Uma leitura de A Paixão segundo GH – Contribuição de @yurgelcaldas

Por Yurgel Caldas


Não é possível afirmar com segurança que o romance de Clarice Lispector, A paixão segundo GH, publicado em 1964, seja uma alegoria da ditadura militar no Brasil, cujo golpe de Estado emergiu no mesmo ano do lançamento do referido romance. Mas é possível encontrar algumas referências ou sombras (para falar no contexto obscuro das torturas ocorridas sob o comando dos militares nos “porões” dos quarteis pelo Brasil afora) no discurso perturbado e perturbador da protagonista GH, em diversos momentos do romance de Clarice. Assim, no início do relato, GH prepara desta maneira o que teria a dizer, não por vontade própria de narrar, mas pela necessidade mesmo da mensagem: “Estou adiando […] adiar o momento em que terei que começar a dizer, sabendo que nada mais me resta a dizer. Estou adiando o meu silêncio” (LISPECTOR, 1998, p. 22).

Mais adiante, no parágrafo seguinte da mesma página, a referência à ditadura que oficialmente debutava naquele amanhecer do 1º de abril de 1964 é feita assim pela narradora: “Vi, sim. Vi, e me assustei com a verdade bruta de um mundo cujo maior horror é que ele é tão vivo que, para admitir que estou tão viva quanto ele […] terei que alçar minha consciência de vida exterior a um ponto de crime contra a minha vida pessoal”. A impossibilidade do relato, por simples desejo de não contar ou por força maior que o próprio desejo do silêncio, pauta os atos de GH: “então vi como quem nunca vai contar. Vi, com a falta de compromisso de quem não vai contar nem a si mesmo” (p. 106) – tal é a clareza e a verdade do acontecimento visto e experimentado.

Mais adiante, já numa crise de representação de si e do mundo, ou de si para com o mundo – este corpo repleto de múltiplas violências (GH e o próprio mundo – esse universo que é feito de inferno e paraíso [sempre infernal] que a habita), a personagem reposiciona seu leitor no contexto politico da ditadura no Brasil, inventando um interlocutor, que é ao mesmo tempo o amor e a família perdida no passado de GH: “Dá-me a tua mão desconhecida , que a vida está me doendo, e não sei como falar – a realidade é delicada demais, só a realidade é delicada, minha irrealidade e minha imaginação são mais pesadas” (p. 34). Assim como pesados demais seriam os anos de chumbo e faziam natural ao cidadão de bem a violência de viver e estar no mundo.

GH é, no final das contas, uma mulher torturada pela linguagem: a fala e a escrita são insuficientes para retratar o estado da alma “dessa mulher”, “essa mulher que sou” (p. 44) (como a narradora fala de si, sendo ela mesma, que não é completa ao final, pois está numa travessia de auto-conhecimento e percepções vários de uma experiência de viver: “Levantei-me enfim da mesa do café, essa mulher” (p. 33) ). GH é posta a falar, mas não consegue; e não consegue porque não quer, porque não pode e porque não sabe o que falar – condição de todo torturado pelos militares que contavam com uma ampla rede de informações esquizofrênicas contra o avanço do comunismo no mundo e no Brasil. GH, uma mulher independente, escultora por hobby, solteira, sem filho e rica, morando num apartamento na cobertura de um prédio elegante do Rio de Janeiro, também é torturada pela ausência de Janair – empregada negra com “postura” e “traços de rainha” (p. 41), que não mais trabalha para a patroa e, com sua ausência, força a dona a fazer uma faxina no próprio apartamento, começando pela arrumação da dependência de empregada, na intenção de receber a nova serviçal.

Sim, GH é também torturada pelas ausências – a ausência da empregada e a visão que esta construíra da patroa durante o tempo de serviço; GH é torturada pelo quarto vazio da empregada (espaço ausente no cotidiano da dona do apartamento); GH é torturada por uma fotografia antiga na qual ela mesma não se reconhece no presente da narrativa (na verdade um relato mais oral do que escrito para o interlocutor inventado – única forma possível de dizer tais experiências); GH é ainda torturada pelo desenho que ela descobre no quarto da empregada, que remete a um cachorro, um homem e uma mulher na qual se identificaria: “eu sabia que nunca passara daquela mulher na parede, eu era ela” (p. 64); e finalmente GH é torturada pela barata que surge da “porta estreita do guarda-roupa” (p. 46). Não é, pois, uma barata, mas trata-se de “a barata grossa” (p. 47) que se movera para o pavor e a epifania primordiais de GH. Assim GH passa a narrar sua experiência em diversas passagens em que se apresenta como uma mulher aprisionada (e sempre torturada no presente pela promessa de felicidade que não se cumprira até então). GH narra a seu interlocutor amoroso (amante e amado, sujeito e objeto do amor) o que lhe tinha acontecido no dia anterior [o encontro com a barata] – e por uma esperança que se desenhava já falida do momento do relato para o futuro da protagonista. GH narra, enfim, sua falência e exatidão como um sujeito confinado à revelia naquele espaço indesejado do quarto da empregada (“na minha clausura entre a porta do armário e o pé da cama” [p. 51]), mas paralisada por suas memórias e ainda com uma necessidade ímpar de contar essa experiência.

E assim salta aos olhos do leitor a sensação perene do torturado, na passagem: “Em mim um sentimento de grande espera havia crescido, e uma resignação surpreendida” (p. 51). Mas, ao final, é a vitória lenta e justa do não falar que GH aprende com a barata: “Como é luxuoso este silêncio” (p. 66). Este silêncio dourado só é possível porque, para GH, “o que vi não é organizável” (p. 68) e, portanto, não se presta a uma linguagem reconhecível, pois é um “relato impossível” (p. 73) “para construir uma alma possível” (p. 73). A paixão segundo GH é, enfim, sobre as (im)possibilidades de narrar o usual, o neutro, o insosso, o natural que é a violência de ser e estar no mundo pela revelação de si para si. Não há mensagem a ser dita; não há o que relatar, nem a quem fazê-lo; sequer há quem delatar, muito menos isso, já que “Eu abria e fechava a boca para pedir socorro mas não podia nem sabia articular. É que eu não tinha mais o que articular” (p. 74).

Em outro momento da narrativa, chama atenção a forma como GH fala de si no espaço, e lembra o leitor dos tempos perigosamente calmos na ditadura: “o país estava em onze horas da manhã” (p. 80) – momento em que os ponteiros do relógio desenham a imagem parecida com a letra V, que pode significar tanto “Vitória” quanto “Vazio”. A descrição segue na mesma página: “Superficialmente como um quintal que é verde, da mais delicada superficialidade […] No resto da casa a sombra está toda inchada […]. São onze horas no Brasil. […] Até que num hino nacional a badalada das onze e meia corte as amarras do balão. E de repente nós todos chegaremos ao meio-dia. Que será verde como agora”. Então, do verde superficial brota GH, que na realidade “estava no deserto” (p. 80) destoando de todo aquele verde esperançoso e superficial e do hino da vitória. GH é sempre um contraponto: “Eu estava tão assustada que ainda mais quieta ficara dentro de mim” (p. 81).

Afinal, o que relata GH senão a relação de amor que é criada a partir da visão odiosa de uma barata que sai de repente da porta do guarda-roupa do quarto da empregada? GH trata de cotidiano, do comum que é a visão da barata, mas também indica o quão inédito é para ela, a dona do apartamento de cobertura, fazer uma faxina começando por um cômodo onde nunca entrara. Ao final, GH delata a si mesma: “e então não suportei mais a tortura e confessei, e estou delatando” (115). O que GH delata senão as formas de acontecimento do amor? “Estou somente amando a barata. E é um amor infernal” (p. 115). GH está no mundo e o experimenta, no gosto da barata, como um contraponto ao sabor que revela a “grandeza infernal da vida” (p. 122).

*Contribuição do amigo Yurgel Caldas, que é professor de Literatura da Unifap e do  Programa de Pós-graduação em Letras (PPGLET) da mesma instituição.

ARQUIpéLAGO – Por Fernando Canto

Nascer do sol no arquipélago do Bailique — Foto: Emídio Sarges/Tô na Rede

Barcosalados voam e pousam sobre o pélago insondável. Águas oceânicas jorram no fim da terra – abismal cenário de tua verde geografia.

Açaigente – rios que rasgam rios nesse manto cinza-verde-rubro ante as marés de nuvens.

Barcosaladosbarcos/ barcos de vidro e miriti negam a fragilidade dos próprios arcabouços das asas de madeira.

Pôr do Sol no Arquipélago do Bailique – Foto: Jorge Junior

Arquiáguas arquipeles/ arquitetura perfeita. Arquiedênica paisagem de arquihomens e mulheres/ de pelágicas ondinas. Arquipégaso do Balélíqüido.

Arquipégaso do bailí[email protected]

*Do livro “Equino CIO – Textuário do meio do Mundo”, de Fernando Canto. Ed. Paka-Tatu, Belém, 2004.

Sonhos de Assis e Jonielson…Leitores! – Por Angela de Carvalho

Era bem tarde, um breve piscar da lâmpada, indicou que já se aproximava a meia noite. O tom amarelado da luz, lembrava as chamas da lamparina de outros tempos. Insistente, Jonielson lutava para manter os olhos abertos, queria ler mais um capítulo de “Antes que o Mundo Acabe”1. Divagou em pensamentos… “antes que a energia acabe”. Era assim, na distante localidade em que residia, a luz elétrica tinha horários de fornecimento.

Instantes depois o barulho do livro que caía de suas mãos e o clarão de um relâmpago seguido de um trovão, juntou-se a uma cadência de tambores. Luzes e sons confundiram-se em sua cabeça… “essa roda de marabaixo, não tem hora pra acabar”. E foi em meio a sombras que sentiu a presença do personagem de um sonho de outros tempos, o “Saci Aladim de Ali Babá”!

Este, sempre muito falante e curioso, já chegou cheio de perguntas:

_Viva! Viva! Temos aqui um leitor? Varando a noite em deliciosas leituras? Está “Em Busca do Tempo Perdido”2? Estou voltando da roda de marabaixo, tens um canto para eu passar esta noite aqui? Sem entender aquela visita inesperada, Jonielson perguntou, em tom de exclamação:

_Saci Aladim! É você!?

Reconheceu o largo sorriso do amigo, mostrou a rede que estava atada no quarto e convidou-o a deitar-se ali.

O Saci acomodou-se como quem se sente em casa, apoiando a cabeça com as mãos, pronto para ouvir as respostas.

Depois de respirar fundo, Jonielson com a voz baixa para não acordar a mãe que dormia no cômodo ao lado, falou:

_ Sim, estou recuperando as leituras que não fiz quando criança, sou “ um devorador de livros”, como diz a professora. Acabei de ler: As Aventuras do Professor Pierre na Terra Tucuju”***. Nem te conto, meu exemplar foi autografado pela escritora: “Para Jonielson, um ribeirinho pescador de livros e sonhos, com carinho Maria Ester Pena Carvalho” . Agora estou lendo,“ Antes que o Mundo Acabe”. Tô só pavulagem, não?

¬ _TáPorDemais! Escute, se eu “não me perdi no tempo” estamos em outubro, isso?

Sim em outubro – amanhã é dia 29, o Dia Nacional do Livro. As coisas mudaram por aqui, sabia? Logo mais teremos uma programação muito importante, um grande encontro com as BP Municipais e Comunitárias do Estado, aqui no Município do Mazagão: O I Salão do Livro Infanto Juvenil do Amapá.

Seguiram conversando noite afora sobre as coisas acontecidas desde a inaugaração da biblioteca, sonhada em “Pescadores de Sonhos”. Dos livros e escritores que conhecera nestes anos, dos muitos poemas, contos e crônicas lidas e dos filmes assistidos em alguns finais de semana. Tinha agora consciência da importância dos livros e das possibilidades que traziam para a sua vida. Outro dia mesmo, fizera uma inscrição para um intercâmbio em um site no computador da biblioteca.

Falava de novos caminhos, luzes e portas que se abriam para ele, quando notou que uma luz entrava pela janela. Era o dia que começava a clarear. Disse então:

_Mano! Já está amanhecendo? Que conversa boa, nem notei a noite passar.

_Vamos comigo Saci? Temos meia hora de remada até a cidade, precisamos sair logo. Assis vai me esperar logo ali, na ponte do Carvão, fiquei de passar às 6h30.

Tomaram um breve café e após os rituais de despedidas de mãe, embarcaram algumas frutas em sua canoa e seguiram remando.

Logo avistaram Assis, que vigiava a curva do rio. Tinha um exemplar de “Todo Cuidade é Pouco” em suas mãos. Foi só o tempo de Jonielson encostar a canoa e Assis acomodou o livro na mochila. Em seguida, embarcou animado falando das belas ilustrações de Roger Mello. O Saci aproveitou para fazer uma provocação:

_ Rapaz! Você ainda lê apenas ilustrações?

Assis estava feliz com a presença do amigo e respondeu com outra brincadeira. Mostrando os litros de açaí que estava levando para o lanche, disse:

_ Eita! Quantas cuias de açaí vais tomar hoje Saci Aladim? Tô achando que este aqui vai ser pouco.

Com uma boa risada o Saci respondeu:

_ Já sabes que pra matar a saudade eu tomo sempre três cuias! E quero açaí do grosso…Há há há.

A maré estava enchendo na direção que seguiam, assim, venceram mais rápido a distância. Logo avistaram o alvoroço das outras montarias e o desembarque de meninos, meninas e jovens para participarem do grande evento.

Chegando ao local, foram cumprimentar os Pequenos Embaixadores da leitura que já ocupavam seus lugares. Logo teve início a solenidade de abertura da extensa programação prevista. Após a declamação do poema de Casimiro de Abreu “Meus Oito Anos”, feita por uma encantadora menina, houve a fala de/das autoridades presentes.

Uma grande roda se formou para apresentação dos embaixadores. Eram crianças leitoras na faixa de 8 a 12 anos, escolhidos para contar histórias do seu lugar.

Para levar as nuvens os atentos ouvintes a primeira história contada , foi a da Base Aérea do Amapá, onde, em um Museu a Céu Aberto ainda resta parte da estrutura de pouso de Zepelim, construída por volta de 1940, Um embarque perfeito para iniciar o dia.

Dali, seguiram viagem e pousaram em outro tempo e espaço: no “Sítio Megalítico Rego Grande”, nas histórias contadas pelos embaixadores de Calçoene.

Estas viagens através das histórias, deixaram maravilhadas as crianças que não sabiam da existência dos Sítios Funerários e Grutas na Região do Rio Maracá – Município de Mazagão.

Para costurar e emendar, contos de lá e de cá, com a palavra MARACÁ, passaram novamente a palavra, para as crianças do Município de Amapá, que contaram uma aventura vivida na praia Boca do Inferno. Foi um relato fantástico! De arrepiar os cabelos, do prefeito careca.

Os ânimos acalmaram-se com um inebriante cheiro de mata, que pareceu tomar conta do salão, quando foram transportados e sentiram a exuberância da flora e fauna de uma Ilha: a Estação Ecológica do Maracá. Um verdadeiro bálsamo para os ouvintes. Na imaginação dos ilustradores as tintas ganharam belas paisagens.

Uma grande escalada em trilhas pelas Montanhas do Tumucumaque foi o tema da história contada por meninos e meninas do Oiapoque. Em silêncio todos vibravam com cada suspense de mais uma aventura naquela manhã.

Encharcados da beleza do Rio Oiapoque buscaram outras águas, no rumo das corredeiras do Rio Jari passando antes pelas aldeias Wajãpi, em Pedra Branca do Amapari.

Mitos e lendas misturavam-se as histórias de descobertas de ouro, manganês e outros tesouros. Histórias acontecidas ou não, tudo era inspiração para os contos de pescadores, parteiras e também das benzedeiras residentes em várias localidades dos 16 municípios do Estado do Amapá.

Deslumbrante também, foi a entrada dos meninos, que com correntes presas/amarradas aos pés, encenaram como foi doloroso para negros e índios os 18 anos de construção da Fortaleza de São José de Macapá. E para encerrar com a alegria o relato, contaram cantando, como nasceu a dança do marabaixo. Cantando os ladrões em roda dançaram para encerrar a manhã.

Exaustos de tantos vôos, escaladas, caminhadas, embalos musicais e de canoas, vividos nas histórias, foram todos convidados para o almoço coletivo. A longa mesa, ofertava as delícias dos rios e da floresta: caldeirada de filhote, tucunaré regado ao tucupi; açaí com camarão e/ou farinha de tapioca, saborosos sucos de graviola, cupuaçu e taperebá. E ainda biscoitos de castanha do Pará, geléias e muitas outras iguarias da amazônia.

Em Contos ao redor da fogueira, no cair da noite as atividades do primeiro dia foram encerradas.

O segundo dia, foi de visita aos expositores das editoras. Cada uma trouxe ao Salão, suas melhores publicações. A coleção “Nossa capital” fez grande sucesso, principalmente o “ Macapá – a Capital do Meio do Mundo” com as belas aquarelas: do Rio Amazonas, Igreja Matriz de São José, Monumento Marco Zero do Equador, do Quilombo do Curiaú e alguns pontos turísticos da capital do estado, como o trapiche Eliezer Levy.

Um espaço para fazer fotos e postar selfies nas redes sociais estava preparado com as capas dos livros de todas as capitais do Brasil. Desde “Belém, Terra das Mangueiras” , até “Porto Alegre a Capital dos Gaúchos”.

Os estudantes, de posse de seus “vale livro”, escolhiam e retiravam seu exemplar de: Um Livro pra Chamar de Seu. A noite foi de luar, com embalos de redes e sonhos, abraçados aos livros recebidos.

Com o esperado momento de assinatura do documento: 10 anos de Promoção da leitura, foi iniciado o terceiro dia de programação.

Após a assinatura do Governador e dos 16 Prefeitos, foi feito o registro fotográfico oficial. Bem à frente, com largos sorrisos, os Embaixadores Leitores!

Um sorteio, definiu o anfitrião do II Salão: o Município de Calçoene. Em seguida novos embaixadores foram empossados para que realizassem outras pesquisas e coletas de novas/velhas histórias para contar no ano seguinte.

O Saci Aladim de Ali Babá, Jonielson e Assis caminharam até a beira do rio, para apreciar o remanso. Sentaram-se à sombra de uma enorme árvore, donde viam ao longe a movimentação. O Saci mostrou aos meninos uma pequena arca em forma de barco, estavam ali alguns livros dos escritores Fernando Canto e Joca Monteiro, embalados para uma longa viagem. A correnteza a levaria ao encontro de crianças de algum lugar distante. Então o Saci falou:

_Estas crianças com idade de 8 anos representam aqueles que daqui a mais 8 anos, aos 16 anos, serão: Leitores e Eleitores! E todo este evento, é uma pequena mostra do que é a implementação da Política Pública de Promoção da Leitura. Algo improvável? Talvez sim. Mas, lembrem-se, tudo é possível, quando sonhado! E a leitura nos permite imaginar um outro mundo.

Na festa de encerramento do Salão, crianças com figurinos dos personagens, encenaram uma batalha entre Mouros e Cristãos, lembrando aqueles que atravessaram o Atlântico e vieram fundar a Cidade de Nova Mazagão, em 1770.

Uma estrondosa salva de palmas junto a algazarra das crianças, ao final da apresentação, acordou Jonielson. O som misturou-se ao rufar de tambores do Marabaixo de rua, que anunciavam o amanhecer do dia. Sentindo um cheiro de café vindo da cozinha, percebeu atordoado que havia embarcado em mais uma aventura de Sonhos. Não havia nenhum Saci em seu quarto.

Ainda meio sonolento e pensando nos acontecimentos e datas importantes do mês de outubro, lembrou que a poucos dias acontecera as eleições municipais. Repassou na memória todo o sonho do qual acordara e entendeu o novo e precioso recado que o Saci trouxera: A importância de escolher e eleger candidatos comprometidos com as Leis e Planos para a Leitura a Literatura e as Bibliotecas e claro, que valoriza as histórias do seu lugar.

A caminho da escola, encontrou com o amigo que entrou silencioso na canoa, esquecendo o habitual: “Bom dia”! Assis, parecia estar distante dali.

_ Bom dia Assis, tudo bem? O que estais matutando nesta cabeça, tá quieto.

_ Bom dia! Sim irmão. Tô pensando aqui neste livro que encontrei caído na ponte, é o mesmo do meu sonho, da noite passada. Sonhei outra vez com o Saci Aladim, ele disse: “Tudo é possível quando sonhado”!

_ Verdade! Então, vamos seguir sonhando juntos? Quem sabe realizamos o 29 de outubro dos nossos sonhos.

Entre olhares e sorrisos entenderam-se, confirmando o que havia acontecido na noite anterior.

Angela de Carvalho
Macapá 17 de fevereiro de 2020

CAMPANHA SOLIDÁRIA DO LIVRO – Agradecimento de Fernando Canto

Quero aqui agradecer do fundo do coração os amigos que compraram meus livros a R$ 10, 00 cada, tendo, com isso, colaborado grandemente para que pudéssemos adquirir 10 (dez) cestas básicas. As cestas foram distribuídas pelo padre Aldenor Benjamim, que também é professor do curso de Jornalismo e atual diretor da Rádio Universitária da UNIFAP, para pais e mães de famílias da comunidade das Pedrinhas, que vivem do trabalho informal.

Em razão da quarentena estabelecida nestes dias da pandemia do coronavírus, eles ficaram impossibilitados de obter suas rendas diárias nas diversas atividades laborais que ocupam. Daí a campanha.

Acredito que cada um fazendo sua parte poderemos minimizar o sofrimento de alguns irmãozinhos que pouco ou nada tem.

Obrigado, meus amigos. Que Deus os abençoe pela generosidade.

P.S. Informo que não citarei o nome de todos os que ajudaram, porque alguns me pediram isso. Se der tudo certo continuaremos na campanha no próximo mês com outros leitores e interessados. MUITO OBRIGADO MESMO.

Fernando Canto

andAÇO – Fernando Canto

Fernando Canto – Arquivo pessoal

andAÇO

Eu sou o andaço, a febre ávidaescura a procurar madeira forte para a estrutura da ponte rebentada

Meu rastro é apenas um produto deste passeio obstinado, onde a chuva é dádiva e o sol sermão de luz. Ah, eu me aceito condenado e nu diante do portal desta aventura até o embranquecer total da barba que absorve um tempo sem segredos.

E entre as dores colhidas no caminho: dunas/pedras/folhas e gramíneas: prefiro o tênis nos meus pés cansados.

*Do livro “Equino CIO – Textuário do meio do Mundo”, de Fernando Canto. Ed. Paka-Tatu, Belém, 2004.

AnúnCIO – Texto atemporal de Fernando Canto

anúnCIO

Vende-se uma alma, uma árida alma de pedra, uma alma dura, de pedra. Vende-se uma alma, autêntica alma dura, própria para construção, pois em pedaços distintos servirá de matéria para a ereção de um império.Vende-se ou troca-se a alma por carro/motor-de-popa ou barco à vela completo. Vende-se a dura alma que quer se perder no mar, que vai se gastar no infinito, que quer se tornar feliz. Vende-se/vende-se/vende-se.

*Do livro “Equino CIO – Textuário do meio do Mundo”, de Fernando Canto. Ed. Paka-Tatu, Belém, 2004.
**Passados 13 anos, Fernando Canto ainda descreve a realidade. Tomara que um dia as coisas mudem, de fato.

EquiNO/cio – A voz dos leitores (Fernando Canto)

eu VENHO CINTILANTE e áspero calor eqüINO sobre o mundo ARAUTO que sou de um novo tempo desde a hora em que as ONDAS do Amazonas rebentaram o alúvio das encostas na primeira MANHÃ

eu VENHO CAVALGANTE no cerrado e nos estirões inebriado com o bramIDO das cachoeiras e com o ronco dos MACAréus CavALGO sim em banzeiros caudatários de uma pororoca enorme – estro sem fim – sacralizando vôos vindOUROs além desta procela que se instaura incompreensível no meu tempo

passará A VEZ do ÁZIMO pão posto bruto que agora é tempo de pousio da espera da nova fertilização da terra quando deveremos ARAR novas angústias e colher o juSTO fruto e descascá-lo e cortá-lo à lâMINA afiada na curva dos varadOUROs

*Do livro “Equino CIO – Textuário do meio do Mundo”, de Fernando Canto. Ed. Paka-Tatu, Belém, 2004.

“Uma Noite Me Namora”, livro da poeta Pat Andrade está disponível para aquisição em versão virtual. Compre e incentive a cultura local!

A poetisa, escritora e colaboradora deste site, que assina a sessão “Caleidoscópio da Pat”, Patrícia Andrade, lançou uma versão virtual de seu 24º livro de poemas. A obra, denominada “Uma Noite Me Namora”, nesse formato, ganhou a ilustre participação do também poeta Pedro Stlks, que assina a arte do livro. A publicação contém 16 poemas da brilhante mestra da arte poética.

A iniciativa de Patrícia Andrade visa arrecadar recursos financeiros nessa época de isolamento social, por conta da epidemia de coronavírus.

Há 21 anos em Macapá, a poetisa paraense escreve belos poemas, declama e edita seus livros. Ela sempre comercializa suas obras em eventos culturais bares e da capital amapaense, o que não é possível nestes tempos de Covid-19.

Sempre compro e recomendo o trabalho de Pat Andrade, de quem sou fã e tenho a honra de ser também amigo. Aliás, já tenho o meu “Uma Noite Me Namora”. Corre, fala com a Pat, e adquire o teu exemplar virtual. A cultura agradece.

Serviço:

“Uma Noite Me Namora”, de Pat Andrade, em formato virtual
São 16 poemas . A publicação tem arte de Pedro Stlks
Pague o quanto puder e compre o seu.
(96)99188-6565 (W’app – Patrícia Andrade)

Elton Tavares

Em tempos de coronavírus, escritor realiza Campanha Solidária do Livro para comprar cestas básicas para pessoas carentes

 

Eu, editor deste site, com o amigo e maior escritor vivo do Amapá, Fernando Canto.

Nestes dias enigmáticos do novo coronavírus, o sociólogo, poeta, compositor e escritor Fernando Canto inicia a “Campanha Solidária do Livro”. A quantia arrecadada com a venda das obras “Mama Guga – Contos da Amazônia” e Tese de Doutorado “Literatura das Pedras – A Fortaleza de São José de Macapá como locus das Identidades Amapaenses”, ambas de autoria do idealizador da iniciativa, será investida na compra de cestas básicas para famílias carentes, que sofrem nestes tempos de isolamento social por não poderem trabalhar.

Ajude-nos a comprar estes alimentos para pessoas de comunidades carentes de Macapá. Adquira uma (ou as duas) publicação por excepcionalmente R$ 10,00 (dez reais).

Mama Guga – Contos da Amazônia

O livro “Mama Guga – Contos da Amazônia” (Editora Paka-Tatu, Belém – 2017, 104 pág.), O livro traz 26 contos do tipo fantástico, alguns dos quais já publicados em sites ancorados na capital amapaense. Além de impresso, com uma tiragem de dois mil exemplares, terá sua versão digital e será vendido pela maior livraria virtual do planeta, a Amazon.com , a exemplo de outros trabalhos do autor publicados pela mesma editora.

Literatura das Pedras – A Fortaleza de São José de Macapá como locus das Identidades Amapaenses

A Tese de Doutorado “Literatura das Pedras – A Fortaleza de São José de Macapá como locus das Identidades Amapaenses”, em e-book. Coleção Gapuia – Sociologia em Pesquisas e Teses – CAPES, UFC, UNIFAP, Editora da UNIFAP e Autografia, Macapá, 2017. 310 Pág.) é um estudo sociológico sobre a maior fortificação da América Latina e também a continuação de sua tese de Mestrado em Desenvolvimento Regional. A obra detalha quatro fases: a construção da Fortaleza; a instalação do governo no então Território Federal do Amapá; a Ditadura Militar por aqui e a redemocratização neste lado do Rio Amazonas.

Para adquirir qualquer um dois dois livros ou as duas obras, você pode ligar para o autor no número – 96-99183-4488 (ou mandar mensagem de WhatsApp no mesmo contato). O e-mail do autor é ([email protected]).

Nós faremos que as obras cheguem em suas mãos, limpos e desinfectados com álcool em gel. Acertaremos a forma de pagamento quando falarmos.

Por favor, usufrua de belos textos literários em casa e contribua com quem não pode comprar comida. Seja solidário.

 Fernando Canto e Elton Tavares

O SALto mortal do peixE engAsgaDOR – Conto de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

Todos riam sem acreditar na história que eu contava. Aí, eu tirava logo da carteira um amarelo recorte de jornal e mostrava a eles que não era mentiroso. Ainda comentava que o jornal concorrente publicara àquele dia o fato, a foto e a desgraça de um cara muito azarado que morrera de má sorte entalado por um peixe.

O pescador infortunado Natan Coelho de Tal saiu com mais dois amigos numa pequena canoa no Furo do Maguari para pescar douradas e garantir o alimento da prole faminta e doente. Aproveitaram a lua cheia para tomar umas pingas enquanto os peixes brincavam com caruanas loirinhos ali no fundo do rio.

Natan Coelho de Tal, o primeiro a se embriagar, deitou-se na canoa ressonando seu cansaço de trabalhador e pai, bocejando a toda hora com a face para o luar, sem esperar a desdita que o rio ali lhe ofertava.

Foi então, bem de repente, que um peixe prateado pulou de dentro d’água e se alojou na garganta do pescador desgraçado. Ele acordou-se sofrendo, mas nenhum dos seus amigos entendeu o que se passava.

Só depois de muito tempo quando o sangue do infeliz fugia pelos buracos é que foram compreender o que havia acontecido. Então levaram Natan para um hospital da cidade, em vão, porque no caminho o pescador já era morto. Mortinho como o tal peixe que numa noite enluarada morreu por falta de ar.

*Do livro “Equino CIO – Textuário do meio do Mundo”. Ed. Paka-Tatu, Belém, 2004.

MAMA GUGA – Conto de Fernando Canto que deu nome ao livro (republicado por conta dos 56 anos do GOLPE MILITAR, completados neste 31 de março de 2020)

Desde sua primeira prisão por contrabando, meu pai estampava na cara que era um bandido, um contraventor, um fora da lei que ameaçava a economia da região por não pagar impostos. Era convicto dessas coisas, até cínico. Propinava gente grande da Alfândega e fiscais estaduais dissimulados. Para ele, tudo era normal numa época de carestia e desencanto. Ele sabia dos perigos que o rondavam e que a qualquer momento poderiam enquadrá-lo por outros crimes. Por muito tempo fora um ajudante de importadores de mercadorias com uma impetuosa vontade de vencer na vida. Queria dar algo melhor para a família de quatro filhos que moravam com os avós em uma casa na Cidade Velha, em Belém, assim que enviuvou ainda jovem.

Depois que aprendeu a rota marítima e um pouco de patois para se comunicar e comercializar com os contatos de Paramaribo e Caiena, produziu sua independência e se tornou patrão, mesmo à revelia da vontade do seu antigo chefe. Viajou muito. Chegou a ir até a Venezuela comprar objetos de cozinha feitos de prata da Bolívia para revender aos comerciantes de varejo na Cidade das Mangueiras e em São Luís do Maranhão. Trazia famosos perfumes franceses, cortes finos de cetim e seda do oriente, que vendia para uma seleta freguesia de fazendeiros do Marajó e para clientes do society que ainda se julgavam aristocratas. Fazia tudo de uma forma meio escamoteada na loja que montou para o meu avô Salim. Meu avô era um libanês corcunda, um sábio, um conhecedor profundo das coisas do Cosmo Infindo, iniciado há tempos em uma Ordem Mística do Oriente, onde também iniciou meu pai.

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Nossa família foi ficando rica, mas muito visada pela polícia. Meu pai sabia disso e contornava as investigações com boas “gratificações” a policiais corruptos. Não demorou muito ele comprou outra embarcação com um sonar moderno que permitia viajar à noite com maior segurança pela costa, inclusive no tempo das pororocas mais fortes que rebentavam no litoral próximo à boca do rio Araguari, no oceano.

Os federais eram mais bandidos que os próprios bandidos. Espalharam que queriam pegar o terceiro chefão na linha direta do tráfico de mercadorias e não perdoavam quem ao menos ousasse imaginar que estavam torturando pessoas em busca de informações mais precisas. Tudo valia naquele tempo de ditadura militar. Não havia grupos de direitos humanos, e, mesmo se houvesse, ninguém jamais pensaria que essas práticas medievais ainda ocorressem por aqui.

O barco do velho certa vez foi metralhado por um bando de piratas que agiam próximo ao Cabo Orange, quando vinha de Paramaribo com um carregamento de uísque, vinho e máquinas de costura. Morreram quatro tripulantes, e dois deles se jogaram feridos ao mar. Meu pai nunca usou arma e viu, baleado, levarem a carga toda.

Não se sabe bem o porquê, mas deixaram com ele uma negrinha guianesa depois de a terem usado como escrava nas suas rotas criminosas pelo Caribe. Tempos depois, ele viria a se apaixonar, pois com muita paciência e carinho ela conseguiu curá-lo dos ferimentos de bala que o deixaram para sempre com o braço torto. Três dias depois do assalto, uma vigilenga os recolheu bastante debilitados e os conduziu até a cidade de Vigia.

Já recuperado, levou a mulher para casa, em Belém. E por ser viúvo todos aceitaram a estrangeira, mas havia um certo preconceito entre os membros da família, algo velado, que se dissipava com a autoridade do velho. Mais tarde, ele conseguiu financiamento com os chefes do contrabando, comprou um novo barco, juntou tripulação e voltou à ativa.

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Mama Guga parecia rejuvenescer com a viagem. Virou taifeira da embarcação e principal ajudante do meu pai nas operações comerciais com os habitantes das guianas. Falava bem o patois crioulo e o tak taki das fronteiras do território francês e de Suriname. Passavam longe da então Guiana Inglesa, pois lá as lutas pela independência da Inglaterra fizeram o comércio internacional ser impraticável. Muitos grupos de guerrilheiros almejavam o poder e se dividiam em ideologias, estratégias e objetivos, e se matavam uns aos outros. A nova embarcação, agora com o nome de Mama Guga, uma homenagem óbvia, singrava o Atlântico, as Antilhas e o mar do Caribe. Meu pai era só felicidade com a nova mulher. Ele a levava para dançar beguine no hotel Montabô, em Caiena, e bebiam os melhores conhaques franceses.

Certa noite, ela pulou do camarote como saindo de um pesadelo. Chamou meu pai, e se armaram. Estavam fundeados no Porto de Sucre, próximo de Caiena, esperando um carregamento de vinho para o dia seguinte, quando partiriam para o Brasil. Aguardaram e viram os vultos de quatro ratos d’água subirem pelo convés, armados de revólveres e facões. Vinham sorrateiros, com propósito assassino, pois para roubarem as mercadorias tinham que matar os tripulantes e fugir com a embarcação. Havia só a luz de um farolete a querosene a iluminar minimamente a área da proa, onde o marinheiro Zé Raimundo tirava o seu plantão. Iam surpreendê-lo quando Mama Guga acertou com um tiro no pescoço o negro magrinho que parecia liderar o grupo.

Zé Raimundo pulou para o lado e cortou em duas partes a cabeça do outro bandido com seu terçado afiado, enquanto meu pai disparava mais dois tiros para liquidar os outros ratos. Seguiu-se um silêncio… Esconderam os quatro cadáveres no porão e lavaram o sangue do convés. Ao carregarem a carga de vinho, já no dia seguinte, ainda foram cumprimentados pelos tripulantes de outros barcos que ouviram os tiros e calcularam o que ocorrera. Depois jogaram os corpos dos bandidos no mar e navegaram até Belém, não sem antes se esconderem das patrulhas das marinhas francesa e brasileira em pelo menos duas áreas de fiscalização, na foz do Oiapoque e no cabo Norte.

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Meu avô sabia que as viagens estavam ficando cada vez mais perigosas. Chamou meu pai e o avisou. Não era só a marinha e a polícia paraense que ficavam no pé do velho. Surgiam boatos que a polícia federal estava atenta a tudo e que faria operações na costa do Amapá até a fronteira com a Guiana Francesa. Para tanto, já estava equipada com barcos rápidos e radares poderosos. Era imperiosa a fiscalização das 200 milhas marítimas decretada pelos militares, e até corvetas da Marinha de Guerra transitavam na região. Não estavam ali só para prender contrabandistas ou pescadores internacionais nas nossas águas. Algo acontecia, além disso. Meu pai precisava pagar o empréstimo aos seus chefes patrocinadores e tinha que viajar mais vezes. Seu lucro era grande, mas os juros eram muito altos. O perigo era maior ainda.

Esse quadro todo era previsto pelo meu avô Salim. Platonista atento que era às vicissitudes dos seus parentes mais próximos, repetia sempre a máxima do seu mestre: “assim como em cima é embaixo”. E enfatizava que há tempo para semear, tempo para plantar e tempo para colher. Meu pai estava no tempo de colher, ele dizia. Desde a morte de minha mãe, ele esquecera o sentido da reflexão, da meditação, como técnica a ser utilizada em tudo o que desejamos ou temos obrigação de realizar. Perdera a sabedoria e ganhara a esperteza ao meio da ganância e das práticas ilegais e resolvera agir, assim, pelo livre arbítrio, fora da Lei Cósmica. Meu pai estava involuindo da sua divindade, de sua essência. Sabia disso e não ligava. Meu avô pronunciava palavras ao vento…

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— Você está nesse mundo pra viver! – disse o chefe dos federais. Colabora, porra!
— Se tu não falar por bem tu vai pegar muita porrada lá no “Purgatório”! – dizia rindo sarcasticamente o policial, referindo-se a uma tenebrosa câmara de tortura existente nos porões do prédio colonial que abrigava a delegacia.
— Diz logo, porra. Onde é que tá a Mama Guga, aquela salope duma figa? Cadê os terroristas assaltantes de banco? Hem, caralho. Onde vocês deixaram eles.

Meu pai, literalmente de mãos atadas pelas algemas, levantou a cabeça, pediu água. O policial, num gesto rápido, pôs-lhe o cigarro na boca e acendeu um isqueiro de aço, daqueles que têm uma chama alta e são acesos com faíscas de pedra no chumaço molhado de querosene.

— Diz logo, caralho! – e foi levantando devagar o queixo do velho, lhe queimando a barba, e ele pulou para trás urrando de dor e se estatelou sobre a cadeira que caíra com ele.
— Fala logo, turco filho da puta! – gritou outro policial, chutando-lhe a cara sem piedade. – Fala, “Braço de Eletrola”! – gritou o policial se referindo ao defeito no braço do velho, e continuou: Onde escondeste os filhos da puta dos comunistas? Cadê a negra?
— Eu não sou turco, sou libanês… – balbuciava meu pai, sangrando pelos buracos da cabeça.
— Mas tu és bandido, seu contrabandista de uma figa. Onde é que está a Mama, seu macoumê da Guiana?

“Turco não, libanês…”

Aplicaram-lhe tantos golpes covardes que ele desfaleceu.

Acordou amarrado do mesmo jeito. Da testa e do nariz escorria um sangue escuro, quase coagulado. Perguntaram de novo pela Mama Guga. Ele disse:

— Eu vou dizer, mas ela vai rogar uma praga pra vocês que vão ficar vinte anos babando saliva com vontade de consumir o que não podem, seus otários. Eu sou bandido, sim. Sou contrabandista, mas não sou como vocês que acreditam nessa tal revolução de merda. Sai um ladrão do poder, entram centenas. Essa é a regra desde o início dos tempos.

Depois de apanhar mais e de “dar o serviço”, meu pai dizia que só se lembrava das coisas depois de ter sido encontrado por um barco transportador de açaí perto do Ver-o-Peso. Não fosse sua prática de marinheiro-embarcadiço na juventude, jamais teria sobrevivido àquela condição extrema de tortura em que lhe deixaram os policiais, após o terem depositado n’água, na madrugada. Nunca havia posto um cigarro na boca e tinha uma força imensa.

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Anos depois, já com a decretação da Lei da Anistia, meu pai saiu pela primeira vez de casa para tomar sol e andar pelo Porto do Sal à procura de notícias de Mama Guga, pois até então a polícia não deixava de vigiá-lo em sua porta. Inquiriu seus antigos camaradas, marinheiros e ex-tripulantes durante meses, do Porto da Palha ao Ver-o-Peso. Um dia, encontrou com o seu velho amigo Zé Raimundo e descobriu onde sua amada estava. Vibrou de alegria. Ele sabia que ela vivia, mas não podia vir até ele. E nem ele até ela.

Na sua última viagem, foi obrigado pelos chefes do contrabando a levar como passageiros cinco terroristas que fugiram do presídio São José, após terem sido presos por assalto à mão armada em um banco estatal, em Belém. Era o pagamento final de sua dívida. Era pegar ou largar. E ainda tinha um pagamento em ouro a ser acertado no final da viagem. Essa promessa o fez investir num plano ousado. Alugou um pequeno barco de pesca e o mandou na frente com alguns tripulantes e os esquerdistas barbudos, sob o comando de Mama Guga. Viajariam apenas à noite, bem próximo à costa. Uma semana depois, meu pai zarpou de Vigia para as águas do Atlântico rumo à Caiena.

No canal do Maracá, foi avistado por uma corveta da Marinha. Prenderam o barco e a tripulação, mas só ele foi torturado até relatar o plano de viagem.

Ele sabia que sua amada Mama Guga havia deixado os comunistas no Porto de Sucre com êxito, portanto nada mais devia aos mafiosos chefes do contrabando – a essa altura todos mortos. E ela não era mais considerada persona non grata no Brasil.

A sortida loja de tecidos do meu avô se transformou em um ponto comercial alugado. Vivíamos de renda e do salário dos meus irmãos mais velhos. Mas eu fui o escolhido para procurar e trazer Mama Guga até ele. Protestei de início e argumentei que era muito franzino para enfrentar uma aventura e nunca tinha viajado de embarcação, ainda mais pelo mar, inclusive era conhecido no bairro por “filé de Borboleta”. Porém, não convenci o velho. Fui convencido, porque “arranhava” um pouco de francês. Então parti pelo mar.

Na cidade de Oiapoque, me informaram que Mama Guga tinha um pequeno comércio na vila de Tampac, abaixo de Saint-Georges, no rio Oiapoque, uma comunidade habitada por descendentes de africanos chamados saramacás. Aluguei uma catraia e fui até lá. O catraieiro que me serviria de intérprete.

O chefe da vila, conhecido por Capitão Gody, me recebeu com um grande sorriso, como se eu fosse esperado há tempos, e apertou minha mão com força. Ele falava um português tão correto que eu nem precisei mais do intérprete. Sabia que eu procurava Mama Guga e que era enteado dela. Foi um recebimento protocolar. Pediu aos membros de sua corte que dançassem o cacicó em minha homenagem, e eles dançaram e cantaram ao som dos tambores o “Mô kalê lá / Mô kalê lá”, entre goles do tafiá Damme Jeanne, uma cachaça de garrafão feita de milho, típica da Guiana. Ofereceu-me um cálice do genuíno vinho francês Quinquina du Prince e me contou que Mama Guga tivera uma vida trágica. Seus pais foram assassinados, e ela, raptada ainda adolescente por um garimpeiro nas cabeceiras do rio Maropi. Depois foi vendida como escrava a um barco de piratas. Tinha o dom dos xamãs e teria explodido com a força do pensamento os escrotos de um pirata quando ele tentou estuprá-la. Tiveram medo de matá-la e a jogaram no peito do meu pai ferido por tiros, quando roubaram seu barco e a carga.

A notícia que ele me daria em seguida seria mais surpreendente. Ela morrera há três dias. Tinha vivido por anos na vila, onde fora bem recebida porque seus pais eram saramacás. Mas ela sofria de melancolia, com saudade do seu amor do Brasil, o único homem que a valorizara em toda a sua vida, costumava dizer.

Eu nada perguntava ao Capitão Gody. Ele mandou parar o cacicó e me levou a um lugar afastado, sempre com o séquito atrás dele. O ar era perfumado por um cheiro estranho. Havia uma cabana coberta no quintal à beira do rio. O cadáver de Mama Guga jazia sobre um assoalho de paus. Ele disse solenemente:

Meu filho, quando morre um membro da nossa tribo, construímos um girau da palmeira jussara para colocar o corpo do morto. Embaixo do corpo, pomos uma gamela de madeira bem calafetada do tamanho do corpo e ateamos fogo ao redor. Do cadáver vai escorrendo o suco que era sua vida. Depois que ele fica bem seco, fazemos o enterramento e dançamos ao seu redor, esfregando aquele suco em nossos corpos. Isso nos dá mais vida e melhor bem-estar. Nós herdamos esse costume dos nossos ancestrais africanos – completou o chefe Gody.

Eu assisti ao ritual e me besuntei do óleo de minha madrasta. O Capitão Gody me presenteou com um belo artesanato de madeira feito a canivete e me entregou dois quilos de ouro em pó que Mama Guga havia deixado para o meu pai. Ela tinha certeza de que alguém viria vê-la nem que já fosse morta. O chefe era um homem justo e foi o guardião da fortuna até entregar o que agora pertencia a meu velho. Voltei com medo, mas me senti protegido, porque, além do ouro, trazia um frasco com um pouco de suco de Mama Guga para dar nas mãos dele.

…..

Quando cheguei a Belém, reuni a família, contei minha aventura floreando detalhes e entreguei a meu pai seus pertences. Depois, ficamos apenas ele, o pai dele, eu e meus irmãos homens na sala. Meu avô me disse compassadamente que meu pai voltara ao misticismo depois de perder tudo e ser torturado pelos policiais da ditadura.

Tinha estudado muito e já meditava e experimentava em laboratório caseiro os símbolos alquímicos, os quatro elementos da natureza, os sete metais, o opus alquímico e suas operações, a busca da Prima-Matéria e outros conteúdos dessa arte e ciência milenar, cujos segredos ainda eram guardados pelos Rosa Cruzes. Nesse momento, ele purgava suas falhas com o Cósmico no seu processo evolutivo, pois havia sucumbido diante da ambição e da ganância, que o tiraram do eixo da harmonia com o Universo.

Enquanto o meu avô explicava, meu pai ajoelhou-se em nossa frente, invocou palavras desconhecidas para nós, seus filhos. Besuntou-se do suco de Mama Guga e salpicou sobre sua cabeça uma pequena quantidade de ouro em pó.

O rosto dele iluminou-se de felicidade quando um fogo fez seu corpo entrar em combustão e o ouro transmutar-se em uma diáfana camada de névoa amarelada. Tentamos correr para salvá-lo, chorando em desespero, mas meu avô nos impediu.

— É só uma ilusão, meus filhos… – disse o velho avô.

Sim, seria uma ilusão, não fosse o fato de Mama Guga estar presente todos os dias em nossas vidas dançando beguine com meu pai, ali na nossa sala. Meu avô Salim fica sentado na poltrona, coça a barba branca e abre um sorriso enfatuado por ter realizado seu trabalho redentor em nossa família.

Meu comentário: este genial conto de Fernando Canto foi escrito por conta de várias histórias do amigo Fernando Bedran (tenho a honra de ser amigo dos dois fernandos), que nas mesas de bar. Claro que o autor, além de contextualizar, escreveu o conto com carradas de realismo fantástico e brilhantismo, da mente genial de Fernando Canto. Aí deu nesse escrito sensacional. Porreta!

O tempo de uma fotografia (Rubem Braga)

Eu, na época que estudava no Santa Bartolomea – 1984

Não era nem ontem, e nós éramos um rostinho inocente posando para um retrato escolar. Olhinhos apertados, espertos, ávidos por ver a vida crescer. Crescemos nós. Já no mundo adulto, aquela foto da escola perdeu-se em alguma caixa parda que guarda fotografias do tempo em que elas eram reveladas. Eram aguardadas no suspense de seu conteúdo. Havia prazer em esperar. Fala-se disso:

_ As fotos ficaram boas? _ Vem aqui em casa pra ver!. Diálogos dos século passado.

O mundo adulto, hoje, é cheio de pressa. Nem bem viveu-se algo, e esse algo já foi postado em alguma rede. Desfruta de uns segundos de visibilidade, para depois perder-se, em memórias cibernéticas.

Eu, o único moleque de bermuda, estou de joelhos. Escola Santa Bartolomea Capitânio. Foto de 1985. Há 35 anos

Será que as crianças de hoje ainda tiram fotos do tipo grupinho escolar? Todas as carinhas reunidas, professora do lado, e um fotógrafo gorducho mandando fazer xis.Não há muito tempo para esperas e aguardos.

Hoje, é tudo para hoje. Será que no meio de tanta aceleração, dá tempo de se perguntar onde estarão aqueles meninos e meninas do nosso retrato escolar? Caminhos que nos engolem enquanto tentamos acrescentar alguns minutos à mais nas nossas horas corridas, e lá se foram os nossos primeiros melhores amigos.

Rubem Braga

Se vivo, Renato Russo faria 60 anos hoje. Viva o maior poeta do Rock brasileiro!

Renato Manfredini Júnior não foi só mais um carioca que cresceu em Brasília (DF). Renato Manfredini Júnior nasceu em 27 de março de 1960 no Rio de Janeiro. Ele viveu parte da infância com a família em Nova York e, aos 13 anos, se mudou para Brasília. O cara foi um cantor e compositor sem igual. Liderou a Legião Urbana (composta por ele, Marcelo Bonfá, Dado Villa Lobos e Renato Rocha) e obteve um enorme sucesso de público e crítica. Se estivesse vivo, hoje o maior poeta do Rock brasileiro faria 60 anos.

A Legião foi e sempre será a maior de todas as bandas deste país. Eles venderam 20 milhões de discos durante a carreira, mais de uma década após a morte de Renato Russo, a banda ainda apresenta vendagens expressivas. O som dos caras me remete ao passado, à situações, pessoas, alegrias e perrengues; enfim, foi a trilha sonora da adolescência de minha geração. Renato foi genial, sereno e místico. Um melancólico poeta românico, quase piegas, mas visceral. Era capaz de compor canções doces, musicar a história cinematográfica do tal João do Santo Cristo, cantada na poesia pós-punk de cordel (159 versos e quase 10 minutos) intitulada Faroeste Caboclo ou melhorar Camões (desculpem a blasfêmia lírica), como em Monte Castelo.

Como disse meu sábio amigo Silvio Neto: “Renato Russo foi Poeta pós-punk, de toda uma Geração Coca-Cola. Intelectual, bissexual assumido desde os 18 anos de idade, ele foi uma espécie de Jim Morrison brasileiro, não pela sua beleza física, mas pela consistência de suas letras que poderiam muito bem ter sido publicadas em livro sem a necessidade de ser musicadas”. Cirúrgico!

Em 11 de outubro de 1996, Renato Russo morreu, vitimado pela Aids. E como ele mesmo dizia: “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”, pois o para sempre não dura muito tempo. A Legião Urbana acabou oficialmente no dia 22 de outubro de 1996 e reuniu-se novamente 20 anos depois, em 2016, com outro vocalista e saiu em turnê pelo Brasil. Mas essa é outra história.

A força e universalidade das composições de Renato emocionaram toda uma geração e continuam mexendo com a gente. Acho que será sempre assim. Não sei o que Renato teria feito se tivesse mais tempo, mas com o pouco tempo que teve, fez muito. Fez demais pela música e arte nacional. O artista foi um dos nossos heróis (ainda tem quem não goste ou reconheça, mas paciência). Pena que o futuro não será mais como foi antigamente. Por tudo isso e muito mais, hoje homenageio Russo, que se eternizou pela sua música, poesia e atitude.

Valeu, Renato. Força sempre!

Elton Tavares

Cultura amapaense pela internet: hoje começa o Festival On-Line “FicaDiBubuia”

Nesta quinta-feira (26), a partir das 16h50, começa o Festival On-Line “FicaDiBubuia”. Promovido pela produtora Duas Telas, o festival é totalmente independente e conta com artistas voluntários, sem nenhum tipo de remuneração.

A ideia é quebrar a sensação de distância gerada pelo isolamento comunitário por conta da prevenção ao coronavírus (Covid-19), e promover cultura por meio da internet, além de manter vivo o espírito criativo dos artistas locais. De 26 a 29 de março serão dezenas de apresentações ao vivo.

O Festival Cultural On Line será transmitido pelo perfil da Duas Telas na rede social @duastelasproducoesap, onde rolarão shows musicais e performances em formato pocket. Qualquer pessoa poderá acompanhar as programações e interagir com o evento e artistas.

Hoje, a abertiura do Festival On-Line “FicaDiBubuia contará com as apresentações de Poetas Azuis, Joãozinho Gomes, Alan Yared, Enrico Di Miceli, Cley Lunna, Colibris, Roniel Aires, Nani Rodrigues, Laura do Marabaiaxo, Naldo Maranhão, Malabarista Flor, Grupo Guá, Rambolde Campos, João Amorim e Quarteto Casa Nova.

O festival cultural on-line é uma alternativa de entretenimento na quarentena. Uma maneira de estarmos juntos, conectados em uma corrente de empatia.

Sobre a expressão “dibubuia”

A expressão Bubuia vem do nosso “caboclês”, virou gíria popular, e é uma forma gentil de pedir: fica de boa, fica tranquilo, fica aí parado. É desse jeito jeito que pedimos a todos que fiquem em casa para segurança dos mais vulneráveis…

Então é isso. Vamos combater essa batalha com o melhor que podemos dar, com nosso amor pela cultura e pela responsabilidade de doar o que temos de mais precioso em nosso fazer diário: Nossa produção artística! POR FAVOR FICA EM CASA! #FicaDiBubuia … Não fica mufino! Espia nossa programação! #producao #arte #bubuia #musica #literatura #poesia #artista #amazonia #norte #corona #quarentena #amapa #macapa

E o melhor: é de graça! Assista e prestigie!

Patrícia Andrade e Elton Tavares