Poema de agora: Quente e Frio – Luiz Jorge Ferreira

Quente e Frio

Ela sob as luzes artificiais da Philips.
Não se importa com o fim da tarde, sentada no Bar.
Ela fuma.
Ela flutua junto com a fumaça.
Eu não me importo se ela calça 36.
Ela nem saca que o meu perfume é francês, e nem percebe o tom degradê das minhas lentes quando entardece.

Eu posso com o Celular, tirar-lhe várias fotos.
Ela pode fingir que não se importa.
Encobrir os lábios com um copo.
Dar um pulo ao banheiro p’rá retoques.
Ou desaparecer entre os guardadores de carro.

Eu posso escrever um poema…
Tipo:- Você enriquece a tarde!
Ou desenhar um hieróglifo Marajoara,
que decorei de uma cerâmica em Afuá.
Que nada significa nesse Bar.
Nem nunca ilustrou a Capa da Revista Caras.

Ou posso continuar anônimo…
Com os cotovelos apoiados a mesa.
Sozinho.
Tomando Vodka com Suco de Laranja.
Que nem a tarde, nem Marte, nem os guardadores de carro, vão dar a mínima.
E ela vai continuar sozinha, enchendo-se de Nicotina.
Acreditando que trinta e um anos, duram cinquenta.

Luiz Jorge Ferreira

*Osasco (SP) – em 03.09.2020.

Poema de agora: Eterno Retorno – Jaci Rocha

Eterno Retorno

Desde que acordei
Já deixei pra trás tanta coisa!
Meu sonho esquecido da noite anterior,
A beleza da lua passada,
E até um belo par de asas…
É que o tempo cria demônios
Redemoinhos e tufões
E leva embora tudo que somos – efemeridade
Para trazer, com o mover do mundo,
Novas partículas de segundo.
Por isso, adeus, adeus!
Mas é sempre até breve…
Pois na curva do arco-íris
O amor (mágica infinita)
Em si, repete.
O vento que fez a curva,
Girou a roda do universo
voltou no dobrar da esquina,
arejou certezas,
e hoje dança com as cortinas…

Jaci Rocha

Do lado de dentro: chegou o novo livro virtual da poeta Pat Andrade

Capa: Artur Andrigues

Em tempos de pandemia, a arte se reinventa para sobreviver, para seguir respirando, com ou sem máscara.

A poeta Pat Andrade tem em seus livrinhos virtuais sua principal fonte de renda atualmente.

Já publicou quatro deles, nesse período, sempre buscando parcerias dentro ou fora de casa, desde a primeira publicação: Uma noite me namora conta com arte do também poeta, Pedro Stlks; a segunda – Em tempos de lonjura – tem a participação de seu filho, Artur Andrigues, que ilustrou e diagramou toda a edição. O terceiro livrinho, Delírios e subterfúgios, foi uma publicação solo.

Agora, chegou a vez de Do lado de dentro – de novo com a parceria do Artur, que fez a capa.

A publicação conta com 16 poemas autorais que refletem bastante o título do livro. Como diz a poeta, na apresentação da obra: “o lado de dentro de muita coisa: da casa, do cotidiano, da vida, da morte, do amor, de mim mesma”. Um livro cheio de experiências pessoais traduzidas em poesia, na sua forma mais simples: o verso livre.

Uma particularidade do trabalho da Pat Andrade é a maneira como vende seus livros: a poeta deixa os compradores à vontade para pagar o que quiserem por cada livro. Portanto, o leitor é quem sabe quanto custa adquirir suas publicações.

As vendas são feitas por ela, diretamente. Preferencialmente pelo Whatsapp. O pagamento é feito por transferência bancária. Contatos pelo fone (91)99968-3341 – Pat Andrade.

Poesia de agora: Coleção de vinil – Poema de Ronaldo Rodrigues ilustrado por Ronaldo Rony

Coleção de vinil

podem me chamar
de arcaico antiquado
ultrapassado inatual

podem achar que faço média
ou que vivo na idade média

podem me chamar de avô
do homem de neanderthal

que sou o cara mais mala
que já se viu

mas eu não me desfaço
da minha coleção de vinil

podem me tachar de antigo
digam que estou no passado

que sou o cara mais quadrado
deste mundo

mas nessa onda eu vou fundo
e grito pra quem ainda não ouviu

eu não me desfaço
da minha coleção de vinil

também tenho coleção de cd
podem crer

eu tô ligado plugado conectado
sei lá mais o quê

mas me deixem ouvir abafado
chiado riscado o meu lp

eu prefiro mudar de planeta
fugir do Brasil

mas eu não me desfaço
da minha coleção de vinil

Poema de Ronaldo Rodrigues ilustrado por Ronaldo Rony

Poema de agora: Velhos & Novos (Jaci Rocha)

Foto: Makseul Martins

Velhos & Novos

( ” por amor às causas perdidas”)

É demodé escrever à mão
Ouvir uma canção do Ney
Está ultrapassado, e, do outro lado
Ninguém acredita em papai Noel…

Dizem que daqui a 1000 anos
Ninguém saberá dizer ” te amo”
Não haverá camada de ozônio
E seremos alienígenas de nós…

Não existirá papel marché
Coisas que existem apenas para deleite
Como riso, teatro, sorvete
Ou bichos sentimentais,

Bichos como eu e como tu
São coisas esquisitas
Que pedem guarida
À memórias escritas com a tinta da emoção …

E, de antemão
Desistiram de fazer parte
Do dia a dia que arde
No calendário seco
Da modernidade

Perdem tempo – e ganham vida
Com a luz estonteante das estrelas
Brincam de escrever poemas
E escrever na areia
Mensagens de amor…

Jaci Rocha

Poema de agora: Mapa, cá – Jaci Rocha

Mapa, cá.

Sempre que procuro no peito
A geografia do amor
O mar que abriga meu lar

A luz de um lugar acende em meu peito.

Paisagens que o tempo não leva:
Um santo que abraça o amazonas,
Grande casa de pedras, igrejinha,
A bênção, meu S. José!

Sempre que penso no lar,
É batuque, samaúma, maré cheia
Ruas enfeitadas de mangueiras
Capital morena, segunda mãe

Casa minha.

Terra da poesia de Fernando, Alcinéa, Maria Ester
Marabaixo no pé, de Tia Luci até aqui,
É igarapé das mulheres, lendas e crenças,
Flores do mato,

Ervas que curam , vida que abunda,
Cá dentro de mim.

Jaci Rocha

Poesia de agora: POEMA EM ESTADO BRUTO – Pat Andrade

POEMA EM ESTADO BRUTO

caminho entre
escombros e flores
me surpreendo
entre assombros e dores
e não abaixo a cabeça
pra não perder
de vista o horizonte

tiro forças
de um poema rabiscado
de um verso maldito
de uma rima esquisita

trago a pena
inquieta e inconstante
e uma página
que não se contenta
em ficar em branco

o que me salva e me sustenta
é sempre um poema
em estado bruto

Pat Andrade

Três Poemas Profundamente Curtos de Luiz Jorge Ferreira

Sobre o partir

Eu já parti muitas vezes,
Parti de Macapá, sem trem, e sem asas.
A boca cheia de farinha d’água…( para malinar com a fome…)
Parti tanto, tonto, ontem…
Hoje talvez, chegar, nem saiba mais…

Foto: Manoel Raimundo Fonseca

Sobre o Amapá

Tenho um paneiro perdendo estrelas pelas bordas…arrasto-o pelas Praias da Fazendinha, deixando um rastro que o Rio lambe.
Tenho um cheiro e uma pele sem cor, que eu cicatrizo no retrato de uma Kodak.
Chove saudade entre Quartos Crescentes e Luas Novas.

Foto: Cinema Infância anos 60

Sobre a Infância

Passeio era ir ao Mercado de Peixes, ver os Urubus apaixonados, pelo pitiú.
Ver o vento moleque sacudir suas caudas.
Molecagem era estilingar nos cães, um Cometa.
Emoção era furtar um doce por conta do açoite do dia anterior.
Domingo na estreia de um filme proibido, queria ser adulto.
Segunda-feira com a bola de meia, queria ser menino.
Felicidade era ir ao Mercado ver os Urubus, dançando sob os cutucões do vento que entravam Mercado
adentro para fechar os olhos dos peixes congelados.

Luiz Jorge Ferreira
*Do Livro Beco das Araras – Editora Scortecci – 1990 – São Paulo.

Poema de agora: O BEIJO DO BOTO – Pat Andrade

A lenda do Boto – Pintura de Jorge Riva de La Cruz

O BEIJO DO BOTO

quando esse rio me atravessa
a Iara canta pro boto dançar comigo
a lua nasce pra iluminar a festa
com seu brilho antigo

na madrugada, miríades de estrelas
confundem meus olhos cansados
no embalo da rede adormeço
muitos sonhos encantados

o sol não demora a levantar
onipresença por todo o rio
a memória doce da noite
se resume a um beijo frio

Pat Andrade

Poema de agora: O ser borboleta – Maria Ester

O ser borboleta

Ser borboleta é substantivo, mesmo que efêmera seja
Borboletar é um verbo que fala da arte de se reinventar
Refere-se ao viver o mundo sincronizado com o Universo numa permanente exclamação
Sem pronomes, sejam eles retos ou oblíquos
Mas pode ser adjetivo, se te deixa com os olhos brilhando
Mesmo que convivas num mundo de cheio preposições
É advérbio quase sempre e nunca raramente…
E até admite o emprego de conjunção
Na felicidade, em liberdade, de verdade!


Borbolete-se, então, criatura de Deus.
Para viver livre!
Para ser feliz!
Pois, o que seria das criaturas sem Deus e sem seu amor.
Viva, oh, ser borboleta!

Maria Ester

Poema de agora: Crono – Maria Ester

Crono

Nasci na década de 70
Deram-me um nome Maria
Não fui batizada.

Maria passa pra casa
Maria vai para escola
Maria arruma tuas tranças…

Com o tempo me deram números
Identidade, CPF, emprego aos 14
e daí senhas e mais senhas…

Gostava de Sinatra, Bob Dylan e
Lou Rawls a vizinha achava estranho, dizia:
“leva pra benzer que passa…”
Não passou.

Na década de 80 ostentação era livros
Julio Verne, Ziraldo,
Gaardeer e adorava Marx
nas viagens viram amuletos da sorte
Em 2000 tive medo do bug do milênio.

Daí pra cá tenho medo de tudo…

Ah! menos do teu amor.

Maria Ester

Poema de agora: SE – Pat Andrade

SE

se me viro na cama
se perco o sono
se choro sozinha
já não tens como ver

se chamo teu nome
se grito mais alto
se rezo baixinho
já não tens como ouvir

se perco a hora
se quebro o salto
se salta o botão
já não tens como saber

se esqueço o batom
se eu erro o tom
se eu te digo não
já não tens como entender

se a lua não sai
se o sol não se põe
se a chuva não cai
já não há o que fazer

se não és meu bem
se não há paixão
se o amor não vem
já não há o que dizer

Pat Andrade

Poema de agora: RONDÓ DO DIA PACATO – Ori Fonseca

Ilustração: Fernando Lopes

RONDÓ DO DIA PACATO

Eu nunca pensei que amaria tanto
O tempo nu desprovido de espanto,
O dia pacato, o passo sem pressa,
A estrada livre onde nada tropeça,
A noite sem dor, sem medo, sem pranto.

Porque todo dia é um dia santo,
E todo momento é um tempo de encanto
Desde o bafejo em que a vida começa,
Eu nunca pensei que amaria tanto.

Eu olho o tempo, ele me olha e, no entanto,
Juramos paz, cada qual no seu canto,
Mentimos muito, mas ninguém confessa.
E a vida segue, caminha, atravessa
Quisera sem dor, sem medo, sem pranto…
Eu nunca pensei que amaria tanto.

Ori Fonseca

Deus segundo Spinoza (muito bom)

Deus segundo Spinoza (muito bom)

“Pára de ficar rezando e batendo o peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida.
 
Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti.
 
Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa.


 
Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti.
 
Pára de me culpar da tua vida miserável: Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau. O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria.
 
Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.


 
Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho… Não me encontrarás em nenhum livro! Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu trabalho?
 
Pára de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor.
 
Pára de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz… Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio.


 
Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti?
 
Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez?
 
Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade?
 
Que tipo de Deus pode fazer isso?


 
Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti.
 
Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti.
 
A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de alerta seja teu guia.
 
Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso.
 
Esta vida é o único que há aqui e agora, e o único que precisas.


 
Eu te fiz absolutamente livre.
 
Não há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro. Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.
 
Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho.
 
Vive como se não o houvesse.
 
Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir.
 
Assim, se não há nada, terás aproveitado da oportunidade que te dei. E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se foste comportado ou não.


 
Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste… Do que mais gostaste? O que aprendeste?
 
Pára de crer em mim – crer é supor, adivinhar, imaginar.
 
Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti.
 
Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar.
 
Pára de louvar-me!
 
Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja? Me aborrece que me louvem. Me cansa que agradeçam.
 
Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo.
 
Te sentes olhado, surpreendido?… Expressa tua alegria! Esse é o jeito de me louvar.
 
Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim.
 
A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas.


 
Para que precisas de mais milagres?
 
Para que tantas explicações?
 
Não me procures fora!
 
Não me acharás.
 
Procura-me dentro… aí é que estou, batendo em ti”.


 
*Baruch Spinoza (ditas em pleno Século XVII. Continuam verdadeiras e atuais até a data de hoje).

Ariano Suassuna, escritor brasileiro falecido em 2014, em um vídeo que encontrei no Canal Brasil, reproduz de outra forma o que Spinoza disse. Ele discorre sobre Deus, o sentido da vida e declama a poesia de Lenadro de barros.

Se eu conversasse com Deus
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?

Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?

Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?

Lenadro de barros

 

Definitivamente, o meu Deus, é o de Spinoza (Elton Tavares).

Fontes: Divulgando Ascensão , Canal Brasil e Canal Curta.