensinar a arte do bordado para quem tiver disposto a aprender e até me oferece uma vaga na possível primeira turma.

Decidir bordar a própria história, literalmente, foi uma forma que ela encontrou de dividir com os filhos os momentos que não teve a oportunidade de contar. Criar memórias a partir das memórias narradas, mesmo que tardiamente e agora, com mais uma geração para ouvir e carregar junto toda essa bagagem. Unir a família em uma única tessitura atemporal.

E deitada em uma poltrona rosa, uma espécie de divã, eu presenciei o que para mim tinha sido uma das maiores manifestações não governamentais do que seja a

memória. Tão espontaneamente que preenchia o espaço e tudo era motivo de um gancho ou explicação para existir naquele cômodo, na casa do filho de Helena. Tão pueril como o próprio livro. E com um convite final para um bolo no pátio, e mais conversa. Enquanto ela se adianta passos à frente, eu abro o prefácio do livro e releio “Quando terminei este livro fiquei pensando se meu pai ao lê-lo não diria: Abu, Helena, Abu*!”

*Abu significa “mentira” em hebraico.

Fonte: Café com Notícias.
* Luíza Nobre é jornalista, fotógrafa e produtora do programa de rádio Café com Notícia na 90,9FM, além de pesquisadora na área de memória e narrativa. Artista e curadora de memes.

Poema de agora: QUANDO A LUA CAIU DO CÉU – Arilson Souza

QUANDO A LUA CAIU DO CÉU

Quando Lua caiu do céu…
o firmamento se fez escuridão
e a dor se iluminou com o brilho dela.
O olhar imergiu no grande vazio,
as lágrimas escoaram para o penoso rio
e a tristeza ecoou no infinito universo.

Ah, quando a Lua caiu do céu…
levou com ela a luz da esperança,
deixando o Sol num altar gélido e solitário.
No peito um soluçar tímido
(porém incontrolável )
como um furor de um vulcão.

(Decerto, pela manhã haverá solidão)

Arilson Souza

Reciprocidade é tudo, acreditem! – Crônica de Elton Tavares

Ilustração de Ronaldo Rony

Em qualquer campo social, profissional ou afetivo, a gente só dá o que recebe. Aprendi que em tudo na vida é preciso reciprocidade. Sim, parceria, mão dupla. Acho engraçado que pessoas que não fazem nada por você, mesmo que já tenham feito (mas fizestes muito também por elas), lhe cobrarem algo. Outro fato que espanta é o lance de não lhe convidarem para nada, mas quererem que você as chame para tudo.

E ainda rolam casos de nego que não paga uma menta e se faz de vítima quando te vê fazendo algo legal via redes sociais. Que porra é essa? É preciso parceria, reciprocidade, dar e ter retorno. No trabalho, por exemplo, preciso de ajuda para executar minhas atividades e pessoas competentes nas coisas que me falta competência.

No campo da amizade, família ou relacionamento amoroso, a troca é necessária. Aprendi isso a duras penas. Mas sempre tem aquele parente ou “amigo” que acha que só você deve procurá-lo ou telefonar. Não!

É um lance até idiota, mas corriqueiro. Hoje em dia nem planejo nada. Procuro quem me procura, saio com quem me liga (e como ligam, graças a Deus) e por aí vai. Essa troca é natural e não deveria incomodar e nem ser explicada. Mas de tanta cobrança, estou aqui falando sobre o obvio.

Sou verdadeiro. Trato todos que amo bem, muito bem. Comigo as cartas estão sempre na mesa, pois não gosto de correspondência cognitiva. Portanto, a quem interessar possa, fica a dica: é preciso reciprocidade, sempre!

Elton Tavares

O primeiro poema – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

O tinteiro, a pena e o papel estavam lá, à minha frente, sobre a pequena escrivaninha, herança de meu avô. Eu estava tranquilo e os ruídos que chegavam da rua não me perturbavam. Lá fora, uma noite agradável se estendia sobre a cidade.

Eu procurava uma maneira de iniciar o desafio que me foi imposto pela vontade de extravasar os sentimentos por tanto tempo guardados no peito. Naquela noite, eu me preparava para escrever um poema.

Eu nunca havia escrito um poema antes, sequer pensado nisso, e aquela súbita ideia me pareceu absurda. Ela me atingiu no ônibus que vinha lotado de passageiros suados e cansados, assim como eu, depois de um dia extenuante de trabalho. O ônibus era trepidante e barulhento, mas o desejo de escrever um poema me fez flutuar ao som de uma linda sinfonia, que não sei de onde vinha, e nem notei que o percurso da viagem era tão longo.

Tomei um banho demorado, curtindo as bolhas de sabão que dançavam à minha volta e, pela primeira vez, observei os desenhos herméticos que as idas e vindas das formigas formavam no branco do azulejo.

Saí do banheiro e vesti a roupa mais simples. Fui ao quintal e reguei as plantas, conversando com cada uma. Depois, alimentei os cães e os gatos vadios que às vezes iam me visitar. Mudei a disposição dos objetos da casa e coloquei cortinas novas nas janelas.

Agora estava eu ali, na velha escrivaninha de meu avô, tendo à minha frente o tinteiro, a pena e o papel. E a firme determinação de escrever o primeiro poema de minha vida.

Oportunidade para escritoras: aberto edital para a antologia “Mulheres Livres – Senhoras de si”

Escritoras do Amapá, do Brasil e estrangeiras que escrevam em Língua Portuguesa podem se inscrever para o edital da antologia “Mulheres Livres – Senhoras de si”.

O prazo vai até o dia 15 de março de 2021 para participar da obra literária. As inscrições iniciaram no último dia 10, pelo site: www.sfeditorial.com.br.

A participação nesta antologia é exclusivamente feminina e a proposta é amplificar narrativas e experiências de sucesso da mulher na sociedade, em seus mais diversos âmbitos.

A coletânea é idealizada pela escritora amapaense organizadora da obra. A parceria na organização se deu a convite da SF Acompanhamento Editorial, do Rio de Janeiro, através do editor Carlos Ferreira.

A socióloga, estudante de psicologia e também escritora, Amanda Moura, filha de Leacide, reforçou o time. As duas organizarão a obra, que é voltada para questões de gênero.

As autoras podem participar do Edital com textos sobre desigualdade, machismo, conquistas femininas em âmbitos profissionais, sociais, entre outros temas relacionados.

Neste prisma, as escritoras terão a oportunidade de fazer relatos escritos sobre mulheres fortes e inspiradoras , com destaque na sociedade, mercado de trabalho e/ou que venceram desafios, sejam eles profissionais ou domésticos na luta contra o patriarcado.

Edital

De acordo com Leacide Moura, o edital está disponível no site www.sfeditorial.com.br ou direto no link https://editorasf.wixsite.com/mulhereslivres.

Ao acessar os links da chamada para a obra, é preciso preencher o espaço destinado ao e-mail e ao número do celular, e então o edital estará disponível para download.

“Convidamos as escritoras amapaenses a compor essa nova antologia. Precisamos, nós autoras, documentar casos de sucesso, histórias reais sobre mulheres fantásticas. Além de reforçar os direitos femininos, as narrativas sobre histórias fictícias ou de próprias vivências ou experiências de outras pessoas contadas pelas autoras, a obra reforçará a arte literária tucuju“, comentou a escritora Leacide Moura.

Elton Tavares, com informações de Leacide Moura.

Resenha do livro 1984, de George Orwell – (Por Lorena Queiroz – @LorenaadvLorena)

Por Lorena Queiroz

1984 foi a última obra de George Orwell e teve sua primeira edição publicada no ano de 1949. Ultimamente este livro está voltando a ser lido por tratar de questões atemporais, bem como pela polarização, pois tanto a direita quanto a esquerda, usam a obra para identificar fragmentos no oponente que indiquem traços denunciados pela obra. Acredito que para entender melhor a obra, temos que entender o mundo de George Orwell e a atmosfera de sua época. O autor vivia o período do entre guerras e a segunda guerra mundial, em um mundo que era recentemente monárquico e democracia um conceito novo. Se apresentava como um social democrata onde este conceito também se apresenta diferente do que conhecemos hoje. Em sua época mostrava um conceito de liberdade que é contrária a qualquer regime totalitário, observe o Nazismo e o Stalinismo e se veja imprensado por ambos, daí tire suas conclusões.

O livro apresenta uma estrutura de mundo soviético e nazista, que vai do bigode de Stalin ao modo de ilustrar um inimigo da forma que Hitler pintou os judeus.

A personagem central do livro é Winston, um homem que vive na Oceania neste mundo distópico que é dividido em três blocos: Oceania, Eurasia e Lestásia. Oceania, que antes fora Londres, é comandada pelo partido do “grande irmão ” que, através de suas teletelas observa e controla o comportamento e, até os pensamentos e sonhos da população. Wiston trabalha no Ministério da verdade, onde sua labuta consiste em mudar a história, reescrevendo notícias, informações que eram alteradas conforme à vontade do partido, pois o grande irmão nunca erra. Se mês passado a Oceania estava em guerra com a Eurasia e no mês seguinte a oponente se tornasse aliada, a guerra anterior era apagada e nunca teria existido. Este era o trabalho de Wiston, lidar com a mentira como verdade incontestável. Para que houvesse eficácia entra o “duplipensamento”, onde o sujeito tem que fazer um exercício mental de acreditar no partido independente de seu julgamento e conhecimento pessoal. Mas essa não seria uma tarefa fácil, mas para tanto, o partido cria, entre outros mecanismos, o dicionário da “novafala “, onde a linguagem é limitada, como por exemplo a palavra : bom. Neste dicionário não existiam graduações, ou era bom ou “desbom”. Mais ou menos, médio, razoável, estas palavras que geram variações tinham que ser extintas para que os pensamentos se mantivessem binários. Se você precisa de parâmetros para raciocinar, então acaba -se com os parâmetros.

Existiam ainda outros ministérios; Ministério do Amor, Ministério da Pujança, Ministério da paz. Todos os ministérios executava tarefas antagônicas ao proposto em seus nomes, pois a verdade neste mundo é maleável e se adéqua à realidade que o partido apresenta. As pessoas são educadas desde sempre dentro desta crença, havendo inclusive, crianças denunciando orgulhosamente seus pais ao partido.

Dentro deste mundo opressor, onde os únicos sentimentos aceitos são o ódio ao inimigo e o amor ao partido, Wiston se encontra sedento por sentimentos e sensações humanas e sua estória se desenrola dentro desta necessidade humana em existir por completo.

Já li Admirável mundo novo do Aldous Huxley, Fahrenheit 451 de Ray Bradbury, Senhor das moscas de Willian Golding que, ao meu ver, apesar de perturbadoras, não são tão pesadas, densas e, sinceramente, desesperançosas como 1984. A conclusão que tive, é que a humanidade vai sempre subjugar os seus em nome do poder, este que para as mentes totalitárias, tem muito mais valor que o dinheiro, ouro ou vida. O totalitarismo está em qualquer lado do espectro e só a eterna vigilância nos garantirá a liberdade.

* Lorena Queiroz é advogada, amante de Literatura e devoradora compulsiva de livros.

Alcinéa Cavalcante gira a roda da vida. Feliz aniversário, querida amiga! – @alcinea

Me gabo de ser amigo de muita gente Phoda! Alcinéa Cavalcante é uma dessas pessoas fantásticas, que tenho a honra de ter a amizade, respeito e amor, e sei que é recíproco. Neste décimo nono dia de fevereiro, ela gira a roda da vida e eu rendo-lhe homenagens.

Alcinéa Cavalcante é uma brilhante jornalista, escritora premiada, uma das maiores poetas amapaenses, ativa militante cultural, respeitada blogueira, fotógrafa, numismática, apreciadora da Lua, experiente e perspicaz repórter (aí sabe apurar um fato), imortal da Academia Amapaense de Letras (AAL), membro da Maracatu da Favela (pávula, quando o assunto é a sua verde rosa), esposa do gentil Soeiro, mãe do meu querido amigo Márcio Spot, avó amorosa da Alice, amante de carnaval, degustadora de Chandon e minha amada amiga.

Com sua caligrafia verde esperança, a bem amada do Tio Alcy Araújo faz a diferença em tudo que toca. Papel com a Alcinea vira passarinho, mágicos origamis que espalham poesia pela cidade. Palavra vira poema ou notícia, informação coesa e responsável, pautada pela sua marca pessoal, a credibilidade. Dia a dia vira retrato de uma paisagem antiga, que a gente não quer esquecer.

Sabem, eu lia a Alcinéa no passado e sempre tive admiração pelo trabalho dela como jornalista. Depois, como poeta. Mas, para mim, ela é ainda mais importante como amiga, conselheira, incentivadora, confidente e protetora (sim, ela protege e é extremamente fiel aos seus).

Já escrevi alguns textos sobre a Alcinéa Cavalcante e sempre repito: Néa é um misto de doçura e acidez. Quando jornalista, suas colocações inteligentes, com pontos de vista diferenciados, o leve humor negro e a abordagem refinada sobre qualquer tema, fascina leitores. Quando poeta, desperta as melhores sensações em quem lê ou escuta seus lindos poemas, pura ternura.

Adoro quando vou até ela e a gente fica batendo papo no escritório de sua casa, uma mistura de biblioteca e sala de estar aconchegante. Quando passo tempos sem ir, dentro da normalidade, fora desse triste período pandêmico, ela me ameaça e fala que irei para seu caderninho de ex-amigos. Logo dou um jeito de dar as caras, colocar a conversa em dia e rir bastante em sua companhia.

Nea, como carinhosamente a chamamos, é uma pessoa sensacional. Uma mulher do bem, mas que combate o mal com força (e ela é forte pra caramba, pensem numa caneta pesada). Não à toa, nós, seus amigos, a amamos. E é impossível ser diferente.

Alcinéa, tô com saudades de ti e tu sabes. Que teu novo ciclo seja repleto de luz, saúde, harmonia e paz. Que tua vida seja longa. Que sigas alegrando nossas vidas com teus poemas, sacadas, ironia fina e amor. Sou feliz pela tua existência orbitar a minha. Agradeço sempre pelo apoio contínuo e aprendizado. Que sigas, por pelo menos mais uns 100 fevereiros, com essa alegria, energia e força contagiantes.

Parabéns pelo seu dia e feliz aniversário!

Elton Tavares

Obra “Depois vá ver o mar” de Bruno Muniz tem poemas que podem ser destacados

Foto: Reprodução

Por Pérola Pedrosa

O autor e poeta amapaense Bruno Muniz está lançando sua nova obra de prosa e poesia, “Depois vá ver o mar”. Com 240 páginas, os poemas são destacáveis, acompanham envelopes e marcador, e as ilustrações são em aquarela.

Devido à pandemia, não houve coquetel de lançamento e as vendas estão ocorrendo por delivery (entrega em casa), pelo valor de R$40,00 reais. Os pedidos devem ser feitos nas mensagens da rede social do autor.

Bruno Muniz e sua nova obra literária. Foto: Acervo Pessoal/Bruno Muniz

Bruno Muniz é escritor, poeta, compositor e músico integrante do grupo Beatos Cabanos. Ele se declara apaixonado por grandes poetas da Língua Portuguesa e já tem outros trabalhos literários como “Cem versos putos sobre mim” (Ed. Kelps, 2016) e “Depois vá ver o mar” (2020).

Bruno diz que foi inspirando quando ainda era criança e se apaixonou por poesia. “A experiência de ler Olavo Bilac aos nove anos de idade me impactou e quis conhecer outros poetas. Aos 12, me apaixonei por Fernando Pessoa. Li a obra completa dele várias vezes e ainda é meu preferido. Outra referência é o francês Arthur Rimbaud”, conta.

*O livro “Depois vá ver o mar”, custa R$ 40,00, e só pode ser adquirido diretamente com o autor, através do Instagram ou Facebook @poetabrunomuniz

Fonte: Café com Notícias. 

O gato e as suicidas – Miniconto de Lulih Rojanski (republicado por conta do Dia Mundial do Gato)

Miniconto de Lulih Rojanski

Um gato do avesso no canto do sofá testemunhou, com um olho só, o curioso voo da poetisa Ana Cristina Cesar do oitavo andar.

Do lado de fora de uma janela de vidros, um gato, impávido, sentiu o penúltimo suspiro da poeta Sylvia Plath diante da válvula de gás.

Um gato que ressonava sob uma árvore no campo ouviu o revolver das águas que engoliram o corpo esquálido e vestido de pedras da escritora Virginia Woolf.

O frasco dos barbitúricos que adormeceram para sempre a poetisa Florbela Espanca despencou do criado mudo, despertando o gato do longo sono da tarde.

Da varanda de uma antiga casa de praia, um gato sonolento viu as altas águas do mar embalando o corpo transbordante de amor e amargura da poeta Alfonsina Storni.

 

*Republicado por conta do Dia Mundial do Gato.

Quarta-feira (que já foi) de cinzas – Crônica de um estranho Carnaval de Ronaldo Rodrigues

Ilustração de Ronaldo Rony

Crônica de um estranho Carnaval de Ronaldo Rodrigues

Nesta quarta-feira (que já foi) de cinzas, abro a janela para o dia e não estou cansado de ter sambado na Banda. Este ano a Banda não passou e deixou meu coração folião ressacado de saudade. E olha que nem sou um folião fanático. Apenas, de vez em quando, deixo meu espírito se fantasiar e saio a bailar ao som de qualquer batucada ou mesmo embalado pela tradição de grandes sambas que o Brasil ostenta. Isto me tira um pouco do trauma que é não saber sambar sendo do País do Carnaval. Desculpa aí, gente! Já me basta a carga de ser do País do Futebol e não ter a mínima intimidade com a redonda. E antes que me perguntem você samba de que lado, de que lado você samba, você samba de que lado, de que lado você samba, de que lado, de que lado, de que lado você vai sambar, já adianto que o samba está em mim de todo lado, pois meus domingos infantis e juvenis tiveram a trilha sonora de Paulinho da Viola, João Nogueira, Clara Nunes, Alcione. Como ficar imune ao feitiço desse gingado e dessas letras que vão fundo no que é mais profundo?

Porque é Carnaval e não é Carnaval, o samba vem à tona. Em qualquer esquina eu paro, em qualquer botequim eu entro. O samba é revolucionário e rebelde, porque ouço samba no som de Sérgio Sampaio e Tom Zé (e se for além, em Raul também). Então o samba me leva, me eleva e, a quem pergunta onde estou, diz que fui por aí. E desde que o samba é samba é assim.

Mesmo sendo um cara um tanto do rock, minha alma batuca numa caixinha de fósforos, onde cabe toda uma bateria de escola de samba. Alcanço até os acordes de um tamborim que me arrebatam os sentidos. O pandeiro estica no couro a malemolência de quem me diz para não deixar o samba morrer, não deixar o samba acabar. O samba pulsando no asfalto, nos vozeirões dos Jamelões, intérpretes de samba-enredo das escolas de samba deste meu Brasil, que me faz tirar o chapéu para Cartola e abraçar a Vila de Martinho e Noel.

O Carnaval não deixou de rolar, pois é possível celebrar a vida em qualquer situação, ainda mais nesta onda de pandemia que decretou o nosso não encontro com o Rei Momo. A caixa de som do celular me acompanhou por todo o período que seria do Carnaval e ainda agora, nesta quarta-feira (que já foi) de cinzas, ela dispara os ritmos carnavalescos que não devem silenciar até o fim da semana, porque nessas horas sou meio de Salvador, meio de Olinda e levo o folguedo até as últimas consequências.

Vamos segurando a onda este ano para que tenhamos Carnavais com mais saúde e com mais futuro, com mais encontros etílicos ou somente na base da sagrada água, a bebida mais forte, que nutre e abençoa. Porque é hoje o dia da alegria (todos os dias) e a tristeza nem pode pensar em chegar.

Para compor esta crônica, me vali de várias citações: Samba de lado (Chico Science) / Diz que fui por aí (Hortêncio Rocha e Zé Keti) / Desde que o samba é samba (Caetano Veloso) / Não deixe o samba morrer (Edson Conceição e Aloísio Silva) / É hoje – Samba-enredo da escola de samba União da Ilha (RJ), 1982, (Didi e Mestrinho).

Uma breve análise geográfica da obra “O passeio de Dendiara”

Capa da obra “O passeio de Dendiara”

Por Gutemberg de Vilhena Silva

Há poucos dias tive o prazer em receber da amiga de longa data Ana Beltrame seu primeiro livro: “O passeio de Dendiara” (Tema Editorial, 2020) . Ana é diplomata de carreira, tendo servido em vários países no mundo. Um de seus postos mais recentes foi o de cônsul-geral em Caiena, na Guiana Francesa, de 2008 a 2013. Ao longo de seus anos de trabalho em plena floresta amazônica, foi possível a ela ter contato com grandes temas que permeiam os estudos amazônicos e, certamente, a atividade garimpeira foi um que deixou marcas nas suas mais profundas memórias

A procura por metais preciosos, em especial do ouro, é um dos temas socioeconômicos e geopolíticos mais antigos e duradouros na e sobre a região amazônica. Outros temas como a preocupação com a degradação ambiental, os problemas sanitários e as ilegalidades generalizadas que nos garimpos ocorrem, como a prostituição infantil e o tráfico de seres humanos por exemplo, são questões que perfilam na literatura especializada há apenas algumas décadas, fruto de empenhos individuais e coletivos na luta por um mundo seguro, com justiça social e ambientalmente adequado.

“O passeio de Dendiara”, obra de ficção baseada em fatos reais, narra problemas enfrentados por uma criança brasileira de 10 anos que migrou para a Guiana Francesa e lá viveu breve, mas intensamente, as agruras relacionadas a garimpos. Dendiara, nome fictício claro, tornou-se prostituta, contraiu diversas doenças, engravidou – mesmo muito jovem – e engrossou as estatísticas da prostituição infantil. A nosso ver, contudo, a obra tem uma envergadura maior: é um relato sobre a dura vida clandestina de brasileiros nos garimpos (imensa maioria ilegais) da Guiana Francesa. Não é meu papel aqui contar de ponta a ponta o percurso de Dendiara narrado por Ana. Eu quero me dedicar – como fiz no texto anterior que publiquei aqui no Blog DeRocha sobre o livro “Então, foi assim?” (https://www.blogderocha.com.br/geografia-e-musica-os-bastidores-da-criacao-musical-brasileira-amapaenses-por-gutemberg-de-vilhena-silva/), a alguns aspectos geográficos do livro. Identifiquei na obra de Ana Beltrame ao menos dois temas transversais de grande interesse geográfico: o ambiental e o da conectividade de fixos e de fluxos.

O tema ambiental

Desde os anos 1970 a preocupação com o uso racional do meio ambiente tomou conta de parte da agenda das nações, embora somente nos anos 1990 em diante este tema tenha se tornado sólido nas discussões e fóruns internacionais. A Amazônia certamente não é o pulmão do mundo, mas é certo também que ela cumpre um papel central na regulação do clima, fruto de sua rica biodiversidade – uma das maiores e mais importantes do mundo. Ana Beltrame mostra com perspicácia o “viver” na Amazônia. A autora, sem perder de vista o fio condutor da obra, aproveita partes de seu livro para descrever o meio ambiente da região, seu clima, as características de seu relevo, solo, as formas como os rios serpenteiam a floresta e a importância das comunidades indígenas como ‘guardiões’ da floresta. Ana Beltrame ainda descreve com bastante clareza os efeitos nocivos da ação antrópica nos garimpos e aqui destacamos dois: o desmatamento e o uso do mercúrio.

Ilustração: Ronaldo Rony

Os garimpeiros limpam a área que será explorada com o uso de motosserras, cortando o que veem pela frente, depois entra em cena a retroescavadeira para arrancar o que não foi possível retirar na etapa anterior. Em seguida usam-se bombas hidráulicas para injetar água e mercúrio, sob pressão, diretamente no solo. O mercúrio aglutina o ouro, gerando pepitas maiores. Com isso, destaca Ana Beltrame, ele se torna um insumo tão vital para o garimpeiro quanto o combustível que abastece as máquinas. Quando se separa o mercúrio do ouro, na última fase, aquecendo-o acima de trezentos e cinquenta e cinco graus Celsius, ponto em que evapora, o gás é lançado à atmosfera sem qualquer tratamento e, quando se esfria, na própria corrutela, nome dado à moradia dos garimpeiros, contamina todo ambiente inclusive pequenos moluscos no fundo dos rios e, a partir deles, toda a cadeia alimentar, até chegar nos seres humanos, sejam eles garimpeiros ou não.

O tema da conectividade de fixos e de fluxos.

A Conectividade entre fixos (lugares concretos) e fluxos (a informação) é um dos fundamentos elementares da geografia. Pessoas se deslocam e com elas a informação circula ou, em razão da tecnologia, também se propaga por meio das ondas sonoras dos rádios, objeto este fundamental para o funcionamento dos garimpos da Guiana Francesa. É por meio deles que os garimpeiros sabem o que está ocorrendo “no mundo”, com informações repassados pelos controladores dos equipamentos em Oiapoque, e é também como estes se atualizam sobre o que ocorre nos garimpos.

“O passeio de Dendiara” mostra uma hierarquia de relações territorialmente localizadas, mas espacialmente pulverizada no mundo, desde a extração até a venda do ouro nos mercados internacionais, passando por diversas pessoas ou empresas que compõem essa ‘trama’ de conectividades de fixos e de fluxos. Eis algumas partes das conexões: O Putanic, um barco-puteiro que faz pit stop de garimpo em garimpo, é parte dessa engrenagem. Os catraieiros que – quando atuam para levar equipamentos, pessoas e/ou mantimentos nos difíceis rios da Guiana Francesa, chamam-se pilotos, são outra parte daquele universo. Os operadores das rádios comunitárias dos garimpos e aqueles que recebem e transmitem as informações em Oiapoque, também são partes de destaque. Todos eles, que de alguma maneira interagem, são “figuras” importantes na conectividade estabelecida entre a extração e a venda do ouro, seja para o atravessador, seja para outra pessoa ou empresa que consiga “legalizar” aquele metal precioso. Após ser “legalizado”, entram em cena outras tantas ‘tramas’ e agentes que amplificam a conectividade de fixos e de fluxos daquela atividade.

A leitura do livro de Ana Beltrame obviamente não se limita a destacar apenas estes dois temas que tratei, pois percorre vários outros aspectos sensíveis da atividade garimpeira que foram se entremeando na obra por meio de inúmeras narrativas sobre o cotidiano da jovem Dendiara. A autora, em seu primeiro livro – digno de virar documentário ou um longa-metragem, já mostra toda sua sagacidade com a escrita e com a forma fácil, hábil e clara ao tratar de variados assuntos importantes no transcorrer de seu livro.

*Gutemberg é professor Doutor na Universidade Federal do Amapá onde atua na Graduação e na Pós Graduação, além de desenvolver pesquisas sobre a região das Guianas.