A entressafra criativa – Crônica de Elton Tavares (com ilustração de Ronaldo Rony)

Crônica de Elton Tavares

De tempos em tempos, não consigo filosofar, mesmo que de forma barata, sobre a vida. Antes redigia um texto por dia com tanta facilidade. É, nem escrevo mais tanto sobre boemia, um de meus assuntos prediletos. Quem dera ter o dom de poetizar ou redigir uma crônica sobre uma invenção qualquer.

Essas insônias solitárias, na companhia de livros, fotos, papos virtuais e a madrugada com a trilha sonora recheada de The Cure promovem uma mistura de sensações e doideiras. Sobre isso, não basta neste momento para um bom texto.

Aí volto a tentar escrever algo legal, seja sobre o trabalho, este novo blog e todas as possibilidades…

Quem sabe sobre amigos.

Nada.

Me faltam ideias.

Normal, é a “entressafra criativa”. Talvez sobre o dia a dia de um assessor de comunicação-jornalista-editor? Nada…quanta tolice!

Quando ocorre, substituo o conteúdo feito de invenção por posts informativos. Claro que com referências e assuntos que acho que são relevantes.

O jeito é canalizar a energia para leitura, afinal os livros sempre fertilizam as ideias e aquecem a paixão pela escrita sobre tudo, até os sonhos. É, vou ler um pouco e tentar dormir. Tomara que amanhã eu vá à forra, viva mais, experimente mais dessa experiência que é existir, e assim, a entressafra criativa vá embora.

Por enquanto, vamos aos sonhos – outra maneira de encontrar com o lúdico de viver. É isso!

Orlando Júnior gira a roda da vida. Feliz aniversário, brother! – @Orlando_Fla_Jr

Tenho alguns companheiros (brothers) com quem mantenho uma relação de amizade e respeito, mesmo a gente com pouco contato. E graças à Deus ou qualquer que seja o nome da força que rege tudo, muita gente já me ajudou na vida profissional. Uma das pessoas se encaixam nestes dois casos é Orlando Júnior, que gira a roda da vida neste vigésimo oitavo dia de fevereiro e lhe rendo homenagens.

Professor universitário, bacharel em Direito, servidor do Tribunal Regional Eleitoral do Amapá (/TRE-AP), ex-jogador de futebol, dirigente de carnaval, remista enjoado, flamenguista fervoroso, fã de Rock and Roll, pai e marido dedicado, além de meu brother, Orlando Júnior é um baita cara porreta!

No início de 2013, comecei a trabalhar na assessoria de comunicação do TRE. Cheguei com muita vontade de fazer valer a grande oportunidade profissional em 8 anos de jornalismo (na época). Orlando foi a primeira pessoa que entrevistei. Ele me ajudou muito na minha passagem pela Justiça Eleitoral.

Sempre sério no Tribunal, o cara é um gozador fora de lá. Gente boa pra caramba e com afinidades descobertas, nos tornamos amigos. Ele está no grupo de amigos que fiz nos quatro anos que trampei no TRE.

Com o Orlando, já passei perrengues de trampo em Macapá e no interior. Viajamos juntos algumas vezes e ele sempre foi parceiro. O baixinho, que é invocado quando preciso, vive me chamando de gordo. Ambos os apelidos apropriados (risos). Além de inteligente, o cara é malandramente safo, pois “manja das paradas”, por assim dizer.

A gente nem sempre consegue fazer amigos no trabalho. Tenho a sorte de conseguir na maioria das vezes e o Orlando é mais um grande parceiro que o trampo me deu. De vez em quando, a gente molha a palavra, bate muito papo, escuta som e ri. Dou valor nesse cara e boto fé que o consideramento é recíproco.

Orlando, mano velho, que teu novo ciclo seja ainda mais paid’égua. Que sigas com essa garra, sabedoria, coragem e talento em tudo que te propões a fazer. Que a Força sempre esteja contigo. Saúde e sucesso sempre, amigo. Parabéns pelo teu dia e feliz aniversário!

Elton Tavares

Quarta-feira (que já foi) de cinzas – Crônica de um estranho Carnaval de Ronaldo Rodrigues

Ilustração de Ronaldo Rony

Crônica de um estranho Carnaval de Ronaldo Rodrigues

Nesta quarta-feira (que já foi) de cinzas, abro a janela para o dia e não estou cansado de ter sambado na Banda. Este ano a Banda não passou e deixou meu coração folião ressacado de saudade. E olha que nem sou um folião fanático. Apenas, de vez em quando, deixo meu espírito se fantasiar e saio a bailar ao som de qualquer batucada ou mesmo embalado pela tradição de grandes sambas que o Brasil ostenta. Isto me tira um pouco do trauma que é não saber sambar sendo do País do Carnaval. Desculpa aí, gente! Já me basta a carga de ser do País do Futebol e não ter a mínima intimidade com a redonda. E antes que me perguntem você samba de que lado, de que lado você samba, você samba de que lado, de que lado você samba, de que lado, de que lado, de que lado você vai sambar, já adianto que o samba está em mim de todo lado, pois meus domingos infantis e juvenis tiveram a trilha sonora de Paulinho da Viola, João Nogueira, Clara Nunes, Alcione. Como ficar imune ao feitiço desse gingado e dessas letras que vão fundo no que é mais profundo?

Porque é Carnaval e não é Carnaval, o samba vem à tona. Em qualquer esquina eu paro, em qualquer botequim eu entro. O samba é revolucionário e rebelde, porque ouço samba no som de Sérgio Sampaio e Tom Zé (e se for além, em Raul também). Então o samba me leva, me eleva e, a quem pergunta onde estou, diz que fui por aí. E desde que o samba é samba é assim.

Mesmo sendo um cara um tanto do rock, minha alma batuca numa caixinha de fósforos, onde cabe toda uma bateria de escola de samba. Alcanço até os acordes de um tamborim que me arrebatam os sentidos. O pandeiro estica no couro a malemolência de quem me diz para não deixar o samba morrer, não deixar o samba acabar. O samba pulsando no asfalto, nos vozeirões dos Jamelões, intérpretes de samba-enredo das escolas de samba deste meu Brasil, que me faz tirar o chapéu para Cartola e abraçar a Vila de Martinho e Noel.

O Carnaval não deixou de rolar, pois é possível celebrar a vida em qualquer situação, ainda mais nesta onda de pandemia que decretou o nosso não encontro com o Rei Momo. A caixa de som do celular me acompanhou por todo o período que seria do Carnaval e ainda agora, nesta quarta-feira (que já foi) de cinzas, ela dispara os ritmos carnavalescos que não devem silenciar até o fim da semana, porque nessas horas sou meio de Salvador, meio de Olinda e levo o folguedo até as últimas consequências.

Vamos segurando a onda este ano para que tenhamos Carnavais com mais saúde e com mais futuro, com mais encontros etílicos ou somente na base da sagrada água, a bebida mais forte, que nutre e abençoa. Porque é hoje o dia da alegria (todos os dias) e a tristeza nem pode pensar em chegar.

Para compor esta crônica, me vali de várias citações: Samba de lado (Chico Science) / Diz que fui por aí (Hortêncio Rocha e Zé Keti) / Desde que o samba é samba (Caetano Veloso) / Não deixe o samba morrer (Edson Conceição e Aloísio Silva) / É hoje – Samba-enredo da escola de samba União da Ilha (RJ), 1982, (Didi e Mestrinho).

Hélio meu amigo Pennafort – Por Fernando Canto

Hélio Penafort – Foto encontrada no blog Porta Retrato

Ao dar o nome de Hélio Pennafort a sua biblioteca a instituição SESC realizou um ato de carinho às nossas letras e uma justa homenagem ao escritor e jornalista que muito contribuiu para que o Amapá tivesse as suas mais legítimas manifestações culturais conhecidas. Foi através do Hélio que a maioria dos que fazem a formação da opinião local hoje, se basearam para sistematizar a questão da identidade do homem amapaense. Fora ou dentro das academias seu trabalho ganhou a dimensão esperada e a valorização merecida, posto que só ele conseguia expressar com elegância nos seus textos as formas rudes (para nós) do falar cotidiano da vida do interior. Muitas vezes publiquei sobre a obra do Hélio por considera-lo um narrador excepcional das coisas da nossa gente. “Triste como um tamaquaré no choco”, “foi cocô de visagem” eram expressões do homem interiorano que ele usava no dia-a-dia. Para qualquer objeto ou situação complicada chamava “catrapiçal”. Vivia contando anedotas de caboclo se divertindo a valer com elas. Era extremamente sincero com seus amigos e não guardava o que tinha de dizer. Apesar de ter exercido inúmeros cargos importantes no Governo, tinha lá suas fraquezas e de vez em quando fugia do expediente para ir ao Abreu ingerir uma gelada, mas era também grave e sério nas suas responsabilidades.

Arquivo pessoal de F.C.

Ainda adolescente andei em sua companhia, juntamente com o Odilardo Lima, repórter e poeta que virou delegado de polícia, e o Manoel João, um telegrafista e caçador de primeira linha, bom contador de histórias. Minha função no grupo era tocador de violão e guardião da memória deles, afinal iriam precisar de detalhes que fatalmente esqueceriam, quando da redação das reportagens que faziam para a rádio Educadora e o jornal A Voz Católica. Hélio proporcionava muitas histórias engraçadas, como certa vez em Mazagão, no início dos anos 70. Fomos de barco até a sede do município, e de carro até Mazagão Velho registrar a festa da Piedade. Ele ia dirigindo (Pasmem!) um jeep, e nós vínhamos tensos, no maior medo, porque até então ninguém jamais o vira dirigir, a não ser uma bicicleta. Com alguns atropelos e barbeiragens chegamos ao destino. Anoitecia e ele foi à casa do seu Osmundo, que liderava o conjunto “Mucajá”. Era um grupo rústico, de pau e corda e clarinete que tocava samba, baião, polca e outros ritmos. Lá pelas tantas, devido sua generosidade etílica, acabou o suprimento de uísque e cachaça. Em toda a vila também não tinha nada de álcool. Ele chamou uma rapaziada e disse: – Vão ver se encontram cachaça que eu dou uma grana pra vocês. Eles voltaram com uma “meiota” de “canta-galo”. O Hélio deu uma golada e cuspiu: “Querendo me enganar… É, seus porras? Cachaça com água eu não bebo, inda mais se é de mulher que acabou de parir”. Fiquei sabendo depois que as mulheres do lugar usavam aguardente na assepsia do pós-parto e que os moleques haviam roubado a garrafa de uma senhora que parira uns dias antes. Esse episódio só fez solidificar a minha admiração pela figura simples e humana do jornalista.

Dia da posse da de Fernando Canto na Academia Amapaense de Letras, 1988. Com os jornalistas Jorge Basile e Hélio Pennafort. Arquivo pessoal de F.C.

Fecundo no seu trabalho, Hélio sempre procurou dar a ele novas formas em linguagens diferentes. Em 1984/85 associou-se ao talento do piloto e vídeo-maker Roberval Lavor e produziu inúmeros vídeos sobre aspectos turísticos do então Território do Amapá. Embora não se adaptasse ao computador, o apregoava como instrumento do futuro, pois era atualizado nas informações tecnológicas.

O Poeta Isnard em carne e osso – Por Fernando Canto

Isnard Lima – Foto: Arquivo do jornalista Edgar Rodrigues

Por Fernando Canto

Conheci muitos poetas que me fizeram ver o mundo de outra forma. Desde os tempos do Grupo Escolar Barão do Rio Branco ainda ouço as “Vozes D’África” de Castro Alves ecoando pelas praças da cidade como se viessem mesmo do outro lado do oceano e retumbassem versos com vigor pelos campos do Laguinho. E eles me dizem no acompanhar do ritmo ligeiro do batuque: “Deus! Ó Deus! Onde estás que não respondes? / Em que mundo, em que estrela tu te escondes, / Embuçado nos céus? / Há dois mil anos te mandei meu grito, / Que embalde desde então corre o infinito… / Onde estás, Senhor Deus? ”

A poesia joga a semente da planta e alarga suas raízes. Só depois é que compreendemos sua ideologia e caráter, pois a entendemos como um ente que traspassa a alma e que inicia a fervedura da arte. Assim fui conhecendo os poetas no dia-a-dia dos estudos e até arrisquei meus primeiros versos, que ninguém acreditou que fossem meus, por isso foram destruídos pela fúria adolescente quando enfrenta o descrédito.

Isnard Lima – Foto: Arquivo do jornalista Edgar Rodrigues

Um dia vi que poetas eram mesmo de carne e osso, embora estranhos. Conheci pessoalmente o Ray Cunha, o Zé Edson dos Santos, o Manoel Bispo, o Silvio Leopoldo, o Odilardo Lima e o curioso Isnard Lima, o mais velho deles. Tivemos nossas primeiras conversas no antigo Clã Liberal do Laguinho no início dos anos 70, época bastante tumultuada, quando falar em democracia era crime. Ali aprendi com eles a ser parceiro de música, de sonho e de esperança, apesar dos percalços do caminho como a impagável “Operação Engasga-engasga” que tentou estragar nossas vidas. Os que não foram presos por pensarem na liberdade migraram para outros centros do país e começaram a pôr em prática seus pensamentos, escrevendo canções, publicando livros, realizando exposições.

Dos presos injustamente que voltaram ao nosso convívio só o Isnard voltou a produzir textos com certa regularidade, mas era muito perseguido pelos chamados “revolucionários” e assim retornou a sua vida de boêmio, que alegrava os bares por onde parava. Neles, sua presença física fazia parte do cenário, assim como sua poesia, às vezes lírica e pródiga, iluminava a noite.

Isnard Lima – Foto: Arquivo do jornalista Edgar Rodrigues

Tempos depois fomos estudar juntos para o vestibular da Universidade do Pará. Ele e a mulher, uma vizinha dele e eu. Passamos os quatro e fomos para Belém enfrentar a vida. Um dia, ainda lá, sua mãe a professora de piano Walquíria Lima, morreu de grave doença. O poeta ficou órfão de mundo. Depois, já advogado, voltou e realizou seu livro de crônicas.

Creio que poetar não é só ajuntar palavras com a sabedoria de quem observa minúcias. Ela também arrebata o que não deve, molha e enxuga imagens. Escrita ou falada ela incide sobre o mundo em raios de aconchego, rebate o despropósito de desatinos noticiados sem pressa. A poesia é arte de encantar, pela soberba luz que tem, até a esperança escondida sob pedras. No presente ela é real de tal modo pétrea que judia a percepção, assim como estende o passo do verso pelas nebulosas verdes do futuro. A poesia é necessária na hora que o mundo se parte em prantos e nos conduz ao estado incompreensível de poetas. É como um féretro de gafanhoto conduzido por formigas de fogo na primeira manhã de março após a chuva. É operativa e vítima viva; amarrada, mas não amordaçada; simbólica, que não concede a ninguém formas aprisionadas, estilos e chavões dos espaços escolares. Ao contrário, voa, evola-se, anja-se e rompe-se comunicando ao homem e seu espírito, que mesmo muitas vezes seca, louca ou amarga, é doce na intenção imensa da criação do autor.

O poeta Isnard Lima, autodenominado “Cafajeste Lírico”, tinha 64 anos quando morreu. Às sete da noite do dia 11 de julho de 2002 fui informado que um vizinho o encontrara caído, ao lado de um aparelho de aerosol usado para amenizar o sofrimento de um enfisema pulmonar, fumante inveterado que era.

Eis, poeta, a minha homenagem pelo Dia da Poesia, que compartilho com todos os poetas de nossa terra, quando sei que nas fímbrias das nuvens gargalhas alegre e ironicamente tiras rosa do teu chapéu e as joga na madrugada.

*(Texto publicado em março de 2007 – JD)

Hoje minha mais que maravilhosa mãe gira a roda da vida. Feliz aniversário, Maria Lúcia!

Maria Lúcia, minha mais que maravilhosa mãe, gira a roda da vida pela 67ª (com rostinho de 50) vez neste terceiro dia de fevereiro.  Mamãe é uma mulher exemplar como genitora, foi uma excelente profissional da educação, é a melhor cozinheira do mundo e meu anjo da guarda. Aliás, ela é tantas coisas Phodas para mim e para meu irmão Emerson que é difícil enumerar em um só texto de aniversário.

Certa vez, um cara me disse que uma mãe “é uma espécie de Deus particular” para cada um de nós. Deveria ser sempre assim, mas não é. E por ser essa mãe amiga, pois existem sim mães inimigas, hoje rendo homenagens e agradeço à Deus pela vida de Maria Lúcia.

Já disse e repito, juntamente com a tia Inês, Maria Lúcia é a filha mais dedicada da vovó Cacilda, vó coruja da pequena Maitê e boa esposa do Enilton e uma pessoa sempre preocupada em nos fazer felizes. A gente colide às vezes, pois herdei o seu gênio fortíssimo, mas nos amamos demais que isso não faz a mínima diferença.

Dela também herdamos a força e caráter. Difícil contabilizar tudo que ela já fez por mim e pelo meu irmão. Aliás, muito mais por mim, seu filho mais velho. A nossa “Lucinha” é uma mulher espetacular e admirável. Ela personifica os amores que tem e realmente faz valer seus dias por cada um de nós.

Orientadora educacional e professora aposentada, mamãe trabalhou muito, desde bem novinha, para vencer na  vida. Ela conseguiu e batalhou muito para dar o melhor para seus filhos, sua mãe e seus irmãos.

Mamãe é íntegra, honesta, inteligente, batalhadora, e decente. Lucinha sempre foi a luz do meu caminho e o amor que sempre zelou por mim. Ah, ela tem a reza mais forte que conheço e quando tenho problemas, peço suas orações. Sempre sinto que sua reza e sua bênção são mágicas poderosas com o divino e me alcançam.

Eu e meu irmão, temos a honra o privilégio de sermos seus filhos, pois a amamos e somos correspondidos desde o início desta jornada (no meu caso, há 44 anos). Dela, herdamos atitude e firmeza. Eu e Emerson talvez não fossemos caras trabalhadores e todo o resto de coisas legais que nos tornamos se não fosse por conta da Lucinha.Dançarina de fim de semana, minha conselheira e benzedeira, inteligente e sábia. Ela é, sempre foi e sempre será minha melhor amiga.

Maria Lúcia, que Deus continue a lhe dar saúde, que a senhora siga com essa sabedoria, sexto sentido e alegria (e brabezas) que lhe são peculiares. Que tua vida seja longa, que essa data se repita por pelo menos mais umas 67 vezes. Não à toa, a gente te ama demais.  Parabéns pelo teu dia. Feliz aniversário!

Elton Tavares e Emerson Tavares (pois como irmão mais velho, posso falar pelo Merson).

Cabeleira e Berenice

Diálogo do filme Cidade de Deus:

CABELEIRA: Alô Berenice. É o seguinte, vou te mandar uma letra invocada agora. Pô mina… já viu falar em amor à primeira vista?
BERENICE: Malandro não ama, malandro só sente desejo.
CABELEIRA: Assim não dá prá conversar…
BERENICE: Malandro não conversa, malandro desenrola uma idéia.
CABELEIRA: Pô! Tudo que eu falo, tu mete a foice!
BERENICE: Malandro não fala, malandro manda uma letra!
CABELEIRA: Vou parar de gastar meu português contigo que tá f***.
BERENICE: Malandro não para, malandro dá um tempo.
CABELEIRA: Falar de amor contigo é barra pesada.
BERENICE: Que amor que nada. Tu tá é de sete-um!
CABELEIRA: É que o otário aqui te ama.

*Contribuição do amigo jornalista Renivaldo Costa.

Paranoias de quem sente o tempo passar – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Ilustração de Ronaldo Rony

Crônica de Ronaldo Rodrigues

De vez em quando, batem algumas paranoias, tipo o medo de perder o movimento do braço direito. Para quem é destro, ficar com esse braço fora de combate é um pesadelo. Dia desses, bateu esse medo, que era mais do que medo, era a absoluta certeza de que eu amanheceria sem conseguir desenhar ou escrever.

Alguém pode sugerir que eu passe a escrever com a mão esquerda. Isso não é tarefa difícil no teclado do computador, só é mais demorado. Acontece que eu só começo a escrever no computador depois de ter rabiscado no papel grande parte do texto.

Mas a preocupação de não poder usar a mão direita está relacionada mais à prática do desenho do que da escrita. Pois é. Quando bateu a certeza, no meio da madrugada, de que eu amanheceria com o braço direito inerte, passei a desenhar freneticamente. Na minha cabeça, eu tinha que produzir tudo o que me restava para desenhar e concluir a minha carreira de cartunista.

Ao acordar, conferi de imediato minha habilidade com a mão direita e respirei aliviado. Ainda teria mais algum tempo para produzir os meus cartuns. Minha carreira não estava encerrada. O que bom disso é que, forçado a criar e depois de passar o crivo, vi que muito desenho legal tinha surgido dessa paranoia.

Na madrugada seguinte, a cisma foi outra. Achei que poderia acordar cego. E toca a ler, escrever e desenhar tudo o que podia, aproveitando os últimos clarões de uma visão que já não é lá essas coisas.

No dia seguinte, para meu consolo e júbilo, meus olhos ainda estavam aqui, me servindo, precisando ainda da muleta dos óculos, mas intactos.

Que paranoias são essas que o passar do tempo vai colocando em nossa existência, como numa corrida com barreiras que precisamos saltar? Ops! Neste momento, bateu mais uma dessas: tenho a firme convicção de que vou perder completamente a memória, que já há algum tempo vem dando sinais de pane.

Licença aí que eu vou fazer tudo o que consigo lembrar. Se for só paranoia, a gente se fala depois, em outra crônica. Ok? Tchau!

(O que é que eu vou fazer mesmo?)

Monólogo Mundo Moderno – Texto genial e saudoso Chico Anysio

E vamos falar do mundo, mundo moderno marco malévolo mesclando mentiras modificando maneiras mascarando maracutaias majestoso manicômio meu monólogo mostra mentiras, mazelas, misérias, massacres miscigenação morticínio, maior maldade mundial madrugada, matuto magro, macrocéfalo mastiga média morna monta matumbo malhado munindo machado, martelo mochila murcha margeia mata maior manhazinha move moinho moendo macaxeira mandioca meio-dia mata marreco manjar melhorzinho meia-noite mima mulherzinha mimosa maria morena momento maravilha motivação mútua mas monocórdia mesmice muitos migram mastilentos maltrapilhos morarão modestamente malocas metropolitanas mocambos miseráveis menos moral menos mantimentos mais menosprezo metade morre mundo maligno misturando mendigos maltratados menores metralhados militares mandões meretrizes marafonas mocinhas, meras meninas, mariposas mortificando-se moralmente modestas moças maculadas mercenárias mulheres marcadas mundo medíocre milionários montam mansões magníficas melhor mármore mobília mirabolante máxima megalomania mordomo, mercedez, motorista, mãos magnatas manobrando milhões mas maioria morre minguando! moradia meiágua, menos, marquise mundo maluco máquina mortífera mundo moderno melhore melhore mais melhore muito melhore mesmo merecemos maldito mundo moderno mundinho merda!

Chico Anysio

Sobre insônia e cartas de amor

 


Há quatro anos e pouco, uma amiga disse: “Elton, vou te enviar uma carta”. Eu: “Correio eletrônico?”. Ela: “Não, cara. Uma carta mesmo, escrita em papel, dentro de um envelope e com um selo”.

Pensei: “Égua, pode crê”. Lembrei do tempo que trocava correspondências. Recebi muitas nos anos 90. Esse papo me lembrou histórias e memórias afetivas legais. Pura nostalgia.

Passou uma porrada de lembrança em câmera lenta nesta minha cachola insone.

O mundo mudou tanto e, com ele, a praticidade dos e-mails, redes sociais etc. A comunicação está supersônica nestes dias, mas deu uma saudade daquela sensação de esperar pelo carteiro, abrir e ler os textos açucarados e exagerados daquela época.

Era firmeza receber e enviar cartas. Sou mesmo das antigas – que onda.

Sem nenhuma pretensão ou gabolice, digo-vos: recebi muitas cartas nessa vida. A maioria nem era de amor mesmo. Guardei uma grande quantidade. É, tenho uma caixa grande repleta dessas coisas, pois aproveitei ao máximo o poder e a beleza dos 20 e poucos anos.

Paralelo a essa curtição toda, fiz alguns julgamentos errados; por isso, joguei algumas delas fora – tem coisas que é melhor não guardar em nenhuma caixa, muito menos na memória.

Mas na caixa tem de tudo, desde rabiscos em lencinho de papel de lanchonete, escritos coloridos até cartões tipo de crédito – daquele casalzinho que tinha o slogan “Amar é…” – e uma penca de fotos. Às vezes, o conteúdo era pura pieguice; noutras havia originalidade nas histórias.

Já redigi material suficiente para publicar pelo menos uns três livros, muitos destes textos sobre temas que hoje em dia não fazem nenhum sentido, mas escrevi poucas cartas. E isso é esquisito.

Sobre isso, preciso escrever uma carta com a verdade e endereçar a quem precisa ler sobre o amor. No caso, o meu. Senão, mais que uma lembrança nostálgica da juventude, será uma correspondência não enviada de volta na caixa do meu imaginário. Na verdade, uma chance desperdiçada. É isso.

*Ernest Hemingway disse: “Escreva bêbado, revise sóbrio”. Segui o conselho do mestre neste texto (risos).

Elton Tavares

*Texto do livro “Crônicas De Rocha – Sobre Bençãos e Canalhices Diárias”, de minha autoria, lançado em setembro de 2020. A obra, com 61 crônicas, tá linda e está à venda na Public Livraria ao preço de R$ 30,00 ou comigo. Contato: 96-99147-4038.

Resenha do livro “QUARUP” – Antonio Callado. (Por Lorena Queiroz – @LorenaadvLorena)

Por Lorena Queiroz

Ainda criança em um bairro do subúrbio paraense, eu ficava intrigada com um documento que se estampava na TV a cada programação. Para mim, era algo que não permanecia sob minha vista tempo bastante para que meus olhos recém-alfabetizados tivessem tempo de ler e entender. Hoje eu sei que tratava-se de censura; mais uma das liberdades suprimidas pelo regime da época. Eu estou na casa dos quarenta e, mesmo assim, lembranças – que para alguns parecem tão efêmeras – voltaram a mim através de Quarup.

O livro se inicia na década de 50 e conta a estória de Nando, um jovem padre pernambucano que sonha em dar continuidade ao trabalho dos jesuítas no Xingu, mas não apenas pela catequização e sim por acreditar na pureza indígena e que deles é proveniente a essência do Brasil. E Nando embarca para o Xingu banhado deste sonho. Mas não antes de se deparar com temores carnais que são da essência do homem, potencializados em Nando pelo sacerdócio.

Chegando ao Xingu, Nando se vê em uma realidade longe da teoria que conhecia e através de Fontoura – um funcionário do SPI (Serviço de proteção ao índio) que conhece e vive com a alma entre eles – reformula e esclarece sua visão a respeito daquele povo, seus costumes, sua nudez desprovida de malícias, a simbologia que carrega o uluri, a tanga que cobre as índias e só por elas podem ser retiradas para que alguma coisa aconteça. O índio não ousa tocá-lo. Se uma índia joga seu uluri pra cima o índio se esquiva, pois só a índia detém o poder de seu manuseio. E muita gente achando que civilizado mesmo é o homem branco.

Existe ainda uma comitiva que embarca para o Xingu; entre eles existem outras personagens que mostram em seus diálogos, variadas visões de mundo. Ainda no Xingu, Nando se depara com os entraves burocráticos e políticos que são ainda mais inviabilizados pela corrupção. Em meio a tudo isso, a influência dos acontecimentos políticos da época, como a morte de Getúlio Vargas, que refletiria diretamente na expedição. Nando ainda tem a difícil tarefa de guardar para si o amor por Francisca, noiva do idealista Levindo.

Ao retornar do Xingu, Nando deixa o sacerdócio e posteriormente a ditadura militar se instala no país. Nando deixa de ser padre, mas o coração de sacerdote continua com ele, mesmo já tendo abandonado a liturgia e conhecendo prazeres do sexo e das drogas, ele preserva em si a caridade e o olhar para a dor do outro. As dores não só dos índios que morriam doentes e de fome, mas dos camponeses explorados, das feias, das prostitutas.

Nando faz uma peregrinação dentro de si mesmo. E cada personagem do livro lhe abre um caminho para vislumbrar, como Lídia, que lhe relata que Otávio, seu noivo, teria criado uma única rixa com Lênin, após ler Clara Zetkin, onde Lênin não teria aceitado a teoria do copo d’água. Outras personagens com graciosidade e força expõem suas personalidades em diálogos que trabalham todas as mudanças que se operam em Nando.

Quarup é um ritual indígena de Mawutzinin, o primeiro homem do mundo na cultura indígena. E seu Quarup é o ritual que leva os mortos para uma outra vida. E assim como os índios se encaminham para uma nova vida, Nando também tem seu Quarup.

Esta é uma obra-prima que saiu das mãos, mente, coração e sangue de Callado. Você se depara com o Brasil de uma forma genuína. Os índios, o Nordeste da década de 50/60, a história política e os horrores nos porões da ditadura. É um livro que desperta uma trilha sonora em sua cabeça. Você pode ouvir Belchior cantando ao fim de cada página. E creio que nada que escrevi fará elogios que bastem a esta obra. Pois é uma obra densa e com personagens que com tristeza deixei de mencionar para evitar spoiller. Ontem à noite, ao fechar a última página do livro e ainda olhando para o número 573, lembrei de a quantas andam nossas mazelas diárias nestas terras onde cantam os sabiás que de nada sabem, e pensei: Que nosso Quarup nos levem a tribos mais gentis.

* Lorena Queiroz é advogada, amante de Literatura e devoradora compulsiva de livros.

Impeachment– Uma piada constitucionalmente prevista – Por Mariana Distéfano Ribeiro

Por Mariana Distéfano Ribeiro

Passeando pelos stories do Facebook eu vejo muitos comentários sobre a atuação do Presidente Bolsonaro no exercício da função. Me espanta a quantidade de pessoas que é conivente com o comportamento e entende que, por exemplo, é direito dele não querer tomar a vacina, não aceitar usar máscara, ser grosseiro e “mitar” com os jornalistas, fazer apologia à tortura, à ditadura, à homofobia, entre tantas outras tosquices que esse ser humano fez (e ainda faz).

Pois eu digo com toda certeza e convicção que Bolsonaro, na qualidade de Presidente da República Federativa do Brasil, não tem o direito de agir como ele age, de falar o que fala e pregar o que ele prega!

Por que não? Porque ele é o Presidente, oras! É dever dele, obrigação intrínseca e necessária da função que exerce possuir o mínimo de bom senso, de cautela, de educação, de prudência na direção de qualquer país em que impere o estado democrático de direito.

A falta de educação recorrente do dirigente de um país, a imprudência no enfrentamento e no trato de questões e situações delicadas, que possuem um potencial significativo de inflamar ânimos e incentivar radicalistas contumazes a sair da esfera das ofensas verbais e virtuais para as ofensas físicas, especialmente aqueles preconceituosos, tende a causar comoções sociais graves e violentas. Foi exatamente isso que aconteceu na invasão ao prédio do Capitólio, sede do Congresso americano, no dia 06/01/2020, quando o ex-presidente Trump resolveu insistir, mais uma vez, na invenção de que as eleições estadunidenses foram fraudulentas e que, na verdade, ele teria vencido. E Bolsonaro ainda disse que se não tiver voto impresso nas próximas eleições (2022), vai acontecer o mesmo com o Brasil.

Os presidentes Trump e Bolsonaro em encontro em março de 2020, na Flórida.TOM BRENNER / REUTERS

Lá, nos Estados Unidos, o ex-presidente Trump já está indo embora. Mas aqui a gente ainda tem mais 2 anos de desgoverno Bolsonaro.

Certo. A gente concorda que o Bolsonaro está fazendo quase tudo como se fosse uma criança da 5ª série (aliás, ele até fala como uma… uma bem malcriada…). Então, deve ter alguma alternativa pra tirar ele da Presidência.

Pois tem. Essa alternativa é o processo de impeachment por crime de responsabilidade e tem previsão no art. 85 da Constituição Federal , com regulamentação pela Lei nº 1.079 de 10/04/1950 , e também por crime comum (como homicídio) como prevê o art. 86 também da CF.

Trata-se de um processo político, administrativo e não-judicial. Até a última atualização do dia 08/01/2021, haviam 53 pedidos de impeachment contra Bolsonaro.

Acontece que o pedido tem que cumprir alguns requisitos, como indicação de provas e de testemunhas. O que não é muito difícil, dada a ausência de preparo e de discrição do nosso Presidente. A Lei nº 1.079 ainda descreve quais são os casos em que os atos do Presidente serão crime de responsabilidade.

Um dos artigos da Lei diz que é crime de responsabilidade quando Presidente atenta contra o livre exercício dos poderes da União (Legislativo e Judiciário, porque ele mesmo é o Executivo).

Atentar contra é se manifestar contra, injuriar, maldizer, impedir a atuação por meio de algum recurso que é inerente à atuação da Presidência.

Então… lembram daquela manifestação, lá em Brasília, que um monte de gente foi pra frente do Supremo Tribunal Federal (STF) pedir o impeachment (é existe impeachment pra maioria dos cargos políticos e de estado) de um dos Ministros e o fechamento do Poder Judiciário e do Legislativo? Aquela manifestação em que o Bolsonaro foi montado a cavalo?

Lembrou? É, aquilo lá foi crime de responsabilidade.

Esse é um dos exemplos que eu considero mais gritantes e significativos da afronta ao estado democrático de direito que o atual dirigente do Brasil cometeu até hoje.

Muitos outros foram e ainda são cometidos como o incentivo ao uso de armas de fogo, a recusa em cumprir as determinações de medidas sanitárias federais, estaduais e municipais de combate ao coronavírus, as constantes apologias à tortura, à homofobia, à misoginia, à ditadura. Todos esses atos incentivam o extremismo de pessoas preconceituosas e os encorajam a mostrar a cara e manifestar suas opiniões em discursos de ódio.

Ok. Mas então por que o processo não vai pra frente se o Presidente já cometeu tantos crimes de responsabilidade?

Porque é um processo político. O Presidente da Câmara dos Deputados tem que deferir, aceitar e concordar expressamente com o pedido e encaminhar para uma comissão especial de Deputados. Essa comissão é que vai decidir se o processo vai pra frente ou não.

Ainda, depois que o processo passa pela anuência do Presidente da Câmara, o Presidente da República ainda tem prazo para apresentar sua defesa, a Comissão tem um prazo para fazer um parecer que ainda precisa passar pelo crivo de 2/3 dos 514 Deputados Federais, ou seja, 342 Deputados.

Agora, com a popularidade que o Bolsonaro tem até hoje , você acha mesmo que um Deputado vai aceitar um processo de impeachment contra o Presidente? É claro que não vai.

Por isso que o processo de impeachment é um processo tipicamente político. Fosse jurídico, o Presidente da Câmara dos Deputados não teria outra alternativa a não ser a de receber e aceitar todo pedido de impeachment que tivesse todos os requisitos da Lei nº 1.079 comprovadamente elencados no processo.

Fazendo uma analogia bem descompromissada, imagine que chegasse no Poder Judiciário, lá no fórum da sua cidade, numa vara criminal, uma denúncia de alguém que supostamente cometeu um crime qualquer, com todos os requisitos previstos na lei para aceitação da denúncia – inquérito, peça do Ministério Público. Aí o Juiz olha pra denúncia e diz: ah… esse cara aqui é meu amigo, ele é muito conhecido na cidade e todo mundo gosta dele… não vou aceitar essa denúncia não. E simplesmente arquiva o processo ou deixa na gaveta.

Já pensou?! Absurdo, não é?

Pois é… o processo de impeachment é mais ou menos assim. O cara comete o crime previsto em lei, mas é amigo dos reis e todo mundo gosta dele. Mas se ele for impopular, vai cair rapidinho. Seria cômico se não fosse trágico.

É, o processo de impeachment, com o rito previsto na atual legislação, é uma piada constitucionalmente prevista.

Fontes: BBC, El País, Jornal do Brasil, Planalto, Planalto, A Pública e Ibope Inteligência

*Além de feminista com orgulho, Mariana Distéfano Ribeiro é bacharel em Direito, servidora do Ministério Público do Amapá e adora tudo e todos que carreguem consigo o brilho de uma vibe positiva.

É Natal (Belíssima crônica de Natal de Alcy Araújo Cavalcante)

É Natal

Por Alcy Araújo Cavalcante
(1924-1989)

Sabeis que é Natal. Não é necessário que eu diga isto. O anúncio da renovação do milagre do nascimento de Jesus está nesta música que vem de longe, que desce do céu e flutua, em pianíssimo, em torno de nossa alma e toca de leve o coração dos homens. O milagre está, também, nesta luz que vem do alto e ilumina os espíritos, está no riso das crianças, na oração da rosa, na lágrima dos que sofrem, no canto dos pássaros, no sussurro da brisa, no murmúrio do rio e na saudade de minha mãe rezando.

Tudo é tão bonito que as lágrimas de dor e de saudade de infâncias inexistentes são poesia pura. O belo é tanto que não resisto à vontade vesperal de anunciar que é Natal, antes que a noite chegue, antes que seja oficiada a Missa do Galo, antes que dobrem os sinos na igreja comunicando a vinda do Messias.

Tudo é luz em torno do mundo. As trevas não prevalecerão quando cair a noite acendendo mistérios. As vozes dos anjos, o coral dos pastores de Israel, a lembrança dos Reis Magos estão presentes. Há perfume. Os turíbulos de Deus espargem incenso e mirra, porque é Natal no mundo e renasce a esperança no cumprimento da palavra dos profetas.

Mais uma vez é Natal!

Chegam as vozes da infância perdida nos caminhos e o coração enxuga saudades. Os sinos, à meia-noite, vão bimbalhar lágrimas distantes. Vêm de presépios inanimados e risos perdulários afogam angústias cotidianas. A dor se esconde por trás de mágoas indormidas e as horas se ocultam nos relógios, para que a poesia do Natal não passe e o musical minuto dure mais um segundo na eternidade deste dia.

É Natal!

Reza a minha alma de joelhos pelo menino sem brinquedos que perdi, na minha pobreza de sempre.

É Natal!

Repetem meus arrependimentos nas estradas.

E uma alegria imensa absorve as tristezas que fabriquei no mundo. Um sentimento infinito de bondade apaga as dores que construí durante o meu ontem irreversível. Uma ternura imensa acende felicidades futuras, porque é Natal, neste sábado do mundo. Há um polichinelo no bazar. Pertence ao menininho doente que Jesus chamou para o seu reino. Uma boneca abandonada já não chama mamãe para a garota loura que um anjo levou pela mão naquela manhã de sol. Mas outros brinquedos coloridos fazem ciranda em torno das árvores de Natal e milhares de crianças são felizes nos lares cristãos de meu país sem coordenadas. Enquanto isto, Deus sorri, pleno de Amor, por trás da Eternidade.

Fonte: Blog da Alcinéa Cavalcante

Marcelle Nunes gira a roda da vida. Feliz aniversário, Celle! – @cellenunes

Quem gira a roda da vida neste quinto dia de dezembro é a competente jornalista, assessora de comunicação e muito querida amiga deste editor, Marcelle Nunes. Mesmo neste 2020 atribulado e cheio de coisas ruins, é uma data feliz, pois a Celle renova seu ciclo nesta vida em que dividimos muitas alegrias, há quase uma década. E por isso,  lhe rendo homenagens.

Marcelle Nunes é muito dedicada à sua família; é uma filha, irmã, sobrinha e amiga zelosa, fiel e amorosa. Também uma mulher justa, competente e brilhante. A menina escreve, fotografa, filma, edita, cobre futebol, faz roteiro, manja de redes sociais, sabe tudo dos bastidores e se garante em todas as frentes dessa nossa maluca profissão. Enfim, aí conhece de jornalismo, de assessoria de imprensa e estratégias de trampo.

Marcelle é culta, corajosa, tenaz, safa (às vezes besta para oportunistas de sua boa vontade), prestativa, leal aos seus e pessoa que muito me honra ter a amizade, pois ela possui uma alma sensível. Paralelo a isso, é doida varrida, amalucada e parceira.

Todos deveriam ter uma amiga como Marcelle Nunes. Ela sabe tudo de mim. É uma das pessoas em quem confio e posso contar. É recíproco, inclusive. Temos tantas histórias saborosas que oscilam entre responsa profissional e nossa afinada lucidez louca pessoal.

Nos meus dias cinzas ou noites obscuras, a Celle é cor e luz. Ela sempre tem uma palavra amiga, um conselho ou, se tudo estiver muito ruim, uma piada para melhorar o meu “eltontavarismo-agudo-visceral” . A querida é, há tempos, minha psicóloga e confidente. Antes eram em consultórios disfarçados de mesas de bar e, nestes tempos de afastamento, via bate papo no celular. E a gente ri. Aliás, a gente ri muito juntos.

Já disse e repito: somos capazes de nos divertir em qualquer lugar. Lembro que quando eu morei sozinho, Celle sempre ia ao supermercado comigo. A gente ria muito comprando gordices legais ou rodando horas escutando The Smiths em uma noite do Dia dos Namorados, simplesmente pelo fato de não namorarmos ninguém e decidirmos encher a cara em algum lugar tranquilo (o que foi um desafio e tanto).

Dizem que felicidade e tristeza não existem e sim momentos tristes e felizes. É verdade. Quando estou com as pessoas que habitam o meu coração, é como receber partículas de Deus (talvez para alguns hipócritas, do diabo). É assim com o meu povo, meus amigos, os irmãos que escolhi. Celle está entre eles.

Estar com ela é sempre porreta, divertido, memorável. A menina é uma dessas pessoas que fazem valer, põem a vida em movimento e produzem encontros que se tornam memórias felizes. Seja um simples almoço no meio da semana ou uma transloucada noite de sábado.

Volto a ser repetitivo: eu e Marcelle Nunes temos um caso de amor astral. A gente é brother no sentido literal de irmandade. Quando bate uma tristeza de leve, o antídoto do veneno é uma cerveja com ela. Logo que nos encontramos, a atmosfera já muda pra melhor. E isso, minha gente, não é um exagero.

Sinto saudades das nossas tradicionais noites de segunda-feira, em que rolava um balanço (sempre cômico, pois a gente ri até quando nos fudemos) dos corres e dos rocks doidos. O tempo passou, eu virei o velho chato, gordo e grisalho. Mas a Celle continua a me aturar.

Celle é realmente uma personagem cinematográfica na minha existência e sou grato ao criador por isso. Não tenho uma única memória infeliz ou lembrança de marcada dela para comigo (os furos foram perdoados). Como eu disse em outro texto, com essa doida adorável, é mais fácil vencer os filhos da puta que encontramos no caminho.

Celle, agradeço por tua existência orbitar a minha e vice-e-versa. Que teu novo ciclo seja ainda mais paid’égua. Que tenhas sempre saúde, mais sucesso, grana e que tudo que tu conceitues como felicidade se realize. Que Deus continue a te iluminar e que tu continues nessa longa e louca estrada de tijolos amarelos por pelo menos mais uns 100 anos. Que a Força esteja contigo. Te amo pra caralho (como dizia Millor: “qual expressão traduz melhor a ideia de intensidade do que “do caralho”?)!

Meus parabéns e feliz aniversário!

Elton Tavares