Paulinho Bitencourt gira a roda da vida pela 43ª vez. Feliz aniversário, “Boca Mole”!

Sempre digo aqui que gosto de manifestar afeto aos meus, em textos. Meu pai, após perder o pai dele, me disse: “não mais deixarei de dizer a alguém que amo, pois não disse para o Juca (apelido familiar de João Espíndola, meu avô)”. Pois é. Por conta disso, sempre o faço por aqui.

Também repito que alguns companheiros de jornada (meus irmãos de vida), com quem mantenho uma relação de amizade e respeito, mesmo a gente com pouco contato, sempre estão em meu coração. É o caso do Paulinho Bitencourt, o nosso muito querido “Boca Mole”. Hoje é aniversário do cara, que gira a roda da vida pela 43ª vez. E a gente (eu, Emerson, Patrick, Syd, entre outros tantos) ama esse cara.

Paulo é competente engenheiro civil, religioso, professor, alquimista-astrólogo e meio cientista maluco amador, fã de Rock and Roll, flamenguista, bicolor, cozinheiro de mão cheia, ex-dançarino de boates, e velho parceiro deste jornalista. Trocando em miúdos, ele é um cara paid’égua pra caralho!

Mas os melhores papéis que Paulinho desempenha na vida são o de pai do Lucas, da Maria Paula e da Maria Beatriz, de marido da Rose, de filho da dona Conceição e seu Nazareno, de irmão do Franck, Partrick e Najara, além de tio de vários moleques bacanas; o Boca Mole é um baita cara de família. Sobretudo, um homem de bem.

Conheci o Paulinho em 1996. E lá se vão 24 anos de amizade. Na época, eu e meu irmão entramos para a “Cúpula do Trovão” (nossa antiga turma, que aprontou muito em Macapá nos anos 90 e grupo do qual sempre faremos parte). É, a gente pirou pra caramba e tem muitas histórias legais pra contar. E algumas outras que não devemos tirar dos arquivos das Guerras Secretas (“Secrets War“, risos), onde ele tem duas gavetas.

Paulo é um homem trabalhador, honesto, meio desconfiado, sempre calado, às vezes meio tímido, mas espirituoso e extremamente inteligente. O Boca (esse apelido o persegue desde que ele era moleque, nem eu sei direito porque) é um cara foda em tudo que se propôs a fazer na vida.

O tempo passou. Na verdade, voou; a poupança Bamerindos levou o caralho, eu engordei muito e tô cheio de cabelos brancos, mas o Boca continua com a mesma cara cínica de 20 anos atrás. E, apesar dos nossos raros encontros, nos falamos toda semana e seguimos juntos na jornada numa relação recíproca de brodagem, respeito e admiração. Tenho certeza que se eu precisar dele, serei atendido/socorrido e vice-versa.

Boca Mole, mano velho, que teu novo ciclo seja ainda mais porreta, que sigas com saúde e ainda mais sucesso. Sempre digo que alguns amigos meus zeraram o jogo da vida, pois conseguiram formar uma linda família e alcançar sucesso profissional. És um deles e tenho orgulho de ti.

Emerson, Boca, eu, Clash e Patrick. Irmãos!

É como a frase de Paulo Sant’Ana: “tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos”. Mesmo com esse período palha de Covid-19, estou feliz pelo teu ano novo Paulinho. Parabéns pelo teu dia, irmão. Feliz aniversário!

Elton Tavares

Seis anos da Maitê: agradeço a Deus pela vida dela. Feliz aniversário, princesa e amor da vida do tio!

Todas as pessoas grandes foram um dia crianças. Mas poucas se lembram disso”, disse o escritor Antoine de Saint-Exupéry, no livro Pequeno Príncipe. Sobre isso, lembro bem, assim como o meu irmão Emerson. E, talvez esse seja um dos motivos que fazem dele e de minha cunhada Andresa Ferreira (que também tem genitores exemplares), pais tão maravilhosos para a pequena Maitê Ferreira Tavares, que gira a sua gita roda da vida hoje e completa seis anos de idade.

Ela é a princesa e amor da minha vida. Aliás, das nossas. E aí incluo a minha mãe também, que é uma avó apaixonada.Nunca vou me esquecer daquele momento, quando conheci Maitê, que tinha somente um mês e 11 dias de vida. Foi amor à primeira vista.

Desde então, entendo os meus amigos que têm filhos, entendi o sentimento dos meus pais e olho diferente para as crianças. E amo “a pureza da resposta das crianças”; elas são realmente um barato. Incrível como pequenos seres despertam os melhores sentimentos em nós, adultos de coração duro.

Quem me conhece sabe que sou doido por aquela molequinha. Sempre perspicaz, ela vive com suas antenas ligadas. Apesar da pouca idade, Maitezinha é uma figura. Linda, inteligente, cheia de traquinagem e com sacadas impressionantes para alguém que chegou ontem neste mundo.

Aliás, por falar em mundo, toda vez que falo com ela – o que ocorre quase todas as noites – me apaixono de novo por ela e pela vida e assim reforço minha esperança no futuro. Sempre que falo com ela, esqueço dos amargores da vida.

E por falar em futuro, este texto é pra ela ler daqui a um tempo e se lembrar que todo o amor que existir dentro de mim, é dela. Maitê é uma bênção. Uma mistura de bom humor, gaiatice, doçura, inocência (claro), desconfiança (quando não manja das pessoas e lugares), inteligência, sapequice e ternura.

Já disse e repito: Maitê é amada e reflete isso – com aquela luz que só o amor sabe dar. Apesar de morar com seus pais em Belém (PA), “longe, longe, longe (aqui do lado), NADA NOS SEPARA”, nem o maior rio do mundo. Quando a falta dela aperta, o WhatsApp ou ligações telefônicas amenizam nossas saudades.

Era pra gente estar com ela hoje, mas a pandemia foi mais forte que a distância. E, apesar das saudades, o amor pela pequena lindeza só aumenta a cada dia e hoje estou muito feliz por ela estar saudável e ser essa criança maravilhosa. Nossa princesa desperta o que há de melhor de nós e reforça ainda mais nossos laços de amor.

Dia desses, conversando com a mãe dela, Andresa me disse que as duas estavam assistindo a um filme da Disney e a Maitê disparou: “mamãe, eu sou uma princesa”. A cunhada sorriu e responde que sim. E a sobrinha mais linda do mundo concluiu: “é, eu não tenho esse castelo aí do desenho, mas o meu tio sempre me fala que sou a princesa dele”. Nós rimos. E de fato, ela reina no meu mundo.

Por tudo dito/escrito acima agradeço a Deus pela Maitezinha. Ela é um dos meus fios condutores com ELE. E aqui fica a pequena homenagem do tio, que não dá conta de resumir tanto amor em apenas um texto de felicitações.

Meus parabéns, Maitê. Titio ama-te de forma desmedida. Feliz aniversário!

Elton Tavares

Sou uma anamorfose ambulante!

Certa noite de 2010, por sinal muito divertida, eu e alguns amigos conversávamos no Bar Norte das Águas, sobre sermos as “ovelhas negras” de nossas respectivas famílias. Em um momento brilhante, minha amiga e mestra em Psicologia, Janisse Carvalho, disse: “Nós somos anamorfoses”. Claro que nenhum de nós entendeu o significado do termo. Leiam o texto:

Sou uma anamorfose ambulante!

Eu e Janisse, em 2013, durante uma de nossas divertidas reuniões etílicas

Por Janisse Carvalho (*)

Uma anamorfose (do grego anamorphosis) é uma imagem deformada que aparece em sua verdadeira forma quando visto em alguns “não convencionais” caminhos. É a representação de uma figura (objeto, cena, etc.) de maneira que observada frontalmente parece distorcida ou mesmo irreconhecível, tornando-se legível quando vista de um determinado ângulo, a certa distância, ou ainda com o uso de lentes especiais ou de um espelho curvo.

As anamorfoses sociais têm sido estudadas pela psicologia social, o professor Antonio da Costa Ciampa, da Universidade de São Paulo (USP), compara o conceito que vem das artes visuais com as chamadas personas non gratas de nossa sociedade, os marginais. Aqueles que burlam as regras!

Uma anamorfose se diferencia do comportamento corrupto, pois este é carregado de mau-caratismo e se caracteriza em querer se dar bem em cima dos outros. As anamorfoses são almas transgressoras que, segundo o rabino Nilton Bonder, líder espiritual da Congregação Judaica do Brasil e autor do livro “Alma Imoral”, são necessárias para a evolução do mundo.

Em sua obra, Bonder compara o sujeito que deu o primeiro passo diante do Mar Vermelho como um transgressor. Ou seja, uma anamorfose é o sujeito que, por não concordar, consciente ou inconscientemente, com o que lhe é imposto, com aquilo que o oprime de alguma maneira, transgride!

Eu diria que pessoas consideradas “loucas” por muitos, em suas respectivas épocas, eram anamorfoses. Ícones como Van Gogh, Pablo Picasso, Raul Seixas, Janis Joplin, Jimmy Hendrix, Freud, Chico Xavier, Nietzsche, Jesus, etc. O problema não está em cometer erros, está em não compreender os sentidos que estes mesmos erros podem alcançar e significar para a sociedade o que está por trás deles. Anamorfose é, no final das contas, outra forma de dizer a verdade! Por isso são, na sua grande maioria, incompreendidas.

Diante da explicação de Janis (como chamamos nossa ilustre e inteligente amiga), brindamos a nossa saúde, as ovelhas negras, ou melhor, anamorfoses. Daí, o resto da noite foi regado a dezenas de boêmias bem geladas e muitos outros assuntos interessantes, como sempre. É por essas e outras que adoro essa galera. “Mas louco é quem me diz que não é feliz…”

(*) Janisse Carvalho é psicóloga, militante da Cultura, professora universitária, atriz e professora de Teatro

Uma lady – Crônica de Lulih Rojanski

Crônica de Lulih Rojanski

   Eu sou uma pessoa educada. Sem pretensão, sou educadíssima. Educada para resmungar palavrão ameno quando bato a canela ou o cotovelo na quina de um móvel, para gritar palavrão obsceno quando o motorista da frente dobra sem sinalizar – especialmente quando ela dobra à direita (que sempre me soa a nocivo) e para xingar o político ladrão.

   Meus pais me deram educação primorosa. Não tinha ainda sete anos quando me ensinaram a revidar humilhação, desrespeito e calúnia. Foi isto, inclusive, que me garantiu dar pedradas em quem me dava tapas na escola, a chamar de piolhento o menino que me tratava por polaca azeda. O preconceito contido em “polaca” era insondável.

   A questão de não levar desaforo pra casa é bastante filosófica. Levar desaforo ou devolvê-lo vai depender sempre da disciplina que se tem para, no instante da contenda, lembrar-se do Buda ou do diabo. Eu bem que tento cultivar atitudes de tolerância quando sou ofendida. O sujeito que tem o dobro do meu tamanho e não quis desviar de mim numa calçada estreita, por exemplo, quase recebeu uma ameaça de morte. Mas minha tolerância só chegou até aí. Olhei para aquele brucutu cheio de saúde e disposição e perguntei-lhe se tinha mãe.

   Sou educada o suficiente para acreditar que o limite da tolerância para uma ofensa depende da temperatura do seu sangue. O meu é lava. Sou descendente de judeus poloneses, meus avós escaparam por pouco do Holocausto. Não posso e não quero deixar nada barato.

   Já me deparei com gente que me achou com cara de mosca morta porque o revide não veio na hora. Mas a educação para responder à altura que eu trouxe do berço não passou da hora da sobremesa. Com toda a educação que me é inerente, matei a cobra e mostrei o pau, assim que meu ofensor se convenceu de que tinha feito 1×0.

   A educação que recebi também veio com palavras mágicas que despertam sorrisos, que estendem mãos, que abrem portas e que estimulam gentilezas. De todas elas, a que mais gosto é: obrigada! Demonstrar gratidão faz parte do pacote de educação que me deram. E a quem não sabe ser grato pelo que recebe, dedico outra expressão mágica que só os bem-educados sabem usar corretamente: foda-se!

   Fui educada para a paciência, para a solidariedade, para a generosidade e a humildade. Nem sempre é possível colocar tudo isso em prática, mas a paciência tem sido meu maior desafio. Perco a paciência comigo mesma quando percebo que ainda espero algo maior do ser humano. Ou quando me perco no labirinto do “tudo é sobre mim”. Mas também sou educada para sair de fininho e me recolher à significância dos que sabem se mancar e encontrar a saída do labirinto. Au revoir.

100 dias de solidão – Por Carlos José Marques (Égua-moleque-tu-é-doido)

Foto: Adriano Machado

Por Carlos José Marques

Com o perdão e a licença poética do magnífico Gabriel García Márquez, aqui o enunciado é para classificar esse longo e — aos olhos de todos — interminável interregno. Lá se foram mais de três meses e o isolamento encerra lições que devem, pelo bem ou pelo mal, transformar a humanidade e a maneira como vivemos em sociedade. Em todas as direções. Econômica, política, de relações interpessoais, profissionais, de conduta emocional e de visão de mundo. Nesses tempos de absoluto confinamento para alguns, de descaso com as medidas para outros, de riscos para quem não tem qualquer opção que não a de sair, vivemos o imponderável, o medo do desconhecido e da morte propriamente dita. Diante da ameaça sorrateira as máscaras caíram. De diversos personagens. Talvez de todos.

Haters dissimulados mostraram a autêntica face e encontraram o ambiente ideal para destilar o ódio que acalentavam. Os desprovidos de compaixão assumiram como de fato não reservam qualquer interesse pelo próximo. São eles em primeiro lugar. Seus negócios, sua realidade, a sobrevivência pessoal que importam. Quanto aos outros? Que simplesmente…morram. É da vida. “Faz parte!”, disse aquele líder bananeiro de atitudes tresloucadas.

Governantes do fim do mundo expuseram a carapuça mais sombria e abominável da ausência de caráter e capacidade de liderança. Nesse caso, nenhum deles superou em aberrações e irresponsabilidade o mandatário brasileiro Jair Messias Bolsonaro, um escroque de maldade e intolerância que maquinou afrontas à segurança nacional e crimes de responsabilidade em profusão. Tripudiou do drama alheio andando de jet ski, a cavalo e em aglomerações provocativas que escandalizaram o mundo. Ignorou qualquer gesto de consolo aos familiares destroçados pela doença, enquanto sugeria fazer um bom churrasco, com três mil participantes, para esquecer tudo e zombar das restrições. Vangloriou-se da condição de “atleta” que não cede a uma “gripezinha”. Foi o insensível em estado puro.

Nesses 100 dias de solidão, quase 60 mil morreram, mais de um milhão caíram de cama vitimados por uma pandemia implacável. E isso apenas no Brasil, que exibe recordes impensáveis e vergonhosos — boa parte decorrente da imprudência, irresponsabilidade, politicagem tacanha de gestores que não entendem o autêntico sentido da palavra governar. Brasileiros estão aprendendo na marra, e de forma dolorida, o quanto custa e o tamanho do problema que é fazer uma escolha eleitoral errada. O contemplado, em circunstâncias limite, sai movido estritamente pelo propósito da sobrevida nas urnas, abrindo caminhos ideologicamente nefastos e socialmente injustos. Messias Bolsonaro, no hiato dos últimos 100 dias, para além da coleção de peripécias, abusos e desvios de conduta, desde que assumiu há mais de um ano, viu seu mandato se esfarelar. Praticamente virar pó, diante de tantas perversões. No momento encontra-se envolto nas investigações do laranjal do filho zero um, de seus comparsas e do esquema de rachadinha, que já levaram para a cadeia o dileto amigo de 40 anos de relação, Fabrício Queiroz, e colocaram em suspeição o advogado da família, tido como um faz tudo da casa. Abatido, o presidente ainda está precisando lidar com acusações de ter interferido na Polícia Federal e, suprema humilhação, tendo de depor para explicar o inexplicável.

Os empresários amigos e políticos aliados foram alvos de batidas policiais e de averiguações em inquéritos que levantam esquemas de financiamento ilegal de fake news e de mobilizações antidemocráticas de ataques aos poderes constituídos. Para completar, o Planalto ainda se enfronha numa mal explicada operação de fuga do ex-ministro da Educação Abraham Weintraub que saiu às pressas do Brasil, com passaporte diplomático que não poderia usar, para evitar ser pego para julgamento no STF. É uma pororoca de maus presságios que cercam Bolsonaro e um governo que submerge, isolado, solitário, há bem mais de 100 dias. Como tábua de salvação, mistura-se ao que existe de pior na política, o cordão de encalacrados do Centrão que pede verbas e postos em troca de sustentação.

Bolsonaro desce ao poço e se pendura na mediocridade administrativa. Não quer que sejam votadas as reformas, administrativa e tributária, para evitar dissabores com eleitores. Disse isso de viva voz. Alegou ser um “desgaste muito grande” o engajamento nessas pautas que ajudariam no desenvolvimento do País. Ele não está preocupado com isso. É um desinteressado das reformas, do combate à corrupção, da luta em prol do bem comum. Na solidão do poder, governa para ele, para os seus, para os apaniguados. A bem mais de 100 dias é assim, em um interregno que não parece mesmo ter fim.

Fonte: Isto É

Ilha de calor – Crônica de @rebeccabraga

Belém – PA – Foto: Elton Tavares

Por Rebecca Braga

Era por volta das 10 da manhã quando cheguei em casa. Um gole longo de água. Subi as escadas até o andar superior enquanto tirava a roupa e largava em cima da cama.

– Como é quente esta cidade. – Falo pra mim mesma.

Sempre achei que Belém fosse mais quente que Macapá. Deve ser porque, quando criança, ouvi alguém dizer que:

– Belém é uma ilha de calor.
-Ilha de calor?
– Sim. Sabe quando o ar quente fica dentro da cidade? Deve ser por causa dos prédios…
– Ah, entendi. Deve ser mesmo.

Pesquisei o que é uma ilha de calor. Não é E-XA-TA-MEN-TE isso, mas quase. Então serve, por enquanto.

Macapá – AP – Foto: Elton Tavares

Quando me perguntam se Belém é mais quente que Macapá, sempre digo que tenho essa impressão, mas que deve ser porque eu me acostumei em morar numa cidade que tem uma orla por onde se pode andar de um lado a outro da cidade vendo o Rio Amazonas, não uma paisagem, mas um elemento que não se pode ignorar. O vento, o som, o cheiro. Tudo que vem dele habita os dias.

Em Belém, a orla tem portos prédios lojas aos montes. E num lugar ou outro você vê a sombra de um Guamá no fundo e nesse ou naquele lugar é possível sentar à beira do rio. Sinto falta do passeio de carro olhando o rio que quando seca vai longe da margem e deixa nu um chão de areia e lama, com cheiro úmido de água doce e esgoto.

Rio Amazonas – Macapá – Foto: Floriano Lima

Não se trata de ser um melhor que outro. Trata-se de que são diferentes, e me despertam diferentemente.

Também acho Belém mais úmido. E isso acho por causa dos três dias que a roupa leva pra secar, se não chover e ela secar e molhar várias vezes, até perder o cheiro de cachorro molhado, como diria… não lembro exatamente quem.

Foi minha mãe que me chamou atenção pra isso. Sinto saudades de minha mãe. Ela sempre tem um cheiro fresco de pele recém lavada. Sinto falta do som que os passos dela fazem.

Belém é uma cidade violenta. Não preciso dos dados pra dizer, mas você pode conferir.

Andando na rua tenho medo de assalto, mas em certo período do ano tenho mais medo de manga. Sim, de uma manga cair na minha cabeça. Acho que uma manga pode matar alguém, ou fazer um bom estrago.

Ver-o-Peso – Belém (PA) – Foto: Luiz Braga

A rua onde moro tem casarões antigos. É a parte velha da cidade. Se eu caminhar pra minha esquerda, até o fim, chego no rio, e no Ver-o-peso. Lá o cheiro é forte de patchuli, maniva e cocô de galinha. Mas não só isso. Cheira a peixe frito, açaí do grosso, farinha baguda. Fala-se alto, é preciso se ouvir entre as bicicletas com alto falantes que tocam os bregas clássicos e vendem pendrives com centenas de flashbacks. – Só os melhores, freguesa!

Se eu andar pra direita chego ao antigo presídio da cidade. Lá tem loja pra turista, um polo joalheiro e um museu que guarda objetos que os presos usavam pra seviciar os desafetos. Senti um profundo mal estar nesse lugar. Também tem uma capela linda. Deve ser de São José. Curiosamente, padroeiro de Macapá.

Curioso mesmo é que esse texto nasceu não para comparar Belém com Macapá, o que acho tedioso quando me pedem pra fazer. Mas porque acordei de um cochilo inapropriado nessa manhã. Molhada de suor e pensei que Belém era muito quente, e muito úmida, como uma vagina excitada. Ou como várias vaginas excitadas. De tamanhos e formas diferentes. Pingando. Crescendo. Pulsando em gozo frenético e violento. Minha Belém é uma vagina excitada.

Bolsonaro prega a guerra e depois a paz. E segue em sua ciclotimia

Bolsonaro, esse ciclotímico, parece que sempre se mostra mais claro, elegante, sincero e autêntico em certos ambientes, como naquela reunião de lordes, realizada em 22 de abril.

Em outros ambientes, Bolsonaro não consegue traduzir nem o que ele mesmo diz.

Na manhã desta quarta (17), o presidente afirmou isso que você assiste no vídeo.

Horas depois, na solenidade de posse do novo ministro das Comunicações, mudou de tom, de mensagem, de linguajar, de tudo, enfim.

E pregou, vejam só, a harmonia entre os poderes e proclamou suas paixões pela Constituição e pela democracia.

Viva Bolsonaro, esse ciclotímico.

Fonte: Espaço Aberto

Fogo pela janela (Crônica ou lamento) – Por Jaci Rocha

Crônica ou lamento de Jaci Rocha

Às 18, o alarme tocou, hora do meu intervalo da lida. Fui dar uma olhadinha lá fora, o mundo ‘pela minha janela’. Havia um fogo intenso, em direção à minha janela direita, mas dessa vez, não me assustei. TODOS OS DIAS, agora são assim. Este mesmo vizinho acende a ‘fogueira’, o que gera um desconforto geral (a primeira vez que vi, achei que devia chamar os bombeiros, tal a proporção).

Não por acaso, também é pessoa que já fez uma ou duas ‘reuniões’, em tempo de plena pandemia, precisando de intervenção policial para ‘dispersar’. Observei com tristeza, que se trata de um eleitor do ‘messias’. Um daqueles eleitores que propagam querer que o Brasil seja um país correto, mas não fazem o certo, sem serem obrigados a isso. Eles querem o ‘certo’, mas ‘fazem o errado’… e justificam que é ‘porque ninguém faz o certo’. Alguém da psicanálise deve explicar.

Eu mal acredito.

O que me recorda sempre o personagem ‘Bêbado’, do livro ‘O Pequeno Príncipe’, que bebe para esquecer… a vergonha de que bebe.

O fogo que vejo aqui, da minha janela, a pandemia, a situação política do País. Tudo tão relacionado e tão ‘desconectado’. É um incêndio mesmo.

E estamos bêbados.

É uma reinvenção triste da máxima popular ‘mais perdidos do que cego em tiroteio’.

Sim, estamos ‘mais perdidos que bêbados em um incêndio’.

Salve-se quem puder.

(Longe de generalizações, é apenas um leve ‘divagar’ sobre nosso baixo senso de coletividade)

Sobre o meu dia Dia dos Namorados

O Dia dos Namorados é uma data esperada por muitos casais, época de boas vendas para o comércio, (nestes tempos on-line) e, em alguns casos, reconciliações.

Para outros, é uma data infame. Já ouvi de amigas a seguinte lamúria: “Pô, vou passar o Dia dos Namorados sozinha, que merda”. Besteira. Ainda há aqueles que adoram não ter uma namorada (o), pois não gastarão dinheiro com seus pares; mesquinho, não? (risos).

Parabenizo aqueles que namoram. Que conseguem dividir alegrias e tristezas, glórias e fracassos, enfim, aventuras e desventuras da vida a dois. Como disse Cazuza: “só entende quem namora“.

A definição da data é: “Dia dos Namorados ou Dia de São Valentim, como é conhecido em outros países, é uma data comemorativa na qual se celebra a união amorosa entre casais. No Brasil, a data é comemorada no dia 12 de junho. Em Portugal também acontecia o mesmo até a poucos anos, mas atualmente é mais comum a data ser celebrada a 14 de fevereiro.

Acho bacana, pois já namorei muita gente legal. Costumo dizer, aos que me cercam que sou melhor como amigo do que como namorado.

Dos 43 anos que tenho, passei 25 namorando. Foram vários momentos muito felizes, com algumas tomadas de cu homéricas, mas isso faz parte.

Volto a dizer, acho legal namorar. Só não quero agora e por pelo menos mais um tempão. Mas só a vida dirá se assim vai ser.

Aproveitando o ensejo, quero mandar lembranças para minhas ex, pessoas com as quais aprendi muita coisa. Valeu meninas, abraço para vocês (tá bom, nem pra todas).

Como gosto de relacionar meus textos a canções, sobre relacionamentos, Renato Russo cantou: “Uma menina me ensinou, quase tudo que eu sei, era quase escravidão, mas ela me tratava como um rei”, este verso tem uma precisão quase cirúrgica, namoros e afins são sempre aprendizados.

Enfim, parabéns a todos os namorados, sejam eles héteros ou homossexuais. Como disse Ângela Rô Rô: “Amor, meu grande amor, só dure o tempo que mereça” e “E, quando me encontrar, meu grande amor, me reconheça...”

Elton Tavares

Pela janela azul do manicômio – Crônica porreta de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Um mundo ainda não corrompido se estende pelas ramificações da cidade, em alamedas de flores, que atravessam o grande oceano. É o mundo não corrompido que vejo pela janela azul do manicômio.

Um mundo desprovido de césares e eunucos, de tédio e de policiais. Onde foram abolidas todas as penas, de morte e de vida. Em cujas praças, esquinas e avenidas olhares se atrevem, se atravessam e se comunicam com os segredos da vida, sem colisão de pensamentos. Esse mundo quer existir para todas as pessoas através de mim. Esse mundo me quer como mensageiro de sua paz cotidiana, de respeito mútuo, de fraternidade.

Eu necessito urgentemente de uma caneta para descrever esse mundo, anotar sua fórmula. Corro em direção à escrivaninha em busca de caneta. Quero deixar registrado esse mundo fabuloso, que me acena na noite, pela janela azul do manicômio. Quero dizer que esse mundo existe e pode ser por nós alcançado.

Abro as gavetas, uma por uma. Reviro os papéis na escrivaninha e não encontro caneta, lápis, qualquer coisa com que se possa escrever. Não acredito! Não pode ser! Nunca fiquei sem caneta em toda a minha vida e justo agora que mais preciso…

Começo então uma busca frenética. Remexo pastas. Violo armários. Coloco pelo avesso os bolsos de todas as roupas. Atropelo objetos. Mas tudo é inútil! Não encontro uma caneta sequer e o mundo ainda não corrompido aguarda lá fora, navegando na noite.

Lembro que na esquina da rua do manicômio azul há um boteco onde poderei comprar uma caneta ou quantas eu quiser ou puder ou precisar. Abro a porta do quarto, desço as escadas, pulo a janela do andar térreo e saio correndo pela rua em direção ao boteco. Os enfermeiros de plantão logo são avisados e partem em meu encalço. Não há tempo para explicar a eles que não se trata de uma fuga. Eles não entenderiam a urgência de se comprar uma caneta em plena madrugada.

Continuo correndo em direção ao boteco, o último, o único aberto na noite, em todo o planeta. Acelero a marcha porque o sonolento dono do boteco, sem desconfiar da importância daquele ato, fecha va-ga-ro-sa-men-te a porta antes que eu consiga alcançá-la. Inutilmente, fico batendo desesperado na porta do boteco que abriga vários e vários pacotes de caneta.

Os enfermeiros chegam, trazendo uma camisa de força. Eu me rendo e sou conduzido de volta ao quarto. Me aplicam um tranquilizante e eu fico inerte na cama, observando pela janela azul do manicômio um mundo ainda não corrompido se dissipando na noite.

Há 40 anos, morreu Ian Curtis, da banda Joy Division – Uma corda no pescoço do Rock

No dia 18 de maio de 1980, há exatos 40 anos, com uma corda no pescoço do Rock and Rol, cometia suicídio Ian Curtis, compositor inglês, vocalista e líder da banda Joy Division, formada em 1976. Ele tinha 23 anos e se preparava para excursionar com seu grupo musical pelos EUA.

O jovem e atormentado músico, que era epilético, sofria de problemas conjugais, além da pressão pelo estrondoso sucesso de sua banda. Estes teriam sido os motivos do suicídio de Ian. Sei lá. Existem muitas lendas e teorias sobre a morte do cara.

Com somente um disco lançado, ‘Unknown Pleasures’, em 1979, o Joy Division havia concluído a gravação de ‘Closer’, que estava com o lançamento agendado para julho de 1980. A trágica morte de Ian Curtis não impediu que a banda se consagrasse como um dos melhores e mais importantes grupos de rock da década de 80, aliás, o principal do pós-punk.

Após seu falecimento, suas músicas foram distribuídas em mais quatro discos ao vivo, doze compilações, dois EP’s e cinco singles.

Existem duas versões para o nome da banda. Uma diz que era uma casa de prostituição de uma série chamada ‘The House Of Dolls’ (1965). Este nome teve origem nos campos de concentração nazistas e servia justamente para designar a área reservada às prostitutas.

Outros dizem que Joy Division era o nome dado à área onde prisioneiras judias eram abusadas sexualmente por soldados nazistas durante a WWII. Daí a tradução, “divisão da alegria”. Seja um ou outro motivo, a alcunha é provocativa e irônica.

Li em algum lugar em que não me recordo agora, que o fantástico compositor escrevia músicas autobiográficas, também da vida das pessoas de seu ciclo e de outros.

Li também que “Love will tear us apart”, a música mais foda do Joy Division, foi escrita como um bilhete de despedida à quase-futura-ex-esposa-e-súbita-viúva de Ian, Deborah. A minha antiga turma de amigos gritou muito nas festas de rock: “toca Joy Division”, pedindo para a The Malk e a Sterereovitrola que executassem a clássica canção.

Após a dissolução do Joy Division, os três integrantes remanescentes, Bernard Sumner (guitarra), Peter Hook (contrabaixo) e Stephen Morris (bateria), formaram o New Order, que também arrebentou e embalou muitas festinhas pelo mundo, inclusive em Macapá. No início, o som do NO era uma continuação do JD. Com o passar do tempo, a banda fortaleceu sua própria identidade, com produções de música eletrônica, pop e dançante.

Ian foi realmente genial. Com vocal grave (barítono), dança desajeitada e bacana pra caramba (dizem que lembra os movimentos dos seus ataques epiléticos), estranha performance de palco, letras obscuras e poéticas, Curtis veio a este mundo, deu o seu recado e partiu para as estrelas. Sua vida foi retratada no cinema no filme Control (recomendo).

Não à toa, Ian Curtis é/foi ídolo de Bono Vox (U2), Kurt Cobain (Nirvana), Robert Smith (The Cure), Jim Kerr (Simple Minds), Ian McCulloch (Echo & the Bunnymen) e Renato Russo, que copiou dele a famosa dança epilética, entre tantos outros que vieram depois dele.

Em 2014, acompanhado do meu mais que maravilhoso irmão, Emerson Tavares, assisti ao show do New Order, em São Paulo. A banda inglesa tocou, além de seus próprios sucessos, quase todos os seus clássicos do Joy Division como Transmission, Atmosphere e Love Will Tear Us Apart. Simplesmente inesquecível!

Em 2018, repetimos a experiência, em Curitiba (PR). Desta vez, o show do New Order foi ainda melhor. Mesmo com a ausência do carismático baixista Peter Hook, o New Order (com Phil Cunningham, Gillian Gilbert, Stephen Morris, Tom Chapman e Bernard Sumner) fez uma apresentação fantástica e emocionante. Sensacional mesmo! Ficamos felizes por ter vivido mais esse momento marcante em nossas vidas, pois são experiências como essa que fazem tudo valer à pena.

“Ian foi tudo isso e muito mais. As mentes atormentadas são capazes de fazer coisas fascinantes. Joy foi, é e sempre será uma das maiores bandas de todos os tempos. É bom demais ver que as pessoas ainda lembram dele e da banda. Vida longa ao Ian e seu legado!”, comentou o meu amigo e amante de Rock and Roll, Anderson Miranda.

O rock é minha expressão artística favorita e Ian Curtis faz parte do Olimpo do Rock And Roll. A ele, minhas homenagens e gratidão pela obra. Valeu!

A vida sem a música é simplesmente um erro, uma tarefa cansativa, um exílio.” – Friedrich Nietzsche, em “Cartas a Peter Gast”, Nice, 15.1. 1888.

Elton Tavares

Hoje é o Dia das Mães – Um texto sobre amor e gratidão.

Arte: Ana Beatriz Santana

Minha mãe é trabalhadora, honesta e dedicada. Ela não chameguenta, mas amorosa. Com absoluta certeza, o maior entre meus amores. E nestes tempos tristes e mascarados de pandemia, sou feliz e agradeço por estar junto de Maria Lúcia e pela sua saúde.

Aliás, a força e o amor que tenho em mim, boa parte veio de Maria Lúcia, a professora, orientadora, filha da Cacilda, avó da Maitê. E que eu e Emerson Tavares temos a honra de termos como mãe. Falando em meu irmão, por conta deste período em que vivemos, ele não está aqui, conosco, como em todos os anos anteriores, mas telefona todos dias e nos dá apoio em tudo, mesmo de longe.

Já disse e repito que eu e mano não seríamos caras nos tornamos se não fosse a nossa mãe. Mamãe é nossa amiga. Sim. Porque existem mães inimigas. Até hoje, eu com 43 e o Emerson com 40, ela segue a se preocupar conosco. Coisa de mãe.

Às vezes a gente se chateia um com o outro, noutras nos decepcionamos, mas seguimos sempre juntos, unidos, com muito amor e ajuda mútua na jornada da vida. Somos muito gratos pela mãe que temos. Maria Lúcia é a soma de tudo que somos de melhor (menos a boêmia, carisma e gaiatice, isso aprendemos com nosso velho e saudoso Penha, o pai).

Por tudo que fez e faz, hoje homenageio Maria Lúcia, nossa mais que maravilhosa mãe. E agradeço a Deus por sua presença física, sua saúde e sua felicidade. Nós te amamos, Lucinha.

Arte: Ana Beatriz Santana

Ah, também parabenizo aqui outras mães da minha vida: minha avó Perolina Penha Tavares, a “vó Peró” e minha tia Maria Conceição Penha Tavares. A vó Cacilda Neves, mãe de minha mãe e a querida cunhada Andresa Ferreira, mãe da nossa princesa Maitê. Todas importantes e pessoas amadas por nós.

Além de minhas tias, primas, colegas e amigas, tantas mães entre nossos afetos. Vocês são guerreiras!

Essa época difícil passará e logo estaremos juntos de novo. Por ora, reze pela sua mãe. Esteja ela em outro lugar além de dentro do seu coração. E agradeça pela oportunidade de ser seu filho. É este meu sentimento neste segundo domingo de maio: amor e gratidão. Feliz Dia das Mães!

Elton Tavares e Emerson Tavares (escrevo e assino por nós dois mesmo. Coisa de irmão mais velho, rs).

Canção do Filho Agradecido* – Crônica de Fernando Canto para sua mãe

Por Fernando Canto

Minha mãe está ali, do outro lado da rua ao lado de minha irmã, me olhando. Mas eu não posso atravessar porque muitos veículos passam constantemente em alta velocidade. A alegria de reencontrá-las é grande e o coração palpita na possibilidade de abraçá-las, afinal faz tempo que eu não as vejo.

Elas estão lá e esboçam sorrisos de ternura, como que convidando para uma conversa longa ao redor da mesa onde um café fumegante feito em casa, saindo do coador, explode em seu odor. Os carros não param. Não há semáforos nesse cruzamento. Elas percebem meu desespero e espalmam as mãos pedindo calma, porque é perigosa a travessia e eu devo esperar o movimento dos veículos para poder passar. Fico agoniado e não tiro os olhos delas. Mas os carros dão lugar à manadas de animais em estouro, e quando a poeira passa, um trem se segue em seu lugar. É grande o movimento. E agora uma chuva fina molha os caminhões em comboio veloz no meio da rua, ensopando o som de suas buzinas barulhentas. Do outro lado da rua duas figuras diáfanas desaparecem progressivamente, indiferentes ao meu chamado, enquanto os obstáculos móveis pouco a pouco somem da minha vista.

Então eu acordo com os batimentos cardíacos fora do normal e uma imensa saudade rompe abruptamente os globos dos meus olhos embotados, formando milhares de gotículas cristalizadas no chão. É um dia de sol e chuva, mas de luz intensa varando os vapores no céu azul equatorial.

Sobra um espanto materializado na parede do quarto. Fecham-se as cortinas…

Fernando Canto

Restou-me a sensação do nada, um vazio cheio de alguma coisa, o sentido da ausência, não da falta, pois “não há falta na ausência”, diria Drummond inventando exclamações alegres por aí. Ficou ainda a lembrança das criaturas que desafiaram a vida e puseram filhos no mundo, predispostas que estavam a romper círculos enfadonhos e mesmices tentaculares que enredam a normalidade do ciclo vital.

E no interlúdio do sonho e da memória, do nascimento e da morte, do dia e da noite, uma canção renova-se mergulhada na saudade da planta e da flor. Uma canção encarna a melodia magnificamente soprada pelas ruas, onde só a escuta quem tem o ouvido treinado para ouvir sob o barulho dos carros da cidade. Dentro dessa canção se pronuncia o amor, palavra-escritura indecifrável para alguns ou guardada nos bolsos de outros. É uma canção que se inscreve em mosaicos, que venta e fustiga esconderijos de metal e é tecida com agulhas de ouro. Quem assobiá-la será feliz e descansará em macias almofadas de seda do oriente, recheadas de penas de ganso.

Por garantir essa promessa é que me alardeio proprietário de palavras inventadas, de músicas compostas em nome do amor e da memória. Eu narro essa façanha improvisada de fazer-me condutor do lume da saudade, a fim de vê-lo sempre aceso dentro do coração.

Dona Saúde – Mãe de Fernando Canto

Inominada rutilância és tu, Mãe. Anjo astral, iluminadora. Grato eu sou pela concessão da espada nesta onírica epopeia inacabada em que me encontro e venço diariamente. Agradecido fico pelo indisfarçado crescimento das abelhas que colhem o pólen das hortênsias, dos jasmins e das papoulas que ainda florescem em teu jardim. Aqui teu filho lavra a terra, planta e separa o trigo onde lhe salpicam o joio. Aqui teu filho ainda pule a pedra bruta posta ao meio do caminho. Aqui ele canta a canção que lhe ensinaste para limpar os obstáculos e carregar os fardos inevitáveis que surgem nas ruas por onde passa.

Inefável rutilância tu és, Mãe. Fulcro lírico, bálsamo dos dias funestos, porto necessário ao barco sem destino. Grato eu sou pelos rios que atravesso nas pontes que me ensinaste a desenhar e transpor. Agradecido fico pelas metáforas da vida que Deus mandou-me e que eu, por ti, pude interpretar.

*Publicado em 2008, no Jornal do Dia. Macapá-AP.

10 de maio: Dia Nacional do Guia de Turismo – Por Marcelo de Sá

Esta data é uma homenagem aos profissionais que se dedicam a auxiliar, entreter e apresentar seus atrativos naturais e culturais aos turistas e visitantes durante as viagens, apresentando os pontos turísticos e os melhores aspectos de determinada região. No Brasil, a profissão de Guia de Turismo está regulamentada através da lei nº 8.623, de 28 de janeiro de 1993.

Recanto da Aldeia, praia que fica na Ilha de Santana, no Amapá — Foto: Marcelo Sá/Arquivo Pessoal

De acordo com esta lei, o profissional pode ser classificado em 04 diferentes áreas: Guia turismo regional, nacional, internacional e especializado em atrativos naturais e Culturais. Para cada uma das classificações, existem exigências e competências específicas que o Guia de turismo deverá ter.

Vila de Mazagão Velho guarda muito da história do Amapá — Foto: Gabriel Penha/Arquivo G1

O Guia de Turismo além de informar o turista sobre os atrativos, e mediador o contato deste com os mesmo, detém ainda outras funções voltadas para sustentabilidade das comunidades urbanas e rurais, sendo agente responsável pela valorização da cultura, respeitador da identidade e preservador do meio ambiente. Desse modo a profissionalização da atividade de Guia de turismo é uma necessidade, tendo também reflexo natural de um contexto mais global de mudanças nos desejos e demandas dos turistas e visitantes.

O Brasil possui centenas de destinos turísticos que podem encantar a diferentes perfis de visitantes: florestas, praias de rio e mar, serras, cachoeiras, cidades históricas e sítios arqueológicos, natureza exuberante e grandes centros culturais. O país contempla também uma biodiversidade e temáticas que atendam aos anseios daqueles que buscam o turismo de negócios, de gastronomia, de aventura, de arquitetura e até de arqueologia, turismo comunitário. E, em meio a toda essa diversidade de opções, há um personagem que pode dar um toque especial á experiência do viajante e visitante – o Guia de turismo.

O Amapá vem surpreendendo por sua potencialidade para o turismo ecológico com sua localização privilegiada, Com uma área de 143.453,7km² o Amapá também é a porta de entrada do país mais próxima da Europa pelo município de Oiapoque que faz fronteira com Suriname e Guiana Francesa, onde fica localizada a ponte binacional sobre Rio Oiapoque. O Estado é margeado pelo Rio o Amazonas, o maior do mundo. Protegem diversas unidades de conservação abrigando vários ecossistemas, os que se destacam cerrado, mata de várzea, mata de terra firme, campos alagados e manguezais. A rica cultura indígena, quilombola e de outros povos que aqui chegaram.

Segundo os dados do Anuário Estatístico do Turismo do Ministério do Turismo de 2019, que apresenta dados de todas as regiões do país registraram estados em que a entrada de turistas estrangeiros cresceu. Acre, Amapá, Amazonas, Ceará, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Santa Catarina e São Paulo demonstraram alta no número de viajantes internacionais em 2018. Com base em informações da Polícia Federal.

No cenário nacional, também houve crescimento de 0,5% em relação a 2017, com 32.606 turistas internacionais a mais em destinos brasileiros. O Amapá com (31,2%) corresponde um dos estados que mais registraram crescimento na chegada de turistas internacionais no ano 2018, se comparado com 2017. Estados Unidos aparecem como um dos principais países emissores de turistas para os estados do Amapá, Amazonas, Distrito Federal e Minas Gerais. Já na América do Sul, Argentina ocupa a primeira posição na Bahia, Distrito Federal, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio Grande do Norte. Outro destaque do Estado do Amapá No segmento marítimo, Amapá aparece como o estado que mais contabiliza chegadas internacionais pelos meios fluviais e marítimos.

Turistas durante viagem à Floresta Nacional do Amapá — Foto: Marcelo Sá/Arquivo Pessoal

Pelo cenário apresentado o trabalho de Guia de Turismo junto ao trade turísticos amapaense, Brasileiro e internacional é de suma importância para o desenvolvimento do turismo sustentável do Amapá, gerando divisas, empregos e renda para as comunidades urbanas e rurais, o profissional Guia de Turismo é o parceiro das comunidades visitadas (pilotos, Guarda-parques e condutores em áreas naturais (mateiros), dos agentes de viagens e turismo, Turismólogo, hoteleiros, das empresas de transportes turísticos fluviais, marítimos e rodoviários, parceiro dos artesões e artistas da música, das artes visuais, teatro é da cultura popular, também atua como parceiro das instituições governamentais e não governamentais colaborando nas formulações de politicas para o turismo.

Participando de fóruns, conselhos diversos, influenciando nas boas práticas do processo turístico. Respeitando o meio ambiente, as comunidades envolvidas. Lutamos pelo reconhecimento do trabalho do Guia de Turismo no Estado do Amapá e no Brasil. Feliz Dia do Guia de Turismo!

*Marcelo de Sá Gomes é guia de Turismo Regional Amapá; Estudante: Curso do Técnico em Guia de Turismo Regional Pará, Brasil e América do Sul no SENAC-Serviço de Aprendizagem Comercial- Belém-PA. E estudante: Curso do Técnico em Pesca e Aquicultura no CIFPA – Centro Integrado de Formação Profissional em Pesca e Aquicultura do Amapá. Santana-AP