27 anos sem Freddie Mercury (o melhor vocalista da história do Rock)

Foi em 1991, no dia 24 de novembro.

Há duas décadas e sete anos, morreu Farrokh Bulsara, o “Freddie Mercury” (nome artístico do cantor). Sim, faz 27 verões que o mundo perdeu o maior vocalista de Rock and Roll da história e um dos maiores cantores de todos os tempos. Eu tinha 15 anos e lembro bem que, na época, sua morte causou repercussão e tristeza em todo o mundo.

Após ficar muito doente, surgiam rumores de que estaria com AIDS, o que se confirmou afinal, através de uma declaração feita por ele mesmo em 23 de novembro, um dia antes de morrer.

O inglês foi vocalista e líder da banda britânica Queen. Também lançou dois discos-solo, aclamados pela crítica e pelo público. Ele foi um dos maiores cantores do Rock and Roll. Além de melhor frontman que já pisou na terra, o cara dominava a plateia com sua performance e vozeirão.

O cara era foda cantando Rock, Pop, Ópera ou o que se propusesse. Não à toa, é um ícone do Rock and Roll e virou um mito na história da música mundial.

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Freddie, como muitos outros seres incríveis que passaram por aqui nesta existência, foi um cara com um talento espantoso. Pessoas assim se eternizam na memória e no coração dos fãs, como eu e outros milhões de apreciadores do Rock and Roll. Sua história foi retrata este ano, no filme Bohemian Rhapsody. aliás, filmaço que rendeu essa resenha CLIQUE AQUI. 

Valeu, Fred!

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Não quero mudar o mundo. O que mais me importa é a felicidade. Quando estou feliz, meu trabalho reflete. No final, os erros e as desculpas são minhas. Gosto de sentir que estou sendo honesto. No que me compete, quero aproveitar a vida, a alegria, a diversão, o máximo que puder nos anos que ainda me restam” – Freddie Mercury.

Elton Tavares

Fernandinho Bedran gira a roda da vida nesta terça-feira (13). Feliz aniversário, irmão!

Gira a roda da vida, nesta terça-feira (13), o marido apaixonado da Elainy Alfaia (outra que é um lindeza de pessoa), libanês da Cidade Velha, Rosa-Cruz, degustador de heinekens tuíras, presidente da Divisão Internacional da Vida Alheia (D.I.V.A.) no Amapá, recordista intergalático de gentebonisse, mestre em paidéguice boêmia, fabricante e sócio-diretor da PimentArte do Brimo, administrador comercial, fã dos quadrinhos (principalmente de Asterix), amante de boa música, locutor e DJ da Rádio Fuleiragem, ilustre morador de Santana e do Amapá há 21 anos, melhor papo de bar que conheço (onde ele é também meu providencial conselheiro), além de querido irmão de vida, Fernando Bedran.

Conheci Bedran há mais ou menos 20 anos, em uma reunião de amigos. Quando entrei na festa, ele arranhava um violão e cantava Sessão das 10, do Raul Seixas. Foi empatia na hora, pois aquele bicho animava o ambiente, como é de seu feitio. De lá pra cá, fortalecemos a amizade e bebemos juntos (às vezes bem e noutras mal acompanhados) uns dois rios amazonas de cerveja.

O Bedran é um cara ímpar. Sério, não é clichê, pois nunca conheci um figura igual a ele. Trata-se de um cara paid’égua à máxima potência multiplicado ao cubo. Além de sábio, dono de vasta cultura geral e extremamente inteligente, ele é um homem de bem. Fernandinho é daqueles que não falam mal de ninguém. A não ser dos filhos da puta, pois estes ele combate em tempo integral, assim como todos deveríamos fazer.

Longe da larga e comprida esteira dos “Maria vai com as outras”, Bedran é um cidadão tenaz, coerente, instigado, de visão crítica e justa, que promove a reflexão nos que lhe cercam. A gente admira o sacana. Paralelo a isso, é um doidão que não cultiva mágoas ou rancores. Só dispara contra pessoas sórdidas ou hipócritas (só uns 2%, pois nos outros 98 o cara é só alegria).

Já disse e repito: Bedran é uma das pessoas que mais gosto de ter por perto, por conta da energia boa e positividade que o figura irradia. Um figura que usa o hemisfério esquerdo do cérebro para o bem dele e de quem o cerca.

Fernando Bedran não é jornalista, poeta ou escritor por pura falta de vontade, pois ele tem talento, senso crítico, ins-piração e conhecimento demais. Certamente seria caralhento em qualquer uma dessas atividades (ou em todas). Só para vocês terem uma ideia, o Fernando Canto escreveu o conto Mama-Guga (que nomeia seu livro de mesmo nome), realismo fantástico de primeira linha, inspirado em papos com o Fernandinho. Avalie!!

Ontem mesmo, ao tratarmos de um assunto escrotaço, Fernandinho disparou: “não sou e jamais pretendo ser curador do Mundo e de seus dramas,mas me reservo (depois de muito ter apanhado) a não contrair karma daquilo que não me é permitido aprofundar”, disse o Bedran. É assim que o brother é, lúcido e sensato. Foi um tiro na conversa, que morreu para dar lugar a um papo melhor.

Meio bruxo, meio alquimista, parece que o maluco veio enviado de outra dimensão para disseminar alegria, disparar sacadas geniais, sarcasmo boêmio, ironia fina e pérolas da boa sacanagem (ao som da sua inconfundível gargalhada). Outra coisa que sempre repito é a frase do meu irmão, Emerson Tavares: “Bedran é melhor para tomar cerveja do que tira-gosto de charque”. E é mesmo!

O saudoso jornalista Tãgaha disse: “gente do bem é outra coisa, passa e deixa rastros”. Bedran é assim.

Por tudo dito e escrito acima, a gente ama esse cara. Falo por mim e pelo nosso grupo de amigos “boçais e fuleiras”, com quem muito me honra dividir poucas tristezas e muitas alegrias nesta vida.

Fernandinho, meu irmão, que tenhas sempre saúde e sucesso. Que Deus siga a iluminar teu caminho no qual sempre segues a luz. Tu és um cara Phoda demais. Te admiro muito. Que tua vida seja longa. Meus parabéns e feliz aniversário!

Elton Tavares

Ninguém se iluda: o dia seguinte deve ser pior. Muito pior.

Os brasileiros, parodiando Euclides da Cunha, são antes de tudo uns fortes.

E otimistas, vale acrescentar.

Nesses grupos de WhatsApp, fontes inesgotáveis de mentiras, baboseiras e fanatismos de todos os lados e de todas as preferências políticas e ideológicas, há debandadas gerais.

“Volto depois das eleições”, avisam os que saem.

O depois, eles acreditam, é a segunda-feira, 29 de outubro, quando terão terminado as eleições e Jair Bolsonaro (PSL) já será o novo presidente da República eleito – a menos, é claro, que o mar vire sertão ou o sertão vire mar.

Esses brasileiros que estão batendo em retirada, repita-se, são uns fortes e otimistas.

Porque prevejo, sinceramente, que o depois das eleições será pior, muito pior, do que esta fase que vivemos.

Porque será a hora em que os vencedores, muito provavelmente, haverão de se considerar empoderados aos extremos e, com esse sentimento, muitos se acharão no direito de ditar suas normas em nome do capitão.

Porque será a hora em que os vencidos, muito provavelmente, encontrarão a oportunidade de, em tudo e por tudo, elevarem o seu nível de vigilância como oposicionistas, o que será bom; mas, se caírem também eles no extremismo, isso será péssimo. Para não dizer trágico.

Nem a propósito, uma nota na Painel, a principal da coluna da Folha de S.Paulo, nesta quarta-feira (24), diz o seguinte:

Integrantes da cúpula das Forças Armadas demonstram preocupação com a possibilidade de o clima de beligerância no país se intensificar após a eleição. Comandantes do Exército, da Marinha, da Aeronáutica e outros nomes de alta patente militar têm conversado sobre o receio de que grupos radicais, de ambos os lados, pratiquem atos de violência após o segundo turno. Os militares pregam que o próximo presidente faça da conciliação nacional prioridade após a votação no domingo (28).

Entenderam?
Não se iludam, portanto.
Não nos iludamos.
O dia seguinte será pior, muito pior.
Mas tomara que não.

Fonte: Espaço Aberto

Sou uma anamorfose ambulante!

Certa noite de 2010, por sinal muito divertida, eu e alguns amigos conversávamos no Bar Norte das Águas, sobre sermos as “ovelhas negras” de nossas respectivas famílias. Em um momento brilhante, minha amiga e mestra em Psicologia, Janisse Carvalho, disse: “Nós somos anamorfoses”. Claro que nenhum de nós entendeu o significado do termo. Leiam o texto:

Sou uma anamorfose ambulante!

Por Janisse Carvalho (*)

Uma anamorfose (do grego anamorphosis) é uma imagem deformada que aparece em sua verdadeira forma quando visto em alguns “não convencionais” caminhos. É a representação de uma figura (objeto, cena, etc.) de maneira que observada frontalmente parece distorcida ou mesmo irreconhecível, tornando-se legível quando vista de um determinado ângulo, a certa distância, ou ainda com o uso de lentes especiais ou de um espelho curvo.

As anamorfoses sociais têm sido estudadas pela psicologia social, o professor Antonio da Costa Ciampa, da Universidade de São Paulo (USP), compara o conceito que vem das artes visuais com as chamadas personas non gratas de nossa sociedade, os marginais. Aqueles que burlam as regras!

Uma anamorfose se diferencia do comportamento corrupto, pois este é carregado de mau-caratismo e se caracteriza em querer se dar bem em cima dos outros. As anamorfoses são almas transgressoras que, segundo o rabino Nilton Bonder, líder espiritual da Congregação Judaica do Brasil e autor do livro “Alma Imoral”, são necessárias para a evolução do mundo.

Em sua obra, Bonder compara o sujeito que deu o primeiro passo diante do Mar Vermelho como um transgressor. Ou seja, uma anamorfose é o sujeito que, por não concordar, consciente ou inconscientemente, com o que lhe é imposto, com aquilo que o oprime de alguma maneira, transgride!

Eu diria que pessoas consideradas “loucas” por muitos, em suas respectivas épocas, eram anamorfoses. Ícones como Van Gogh, Pablo Picasso, Raul Seixas, Janis Joplin, Jimmy Hendrix, Freud, Chico Xavier, Nietzsche, Jesus, etc. O problema não está em cometer erros, está em não compreender os sentidos que estes mesmos erros podem alcançar e significar para a sociedade o que está por trás deles. Anamorfose é, no final das contas, outra forma de dizer a verdade! Por isso são, na sua grande maioria, incompreendidas.

Diante da explicação de Janis (como chamamos nossa ilustre e inteligente amiga), brindamos a nossa saúde, as ovelhas negras, ou melhor, anamorfoses. Daí, o resto da noite foi regado a dezenas de boêmias bem geladas e muitos outros assuntos interessantes, como sempre. É por essas e outras que adoro essa galera. “Mas louco é quem me diz que não é feliz…”

(*) Janisse Carvalho é psicóloga, militante da Cultura, professora universitária, atriz e professora de Teatro

Argumentos básicos para você driblar chatos (Millor)

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Millor Fernandes sabia das coisas

Argumentos básicos para você driblar chatos (Millor)

1. Meu amigo, acho que suas conclusões são perfeitamente discutíveis.

2. Confesso que também já pensei dessa maneira.

3. O senhor está sendo deliberadamente parcial.

4. Bem, isso é uma maneira pessoal de ver as coisas.

5. Encarando as coisas desse modo chegaremos à conclusão que quisermos.

6. Mas está claro que esse não é um ponto de vista científico.

VInte e quaTro cARAS – Crônica de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

Vinte e quatro ladrões deidéisalheias, vinte e quatro Karaikos sem identidade, vinte e quatro alimárias, vinte e quatro fedegosos, vinte e quatro desativos, vinte e quatro legistijolos, vinte e quatro esbugalhados, vinte e quatro moscamortas, vinte e quatro sanguesugas, vinte e quatro harpias, vinte e quatro térmitas, vinte e quatro algoterríveis, vinte e quatro dãoecomis, vinte e quatro manganeses, vinte e quatro poluídos, vinte e quatro deolhonodinheiro, vinte e quatro aves de rapina, vinte e quatro cabrassafados, vinte e quatro esconjurados, vinte e quatro trajanotraidores, vinte e quatro povoenganadores, vinte e quatro zangarrilhos, vinte e quatro ligeiros, vinte e quatro enviados do Fute e uns três ou quatro separados do veneno.

Vinte e quatro pinguinsebosos, vinte e quatro festativos, vinte e quatro silvériosdosreis, vinte e quatro ferrabrases, vinte e quatro alucinados, vinte e quatro curupiras, vinte e quatro bestas do apocalipse, vinte e quatro pseudoretardados, vinte e quatro vampiros da floresta, vinte e quatro carcinomas metastásicos, vinte e quatro xixilados, vinte e quatro decadentes e uns dois ou três que ainda tem olhos.

Vinte e quatro bobovelhos, vinte e quatro morcegos hematófagos, vinte e quatro reiscaldeira, vinte e quatro bailesdemáscas, vinte e quatro ratosdeesgoto, vinte e quatro judas, vinte e quatro traíras, vinte e quatro solipsos, vinte e quatro surucucus, vinte e quatro lacraus, vinte e quatro pretensos nababos, vinte e quatro pantagruélicos, vinte e quatro onívoros, vinte e quatro lambe-sacos-e bigodes, vinte e quatro pantófagos, vinte e quatro pinóquios, vinte e quatro febres quartãs, vinte e quatro cleptomaníacos, vinte e quatro xerimbados, vinte e quatro blefadores, vinte e quatro assimdeolho, vinte e quatro oxiúros, vinte e quatro cabas-de-igreja, vinte e quatro nanicos anatematizados e um ou dois votovencidos.

Meu céu – Crônica bem humorada sobre o paraíso de cada um (o deste jornalista, no caso)

Há meses escrevi uma crônica sobre como seria o meu “Inferno”. Hoje vou falar/escrever um pouco de como seria o meu céu. Não sei baterei na porta do céu como Bob Dylan. Nem se vou achar o lugar igualzinho ao paraíso, como sugeriu o The Cure, mas estou atrás da “Stairway To Heaven” do Led Zeppelin. Só não vale ter “Tears In Heaven”, do Eric Clapton. Mas vamos lá:

Meu céu é em algum lugar além do arco-íris, bem lá no alto. Bom, lá, ao chegar ao meu recanto celestial, eu falaria logo com ELE, sim, Deus ou seja lá qual for o nome dele (God; Dieu; Gott; Adat; Godt; Alah; Dova; Dios; Toos; Shin; Hakk; Amon; Morgan Freeman ou simplesmente “papai do céu”) e minha hora já estaria marcada.

Ah, não seria qualquer deusinho caça-níquéis (ou dízimos) não. Seria o Deus de Spinoza, que como disse Einstein: “se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, e não no Deus que se interessa pela sorte e pelas ações dos homens”.

Após este importante papo com o manda chuva do paraíso (tá, quem manda chuva mesmo é o seu assessor, São Pedro, mas eu quis dizer mesmo é do chefão celestial), daria um rolé e encontraria todos os meus amores que já viraram saudade. Ah, como seria sensacional esse reencontro!

Bom, meu céu é todo refrigerado e chove. Chove muito, mas nunca inunda as vielas do paraíso e nem desabriga ninguém por lá. Ah, abaixo dele chove canivetes nos filhos da puta (que não são poucos) que encontrei durante a jornada pré-celestial. Óquei, pode soar meio lunático, mas é o meu céu, porra!

No meu céu não tem papo furado, como no capítulo 22, versículo 15, do livro de Apocalipse. Lá entrarão impuros sim ou seria uma baita hipocrisia EU estar neste céu. No meu céu não toca brega, pagode e sertanejo sem parar, afinal, isso é coisa do inferno. Ah, no meu céu não entra corrupto, pastor explorador, padre pedófilo ou escroques de toda ordem, esses tão lá no meu inferno e eu ainda teria o direito de cobri-los de porrada!

Heaven – Foto: Elton Tavares

No meu céu as pessoas se respeitam, não tentam a todo o momento tirar vantagens do outro. No meu céu, serviços prestados são pagos na hora, chefes são justos e não rola fofoca. Lá não tem puxa-sacos, apadrinhados ou seres infetéticos desse naipe que a gente, infernalmente, convive na terra diariamente.

No meu céu tem churrasco, pizza, sanduba, entre outras comidas deliciosas e que nunca, nunca mesmo, nos engordam (pois é infernal o preconceito fitness). Lá também não sentimos ressaca. No meu céu tem show de rock o tempo todo, com todos os monstros sagrados que já embarcaram no rabo do foguete e a gente curte pela eternidade.

Lá no meu plano celestial não existe a patrulha do politicamente correto, nem gente falsa, invejosa, amarga, e, muito menos, incompetentes. Se tá no céu, se garante, pô!

Não imagino o céu como um grande gramado onde todo mundo usa branco, ou um local anuviado onde anjos tocam trombetas e harpas. Não, o céu, se é que ele existe (pois já que o inferno é aqui, o céu também é) trata-se de um local aprazível para cada visão ímpar de paraíso, de acordo com nossas percepções e escolhas. Bom, chega de ficar com a cabeça nas nuvens. Um excelente final de semana para todos nós!

Foto: Elton Tavares

Eu acho que há muitos céus, um céu para cada um. O meu céu não é igual ao seu. Porque céu é o lugar de reencontro com as coisas que a gente ama e o tempo nos roubou. No céu está guardado tudo aquilo que a memória amou…” – escritor Rubem Alves (que já foi para o céu).

Elton Tavares (que graças à Deus, tem uma sorte dos diabos).

Meu inferno – Crônica infernal, mas bem humorada

Acho que se existir inferno, coisa que duvido muito, cada alma pecadora tem um desses locais de pagamento de dívidas de acordo com suas ojerizas. Nada como no clássico da literatura “A Divina Comédia”, o inferno do escritor italiano Dante Alighieri, que escreveu sobre os nove andares até a casa do “Coisa Ruim”.

Quem nunca imaginou como seria o Inferno? Como seríamos castigados por nossos pecados? Volto a dizer, pra mim o inferno é aqui mesmo. Mas vou pontuar algumas coisas que teriam no meu, se ele está mesmo a minha espera.

Bom, meu inferno deve ser quente. Não tô falando das labaredas eternas com o Coisa Ruim me açoitando pela eternidade. Não. Esse é o inferno mitológico e ampliado da imaginação religiosa. Falo de calor mesmo, tipo Macapá de agosto a dezembro, com quase 40° de temperatura (a sensação térmica sempre ultrapassa isso no couro da gente) e sem ar-condicionado.

Neste inferno, todo mundo é fitness, come coisas saudáveis e é politicamente correto. Meu inferno tem gente falsa, invejosa, amarga, que destila veneno por trás de sorrisos. Ah, meu inferno tem incompetentes, puxa-sacos, gente de costa quente que conta do padrinho que o indicou. E pior, neste inferno sou obrigado a conviver com elas diariamente.

No meu inferno tem gente que atrasa, que me deixa esperando por horas. Ah, lá tem caloteiros e enrolões, daqueles que demoram a pagar serviço prestado por várias razões inventadas.

Neste inferno moldado a mim tem parente pedinchão, “amigo” aproveitador, filas e mais filas para tudo. Tem também muita etiqueta e formalidades hipócritas. E também todo tipo de “ajuda” com segundas intenções. De “boas intenções” o inferno tá cheio.

Neste lugar horrendo só vivo para trabalhar, estou sempre sem dinheiro, sem sexo, sem internet e sem cerveja. Nó máximo Kaiser, aquela cerva infernal de ruim. No meu inferno toca brega, pagode e sertanejo sem parar.

Eu sei, leitor, que devo agora estar lhe aborrecendo. Mas perdoe-me, esta alma é chata e sentimental. Às vezes vivemos infernos mesmo no cotidiano, pois vira e mexe essas coisas aí rolam. Por isso dizem que o inferno é aqui. Ou como explicou o filósofo francês Jean-Paul Sartre, na obra “O Ser e o nada”: o inferno são os outros. É por aí mesmo.

Ainda bem que tenho uma sorte dos diabos e Deus é meu brother, pois consegue me livrar dos perigos destes possíveis infernos cotidianos e nunca fará com que tudo isso descrito acima ocorra por toda a eternidade. No máximo, de vez em quando, para que eu pague meus pecadinhos neste plano (risos).

Esse devaneio deve ser por conta do “inferno astral”, vivido sempre próximo de meu aniversário. Mas volto a dizer, este seria mais ou menos o MEU inferno. Como seria o seu?

Elton Tavares

A falta que o Projeto Botequim faz nas terças-feiras de Macapá

Foto: Amapá da Minha Terra

Hoje é terça-feira e por mais de 20 anos, nas terças, o macapaense tinha uma opção cultural: o Projeto Botequim. Realizado de 1994 a 2016 pelo Serviço Social do Comercio (SESC – AP), por mais de 20 anos a iniciativa fez a alegria dos amantes da música na capital amapaense.

Dos anos 90 até a primeira metade da década seguinte, o projeto rolou no Sesc Araxá e posteriormente, o Botequim migrou para o Sesc centro. Há uns dois anos, nós, notívagos de Macapá que adoramos boas canções, arte e cultura, ficamos órfãos dessa opção, extinta pela atual administração do Sesc.

Conversei com músicos, frequentadores e servidores do Sesc, eles disseram que o Projeto não dava prejuízo e nem lucro. Então por qual motivo o Serviço “SOCIAL” do Comércio acaba com um bem tão importante para o comerciário e para a sociedade como um todo como o Projeto Botequim? Perguntei a eles e responderam:

“O Sesc promove exposições, festivais, saraus sobre tema populares às nossas múltiplas culturas, realidades e sociedades. Na área musical realiza eventos para levar ao público instrumentos e ritmos que traduzem um universo rico e genuíno. No Estado do Amapá, gerou o Projeto Botequim, que ofertou por mais de 20 anos oportunidades aos artistas locais um palco para expor sua arte e a população à oportunidade gratuita de apreciação da melhor produção cultural musical tucuju.

Em 2017, infelizmente, o Botequim ainda não teve continuidade, visto que aguarda aprovação do Departamento Nacional com o custeio e apoio financeiro para subsidiar o referido projeto. O Regional Sesc Amapá continua com o compromisso na difusão da cultura, principalmente na modalidade de música, através dos demais projetos: Sesc Canta, Sonora Brasil, Sesc Partituras, Aldeia de Artes Sesc, Amazônia das Artes e Saraus para as todas as tribos (Em 2018 idem!).  

O regional Sesc Amapá, principal agente a querer o retorno do projeto, segue trabalhando para voltar a celebrar a cultura amapaense por meio de tão bonito e importante projeto”.

Bom, é verdade que o Sesc segue no trabalho cultural descrito aí em cima, mas será que precisava mesmo extinguir o Projeto Botequim? Será que um espaço tão importante para jovens talentos amapaenses, com uma nova programação realizada semanalmente, precisava deixar de acontecer? Tinha que cortar na carne logo essa iniciativa essencial para a inclusão de novos músicos, que agora não possuem um evento tão necessário. Ali sempre foi sucesso de público e crítica. Sim, pois o Botequim vivia lotado.

Era sempre assim, de 20h à meia-noite das terças-feiras, sabíamos para onde  ir. A gente amava o Projeto!

E assim como o Botequim, as boas práticas de Macapá parecem ter um prazo de validade. Os bares com o modelo violão e voz já são escassos nestes tempos.

Espero realmente que o Sesc volte com o Projeto Botequim nas terças -feiras e que o órgão volte a ser um agente de democratização do acesso à cultura semanal. Não se trata somente de entretenimento e diversão com educação, mas a promoção de cultura com qualidade como sempre foi e não deveria acabado.

Eu sempre divulgava e ia ao Sesc nas noites de terça desde 1994. Fica a nossa crítica e apelo para que o Projeto Botequim seja retomado o quanto antes. E fim de papo.

Elton Tavares

*Republicado por hoje ser terça-feira.

A Generosidade musical de Nonato Leal – Por Fernando Canto (em homenagem aos 91 anos do mestre das cordas)

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Foto: Portal Amazônia

O Amapá precisa preservar, reconhecer e homenagear seus grandes nomes em todas as áreas de atuação. Como sou fã de escritores, compositores, músicos, poetas e artistas, deixo aqui meus parabéns ao mestre das cordas Nonato Leal na crônica lindona do amigo Fernando Canto. O reconhecimento é justo, diante do legado artístico do lendário violonista. Feliz aniversário!

Elton Tavares

Hoje Nonato Leal faz 91 anos. Repito aqui minha pequena homenagem a esse grande músico que por décadas ensinou, influenciou e participou ativamente das atividades musicais do Amapá. Este texto foi publicado no Jornal do Dia, em 12 de julho de 2007″ – Fernando Canto

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Foto: Márcia do Carmo

A Generosidade musical de Nonato Leal
Por Fernando Canto

Nonato Leal vai fazer 80 anos daqui a dez dias. Vai comemorar 70 de música, pois aprendeu a tocar aos dez anos instrumentos de corda com seu pai, que também ensinou seu irmão Oleno Leal, como ele exímio violonista.

Lembro do primeiro contato que tive com esse incrível e generoso músico no final dos anos 70, quando iniciava por conta própria a aprender violão. E foi num dia de Festival Amapaense da Canção, sob a frondosa mutambeira do grupo escolar Barão do Rio Branco que Nonato me viu e me deu a dica de uma passagem de tom na música que eu executava. Depois ele adentrou o ex-cine Territorial para ensaiar sua composição que seria a vencedora do festival, em parceria com o inesquecível poeta Alcy Araújo.

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Foto: SelesNafes.Com

A modéstia do violonista é conhecida por todo mundo junto ao seu inominável talento que atravessou décadas encantando os mais diversificados públicos que tiveram a oportunidade de ouvir seu trabalho. Requisitadíssimo, Nonato Leal jamais se furtou a um bom convite para tocar, pois sempre soube se valorizar, embora nas rodas boêmias fosse um integrante como qualquer outro bom bebedor, um companheiro divertido que nem ao menos se zangava com as piadas que faziam sobre sua terra natal e lhe insinuavam ser o protagonista principal. Vigiense de boa cepa, até hoje adora um bom caldo de cabeça de gurijuba, ao qual atribui ser afrodisíaco, e a fruta do cedro, parecida com o taperebá, que considera o melhor tira-gosto para a cachaça.

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Foto: Márcia do Carmo

Sua participação no crescimento da nossa música foi determinante. Nonato tocou em diversos grupos musicais, ao lado de instrumentistas famosos como Sebastião Mont’Alverne e Amilar Brenha, Hernani Guedes, Chico Cara de Cachorro e Zé Crioulo, Aimorezinho, Manoel Cordeiro e tantos outros. Tocava qualquer instrumento de corda: foi o primeiro artista do Amapá que vi tocando guitarra havaiana. Participou da gravação do LP “Marabaixo” do conjunto “Os Mocambos”, em 1973. Seu programa de rádio “Recital de Nonato Leal” por anos teve audiência assegurada nas rádios de Macapá. Mas foi como professor que disseminou o amor pela música a dezenas de discípulos que hoje ganharam o rumo da profissionalização musical, incluindo aí seus filhos Venilton e Vanildo Leal. Seu primeiro CD “Lamento Beduíno”, editado em 1997, com arranjos de Manoel Cordeiro, esgotou-se rapidamente. Nesse trabalho tive a honra de escrever um texto a pedido dele, do qual reproduzo o primeiro parágrafo:

Cultura Amapá - Nonato Leal e Zé Miguel no programa Amazônia Musical da Rádio Difusora
Foto: Chico Terra

“A saudade de Macapá me fez sintonizar ao acaso a Rádio Neederland em uma noite fria e triste em Belo Horizonte no ano de 1974. De repente um solo de violão me chamou a atenção. Tratava-se de uma música com temática oriental, muito bonita e bem executada, chamada “Lamento Beduíno”, do professor Nonato Leal, de Macapá, Território Federal do Amapá, Brasil, dizia o locutor daquela rádio holandesa. Vibrei! Coincidência ou não a história mudou meu astral e motivou um porre de pavulagem bairrista. Pena que ninguém que eu conhecia tivesse ouvido o programa. Tempos depois soube que fora o radialista Edvar Motta que enviara uma fita com músicas do Nonato para lá”.

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Parabéns, mestre das cordas!

No dia 23 Vigia e Macapá estarão radiantes, não só pelas 80 “risonhas primaveras” do Nonato, mas pela generosidade musical que irradia desse artista excepcional, que merece mais do que uma comemoração. Merece o reconhecimento e a gratidão de todos que gostam da boa música.

*Republicado em homenagem aos mestre das cordas. 

A Racionalização de Sentimentos – Por @Cortezolli

Tem amigos que você não consegue identificar quais das qualidades deles mais te agradam, apenas gosta da pessoa e a quer por perto.

Tem também amigos que completam o que falta em você, te apresentam outros pontos de vistas, novas possibilidades.

Quando você se apaixona por alguém, quer que este alguém aprove seus amigos e vice-versa. Já que estes últimos são a família que você escolheu. Então, partindo desse pressuposto, é possível identificar o que falta em si mesmo, o que falta neles que você consegue completar, o que os motivam a alimentar sempre essa amizade e não importa a distância ou qualquer outro artifício… Seu desejo é manter a paz entre as pessoas que ama e ponto.

Aprendi muito com os amigos que tenho… Aprendi também com os inimigos e pessoas que não eram nem uma coisa, nem outra. O que importa é que aprendi… E isso me pertence!

Então, as situações novas ou, não tão novas assim, são expostas e expõem você, te testam e com base no aprendizado… se pode evoluir… Tá o papo parece coisa de gente convertida, só que não é… Rsrs. É outra vibe, é melhor.

Quanto a algumas pessoas, você apenas não quer desistir delas, porque alguém, em algum momento não desistiu de você. A ação se assemelha àquelas voltas que a roda do mundo completa, ou o movimento de translação da terra… Escolha a sua própria teoria e não queira tudo mastigado também.

Enfim… Te ajudou, te reergueu, com uma palavra, um gesto, uma expressão que o sacudiu, não importa como, foi útil. E, você precisa pagar, ajudando quem quer que seja. Sei lá, tudo tem um preço.

Essa viagem meio sem nexo, serviu para dizer que ontem tive vontade de bater em alguém de quem gosto, queria que a pessoa em questão acordasse, parasse de sentir pena de si mesma, ouvisse as barbaridades que disse sobre quem é… Aprendesse a se amar antes de qualquer coisa.

Então, respirei fundo: E não o fiz!

Não é do meu feitio a agressão física, prefiro a psicológica ou a verbal, duram mais… Tá, atirar coisas até rola, mas bater, não.

Eu e Hellen Cortezolli

Lembrei do Eltão na hora… por se tratar de um amigo que nunca desistiu de mim, que nunca me abandonou quando estive no limbo. Que é minha versão masculina na “porralouquice”, mas também por equilibrar muitas vezes minha fúria infundada, com um deboche apropriado.

Amizade não se agradece como o Ewerton França me ensinou… Mas, eu precisava muito compartilhar contigo e com quem tiver capacidade emocional e intelectual para entender, que minha família é importante, que a família que escolhi é tanto, quanto. E que sou grata às conspirações do universo por te ter como meu amigo!

Te amo!

Hellen Cortezolli

Quando eu gosto, gosto. Mas quando odeio, odeio valendo!

Sabem, mesmo ao conhecer a Doutrina Espírita e o lance do Karma, baseado na ação e reação que ecoa durante as existências, não consigo me libertar de certos sentimentos ruins. Vou explicar.

Tento fazer o bem para todos, tanto aos meus, quanto aos estranhos. Tento mais ainda não fazer mal a ninguém, pois como diz um velho ditado: “muito ajuda quem não atrapalha”. O problema é quando pego raiva, ódio ou nojo de alguém….sobretudo de pessoas que me sacanearam sem eu ter feito nada a elas. Sou um sujeito que assume erros e muitos desafetos tem razão em suas antipatias para comigo. Mas porra, quando tô inocente na parada e vem filha da puta tentar armar arapucas para este gordo, aí é foda.

Até quando não gosto, deixo quieto, pois prejudicar alguém é muita canalhice e não luto com essas armas. Quando precisam de mim, tento sempre resolver os problemas das pessoas. Se for um familiar ou amigo querido, resolvo de qualquer jeito. Mas quando nutro antipatia, forte ou fraca, por uma criatura, não a quero por perto, pois somente sua presença me incomoda. Ajudá-la em algo então, nem pensar. Meu espírito não alcançou tal grau de evolução. Somente tento ignorar a praga e sem dar chances de aproximação.

No caso de ex-amigos, faço como Jorge Amado e seu “cemitério particular: “possuo um cemitério meu, pessoal, eu o construí e inaugurei há alguns anos, quando a vida me amadureceu o sentimento. Nele enterro aqueles que matei, ou seja, aqueles que para mim deixaram de existir, morreram: os que um dia tiveram a minha estima e perderam”.

Assim mesmo! Volto a dizer, não faço nada contra ninguém, a não ser que estes filhos da puta insistam em me sacanear. Aí, sim. Terão o inferno, pois sou um bom e terno amigo, mas um inimigo focado em devastar quem ameaça minha paz. Portanto, se gostam de mim, não me peçam para ser falso ou dissimulado para com os desafetos. Não consigo, pois sou verdadeiro demais. Os que amo sabem que os amo. Igualmente os que odeio ou desprezo. É isso.

Elton Tavares

*Republicado por conta de situação parecida, com pessoas diferentes. É foda!

As praças dos velhos tempos – Crônica paid’égua de Fernando Canto

Mastro do Sapo

Crônica de Fernando Canto

Creio que todos nós nos lembramos de algum logradouro público da cidade como um espaço que marcou determinado momento de nossas vidas. E, claro, nada como um passeio nas praças de Macapá para fazer vir à tona os clipes nos quais fomos felizes protagonistas ou solitários incompreendidos frente às decepções e vicissitudes que a vida traz, inexoravelmente.

Quando Macapá era menor um passeio à praça significava um caminho para a conquista. Depois da missa ou depois da matinê do cinema, um toque na mão da namoradinha, um ousado “tocha” na despedida era “a glória” dos enamorados, era o sonho realizado sob o embalo da canção romântica interpretada por Ronnie Von que tanto sutumblr_mdlmayxg841re4txro1_500_largecesso fez na década de setenta. Alheios aos acontecimentos políticos, nem dávamos conta das transformações que se operavam no país naqueles tempos. O importante era a afirmação como homem e a curtição daquilo que chegava a nós de forma inócua, como os modismos americanos: a calça Lee, os cabelos longos e o som do Credence Revival de do Jonnhy Rivers, que o Agostinho e o Velton esnobavam em danças supostamente de moda para agitar a juventude nos salões dos clubes da cidade. A versão tupiniquim do calhambeque do Roberto Carlos e das roupas e sapatos da novela “Cavalo de PraçadaBandeira-fotos-antigas-de-macapá-433Aço”, também faziam sucesso, mesmo que a ainda não tivesse televisão funcionando em Macapá.

Nessa época todas as atividades cívicas se concentravam na Praça da Bandeira, bem como a do Barão (área em frente aos Correios) era usada para educação física dos alunos dos colégios próximos e a Veiga Cabral (área onde está hoje o Teatro das Bacabeiras) servia para a instalação de circos e arraiais de festas de santos. A da Bandeira fora a Praça da SPraça-Veiga-Cabral-2audade, onde havia três velas enormes em homenagem ao deputado Coaracy Nunes, ao promotor e suplente de deputado Hildemar Maia, e ao piloto Hamilton Silva, mortos em acidente no Macacoary, no final dos anos cinqüenta. A do Barão era a antiga Praça São José, onde ficava o pelourinho na planta desenhada pelo engenheiro João Gaspar de Gronfelds, em 1761. Depois virou Largo de São João e finalmente Barão do Rio Branco, no início do Território Federal do Amapá. A que hoje chamamos Veiga Cabral já foi a Praça de São Sebastião, onde foi fSem títuloundada a Vila de Macapá pelo governador Mendonça Furtado. Situada em frente à Igreja de São José, entre as ruas Formosa (hoje Cândido Mendes) e São José (a única que não mudou de nome desde a fundação de Macapá), já foi palco do Marabaixo, de comícios e de muitos concertos musicais realizados no coreto pelas bandas dos alunos do Padre Julio Lombaerd e do Mestre Oscar.

Vale ressaltar que nessa planta de Gronfelds, só havia então duas praças, e Macapá começava a ser planejada espacialmente por ele, cujas concepções nós estamos usufruindo até hoje. Segundo o urbanista e professor Alberto TostesOs Mocambos (1972), os grandes quarteirões e as ruas largas foram idealizados por Gronfelds porque o nosso clima quente e úmido é de massa equatorial, então toda a força para suprir essa diversidade vinha exatamente do rio Amazonas, daí a sua preocupação, antes mesmo da construção da fortaleza de São José, em planejar ruas largas e imensos quarteirões, em contraste com as ruas estreitas das cidades européias e coloniais. Ao resto, o engenheiro militar idealizou um grande sombreamento a partir do plantio de árvores para fazer a cobertura climática, o que suscita uma visão sustentável de cidade concebida há quase 250 anos.

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“A Praça é do povo”, recitava impetuosamente Castro Alves, é nela que se cruzam diariamente sonhos e textos, interesses e esperas, risos e lágrimas e tudo o mais que os seres humanos deixam escapar pelas janelas da alma. Suas aparências, sem dúvida, como dizem os pára-choques de caminhão, refletem o estado administrativo da cidade: são os espelhos das intenções e dos gestos políticos. Por isso, então, merecem os mais profundos cuidados no corte da grama, na poda de árvores e no conserto dos passeios e bancos, usados freqüentemente poempinando pipa (25)r quem tem pouca mobilidade. Não podem ficar à míngua, tomadas pelo mato, como a que existe na descida em frente à residência governamental, um velho e rasgado cartão postal, destruída por vândalos e esquecida pelo poder público, sob o testemunho triste dos velhos coqueiros balançantes na contraluz da nascente.

*Fotos encontradas nos blogs da Alcinéa, Alcilene e Porta Retrato.

Jogos e cooperação social – Crônica de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

Certa vez, ao falar para um grupo de jovens sobre cultura e lazer, citei Câmara Cascudo, um dos estudiosos brasileiros mais cultos do seu tempo, folclorista e etnólogo, que costumava afirmar que o uso do jogo, o desejo de brincar é uma permanente necessidade humana. Para ele o exercício lúdico é a expansão do saldo energético que o homem (ou a criança) não pôde aplicar a uma atividade produtora, e essa disponibilidade de brincar não abandona o homem em toda a sua existência. A brincadeira, diz o folclorista, é o processo iniciador da criança nos domínios da psicologia, da dinâmica fisiológica, memória, inteligência, raciocínio, vontade, virtudes de honra, disciplina, lealdade e obediência às regras. A terminação de um brinquedo, para a criança, é sempre um momento tirânico, insuportável e incompreensível.

Historicamente essas observações já eram compreendidas pelos povos mais antigos. Nas cidades gregas os jogos eram considerados como essenciais para o treinamento de guerra, tendo, para isso treinadores especiais. Mas nem sempre a chamada “união do corpo e mente” fera respeitada. Às vezes os atletas eram proibidos de frequentar jantares sob o argumento que as conversas inteligentes lhes dariam dor de cabeça.

Para os historiadores os jogos olímpicos eram uma espécie de combinação de rito religioso e esporte, e só os vitoriosos ganhavam prêmios financeiros de vulto. Os perdedores eram ridicularizados e humilhados. Por isso era compreensível que muitos atletas estivessem dispostos a lutar até morrer para ganhar jogos como a “corrida de carruagens” e o “pancratium”, uma luta livre muito sangrenta.

Em certas sociedades os jogos são realizados mais para promover a cooperação. O antropólogo Dennis Werner nos conta que os índios Xavantes, do Mato Grosso, também gostam muito de esportes. Eles vão para o mato em duas equipes, cortam uma tora de buriti, de aproximadamente 1,0 metro, colocam-na nos ombros de um de seus membros e correm para a aldeia, passando, de vez em quando, a tora para outro membro da equipe. A “corrida de toras” é um rito cerimonial, mas ao contrário dos gregos, os índios não têm o espírito competitivo. Para eles não importa qual é a equipe que alcance primeiro a aldeia. O que importa é que cada homem dê o melhor de si para carregar a tora, e que a cooperação entre eles seja boa. Entre os Xavantes não existem jogos “até a morte”, afirma o antropólogo, que explica ainda que em sociedades pequenas as pessoas se conhecem muito bem e não precisam de “concursos” para distinguir habilidades de pessoas diferentes. E, como a competição poderia prejudicar a cooperação necessária para muitas tarefas comunitárias, é melhor evitá-la.

Entre os Mekranoti, existe uma curiosidade: quando jogam futebol brasileiro os gols não são contados. Eles apenas notam, informalmente, que está se esforçando bem e quem não está. Assim um esporte pode ser combativo sem ser competitivo. Em algumas tribos se praticam lutas corporais, mas ninguém é declarado vitorioso. Essa correlação, segundo Sipes, desmente o argumento de que os esportes servem como “válvula de escape” para sentimentos agressivos. Serok e Blum afirmam em suas pesquisas que os delinquentes juvenis preferem jogos físicos e de acaso (bingo), enquanto os não-delinquentes preferem os de estratégia, como o xadrez.

Diante disso seria interessante motivar os delinquentes para jogos que envolvem mais estratégias e menos fatores de casualidade. Útil seria, quem sabe, até se mirar no exemplo dos nossos índios.