Poesia de agora: À Véspera do Escarro – Lara Utzig (@cantigadeninar)

À Véspera do Escarro

Camarão que dorme a onda leva.
Homem que se distrai é engolido pela selva.
Dormi; distraí-me.
Traí-me.
No meu sonho, muito me iludi.
Imaginei um mundo onde as pessoas não precisavam prejudicar umas às outras para serem felizes.
Onde puxar o tapete não é a única forma de vencer que existe.
Acordei pisoteada, coberta pela areia da praia,
Subjugada por não me igualar à tal laia.

Neste mundo não há lugar para ingênuos.
Augusto dos Anjos advertiu e era mesmo um gênio.
Neste mundo, os bons são sempre esmagados.
Terra miserável só dá frutos putrefatos.
Neste mundo, o trigo já anda pouco:
A lama que nos espera multiplicou o joio.

Entretanto, se for para me tornar tão vil,
Se for para transformar meu coração em mero objeto vazio…
Permanecerei nos braços de Morfeu, pois neles o mundo é menos feio
E que venha a onda, levando-me junto com meu pueril devaneio.

Lara Utzig

Poema de agora: Frutos que não colherei – Luiz Jorge Ferreira

Frutos que não colherei

Eu vou voltar para casa.
Perdi as penas das asas.
Minha bússola é uma moeda enferrujada.
Minhas esquinas são imãs,
e meus degraus são desenhos de gesso e breu.

Estou de volta para a horta.
Replantar pêssegos verdes para o próximo ano.
Revolver o tempo com uma colher quebrada.
Porque deu em nada quebrar nozes…
Assoviar Beethowen, e desenhar Chopin…
Bebi aguardente esperando o Ocidente envelhecer…
Tomei orvalho sentado grisalho na igreja fechada, eu atiçando a fé.
Procurei Deus entre as formigas, em fila andando para o infinito.

Agora retorno para casa
Vou pelo relógio da parede, por meio de seus tics… tacs…
Acerto o ritmo do meu coração…
Tenho certeza que lá em casa, repousa aquele adeus que dei quando parti.
Pode até ser que ele tenha vindo atrás de mim…
Eu apressado, afoito batendo as Asas… não vi.

Mas nunca será tarde,
para espalhar as mágoas no jardim…
Nunca colherei pêssegos, as manhãs descansam entre proparoxítonas terminadas em… s.
Por isso minhas preces foram se esconder no porão…
Tenho várias fotos de minhas Asas agarradas ao vento.
E eu apressado, afoito, batendo as Asas, não vi.

Soube que o amor virou um pássaro triste que gorjeia canções apaixonadas em Mi Menor.
Soube que o adeus correu contra o vento, e fingiu que voava como uma solitária folha em meio a solidão…
Mas soube que as mãos tolas bailarinas rodopiaram em vão.
E eu apressado, afoito, batendo as asas não vi.

Nunca colherei Crisântemos, eles têm odor de alma, e essas se dependuram em minhas Asas para que eu não alçe vôo.
Tenho várias pinturas de minha vida, secando as penas.
Mas eu apressado, afoito, batendo as Asas… nunca vi!

Luiz Jorge Ferreira

*Do livro “Diante da Boca da Noite Ficam os dias de Ontem”.

Poema de agora: Outubro – Joãozinho Gomes

Poeta Joãozinho Gomes – Arquivo pessoal

OUTUBRO

64 centauros se assentam agora
às rugas em meu rosto,
instauram templos de ouro
e oram em dúbio movimento
outubro e seus centauros de vento.
Estouro de touros dita
estrondos em meu peito,
estremeço e me meço, sou imenso!
Temo Nesso, mas o venço
em mim imerso; ou suspenso.
Outubro é bruto, mas o pulo
a versos, outubro é outro,
mas o sei o avesso, outubro é isso:
o meio, o fim, o começo.
64 centauros se assentam agora
às rugas em meu rosto,
à ágora das minhas agruras
à grua das minhas glórias, às
lágrimas que me aguam
como décadas que me devoram

Joãozinho Gomes

Poema de agora: Livre para ser sozinho – Mary Paes

Livre para ser sozinho

Eu quero um pouco de me sentir só…
Quero um pouco do nada pra falar
Quero o vazio do silêncio…
Minhas mãos frias…
As paredes frias…
O esmo dos pensamentos…
A cama grande…
Os desvarios dos sonhos sem razão…

Eu quero um pouco do sal…
Das lágrimas… Do mar da solidão
Quero o sal… A saudade de mim…
Do que fui… Do que sou…
Do nada que não sei se sou… Ou que sei… Que fui…

Quero meus dedos… A tinta… O papel em branco…
As letras… Quero minha inspiração…
Fugir do caminho certo…
Me perder…
Cair do barranco… Me sujar na lama…
Não ter hora pra voltar…
Não voltar atrás…
Ou voltar… Qualquer hora…

Quero ser livre para ser sozinho…
Ou não ser… Sozinho.
Eu quero um pouco de ser poeta…
Ser poeta…
Só!

Mary Paes

Poesia de agora: O Beijo – Lara Utzig (@cantigadeninar)

O Beijo

Como se um pedaço de mim se esvaísse
Em cada suspiro que solto por ti,
Como se minha alma se bipartisse
Em cada saliva que entrego a ti,

Sinto meus pés se elevarem do chão,
Sinto-me flutuar como em meditação,
Sinto a taquicardia de meu coração,
Sinto o latejar de nossos sexos em pulsação.

Como se meu espírito fosse uno com o teu,
Nossos lábios se encaixam perfeitamente um ao outro.
Como se teu corpo fosse o mesmo que o meu,
Nossa respiração se mistura em sinal de bom agouro.

Sinto o clamar de nossas bocas sedentas,
Sinto o palpitar de uma troca sincera e lenta,
Sinto o rebuliço das partes outrora amenas,
Sinto nosso beijo da forma mais plena.

Lara Utzig

Poema de agora: Anatomia da Saudade – Pat Andrade

Anatomia da Saudade

a saudade meu bem
brota aqui dentro de mim
lá no fundo do coração
por causa do lobo temporal

vem de uma lembrança antiga
de uma voz ou de uma canção
que o vento traz
um cheiro peculiar
que invade o ar

aí inventa cisco no olho
faz cosquinha
na ponta dos dedos
caminha pelo corpo inteiro

depois brinca de se esconder
na coleção de pedrinhas redondas
na flor amassada dentro do livro
num poema escrito aos seis anos

do nada vira foto borrada
faz a gente morrer um pouco
com a dor revisitada

a saudade meu bem
é uma ferroada invisível
que às vezes dói
e às vezes arde
é bicho que anda
sem ter pernas
voa sem ter asas
e canta implacável
nos fins de tarde

Pat Andrade

Poesia de agora: Reciprocidádiva – Lara Utzig (@cantigadeninar)

Reciprocidádiva

Criticam a rima pobre
De quem combina amor com dor.
“É inconcebível que em uma língua tão nobre,
Limite-se tal riqueza com aquilo que se vai por”!
Eleva-se o verbo com o substantivo;
Aceita-se também adjetivo,
Mas considera-se crime o binömio amor/dor.
Mal sabem que esta é a única consequência deste sentimento:
Um recheio de lamento
Que, por fim,
Transforma-se em mais um poema ruim,
Acinzentando todas as cores.
Onde amores… Há dores.

Lara Utzig

Poema de agora: Bem te vi – Manoel Fabrício – @ManoelFabricio1

Arte: Alex Sapiência

Bem te vi

Bem te vi tá cantando de madrugada
O calor não para de aumentar
O Rio cada vez mais poluído
Geração mercúrio
Nessa Amapá
É chuva de bala
E vida extinta
É panela vazia
Tão acuando a matinta?
– tem tabaco aí?
Nem sei corro ou se sorreio
Perdido perto do tiroteio
Helicóptero na altura da mangueira
O forro da igreja furado de bala

Manoel Fabrício

Poema de agora: As Cores da Saudade – Kassia Modesto

As Cores da Saudade

Eu nunca vi interrogação tão grande e tão mal resolvida
Se eu fosse um pintor, eu faria da saudade a tela mais colorida
Se ela fosse uma cor, somente, eu me pergunto que cor ela seria
Um tom de azul, céu profundo
A me sugar solitária ao seio do mundo?
Um branco limpo e infinito
Enlouquecendo aqui dentro, como em um próprio hospício?
A saudade é uma parceira solitária e fugaz
Que caminha a espreita e vai correndo atrás
De uma fiel companheira, sangria voraz..
Saudade, saudade, saudade…
Minha companheira nas horas tardias
Gostaria de pintar de um azul, verde-mar
Ou as cores da primavera eu poderia recriar.
Dar-lhe um tom cintilante
E deixar pelo menos por um instante
A sua dosagem me embriagar…
A saudade que carrego comigo
É preto, é luto, é medo
A viúva negra a companheira eternamente ausente
O passado ainda presente
A lembrança constante,
O afago ao frio
O arrepio apenas na mesma recordação
A saudade que carrego comigo é como o preto,
É a ausência das cores que guardo no peito.

Kassia Modesto

Poema de agora: Flutuante – Luiz Jorge Ferreira

Flutuante

Eu me lembro do calção encardido de açaí do Sussuca…extendido no limite do Mundo.
Eu me recordo das duas marcas sinuantes como rastros de serpentes, das rodas da bicicleta Merckswissa do Alceu.
E da fome atroz das Pipiras roendo cajus verdes, eu me lembro do dor d’olhos na imagem de São Benedito…na Capelinha do Laguinho.
Eu me lembro de mim…Gitinho…olhando para mim e perguntando para mim…Que Queres?

Foto: Blog Porta Retrato

Eu me lembro do Sol bebendo água no Pacoval…e a minha alma de cócoras, torcendo para que uma Mutuca ferrasse o dorso dele. Eu me lembro da minha sombra correndo atrás de mim e perguntando…
Tu acreditas em amor?
Eu amo a lua…
E eu respondendo…eu acredito em noite nua…
Que roupa ela veste?…perguntei.
É tecido de chita que ela usa para ficar mais bonita…e ela pega lá nas lojas da Doca da Fortaleza?
Eu acho que ela ama a Fortaleza. Admira a coragem dos passarinhos que pousam próximos aos seus canhões.
Eu me lembro de achar que jesuíta era um Padre que vinha por os índios em fila para apresenta-los a Jesus…

Foto: Wonders Brazil

Tu sabes onde moram as estrelas ?
Depois da mata dos Tucanos coloridos do Curiaú…
Sombra….sabes porque amas a lua…
Porque jogas por terra teus sonhos, assim que banhas.
Vamos passar pela Ernestino Borges…vamos até a venda de Bill pefir que Neusa nos leia a mão…
O cego que pede esmolas lá na Padaria do Seu Oswaldo…as leu…
O que ele disse não lembro …estava chovendo e levei a sombra para dentro da casa de titia Benedita…
A única que acredita que Deus é brasileiro.
Lá fora…dentro do olhar sem luz do cego que acredita enxergar o futuro o barulho das moedas agitadas dentro da cuia vazia ecoa.

A vida tropeça na sombra que ele arrasta que é a mesma que me convence que a lua ama a escura noite para ser notada sobre a luz dos pirilampos que esvoaçam atônitos com a beleza dela.

Sombra….Deixemos de andar a esmo…convide Pedro…chame Seu Rô…assuste Quincas…
Cubra o Sol com um pano rendado e com um anzol estrovado pesque restos de lembranças boiando no Matapi …e as traga até aqui, para o embevecimento do menino …
Que arrasta a sombra pelas marca feita ali pelo destino.
Embriagado de alegria…
Perambula…pela ilharga ímpar das costelas magras…desta tal de vida.

Luiz Jorge Ferreira

*Do Livro “Diante da Boca da Noite…ficam os dias de dias de Ontem” – Osasco (SP) – 10.10.2021

Poema de agora: Aquela máquina de Digitar Afetos – Jaci Rocha

Aquela máquina de Digitar Afetos

Aquela máquina de Digitar afetos
Nunca mais escreveu a palavra “Meu amor”
Por onde andas,
Afinal?

Verbo que é cheiro
Quanta falta tu faz em meu jardim…

Nem sempre fui assim, tão dislexa à paixão
Já fui mais atenta ao meu próprio coração
Mas a vida é assim,
Depois que passei a usar relógio

O tempo caçoa de mim:
– Faz com que tudo tenha exíguo começo, meio e fim –

É que o amor não cabe no curto espaço de 24 horas
isso aos poucos, creia,
A tudo devora –
E apavora

Mas… acalma, Coração
– Quem sabe ainda temos
Uma eternidade a mais
Na próxima Oração –

Quem sabe a gente se tropece
Em meio ao burburinho de um café
Quem sabe aquele velho ditado (Clichê)
Ainda esteja de pé

Ah! Incerta beleza de existir.
O verbo futuro é ingrato
Descumpridor nato
De quem achamos que seremos…

Faz tempo que não chove em Macapá
Mas o Equador vira água num súbito instante!
Quem sabe a vida seja assim: de se sentir o sabor
E agora, sob o intenso calor,

Me demoro a tentar compreender
O porque essa máquina (de bater)
nunca mais digitou a palavra
“Meu amor”…

Jaci Rocha

Fonte: A Lua Não Dorme.

Poesia de agora: Amadure-SER – (@cantigadeninar)

Amadure-SER

Hoje aprendi que posso viver dia após dia
Como se cada dia fosse o último, no presente,
E saber que não o é, na verdade,
Pois o que há depois do fim aparente,
Que a maioria acha,
É a eternidade,
Até que o ser humano renasça
E o ciclo todo recomece
A fim de que a evolução se faça.

Hoje aprendi que posso trabalhar sem demanda
Como se não existissem clientes me fazendo cobrança
E saber que o freguês da minha fila não anda
Pois a caneta sou eu quem comanda.
De tanto escrever sem oferta e procura,
Sou eu que ofereço minha própria cura
Até escorrer em versos, tinta, rima e epifania
Ou o que quer que seja que compõe este ofício
Onde não há encomenda ou precipício
Porque se trata de poesia.

Hoje aprendi que posso sofrer milhões de ofensas
Como se eu fosse um poço de fracassos subsequentes
E saber que perder, às vezes, não é nenhuma doença
Pois agora creio na vertente
De que ser menosprezada não importa.
Quantas vezes cair, mais ainda meu sonho será atraente
Pois é relativo o conceito de sucesso e derrota
Até que eu consiga e a mim mesma prove, por bem,
Que eu não preciso provar nada a ninguém.

Hoje aprendi que posso amar sem barreiras
Como se não existissem fronteiras
E saber que há equilíbrio na balança
Pois sentir sem medo não é sinônimo de ser aventureira.
Que se entregar é quase como ser criança
Quando se atira nos braços de quem deposita confiança.
Reconheci que sofrer é em vão
E entendi que o limite do amor
É o doce e etéreo sabor

Da imensidão.

Lara Utzig