Poema de agora: Não pode ser um poema – Pat Andrade

Não pode ser um poema

não posso mais
engolir a fome insossa
do prato vazio
oferecido pelo desemprego

ando cansada de provar
o caldo fino da miséria
servido pelo sistema

estou engasgada
com a vida que devora
morde e mastiga
a dignidade da gente

definitivamente
não há sabor nenhum
na sobrevivência teimosa
de quem não tem pão

Pat Andrade

Poema de agora: Sonhos – Ana Anspach – @AnaAnspach

Sonhos

Há uma época na vida
Que sonhamos
Dormindo ou acordados.
Acreditamos que é
Possível realizar Qualquer desejo:
Encontrar o pote de ouro
No fim do arco-íris,
Viver embalados pelas
Ondas do mar


Ou ser um grande artista
Por que não?
Nada limita nossa imaginação.
A medida que os anos passam
Vamos nos adaptando ao que a vida nos apresenta
E nos acomodamos ao
Que nos foi permitido ser.
Precisamos trabalhar não para viver nossos sonhos,
Mas para sobreviver.
E na correria do dia a dia
Nunca fomos checar se o arco-íris tem fim ou
Se é possível viver no mar…
E nos contentamos em ser fãs dos grandes artistas.
Esquecemos dos nossos sonhos por que a realidade se impõe.
Mas conseguirmos escapar das obrigações
Fitando os olhos das crianças e dos jovens
Que ainda não desaprenderam a sonhar…

Ana Anspach

Poesia de agora: O eclipse – Bruno Muniz

Eclipse lunar ocorrido em novembro de 2015 – Foto: Elton Tavares

O eclipse

Aí o sol foi ficando moreno,
foi ficando pequeno,
e se mudou pra lua.
Aí não tinha mais o dia,
nem existia a noite;
tinha o sereno queimando na pele.
Aí são Jorge ficou nu,
a primavera dava manga,
chovia margarida.
Então eu comprei um óculos de lua
e fui à praia vazia;
conheci tanta gente legal!

Eclipse lunar ocorrido ontem, 16 de maio de 2022 – Foto: Maksuel Martins

Mas de tanto calor,
a lua se cansou:
– Você tá me sufocando.
– És tão bela, pena que acordas a cada dia numa fase diferente.
E o sol decidiu se mudar.
Então a lua fez-se cheia, minguante, crescente;
se enfeitou de estrelas,
mas o amor ja tinha se partido.
Nessa partilha,
não se sabe ao certo
quem foi mais triste ou mais alegre.
Sabe-se que esse amor eterno
se acabou na primeira manhã minguante.
Vai ver que de certo na vida,
sejam só as noites;
sejam só os dias;
mas se um eclipse te aparecer,
aproveita.
Vai ver só vai acontecer de novo daqui a cem mil anos.
Vai ver o segredo do ser-pra-sempre
possa estar escondido
entre a humildade de nos reconhecermos frágeis
e a vaidade de sermos tão fortes,
mas tão dependentes da felicidade.

Bruno Muniz

Semana dos Museus é celebrada com marabaixo e exposições indígena e da história das eleições

Museu Sacaca, em Macapá — Foto: GEA/Divulgação

O Museu Sacaca preparou uma programação especial para comemorar a 20ª Semana Nacional de Museus com exposições artísticas e culturais, além de visitação em um dos pontos turísticos marcantes do Amapá. O evento ocorre entre quarta (18) e sexta-feira (20) totalmente aberto ao público, na Zona Central de Macapá.

A abertura das atividades acontece a partir das 9h com apresentações de rodas de marabaixo. A organização também criou uma exposição sobre os 500 anos do processo eleitoral no Brasil, para mostrar momentos importantes na trajetória política brasileira.

Além disso, o evento também terá venda de artesanatos locais, exibição de documentários e passeio no tradicional barco regatão.

Programação:

18 de maio (quarta-feira)

9h – abertura oficial da programação
9h30 – apresentação de roda de marabaixo (no auditório)
10h – roda de conversa “Educação museológica: o poder dos museus em diálogo com as escolas amapaenses” (no auditório)
9h às 17h – exposição do TRE-AP “500 anos de eleições no Brasil” (no hall do auditório)
9h às 17h – exposição “Turé dos povos indígenas” (no núcleo de museologia)
9h às 17h – palestra de educação ambiental (sala de ed. ambiental)
9h às 17h – exposição de arte da Galeria Samaúma: homenagem a Gibram Santana (no auditório)
9h às 17h – passeio no regatão
9h às 17h – venda de artesanatos tucujús (corredor do espaço multimídia)
10h às 16h – exibição de documentários (no espaço multimídia)
10h e 15h – contação de história “Uirapuru” (no auditório)
15h às 17h – palestra TRE-AP: “A repercussão dos museus amapaenses diante da sociedade amapaense” (no auditório)
9h às 17h – exposição galeria de rua (corredor do auditório)
9h às 17h – brincadeiras e jogos tradicionais (maloca multiuso)
16h – encerramento com roda de marabaixo (praça das etnias)

19 de maio (quinta-feira)

9h às 17h – visita mediada (exposição a céu aberto)
9h às 17h – exposição do TRE-AP “500 anos de eleições no Brasil” (no hall do auditório)
9h às 17h – exposição “Turé dos povos indígenas” (no núcleo de museologia)
9h às 17h – palestra de educação ambiental (sala de ed. ambiental)
9h às 17h – exposição de arte da Galeria Samaúma: homenagem a Gibram Santana (no auditório)
9h às 17h – passeio no regatão
9h às 17h – venda de artesanatos tucujús (corredor do espaço multimídia)
10h às 16h – exibição de documentários (no espaço multimídia)
9h às 17h – exposição do artista Alex Oliveira (corredor do auditório)
11h e 15h – roda de capoeira (auditório do museu)
9h às 17h – exposição de galeria de rua com o artista J. Márcio (corredor do auditório)
9h às 17h – brincadeiras e jogos tradicionais (maloca multiuso)
10h e 16h – contação de história e sarau de poesia “Biblioteca pública professor Elcy Lacerda” (no auditório)

20 de maio (sexta-feira)

9h às 17h – visita mediada (exposição a céu aberto)
14h às 15h30 – roda de conversa “Desmistificando o preconceito histórico afro-religioso” (auditório)
9h às 17h – exposição do TRE-AP “500 anos de eleições no Brasil” (no hall do auditório)
9h às 17h – exposição “Turé dos povos indígenas” (no núcleo de museologia)
9h às 17h – palestra de educação ambiental (sala de ed. ambiental)
9h às 17h – exposição de arte da Galeria Samaúma: homenagem a Gibram Santana (no auditório)
9h às 17h – passeio no regatão
9h às 17h – venda de artesanatos tucujús (corredor do espaço multimídia)
10h às 16h – exibição de documentários (no espaço multimídia)
10h e 15h – contação de história “Uirapuru” (praça das etnias)
9h às 17h – brincadeiras e jogos tradicionais (maloca multiuso)
9h às 17h – exposição de Galeria de rua com o artista J. Márcio (corredor do auditório)
16h – encerramento com o grupo cultural Zimbra (praça das etnias)

Fonte: G1 Amapá.

Poesia de agora: Sina – Pat Andrade

Sina

a poesia delineia meu caminho
desenha meu horizonte
e sela meu destino

nos seus braços
descanso meu cansaço
encontro felicidades
embalo os luares
carrego meus amores
e navego novos mares

nos seus olhos
espelho meus mistérios
encaro meus abismos
deságuo minhas saudades
provoco novos afetos
e sonho liberdades

Pat Andrade

Poema de agora: Liberdade – Ricardo Iraguany

Foto: Márcia do Carmo

Liberdade

Negro é lindo e quer ter liberdade
Da África até o Chuí, negro! Negro!
Salve ogum, Xangô
E toda a massa
Que quer cantar
Dançar reggae e lundum, negro! Negro!
Negro e toda ginga
Negro é todo black
Negro é toda cor
Quilombo Caribe
Jari e Jamaica
Todo marabaixo
Todo carimbó
Todo afoxé
Negrito toque é no tambor
Negro! Negro!

Ricardo Iraguany

Poema de agora: Despojos – Pat Andrade

Despojos

tranquei o medo
na última gaveta da cômoda
numa segunda-feira à tarde
a chave joguei no canal
[perda total]

larguei a insegurança
num ramal qualquer da BR
[duvido que consiga voltar]

a tristeza afoguei no Amazonas
num domingo de céu azul
[sem nenhum remorso]

a dor está na calçada
dentro de um dos baús
que o lixeiro nunca leva
[é lá que vai ficar]

me livrei de quase tudo
tomei o chá de sumiço
[prescrito pelo doutor]

me banhei com jasmins
e fui dormir mais leve
[melhor que seja assim]

essa convivência besta
com minha própria angústia
pesava demais na existência

Pat Andrade

Poema de agora: O amor acabou aqui – Carla Nobre

O amor acabou aqui

O amor acabou de uma vez por todas aqui
Eu podia dizer que ele virou cinza e pó
Mas não
Virou vela de canela
Para espantar mosquitos
O teu amor sempre foi esquisito
Quem me dera poder dizer que o amor
É eterno
Aqui ele se foi
Rasgou a etiqueta da camisa novinha
Levou até o chinelo preto
Que eu gostava em dias de preguiça
O teu amor enguiça a maçaneta da porta
O amor se foi cantando
Numa cauda de cometa
Parecia estar feliz
Teu amor é essa mordida absurda
Na coxa esquerda da minha cicatriz
O amor acabou com minha dentadura
Rasgou lençóis
Deixou a conta pendurada no bar
O teu amor sempre foi
Um jeito estranho de acreditar
Que podíamos ser feliz para sempre
Teu amor sempre foi ausente
Nunca mais eu vou querer
Um amor que que faz meus olhos doerem
Que me deixa doente
O amor acabou por aqui
Só faltou levar o teu cheiro
E isso me deixa uma agonia no corpo inteiro
Sim, teu amor sempre foi sorrateiro
Uma nota musical
Quebrada na pena do meu tinteiro

Carla Nobre

Poema de agora: Sem bagagem – Luiz Jorge Ferreira

Sem bagagem

Mãe! Eu não vim buscar nada, mãe.
Nem farinha torrada, mãe.
Nem estrelas cadentes.
Mãe! Eu não trouxe minha alma, mãe.
Que larguei pela estrada, mãe.
Nas manhãs do teu tempo.

Não prepare este doce de leite.
Não acenda estes olhos para me olhar.
Que eu não vim buscar nada, mãe.
Que eu não vim buscar teu luar.
Eu estou de passagem, mãe.
Eu vim para me… procurar.

Mãe! Eu não vim brincar de nada, mãe.
Nem fazer travessuras, mãe.
Nem fugir do teu ralho.
Mãe! E se eu trouxesse um sorriso, mãe.
E ele fosse um aviso, mãe.
Eu a encontrasse chorando.

Não prepare este doce de leite.
Não acenda estes olhos para me olhar.
Que eu não vim buscar nada, mãe.
Que eu não vim buscar teu luar.
Eu estou de passagem, mãe.
Eu vim para me… encontrar.

Luiz Jorge Ferreira

Poema de agora: SER ESTRATOSFÉRICO – Marven J Franklin

Aproveito o poema do Marven para homenagear nossa mãe, Maria Lúcia, o nosso “Ser estratosférico”.

SER ESTRATOSFÉRICO

[Mãe]
Ser estratosférico,
querubim a nos resguardar
da ilusão do mundo
(nos defende da crueldade & do desamor
– nos previne dos intentos perniciosos
& das maldades que rastejam ao nosso redor).
[Mãe]
Sua mão dócil é arma potente
que nos protege do mau agouro
– cinismos & hipocrisias
que cerram invariavelmente fileiras
em torno de nós.
[Mãe]
Flor que nunca emurchece
– etérea, confeccionadas
com sofisticadas estruturas
de amabilidade
(lírica – terna & divina).
[Mãe]
estrela cadente
que nos defende em momentos cruciais
– brindando-nos contra os dragões
& gigantes imaginários.


[Ah! Mães]
Não deveriam fenecer jamais
– no máximo, modificarem-se
na mágica do impossível
(revolvendo-se em belos girassóis
a nos clarear pela vida toda
– pujantes lanternas de benignidade).
Ó! Supremo, as mães deveriam ser eternas!

Marven J Franklin

Poema de agora: Menino Paiaiá – Ricardo Iraguany

Menino Paiaiá

Me salve minha nega ,minha preta me salve
Me salve negrinha de ser um menino paiaiá
um menino bobo tão tolo e tão besta que fica envergonhado até na hora de namorar
Quem dera eu tivesse o letrado do Fernando Canto ou poesia do Manoel Bispo ou do Isná , pra não viver abobalhado pelos cantos embasbacado na hora de poetizar
Quem dera eu tivesse o tudo no todo do Afrane Távora, ser Ralfe Braga, R peixe, Jesiel ou Josafá
pra não viver ensimesmado pelos cantos assim anexado na hora de me expressar
Quisera eu tivesse o canto do EnricoDi miceli, do Zé Miguel do Amadeu, do Wal Milhomem ou do Osmar
Pra não viver assim abismado pelos cantos embasbacado até na hora de cantarolar
Como dizia vovó lá nos campos do laguinho
Esse menino tá parecendo um menino paiaiá

Ricardo Iraguany

Nesta sexta-feira (6), tem “Sextou Poesia” no Sesc Centro, em Macapá

O projeto “Sextou Poesia”, que estava previsto para acontecer nas últimas sextas-feiras de cada mês, passou agora para a primeira sexta-feira do corrente.

A segunda edição do evento, conta com a poesia do Coletivo Juremas, os músicos Edu Gomes, Mário Mano e Clebson Sá. Além dessas atrações, a Indígena Bruna Karipuna participará oferecendo a arte Karipuna por meio da pintura corporal. Uma forma do público interagir e conhecer mais sobre a sua própria história.

Sobre o projeto

O Sextou Poesia é uma realização do Coletivo Juremas e do SESC Amapá, com apoio do Quarta de Artes da Pleta, Secult Amapá e do O Charme da Poesia. O projeto vai além de um espaço de arte e cultura, é mais uma oportunidade de dialogar sobre a cadeia produtiva da cultura, bem como criar laços para fortalecer o setor no Amapá.

Serviço:

Sextou Poesia
Data: 6 de maio (sexta-feira)
Hora: 19h
Local: Restaurante do Sesc Centro – R. Tiradentes, 920-1004 – Central, Macapá
Entrada Livre

Mary Paes 
Assessoria de Imprensa 
(96)98138-5712 | 99179-4950 

Poema de agora: Governo do Corte – Ana Anspach

Governo do Corte

Vivemos dias de chumbo.
Áreas essenciais para o desenvolvimento
Estão sendo tratadas com desprezo e negligência
Assim como políticas públicas universais: saúde, educação,
Previdência e assistência social.
O Brasil passou a ser uma nação
Onde não se investe em pesquisa,
Nem em ciência e tecnologia.
E o que dizer da arte?
Agora é algo que contraria
O interesse público…
Além disso vimos acontecer com lágrimas no coração
Incêndios em museus, teatros e outras instituições de cultura.
Mas nada irá nos calar.
Seguiremos transgredindo, denunciando,
Conclamando parcerias,
Cantando, escrevendo, dançando e criando.
Continuaremos amando e resistindo
Fazendo parte do cenário cultural,
Cultura cura.

Ana Anspach

Por acaso…Número 0 – Texto poético de Luiz Jorge Ferreira

Texto poético de Luiz Jorge Ferreira

Entrou aqui em casa uma saudade cigana
Que plantava bananeira e chutava de mentirinha meu cachorrinho de feltro…
Apagava meu reflexo do espelho.
E cuspia caroços de laranja em direção aos peixes do Aquário.
Era uma saudade louca por doce de leite, bambolê e figurinhas do Álbum dos jogadores brasileiros da Copa do Mundo de 1962.
Arrastava o sofá, jogava pião no tapete comprado por mamãe na Guiana Francesa.
Cheirou lança perfume e besuntou o rosto com AntiSardina plus blue…
Os gatos da esquina invadiram o quintal, a rosa da vizinha perfumou-se demais.
E eu por fim de braços dados com a saudade atravessei a rua pulando um Frevo entrecortado de refrãos,
topei com o dedão em um tijolo sujo de areia
escamas de sereias e percevejos…


Ela sumiu…
Não fui longe vim correndo voltando no tempo… tranquei as portas e as janelas e atirei as chaves ao vento.
Mas senti sua falta,
foi quando a lembrança entrou pela fresta espaçosa no banheiro…
E perguntou tímida…
Cadê sua amiga…?
…Fugiu.
– Fugiu?
Dá para chamar de novo?