Poema de agora: Novos ensaios sobre o tempo – Jaci Rocha

Novos ensaios sobre o tempo

O tempo muda a gente de lugar
(É um poema)
Solto, escorre na gota do dia
E nostalgia é só um jeito

de o tempo, na gente morar.

A gente muda o tempo de lugar!
É uma anacrônica.
Parábola dispersa num estranho
conta-gotas…

E explicar tudo isso
é tornar rude a sutileza com que a vida movimenta
A emoção, as nuvens…isso é uma arte.
É leve. Mas é forte.

Observo o farfalhar das coisas
Cada vez mais desligada das palavras
Apaixonada que sou pela poesia
Aprendo a descobrir no olhar…

Quando o porto é bom,
dou de aportar.
Mas se não der de adocicar a alma
Visto-me da mais bela calma

Pois o tempo muda a gente de lugar…

Jaci Rocha

Poema de agora: Retardatária – Jaci Rocha

Retardatária

Caminho em direção ao riso
A poesia me beija a boca
Preciso de abraços, afetos e canções
E de ouvir Belchior
Sempre que me achego ao luar

Preciso tanto navegar!
Mas sei, aportar é preciso.

Sou feita de um duro material
Que verga pelo prazer da curva
Da solidão da letra
E da junção do verso
E sei que a palavra é elo

E ela me trouxe amor…

Gosto das luzes do Natal
E das chuvas de Dezembro
Das flores molhadas no jardim
E de estar assim
Sentindo o ar passar por mim…

Aprecio o agora
Esta carne, esta construção
Os sonhos do futuro
E o olhar com que traço escolhas
O sabor do vinho e também das uvas…

Caminho em direção a mim:
– o eu do futuro, que me espera –
Aquela primavera
Que ainda não vi
Mas virá…

Os sonhos que ainda irei sonhar…

Retardatária
No curso de normalidade da vida
Aprendi a respeitar essa natureza sedenta
E apesar de tanta anestesia coletiva
Minh´alma segue atenta.

Jaci Rocha

Poema de agora: DISTOPIA – Fernando Canto

DISTOPIA

Aqui
Onde a língua corta a faca
Há um jogo de eternidades
Na memória dos falantes
– Esses deuses que sabem todas as senhas dos mortais,
Seres que aplainam a tábua dos fatos
Para lhes tirar os excessos que lhes condenariam

Aqui
Há casas sobre as águas
Feitas com os crassos troncos das marés
Aqui mora a ira
Mora a iracúndia profunda expressa em rugas
E o costume de engolir palavras nunca articuladas

Do convívio estreito com o sol
Dentes se oxidam e línguas apodrecem
Sem sonhar futuros e a embotar o brilho das estrelas

Talvez numa estrada de águas e ínguas
Uma légua de língua corte a jugular
Para sair a palavra evasiva ao último esforço
Aqui, onde se mastiga a sílaba silente

Fernando Canto

Poema de agora: Sobre tanques – @juliomiragaia

01/04/1964 – Rio de Janeiro – Tanques tomam as ruas da cidade. Em poucas horas, o presidente João Goulert seria deposto. Iniciava-se a Ditadura Militar, que governaria o Brasil pelos próximos 21 anos. Foto: site Lente Histórica.

Sobre tanques

Para Bertold Brecht, Leon Trotsky, Nahuel Moreno e Pussy Riot

O vosso tanque, General,
é um velho dicionário
retardado,
é uma parede de ignorâncias
tortas

o vosso tanque tem rodas
de mentiras,
tem balas
de burocracia

o vosso tanque, rouco general,
é conduzido
por um soldado cego
que atira
sob tuas ordens surdas

o vosso tanque é o caminho
inverso
do mundo
e que nós vamos derrubar

de Kiev a Caracas
os muros já não se cabem

multi_viralizamos
a ordem canhota no mundo
sem fascistas, reformistas, i-isistas

o nosso tanque, general,
é feito de homens-verdade
de roubar comida, caminho e amor
é feito de primavera
o nosso tanque dispara
revolta

pior,
cospe um velho
vento louco
de luta de classes
no peito podre
dos teus soldados

o nosso tanque
é de aço e futuro
o nosso tanque
é de tempo presente

O nosso tanque,
stalinista, solitário
e enrugado
general,
não é o vosso tanque

o nosso tanque
é de indignados
o nosso tanque
é de queda do muro
o nosso tanque
é vento e coração

Júlio Miragaia

*Poema do livro “O estrangeiro de pedras e ventos” – Belém do Pará, fevereiro de 2014.

 

Poema de agora: A AURORA – Ori Fonseca

Foto: Sebastião Salgado.

A AURORA

Eu abdico do direito de ficar calado!
Enquanto a tirania quiser
Sombrear o roseiral,
E as nuvens da injustiça
Ameaçarem precipitar-se sobre inocentes,
Eu abdico do direito de ficar calado.
Antes: não abro mão do meu dever de gritar.
Neste mundo de contrários
Em que malfeitores são mitificados,
Em que demônios clamam por Deus,
Em que a fome de muitos sacia a gula de poucos,
Em que direito e dever se confundem na metáfora,
Eu quero trovejar!
Arre todos os insossos, todos os insípidos e mornos,
Arre todos os que falam e choram para dentro,
Os que respiram com vergonha e medo de serem notados.
Antes a corrosão ácida dos impropérios escancarados
À impassibilidade dos olhos cinzentos,
Dos lábios sem temperatura,
Das mãos sem ossos.

Eu não quero ter direito a nada que me cale!
Eu quero o dever de cantar.
Se desprovido eu de língua,
Meus olhos gritarão,
Meus punhos bradarão,
Meus órgãos entoarão por mim
Os cantos de revolta e guerra,
Como um galo a chamar cada vizinho
Para compor o coro ensurdecedor
E esperançoso
De um dia novo.

Ori Fonseca

Poema de agora: QUANDO A LUA CAIU DO CÉU – Arilson Souza

QUANDO A LUA CAIU DO CÉU

Quando Lua caiu do céu…
o firmamento se fez escuridão
e a dor se iluminou com o brilho dela.
O olhar imergiu no grande vazio,
as lágrimas escoaram para o penoso rio
e a tristeza ecoou no infinito universo.

Ah, quando a Lua caiu do céu…
levou com ela a luz da esperança,
deixando o Sol num altar gélido e solitário.
No peito um soluçar tímido
(porém incontrolável )
como um furor de um vulcão.

(Decerto, pela manhã haverá solidão)

Arilson Souza

Poema de agora: O tempo não conta para a eternidade (Fernando Canto)

O tempo não conta para a eternidade

Aos poetas disfarçados de lógicos
Ainda que tarde
A hora arda
O tempo estanca
E o texto escorre

O tempo é mesmo
Âncora invisível
Bússola quebrada
Teia silenciosa
A entupir as bocas das entranhas.

O tempo não conta para a eternidade
Lírico e lento
Lapida em cinzel de sonho
A pedra etérea da vaidade

Fernando Canto

Vídeo poema de agora: SOPRO – Patrícia Andrade

SOPRO

pela estrada deserta
o céu ameaça desabar

meu coração cálido
se comove
com a brevidade da vida
de uma borboleta

a morte azul e preta
se desenha dura e seca
sobre o asfalto quente

uma saudade
escorre
pelo meio-fio

len
     ta
        men
               te…

os carros
correm
indiferentes

meu coração
amiudado e triste
implora aos deuses
apenas um sopro
de eternidade
para tudo o que for
belo e ausente

Patrícia Andrade

 

*Videopoema feito em família. A voz é de Marcelo Abreu, a trilha sonora é de Matheus de Sousa, a edição é do Artur Andrigues e o poema é desta poeta (Pat Andrade).

 

Poema de agora: Condição Atmosférica – (@cantigadeninar)

Condição Atmosférica

Amapá:
leves pancadas de chuva
sexta-feira, 36°C
não esqueça o guarda-chuva

o mormaço se levanta
nuvem espessa, muita lama
nos jornais a apresentadora avisa:
dia quente, meio-dia

fim de tarde:
vento forte, umidade…

o homem meteorológico
não consegue prever o tempo.

Lara Utzig

Poema de agora: reza – @stkls (Vídeo e voz de Áquila Almeida)

reza

começar um poema perdido na maré
começar a achar que do outro lado
uma canoa me espera
e você achando que
vou indo lá me embora sem ti
quando sei que essas tuas águas
não me visitam mais
nem o teu olhar prata da noite
nem o teu breu de quarto
e aquelas tonturas de amor
talvez seja melhor colocar na mala
um cheiro de capim santo
e doses de alecrim
pra distrair o cheiro que você me arrumou
e que ficou guardado
eu não consigo esquecer
eu não consigo passar um café
sem antes passar nas memórias
que eu guardei para o dia do fim
e o fim é agora
é hoje
acho que me distraí no mangue
que vim rolando até aqui
com os joelhos ralados
nem violeta com pião roxo cura
o que cura é você chegando
de canoa, zé
trazendo o peixe preu me distrair
só pra ouvir você dizer
que delicadeza! que senhora! que deusa!
eu só queria te dizer
que eu aprendi que o infinito
é o mesmo que um rio de estrelas
não se acaba assim
por que ir se aqui ainda tem tanto amor?
tem a lida o cuidar com os bichos
tem a noite a luz da lamparina
tem agora meu coração
que passa frio
você é um sujeito
-saudade
coisa de vento que só toca a gente
aqui dentro de mim
você é um peixe que nada
e eu não sei disfarçar
eu te ponho no meu potinho de açúcar
e de nada adianta
eu te quero amarrado na minha saia de chita
preu rodopiar sem pedir licença
pra vida ou pro mundo
pra natureza ou pra qualquer santo
eu já tomei um banho de ervas
já ouvi tantas pessoas dizerem
ele não é mais
ele era
e eu digo é impossível
ele tá aqui nas tábuas do assoalho
no meu altar de santo
no campo serrado
no rio quando vai chegando
a dona castorina me disse
que eu carrego um amor muito forte
que isso é capaz de enlouquecer
como quando corri pelo terreiro
e não te achava
como quando eu te esperei
e você não chegava
eu ando achando que você deixou
uma canoa à minha espera
porque anda pensando que vou sem ti
o nosso filho me disse
que eu não acreditasse na morte
e que agora é você quem acende os vaga-lumes.

Pedro Stkls – Vídeo e voz de Áquila Almeida

Poema de agora: Página Três – Luiz Jorge Ferreira

Pagina Três

Em minha’alma tem um criadouro para cães de guarda aposentados, e tartarugas míopes…
Meu coração…não…está com o guarda- chuva aberto, mas sem lugar para olhares dispersos, abraços frouxos e recordações oriundas de Abril.
A galope minha sombra corre atrás de mim…menino.
E embaraça meus cabelos com linhas de pipas com as quais colori o céu de Outubro.
Mas os cães e as tartarugas …me reconhecem na terceira estrofe do Hino Nacional, no quarto Girassol de Van Gogh, e no dedo médio de Cristo …contraído na cruz.

Sobre o guarda chuvas …não chuvas…tempo a galope…ontem estava eu…na mesma estrofe.

Hoje um senhor de tez descolorida, cabelos ralos, e diálogo em Birmanês com Tartarugas do Barigui, e cães saídos do Quadro de Matisse…
Faz esforço para lembrar o Canto dos Cantos de Marabaixo…aliembaixo …
onde a chuva adocica…as trevas criadas por uma lua pálida sonolenta debaixo do toldo rasgado do Circo Garcia.
O tempo é leão, domador, bela das facas, contorcionista, aplausos e solidão.

Foto: Rádio Câmara

É com ela que toco um dobrado.
Sob um guarda-chuva molhado.
De água morna do olhar, salgada de sal.

Luiz Jorge Ferreira

*Osasco…18.02.2021.

Poema de agora: Do pensar do gato – Fernando Canto (republicado por conta do Dia Mundial do Gato)

Foto: Fernando Canto

Do pensar do gato

Em cada marco um conceito de cicatriz
Nessas paragens onde apago
A vela das almas.

Acredita!
Nas segundas ou nas sextas
Tenho que despachar encruzilhadas
E me serpentear na brisa.

Quem era eu? O fardo dos guindastes?
Um porto que abriga as meretrizes?
Quem antes de mim
Jazia nas sepulturas das pontes
Nas partes açodais do fundo?
Eu era, sim, um ranço rebuscado de alfazema
E me volatizei com o vai-e-vem das docas

Fui.
passei pelos guindastes
freuds
E fálicos.

Lembro que afaguei sete cidades
com minhas mãos fustigadas pelo vento

Naqueles dias de então
Em Izapa, em Yucatán
Sobre símbolos piramidais do sol
Vi deuses-cavaleiros cortando pescoços
Era um mês triste, não sei se maio ou maia
Era um mês
E reluzia um ouro avermelhado

Por um triz, acredita,
Não mergulhei num ventre
me perguntando se eu era eu ou um ente
Que pelo mundo fechou as mãos de medo

Eu ferro via
Eu rodo via
Eu aero via
E via um mar
Na face esquerda dos passantes

Hoje, crê em mim,
Existe um sonho de Oz
Onde o espantalho se move
E um ser de lata toca flauta

Pois, nesta tinta virada em pensamento
E amargo em minha angústia
Ainda creio
Que o sonho do gato
É pegar o pássaro.

Fernando Canto

*Poema do livro “Um Pouco Além do Arquipélago, Onde Acho Que Deus Mora” – (republicado por conta do Dia Mundial do Gato).

Poema de agora: Gostares – Jaci Rocha

Gostares

Gosto do poema que nasce
Tal flor, sob o frio concreto da estrada
Da leveza das paixões
Que nos tiram do sério

Da beleza das noites de chuva ou enluaradas
Dos refrões de rock ou bolero
Beijo na boca enquanto toca na vitrola

‘hum, eu quero você, como eu quero’

Das coisas que nos tiram do sério…do tédio
Do veneno de existir sem as canções
Que movem paixões…

E nos fazem vir e ver
Gosto de ser “pra valer”
Na mística da vida
Com todas sua essência efêmera e linda.

Gosto das coisas não planejadas
Dos encontros desenhados nas estrelas
Aqueles que a gente nem imagina que vão acontecer…

Os que mudam os caminhos
Ou apenas agregam nossos passos
Da solidão que vai embora
Num abraço…

Gosto do espaço
Entre a palavra e o silêncio.

Gosto de me surpreender com Deus!
Com a delicadeza de seus traços
Aquilo que nem imagino
E vejo delicadamente tecido

Gosto tanto do que é co-movido
Abraço, beijo, gemido
Sussurros e bilhetes
Gosto de café com sorvete

E de chuva com sol.

Gosto de ver um poema nascer
Um amor surgir na constelação das paixões
E até ver um passarinho fazer um ninho

Pois ninguém no universo
É mesmo tão sozinho…

Gosto de sentir e saber
Que um milagre nasce em cada lugar
É só ter olhos atentos
E um coração sereno

(Que não cansa de gostar)

Jaci Rocha

Poema de agora: SOLILÓQUIO SOBRE O TEMPO – Patrícia Andrade

SOLILÓQUIO SOBRE O TEMPO

o olho do invisível
está cravado em mim

é chegado o tempo

de afiar a navalha
cortar a palavra
rasgar o verso

desafiar essa vida canalha
reinventar a lavra
soltar o verbo

porque o tempo
não cabe na ampulheta
não volta
não para
não faz pausa
e nem exceção

é moto-contínuo
sem rédea ou limite
é estrada sem curva
é ida sem volta

o tempo porém
é remédio pra tudo
é cura pros males
é solução

Patrícia Andrade