Cartas Que recebi, Mas leio agora – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

19.07.1955

Caro Luiz Jorge,

D’aqui de ilhéus da Casa Amarela, tendo por céu o céu e por chão, o solo adorado da minha Bahia. Escrevo para comentar contigo modificações que fiz em Mar Morto, Quincas Berro d’Água, e o País do Carnaval. Inclusive estas vieram depois de trocarmos cartas sobre enredo e personagens destes acima citados romances.

Em o País do Carnaval. Paulo Rigger. Eu tinha dúvidas se ele ficaria no Brasil após suas paixões mal resolvidas ou voltaria para a Europa. Você até estranhou que a aversão dele pelo mulatismo do país fosse capaz de apaixona-lo a tal ponto de faze-lo ficar. Até insinuou que o navio em que ele ia regressar a Europa, afundasse, coisa que não fiz.

Ideia boa foi em Mar Morto, tratar Guma como lenda, porém muito temente. Mas a que? Veio em mim a dúvida. Ao que. Você quando leu os manuscritos. Devolveu-os grifados.A amuletos. Foi que fiz.

Perdoe esta mancha mais escura neste parágrafo. Não é tinta. Caiu um pouco de licor de cacau. Enxuguei com pano e coloquei giz raspado, mas não absorveu de todo. Já com Quincas Berro D’Água a ideia sempre foi faze-lo morrer duas vezes. Primeiro: Encontrado morto; e a segunda “imaginado vivo” pelos amigos, morrer afogado, após uma bebedeira de comemoração.

O diabo foi convence-lo de colocar as meias do avesso como reza a tradição no enterro dos pescadores. Você conversando com ele pensaria que sou eu.

Despeço-me antes que conversemos mais, pelo avançar das horas, porém guardo uns dois dedos de prosa para quando vieres, caso venhas, coisa que prometestes, e ainda não o fizestes.
Mesmo assim aguardo.
Um abraço.

Belchior e a Música das Esferas – Por Fernando Canto (três anos sem o poeta)

Musico Belchior em 1977.

O cantor e compositor Belchior morreu há três anos (quando soubemos, pois na verdade ele foi para as estrelas no dia 29 de abril de 2017), em Santa Cruz do Rio Grande do Sul, aos 70 anos. Naquela manhã, acordei com a triste notícia de seu desencanto. Sempre fui seu fã, mas há alguns anos, me tornei mais ainda por conta da convivência com uma das pessoas que mais idolatravam o artista. E hoje o “tempo andou mexendo com a gente, sim”.

Poeta brilhante, artista louco, compositor fantástico, entre tantas outras coisas sensacionais que Belchior foi e é, dificilmente eu conseguiria descrever a importância dele para a música e cultura brasileira. Mas o Fernando conseguiu. Fica aqui nossa homenagem com essa crônica do Canto:

Belchior e a Música das Esferas – Por Fernando Canto

Por Fernando Canto

“Deixando a profundidade de lado” eu sempre fui fã desse cara cearense, que hoje faz 70 anos. Assisti pela primeira vez a um show dele no Projeto Pixinguinha, no Centro de Convenções João de Azevedo Picanço, em 1984. Ele cantou seus sucessos “Como Nossos Pais” e “As Paralelas” ao lado de Zizi Possi, outra cantora que também admiro muito. O que me chamou atenção no seu visual eram as meias coloridas, a cabeleira e o vasto bigode, que parecia ter vindo de uma nave da Tropicália. Aliás, a “roupa colorida” era tida como elemento constituinte da corporalidade do ethos tropicalista.

Passaram-se alguns anos, ainda na mesma década, ele tocou no final de um festival universitário da canção no ginásio de esportes Avertino Ramos. Cantava no palco. Eu estava lá na arquibancada. Um sujeito que estava do meu lado gritava para ele, pedindo atenção. De repente jogou uma lata de cerveja na direção do palco que atingiu o cantor. Antes dos seguranças chegarem para expulsá-lo perguntei-lhe por que fizera aquilo. O cara chorava e dizia: – Eu sou fã dele, queria apenas que ele me ouvisse. Queria que ele tocasse “A Palo Seco” ou “Rapaz Latino Americano” e, mas ele não me ouviu. E gritava: – Desculpa, desculpa. Eu não queria fazer isso…, enquanto era arrastado para fora. Logo a seguir o cantor ilustrava o ambiente reverberador do ginásio com a música solicitada pelo fã compulsivo – quase um psicopata – e cruel:

“Eu sou apenas um rapaz latino-americano/ sem dinheiro no banco/ sem parentes importantes/e vindo do interior/ POR FAVOR NÃO SAQUE A ARMA/ NO SALOON, EU SOU APENAS O CANTOR. / MAS DEPOIS DE CANTAR/ VOCÊ AINDA QUISER ME ATIRAR/ MATE-ME LOGO, À TARDE, ÀS TRÊS/ Que à noite eu tenho um compromisso e não posso faltar/ Por causa de vocês”.

Depois do seu episódico desaparecimento há quase três anos, quando especulações sobre sua vida emergiram de forma negativa, só podemos perguntar “Onde está Wally?”, no meio dessa multidão insensível. Onde está Belchior? O cara que sabia sobre a descoberta pitagórica da Música das Esferas, da harmonia dos planetas no cosmo, tanto que fez questão de usar trecho do poema “Via Láctea” do parnasiano Olavo Bilac (“Ouvir estrelas? Ora direis, Certo”). O cara-cabeça do “Pessoal do Ceará” que compunha com Fagner e revolucionou a MPB.

Sete décadas. Cabalísticamente sete para um cara que tinha “25 (2+5=7) anos de sonho e de sangue/ E de América do Sul”. Que trazia sua identificação nordestina presa ao dorso do seu cavalo que eram as embarcações pesqueiras de velas do Mucuripe, canção dele e de Fagner. Esse mesmo cara que transitava entre o sonho e a realidade de uma forma surpreendente, pois essa trajetória não tem suas âncoras presas ao real, tal como pensamos. Ele que escreveu “Se você vier me perguntar por onde andei/ No tempo que você sonhava”, e sua realidade respondia: “De olhos abertos lhe direi/ Amigo eu me desesperava” (A palo seco); ele que falava num sonho que “viver é melhor que sonhar” e respondia no mesmo verso sua realidade que “Viver é melhor que sonhar” (Como nossos pais). Todo indica um paradoxo, em que o dono do discurso parece estar perturbado e que quer fazer saber que “sons, palavras são navalhas”.

Não sei por onde anda esse rapaz de 70 anos. Queria vê-lo agora aqui, em um palco montado na praia de Iracema, desafiando o tradicional, para me encantar com o seu diferenciado e inédito canto nordestino, mostrando novamente ao Brasil o resultado positivo de seu desafio, que se constituiu em fazer algo mais significante para a beleza da música popular brasileira. E sem o preconceito regional que carregava.

O artista mirava seu próprio devir, pois “era alegre como um rio […] MAS VEIO O TEMPO NEGRO E, À FORÇA, FEZ COMIGO/ O MAL QUE A FORÇA SEMPRE FAZ. / Não sou feliz, mas não sou mudo:/ Hoje eu canto muito mais” (Galos, noites e quintais). A ele me refiro pelo seu percurso de anunciador de um discurso nostálgico, que louvo por dizer assim, coisas que ficaram na memória: “GENTE DE MINHA RUA/ COMO EU ANDEI DISTANTE/ QUANDO EU DESAPARECI/ Ela arranjou um amante/ Minha normalista linda/ Ainda sou estudante/ Da vida que eu quero dar…” (Tudo outra vez).

Não sei por ande anda esse rapaz de 70 anos, “Mas parece que foi ontem/ Minha mocidade/ Com diploma de sofrer/ De outra Universidade…”. Parabéns, Belchior, estou ouvindo mais uma vez a tua música das esferas. Não faria igual ao jovem fã do ginásio de esportes de Macapá. Eu te jogaria flores e não uma lata de cerveja, pois cerveja a gente bebe com prazer só para escutar teu som inesquecível.

*Escrito por Fernando Canto em outubro de 2016, quando o amigo e também poeta, fazia seu Doutorado em Fortaleza (CE).

Muito obrigado por suas alucinações. Você exercitou bem o lance de “paixão morando na filosofia”, amou e mudou as coisas em muitos de nós, seus fãs. Valeu, Belchior!

Roteiro de Leitura de “Os Sertões” (Euclides da Cunha) – 3º Capítulo: A Luta em Os Sertões– Por @yurgelcaldas

Por Yurgel Caldas

Dividida em quatro partes (I. Antecedentes; II. Causas próximas da luta. Uauá; III. Preparativos da reação. A guerra das caatingas; e IV. Autonomia duvidosa), “A Luta” encerra a narrativa de Os Sertões. Na prática, trata-se do momento em que o leitor tem acesso aos diários de guerra, desde o primeiro até o último combate da Guerra de Canudos: “Despertou-os o adversário, que imaginavam iam surpreender. Na madrugada de 21 desenhou-se no extremo da várzea o agrupamento dos jagunços…” Chama atenção a visão da política como fanatismo e do fanatismo como ato político: “Seguiam para a batalha rezando, cantando – como se procurassem decisiva prova às suas almas religiosas” […] “Reunidos sempre em volta da bandeira do Divino […] os jagunços enfiavam pelas ruas” […] “Cercam-lhe relações antigas. Todas aquelas árvores são para ele velhas companheiras. Conhece-as todas. Nasceram juntos; cresceram irmãmente; cresceram através das mesmas dificuldades, lutando com as mesmas agruras, sócios dos mesmos dias remansados” […] “A natureza toda protege o sertanejo”.

Também é notável a forma como o homem (antes sertanejo, agora jagunço – o guerreiro do sertão) se articula à terra para obter vantagem nos combates: “[…] as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta” […] “E o jagunço faz-se o guerreiro-tugue, intangível […] As caatingas não o escondem apenas, amparam-no” […] “É que nada pode assustá-los”. Lembrando que “tugue” é uma religião hindu, cujos membros faziam sacrifícios humanos por estrangulamento; em sentido figurado, significa um ser sanguinário e cruel.

Euclides da Cunha. Caricatura de Raul Pederneiras (1903)

Numa referência ao cangaceiro, Euclides da Cunha menciona o romance O Cabeleira, de Franklin Távora, para explicar o termo “derivado de cangaço”: “O assassino foi à feira debaixo do seu cangaço, dizem os habitantes do sertão”. O “cangaço”, aliás, é um termo de sentido vário, que – a despeito de significar o “engaço” ou “bagaço” (parte que sobra de frutas espremidas, que eram utilizadas como utensílios em casas pobres e como suporte para armas dos “cangaceiros”) pode remeter a um movimento social ocorrido em várias partes do Nordeste brasileiro entre os séculos XIX e XX; um sinônimo de banditismo.

Foto encontrada no site “Imagens Históricas do Brasil”.

Nesse momento, o narrador oscila entre apresentar a guerra do ponto de vista do exército oficial, que combatia a resistência armada sertaneja, e a própria visão do homem metropolitano que, de certa forma, se organiza em torno dos desejos do próprio exército oficial: “Felizmente os expedicionários, em ordem de marcha, tinham prontas as armas para a réplica, que se realizou logo em descargas rolantes e nutridas”. É interessante também como o narrador qualifica os guerrilheiros resistentes de Canudos, ou seja, os cangaceiros: “o sinistro João Abade […] o ardiloso Macambira […] o terrível Pedrão”.

Velha Canudos, estátua de Antônio Conselheiro, ao fundo capela de São Pedro – Foto encontrada no site https://pa4.com.br/home/

Em determinado momento, “quebrou-se o encanto do Conselheiro. Tonto de pavor, o povo ingênuo perdeu, em momentos, as crenças que o haviam empolgado”. Trata-se de um momento importante, mas ainda não decisivo na guerra de Canudos, pois o Conselheiro retomaria a vida espiritual dos sertanejos em sua mão.

Antônio Moreira César – Foto: wikipédia

Vale a pena conferir a descrição que o narrador faz do coronel Antonio Moreira César, o comandante da 7ª Infantaria na primeira expedição a Canudos. Tal descrição lembra muitíssimo a de Antonio Conselheiro, seu antagonista. Diz Euclides sobre Moreira César: “Tinha o temperamento desigual e bizarro de um epiléptico provado, encobrindo a instabilidade nervosa de doente grave em placidez enganadora”.

Old papers in the vintage handbag

Por fim, ocorre uma espécie de retomada de consciência histórica do narrador metropolitano, soldado oficial e ente civilizador do Brasil republicano e moderno, em nome do homem nordestino, de sua terra e de sua luta diária e justa por sobrevivência: “O sertanejo defendia o lar invadido, nada mais”. No final, Os Sertões soam como uma espécie de perturbação da ordem e da unidade nacionais. Na passagem intitulada “Fora da pátria”, o narrador considera as impressões dos novos expedicionários na última incursão do exército oficial em Canudos: “Viam-se em terra estranha. Outros hábitos, Outros quadros. Outra gente. Outra língua mesmo, articulada em gíria original e pinturesca” […] “Tudo aquilo era uma ficção geográfica”.

Os Sertões também podem ser lidos, a partir de seu final, como um elogio à resistência do mais fraco ante um arco de forças muito mais poderoso do que as formações sertanejas/cangaceiras. Assim, Euclides, após a vitória do exército republicano, afirma: “Fechemos este livro. Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, resistiu até ao esgotamento completo”.

*Contribuição do amigo Yurgel Caldas, que é professor de Literatura da Unifap e do Programa de Pós-graduação em Letras (PPGLET) da mesma instituição.

Roteiro de Leitura de “Os Sertões” (Euclides da Cunha) – 2º Capítulo: O HOMEM– Por @yurgelcaldas

Por Yurgel Caldas

Parte dividida em cinco seções onde o autor do “problema etnológico no Brasil”, considera a gênese do jagunço e do sertanejo, passando especificamente por Antonio Conselheiro até finalizar com a análise de Canudos.

De formação militar positivista, Euclides faz um discurso desfavorável à mestiçagem no Brasil, ao contrário do que faria, em certa medida, Gilberto Freyre. Para o narrador de Os Sertões, “o ramo africano para aqui transplantado” é “filho das paragens adustas e bárbaras” – produto da “ferocidade e da força”. Já o português, herdeiro da “estrutura intelectual do celta”, confere o tom “aristocrático de nossa gens”. Em geral, “o brasileiro […] só pode surgir de um entrelaçamento consideravelmente complexo” – e isso é um problema para o autor-narrador de Os Sertões, pois “não temos unidade de raça […] e não a teremos, talvez, nunca”. Daí ele conclui que “não há um tipo antropológico brasileiro”. O autor nega o extermínio indígena no Norte do Brasil, considerando a extinção do indígena como o resultado “de cruzamentos sucessivos”. O caso do sertanejo é especial para o narrador: trata-se de uma sub-raça que tem em sua composição genealógica pouca ou nenhuma miscigenação – assim, o sertanejo seria forte em função de sua “pureza”, ao contrário de outras sub-raças no Brasil. Assim, “o sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral”. Sobre isso, “a uniformidade […] é impressionadora. O sertanejo do Norte é, inegavelmente, o tipo de uma subcategoria étnica já constituída”. Para Euclides, “a mistura de raças mui diversas é, na maioria dos casos, prejudicial. […] A mestiçagem extremada é um retrocesso […]. O mestiço […] é, quase sempre, um desequilibrado”: um ser nervoso, histérico e incurável; um doente, fraco e decaído. Afinal, “o mestiço é um intruso”.

Euclides da Cunha. Caricatura de Raul Pederneiras (1903)

Através da análise dos efeitos do clima e da composição da natureza (vegetação, p. ex.), Euclides se baseia para concluir que o Norte é inferior em relação ao Sul. Neste, “a terra atrai o homem”; naquele, o repele. Isso se espraia para a concepção de uma cultura superior (Sul) em relação a outra (Norte).

Velha Canudos, estátua de Antônio Conselheiro, ao fundo capela de São Pedro – Foto encontrada no site https://pa4.com.br/home/

Falando sobre Antonio Conselheiro *(de nome Antonio Vicente Mendes Maciel), o narrador aponta, como se fora um herói épico ou romântico (um ser de exceção): “Isolado, ele se perde na turba dos nevróticos vulgares”. Mas também é algum que, assim como entrou para a história, poderia ter entrado para o hospício. Tanto é verdade que Conselheiro é um “doente grave, só lhe pode ser aplicado o conceito de paranoia”. Assim, Conselheiro – de “fisionomia estranha: face morta, rígida como uma máscara, sem olhar e sem risos; pálpebras descidas dentro de órbitas profundas” – “foi um documento raro [e vivo] de atavismo”: infeliz, falso apóstolo, “um gnóstico bronco”, “grande homem pelo avesso”, “um caso notável de degerescência intelectual”, um “anacoreta sombrio [e] monstruoso”; enfim, um ser que se “cristalizou num ambiente propício de erros e superstições comuns”.

Canudos era a “urbs monstruosa, de barro, definia bem a civitas sinistra do erro”. Afinal, “Canudos era o cosmos”, “a Jerusalém de taipa”. E os seguidores de Antonio Conselheiro eram “voluntários da miséria e da dor, eram venturosos na medida das provações sofridas”. Por isso, o narrador recita: “Bem-aventurados os que sofrem…”

*Contribuição do amigo Yurgel Caldas, que é professor de Literatura da Unifap e do Programa de Pós-graduação em Letras (PPGLET) da mesma instituição.

Hoje é o Dia Mundial do Livro

Hoje, 23 de abril, é o Dia Mundial do Livro. A data foi criada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), no ano de 1995, em Paris (FRA), durante o XXVIII Congresso Geral. O objetivo é encorajar as pessoas – especialmente os jovens – a descobrirem os prazeres da leitura, disseminar a cultura e fazer com que o maior número de pessoas conheçam a contribuição dos autores de livros através dos séculos. Hoje também é celebrado o Dia dos Direitos de Autor.

Com o escritor, poeta e amigo Fernando Canto, quando o mesmo me presenteou com seu livro “Mama Guga”.

Origem do Dia Mundial do Livro

A Unesco escolheu a data do Dia Mundial do Livro, por ser o dia da morte de três grandes escritores da história: William Shakespeare, Miguel de Cervantes, e Inca Garcilaso de la Vega. Essa é também a data de nascimento ou morte de outros autores famosos, como Maurice Druon, Haldor K.Laxness, Vladimir Nabokov, Josep Pla e Manuel Mejía Vallejo.

Com a escritora, poeta e amiga Alcinéa Cavalcante, quando ela me presenteou com seu livro “Paisagem Antiga”.

Uma tradição catalã ligada aos livros já existia no dia 23 de abril, e parece ter influenciado a escolha da Unesco, pois tradicionalmente, no dia de São Jorge (23 de abril), é costume dar uma rosa para quem comprar um livro. Trocar flores por livros já se tornou costume em outros países também.

Presentes via correio que ganhei do escritor, poeta e amigo Luiz Jorge: seus livros “Thybum”, “Antena de Arame” e “Cão Vadio”

Quando perguntam qual a minha profissão, digo que sou jornalista, assessor de comunicação e editor de um site. Mas que, um dia, gostaria de ser escritor. Bom isso tá muito perto de se realizar (depois conto em outro texto).

Apesar de não ter lido nem metade do que deveria e gostaria, ainda acredito na velha máxima: “ler para ser”. Pois sei que é fundamental para fertilizar as ideias, principalmente na minha profissão. Que tal começar ou terminar um livro hoje?

Elton Tavares
Fonte: Calendar Brasil

Roteiro de Leitura de “Os Sertões” (Euclides da Cunha) – 1º Capítulo: A Terra – Por @yurgelcaldas

Por Yurgel Caldas

“Canudos é o Cosmos. Euclides, um grego”. Assim começa a apresentação de Ricardo Oiticica para a edição de Os Sertões (1ª edição de 1902) publicada pela editora Record do Rio de Janeiro, em 1998. Nessa apresentação, o referido crítico trata a obra de Euclides da Cunha como uma tragédia clássica, pois o que a narrativa oferece ao público “é do domínio da catarse”, e tem como efeito o terror e a piedade por conta do que oferece o “narrador sincero”.

Se é possível, assim, tratar Os Sertões como uma tragédia e, ainda por cima, “clássica”, não é fácil estabelecer o gênero literário que prevalece nesta obra de Euclides da Cunha (1866-1909). Os Sertões, originalmente, são o produto de uma série de reportagens feitas in loco por Euclides para o jornal O Estado de São Paulo, para cobrir a guerra de Canudos, ocorrida entre os anos de 1896 e 1897. O mesmo livro pode também ser lido como um tratado de antropologia ou sociologia, mas, antes de tudo, serve para explicar o Brasil na transição entre a Monarquia e a República, o arcaico e o moderno, o atraso e o progresso, a barbárie e a civilização, dentre outros pares de oposição que sugerem um mundo maniqueísta e o esforço para acessar a modernidade, cujo modelo é europeu.

Na “Nota Preliminar” a Os Sertões, publicada pelo próprio autor em São Paulo, no ano de 1901, a intenção inicial seria falar sobre “os traços atuais mais expressivos das sub-raças sertanejas do Brasil”. Entretanto, o próprio narrador da obra (nada mais nada menos do que Euclides da Cunha) eleva o sertanejo a uma condição de herói do Brasil esquecido. Tanto é assim que o sertanejo “é, antes de tudo, um forte” e tantos outros epítetos heroicos aplicados ao homem do sertão, que é, no final das contas, o herói dessa tragédia finissecular do Brasil distante demais das capitais e, portanto, da própria modernidade.

Canudos – Foto: Maurício Hora

A Terra

Nas “PRELIMINARES”, o autor descreve o espaço onde se dará a guerra de Canudos. Lá pelas tantas, um parágrafo se inicia da seguinte maneira: “Verifica-se, assim, a tendência para um aplainamento geral” – essa passagem pode ser uma imagem que resgata o desejo de unificação (“aplainamento”) da Nação (“geral”) não mais monarquista, mas agora presidencialista e moderna. Mais adiante: “É a paragem formosíssima dos campos gerais, expandida em chapadões ondulantes – grandes tablados onde campeia a sociedade rude dos vaqueiros”. Aqui já aparecem os que habitam os campos (vaqueiros organizados em sociedades rudes), mas que precisam ser civilizados, posto que são bárbaros. Tratando da cachoeira de Paulo Afonso, o narrador informa: “Ali reina a drenagem caótica das torrentes, imprimindo naquele recanto da Bahia facies excepcional e selvagem”. Podemos entender que aqui a Terra é o Homem; assim, caótico, excepcional e selvagem é também o sertanejo. A região de Juazeiro é uma “paragem sinistra e desolada”. Trata-se de um espaço onde até os “verdadeiros oásis, têm, contudo, não raro, um aspecto lúgubre. Assim, os “mandacarus [apresentam-se] despidos e tristes”, lembrando “monumentos de uma sociedade obscura”.

Euclides da Cunha. Caricatura de Raul Pederneiras (1903)

Um aspecto sempre interessante em se verificar é o tempo, ou como ele é percebido pelo narrador em suas andanças pelos sertões. É uma categoria, assim como na Amazônia estereotipada pela História e pela Literatura, que não evoca o progresso. Para Euclides, mesmo “avançando célere […] o viajante mais rápido tem a sensação da imobilidade”, porque palmilha “um horizonte invariável que se afasta à medida que ele [o viajante] avança”. No povoado da Cansanção, “despontam vivendas pobres; algumas desertas pela retirada dos vaqueiros que a seca espavoriu; em ruínas, outras; agravando todas no aspecto paupérrimo, o traço melancólico das paisagens…”

Guerra de Canudos – Obra que retrata batalha enfrentada em Canudos e que faz parte da exposição em Ribeirão Preto Imagem UOL.

Tratando especificamente do sertão de Canudos, o narrador menciona a seca como “o terror máximo dos rudes patrícios que por ali se agitam”. A seca, “esta fatalidade inexorável”. Em tal espaço e situação, “a luta pela vida […] é mais obscura, é mais original, é mais comovedora”.

*Contribuição do amigo Yurgel Caldas, que é professor de Literatura da Unifap e do Programa de Pós-graduação em Letras (PPGLET) da mesma instituição.

O ROUBO DA BUNDA – Crônica de Juraci Siqueira

Foto encontrada no Blog Porta Retrato

À época eu trabalhava no açougue do João do Roque que também era dono de um matadouro localizado às proximidades da Fortaleza de São José, tempo em que a orla da cidade era povoada por palafitas que iam da fortaleza a baixada do Elesbão.

Era nesse aglomerado de barracas construídas na praia que se destacava o matadouro aonde o gado, chegado de canoa, era desembarcado com a maré alta e mantido em currais de madeira até o momento do abate.

Certa noite ouviu-se fortes mugidos vindos das bandas do curral, fato que ninguém deu muitas importância, já que era comum uma rês cair e ser pisoteada pelas outras na disputa pelo espaço. Mas como os gemidos continuaram noite a dentro o vigia resolveu verificar o que estava acontecendo.

Antigo Trapiche Eliezer Levi, em frente da capital amapaense (1966) – Foto: Acervo do meu amigo jornalista e estudioso da história do Amapá, Edgar Rodrigues.

Pegou a lanterna e dirigiu-se para o local de onde vinham os mugidos. O que viu foi simplesmente chocante: um novilho sobre uma poça de sangue debatia-se sem a metade da “bunda”, retirada à faca, provavelmente por um canoeiro, dos muitos que encostavam no trapiche do matadouro para embarque e desembarque de mercadoria.

*(Antonio Juraci Siqueira, Acontecências – crônicas da vida simples. Edições Papachibé, Belém, 2010).Contribuição de Fernando Canto.

QUANDO A GENTE SE GUIAVA PELAS ESTRELAS – Por @alcinea

“Olha! Olha!” Exclamava o menino apontando para o céu.

“Lá vai, lá vai”.

E todos olhavam e viam e falavam sobre o objeto que passava saltitante entre nuvens e estrelas.

Não. Não era um disco voador. Era simplesmente um satélite, provavelmente desses que ficam fotografando a Amazônia.

Diversão da meninada naquele tempo, quando a noite caía, era sentar na frente da casa e olhar o céu, caçar satélites e estrelas cadentes, procurar São Jorge na Lua e identificar constelações.

O telescópio era um canudo de cartolina.

Ah, tempo bom, quando a gente sabia se guiar pelas estrelas e sonhava ser astronauta para visitar outros mundos, brincar em outros planetas e, depois, voltar à Terra com as mãos transbordantes de estrelas.

Trazer também uns fiapos de nuvem para fazer algodão doce, pois que a vida, meu irmão, era uma doçura e plena de encantamento naquela rua sem asfalto, sem bangalôs, sem muros e sem televisão.

Alcinéa Cavalcante

bEIra RIO – Por Fernando Canto – @fernando__canto

Por Fernando Canto

onde passo ouço ossos estralando augúrios principalmente pelas alamedaszagurys e entre mesas vouvivendo maresias em tardes de Venta Niaa puta pisca e cisca o homo arrisca com lábios de felação e o jogador de basquete come um hamburguer na calçada à espreita de uma lua de queijo Ouço ainda arrotos coca-colas e vejo um fedegoso engolidor de fogo sobre cacos de vidros vindo em minha direção “apenas um real doutor tenho que tomar remédio contra azia” e aí ele parte como nave movida a querosene Todos voltam A garçonete cobra-me um fiado que não lembro e o Alonso como sempre chega para preparar o show dos repetidos bardos eletrônicos que fumam em encruzilhadas e lavam seus rabos-de-cavalos com xampu de capim comprado no iepa a noche chega com as andorinhas avoantes e as tesourinhas cagadoiras por isso o céu é um saloon de baile onde dançarinos negros movem-se pelo fundo azul-laranja-cobre que se fecha em contraluz ao poente
com(o) a noche surgem idiomas e dialetos inquietantes que fervilham em compressões obscuras Assuntos sustentáveis de gesso e notícias-bombardeios pela tela do Grande Irmão de George, o Orwell
absorvo crítica ferrenhas enquanto o engraxate dá um brilho de espelho no pisante ferracini do camarada revolution dono de todas as verdades e locador de todas as doses
A gente só vai embora desta mesa se a nuvem negra da saída da lua não se afastar com a Venta Nia “Não choverá” diz seguro o prefeito do pedaço
Toca o celular e o Mô avisa “pernas em frangalhos/ olhos em bugalhos/ vou aí mas não demoro/ umboraimbora” O papo vai michar praessa turma/ Bando de burgueses emergentes com cartão de crédito e uma senha na memória
Assistir ao jogo do Brasil é bom no bar onde um palavrão pronunciado na medida soa como carinho por toda a extensão da Beira Rio
Mô chega e quer logo se (me) mandar cansada pra caralho e pra outros sambitos zouck loves e merengues
Assistir ao jogo do Brasil repito é bom no bar onde um palavrão pronunciado soa como grito de paixão

*Do livro “Equino CIO – Textuário do meio do Mundo”. Ed. Paka-Tatu, Belém, 2004.

Os 75 anos da Biblioteca Pública Elcy Lacerda e a importância dela para o Amapá – Por Paulo Tarso Barros – @paulotbarros

Biblioteca Pública Estadual Elcy Lacerda – Foto: Maksuel Martins

Por Paulo Tarso Barros

Uma das instituições educacionais e culturais mais tradicionais do Amapá completa 75 anos de existência. Afinal, são mais de sete décadas de funcionamento contínuo. Nela já atuaram, como gestores, nomes importantes da educação e da cultura do nosso Estado (Lauro Chaves, Aracy de Mont’Alverne, Ângela Nunes, dentre outros), pessoas que deixaram sua marca e que hoje são relembradas pelo muito que contribuíram com várias gerações de alunos que passaram pela Biblioteca, seja fazendo pesquisa ou lendo obras literárias, biográficas, ensaios, manuseando jornais, revistas e outras publicações.

Fundada em 20 de abril de 1945, desde então a Biblioteca vem cumprindo seu papel como entidade que abriga um valioso acervo responsável pela formação educacional de milhares de pessoas e de suporte à pesquisa. Aberta das 8h às 18h, de segunda a sexta-feita, sempre recebeu os estudantes e a comunidade com muita atenção. Seus funcionários, a maioria oriundos da SEED, têm experiência e treinamento para orientar, apoiar e encaminhar todos os usuários aos locais mais adequados a cada tipo de pesquisa que se faz necessário, da mais simples à mais complexa.

Atualmente, em pleno século XXI, a Biblioteca está cada vez mais sintonizada com as demandas da modernidade, sendo um dos points mais frequentados por escolas, entidades culturais e educacionais, associações, Academia de Letras, professores em busca de mestrado e doutorado e alunos de todos os níveis que encontram o espaço adequado para suprir as suas necessidades num mundo em que o conhecimento e a pesquisa ocupam cada vez mais um lugar relevante.

Fachada principal da Biblioteca Pública Estadual Elcy Lacerda vista do alto do Teatro das Bacabeiras – Foto encontrada no site Literatura do Amapá

A Biblioteca conta com um acervo de aproximadamente 60 mil itens, entre livros, CDs, DVDs, revistas, panfletos, jornais (inclusive os primeiros jornais que circularam no Amapá, desde 1895 – no caso o Pinsônia) e os seguintes espaços: Sala Amapaense (livros e documentos com assuntos e temáticas do Amapá e da Amazônia); Sala Afro-indígena; Sala do Ensino Médio e Superior (que serve também como local de estudos e pesquisas); Sala Circulante (com obras literárias nacionais e estrangeiras disponíveis para leitura e empréstimo domiciliar); Sala de Artes; Sala Infanto-juvenil (que conta com o Grupo de Contadores de Histórias) e duas Salas com Jornais e Periódicos (com destaque para a Sala de Obras Raras); uma Sala de Braille e a Reserva Técnica (onde os livros são recebidos e distribuídos às salas).

A Biblioteca Estadual Elcy Lacerda é um espaço aberto, dinâmico, efervescente, muito democrático e o mais representativo das ações educacionais e culturais do Amapá. Seu atual gerente é o professor e escritor José Queiroz Pastana, que pela segunda vez ocupa o cargo.

*Paulo Tarso Barros é escritor, editor e professor e funcionário da Biblioteca há 16 anos.

Secult-AP prorroga prazo de inscrição online do Edital “Circula Amapá” por mais 30 dias

A Secretaria de Estado da Cultura do Amapá (Secult/AP) prorrogou o período de inscrição para o Edital “Circula Amapá”, lançado no dia 18 de março de 2020. A Chamada pública tem o objetivo de selecionar e premiar 137 projetos, programas e ações de agentes da cadeia produtiva da cultura e das artes. Com o novo prazo, as inscrições no site – www.secult.ap.gov.br – encerram no dia 30 de maio.

Essa medida faz parte do programa de valorização e fortalecimento da cultura protagonizado pela Secult/AP e os participantes devem obrigatoriamente estar cadastrados no Sistema Estadual de Informações e Indicadores Culturais – SEIIC. A ideia da pasta é reconhecer o trabalho desenvolvido por artistas, produtores, grupos, companhias, bandas, grupos musicais e demais empreendedores da cultura do Estado que favorecem a circulação de bens, produtos e serviços artísticos e culturais em âmbito local, estadual, nacional e internacional.

Os recursos para o Edital são provenientes de emenda federal articulada pelo senador do Amapá, Davi Alcolumbre, com o objetivo de apoiar e incentivar os segmentos artísticos e culturais do Estado. O certame irá contemplar múltiplas vertentes artísticas como a cultura popular, tradicional e identitária; teatro; arte circense; dança; artes visuais e/ou plásticas; artesanato; audiovisual; livro, leitura, literatura e biblioteca; e música.

Os participantes devem comprovar no ato da inscrição o tempo de atuação dos proponentes nos segmentos onde se inscreveram (no caso do segmento categoria popular, tradicional e identitária a comprovação ocorre por meio dos movimentos culturais, com o reconhecimento de todos os proponentes do tempo de atuação mínima). Podem participar Microempreendedores Individuais (MEI) e pessoas jurídicas de natureza cultural, com ou sem fins lucrativos e os valores das premiações variam entre cinco e dez mil reais.

A Secult/AP disponibiliza em seu site vídeos explicando aos interessados sobre o funcionamento do Edital e como proceder no ato da inscrição, além disso, os técnicos da Secretaria também estarão à disposição dos artistas e produtores culturais para sanar quaisquer dúvidas sobre o certame, por meio de ligações e WhatsApp no número – (96) 98808-0736. O acesso também pode ser via o e-mail da Secult/AP: [email protected].

Uma leitura da Divina Commedia (Inferno) de Dante Alighieri – Por @yurgelcaldas

Por Yurgel Caldas

Talvez seja Dante Alighieri (1265-1321) quem inaugure uma grande tradição na história da literatura ocidental, que tem como foco o Inferno e suas imagens por demais sedutoras. Daí teríamos como derivadas obras como a conhecida trilogia das Barcas, de Gil Vicente, donde se destaca o auto da Barca do Inferno (1517); o poema épico Lost Paradise (1667), de John Milton, e a tragédia Faust, de Goethe (versão completa da primeira parte em 1808; versão completa da segunda parte em 1832). Nesses exemplos, temos a figuração do inferno como elemento que chama atenção do leitor e, mais do que isso, provoca uma leitura atrativa justamente pela descrição que os escritores fazem desse espaço de danação que sempre causou indagações, curiosidades e toda sorte de fantasias no mundo cristão.

Esse é o caso da Divina Commedia, de Dante, longo poema épico escrito em versos decassílabos (a chamada medida nova italiana) durante a primeira vintena do século XIV, que tem como título original apenas a palavra Commedia, mas que, como aponta Anna Maria Chiavacci Leonardi, durante o século XVI, ganha o atributo de “divina” de seus próprios leitores e, a partir de então, as edições subsequentes adotam o atributo como parte do título do poema, tal qual o conhecemos hoje.

A narrativa da Divina Commedia atravessa todo o Universo ptolomaico (em vigor nos tempos de Dante), desde sua fundação arquitetônica (o centro mesmo da Terra), até o limite conhecido àquele momento: o Empíreo. Trata-se, portanto, de um Universo circular perfeita e harmoniosamente desenhado, tal como o concebia o mundo grego (LEONARDI, Anna Maria Chiavacci, “Introduzione” a La Divina Commedia: Inferno, 2005, p. XV).

São nove céus (ou círculos, como aparecem descritos na própria obra) perfeitamente concêntricos onde não há corrupção; mas o problema é que no seu interior existe o homem – mortal, falível e, ao contrário do mundo que o abriga, corruptível. De fato, o homem é um problema exposto na narrativa dantesca, mas também é a solução para que haja a narrativa em si. Sem o homem, a Divina Commedia não teria nenhum sentido. Afinal, o livro narra a viagem de redenção do próprio Dante (personagem falível e mortal), que se encontra no Inferno e busca ascender ao Paraiso tendo como guia o poeta Virgilio (também falível e também mortal), sem o qual seria impossível sequer a esperança de reencontrar a amada Beatrice (metáfora do amor medieval como veículo ao Paraiso – tal como mostraram as tradições trovadorescas provençais e galego-portuguesas, entre os séculos XII e XIII na Europa).

Dante, o personagem do Inferno – espaço por excelência da obscuridade (como se encontra no início do Canto I: “Nel mezzo del cammin di nostra vita/ mi ritrovai per una selva oscura”) – procura sempre a luz, seja a da razão e da poesia (Virgilio), seja a luz da libertação e do amor (Beatrice). E Dante procura a luz porque quer salvar a si próprio em um mundo ainda maniqueísta, tal como o trovador das cantigas de amor na tradição galego-portuguesa. Esse trovador não louva a beleza da mulher amada (a dona, a dama, a mulher cuja beleza é sem par no mundo) pelo mero fato da beleza ímpar em si; mas sim porque o trovador é consciente de sua falibilidade, e encontra no ato de amar uma dama perfeita – não só em termos físicos, mas também morais e espirituais – a forma excelente de acessar a possibilidade de se salvar. O amante excelente e humilde poderia salvar sua alma se amasse fielmente sua dama – único meio estético de não ir para o Inferno.

Dante é assim: busca na visão iluminada e iluminadora de Beatrice (como a Terra Prometida por Deus a Abraão e seus seguidores hebreus) a única possibilidade de sair de um espaço infernal e encontrar a luz. A Commedia dantesca pode ser lida também como a narrativa de uma viagem, um percurso, um destino – tanto de seu personagem Dante, que vaga num espaço sem tempo que é o próprio Inferno, quanto de seu leitor que assume a condição de viajante e peregrina pelo quadro medieval e terrivelmente cristão pintado pelo poeta fiorentino. A viagem, aliás, que é tema central nas narrativas homéricas ena Eneida de Virgilio, o guia de Dante através do Inferno, não deixa de ser uma metáfora da condição de todo leitor de textos literários.

*Contribuição do amigo Yurgel Caldas, que é professor de Literatura da Unifap e do Programa de Pós-graduação em Letras (PPGLET) da mesma instituição.

“Diabo Assado” – Por Fernando Canto

Por Fernando Canto

Aos 30 dias do mês em curso, na Delegacia de Ordem Social e de Bons Costumes Tradicionais, onde se achava presente o senhor Bacharel e doutor Degelado, digo, Delegado, o escrivão do seu cargo ao final assassinado, digo, assinado, e o acusado, este confessou que na noite anterior dançou uns bregas num lupanar denominado “Casa do Calipso” e depois pegou um táxi acompanhado de sua namorada, a menor N.E.M. de 16 anos, a quem convidou para dormir em sua casa, sita à rua Maria Eudóxia, s/nº, bairro dos Prazeres. O indivíduo acusado que tem a alcunha de “Diabo Assado” é um perigoso meliante que tem inúmeras entradas nesta Delegacia por assalto à mão armada e lesões corporais. Ele disse ao titular da DOSBCT que achava que não morava gente na casa do lado da sua e que resolveu se refrescar tomando um banho de piscina em companhia de N.E.M. às 3:00h da madrugada. “Diabo Assado” disse ainda que a noite estava quente e escura por isso resolveu ficar nu, e se caso alguém aparecesse não iria notar. Tomou então quatro garrafas de “duelo”, digo, garrafas de cachaça “duelo”, e viveu momentos de rei com sua namoradinha menor de idade.

Também disse que acordou meio “coiote” de tanto “goró” e com uma arma apontada para seu nariz. Reclamou que levou um chute no meio das pernas de um policial violento e que até o presente momento dói muito. Falou ao doutor Delegado que não se arrepende do que fez, e que seus vizinhos são uns burgueses chatos e metidos a bestas e até humilham os vizinhos pobres com aquele casarão bonito e quase desocupado, mas que quando sair daqui vai acertar as contas. O doutor Delegado perguntou por que ele matou a namorada N.E.M, e ele, surpreso, respondeu que achava que não tinha sido ele porque gostava muito dela e que só lembrava de tê-la jogado na piscina para ver se ela aprendia a nadar como um boto.

Nestes termos lavro o presente interrogatório que vai por mim assassinado, digo, assinado, nestes dias de dicífel, digo, difícil convivência pacífica entre vizinhos.

*Do livro “Equino CIO – Textuário do meio do Mundo”. Ed. Paka-Tatu, Belém, 2004.

Aos 94 anos, morre Rubem Fonseca

Rubem Fonseca: a luta vã por uma árvore no Leblon | Foto: Divulgação

Por Lauro Jardim

Morreu no início da tarde no Rio de Janeiro um dos maiores escritores do Brasil, Rubem Fonseca.

A menos de um mês de completar 95 anos, Fonseca sofreu um infarto hoje, perto da hora do almoço, em seu apartamento, no Leblon. Foi levado imediatamente ao hospital Samaritano, onde morreu.

Talvez o maior contista brasileiro da segunda metade do século XX, Rubem Fonseca é autor, entre outros, de “Feliz ano novo” (1976), “A cólera do cão” (1963), “O cobrador” (1979). Seu último livro de contos inéditos foi lançado há dois anos, “Carne crua”.

Fonte: O Globo