Poema de agora: Classificados – (@cantigadeninar)

Classificados

Precisa-se:
alguém para ocupar
emprego de sonhos
oito horas
jornada diárias às estrelas

Paga-se:
um salário mínimo
pote de ouro depois do arco-íris
tesouro de piratas

Perfil do candidato:
Busca-se
quem seja graduado
em utopia
com mestrado
em encanto
e doutorado
em fantasia

Pré-requisitos:
Exige-se
delírio
um pouco de faz-de-conta
fascínio pela magia

Procura-se
alguém com os atributos
[acima
que seja pontual
e passe autoconfiança
quem cumpre as exigências
ainda é criança.

Lara Utzig

Poema de agora: Docemente Azedo – Luiz Jorge Ferreira

Docemente Azedo

Vou fechar janelas.
Para que os ventos noturnos.
Não tragam lembranças de outras terras…nem seus sons.

Não quero o azedo do limão que se descascou em Dublin.
Nem a silhueta da cortina com o desenho do Kilimanjaro.
Quero o calor do Pacoval.Trazendo suor e sal.Grudando as axilas.
Secando o cuspe da boca.
Enquanto em mim brotam dissonantes notas afônicas.
…E a mim dizem que morreu o silêncio!
Aquele mesmo silêncio que eu pensei ter colocado entre o desenho pautado de um Fado, e a encabulada ritmicidade de um Tango.

Desenho rostos que se parecem tanto com rostos, que se não se parecem tanto entre si mesmos.

Vou cerrar as janelas
Vou esfregar as pálpebras de encontro as lágrimas, e amordaça-las com soluços.
Quiçá barulho de vidro quebrando…deveras estalos de fraturas de ossos … acontecendo…
Estes sons da noite me acordam… quando demoro…silenciam… atiçando a ansiosidade de ouvi-los novamente.
Quando me enamoro da vida…
Mastigo sombras que entram pelo vão, entre os sons, e os silêncios.
Têm gosto de limão.
Exatamente… o mesmo gosto que guardo em mim.
Quando no quintal o galo atônito e rouco…desperta de súbito.
Firme com a lua presa no bico.
E finge estar surpreso com a Aurora.
Finge estar surpreso, com o que lhe cerca.
Vira-se pelo avesso
O sol lhe colore as entranhas.
Suas lembranças saem aos borbotões, como borboletas negras.
Diria que em Outubro voltarão libélulas.
Pode ser que em Morse.Cantem a Aurora.
Tragam Canções Americanas do Norte.As que falam das Águias.
As que incluem corações indígenas, pintados nas montanhas…
As que grafitando o metrô em Amsterdã…acordem o Sol.
Ou as que simplesmente perduram afônicas em Macapá…
Porque tudo que é longe, é tão próximo.Tudo que foi Ontem, será agora!
Como meus olhos, e teu olhar longínquo desenhado na areia da poça d’água estreita, e rasa…em qualquer rua após uma chuva das duas em Belém do Pará.

Avesso, e não avesso.Apagado,e aceso.Estridente, e rouco. Destro,e Direito.
Docemente…Inutilmente …Com as mãos no bolso onde guardo uma lua Minguante. Assovio melodias apaixonadas por silêncios!
No avesso dos silêncios, não sou Sons…sou ímpar.

Luiz Jorge Ferreira

*O poeta Luiz Jorge Ferreira é amapaense, médico que reside em São Paulo e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames).

Poema de agora: Calendário – (@cantigadeninar)

Calendário

Imagem de breakfast, food, and morning
os dias são feitos de papel
contados na folhinha
páginas da agenda
e a noite é troféu

os números são tinta
que pinta liquidações
50% off
no shopping das ilusões

os meses são o próprio tempo
astuto e traiçoeiro
setembro, novembro, dezembro
a gosto de fevereiro

as feiras são sempre as mesmas:
aguardam sábados domingos
em que não há protocolo e memorando
só pão quentinho sobre a mesa.

Lara Utzig

Poema de agora: Pequeno instante de retorno a um lugar chamado passado – Luiz Jorge Ferreira

Pequeno instante de retorno a um lugar chamado passado

O som vem lá do Pecó. (*)
É a voz de Carlos Gonzaga cantando Diana.
Eu deitado, imberbe, na rede que fede a mim.
Balanceio entre o Trópico de Câncer e o de Capricórnio.
Em vão, procuro criar uma linguagem nova para conversar com as estrelas.
Cybelle, sob o sol tropical picha muros, ou apenas anda zigzagueando entre pedregulhos grávidos.
Atropelados por um pneu Firestone.
Portinari… Picasso… Dali… R. Peixe… Ray Cunha.
Estão por ali entre sombras da noite e fantasmas magros.
Todos gêmeos das paredes de madeira ruídas de cupins.
Copulam cores. Dentro do sol.
Dentro de mim a Babilônia se arrasta pela Ernestino Borges.
Vem da casa de Seu Paulino, Maiambuco, com Marabaixo, e Coló.
Eu em silencio, decorando a música de Carlos Gonzaga, vinda do Pecó.
Deitado na rede que tatua minha costa com listas e calombos.
Espreguiço entre a Fortaleza cicatrizada de tempo, e o tempo cicatrizado na Fortaleza.
Farto de azedos, gaguejo uma língua nova para a surda lua anciã.
Da alma ao ânus. Lavado de suor. Olho as unhas dos pés crescerem.
Sujas do chão do Pacoval.
Elas desnorteadas com o Norte mapeado aos seus pés.
Arranham em Si, o terceiro compasso.
Sou um homem negro. Pardo com duas orelhas. Páginas demais em branco.
Apaixonado por sereias. Versos de Drumonnd. Lendas do Isnard.
Refém do som do Pecó. Olhando as telhas.Dialogando com estrelas sujas de céu.
Xingo os tímpanos. Incomodado com o barulho da massa do pão lá na Padaria do Seu Osvaldo, ainda cru sendo esmagado na mesa.
Sobre bactérias indefesas. Gritando em Morse.
Vittorio Gassman. Zorro. Chaplin. Bardot.
Estimulam o diálogo das pulgas com o cão, em Braille.
Isto impede que eu decore a segunda parte da letra da música de Carlos Gonzaga, que vem do Pecó.
Que vem só. Respirando entre ruas e becos, lá do Igarapé das Mulheres, entre cheiros de peixe, e odores vaginais.
Quase amanhece debaixo do assoalho em que a música se esconde. Ernestino Borges. Odilardo Silva. Odilardo. Fernando Canto.
Nikita Kruschchev. Chefe Humberto. Cabralzinho.
Bongos… Uníssonos solfejam a semínima com que a música termina.
O barulho das tábuas estalando.
Impede que eu decore o resto.
Cuspo frases inteiras da música no saco de roupa, onde a camisa de ontem encharcada com um resto de chuva, não cabe mais em mim.
Mil e Novecentos. Outubro de 62.

Luiz Jorge Ferreira

(*) Pecó = prostíbulo em Macapá, cujo som emitido por vários alto-falantes inundava o silêncio das suas madrugadas na década de sessenta.
(**) O poeta Luiz Jorge Ferreira é amapaense, médico que reside em São Paulo e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames).

Poesia de agora: Poemas curtos de Fernando Canto

DESRIMADA

A janela aberta com o vaso e a flor
parece teu sorriso emoldurado de batom

ARTISTA

O artista é opressor da arte a que se avista
ainda que oprimido ao gesto que se arrisca

DA INFIDELIDADE TRIANGULAR

HOMEM/planta/TERRA
PLANTA/terra/HOMEM
TERRA/homem/PLANTA

planta/HOMEM/terra
homem/TERRA/planta
terra/PLANTA/homem

Fernando Canto

Poema de agora: Acaso – (@cantigadeninar)

Acaso

Sorveterias sobrevivem de domingos.
Alfajores são vendidos a turistas.
Pet shops enriquecem com a tosa de poodles.
Cinemas encarecem ingressos para filmes 3D.

A parada do Dia de São Patrício desfila.
A fila do banco dá voltas no quarteirão.
O extrato aponta R$0,29 na conta corrente.
Livros emprestados são devolvidos com orelhas.

Carimbos dão ciência em papeladas burocráticas.
A caixa de entrada acumula spams “aumente seu pênis”.
A vida segue seu diário curso como sempre.
Minhas mãos criam rugas e a barriga aumenta.

Escadas rolantes levam à praça de alimentação.
Professores tecnológicos passam slides no datashow.
Carteirinhas estudantis concedem meia-entrada.
Bolsonaro propaga discursos de ódio.

O destino tsunami revolve as ondas da rotina.
Um arco-íris se ergue por detrás do outdoor.
A beleza se manifesta na Orla do Rio Amazonas.
Minha retina assiste a tudo com óculos de sol.

Lara Utzig

Poema de agora: Za – @ThiagoSoeiro

 

Za

este poema felino
brinca com a gente
hora se esconde
hora corre na página branca
hora dorme de barriga pra cima
este poema gatinho
mia quando chegamos perto
e mia mia quando tá com fome
ele se espreguiça ao longo das linhas
brinca de morde-morde
faz carinho com a cabeça
este poema Zazinho
deixa patinhas de saudade
no coração da gente.

Thiago Soeiro

* [Para Mr. Zatara, o mais mais danado e mais amado que já existiu]

Poema de agora: CHEZ MODESTINE – Marven Junius Franklin

CHEZ MODESTINE (Ao poeta Arthur Rimbaud)

embebecido por um bom bordeaux
amanheço blasé sob o alpendre frio do Chez Modestine
— almejo algo/coisa como um UnknownFlyingObjects
que me abduza dali
que me erga em direção ao improvável!

no meio do dia ouço Zaz berrando:
j’en ai marre des langues de bois!
j’en ai marre des langues de bois!
j’en ai marre des langues de bois!

e os moralistas de vidro me reparam
como seu eu não significasse necas
que nunca serei lhufas
e a medida das hipóteses concretas
engolem em seco as minhas bonnes manières
são ditos-cujos de olho pesados
com monóculos de lentes cafifentas
e armação de cimitarra

oh, céus!
e nem frases feitas
caem bem/explicam bem/delimitam bem
o que ajuízam de mim

sim, menina!
foi no Chez Modestine
que perdi o discernimento
que balancei o lenço aos piratas
e me fiz desmesuradamente aço-inox
versus a dissimulação dos autocratas

devia ter percebido
tempo que passei vislumbrando a escuridão que emanava do rio
devia te prestado mais atenção na Ilha do Sol
com sua ausência de avenidas
sem blocos de paralelepípedos
e sua mansidão

oh, minha Dulcinéia!
já te prometi tantos moinhos
e tantas garrafas de vinho ao luar

Nossa!
parece até que adivinhei
que as horas ali
eram calendários maias
que prediziam um futuro que nunca haveria

o emudecimento e o isolamento
a imagem da menina
escorada no píer de embarque
a espera do hipotético
e seus olhos eram ternos
os ensejos falaciosos
como a epiderme cálida
de uma sereia

rappelle-moi le jour et l’année
rappelle-moi le temps qu’ilfaisait…

Marven Junius Frankli

Poema de agora: Saudade – Luiz Jorge Ferreira

Saudade

Tu precisas te tratar desta saudade.
Tu precisas deixar de mergulhar os olhos neste monte de lágrimas.
Hoje é Domingo!
Tu precisas deixar de arrumar delicadamente quase todos os dias, a roupa do teu filho que já cresceu.
Tu precisas deixar de recordar beijos e abraços, entremeados de adeus.
Tu precisas olhar a chuva caindo como coisa feita para molhar os jardins, e não barulho, que adormeça a alma.

Hoje é Domingo.

Tu precisas cantar as Canções antigas, sem dançar com o tempo.
O tempo já fez seu caminho, e o que ficou nas fotos, foram sorrisos felizes, e cabelos em desalinho.

Tu precisas ficar de bem, com o hoje.
Tu precisas encontrar contigo, ali , saindo correndo da escola, ou na mesa tosca do bar de sempre, batucando com os dedos um antigo Samba…

Aqui em Outubro, o Domingo se espreguiça…
E boceja.
A vida não esta, corre sem dar tréguas.
Égua, mano, que lindo!
Tu precisas te tratar desta saudade.

Luiz Jorge Ferreira

*Do livro “Nunca mais sairei de mim, sem levar as asas”.
**Luiz Jorge Ferreira é amapaense, médico que reside em São Paulo e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames).

Poema de agora: Nômade – (@cantigadeninar)

 
Nômade
 
Nasci circense;
Nem americana,
Nem amapaense:
Sem morada.
Conheci apenas,
A duras penas,
O pé na estrada.
E, como passe de mágica,
Vi-me numa peça
Épica, romântica ou trágica:
Estava presa
Por vontade própria
Na cidade ilusória
De teus lábios.
No picadeiro
Estava entregue por inteiro
Em teus braços.
Depois de rodar tantos bares,
Estava eu ali,
Alvo de teus malabares,
Como vítima que ri
De seus azares.
Nunca caí do trapézio:
Meu truque é ser alada.
Mas no fim, dei-me por vencida…
Todos disseram: “palhaçada”!
Julgaram-me descabida
E seguiram viagem
Enquanto eu escolhi a vida
Sem quilometragem.
 
Lara Utzig