Poema de agora: Ouça bem o que vou gritar no seu ouvido – Fernando Canto

 


Ouça bem o que vou gritar no seu ouvido

Ouça bem o que vou gritar no seu ouvido:
Este avião segrega a minha dor e sequestra meu desejo.
Mas nem assim tirarei o ranço da mochila pra te machucar nesta viagem.
Sou, bem sabes, um viajante extemporâneo hoje em dia,
Ainda que tenha te seguido em prantos
Por desertos e luas paridas sem orgulho.
Sou estratégia, luta e morte agora.
Um calcanhar de sólido e obtuso aço
A deixar pegadas órfãs de grama ao caminhar.
Por ti gestei palavras e poemas
Ensanguentado de mágoas e lâminas enferrujadas no nosso jardim de amarílis, mas não deixei que mesmo à tua voz renitente a dor fosse objeto de vindita.
Mas ouça bem, porque neste avião a manobra de valsalsa me faz surdo e um surto de angústia povoa meu ser, posta a natureza falsa do cabelo da aeromoça que passa me ofertando um tango e um sanduíche no cartão de crédito.
Tiro da cartola um coelho e um moinho de lágrimas e te digo novamente: ouça-me bem, amore, a minha biografia foi filmada em celular e num segundo milhões de acessos contemplei. Ouça -me: despertei do sonho, da prisão do pesadelo que embalava minha rede branca na varanda. Meu coração já não sofre tanto por ti. Ouça -me. Ouça -me! Você pode me ouvir, sim. O avião pousou. Desembarca. Já!

Fernando Canto

Poema de agora: O Poeta e o “poetar” – Lucas Abrantes

O Poeta e o “poetar”

A construção da poesia é o rebento
Dos sentimentos cerrados sem contento
Que um dia rasgam o profundo pensar
Para nascer dos dedos do que quer poetar

Que outrora encontrava-se aflito
Morando nas sinagogas de vazio ímpeto
Mas que ao grafar as ideias de Quimera
Em linhas torna calma a vetusta fera

É indeclinável a missão dos poetas
É ordem militar do General Drummond
Pois desta, surgem as poesias mais belas

São eremitas dos pensamentos enterrados
Exumados e construídos no virgem papel
Trazendo consigo a alma dos abnegados

Lucas Abrantes

Poema de agora: Apoteose Quilombola – Ramon Tavares

Apoteose Quilombola

Virei meu próprio Sacopã
Eu sou o refúgio de mim
Terra forte com lagos estreitos
Marés altas me movem da dor
Remanescente de tudo o que vivi

É fácil dizer quem eu sou
Minha paz no Rio Trombetas
Meu alicerce em Erepecuru
Sorte minha ser criado em Cuminã
Amanhã vou até Acapu

Fugido de Macaé
Carregando lembranças do passado escravo
Vi o mundo a sonhar
Sem medo de ser feliz
A comunidade fez minha dor passar

Venha ver meu povo sorrir
Partilhe da minha tradição vivida
Dance da minha cantiga histórica
Faça de minha cultura seu lar
À noite te espero em Oriximiná

Ramon Tavares

Poema de agora: O ANO QUE NÃO EXISTIU – Luis Carlos Cardozo

O ANO QUE NÃO EXISTIU

Está quase acabando
o ano que não existiu!
Tanto medo, tanta dor,
Tanta gente que partiu!
Com o rosto desolado
Tento brincar de viver:
Minha máscara não ri
Não mostra dor nem prazer
Mas embaça os meus óculos
E ajuda a disfarçar
A tristeza nos meus olhos
E a vontade de chorar…

Só espero que acabe logo
Pra gente voltar ao normal
Pra aquela vidinha chata
De viver junto e coisa e tal
Fazer aglomeração
No São João, no Carnaval
Ir na casa dos amigos
Fazer festa no quintal…

E quando eu te encontrar
Daqui a alguns meses,
Se eu não morrer até lá,
Não estranhe abraçar duas vezes!

É que por não aceitar
tantas perdas,
Tanta privação,
tanta falta de alegria,
Pra compensar
este ano macabro,
No ano novo
vou viver tudo em dobro!

Luis Carlos Cardozo

Poema de agora: Eu Que Nunca Falei de Amor – Marven Junius Franklin

EU QUE NUNCA FALEI DE AMOR

quando te conheci ouvia Friday I’m In Love
[e fazia um frio dilacerante em frente à plataforma de embarque]

quando te conheci andava feito saltimbanco por ruas e luas imaginarias
[estava deveras abatido dentro de meu guarda-roupa de sombras]

meus olhos buscavam o tempo que passou[ e já passava das 19h ]
sempre imerso em meu castelo de pedra

as verdades eram o que os meus mortos diziam
e a claridade[falsa incandescência] me ofuscava quando amanhecia lá pros lados de Saint George

ah! ao te conhecer beirava o suicídio
e quando você chegou [vestida de girassóis] as flores renasceram em meu horto de mentira [e agora as horas são sonetos de Pessoa que ouço em transe!]

ah! quando você chegou…Eu renasci vestido de bruma!

Marven Junius Franklin

Poema de agora: Pequenos notas sobre o “Quando…” – Jaci Rocha

Pequenos notas sobre o “Quando…”

O último pedaço de bolo, um domingo no cinema,
Perder a hora do poema, esquecer e não anotar a rima,
Não ir gastar o fim de tarde na Paulista
Deixar de observar o vento balançar a vida…

Não viver o momento, adocicado e lento
Com a delicadeza de estar presente, inteira.

Esquecer o aniversário de alguém amado,
Esconder um verso, ir menos ao teatro e mais ao supermercado,
Apagar um sonho riscado com a ponta de giz,
ter medo, errar e não pedir perdão…

Só me devora o que não fiz, quase sem querer!
A aula que não pude aprender, o tempo em que desfiz laços…
As vezes que fugi de mim e nem notei
A lágrima sentida, no bolso esquerdo guardado

O amor que esqueci no varal e secou,
A velha dor nos joelhos, o tempo que não me doo,
e justifico e sigo! a falta que não digo,
e às vezes, nem percebo.

Não fazer o melhor poema de amor a cada ser amado,
às vezes, desatentamente, errar a curva da estrada
machucar a emoção de alguém
Ou não doar o melhor em mim no ‘agora’,

—- Só o que não fiz e o que não vivi
O que não doei e não me dispus,
A dor que gerei e não pude reparar
A vida flagrante, que deixei de respirar :

São as coisas tantas que, às vezes, junto do poema
Sentam comigo, sob minha janela
e perguntam sempre e muito:
Quando? Quando? Quando? —

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” O mundo começa agora
Apenas começamos”

Jaci Rocha

Poeta Marven Franklin participa do Recital de Premiação e Lançamento da Antologia do 2° Prêmio Literário AFEIGRAF 2020.

O poeta da fronteira Marven Junius Franklin, estará no recital de premiação e lançamento da antologia 2° PRÊMIO LITERÁRIO AFEIGRAF 2020, que acontecerá no dia 26/11/2020 (Quinta-Feira). O Prêmio AFEIGRAF 2020 tem por objetivo prestigiar a literatura brasileira e descobrir novos talentos com a publicação em antologia dos trabalhos selecionados por uma comissão julgadora. É da expertise da entidade patrocinadora, fornecedora de tecnologia para o mercado gráfico, promover através da comunicação gráfica, o conhecimento sustentável da cultura impressa.

O lançamento que seria durante a 26ª Bienal Internacional do Livro De São Paulo, acontecerá de forma virtual devido a COVIDE-19. O prêmio, da qual o poeta da fronteira foi vencedor, teve uma comissão julgadora formada por grandes nomes da literatura brasileira, como o poeta Celso de Alencar, paraense radicado em são Paulo, considerado um dos maiores poetas brasileiros em atividade, João Scortecci, editor e livreiro e Maria Esther Mendes Perfetti, que foi coordenadora da Escola do Escritor em São Paulo.

O evento que acontece das 19h30 às 21h, é um grande passo para afirmação da literatura produzida na fronteira e como diz o poeta Marven Franklin, já com um vasto currículo literário – apesar do pouco tempo de produção, a literatura amapaense está sendo feita em seus 16 municípios, não só em Macapá.

O prêmio, iniciativa da Associação dos Agentes de Fornecedores de Equipamentos e Insumos para a Indústria Gráfica, contou com o apoio cultural do Grupo Editorial Scortecci e Bignardi Papeis.

Poema de agora: Soneto niilista (Apagão, Amapá, 2020) – Bruno Muniz

Soneto niilista (Apagão, Amapá, 2020)

Nada acontece, como um barranco existo.
Sinto sentar-me a alma de preguiça ou pena.
Sobro ao universo; sou entre um ralho e isto;
do ócio que me dura, só esta brisa acena.

Me tornei do mundo um abalroamento.
Me trocaram por lenha deste fogão de canto.
E se me paira à beira um sono ao pensamento:
“pudera a esperança cair num dia santo”.

Cáspita! por Dante! que inferno!
Eu tinha andado inteiro antigamente!
E cá às paredes dos capítulos me interno.

Me tocaram o sentimento ao gado.
Ando que sinto assim feito que sente
que sou da sombra um corpo apeado.

Bruno Muniz

Poema de agora: Marca D’água – Luiz Jorge Ferreira

Marca D’água

Cadê todos os estranhos.
Feitos de carne ou esculpidos no pano podre da angústia.
Os idênticos, que eu como um Deus falso, semeei entre punhados de adeus,que colecionei ao longo dos Julhos.

Cadê os forasteiros.
Todos sem rumo e sem ânimo, que eu chamei de estranhos.
Todos como eu, que sendo um profeta sem voz, preguei entre as tempestades de silêncio, pragas contra os tempos, e prometi um caminhar a terra do desgosto, agitando estandartes colossais.

Cadê os apaixonados por aventuras, encriquilhados nos sofás.
Com seus pés, finos, sem calos, que nunca de si saíram.
Esses como eu, que como domador de cavalos alados, os pus a apacentar tempestades na tela dos Cinemas.

Cadê eu mesmo, cadê a mim, onde jaz os abraços que empilhei na varanda, frente ao Poente, para distribuir como arroz, em Cirandas, aos Curios e Pintassilgos.

Cadê…eu.
Arrasto o que penso ser restos de uma vida em um caminhar incerto.
Que é bem capaz que termine, por onde nem comecei.

Luiz Jorge Ferreira

*Osasco (SP) – Manhã Chuvosa de 19.11.2020.

Poema de agora: Falta de Bom Censo – Lara Utzig (@cantigadeninar)

Falta de Bom Censo

“gente morre todo dia
mas agora tudo é covid
racismo
trans e homofobia
ninguém morre mais
de morte morrida”

a troco de nada
tantas estatísticas
não são números
são vidas
APAGADAS
nomes
não-registrados
no abecedário
do negacionismo
reacionário

não apenas cêpêefes
corações pulsantes
de sonhos
com o peito arfante
sem ar
jamais serão esquecidos por nós
ou afogados
nesse mar
de desespero
e lodo
onde estamos todos
tentando nadar

Lara Utzig

Poema de agora: Nem sempre um bom lugar – Ramon Tavares

Nem sempre um bom lugar

Avisto daqui, de longe, mas tão perto
ouço somente um chamado,às vezes verso, às vezes prosa
Minhas memórias travam meus passos
O que consigo, é somente levar a minha alma
Pois ela é leve, sem material, sem o pensar e sem as minhas dores

O chamado fica agora mais longe, mesmo eu estando tão perto
O movimento da alma fica mais lento
Ela se torna material, conseguindo o pensar e o entender de existir
Respira, olha, dissimula, enraivece e entristece

Gritos e gritos, não entendendo do porquê o corpo material ficou para trás
Ficou somente a visão de algo velho, cinzento, e inanimado
Mesmo com a luz do sol das 8
Mesmo com o brilho da lua das 9

Eras e eras, enfim a nova alma amadurece
Entendendo o querer
entendendo o pensar
E viu que o que ficou pra trás nem sempre foi um bom lugar

Ramon Tavares