Poema de agora: AINDA SOU EU – Pat Andrade

AINDA SOU EU

renasci mais forte
pra resistir ao peso da vida
que me arrasta para
os precipícios cotidianos.

retornei com as asas
que me foram arrancadas
há tempos, sem anestesia, nem nada.

retomei o que é meu por direito
e me foi tirado sem permissão,
em uma época de escuridão.

recuperei a voz
para dizer o que quero e preciso,
sem a mão que me tapava
a boca a cada grito

reinventei minhas
noites de insônia,
para ver melhor a luz do luar

redescobri meus desejos,
respeitando o tempo de cada coisa.

e ainda sou eu mesma,
com remendos na alma,
dúvidas constantes
e um quase nada
[necessário] de calma.

PAT ANDRADE

Poema de agora: LABIRINTO – Ori Fonseca

LABIRINTO

Ontem morri de medo, hoje só morro.
A cada som de sirene na esquina,
A cada voz que me chama: “ei, menina”!
A cada instante em que paro ou que corro.

Perdi a conta de pedir socorro.
Em cada pico frio de adrenalina,
Em cada tom a mais de melanina,
A cada bota em escalada ao morro.

A chapa é quente no breu da cidade,
O sangue é frio, a carne é fraca e fria,
A dor é só um detalhe da agonia.

No labirinto, o inverso é realidade:
Diz-se que, morta, eu vivo a eternidade,
Mas, viva, sei que morro todo dia.

Ori Fonseca

Poema de agora: Balada para fazer recomeços – Luiz Jorge Ferreira

Balada para fazer recomeços

Meu coração é louco.
Eu sou destro, ele é canhoto.
Olha sempre para o alto, é míope, mas quer enxergar Andrômeda.
Domingo diz que vai estar em Janeiro.
Eu sou Julho.

Meu coração é cabisbaixo quando recorda do passado.
Anunciou aos muros em ruínas que tem uma máquina do tempo.
E jorra sangue para meu cérebro.


Para que eu enxergue a alma.
Ama as Músicas das outras décadas.
Dança sozinho quando eu me aproximo do espelho.

Meu coração é louco.
Já criou Deuses, já desceu ladeiras, já fez monólogos, para pulgas Norte-americanas, falado em Esperanto.

Hoje me pregou uma peça…quis sair de mim
batendo descompassado,ao Som de uma Canção do Jards Macalé.


Onde vais?…perguntei.
Gritei …Quo Vadis.
Em latim.
…se tu fores de mim.


Nunca mais eu serei eu. Ameacei gritando aos ventos que sacudiam as venezianas.
Ele riu…e voltou…escondendo um par de Asas, que só me mostrou quando choveu sal em Outubro.

Luiz Jorge Ferreira

* Do livro de Poemas “Nunca mais sairei de mim sem levar as Asas” – Rumo Editorial – 2019 – São Paulo.

Poema de agora: LOUCURA – Pat Andrade

LOUCURA

na minha loucura,
faço desenhos sem tinta,
pincel ou nanquim

na minha loucura,
a lua me fita e convida
para baladas sem fim

na minha loucura,
uma noite nunca finda
e se instala em mim

na minha loucura,
mais doida é a vida
que levo sem ti

na minha loucura,
sou doida varrida
e muito feliz assim!

Pat Andrade

Poema de agora: Poema do louco (do poeta amapaense Ivo Pontes Torres)

olouco

Poema do louco

Caminha o louco
O céu do louco tem cor permanente
A alma do louco acoita canções que muitos cantas sem conhecer
O louco não gosta de flores
Aliás, nunca viu fores genuínas , nem mulheres, nem meninos, nem nunca foi menino
Não tem casa, não tem leito, não tem relógio
Só tem a rua
A rua branca e sincera do seu mundo
Nesse momento, o louco chora
Porque lhe disseram que há loucos que se curam

Ivo Pontes Torres, poeta amapaense.

Projeto Quarta de Arte da Pleta mistura cuidados com a saúde e arte

Durante todo o mês de Outubro, o espaço Cultural Sankofa abraça a Campanha do Outubro Rosa. Nesta quarta, dia 9, artistas e especialistas em saúde estarão juntos na Quarta de Arte da Pleta, edição Ei, mana, se toca! – uma clara referência ao exame de toque de mama, que ajuda a identificar possíveis sinais de câncer de mama.

Para esta edição, haverá um bate-papo com Rosa Natália Carneiro Muniz Mota, coordenadora do Programa Saúde da Mulher da PMM (Prefeitura Municipal de Macapá), performance poética com Pat Andrade e um som com a convidada especial Ana Paula Araújo, de Santarém, além de Os De Sempre, fazendo a festa: Fernanda Canora, Kassia Modesto, Wellem Monte, Erick Pureza, Wendel Cordeiro, Tico Souza, Ladio Gomes.

O projeto também tem ponto de arrecadação de brinquedos e água, para o Dia das Crianças e Círio, respectivamente .

Pat Andrade

Sobre Pat Andrade

Poeta da Amazônia, publica e vende seus poemas em pequenas revistinhas, feitas por ela de maneira artesanal. Circula pelas noites da cidade declamando em eventos, cafés, bares e restaurantes. Acabou de lançar o seu vigésimo quinto trabalho, intitulado Subverso – editado e ilustrado por ela mesma. A poesia é para ela arma de ataque e defesa. É meio de vida e prazer.

Ana Paula Araújo

Sobre Ana Paula Araújo

Vinda de Santarém, esta mocoronga tem duas paixões: a música e a enfermagem. Vive hoje em Macapá, estuda enfermagem obstétrica. A paixão pela música vem do pai, que tocava teclado e sempre a levava para cantar algumas cações nas festividades de igreja. Desde de os dez anos que toca violão e a paixão só aumenta. Passou a tocar sozinha nos eventos: igreja, universidade, show de calouros. Hoje sua música é sua existência.

Fernanda Canora

Sobre Fernanda Canora

Paraense, nascida em Vigia de Nazaré, veio muito pequena para Macapá. Sua vida na música começou com a mãe, que escutava muita MPB nas vozes de Betânia, Gal, Caetano, Elis e outros.

Aos 16 anos ganhou um violão do pai e soltou a voz, representando a turma numa feira da escola, o antigo GM. Daí para os bares, foi um passo. A seguir, veio sua paixão pelo reggae, que lhe deu a liberdade de expressão. “Foi pelo reggae que consegui mostrar que, mesmo com todas as dificuldades, eu sou mulher e tenho meu espaço. Posso colocar o meu som à disposição da nossa luta feminista”, afirma Fernanda.

Serviço:

Data: 09/10/2019
Local: Sankofa, localizado na Rua Beira Rio 1488, Orla do Santa Inês, zona sul de Macapá.
Hora: a partir das 19h
Couvert: R$ 5,00
Mais informações pelo telefone: 98109-0563 (Andreia Lopes).

Poema de agora: PÁSSARO-GUIA – Pat Andrade

PÁSSARO-GUIA

nas muitas noites
em que não durmo,
faço viagens ao passado
tão doces,
que quase esqueço de voltar.
[me perco no caminho,
preciso confessar…]
aí, quem me guia
é um estranho passarinho,


que me segue
por onde quer que eu vá
às vezes some,
[acho que vai até o ninho]
mas reaparece rapidinho,
e volta a me acompanhar.
antes que eu durma,
ele me olha lá de longe,
[do passado…]
e com seu canto triste,
chorado,
acaba por me ninar…

Pat Andrade

Poema de agora: DHOIS – Luiz Jorge Ferreira

DHOIS

Ela entrou na minha vida como se fosse a sua casa.
Estendeu a toalha, espalhou seus trecos, seus troços, suas tralhas.
Fez horários, corrigiu meu vocabulário, enviou torpedos, olhares.
Acenou com a minha mão, ensinou-me o sim e o não, pelo telefone, falamos no mesmo tom.

Ela entrou na minha cabeça, e acampou no meu pensamento.
Retirou-me do avesso por dentro, escorou minhas idéias, escancarou as janelas.
Apagou as pegadas, perfumou-se e quando foi noite , partiu.

Leu O Código da Vinci dos vinte aos poucos trinta anos.
Quando Junho chegou e no décimo quarto dia…choveu
Eu amassei minha lua contra a sua, porque eram duas.
Uma já havia tomado posse da casa, a outra queria se apossar de mim.

Luiz Jorge Ferreira

 

*Do livro Pizza Literária – Coletânea Volume XV – Rumo Editorial – 2012, São Paulo, Brasil.

Poema de agora: Eu estava lá – @alcinea

Foto: Juvenal Canto

Eu estava lá

Eu estava lá quando o sol
jogou sorrisos dourados no rio-mar.

Eu ainda estava lá
quando uma estrela riscou o céu
e um pescador apanhou uma estrela do mar.

Por testemunha tenho um bem-te-vi
que bem me viu
quando as andorinhas bailavam no ar.

Quis fundir ouro com prata,
estrela cadente com estrela do mar
e cantar um canto novo
para sair bailando contigo.

Mas, que pena!
Tu não estavas lá.

Alcinéa Cavalcante

Poema de agora: HOJE TEM FESTA – Pat Andrade

HOJE TEM FESTA

esperei o dia inteiro
pelo pôr-do-sol
só pra te dar um cheiro;
só pra te ver
prender os cabelos
acima da nuca,
mostrando as orelhas
tão pequeninas…


em frente ao espelho,
passa o batom
fazendo biquinho,
escolhe o vestido
vermelho carmim,
me castiga o desejo…
e a sandalinha de dedo,
no pezinho perfeito,
faz troça de mim.


sorri quando passa
balançando o cacho
esquecido na testa…


não me dá trela,
mas fala macio,
só de pirraça,
que hoje tem festa…

Pat Andrade