Poema de agora: MUDEZ – Pat Andrade

MUDEZ

me faltam palavras
mesmo que o coração
fale aos berros
dentro do peito

minha boca se cala
ainda que meu corpo
grite e sinta o arrepio
em cada pelo

me falta a voz
ainda que o sentimento
se manifeste em mim
meio sem jeito

e sem conseguir
dizer o que quero
sigo assim muda
a te olhar pelo espelho

Pat Andrade

Poema de agora: A POSE [em morte] – Marven Junius Franklin

A POSE [em morte]

um busto gótico
à esconder-se pudico
do olhar estrábico
do um público[estático]
um busto dúbio
à mostrar-se ambíguo
em flash mudo
cadavérico [em cântico]
oh, um busto!
à insinuar-se mórbido
em libido lógico
no pórtico [átrio]
em arroubo único [em pose]
em morte

Marven Junius Franklin

Poema de agora: Oito Ilhas – Aline Monteiro – @Alyne_Monteiro (Vídeo e voz de Áquila Almeida – @manudosertao)

OITO ILHAS

Não há luta entre margem e rio
Em doces encontros, água e encosta se beijam
navegam-se noite a dentro
Bailando as ilhas se reconstroem

Mas onde era campo cerrado hoje é rio
e seu gosto doce já não molha a sede das bocas
A boca já não canta novenas de santo

A cidade assoreada já não fala mais
assim que a maré subir…
A cidade já não vê a cidade.

Aline M. – Vídeo e voz de Áquila Almeida

Poeta Pat Andrade gira a roda da vida. Feliz aniversário, querida amiga!

A poeta Patrícia Andrade.

É onze de maio e Patrícia Andrade, a querida “Pat”, gira a roda da vida. A brilhante poeta chega aos 50 anos, mas nem parece. Tanto fisicamente, quanto espiritualmente. A bela e talentosa artista é uma livre pensadora e, como poucas pessoas que conheço, deu uma guinada em sua vida. Para melhor, claro. Por ser seu dia, hoje rendo homenagens à essa mulher sensacional.

Conheci Patrícia Andrade há 22 anos, quando ela desembarcou aqui, no meio do mundo, vinda de Belém (PA), em 1999. Safa, descolada e sem estar ideologicamente presa a nada, Pat se tornou rapidamente “chegada” de todos nós, os malucos da cidade. Logo virou broda de intelectuais, militantes culturais e, é claro, poetas e escritores. A menina sempre se distinguiu por ser inteligente e despudoradamente franca. Aliás, poesia é uma arte que essa linda domina. Patrícia é senhora do ofício de poetizar.

Pat Andrade, há 20 anos, nos saraus de Macapá

Cheia de papos legais e dona de vasta cultura geral, Patinha é uma mulher cheia de poesia, histórias hilárias, outras nem tanto, e uma trajetória bacana no cenário cultural de Macapá. Além de poeta, trata-se de uma multi-artista, pois ela também se garante nas artes plásticas, escritora/cronista, discotequeira (Vinil-DJ) e produtora de vídeo e ativista cultural. Pat, inclusive, foi uma das fundadoras do movimento do vinil na Floriano e em outros locais desta cidade cortada pela Linha do Equador. Também é figura presente em saraus ou qualquer manifestação cultural e de defesa de direitos da sociedade.

Eu vi o Artur gitinho e já é esse cara aí ao lado da mãe. O moleque é talentoso também. Gente querida!

O tempo passou, eu virei um velho gordo e a poupança Bamerindus levou o farelo. A Pat namorou, casou, se tornou mãe do querido Artur, trampou e pirou. Tudo com intensidade, paixão, sás coisas legais que gente como ela faz e acho muito firme, pois sou assim também.

O mais legal é que, nos últimos três anos, Patrícia e eu nos reaproximamos. Ela virou a poeta que mais contribui com este site e minha parceira de trampo. Patrícia colabora para este site, onde assina a sessão “Caleidoscópio de Pat Andrade”. Além de broda para papos bacanas e desabafos, que todos precisamos.

Pat e o marido, Marcelo Abreu.

Outra coisa porreta sobre Andrade é que ela se reinventou, começou a cuidar da saúde física e mental. Essa virada de chave é algo lindo de constatar. Hoje, casada com o também poeta Marcelo Abreu, a amiga vive feliz, com seu esposo e filho. Como diria Raulzito, ela não quer mais andar na contramão. Sempre vejo a querida postar em suas redes sociais fotos de atividades físicas, entre outras coisas bacanas e penso: será que um dia eu conseguirei? Enfim, se ela tá feliz, eu tô feliz.

Calistenia matutina de Pat e seus amores.

Pat também cursa Letras na Universidade Estadual do Amapá (Ueap), mas poderia dar aula, de tanta sintonia que tem com as palavras e com a língua portuguesa. A obra poética de Patrícia Andrade é resultante de uma mistura de vivências, amores, dores, tudo em tom de confissão.

A poesia de Pat Andrade é um passeio emocional entre as esquinas da arte e da vida, quando sentam para conversar. Há o ritmo do Equador e uma ternura própria, em suas linhas. Além de tudo dito e escrito, a Patrícia é uma pessoa que sei que posso contar. Amigos assim são bem raros. Ela é Phoda! E eu a amo como uma irmã.

Eu e Pat Andrade. Brodagem!

Patrícia, minha querida, que teu novo ciclo seja ainda mais produtivo, saudável, rentável e que tudo que couber no seu conceito de felicidade se realize. E que tua vida seja longa, por pelo menos mais uns 50 maios. Apesar destes tempos cinzas de pandemia que vivemos, hoje é um dia feliz pelo teu ano novo particular e tu mereces todo o amor que houver nessa vida. Parabéns pelo teu dia e feliz aniversário.

Elton Tavares

Poema de agora: Memorial estudantil – Júlio Miragaia (@juliomiragaia)

Não lembro o autor desse registro de 2009 em Belém, no Encontro Regional dos Estudantes de Comunicação Social (Erecom) – Júlio Miragaia.

Memorial estudantil

Guarda tambores no céu
E domingo no sol
No asfalto, canção

Guarda no peito
Pedras e ventos
Poema, panfleto
E soco no ar

Como será se Guamá
Transbordar na brancura do CAN?

Como penso na gente
Que segue do lado de cá

Guarda na foto
Chuvas de algum socialismo
Ou amor

E guarda no fundo
Desse pra sempre
Sorriso de quem
Vai chorar

Júlio Miragaia

Poema de agora: BEM QUERER – Pat Andrade (para sua mãe, Assunção Andrade)

Patrícia e Assunção. Amor de mãe e filha.

BEM QUERER

quero derramar
poesia no teu cotidiano
declamar meu amor

quero dar cor às palavras
pra alegrar teu canto
e secar teu pranto

quero capturar raios de sol
que te iluminem
os dias cinzentos

quero movimentar os ventos
pra soprar as tuas dores
para onde não te alcancem

quero te oferecer
jardins etéreos
te desenhar mil flores

quero te fazer sorrir
te fazer sonhar
com dias melhores

quero que toda a palavra
nos sirva para fazer o bem
pra ti e pra mim também

Pat Andrade, para sua mãe, Assunção Andrade.

Poema de agora: SOBRE AUSÊNCIAS – Pat Andrade

SOBRE AUSÊNCIAS

esses silêncios
insondáveis
esses hiatos
impenetráveis
te levam
pra longe de mim

essas curtas
ausências
essas pequenas
distâncias
me dão a medida
da tua existência

me desconcertam
me desconcentram
me deixam no vácuo
do sentimento

me arrasto pra ti
a passos lentos
me arrisco
em teus precipícios
e reinicio
o movimento

sem cansaço
liberto o brado

ecoo nesse vazio
ilimitado

PAT ANDRADE

Poema de agora: Kurimãtã – Luiz Jorge Ferreira

Peixes com grafismos indígenas – Imagem Maisi Garcia

Kurimãtã

Estou como Rita Lee.
Vestido de índio deitado na grama do quintal sem sol e sem sal engravidando os Horizontes.
Jogando cartas com as formigas, afogando Pirilampos na cicatriz do meu umbigo repleto de suor, olhando as unhas dos pés crescerem milímetros por Século, assoviando Ravel.
Sobrevivo absorto olhando aos céus para flagrar Deus acordando.

Estou do outro lado da vida.
O lado do avesso… depois do Arco Íris, que trago cristalizado na retina.
Ontem pedi ao dia que não corresse tão rápido como um Negro Corcel.
Implorei as Borboletas que não ousassem trocar suas cores por neons pálidos.
Ouvi trovões e raios, mas só me enamorei do rio, se alimentando da chuva vespertina que deliciosamente sufoca as maçãs.

Índio morador da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru toma banho no Rio Jari com seu papagaio. Foto: Victor Moriyama

Sou um velho índio pescador de nuvens e semeador de lembranças
no qual as Primaveras ruidosamente, cicatrizaram vidas.

Luiz Jorge Ferreira

 

Poema de agora: A greve dos motores assalariados – @juliomiragaia

A greve dos motores assalariados

A cidade para
Se os motores dormem
E os motores dormem
Se a jornada é podre
E se a jornada é podre
E o salário é pouco
A cidade para
E o trabalho quebra
Se o salário é rouco
E se a jornada aperta
O transporte greva
E o transporte é caro
E a lotação aperta
E o motor abafa
A chuva que não molha
O salário some
No transporte-merda
No lucro luso-podre
Na mais-valia aberta

Júlio Miragaia

*Poema do livro “O estrangeiro de pedras e ventos”, sobre a greve dos rodoviários de Ananindeua Marituba, em 2011.

Poema de agora: Luta! – Pat Andrade

Luta!

a vida é uma guerra.
é preciso lutar por tudo.
então, eu luto!
pelo sim,
pelo não.
luto pelo amor,
pelo vinho e
pelo pão.
luto pelo absurdo.
luto sem trégua!
e, se for preciso,
quebro uma
ou outra regra

Pat Andrade

Poema de agora: Metamorfose – Mauro Guilherme

Metamorfose

Da árvore as folhas caindo,
A lagarta virando borboleta,
Uma flor morrendo e outra se abrindo,
O sol se vai para que se venha a noite…

Enquanto isso, uma criança nasce,
Depois um homem vai partindo…
Tudo no mundo se encadeando,

Das nuvens a chuva surgindo.
Do solo a semente brotando

É Deus lá em cima construindo
Vai-se um tempo, mas outro surge

E o homem vai evoluindo
Porque tudo na Natureza muda
Para que continue existindo.

Mauro Guilherme

Poema de agora: Como o vento – Mauro Guilherme

Como o vento

Ser leve como a pena
E, como a pluma,
Não ser pesado a ninguém.
Flutuar ao leve vento,
Ser ar em movimento,
A vida voando vem.
Ser leve como um pássaro

E, como um poema,
Não ser pedra também.
Ser voo suave, plana a pena,
Pena ave, ver a vida do além.

Mauro Guilherme

Poema de agora: O amor em tempos de lonjura – Patrícia Andrade

Arte: Artur Andrigues

O AMOR EM TEMPOS DE LONJURA

em tempos de lonjura
vale a memória da pele
o arrepio do pelo

vale o sabor da tua boca
o cheiro de nós dois
o gosto do suor

vale o calor dos teus braços
o brilho nos meus olhos
e nossa paz interior

“O amor nos resgatará”

vale o que fomos,
o que somos e vivemos
pra deixar chegar o amor

vale a vida lá de fora
o beijo que não foi dado
e o tempo que parou

Patrícia Andrade