Resenha do livro “O Diário de Nisha – Veera Hiranandani (por Por Lorena Queiroz – @LorenaadvLorena)

Por Lorena Queiroz

Antes de falar sobre o livro, é importante contextualizar rapidamente sobre a Partição da Índia, que era um protetorado da Inglaterra. Em 1947, os britânicos, ocupados em focar em sua própria reconstrução no pós-guerra, acordaram a divisão do Raj britânico em dois países, Índia e Paquistão. A Índia, de maioria Hindu, enquanto o Paquistão era majoritariamente muçulmano. A partição fez as populações dos dois países migrarem para o país que, em sua maioria, professava a sua fé. Este deslocamento foi desastroso, ocasionando mortes, estupros e crimes dos mais diversos. Várias pessoas deixaram seus lares e todos os seus bens pra trás a fim de sobreviverem a uma atmosfera tomada pela intolerância religiosa.

O evento histórico é narrado no livro sob a ótica de uma menina de 12 anos, Nisha. Ela conta os acontecimentos a sua falecida mãe através das páginas de um diário.

Apesar da história trágica de um povo, o livro carrega uma beleza que, para mim, é até difícil sintetizar. O pai de Nisha é um médico rigoroso que tem uma relação difícil com Amil, o irmão de Nisha. Essa relação se transforma quando o pai se depara com a perda iminente. Apesar de todos os miseráveis dias que aquela família passa durante sua migração, o leitor percebe a cada dia os laços se solidificando, o que me faz pensar o quanto a desgraça compartilhada une pessoas.

Dadi, avó paterna de Nisha, incomodava a protagonista com alguns de seus hábitos. Incômodo este que some com o tempo, através de situações que tornam aquela misofonia menos importante, dando relevância ao que realmente é relevante na vida.

Nisha, que vivia em família Hindu, mas que tinha mãe muçulmana, questiona em sua inocência de menina, os motivos para que haja ódio entre Hindus, Sikhs e muçulmanos. Pois existe Kazi, um cozinheiro muçulmano que trabalha na casa de Nisha e que faz parte de sua família.

Kazi desperta em Nisha o amor pela culinária, fazendo os momentos na cozinha serem as horas em que a menina encontrava a paz.

É um livro lindíssimo, mas com passagens terríveis; apesar da própria protagonista, em alguns momentos, não perceber a gravidade do que está vivenciando, sente-se nesta leitura todo o terror da migração no caminho e dentro dos trens. A alegria por coisas comuns em nossos cotidianos, mas que são preciosidades para outros, ainda mais em tempos de guerra. A ansiedade e a tristeza, que alguns leitores, assim como eu, compartilham enxergando através dos olhos de uma criança. Graças à Jesus, Maomé, Trimúrti ou Guru Nanak, eu sigo tentando acreditar que a bondade ainda é inerente ao ser humano.

* Lorena Queiroz é advogada, amante de Literatura e devoradora compulsiva de livros.

Os motivos de eu escrever… – Crônica de Elton Tavares

Crônica de Elton Tavares

Escrevo ao longo dos últimos 14 anos. Dez deles para este site, que já foi um blog. Sempre tento me ater à verdade. Redigir textos onde dados e fatos me levam. Com exceção de sandices, devaneios e contos, que são escritos mágicos para mim. Pois ficção exercita a criatividade.

Um dia, há alguns anos, me perguntaram: “Elton, porque você perde tempo com esse papo de blog. Porque não faz algo útil com o tempo gasto nessa página de besteiras”. Neste instante, consegui evitar um surto psicótico e palavrões a esmo para o meu questionador.

Aí expliquei para o pateta porque escrevo. Escrevo porque amo a noite, futebol, samba, rock and roll, minha família, meus amigos e amo ser eu (com todos os defeitos e chatices), não necessariamente nesta ordem, claro. No meu caso, leituras alternativas tornam o dia menos tedioso. Principalmente quando tais escritos são sobre cultura em geral.

Gosto de usar um senso de humor cortante nos meus textos para este site, assim como muita nostalgia, sentimentalismo barato (que pra mim é caro), transformar relatos em memória da minha cidade, do meu estado. Vez ou outra, até fazer velhas piadas com novos idiotas, ser um tanto antipático, chato ou adorável encrenqueiro. E sempre amoroso com minhas pessoas do coração. Sim, gosto disso.

Certa vez, li a frase: “escrever não é desistir de falar, é empurrar o silêncio para fora”, do poeta Fabrício Carpinejar. É esse o papo mesmo; escrever é uma válvula de escape, vicia e extravasa.

Escrevo até sobre o que finjo que acredito. Sabe aquelas pequenas porções de ilusão e mentiras sinceras de que o Cazuza falou? Pois é. Às vezes, detritos do cotidiano, grandeza desprezada, coisas bobas que parecem socos na cara – é bem por aí.

Mas gosto muito mais de escrever sobre o amor, sobre atitudes legais, sobre manifestações públicas de afeto e sobre pessoas admiráveis. Falar ou escrever sobre positividade é tão melhor.

Antes redigia um texto ou mais por dia – e com muita facilidade. Agora, a falta de tempo e os períodos de entressafra de inspiração tornam os autorais mais raros. Quem dera fosse só querer e baixasse o espírito de Rui Barbosa, Charles Bukowski, Mário Quintana, Drummond ou do meu amigo Fernando Canto, e eu começasse a redigir como um gênio. Seria firmeza. Acreditem, um dia lançarei um livro de crônicas e contos.

Em tempo, escrevo para não deixar meus pensamentos parados. Queria poder escrever como Carlos Drummond de Andrade, que disse: “A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.

Como não dá, sigo rabiscando minhas certezas, achismos, incertezas, chatices, amor, entre outro tantão de coisas que vivem neste meu universo particular que gosto de expor aqui. E fim de papo.

Elton Tavares

* Crônica republicada.

Com propósito de vencer, jovem casal empreendedor abre próprio negócio sem dinheiro e muita força de vontade

Ter o próprio negócio é o sonho de muitos, mas poucos arregaçam as mangas e vão à luta. Um exemplo de empreendedorismo é do jovem casal de namorados amapaense Paulo Vinicius Braga e Ana Carla Santana, de 21 e 19 anos, respectivamente.

Quando tinha somente 6 anos, Ana Carla e sua irmã Ana Beatriz tiveram seu primeiro empreendimento. Elas produziam pulseirinhas de miçanga e vendiam numa banquinha em frente à casa onde moram. Mais tarde, com 10 anos, decidiu fazer chopp (em alguns locais é chamado de “sacolé” ou “din-dim”, mas aqui no Amapá é sorvete de suco em saquinho) para vender. Ela não parou mais, seguiu no batalho, vendeu ovos de páscoa, trufas, bolo no pote, sobremesas, tudo feito por ela e sempre com o apoio da mãe e irmã, que é designer e fez a logomarca do que é hoje a @doceamor (segue lá no Instagram).

Os caminhos desses jovens empreendedores se cruzaram há um ano e 10 meses e Paulo, que era motoboy, começou a fazer a entrega dos produtos de sua agora namorada, Ana Carla. Aliás, ele, com 19 anos e somente R$ 100,00 no Bolso, Paulo Vinícius criou uma loja online. O ano era 2018 e ele comprou um estoque (mais do que reduzido) de três camisas para revender. Antes disso, trabalhou por três anos como entregador de uma empresa de Fast food.

Chegou a Pandemia e ficou complicado para comprar material para os produtos que Ana Carla faz.

Eles pegaram o pouco recurso que tinham e compraram algumas peças de roupa. Conseguiram vender tudo e foram renovando o estoque.

Aí veio o grande desafio, decidiram abrir um espaço físico pras duas lojas. A dele de roupa masculina (@streetstylestore__ ) e a dela roupa feminina (@ac_boutiquee_ ). Sigam ambas no Instagram. Eles meteram as mãos na massa. Usaram caixotes, reaproveitam materiais, fizeram os próprios móveis e reformaram um espaço na casa da Carla, mãe de Carla, que sempre manteve o apoio ao casal. Um tio, de nome César e a irmã Beatriz também deram uma força.

Com dificuldades, muito aprendizado, certeza do potencial e força de vontade, o casal segue com as duas lojas. Já deu certo e pelo andar da carruagem, os dois jovens vão longe. Tá aí um exemplo de empreendedorismo, lição de vida de pessoas com pouca idade, muita visão e juízo. Além de coragem e perseverança.

“É emocionante ver o negócio ir pra frente, crescer. Estamos muito animados!”, disse Carla com um sorriso no rosto e um longo futuro pela frente.

Meus parabéns ao dois e à família, pelo apoio.

Elton Tavares, com informações (quase todo o texto) da mãe e irmã de Ana Carla, minhas amigas Carla e Bia.

Seja legal, pois não custa nada

Certa vez, perguntaram por que não gosto de tanta gente. Eu disse que é óbvio: só gosto de quem gosta de mim e de quem presta, ou seja, quem não é mais um canalha disfarçado de gente fina. E não faço questão de que pensem o contrário. Mesmo assim, sou legal.

Vamos por partes: admito que sou genioso, chato com horários e teimoso, mas não sacaneio os outros, não uso ninguém como escada e não tento ganhar cartaz com bajulação. Mas trato todos com respeito no trabalho, em casa ou qualquer outro ambiente social.

São muitos “bom dia, boa tarde, boa noite, por favor, com licença, obrigado e desculpe” ao longo do dia. E é assim que tem que ser mesmo. Sem falar na tentativa de interagir de forma descontraída com as pessoas (nem sempre consigo). Quem me conhece sabe disso.

Resumindo, quem é boçal, frescão, metido a merda ou que pensa que é o “pica das galáxias” em alguma coisa, está errado! A vida é um aprendizado contínuo, ou seja, você pode ter muito conhecimento sobre muitas coisas, mas sempre tem algo a aprender ou precisará de alguém.

Você não precisa ser o simpaticão da parada, mas também não precisa ser mais um canalha – já temos que aturar tantos no dia-a-dia. Portanto, use a educação que tem, ela nunca é demais, respeite as pessoas, sejam pobres ou ricas. Enfim, seja legal, não custa nada. Pense nisso.

Elton Tavares

Sobre insônia e cartas de amor

 


Há quatro anos e pouco, uma amiga disse: “Elton, vou te enviar uma carta”. Eu: “Correio eletrônico?”. Ela: “Não, cara. Uma carta mesmo, escrita em papel, dentro de um envelope e com um selo”.

Pensei: “Égua, pode crê”. Lembrei do tempo que trocava correspondências. Recebi muitas nos anos 90. Esse papo me lembrou histórias e memórias afetivas legais. Pura nostalgia.

Passou uma porrada de lembrança em câmera lenta nesta minha cachola insone.

O mundo mudou tanto e, com ele, a praticidade dos e-mails, redes sociais etc. A comunicação está supersônica nestes dias, mas deu uma saudade daquela sensação de esperar pelo carteiro, abrir e ler os textos açucarados e exagerados daquela época.

Era firmeza receber e enviar cartas. Sou mesmo das antigas – que onda.

Sem nenhuma pretensão ou gabolice, digo-vos: recebi muitas cartas nessa vida. A maioria nem era de amor mesmo. Guardei uma grande quantidade. É, tenho uma caixa grande repleta dessas coisas, pois aproveitei ao máximo o poder e a beleza dos 20 e poucos anos.

Paralelo a essa curtição toda, fiz alguns julgamentos errados; por isso, joguei algumas delas fora – tem coisas que é melhor não guardar em nenhuma caixa, muito menos na memória.

Mas na caixa tem de tudo, desde rabiscos em lencinho de papel de lanchonete, escritos coloridos até cartões tipo de crédito – daquele casalzinho que tinha o slogan “Amar é…” – e uma penca de fotos. Às vezes, o conteúdo era pura pieguice; noutras havia originalidade nas histórias.

Já redigi material suficiente para publicar pelo menos uns três livros, muitos destes textos sobre temas que hoje em dia não fazem nenhum sentido, mas escrevi poucas cartas. E isso é esquisito.

Sobre isso, preciso escrever uma carta com a verdade e endereçar a quem precisa ler sobre o amor. No caso, o meu. Senão, mais que uma lembrança nostálgica da juventude, será uma correspondência não enviada de volta na caixa do meu imaginário. Na verdade, uma chance desperdiçada. É isso.

*Sobre esse texto republicado, Ernest Hemingway disse: “Escreva bêbado, revise sóbrio”. Segui o conselho do mestre (risos).

Elton Tavares

É, eu gosto!

Eu gosto de fotografar, de beber com os amigos e de ser jornalista (talvez, um dia, um bom). Gosto de estar com minha família, do meu trabalho e de Rock And Roll. Eu gosto de café, mas só durante o trabalho, enquanto escrevo. Gosto de sorvete de tapioca, de cerveja gelada e da comida que minha mãe faz. Também gosto de comer besteira (o que me engorda e depois dá um arrependimentozinho).

Gosto de sorrisos e de gente educada. Eu gosto de gente engraçada. Gosto de bater papo com os amigos sobre música, política e rir das loucuras que a religião (todas elas) promove. Eu gosto de chuva e de frio. Gosto de futebol. Gosto dos golaços e da vibração da torcida.

Gosto de ir ao cinema, de ler livros e de jogar videogame. Gosto de rever amigos, mas somente os de verdade e de gente maluca. E gosto de Macapá, minha cidade.

Eu gosto de ser estranho, desconfiado, briguento e muitas vezes intransigente.

Sim, confesso que gosto.

Gosto de viajar, de pirar e alegrar. Gosto de dizer o que sinto. Às vezes, também gosto de provocar. Mesmo que tudo isso seja um estranho gostar.

Gosto de encontros casuais, de trilhas sonoras e de dar parabéns. Gosto de ver o Flamengo ganhar, meu irmão chegar e ver quem amo sorrir. Também gosto de Samba e do Carnaval. Gosto de ouvir o velho Chico Buarque cantar – ah, como eu gosto!

Eu gosto de explicar, empolgar, apostar, sonhar, amar, de fazer valer e de botar pra quebrar. Ah, eu gosto de tanta coisa legal e outras nem tão legais. Difícil de enumerar.

Eu gosto de ler textos bem escritos, de gols de fora da área, de riffs de guitarra bem tocados, de humor negro e do respeito dos que me cercam.

Gosto de me trancar no quarto e pensar sobre a vida. Gosto quando escrevo algo que alguém gosta. Gosto mais ainda quando dizem que gostaram.

Eu gosto também de escrever algo meio sem sentido para a maioria como este texto. Eu gosto mesmo é de ser feliz de verdade, não somente pensar em ser assim. Gosto de acreditar. Como aqui exemplifico, gosto de devanear, de exprimir, de demonstrar e extravasar.

Sangue e amor.

Pois é, são coisas que gosto de gostar. É isso.

Elton Tavares

Homenagem ao Quino – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Quino o insuperável ser do traço.

Se vai Quino, um amado argentino, sua criação nos fez pensar e refletir.

Mafalda, era uma bela menina, traços lindos de uma criança. Tão belos que encantava crianças e adultos, a mais de cinquenta anos.

A menina doce, que com ar angelical questionava como poucos, os problemas políticos, científicos e até de gênero, quando ninguém quase falava nisso.

Influenciando, uma série de artistas, pensadores, políticos e pessoas comuns , como esse que lhe escreve.

Se vai a vida, fica a história.

Agradeço por seus traços, por seus escritos e pelo que muito que aprendi com a adorada Mafalda, uma menina de quase 8 anos que odeia sopa.

Sem ser repetitivo, ou com uma pieguice salutar te digo, você sai da vida, mas já se encontrava na história.

O homem permanece vivo em sua obra.

Obrigado por tudo, Quino. 1932 – 2020.

*Marcelo Guido é jornalista.

 

 

 

Argumentos básicos para você driblar chatos (Millor)

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Millor Fernandes sabia das coisas

Argumentos básicos para você driblar chatos (Millor)

1. Meu amigo, acho que suas conclusões são perfeitamente discutíveis.

2. Confesso que também já pensei dessa maneira.

3. O senhor está sendo deliberadamente parcial.

4. Bem, isso é uma maneira pessoal de ver as coisas.

5. Encarando as coisas desse modo chegaremos à conclusão que quisermos.

6. Mas está claro que esse não é um ponto de vista científico.

Sobre Fernando Canto – Por Renivaldo Costa – @renivaldo_costa

Nosso querido amigo Fernando Canto.

Por Renivaldo Costa

O Fernando Canto é um dos seres humanos mais extraordinários que conheci até hoje. Me permito chamar de “irmão” a poucos amigos. Fernando é um deles. Nos conhecemos há 25 anos, quando ele ainda morava em Belém e desde então estabelecemos uma relação de amizade e apreço. Muito daquilo que escrevo tem forte influência de Fernando. Afinal, cresci lendo seus livros.

Em maio Fernando Canto completou 66 anos, data que nem pudemos comemorar como de praxe em razão da pandemia. Ele nasceu em 29 de maio de 1954 em Óbidos, mesma terra que gerou outros ícones da cultura brasileira como Inglês de Sousa. Suas incursões pela música e literatura são conhecidas pelo Brasil afora, mas creio que o Amapá precisa redescobrir ainda Fernando Canto.

Outro dia, numa conversa com o ex-deputado Antônio Feijão, ouvi o seguinte comentário: “Se tivesse nascido em qualquer outro lugar do mundo, o Fernando Canto seria considerado um legado cultural pelo seu povo. O Amapá precisa olhar mais pelos seus heróis”. De fato. A contribuição dado por Canto ao longo de sua trajetória no Amapá é um legado do qual temos que nos orgulhar. Obras como “O Bálsamo” e “Eqüino Cio” são dignas de premiações internacionais.

Este editor com o Canto. Meu amigo e herói literário.

Ademais, foi somente na gestão de Fernando Canto que a Confraria Tucuju ganhou notoriedade.

Provavelmente uma das maiores contribuições de Fernando Canto à cultura amapaense tenha sido a “marabaixeta”, um marabaixo fora de época que ele idealizou num momento em que esta manifestação passava por momento agônico e corria o sério risco de desaparecer. À época, Fernando sofreu críticas mas hoje – quase 23 anos depois – sua iniciativa pode ser melhor entendida. Hoje proliferam grupos de marabaixo e até já se promoveu um festival dessa manifestação, ideia aliás que nosso sociólogo defendia há mais de 20 anos.

Renivaldo, com Fernando e outros ilustres cidadãos do Laguinho, na “marabaixeta”.

Por fim, encerro esta homenagem relembrando uma história ocorrida com o Fernando Canto e contada pelo saudoso amigo Hélio Pennafort. “Levado por amigos, o Fernando Canto participou de uma animada festança lá para as “blelbas” do furo do Assacu. Conhecendo a rígida disciplina que nesses lugares impera no salão, Fernando, depois de muita excitação, conseguiu aproximar-se de uma brejeira cabocla, triste e solitariamente encostada na desnivelada parede de paxiúba:

A senhorita me permite esta contradança?
– O que ?
– Vamos dançar?
– Num dá. Eu só danço abenetando.

Fernando encabulou. Desencabulou. Novamente convidou. Mas qual… a dama encasquetou: – Já disse, só danço abenetando.

Sociólogo de vastos recursos, imaginou tratar-se de algum passo novo e, quem sabe, poderia adaptar-se a ele no decorrer da contradança. Insistiu: – Mas sim, vamos dançar?

– De novo? Puxa, só danço abenetando.
– Pois eu sei dançar abenetando.
Mas quando?… A Bené num tá.”

Meu céu – Crônica bem humorada sobre o paraíso de cada um (o deste jornalista, no caso)

Há meses escrevi uma crônica sobre como seria o meu “Inferno”. Hoje vou falar/escrever um pouco de como seria o meu céu. Não sei se baterei na porta do céu como Bob Dylan. Nem se vou achar o lugar igualzinho ao paraíso, como sugeriu o The Cure, mas estou atrás da “Stairway To Heaven” do Led Zeppelin. Só não vale ter “Tears In Heaven”, do Eric Clapton. Mas vamos lá:

Meu céu é em algum lugar além do arco-íris, bem lá no alto. Bom, lá, ao chegar ao meu recanto celestial, eu falaria logo com ELE, sim, Deus ou seja lá qual for o nome dele (God; Dieu; Gott; Adat; Godt; Alah; Dova; Dios; Toos; Shin; Hakk; Amon; Morgan Freeman ou simplesmente “papai do céu”) e minha hora já estaria marcada.

Ah, não seria qualquer deusinho caça-níquéis (ou dízimos) não. Seria o Deus de Spinoza, que como disse Einstein: “se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, e não no Deus que se interessa pela sorte e pelas ações dos homens”.

Após este importante papo com o manda chuva do paraíso (tá, quem manda chuva mesmo é o seu assessor, São Pedro, mas eu quis dizer mesmo é do chefão celestial), daria um rolé e encontraria todos os meus amores que já viraram saudade. Ah, como seria sensacional esse reencontro!

Bom, meu céu é todo refrigerado e chove. Chove muito, mas nunca inunda as vielas do paraíso e nem desabriga ninguém por lá. Ah, abaixo dele chove canivetes nos filhos da puta (que não são poucos) que encontrei durante a jornada pré-celestial. Óquei, pode soar meio lunático, mas é o meu céu, porra!

No meu céu não tem papo furado, como no capítulo 22, versículo 15, do livro de Apocalipse. Lá entrarão impuros sim ou seria uma baita hipocrisia EU estar neste céu. No meu céu não toca brega, pagode e sertanejo sem parar, afinal, isso é coisa do inferno. Ah, no meu céu não entra corrupto, pastor explorador, padre pedófilo ou escroques de toda ordem, esses tão lá no meu inferno e eu ainda teria o direito de cobri-los de porrada!

Heaven – Foto: Elton Tavares

No meu céu as pessoas se respeitam, não tentam a todo o momento tirar vantagens do outro. No meu céu, serviços prestados são pagos na hora, chefes são justos e não rola fofoca. Lá não tem puxa-sacos, apadrinhados ou seres infetéticos desse naipe que a gente, infernalmente, convive na terra diariamente.

No meu céu tem churrasco, pizza, sanduba, entre outras comidas deliciosas e que nunca, nunca mesmo, nos engordam (pois é infernal o preconceito fitness). Lá também não sentimos ressaca. No meu céu tem show de rock o tempo todo, com todos os monstros sagrados que já embarcaram no rabo do foguete e a gente curte pela eternidade.

Lá no meu plano celestial não existe a patrulha do politicamente correto, nem gente falsa, invejosa, amarga, e, muito menos, incompetentes. Se tá no céu, se garante, pô!

Não imagino o céu como um grande gramado onde todo mundo usa branco, ou um local anuviado onde anjos tocam trombetas e harpas. Não, o céu, se é que ele existe (pois já que o inferno é aqui, o céu também é) trata-se de um local aprazível para cada visão ímpar de paraíso, de acordo com nossas percepções e escolhas. Bom, chega de ficar com a cabeça nas nuvens. Uma excelente  semana para todos nós!

Foto: Elton Tavares

Eu acho que há muitos céus, um céu para cada um. O meu céu não é igual ao seu. Porque céu é o lugar de reencontro com as coisas que a gente ama e o tempo nos roubou. No céu está guardado tudo aquilo que a memória amou…” – escritor Rubem Alves (que já foi para o céu).

Elton Tavares (que graças à Deus, tem uma sorte dos diabos).

Meu inferno – Crônica infernal, mas bem humorada

Acho que se existir inferno, coisa que duvido muito, cada alma pecadora tem um desses locais de pagamento de dívidas de acordo com suas ojerizas. Nada como no clássico da literatura “A Divina Comédia”, o inferno do escritor italiano Dante Alighieri, que escreveu sobre os nove andares até a casa do “Coisa Ruim”.

Quem nunca imaginou como seria o Inferno? Como seríamos castigados por nossos pecados? Volto a dizer, pra mim o inferno é aqui mesmo. Mas vou pontuar algumas coisas que teriam no meu, se ele está mesmo a minha espera.

Bom, meu inferno deve ser quente. Não tô falando das labaredas eternas com o Coisa Ruim me açoitando pela eternidade. Não. Esse é o inferno mitológico e ampliado da imaginação religiosa. Falo de calor mesmo, tipo Macapá de agosto a dezembro, com quase 40° de temperatura (a sensação térmica sempre ultrapassa isso no couro da gente) e sem ar-condicionado.

Neste inferno, todo mundo é fitness, come coisas saudáveis e é politicamente correto. Meu inferno tem gente falsa, invejosa, amarga, que destila veneno por trás de sorrisos. Ah, meu inferno tem incompetentes, puxa-sacos, gente de costa quente que conta do padrinho que o indicou. E pior, neste inferno sou obrigado a conviver com elas diariamente.

No meu inferno tem gente que atrasa, que me deixa esperando por horas. Ah, lá tem caloteiros e enrolões, daqueles que demoram a pagar serviço prestado por várias razões inventadas.

Neste inferno moldado a mim tem parente pedinchão, “amigo” aproveitador, filas e mais filas para tudo. Tem também muita etiqueta e formalidades hipócritas. E também todo tipo de “ajuda” com segundas intenções. De “boas intenções” o inferno tá cheio.

Neste lugar horrendo só vivo para trabalhar, estou sempre sem dinheiro, sem sexo, sem internet e sem cerveja. Nó máximo Kaiser, aquela cerva infernal de ruim. No meu inferno toca brega, pagode e sertanejo sem parar.

Eu sei, leitor, que devo agora estar lhe aborrecendo. Mas perdoe-me, esta alma é chata e sentimental. Às vezes vivemos infernos mesmo no cotidiano, pois vira e mexe essas coisas aí rolam. Por isso dizem que o inferno é aqui. Ou como explicou o filósofo francês Jean-Paul Sartre, na obra “O Ser e o nada”: o inferno são os outros. É por aí mesmo.

Ainda bem que tenho uma sorte dos diabos e Deus é meu brother, pois consegue me livrar dos perigos destes possíveis infernos cotidianos e nunca fará com que tudo isso descrito acima ocorra por toda a eternidade. No máximo, de vez em quando, para que eu pague meus pecadinhos neste plano (risos).

Esse devaneio deve ser por conta do “inferno astral”, vivido sempre próximo de meu aniversário. Mas volto a dizer, este seria mais ou menos o MEU inferno. Como seria o seu?

Elton Tavares

Que o Bira siga pela luz. Valeu, artilheiro!

Contratado junto ao Remo, Bira fez parte da equipe colorada que conquistou o Brasileirão de forma invicta Juan Carlos Gomez / Agencia RBS

Um dos maiores do futebol amapaense, Ubiratan do Espírito Santo, o popular Bira, subiu hoje. Ele faleceu aos 65 anos, vítima de câncer de fígado. Além de grande artilheiro, ele foi um baita cara porreta.

Bira começou no Esporte Clube Macapá, mas o Fernando Canto disse que eles jogaram juntos no Flamenguinho do Laguinho. Foi campeão de quase tudo que disputou como amador e profissional.

Foto: site do Remo

Bira passou pelo Paysandu, de Belém-PA, mas foi um dos maiores (se não o maior) artilheiro da história do Clube do Remo, também de Belém, e campeão brasileiro invicto com o Internacional de Porto Alegre-RS, em 1979. Ele passou por vários times: Atlético-MG, Juventus-SP, Náutico-PE, Novo Hamburgo-RS, Brasil de Pelotas-RS, Aimoré de São Leopoldo-RS, Tiradentes-PA e encerrou a carreira no Vila Nova, de Castanhal-Pa.

Inter campeão brasileiro 1979 — Foto: Bira Espírito Santo/Arquivo Pessoal

O artilheiro era amigo do meu saudoso pai, Zé Penha. Tem até uma história bacana, de uma das vezes em que ele veio do Sul e fez umas farras legais com papai e com outro amigo nosso, o Augusto Aragão (Nariz). A mãe do Bira foi à casa dos meus avós paternos para que o delegado Espíndola (meu avô que já virou saudade) prendesse um Passat verde zerado que o craque havia acabado de comprar e era a viatura das noitadas. A genitora, com medo de um acidente, fez esse pedido inusitado e foi atendida. O resultado é que o meu pai (goleiro), o Nariz (zagueiro) e o craque seguiram a festejar, de táxi, a vida.

Eu e Bira, em um encontro de trabalho quando ele era administrador do Estádio Zerão, em 2011. Amigo e eterno artilheiro!

Tive o prazer de conviver com o Bira em um período da minha vida, entre 2004 e 2009, e rir bastante dele e com ele, pois o cara era engraçadão, bem-humorado, boa praça e muito gente fina.

Minhas condolências à família e amigos do Bira. Que ele siga pela luz que irradiou por aqui. Valeu, artilheiro!

Elton Tavares

*Fotos: GE/AP – Sites do Remo e Internacional e Jornal do Sul. 

Paulão do atabaque – Por Humberto Moreira (Contribuição de Fernando Canto)

Por Humberto Moreira

Vez em quando, para não perder o hábito, costumo fazer uma releitura de alguns livros, que guardo com carinho na minha pequena biblioteca. Lá estão livros do meu compadre Fernando Canto, alguns de Milan Kundera, livros sobre jornalismo, Fernando Gabeira, livros sobre a saga de Ernesto Che Guevara e outros mais simples. Como aquele que fala sobre um amigo que partiu a bastante tempo.

Foi numa certa madrugada em que eu acabara de chegar de mais uma apresentação musical. Nariz, o Augusto Wanderley Aragão, ligou pra minha casa informando a morte do Paulão do atabaque. Perdi o sono e passei a rememorar as muitas viagens ao Amapá, junto com o Paulão e o Newton. Os dois a bordo de um Opala Cupê, apelidado de General Lee. Eu geralmente ia no meu carro, para poder retornar quando bem entendesse.

Paulão era daqueles que topava qualquer parada. Num sábado de sol, como este a gente já estava com tudo traçado. Se não desse pra ir à fazendinha, junto com o Zeca Sebastião, podia dar pé na estrada rumo ao Amapá, para uma festa no clube dos pescadores. No outro dia, uma esticada até a cachoeira grande e a volta pra casa no final da tarde.

À certa altura, Paulão foi para o Recife, aperfeiçoar seus conhecimentos de pesca. Na volta começou a transportar pesca para a cooperativa, num caminhão. Quase toda a semana lá ia eu, encarapitado na boléia do caminhão, rumo ao Pracuuba. Era uma viagem sensacional. Vez em quando, uma parada para um banho, ali pelo Tartarugal. Na fase final da concretagem da hidrelétrica do Paredão, havia um pessoal que gostava muito de seresta. Só tinha para a gente. Eu, Nonato Leal, Sebastião e Paulão. Era violão, voz e atabaque a noite inteira.

De repente ficamos desfalcados. Paulão foi embora, deixando um vazio danado. Ainda hoje quando encontro o Newton, a gente se lembra dele. Um cara pra quem tudo sempre estava bem. Pra ele não havia dificuldade, nem tempo ruim.

Ainda hoje quando viajo pela BR-156, principalmente naquele trecho que vai do Tracajatuba ao Tartarugalzinho, lembro do meu amigo, ao volante do caminhão, contando piada desde a hora que a gente saia de Macapá até chegar ao nosso destino. Um sujeito descontraído que sempre esteve de bem com a vida. Como explicar sua morte prematura. Não há explicação. Quem sabe lá em cima estava precisando de um cara bom de atabaque, para fazer parte de um grupo musical da pesada.

Em homenagem ao Paulão do Atabaque, o Grupo Pilão, gravou uma canção que diz (uma pena que não a encontrei no Youtube): “Morre o homem fica a fama no coração de quem ama”(Fernando Canto).

*Publicado no Jornal do Dia
**Contribuição de Fernando Canto.
***Fotos: 1-Tica Lemos, Brenna Paula Tavares e Memorial Amapá; 2, 3 e 4: Blog Porta Retrato.

Os 49 anos do disco “Imagine”

Em 9 de setembro de 1971, há exatos 49 anos, John Lennon lançou “Imagine”. Foi o segundo álbum solo de estúdio do ex-Beatle e gênio da música mundial. Produzido por Phil Spector, o disco é um dos trabalhos mais belos e intimistas do sensacional artista. A produção da música contou com a participação de Yoko Ono e de George Harrison nas guitarras.

A canção homônima ao disco estourou e tornou-se a mais tocada nas rádios da época. E virou o hino da geração hippie, que pregava a paz e o amor nos anos 1970.

John Lennon foi um músico, compositor e cantor brilhante, além de um ativista fervoroso. Um artista original, que fazia questão de expressar o que pensava e sentia, ainda que várias vezes caísse em contradição ou criasse confusão com isso. O cara foi, além de talentosíssimo, muito polêmico.

“Imagine”, a faixa-título, mostra o ativismo político e social de Lennon. O disco foi seu maior e mais importante trabalho solo. Apesar de quase cinco décadas depois de seu lançamento, a música-título segue atual, pois o mundo está necessitado demais de paz e de amor.

Sim, o velho Lennon sabia das coisas.

Em 14 de novembro de 2015, a banda Pearl Jam fez um show no Estádio do Morumbi, em São Paulo. Eu tava lá. O grupo americano homenageou, de uma só vez, os mortos nos atentados terroristas em Paris (FRA), ocorridos na noite anterior ao show, e John Lennon (o falecido Beatle completaria 75 anos em 2015). O Pearl Jam tocou “Imagine” e todos no estádio do Morumbi acenderam seus celulares, pois a luz da esperança nunca apaga. Foi emocionante e lindo!

A vida é o que te acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos” – John Lennon

Fonte: Revistas, filmes, discos, livros, sites, amigos e minha imensa admiração por John Lennon.

Elton Tavares