Seles Nafes gira a roda da vida. Feliz aniversário, amigo! – @selesnaf

Tenho alguns companheiros (brothers e brodas) com quem mantenho uma relação de amizade e respeito, mesmo a gente com pouco contato. E, como todos os leitores deste site sabem, gosto de parabenizar os amigos em seus aniversários. Quem roda a roda da vida neste oitavo dia de abril é o querido Seles Nafes e lhe rendo homenagens.

Seles é um renomado jornalista paraense radicado  no Amapá.  É editor e dono de site, ex-âncora da TV Globo local, pai e marido dedicado é profissional competente. O manda-chuva da página eletrônica homônima a ele é um cara que respeito e nutro amizade.

Em 2016, após 18 anos de atuação no jornalismo da Rede Amazônica, o cara se despediu da empresa. Lá ele foi repórter, editor, produtor e apresentador dos jornais da emissora. Seles é paraense e mora em Macapá desde os anos 90. Para cá ele veio, viu e venceu. Na mesma década em que começou a trabalhar em jornais impressos da capital amapaense.

Seles Nafes sempre foi bacana comigo. Tive uma passagem curta pela Rede Amazônica, mas ele nunca me tratou como foca (jornalista iniciante). Ao contrário, costumava repetir que gente nova traz inovações e me deu dicas importantes na época. Por conta do gosto comum por Rock e cinema, começamos a bater papos descontraídos.

Claro que, ao longo dos anos, discordamos. Certa vez, discutimos e nos “encaralhamos” um com o outro, mas isso faz parte. Volto a dizer: gosto do cara. Como não dar valor a alguém que te apoia sem ganhar nada em troca? Reconhecimento não é uma regra geral, infelizmente.

Seles, mano velho, que teu novo ciclo seja ainda mais paid’égua. Que sigas com essa sabedoria e coragem pisando forte em busca de seus objetivos, Que tudo que couber no teu conceito de sucesso se realize. Que a Força sempre esteja contigo. Que tua vida seja longa. Saúde e sucesso sempre. Parabéns pelo teu dia, brother. Feliz aniversário!

Elton Tavares

Túlio Balieiro gira a roda da vida. Feliz aniversário, amigo!

Eu e Túlio, numa reunião memorável com outros doidos varridos. Foto: Anderson Miranda

Tenho alguns companheiros (brothers e brodas) com quem mantenho uma relação de amizade e respeito, mesmo a gente com pouco contato. E, como todos os leitores deste site sabem, gosto de parabenizar os amigos em seus aniversários. Quem roda a roda da vida neste sétimo dia de abril é o Túlio Balieiro, um brother querido e lhe rendo homenagens.

Túlio é o chef de cozinha, bibliotecário, cinéfilo, roquista, militante da Cultura, maluco das antigas, humornegrista, grande sacana e um cara consideradão por mim.

Não lembro o momento exato em que conheci o Túlio, mas faz tempo. Trata-se de um dos seis filhos da dona Thereza, entres eles as queridas Rúbia e Paola. Um sujeito com inteligência acima da média, caráter incorruptível, bem humorado, observador e sobretudo, um homem de bem.

É muito porreta conversar com o Balieiro. Ele saca de tudo. Quando o assunto é Rock and Roll, argumenta admiravelmente sobre bandas clássicas e alternativas como poucos. Se o tema for Cinema, manja demais e contextualiza com referências e demais tópicos. Isso incluem séries também. E se o papo for Literatura, fudeu, sibixo parecer já ter lido tudo que gosto. É sempre um aprendizado papear com o Túlio.

E se a conversar sobre cultura geral e bobagens paid’éguas for regada a vinho ou cerveja, a gente vai longe. Os cara tem conhecimentos gerais e específicos sobre arte, política, história, biologia e etecéteca e tals. Ele é Phoda mermo!

Nem sempre ando com o Túlio, mas nossos encontros rendem boas resenhas, muitas risadas e presepadas. Gosto demais desse figura. Assim como eu, ele exercita a sensatez, senão a nossa maluquês crônica torna tudo um divertido caos eterno (risos).

Túlio, mano velho, “tu saaaabes”, Patinhas! Que a força sempre esteja com você. Que teu novo ciclo seja ainda mais produtivo, próspero e que tenhas sempre saúde e sucesso junto dos teus amores.

Parabéns pelo teu dia e feliz aniversário!

Elton Tavares

Resenha do livro “Torto Arado”, de Itamar Vieira Júnior – (Por Lorena Queiroz – @LorenaadvLorena)

Por Lorena Queiroz

Torto Arado é uma obra recente e publicada pela primeira vez em Portugal. O livro também foi o ganhador do prêmio LeYa em 2018, vindo posteriormente a ser publicado no Brasil. Esta obra de Itamar Vieira Júnior já tem cheiro e jeito de clássico.

O enredo trata das vidas de uma família composta por pessoas fortes. Pretos, mulheres e homens que carregam ainda o orgulho e o fardo de sua ancestralidade. O pai desta família é Zeca chapéu grande, marido da guerreira Salu e, curandeiro que emprestava seu corpo como cavalo nas noites de Jarê, religião de matriz africana, mais especificamente um candomblé de caboclo, exclusivo da Chapada Diamantina. Zeca é filho de Donana, mulher forte que sobreviveu a três maridos e que, transmitia aos seus a força que era evocada nas horas difíceis. Zeca, Salu e Donana são, respectivamente, pai, mãe e avó de Bibiana e Belonísia, personagens que, sob sua ótica, a trama irá se desenrolar. O livro ainda conta com uma terceira personagem narrando, mas disso evitarei falar, pois seria um spoiler bem desagradável.

As irmãs Bibiana e Belonísia cresciam em uma fazenda no interior do sertão brasileiro. Certo dia, as irmãs ainda crianças, mexem em uma mala velha onde sua vó Donana guardava alguns pertences. Lá encontram uma faca que, não era guardada por Donana como um mero souvenir, aquele objeto guardava uma importância e simbologia para aquelas pessoas, mesmo que elas ainda não soubessem disso. A curiosidade das irmãs, mediante ao metal brilhante encontrado na mala, causa um acidente, deixando muda uma das irmãs. Assim, as meninas selam um pacto silencioso, onde uma seria a voz da outra.

O mais interessante neste livro é que ele não precisa em que época a trama se passa. Em algum momento você faz um cálculo, pois, Zeca chapéu nasceu apenas trinta anos após a abolição da escravatura. O mais estarrecedor é que, independente de você se localizar ou não no tempo histórico, você se depara com uma realidade que ainda perdura nos tempos atuais. A família de Zeca chapéu grande morava em uma fazenda chamada Água Negra. As pessoas dessa comunidade viviam em situação análoga à escravidão, não recebiam salário ou alguma folga. Os fazendeiros “cediam” parte da terra para que, quem lá quisesse viver, construísse sua casa e cultivasse seu sustento. Ocorre que, o cobrado em troca era trabalho duro no cultivo das terras do fazendeiro. Moravam em casas de barro, proibidos de construir casas de tijolo, pois assim não se fixariam no local.

Então, de tempos em tempos, tinham que erguer outra casa, pois as enchentes e a ação do tempo, deterioravam as casas de barro. Estas pessoas quase não tinham tempo de cultivar na terra o seu sustento, a vida difícil que consumia a saúde e antecipada a velhice. Passavam por longos períodos secas e enchentes, que se alteravam como uma dança de má sorte. Sorte essa que era pedida que se afastasse através das súplicas aos encantados. E quando conseguiam fazer brotar da terra o que comer, os fazendeiros, através de seus empregados, efetuavam saques nas casas destas pessoas. Em determinado momento, quando há um questionamento sobre a posse da terra, fica muito claro no trecho as injustiças que ainda estão incrustadas em nossa sociedade: “Que chegou um branco colonizador e recebeu dádivas do reino. Chegou outro homem branco e foram dividindo tudo entre eles. Os índios foram sendo afastados, mortos, ou obrigados a trabalhar para esses donos da terra. Depois chegaram os negros de muito longe, para trabalhar no lugar dos índios. Nosso povo que não sabia o caminho de volta para sua terra, foi ficando”. Dentro deste panorama é impossível não lembrar Rosseau quando disse que, “o verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro homem que, tendo cercado um terreno, disse: isso é meu. E encontrou pessoas suficientemente ingênuas para respeita-lo. Quantos crimes, guerras e assassinatos, misérias e horrores teria evitado à humanidade aquele que, arrancando as estacas desta cerca tivesse gritado: não escutem este impostor, pois os frutos são de todos e a terra é de ninguém. “

Somos convidados não só a refletir sobre como se deu de forma injusta a posse de terras, como também perceber essa população que nunca teve permissão da sociedade para sair da escravidão. Índios expulsos de suas terras que se unem aos pretos sequestrados para trabalhar e servir aos ladrões das citadas terras roubadas. Outro trecho que esclarece com muita precisão essa condição : ” Os donos já não podiam ter mais escravos, por causa da Lei, mas precisavam deles. Então, foi assim que passaram a chamar os escravos de trabalhadores e moradores. Não podiam arriscar, fingindo que nada mudou…Passaram a lembrar para seus trabalhadores como eram bons, porque davam abrigo aos pretos sem casa”.

Este livro mostra uma parte esquecida do país que, apesar de fazer parte de suas entranhas, é veementemente desconhecida ou ignorada por uma boa parcela da população. Sei que é incômodo à algumas pessoas, lembrar que, talvez a casa onde mora, o terreno que habitamos, foi roubo em sua origem. Lá no começo, quando o sujeito achou de cercar tudo e acabou por fazer raiva a Rosseau. Ou talvez seja mais incômodo ainda, pensar que boa parte da população preta e indígena se encontram entre os mais pobres por questões que vigoram desde nossa colonização. Mas esse é um povo forte, acostumados ao sofrimento que seus ancestrais e descendentes carregam, tais como bambus que vergam mas não se quebram, carregando através dos tempos sua religião, suas crenças e seus costumes. Teimando em não deixar suas raízes morrerem como vítimas do preconceito.

Não, caro leitor, minha intenção não é deixá-lo deprimido ou culpado, ao contrário, quero que você sinta o que eu senti lendo esta obra, quero ainda, apenas parafrasear Belchior : ” Eu quero é que este canto torto,feito faca, corte a carne de vocês. “

* Lorena Queiroz é advogada, amante de literatura, devoradora compulsiva de livros e crítica literária oficial deste site.

Cadê vocês? – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Lembro de um moleque que estudava comigo na terceira série do primário (o que hoje é ensino fundamental). Jogava muita bola, mas não vi seu nome entre os craques que ocuparam os gramados profissionais de futebol.

E a menina que estudou comigo no terceiro ano do segundo grau (o que hoje se chama ensino médio)? Ela dizia que ao ficar adulta seria uma estrela das passarelas. Também não ouvi falar nela, mas isso não quer dizer que não tenha atingido seu intento. Talvez eu estivesse desatento, já que os nomes das estrelas das passarelas nunca me interessaram.

Nunca vi alguém que se destacasse em algum ofício e tivesse sido meu colega na escola. Assim como ninguém da galera da minha rua atingiu o estrelato ou destaque em alguma área. Eles também não apareceram nas páginas policiais como bandidos. Menos mal.

Será que eles têm essa curiosidade sobre mim? Supondo que se lembrem daquele moleque tímido e franzino, de quem faziam zombarias e mesmo partiam para agressões físicas (o que hoje se chama bullying).

Tenho muita curiosidade sobre como estão as pessoas que passaram pela minha vida. Para algumas dessas, que chegaram a ter uma breve convivência comigo, eu gostaria de perguntar por que me descartaram, não quiseram seguir sendo minhas amigas pela adolescência e vida adulta.

Quem sabe seja só saudade do que poderia ter sido, as aventuras que poderíamos ter vivido. Como disse um desses que não quiseram continuar meu amigo, quando me viu depois de o tempo ter passado para nós dois:

– E aí, Ronaldo! O que o destino te reservou?

Pois é! Essa é a pergunta que faço a respeito de todos os que hoje não constam das minhas relações. Talvez o passar dos anos nos leve a pensar nisso: o que aconteceu com cada um? Quais suas profissões? Quem sobreviveu à lida diária? Como a vida se desenrolou depois daquele tempo em que havia um futuro gigantesco e que agora, para o bem ou para o mal, esse futuro é o nosso presente?

Procurei no Facebook e nessas modernas redes onde se pode encontrar de tudo, mas esses personagens da minha existência permanecem na sombra, incógnitos. Talvez não queiram me dar a chance de saber sobre eles. Será que alguém dessa galera que conheci em tempos remotos lembra de mim e tem a mesma curiosidade sobre o que nos tornamos? Será que um dia vou satisfazer essa curiosidade?

Quem sabe encontro alguém um dia. Enquanto isso, vou torcendo para que essas pessoas, mesmo aquelas que demonstravam uma certa violência juvenil, tenham se tornado gente legal, os vários heróis anônimos que estão por aí, educando, salvando vidas e formando cidadãos respeitosos. Tomara!

Delivery (pronta entrega) ou retirada: bartender Mateus Maneschy assina três tipos de drink’s especiais ao alcance de todos – @maneschy_mateus

Em meio a tudo o que vivemos, sabemos de uma coisa: uma hora tudo isso vai passar. Nesse intervalo de tempo, a Banca Rio’s Beer não parou e vai continuar a atender seus clientes da melhor forma. Mas somente delivery (entrega) ou retirada. Além das cervejas artesanais, que são marca registra da cervejaria, a novidade são os drink’s especiais feitos pelo talentoso bartender Mateus Maneschy (@maneschy_barthender). Um profissional que se garante, e muito,  na coquetelaria.

Mateus engarrafou três tipos de deliciosos drinks para pronta entrega. São eles: Black (feito com cerveja stout ), Tom Collins e o Gim Fizz Ipa. Porém, o bartender fará qualquer drink que o cliente quiser. Basta encomendar pelo telefone e ele entregará engarrafado, como os tradicionais e famosos Manhattan, Negroni ou Sex on the beach.

Aliás, Maneschy possui  experiência no serviço de bartender em Macapá, pois já trabalhou em projetos como o Drink na Calçada (@drinknacalcada) e Rustic Burguer Beer . Em resumo, ele é um especialista em fazer drink’s encorpados, com complexidade aromática a mais para a bebida, ou leves e refrescantes, para quem curte uma presença alcoólica suave. E, ainda, os que não possuem álcool. Sempre com sabores intensos e  harmonia agradável.

Sou fã da  bebida mais amada deste sistema solar: a cerveja. Mas também gosto muito de vinho e de drink’s bem feitos.  Já provei uma boa variedade das obras de arte etílicas feitas por Mateus. Todos muito porretas. Portanto, recomendo!

Mais informações:

Mateus Maneschy: (96)98103-8988 e (96)99138-9713

Redes sociais da Banca:
Instagram: @bancariosbeer
Facebook: https://www.facebook.com/bancariosbeer/?fref=ts

Elton Tavares – Jornalista e cliente da Banca Rios Beer desde 2016.

Nossa Pérola hoje virou rosa no jardim de Deus (um texto sobre amor e gratidão)

O escritor Ariano Suassuna escreveu uma vez: “No Sertão do Nordeste a morte tem nome, chama-se Caetana. Se ela está pensando em me levar, não pense que vai ser fácil, não. Ela vai suar!“. Pois é. Assim como com o autor da frase, a “Caetana” suou, e muito, para levar Perolina Penha Tavares, minha mais que maravilhosa avó. Mas hoje, as portas do jardim de Deus se abriram para receber a nonagenária mais linda do mundo, que fez a passagem neste décimo quinto dia de março.

A Páscoa da Peró nos deixa tristes, muito tristes, mas sabemos que ela seguirá na luz que sempre emanou aqui, com sua existência inesquecível e a bondosa força do amor que tanto construiu e regou em nós.

Peró, apelido carinhoso pelo qual nós a tratávamos, foi e é a nossa “Pérola”, como meu saudoso avô, seu marido, João Espíndola, a chamava. Vovó viveu 94 anos. Com toda a certeza, além de longevidade, foi uma mulher muito feliz. Casou, teve cinco filhos. Dividiu amor e multiplicou em nós, somou forças na construção de uma família unida e feliz.

Dia desses, brincando com uma amiga, após a vovó dar entrada no hospital, eu disse: “quando o velho dos outros morre, a gente sempre diz: tava velho, viveu muito. Mas quando é o nosso, a parada é diferente”. Pois é. Posso viver muito, mas nunca vou me acostumar com a partida de alguém que amo. Quando chega o momento, sempre concordo com o escritor Mario Quintana: “a morte chega pontualmente na hora incerta”.

No filme “Amor Além da Vida”, Albert Lewis (personagem interpretado pelo ator Cuba Gooding Jr.) disse: “O inferno verdadeiro é a vida que deu errado”. Vovó é o avesso e disso temos orgulho, pois a dela deu muito certo! Perolina Penha é exemplo de pessoa bem sucedida, mulher extraordinária, uma pessoa sensacional, sábia, ponderada, discreta e bem humorada. Sempre teve muita força em toda sua delicada forma de existir.

Vovó foi acometida pela Covid-19, essa doença que nos leva os afetos e parte nossos corações há mais de um ano. Para nossa família e todos que a amavam e admiravam, é momento de uma breve despedida, pois vovó fez a passagem. Seguimos aqui, certos do amor que recebemos e que sempre honramos.

A Peró é a personificação do amor familiar. Essa lição deixou em nós, aprendemos muito bem. A gente vai sentir uma falta danada dessa elegante e educada senhora cheirosa. Mas depois que parar de doer, vão ficar as inúmeras lembranças felizes e saudade gostosa de nossa matriarca.

Li em algum lugar que “Recordar’’, vem do latim Re-cordis, que significa ‘passar pelo coração’. E todas as passagens da minha vida passam pela tua, Vó. Amei a Peró por toda a minha vida e fui correspondido. Agradeço a Deus a honra de ser o mais velho entre seus nove netos e três bisnetos. Em resumo, já disse, sou razoavelmente bom em escrever textos de parabéns, mas as despedidas são difíceis. Sobretudo, de pessoas que são partes da gente.

Nossa Pérola virou uma rosa no jardim de Deus, e como disse Cartola: “ Que Deus e a natureza, as aves nos seus ninhos, as flores pela estrada perfumem todos os caminhos. E eu ficarei por aqui. Por você, rezarei”.

À Peró, dedico este texto, minha profunda gratidão e amor. Um beijo em ti, vovó. Estejas tu nas estrelas ou em qualquer lugar, além do meu coração. Agradeço à Deus por ter a tua vida ligada à minha, que honra! Amo-te, pra sempre. Até a próxima vez!

Elton Tavares

É proibido peidar dentro do Empório do Índio, diz aviso no balcão – Crônica de Elton Tavares (ilustrada por Ronaldo Rony)

Peido é ruim. Incomoda tanto o flatulento quanto sua vítima. Mas no Empório do Índio, pasmem, é proibido peidar na parte interna do estabelecimento. O Jorge Ney, conhecido popularmente como “Índio”, proprietário do bar, é conhecido por comentários diretos e francos. E foi taxativo no aviso em seu estabelecimento: “Proibido Peidar”.

Portanto, se você resolver tomar umas no balcão do Empório, é melhor conter a flatulência. Quem quiser se aliviar tem que sair e peidar. Nem mesmo os sócios remidos do Bar como Cleomar, Cuca, Kleber, Gilvana e outros amigos, têm permissão para bufar no recinto.

Afinal, tá lá, escrito.

Dou razão ao Índio, afinal, a temperatura de um peido quando é criado é de 37º. Se o metano é fruto de uma carne com chicória então, sai de perto que, se pegar no olho, cega. A proibição é justa, pois tem gasoso que parece descer abraçado na merda, de tão potente. Se silencioso então, é um ataque surpresa muito covarde.

Sobre o Empório do Índio

O Empório do Índio é um espaço democrático que abriga todas as tribos e pensamentos. A Cerveja é sempre gelada, tem tira-gosto de charque e outros petiscos. Localizado no bairro Santa Rita, próximo ao Fórum de Macapá, o bar possui um ótimo atendimento e preço justo.

Mas peidar lá dentro? Não, pode não.

Elton Tavares

A Santa Inquisição do Fofão – Crônica de Elton Tavares (ilustrada por Ronaldo Rony)

Lembro-me bem, no início dos anos 90, do pânico em Macapá causado por um boato “satânico”. Espalhou-se que teria uma adaga ou punhal dentro do boneco do personagem Fofão, por conta de um suposto pacto demoníaco com o “Coisa Ruim”, feito pelo criador do personagem.

Iniciou-se uma caça, sem precedentes, aos brinquedos.

Uma espécie de “Santa Inquisição”.

De certa forma, parte da população embarcou na nova lenda “modinha” e os fofões foram trucidados por conta de um mero boato.

Meu irmão e eu vitimamos alguns fofões que pertenciam às nossas primas (prima sempre tinha Fofão, boneca da Xuxa ou Barbie). Na época, muitos diziam que ouviram do vizinho do “fulano”, que uma pessoa tinha sido assassinada por um dos então apavorantes bochechudos de brinquedo.

O Fofão tinha uma cara enrugada, era tosco, usava uma roupa parecida com a do Chucky (o Brinquedo Assassino), e dentro ainda tinha uma haste (punhal) de plástico, que era usado para manter o seu pescoço em pé.

Realmente os fatos estavam contra ele.

Houve até queima dos portadores do mal, em praça pública. Sim! Naquela praça que ficava em frente ao cemitério São José, que hoje abriga a Catedral, homônima ao espaço reservado aos que já passaram desta para melhor.

Na verdade, comprovou-se que o fato não passou de um golpe de marketing, pois muita gente comprou só para conferir e, em seguida, destruir o brinquedo. Coisas como o lance das músicas da Xuxa que, como se falou na mesma época, se tocadas ao contrário, continham mensagens do diabo.

Hilário!

Foi muito divertido, confesso. Ateei fogo em vários fofões, e foi muito melhor do que a época junina. A maioria dos moleques adorou e grande parte das meninas chorou a partida daquele tão querido brinquedo.

Concordo com o dramaturgo inglês, William Shakespeare, quando disse: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que explica a nossa vã filosofia”, mas não neste caso. Porém, o episódio do Fofão foi uma histeria generalizada entre a molecada e virou mais uma piada verídica da nossa linda juventude, uma espécie de Santa Inquisição dos brinquedos.

Elton Tavares

25 anos da morte dos Mamonas Assassinas

Há exatos 25 anos, morreram os integrantes da banda Mamonas Assassinas. Os músicos faleceram em um trágico acidente aéreo, em 1996. Os caras eram irreverentes , faziam um som escrachado e divertido. Naquela manhã, não acreditei ao ver no noticiário que o avião deles tinha caído na Serra da Cantareira, nos arredores de São Paulo. Inevitavelmente, a comoção tomou conta do Brasil e eu, também fã, fiquei triste pela morte de todos os integrantes daquele grupo que fazia a alegria de todos.

Mamonas Assassinas, lançado em 1995, foi o único álbum oficial de estúdio lançado pela banda brasileira Mamonas Assassinas. O álbum vendeu mais de três milhões de cópias e receberam o Disco de Diamante da Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD).

Durante uma das apresentações, realizada em julho de 1990, os músicos entraram em contato com Alecsander Alves (Dinho). Ele se comprometeu a subir ao palco para cantar “Sweet Child O’ Mine”, do Guns N’ Roses. Através do novo vocalista, os demais integrantes conheceram Júlio Rasec, que tornou-se o tecladista do Utopia. Paralelamente a isso, o “Utopia” passou a se apresentar na periferia da cidade de São Paulo. Aos poucos, seus membros decidiram abandonar os covers e introduziram uma série de parodias nos shows.

Após o lançamento do primeiro e único disco, entraram em contato com o produtor Rick Bonadio. Aconselhados por ele, mudaram o nome do grupo para “Mamonas Assassinas do Espaço”. Felizmente a ideia não vingou, e o nome adotado passou a ser “Mamonas Assassinas”. Alguns dias depois, o grupo decidiu, enfim, enviar uma fita demo para as gravadoras Sony e Emi. No material, estavam contidas as músicas “Robocop Gay”, “Jumento Celestino” e “Pelados em Santos”.

Lembro da primeira vez que eu e Edmar ouvimos “Pelados em Santos” lá no Xodó, em 1995. Rimos muito daquele som. Era só o início da hilariante trilha sonora que os Mamonas nos proporcionaram.

Os Mamonas Assassinas não foram só irreverentes, subversivos e palhaços. Eles foram brilhantes. Eles satirizaram os Beatles, os Metaleiros, o Pagode e a homofobia. Os caras passaram rápido por essa vida. Sacanearam geral e fizeram a alegria do povo brasileiro. A eles, nossas eternas saudades e reconhecimento.

Fui convidado pra uma tal de suruba, não pude ir Maria foi no meu lugar. Depois de uma semana ela voltou pra casa, toda arregaçada não podia nem sentar!” — Assassinas, Mamonas.

Elton Tavares

A entressafra criativa – Crônica de Elton Tavares (com ilustração de Ronaldo Rony)

Crônica de Elton Tavares

De tempos em tempos, não consigo filosofar, mesmo que de forma barata, sobre a vida. Antes redigia um texto por dia com tanta facilidade. É, nem escrevo mais tanto sobre boemia, um de meus assuntos prediletos. Quem dera ter o dom de poetizar ou redigir uma crônica sobre uma invenção qualquer.

Essas insônias solitárias, na companhia de livros, fotos, papos virtuais e a madrugada com a trilha sonora recheada de The Cure promovem uma mistura de sensações e doideiras. Sobre isso, não basta neste momento para um bom texto.

Aí volto a tentar escrever algo legal, seja sobre o trabalho, este novo blog e todas as possibilidades…

Quem sabe sobre amigos.

Nada.

Me faltam ideias.

Normal, é a “entressafra criativa”. Talvez sobre o dia a dia de um assessor de comunicação-jornalista-editor? Nada…quanta tolice!

Quando ocorre, substituo o conteúdo feito de invenção por posts informativos. Claro que com referências e assuntos que acho que são relevantes.

O jeito é canalizar a energia para leitura, afinal os livros sempre fertilizam as ideias e aquecem a paixão pela escrita sobre tudo, até os sonhos. É, vou ler um pouco e tentar dormir. Tomara que amanhã eu vá à forra, viva mais, experimente mais dessa experiência que é existir, e assim, a entressafra criativa vá embora.

Por enquanto, vamos aos sonhos – outra maneira de encontrar com o lúdico de viver. É isso!

Orlando Júnior gira a roda da vida. Feliz aniversário, brother! – @Orlando_Fla_Jr

Tenho alguns companheiros (brothers) com quem mantenho uma relação de amizade e respeito, mesmo a gente com pouco contato. E graças à Deus ou qualquer que seja o nome da força que rege tudo, muita gente já me ajudou na vida profissional. Uma das pessoas se encaixam nestes dois casos é Orlando Júnior, que gira a roda da vida neste vigésimo oitavo dia de fevereiro e lhe rendo homenagens.

Professor universitário, bacharel em Direito, servidor do Tribunal Regional Eleitoral do Amapá (/TRE-AP), ex-jogador de futebol, dirigente de carnaval, remista enjoado, flamenguista fervoroso, fã de Rock and Roll, pai e marido dedicado, além de meu brother, Orlando Júnior é um baita cara porreta!

No início de 2013, comecei a trabalhar na assessoria de comunicação do TRE. Cheguei com muita vontade de fazer valer a grande oportunidade profissional em 8 anos de jornalismo (na época). Orlando foi a primeira pessoa que entrevistei. Ele me ajudou muito na minha passagem pela Justiça Eleitoral.

Sempre sério no Tribunal, o cara é um gozador fora de lá. Gente boa pra caramba e com afinidades descobertas, nos tornamos amigos. Ele está no grupo de amigos que fiz nos quatro anos que trampei no TRE.

Com o Orlando, já passei perrengues de trampo em Macapá e no interior. Viajamos juntos algumas vezes e ele sempre foi parceiro. O baixinho, que é invocado quando preciso, vive me chamando de gordo. Ambos os apelidos apropriados (risos). Além de inteligente, o cara é malandramente safo, pois “manja das paradas”, por assim dizer.

A gente nem sempre consegue fazer amigos no trabalho. Tenho a sorte de conseguir na maioria das vezes e o Orlando é mais um grande parceiro que o trampo me deu. De vez em quando, a gente molha a palavra, bate muito papo, escuta som e ri. Dou valor nesse cara e boto fé que o consideramento é recíproco.

Orlando, mano velho, que teu novo ciclo seja ainda mais paid’égua. Que sigas com essa garra, sabedoria, coragem e talento em tudo que te propões a fazer. Que a Força sempre esteja contigo. Saúde e sucesso sempre, amigo. Parabéns pelo teu dia e feliz aniversário!

Elton Tavares

Quarta-feira (que já foi) de cinzas – Crônica de um estranho Carnaval de Ronaldo Rodrigues

Ilustração de Ronaldo Rony

Crônica de um estranho Carnaval de Ronaldo Rodrigues

Nesta quarta-feira (que já foi) de cinzas, abro a janela para o dia e não estou cansado de ter sambado na Banda. Este ano a Banda não passou e deixou meu coração folião ressacado de saudade. E olha que nem sou um folião fanático. Apenas, de vez em quando, deixo meu espírito se fantasiar e saio a bailar ao som de qualquer batucada ou mesmo embalado pela tradição de grandes sambas que o Brasil ostenta. Isto me tira um pouco do trauma que é não saber sambar sendo do País do Carnaval. Desculpa aí, gente! Já me basta a carga de ser do País do Futebol e não ter a mínima intimidade com a redonda. E antes que me perguntem você samba de que lado, de que lado você samba, você samba de que lado, de que lado você samba, de que lado, de que lado, de que lado você vai sambar, já adianto que o samba está em mim de todo lado, pois meus domingos infantis e juvenis tiveram a trilha sonora de Paulinho da Viola, João Nogueira, Clara Nunes, Alcione. Como ficar imune ao feitiço desse gingado e dessas letras que vão fundo no que é mais profundo?

Porque é Carnaval e não é Carnaval, o samba vem à tona. Em qualquer esquina eu paro, em qualquer botequim eu entro. O samba é revolucionário e rebelde, porque ouço samba no som de Sérgio Sampaio e Tom Zé (e se for além, em Raul também). Então o samba me leva, me eleva e, a quem pergunta onde estou, diz que fui por aí. E desde que o samba é samba é assim.

Mesmo sendo um cara um tanto do rock, minha alma batuca numa caixinha de fósforos, onde cabe toda uma bateria de escola de samba. Alcanço até os acordes de um tamborim que me arrebatam os sentidos. O pandeiro estica no couro a malemolência de quem me diz para não deixar o samba morrer, não deixar o samba acabar. O samba pulsando no asfalto, nos vozeirões dos Jamelões, intérpretes de samba-enredo das escolas de samba deste meu Brasil, que me faz tirar o chapéu para Cartola e abraçar a Vila de Martinho e Noel.

O Carnaval não deixou de rolar, pois é possível celebrar a vida em qualquer situação, ainda mais nesta onda de pandemia que decretou o nosso não encontro com o Rei Momo. A caixa de som do celular me acompanhou por todo o período que seria do Carnaval e ainda agora, nesta quarta-feira (que já foi) de cinzas, ela dispara os ritmos carnavalescos que não devem silenciar até o fim da semana, porque nessas horas sou meio de Salvador, meio de Olinda e levo o folguedo até as últimas consequências.

Vamos segurando a onda este ano para que tenhamos Carnavais com mais saúde e com mais futuro, com mais encontros etílicos ou somente na base da sagrada água, a bebida mais forte, que nutre e abençoa. Porque é hoje o dia da alegria (todos os dias) e a tristeza nem pode pensar em chegar.

Para compor esta crônica, me vali de várias citações: Samba de lado (Chico Science) / Diz que fui por aí (Hortêncio Rocha e Zé Keti) / Desde que o samba é samba (Caetano Veloso) / Não deixe o samba morrer (Edson Conceição e Aloísio Silva) / É hoje – Samba-enredo da escola de samba União da Ilha (RJ), 1982, (Didi e Mestrinho).

Hélio meu amigo Pennafort – Por Fernando Canto

Hélio Penafort – Foto encontrada no blog Porta Retrato

Ao dar o nome de Hélio Pennafort a sua biblioteca a instituição SESC realizou um ato de carinho às nossas letras e uma justa homenagem ao escritor e jornalista que muito contribuiu para que o Amapá tivesse as suas mais legítimas manifestações culturais conhecidas. Foi através do Hélio que a maioria dos que fazem a formação da opinião local hoje, se basearam para sistematizar a questão da identidade do homem amapaense. Fora ou dentro das academias seu trabalho ganhou a dimensão esperada e a valorização merecida, posto que só ele conseguia expressar com elegância nos seus textos as formas rudes (para nós) do falar cotidiano da vida do interior. Muitas vezes publiquei sobre a obra do Hélio por considera-lo um narrador excepcional das coisas da nossa gente. “Triste como um tamaquaré no choco”, “foi cocô de visagem” eram expressões do homem interiorano que ele usava no dia-a-dia. Para qualquer objeto ou situação complicada chamava “catrapiçal”. Vivia contando anedotas de caboclo se divertindo a valer com elas. Era extremamente sincero com seus amigos e não guardava o que tinha de dizer. Apesar de ter exercido inúmeros cargos importantes no Governo, tinha lá suas fraquezas e de vez em quando fugia do expediente para ir ao Abreu ingerir uma gelada, mas era também grave e sério nas suas responsabilidades.

Arquivo pessoal de F.C.

Ainda adolescente andei em sua companhia, juntamente com o Odilardo Lima, repórter e poeta que virou delegado de polícia, e o Manoel João, um telegrafista e caçador de primeira linha, bom contador de histórias. Minha função no grupo era tocador de violão e guardião da memória deles, afinal iriam precisar de detalhes que fatalmente esqueceriam, quando da redação das reportagens que faziam para a rádio Educadora e o jornal A Voz Católica. Hélio proporcionava muitas histórias engraçadas, como certa vez em Mazagão, no início dos anos 70. Fomos de barco até a sede do município, e de carro até Mazagão Velho registrar a festa da Piedade. Ele ia dirigindo (Pasmem!) um jeep, e nós vínhamos tensos, no maior medo, porque até então ninguém jamais o vira dirigir, a não ser uma bicicleta. Com alguns atropelos e barbeiragens chegamos ao destino. Anoitecia e ele foi à casa do seu Osmundo, que liderava o conjunto “Mucajá”. Era um grupo rústico, de pau e corda e clarinete que tocava samba, baião, polca e outros ritmos. Lá pelas tantas, devido sua generosidade etílica, acabou o suprimento de uísque e cachaça. Em toda a vila também não tinha nada de álcool. Ele chamou uma rapaziada e disse: – Vão ver se encontram cachaça que eu dou uma grana pra vocês. Eles voltaram com uma “meiota” de “canta-galo”. O Hélio deu uma golada e cuspiu: “Querendo me enganar… É, seus porras? Cachaça com água eu não bebo, inda mais se é de mulher que acabou de parir”. Fiquei sabendo depois que as mulheres do lugar usavam aguardente na assepsia do pós-parto e que os moleques haviam roubado a garrafa de uma senhora que parira uns dias antes. Esse episódio só fez solidificar a minha admiração pela figura simples e humana do jornalista.

Dia da posse da de Fernando Canto na Academia Amapaense de Letras, 1988. Com os jornalistas Jorge Basile e Hélio Pennafort. Arquivo pessoal de F.C.

Fecundo no seu trabalho, Hélio sempre procurou dar a ele novas formas em linguagens diferentes. Em 1984/85 associou-se ao talento do piloto e vídeo-maker Roberval Lavor e produziu inúmeros vídeos sobre aspectos turísticos do então Território do Amapá. Embora não se adaptasse ao computador, o apregoava como instrumento do futuro, pois era atualizado nas informações tecnológicas.

O Poeta Isnard em carne e osso – Por Fernando Canto

Isnard Lima – Foto: Arquivo do jornalista Edgar Rodrigues

Por Fernando Canto

Conheci muitos poetas que me fizeram ver o mundo de outra forma. Desde os tempos do Grupo Escolar Barão do Rio Branco ainda ouço as “Vozes D’África” de Castro Alves ecoando pelas praças da cidade como se viessem mesmo do outro lado do oceano e retumbassem versos com vigor pelos campos do Laguinho. E eles me dizem no acompanhar do ritmo ligeiro do batuque: “Deus! Ó Deus! Onde estás que não respondes? / Em que mundo, em que estrela tu te escondes, / Embuçado nos céus? / Há dois mil anos te mandei meu grito, / Que embalde desde então corre o infinito… / Onde estás, Senhor Deus? ”

A poesia joga a semente da planta e alarga suas raízes. Só depois é que compreendemos sua ideologia e caráter, pois a entendemos como um ente que traspassa a alma e que inicia a fervedura da arte. Assim fui conhecendo os poetas no dia-a-dia dos estudos e até arrisquei meus primeiros versos, que ninguém acreditou que fossem meus, por isso foram destruídos pela fúria adolescente quando enfrenta o descrédito.

Isnard Lima – Foto: Arquivo do jornalista Edgar Rodrigues

Um dia vi que poetas eram mesmo de carne e osso, embora estranhos. Conheci pessoalmente o Ray Cunha, o Zé Edson dos Santos, o Manoel Bispo, o Silvio Leopoldo, o Odilardo Lima e o curioso Isnard Lima, o mais velho deles. Tivemos nossas primeiras conversas no antigo Clã Liberal do Laguinho no início dos anos 70, época bastante tumultuada, quando falar em democracia era crime. Ali aprendi com eles a ser parceiro de música, de sonho e de esperança, apesar dos percalços do caminho como a impagável “Operação Engasga-engasga” que tentou estragar nossas vidas. Os que não foram presos por pensarem na liberdade migraram para outros centros do país e começaram a pôr em prática seus pensamentos, escrevendo canções, publicando livros, realizando exposições.

Dos presos injustamente que voltaram ao nosso convívio só o Isnard voltou a produzir textos com certa regularidade, mas era muito perseguido pelos chamados “revolucionários” e assim retornou a sua vida de boêmio, que alegrava os bares por onde parava. Neles, sua presença física fazia parte do cenário, assim como sua poesia, às vezes lírica e pródiga, iluminava a noite.

Isnard Lima – Foto: Arquivo do jornalista Edgar Rodrigues

Tempos depois fomos estudar juntos para o vestibular da Universidade do Pará. Ele e a mulher, uma vizinha dele e eu. Passamos os quatro e fomos para Belém enfrentar a vida. Um dia, ainda lá, sua mãe a professora de piano Walquíria Lima, morreu de grave doença. O poeta ficou órfão de mundo. Depois, já advogado, voltou e realizou seu livro de crônicas.

Creio que poetar não é só ajuntar palavras com a sabedoria de quem observa minúcias. Ela também arrebata o que não deve, molha e enxuga imagens. Escrita ou falada ela incide sobre o mundo em raios de aconchego, rebate o despropósito de desatinos noticiados sem pressa. A poesia é arte de encantar, pela soberba luz que tem, até a esperança escondida sob pedras. No presente ela é real de tal modo pétrea que judia a percepção, assim como estende o passo do verso pelas nebulosas verdes do futuro. A poesia é necessária na hora que o mundo se parte em prantos e nos conduz ao estado incompreensível de poetas. É como um féretro de gafanhoto conduzido por formigas de fogo na primeira manhã de março após a chuva. É operativa e vítima viva; amarrada, mas não amordaçada; simbólica, que não concede a ninguém formas aprisionadas, estilos e chavões dos espaços escolares. Ao contrário, voa, evola-se, anja-se e rompe-se comunicando ao homem e seu espírito, que mesmo muitas vezes seca, louca ou amarga, é doce na intenção imensa da criação do autor.

O poeta Isnard Lima, autodenominado “Cafajeste Lírico”, tinha 64 anos quando morreu. Às sete da noite do dia 11 de julho de 2002 fui informado que um vizinho o encontrara caído, ao lado de um aparelho de aerosol usado para amenizar o sofrimento de um enfisema pulmonar, fumante inveterado que era.

Eis, poeta, a minha homenagem pelo Dia da Poesia, que compartilho com todos os poetas de nossa terra, quando sei que nas fímbrias das nuvens gargalhas alegre e ironicamente tiras rosa do teu chapéu e as joga na madrugada.

*(Texto publicado em março de 2007 – JD)