A Generosidade musical de Nonato Leal – Por Fernando Canto (em homenagem aos 92 anos do mestre das cordas)

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Foto: Portal Amazônia

O Amapá precisa preservar, reconhecer e homenagear seus grandes nomes em todas as áreas de atuação. Como sou fã de escritores, compositores, músicos, poetas e artistas, deixo aqui meus parabéns ao mestre das cordas Nonato Leal na crônica lindona do amigo Fernando Canto. O reconhecimento é justo, diante do legado artístico do lendário violonista. Feliz aniversário!

Elton Tavares

Hoje Nonato Leal faz 92 anos. Repito aqui minha pequena homenagem a esse grande músico que por décadas ensinou, influenciou e participou ativamente das atividades musicais do Amapá. Este texto foi publicado no Jornal do Dia, em 12 de julho de 2007″ – Fernando Canto

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Foto: Márcia do Carmo

A Generosidade musical de Nonato Leal
Por Fernando Canto

Nonato Leal vai fazer 80 anos daqui a dez dias. Vai comemorar 70 de música, pois aprendeu a tocar aos dez anos instrumentos de corda com seu pai, que também ensinou seu irmão Oleno Leal, como ele exímio violonista.

Lembro do primeiro contato que tive com esse incrível e generoso músico no final dos anos 70, quando iniciava por conta própria a aprender violão. E foi num dia de Festival Amapaense da Canção, sob a frondosa mutambeira do grupo escolar Barão do Rio Branco que Nonato me viu e me deu a dica de uma passagem de tom na música que eu executava. Depois ele adentrou o ex-cine Territorial para ensaiar sua composição que seria a vencedora do festival, em parceria com o inesquecível poeta Alcy Araújo.

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Foto: SelesNafes.Com

A modéstia do violonista é conhecida por todo mundo junto ao seu inominável talento que atravessou décadas encantando os mais diversificados públicos que tiveram a oportunidade de ouvir seu trabalho. Requisitadíssimo, Nonato Leal jamais se furtou a um bom convite para tocar, pois sempre soube se valorizar, embora nas rodas boêmias fosse um integrante como qualquer outro bom bebedor, um companheiro divertido que nem ao menos se zangava com as piadas que faziam sobre sua terra natal e lhe insinuavam ser o protagonista principal. Vigiense de boa cepa, até hoje adora um bom caldo de cabeça de gurijuba, ao qual atribui ser afrodisíaco, e a fruta do cedro, parecida com o taperebá, que considera o melhor tira-gosto para a cachaça.

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Foto: Márcia do Carmo

Sua participação no crescimento da nossa música foi determinante. Nonato tocou em diversos grupos musicais, ao lado de instrumentistas famosos como Sebastião Mont’Alverne e Amilar Brenha, Hernani Guedes, Chico Cara de Cachorro e Zé Crioulo, Aimorezinho, Manoel Cordeiro e tantos outros. Tocava qualquer instrumento de corda: foi o primeiro artista do Amapá que vi tocando guitarra havaiana. Participou da gravação do LP “Marabaixo” do conjunto “Os Mocambos”, em 1973. Seu programa de rádio “Recital de Nonato Leal” por anos teve audiência assegurada nas rádios de Macapá. Mas foi como professor que disseminou o amor pela música a dezenas de discípulos que hoje ganharam o rumo da profissionalização musical, incluindo aí seus filhos Venilton e Vanildo Leal. Seu primeiro CD “Lamento Beduíno”, editado em 1997, com arranjos de Manoel Cordeiro, esgotou-se rapidamente. Nesse trabalho tive a honra de escrever um texto a pedido dele, do qual reproduzo o primeiro parágrafo:

Cultura Amapá - Nonato Leal e Zé Miguel no programa Amazônia Musical da Rádio Difusora
Foto: Chico Terra

“A saudade de Macapá me fez sintonizar ao acaso a Rádio Neederland em uma noite fria e triste em Belo Horizonte no ano de 1974. De repente um solo de violão me chamou a atenção. Tratava-se de uma música com temática oriental, muito bonita e bem executada, chamada “Lamento Beduíno”, do professor Nonato Leal, de Macapá, Território Federal do Amapá, Brasil, dizia o locutor daquela rádio holandesa. Vibrei! Coincidência ou não a história mudou meu astral e motivou um porre de pavulagem bairrista. Pena que ninguém que eu conhecia tivesse ouvido o programa. Tempos depois soube que fora o radialista Edvar Motta que enviara uma fita com músicas do Nonato para lá”.

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Parabéns, mestre das cordas!

No dia 23 Vigia e Macapá estarão radiantes, não só pelas 80 “risonhas primaveras” do Nonato, mas pela generosidade musical que irradia desse artista excepcional, que merece mais do que uma comemoração. Merece o reconhecimento e a gratidão de todos que gostam da boa música.

*Republicado em homenagem aos mestre das cordas. 

Sou uma anamorfose ambulante!

Certa noite de 2010, por sinal muito divertida, eu e alguns amigos conversávamos no Bar Norte das Águas, sobre sermos as “ovelhas negras” de nossas respectivas famílias. Em um momento brilhante, minha amiga e mestra em Psicologia, Janisse Carvalho, disse: “Nós somos anamorfoses”. Claro que nenhum de nós entendeu o significado do termo. Leiam o texto:

Sou uma anamorfose ambulante!

Por Janisse Carvalho (*)

Uma anamorfose (do grego anamorphosis) é uma imagem deformada que aparece em sua verdadeira forma quando visto em alguns “não convencionais” caminhos. É a representação de uma figura (objeto, cena, etc.) de maneira que observada frontalmente parece distorcida ou mesmo irreconhecível, tornando-se legível quando vista de um determinado ângulo, a certa distância, ou ainda com o uso de lentes especiais ou de um espelho curvo.

As anamorfoses sociais têm sido estudadas pela psicologia social, o professor Antonio da Costa Ciampa, da Universidade de São Paulo (USP), compara o conceito que vem das artes visuais com as chamadas personas non gratas de nossa sociedade, os marginais. Aqueles que burlam as regras!

Uma anamorfose se diferencia do comportamento corrupto, pois este é carregado de mau-caratismo e se caracteriza em querer se dar bem em cima dos outros. As anamorfoses são almas transgressoras que, segundo o rabino Nilton Bonder, líder espiritual da Congregação Judaica do Brasil e autor do livro “Alma Imoral”, são necessárias para a evolução do mundo.

Em sua obra, Bonder compara o sujeito que deu o primeiro passo diante do Mar Vermelho como um transgressor. Ou seja, uma anamorfose é o sujeito que, por não concordar, consciente ou inconscientemente, com o que lhe é imposto, com aquilo que o oprime de alguma maneira, transgride!

Eu diria que pessoas consideradas “loucas” por muitos, em suas respectivas épocas, eram anamorfoses. Ícones como Van Gogh, Pablo Picasso, Raul Seixas, Janis Joplin, Jimmy Hendrix, Freud, Chico Xavier, Nietzsche, Jesus, etc. O problema não está em cometer erros, está em não compreender os sentidos que estes mesmos erros podem alcançar e significar para a sociedade o que está por trás deles. Anamorfose é, no final das contas, outra forma de dizer a verdade! Por isso são, na sua grande maioria, incompreendidas.

Diante da explicação de Janis (como chamamos nossa ilustre e inteligente amiga), brindamos a nossa saúde, as ovelhas negras, ou melhor, anamorfoses. Daí, o resto da noite foi regado a dezenas de boêmias bem geladas e muitos outros assuntos interessantes, como sempre. É por essas e outras que adoro essa galera. “Mas louco é quem me diz que não é feliz…”

(*) Janisse Carvalho é psicóloga, militante da Cultura, professora universitária, atriz e professora de Teatro

Randolfe diz que MP 871 é direcionada contra os mais pobres

Em vídeo publicado em suas redes sociais, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) explica o motivo de ter votado contra a Medida Provisória 871 votada no Congresso Nacional. Ele diz, entre outras coisas, que a MP limita o direito que os cidadãos têm à pensão por morte.

Segundo o parlamentar pelo Amapá, o direito à pensão por morte fica limitado a ser solicitado só por 180 dias. Randolfe diz também que a MP prejudica os pescadores, entre eles os da Amazônia, uma vez que esses trabalhadores não vão mais poder convalidar aposentadorias.

O senador ainda diz que a Medida Provisória 871 é direcionada a atingir principalmente os mais pobres. “Se o governo quer mesmo combater fraudes na Previdência por que não começou cobrando as dívidas milionárias dos mais ricos, entre eles alguns dos seus apoiadores na campanha presidente?”, conclui Randolfe Rodrigues.

Fonte: Diário do Amapá

Jogos e cooperação social – Crônica de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

Certa vez, ao falar para um grupo de jovens sobre cultura e lazer, citei Câmara Cascudo, um dos estudiosos brasileiros mais cultos do seu tempo, folclorista e etnólogo, que costumava afirmar que o uso do jogo, o desejo de brincar é uma permanente necessidade humana. Para ele o exercício lúdico é a expansão do saldo energético que o homem (ou a criança) não pôde aplicar a uma atividade produtora, e essa disponibilidade de brincar não abandona o homem em toda a sua existência. A brincadeira, diz o folclorista, é o processo iniciador da criança nos domínios da psicologia, da dinâmica fisiológica, memória, inteligência, raciocínio, vontade, virtudes de honra, disciplina, lealdade e obediência às regras. A terminação de um brinquedo, para a criança, é sempre um momento tirânico, insuportável e incompreensível.

Historicamente essas observações já eram compreendidas pelos povos mais antigos. Nas cidades gregas os jogos eram considerados como essenciais para o treinamento de guerra, tendo, para isso treinadores especiais. Mas nem sempre a chamada “união do corpo e mente” fera respeitada. Às vezes os atletas eram proibidos de frequentar jantares sob o argumento que as conversas inteligentes lhes dariam dor de cabeça.

Para os historiadores os jogos olímpicos eram uma espécie de combinação de rito religioso e esporte, e só os vitoriosos ganhavam prêmios financeiros de vulto. Os perdedores eram ridicularizados e humilhados. Por isso era compreensível que muitos atletas estivessem dispostos a lutar até morrer para ganhar jogos como a “corrida de carruagens” e o “pancratium”, uma luta livre muito sangrenta.

Em certas sociedades os jogos são realizados mais para promover a cooperação. O antropólogo Dennis Werner nos conta que os índios Xavantes, do Mato Grosso, também gostam muito de esportes. Eles vão para o mato em duas equipes, cortam uma tora de buriti, de aproximadamente 1,0 metro, colocam-na nos ombros de um de seus membros e correm para a aldeia, passando, de vez em quando, a tora para outro membro da equipe. A “corrida de toras” é um rito cerimonial, mas ao contrário dos gregos, os índios não têm o espírito competitivo. Para eles não importa qual é a equipe que alcance primeiro a aldeia. O que importa é que cada homem dê o melhor de si para carregar a tora, e que a cooperação entre eles seja boa. Entre os Xavantes não existem jogos “até a morte”, afirma o antropólogo, que explica ainda que em sociedades pequenas as pessoas se conhecem muito bem e não precisam de “concursos” para distinguir habilidades de pessoas diferentes. E, como a competição poderia prejudicar a cooperação necessária para muitas tarefas comunitárias, é melhor evitá-la.

Entre os Mekranoti, existe uma curiosidade: quando jogam futebol brasileiro os gols não são contados. Eles apenas notam, informalmente, que está se esforçando bem e quem não está. Assim um esporte pode ser combativo sem ser competitivo. Em algumas tribos se praticam lutas corporais, mas ninguém é declarado vitorioso. Essa correlação, segundo Sipes, desmente o argumento de que os esportes servem como “válvula de escape” para sentimentos agressivos. Serok e Blum afirmam em suas pesquisas que os delinquentes juvenis preferem jogos físicos e de acaso (bingo), enquanto os não-delinquentes preferem os de estratégia, como o xadrez.

Diante disso seria interessante motivar os delinquentes para jogos que envolvem mais estratégias e menos fatores de casualidade. Útil seria, quem sabe, até se mirar no exemplo dos nossos índios.

Hoje é o Dia Internacional da Liberdade de Imprensa – A verdade precisa ser livre!

Hoje é o Dia Internacional da Liberdade de Imprensa. Eu, como jornalista, primo pela divulgação da verdade, afinal, o cidadão precisa saber o que acontece, seja no mundo, país ou sua cidade. O direito de saber a verdade é uma das bases da Democracia.

O Dia Mundial da Liberdade de Imprensa foi criado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), em 1993. A data visa alertar sobre as impunidades cometidas contra centenas de jornalistas que são torturados ou assassinados como consequência de perseguições por informações apuradas e publicadas por estes profissionais.

De acordo com o conceito, Liberdade de Imprensa é um dos princípios pelos quais um Estado democrático assegura a liberdade de expressão aos seus cidadãos e respectivas associações, principalmente no que diz respeito a quaisquer publicações que estes possam pôr a circular.

Perfeito, pois a Imprensa é a denominação do trabalho informativo pelos veículos de comunicação que desempenham o Jornalismo e outras funções de comunicação. Posso me gabar de nunca ter inventado nenhuma linha do que escrevi (a não ser em contos, claro). Nunca ganhei sequer um centavo no jornalismo que eu não tivesse trabalhado para tal e muito menos puxei o saco para conseguir algo. Também já fiz denúncias e peitei figurões neste site aqui. Nem todos podem dizer isso.

Sou fã de muitos bons jornalistas do Amapá e do resto do Brasil, que investigam, apuram e publicam informações de forma livre e sem censura.

Dizem que ofendo as pessoas. É um erro. Trato as pessoas como adultos. Critico-as. É tão incomum isso na nossa imprensa que as pessoas acham que é ofensa. Crítica não é raiva. É crítica, às vezes é estúpida. O leitor que julgue. Acho que quem ofende os outros é o jornalismo em cima do muro, que não quer contestar coisa alguma. Meu tom às vezes é sarcástico. Pode ser desagradável. Mas é, insisto, uma forma de respeito, ou, até, se quiserem, a irritação do amante rejeitado” – Paulo Francis.

O jornalismo não sabe que há o abatimento moral, o cansaço, a fadiga, o repouso. Se ele repousasse, quem velaria pelos que dormem?” – Eça de Queirós.

Enfim, vida longa a Liberdade de Imprensa. Que com ela nós continuemos a informar o povo, combater injustiças, fiscalizar, denunciar, contrariar interesses de grupos, instituições ou qualquer agente danoso para a sociedade, dar informações exclusivas, fazer análises sérias. E sem medo de processos, com o direito de ocultar a fonte.  É isso!

Elton Tavares

Quando eu gosto, gosto. Mas quando odeio, odeio…*Republicado

Sabem, mesmo ao conhecer a Doutrina Espírita e o lance do Karma, baseado na ação e reação que ecoa durante as existências, não consigo me libertar de certos sentimentos ruins. Vou explicar.

Tento fazer o bem para todos, tanto aos meus, quanto aos estranhos. Tento mais ainda não fazer mal a ninguém, pois como diz um velho ditado: “muito ajuda quem não atrapalha”.

O problema é quando pego raiva, ódio ou nojo de alguém….sobretudo de pessoas que me sacanearam sem eu ter feito nada a elas. Sou um sujeito que assume erros e muitos desafetos tem razão em suas antipatias para comigo. Mas porra, quando tô inocente na parada e vem filha da puta tentar armar arapucas para este gordo, aí é foda.

Até quando não gosto, deixo quieto, pois prejudicar alguém é muita canalhice e não luto com essas armas. Quando precisam de mim, tento sempre resolver os problemas das pessoas. Se for um familiar ou amigo querido, resolvo de qualquer jeito.

Mas quando nutro antipatia, forte ou fraca, por uma criatura, não a quero por perto, pois somente sua presença me incomoda. Ajudá-la em algo então, nem pensar. Meu espírito não alcançou tal grau de evolução. Somente tento ignorar a praga e sem dar chances de aproximação.

No caso de ex-amigos, faço como Jorge Amado e seu “cemitério particular: “possuo um cemitério meu, pessoal, eu o construí e inaugurei há alguns anos, quando a vida me amadureceu o sentimento. Nele enterro aqueles que matei, ou seja, aqueles que para mim deixaram de existir, morreram: os que um dia tiveram a minha estima e perderam”.

Assim mesmo! Volto a dizer, não faço nada contra ninguém, a não ser que estes filhos da puta insistam em me sacanear. Aí, sim. Terão o inferno, pois sou um bom e terno amigo, mas um inimigo focado em devastar quem ameaça minha paz.

Portanto, se gostam de mim, não me peçam para ser falso ou dissimulado para com os desafetos. Não consigo, pois sou verdadeiro demais. Os que amo sabem que os amo. Igualmente os que odeio ou desprezo. É isso.

Elton Tavares

*Republicado por conta de situação parecida, com pessoas diferentes. É foda!

Poema de agora: A Maiakovski. Poeta Russo – Luiz Jorge Ferreira

A Maiakovski. Poeta Russo

Um dia eles nem chegam!
Já estão escondidos nas sombras que nos acompanham, por todos os lugares.
E nós não vimos, nem sentimos seus cheiros podres, nem sentimos suas mãos nos pescoços.

Simplesmente porque ainda fazem isto só com os outros.

Certo dia em que estamos comprando ovos da Páscoa.
Eles entregam armas aos moleques sem cor dos aglomerados.
Mas com medo neste momento levantamos do sofá, e desligamos a Televisão para não saber mais disto.

Uma noite eleito por nós mesmos, eles se reúnem, e criam facilidades para o domínio.
Empilham placas na rua,
para que indefesos andemos a mercê dos sádicos.

Criam leis para retirar nossas armas, e facilitam a liberdade dos ladrões, e assassinos.

Mas como o domínio ainda nos permite ir a praia – Não protestamos.

Certo dia acordamos com eles em nossas casas, em nossas mesas, em nossas camas, em nossas almas.

Nesse dia, sentiremos seus cheiros podres, seus dentes podres, seus gestos bruscos, e seus torniquetes no pescoços.

Seremos proibidos de ir a praia, caminhar sob o sol, e inocentemente tomar sorvete.

Ansiosos vamos procurar reunir todos para criar uma saída.

Mas então! – Todos serão ninguém, e eternamente!
Será muito tarde.

Luiz Jorge Ferreira

* Do livro Tybum.

Ayres Britto: “Ou a liberdade de imprensa é completa ou é um arremedo de liberdade”

Do ministro aposentado do Supremo Ayres Britto, relator da ação que derrubou a antiga Lei de Imprensa, editada no regime militar:

“A Constituição não diz ‘é livre’, diz ‘é plena a liberdade de informação jornalística’. Então é um sobredireito. E o pleno é íntegro, é cheio, é compacto, não é pela metade. Então, ou a liberdade de imprensa é completa, cheia, íntegra, ou é um arremedo de liberdade de imprensa. É uma contrafação jurídica”.

Fonte: Espaço Aberto

Ilha de calor – Por @rebeccabraga

Belém – PA – Foto: Elton Tavares

Por Rebecca Braga

Era por volta das 10 da manhã quando cheguei em casa. Um gole longo de água. Subi as escadas até o andar superior enquanto tirava a roupa e largava em cima da cama.

– Como é quente esta cidade. – Falo pra mim mesma.

Sempre achei que Belém fosse mais quente que Macapá. Deve ser porque, quando criança, ouvi alguém dizer que:

– Belém é uma ilha de calor.
-Ilha de calor?
– Sim. Sabe quando o ar quente fica dentro da cidade? Deve ser por causa dos prédios…
– Ah, entendi. Deve ser mesmo.

Pesquisei o que é uma ilha de calor. Não é E-XA-TA-MEN-TE isso, mas quase. Então serve, por enquanto.

Macapá – AP – Foto: Elton Tavares

Quando me perguntam se Belém é mais quente que Macapá, sempre digo que tenho essa impressão, mas que deve ser porque eu me acostumei em morar numa cidade que tem uma orla por onde se pode andar de um lado a outro da cidade vendo o Rio Amazonas, não uma paisagem, mas um elemento que não se pode ignorar. O vento, o som, o cheiro. Tudo que vem dele habita os dias.

Em Belém, a orla tem portos prédios lojas aos montes. E num lugar ou outro você vê a sombra de um Guamá no fundo e nesse ou naquele lugar é possível sentar à beira do rio. Sinto falta do passeio de carro olhando o rio que quando seca vai longe da margem e deixa nu um chão de areia e lama, com cheiro úmido de água doce e esgoto.

Rio Amazonas – Macapá – Foto: Floriano Lima

Não se trata de ser um melhor que outro. Trata-se de que são diferentes, e me despertam diferentemente.

Também acho Belém mais úmido. E isso acho por causa dos três dias que a roupa leva pra secar, se não chover e ela secar e molhar várias vezes, até perder o cheiro de cachorro molhado, como diria… não lembro exatamente quem.

Foi minha mãe que me chamou atenção pra isso. Sinto saudades de minha mãe. Ela sempre tem um cheiro fresco de pele recém lavada. Sinto falta do som que os passos dela fazem.

Belém é uma cidade violenta. Não preciso dos dados pra dizer, mas você pode conferir.

Andando na rua tenho medo de assalto, mas em certo período do ano tenho mais medo de manga. Sim, de uma manga cair na minha cabeça. Acho que uma manga pode matar alguém, ou fazer um bom estrago.

Ver-o-Peso – Belém (PA) – Foto: Luiz Braga

A rua onde moro tem casarões antigos. É a parte velha da cidade. Se eu caminhar pra minha esquerda, até o fim, chego no rio, e no Ver-o-peso. Lá o cheiro é forte de patchuli, maniva e cocô de galinha. Mas não só isso. Cheira a peixe frito, açaí do grosso, farinha baguda. Fala-se alto, é preciso se ouvir entre as bicicletas com alto falantes que tocam os bregas clássicos e vendem pendrives com centenas de flashbacks. – Só os melhores, freguesa!

Se eu andar pra direita chego ao antigo presídio da cidade. Lá tem loja pra turista, um polo joalheiro e um museu que guarda objetos que os presos usavam pra seviciar os desafetos. Senti um profundo mal estar nesse lugar. Também tem uma capela linda. Deve ser de São José. Curiosamente, padroeiro de Macapá.

Curioso mesmo é que esse texto nasceu não para comparar Belém com Macapá, o que acho tedioso quando me pedem pra fazer. Mas porque acordei de um cochilo inapropriado nessa manhã. Molhada de suor e pensei que Belém era muito quente, e muito úmida, como uma vagina excitada. Ou como várias vaginas excitadas. De tamanhos e formas diferentes. Pingando. Crescendo. Pulsando em gozo frenético e violento. Minha Belém é uma vagina excitada.

Sobre fofoqueiros – Papo certeiro de @rubalieiro

Creio que o (a) fofoqueiro(a), além de infeliz, é medíocre e frustrado(a). Necessita falar mal do outro porque nada tem de bom para demonstrar ou falar de si. É, no fundo, um(a) invejoso(a) também, porque a vida do outro lhe parece melhor que a própria – e ainda desvia a atenção das suas faltas pessoais. O (a) fofoqueiro(a), quando no ofício de mal falar, diz mais de si que do outro. Tenho dó!

Digo isso porque já fui vítima de invencionices por gente que, no fundo, queria vivenciar o que vivo e ter das pessoas e do mundo aquilo que tenho. Ao final, o futrico só afundou a pessoa na lama da própria miséria e do mal-querer dos demais. Enfim, “sifudeu”!

É como diz a minha mãe: “galho podre cai sozinho”.

Rúbia Balieiro

1984 – O ódio como forma de controle social – Via @giandanton

 


Assim como Farenheith 451, de Ray Bradbury, e Admirável Mundo Novo, de Adous Huxley, 1984 é leitura obrigatória para nossos tempos. Se Robison Crusoe e Gulliver são livros fundamentais para entender o humano, esses três livros são essenciais para entender regimes que tiram dos indivíduos sua humanidade e individualidade.

Não é por acaso que os três foram escritos no século XX, período em que surgiram regimes autoritários de esquerda e de direita.

Embora erre ao imaginar que esses regimes seriam impostos às pessoas (é cada vez mais óbvio que são as próprias pessoas que optam por esses regimes pois eles são mais confortáveis, algo muito bem explorado no livro de Bradbury), Orwell acerta em muitas características desses regimes. Algumas delas:

– A crença em um salvador da pátria, em que alguém que irá salvar a todos, levando-os ao paraíso na terra.
– O grupo se sobrepondo ao indivíduo.
– E o principal deles: o ódio. Não é por acaso que um dos momentos mais importantes do livro são os cinco minutos de ódio. Regimes autoritários são construídos a partir do ódio. O ódio a quem é diferente, o ódio a quem pensa diferente. Um medo que se transforma em ódio, pois as pessoas são convencidas de que há um eterno perigo e a única salvação é o ódio, é a eliminação de quem pensa diferente do líder.

Fonte: Ideias Jeca Tatu

Moedas e Curiosidades – “Notegeld da Amazônia” – Por @SMITHJUDOTEAM

Por José Ricardo Smith

Depois de uma longa e sofrida procura, finalmente encontrei e adicionei na minha coleção as cédulas literárias “Palavras”. A moeda social intitulada “Palavras” foi criada para ser utilizada na compra de obras literárias durante a II Feira do Livro do Amapá (FLAP), que se realizou no período de 26 de outubro a 1° de dezembro de 2013 em Macapá-AP.

Como tema “Leitura e Sustentabilidade”, a II Feira do Livro do Amapá foi uma excelente idéia para cultivar o hábito da leitura nos estudantes e o público em geral, e para isso contou com a seguinte programação: venda de livros, exposições, palestras, mesas de debates e apresentações de artistas em vários pontos da capital amapaense.

A moeda literária “Palavra” homenageia escritores e personalidades do Amapá, com valores e cores específicos nas cédulas.

O maranhense Simão Alves de Souza (1932-2019), conhecido como “Simãozinho Sonhador” ficou famoso por escrever poesias de cordel. Ao todo foram 22 livros escritos pelo ex-malabarista de circo, entre eles o “ABC da Mulher”, obra mais famosa do poeta.

O paraense Antônio Munhoz Lopes (1932-2017), conhecido como “Prof. Munhoz” dedicou quase 60 anos de sua vida à educação, poesia, música e história do Amapá.

O paraense Alcy Araújo Cavalcante (1924-1989), foi um escritor, poeta e jornalista que veio para Macapá em 1953. Alcy sempre esteve envolvido com as atividades culturais e intelectuais no Amapá, principalmente a literatura.

A paraense Zaide Soledade (1934-2015), apaixonada pela educação a professora Zaide foi estudar Pedagogia para aprender e ensinar melhor. Estudou também: Artes Dramáticas, Educação Física, Letras e Artes, entre outros cursos, inclusive na área de saúde.

A paraense Aracy Miranda de Mont’Alverne (1913-2002), conhecida como professora Aracy, teve brilhante atuação como poetisa, declamadora, musicista, escritora e teatróloga no estado do Amapá.

* José Ricardo Smith é professor e numismático.

O COCÔ DA LUA…Relato curioso de Renivaldo Costa

Por Renivaldo Costa

Uma vez minha mãe chamou Caroline Belfor, minha esposa, e pediu que a acompanhasse no quintal. Lá mostrou uma pasta de cor amarela que identificou ser o cocô da Lua e disse a queima-roupa: “Ou você está grávida ou alguém da família vai engravidar”. Foi batata: dias depois duas cunhadas anunciaram que estavam esperando bebê. Lembrei hoje dessa história.

A “merda da lua”, a que minha mãe se referia, consiste numa pasta amarela sem cheiro que aparece de manhã bem cedo, após noite de lua cheia no chão parecendo que caiu do céu por deixar rastros invariavelmente de cima para baixo. Para o marajoara, a lua caga quando alguma coisa está errada avisando algum mau agouro e principalmente denunciando que alguma mulher próxima a casa onde a lua cagou está grávida.

MAS PERA LÁ, É PAQUERA OU É ASSÉDIO? – Por Mariana Distéfano Ribeiro

Por Mariana Distéfano Ribeiro

Eu escrevo muito sobre feminismo. E escrevo porque falo e estou sempre refletindo sobre as situações da vida que a gente passa e que outras mulheres passam. É assim que acontece, depois que a gente desperta a mente, os ouvidos, os olhos e os sentidos, é que a gente descobre que devia ter reagido a muitas situações que passamos e vimos passar e que nem tudo é brincadeirinha e nem sempre é sem querer.

Mas, depois de escrever e revisar alguns textos sobre feminismo, depois de repensar algumas atitudes e reações minhas, fiquei imaginando se eu poderia ter exagerado em alguma coisa ou de alguma forma. É que detesto incoerência, em qualquer lugar ou qualquer coisa. Ainda mais quando percebo desconexão lógica e argumentativa em alguma coisa que falei ou que escrevi.

Porque, quem nunca riu de uma piadinha de putaria? Quem nunca ouviu um “ê lá em casa” e até curtiu? Aí me perguntei: mas um “ê lá em casa” é assédio ou é uma cantada? Eu posso ser feminista e gostar de ouvir um funk de mexer a raba? Uma cantada chula, é só xaveco ou pode se transformar num assédio?

Aí, mais uma vez, depois de refletir um pouco, a ficha caiu e minhas dúvidas foram sanadas. Então vamos lá, vamos esclarecer esses pontos.

Direto e reto: a diferença entre assédio e cantada está no CONSENTIMENTO. Se você está numa festa de carnaval, por exemplo, e um cara chega em você pedindo um beijo, com uma cantada bem escrota do tipo “ei gostosa, vamo dar uns pega?” e você diz “ah, num tô fazendo nada, bora lá” – isso não é assédio! É uma cantada, é só uma paquera, porque teve o seu consentimento.

Agora, se o cara chega com a mesma cantada e você diz “não amigo, muito obrigada”, e o cara insiste com um “ah coé? Eu vi você beijando vários caras já, vamo dar uns amasso…” e você insiste que não quer, aí o cara insiste que quer e te xinga ou te puxa à força, aí sim é assédio. Aqui não houve o seu consentimento, você demonstrou a sua recusa, disse claramente que não. Entendeu?

Tudo depende do bom senso de cada um e do limite de tolerância que cada um tem. Mas fato é: se alguém te abordar de qualquer forma, desde que não haja violência física, e você demonstrar não gostar da abordagem, deixar claro que não quer, e a pessoa te deixar em paz, não há assédio, nem abuso. Talvez uma ofensa à sua honra, à sua moral, ou aos seus princípios, mas aí já é outra história.

Fato é que, se a pessoa respeitou o seu “não” e parou de fazer o que quer que seja que estivesse fazendo, não estará configurado o assédio.

Mas isso não quer dizer que você precise aturar aquele coleguinha que toda vez que te encontra te abraça como se estivesse se esfregando em você, nem que você precise escutar calada aquela piadinha sexista que te ofende. Nesse caso, deixe claro que você não concorda com aquela abordagem ou com aquele comentário. E não tem que ter medo de falar. Tenha certeza, sempre vai ter alguém falando que você está exagerando. Deixa falar e seja firme.

A figura feminina foi legalmente e culturalmente tão oprimida e por tanto tempo que é meio difícil mesmo quebrar esse paradigma agora. Mas as paqueras e as cantadas saudáveis são muito bem vindas sim, desde que sejam consentidas.

Vovó já dizia “o que um num quer, dois não fazem”. E se o um insistir, é assédio sim.

*Além de feminista com orgulho, Mariana Distéfano Ribeiro é bacharel em Direito, servidora do Ministério Público do Amapá e adora tudo e todos que carreguem consigo o brilho de uma vibe positiva.