Poema de agora: Bicho Incomum (Jaci Rocha)

Bicho Incomum

Depois do depois de borrar o batom,
De esquecer as chaves e a hora
E ter os olhos molhados de Drummond,
Perdi a condução, a rima e a razão.

Aliás, Senhor, confesso:
não sei muito da elegância de um verso.

Brinco de recriar a narrativa do cotidiano
Com as palavras vadias do Jornal
Um noticiário particular fantástico!
Onde finais felizes – no esforço do contrário –

não são lá mui raros…

Sonho demais.
Acredito na efemeridade dos milagres
Vivo o hoje, mas sei olhar para trás
Com o coração enternecido da paisagem…

Bicho incomum, depois de ler um ou dois Garcias
Dei de olhar a mística do Universo!
Não comovo com o ordinário
vivo entre as estrelas e a mágica infinita

Dos excessos.

Jaci Rocha

*Publicado originalmente no blog A Lua Não Dorme.

Poema de hoje : Val(idade) – (@cantigadeninar)

 
Val(idade)
 
I
 
Com medo de sua mortalidade,
Sentia tanta inveja dos felinos
Peludos, ariscos e distintos,
Que quis ter sete vidas para poder ir além.
Tinha pavor de falecer menino
E, sabendo da própria transitoriedade,
Começou a espalhar fofocas,
Desprezar o amor ao próximo,
Causar intrigas e semear discórdia
Pra ver se conseguia, de alguma forma,
Se por acaso ou por misericórdia,
Incorporar os anos de vida dos outros também.
 
II
 
Qual não foi sua surpresa,
Quando a longevidade alheia
Acumulou-se em sua existência.
De fato, já nem mais envelhecia,
Para desespero da ciência.
Mas chegou um ponto em que o fim da linha
Era a opção mais confortável a seguir.
Levou desde sempre atitudes tão mesquinhas,
Que agora sequer sabia para onde ir.
Quando se petrificou o secular coração,
Tomado pelo vazio da apatia,
De tão miserável, morreu um dia
Por causa da solidão.
 
Lara Utzig

Caminhada – Poema de Fernando Canto

Caminhada

Aos que caminham dentro de si e ainda se assombram

De manhã
Meu corpo
É longo
Em sua sombra
Caminhante

Ao meio-dia
Assombro-me
Em segredo
– Encolhidinho –
No equinócio
Da alma

À tarde
Eu me projeto
Rumo ao mar
Com o sol
A bater meu rosto
Nos umbrais da noite

E se um lado é luz
Que me orienta
E de outro
Meu rastro
É a escuridão

Sou, perdoem-me,
Um obscuro ponto
Na paisagem
Que me embala
Ao sol do dia seguinte.

Fernando Canto

Blues em Oiapoque: Livro de poesias é inspirado em cena atípica na fronteira

Descendente de confederados americanos, o professor Marven Junius lança livro em dezembro reunindo poesias e trajetória

Por HUMBERTO BAÍA – De Oiapoque

Marven Junius, nasceu em Santarém (PA). É descendente de confederados americanos que imigraram para a América do Sul e se instalaram na Amazônia. Foi em Santarém, influenciado pelo pai e avó, que Marven pegou o gosto por livros de poesia.

Em Oiapoque, no extremo norte do Brasil, onde exerce a função de professor de educação física na rede pública municipal, que o escritor se deu conta que existia uma inquietação interior, e que só foi sanada com pequenas anotações que eram sempre escritas às margens do rio Oiapoque.

“Hoje sei que minhas angústias eram o meu EU querendo traduzir em palavras a minha natureza, e que só é sanado com minha poesia”, diz Marven.

Em Oiapoque sua maior fonte de inspiração é a floresta e o rio, onde ocorre o vai e vem dos barcos.

“Isso me fascina, essa ida constante das catraias. A cidade é cosmopolita. Bem aqui no Amapá temos índios, franceses, crioulos e mulatos”.

Mais toda sua criatividade sempre esteve na gaveta e entre seus arquivos, só vindo à tona depois do segundo casamento, com a pedagoga especialista em ciências sociais, Natália Ribeiro. Foi ela que incentivou Marven a compartilhar seus trabalhos em redes sociais e revistas de poesia como a “Filhos”, que já publicou várias poesias do artista.

Atualmente, Marven é constantemente convidado para participar de eventos literários. Em 3 anos divulgando seus trabalhos, já foi premiado várias vezes, e recebeu do Conselho de Cultura do Amapá a Moção Destaque Cultural. Atualmente, frequenta rodas de notáveis como Fernando canto e Alcinéa Cavalcante.

Em dezembro, com data ainda não definida, o artista lançará seu primeiro livro: “Oiapoque In Blues”, que contará com poesias inéditas e a trajetória do poeta desde que chegou ao Amapá.

“O livro tem esse título porque quando eu cheguei em Oiapoque, há 10 anos, não havia terminal rodoviário e o ônibus chegava na praça do Centro, lá pelas 3h da madrugada (risos). E o que me chamou a atenção foi um boteco que contrastava com toda cena local tocando um blues. Amei isso!”

Fonte: SelesNafes.Com

Poema de agora: OLHOS DE TEMPESTADE – Marven Junius Franklin.

OLHOS DE TEMPESTADE

I
Na Plataforma de Embarque
escuto a letter to elise
que vem de um táxi estacionado.

Ah, & ela indo embora!
Ah, & ela indo embora!

(sua voz é trêmula ao dizer adeus
& posso assistir a tempestade
que se forma em seus olhos).

II

De dentro da catraia – que a levará para Saint-Georges
– ela esboça um adeus
& eu me fingindo de cego não me deixando levar
por essa desmedida amargura

(do estacionamento observo o barquinho lhe levar
como os agourentos tsunamis arrastando nossas almas
para infernos astrais).

& ela indo embora!
& ela indo embora!

Marven Junius Franklin.

De Rocha completa oito anos no ar

Arte de Marcelo Corrêa

Parece que foi ontem, mas já faz oito anos. O ano de 2009 foi bem legal, mas as duas coisas que mais gostei nele foram o show do Radiohead e a criação do blog De Rocha.

Incentivado por uma ex-namorada, comecei escrever na página virtual. Foi no dia 15 de novembro, há exatos oito verões.

A gíria “De Rocha” nomeia este site porque nós, grande parte dos nortistas amapaenses e paraenses, a usamos quando queremos passar credibilidade sobre determinado assunto.

Na página, sempre publiquei fotografias, notícias, músicas, poesias, futebol, crônicas, contos, gifs, informes sobre fatos, eventos, pessoas públicas, bandas, arte, muita arte, e assuntos de interesse da população.

A promoção da cultura, em todas as suas vertentes, sempre foi o principal objetivo do De Rocha, além de expor meus pontos de vista, críticas leves e pesadas ou elogios amenos e exagerados aos que merecem. Foram tantos artistas, músicos, bandas, incontáveis eventos. Também publiquei textos do trampo por onde passei na carreira de assessor de comunicação. Além disso, falei muito da minha amada e preciosíssima família. E isso tudo misturando blá-blá-blá abobrístico, pois a vida sem humor é horrível.

Apesar da “internet soviética”, como diz o amigo jornalista Régis Sanches (ex-colaborador deste site), dos acusadores, fiscais e críticos, o De Rocha virou sucesso. Confesso que, quando comecei a escrever, nem imaginava que minha página virtual seria tão bem aceita. Isso aqui abriu portais, portas, janelas, gavetas e até alçapões em minha vida (risos).

Sei que rolou muito atrevimento, ironia, polêmicas, sarcasmo, verdades doloridas de se ler, alfinetadas, acidez e até idiotice de minha parte. Mas também rolou tanta homenagem, tanto amor real, tanta coisa legal. Claro que cometi alguns erros, não poderia ser de outro jeito. Mas tudo é aprendizado. Me arrependo de ter magoado algumas pessoas. De verdade!

Nestes oito anos, somados blog e site, fiz novas amizades, expandi meus conhecimentos e incentivei amigos a criarem seus próprios blogs (mesmo que alguns não admitam).

Por aqui passaram vários colaboradores. Alguns deles nem são mais meus amigos, mas sou grato pelas contribuições. Cada um teve papel importante na formação deste espaço. Também agradeço aos parceiros que continuam por aqui. Em especial aos amigos Fernando Canto, Ronaldo Rodrigues, Patrícia Andrade, Mariléia Maciel, Gilvana Santos, Jaci Rocha, Alcinéa Cavalcante, Alcilene Cavalcante, Hellen Cortezolli, Marcelle Nunes e Rita Torrinha, além do velho e saudoso Tãgaha Luz (In memoriam). Obrigado, meninas e caras.

O blog morreu há três anos, quando foi criada esta página eletrônica (dados do antigo endereço foram migrados para cá). Passado todo esse tempo, mantenho-me como comecei: jornalista, assessor de comunicação, compulsivo por atualizações da página, cronista, crítico, ex-blogueiro e editor de um site ético e sem rabo preso com ninguém (apesar de muita gente confundir o espaço dado a amigos assessores com favorecimento).

Tenho a ousadia de usar as palavras do escritor Caio Fernando Abreu: “acho que fiz tudo do jeito melhor, meio torto, talvez, mas tenho tentado da maneira mais bonita que sei”. Uma eterna luta do bem contra o mal dentro de mim, mas com 99% de vitórias da luz.

Ah, desculpem os palavrões em alguns textos, mas isso também é liberdade de expressão.

Aqui a bola sempre foi minha. Você pode discordar, mas é isso o que penso e ponto. Com essa frase, agradei muito mais do que provoquei repulsa. Meu muito obrigado a vocês, senhores e senhoras que compõem o leitorado do De Rocha, sejam admiradores, críticos e detonadores (que de certa forma também são admiradores). Sigamos aplaudindo, criticando, discordando e incentivando as boas práticas. Valeu pra caralho!

Elton Tavares

Poema de agora: Nossos mundos – Maria Ester

Nossos mundos

De tudo que eu disser
vire palavra acessa
que nossa prosa e nosso verso sejam
pão, vinho, suor e deleite.

Que teu deserto vire lago
sereno tranquilo, mas fundo, (pro)fundo e
sem torvelinhos…

E das folhas secas brotem
fontes de vida, oração e amor
nascemos para isso

Encantar, beijar
viver e se entregar
(re)encontro de mundos e almas.

Nem precisas vir se não deixares
a armadura do lado de fora da porta

Cartas postas na mesa
E teu sorriso: xeque-mate, nossa luz.

Sempre!

Maria Ester

Poema de agora: Para ti – Maria Ester

Para ti

Traz, amor

Traz teu olhar de paraíso
Traz teus beijos, teus sorrisos
Que ne acarinham mais que doces

Só traz tuas mãos macias e lindas
E traz tua boca
para falarmos sobre os sentidos da cooperação das formigas

Ah! Traz também aquele violão que ganhaste na quermesse para dedilharmos Amadeu, Caetano e Zé

Vem
Reflete
Descobre
Aceita
e respeita

Traz junto a vida líquida
que há em nós…

Quando? Hoje.

Horário ?
Já, agora, “pra ontem”

Antes que as cinzas durmam
a nossa história.

Agoooraa!

(Maria Ester)

Fernando Canto, enfim, Cidadão Amapaense.

Fernando Pimentel Canto, natural de Óbidos (PA), é macapaense em seu coração há mais de meio século. O Tucuju “pegado de galho” desde os sete anos de idade recebeu ontem (10), na Assembleia Legislativa do Amapá (Aleap), o título de Cidadão Amapaense. A honraria foi aprovada e promulgada em 2007, quando foi requerida pelo ex-deputado Paulo José, no parlamento estadual à época, mas entregue somente ontem, graças a iniciativa do deputado Pedro da Lua.

Imortal membro da Academia Amapaense de Letras (AAL), compositor, cantor, músico, jornalista, sociólogo, professor, Doutor, poeta, contador de histórias, causos e estórias, contista e cronista brilhante, apreciador e incentivador de arte, sociólogo, ícone da cultura amapaense, escritor “imparável”, boemista, marido da Sônia, amante do carnaval, biriteiro considerado, incentivador de todas as vertentes artísticas, embaixador do Laguinho, membro fundador do Grupo Pilão, flamenguista e ex-atacante do Flamenguinho (time do Laguinho dos anos 60, onde segundo ele, o Bira Burro foi seu reserva), militante cultural e servidor da Universidade Federal do Amapá, esse é o meu grande e querido amigo meu, Fernando Canto.

Sou apaixonado pela minha terra, cheguei de viagem há 41 anos, quando minha mãe teve a doçura de dar a luz a este editor, em 1976. Conheço muitas pessoas que nasceram aqui, outras que chegaram para construir seus caminhos por estas paragens e que valorizam nosso lugar. Mas Fernando Canto, o meu amigo “Barbonez”, é um cara ímpar no amor e empenho pela cultura daqui, pelas amapalidades e pelo Laguinho, onde “Nando Esquina” é o branco mais preto de lá, como diria Vinícius.

Alguns amigos, como eu, reconhecem Fernando Canto como ele é. Entre eles o poeta Obdias Araújo, que sempre diz que “Fernando Canto é o maior escritor vivo do Amapá” e jornalista Renivaldo Costa, que já escreveu “Fernando Canto é nosso maior poeta!”, concordo plenamente com ambos.

Já li várias crônicas históricas escritas por ele, que abordam o Marabaixo, a música, o jornalismo, artistas locais e personagens que ajudaram a construir a memória do nosso lugar. Já escutei canções cantadas e escritas por ele, executadas pelo grupo Pilão (que Canto integra) e por outros ícones da nossa música. Já me diverti ao som de sambas enredo e marchinhas de carnaval compostas pelo Fernando. Já fiquei assombrado (“sem sobra ao meio-dia em tempos de equinócio”, segundo o querido e homenageado escritor”) com tantos contos fantásticos nascidos em sua mítica mente engenhosa, sem falar na poesia que não se esgota no pensamento do cara.

Ao todo, Fernando Canto possui 17 obras publicadas. O escritor é estudioso e observador do seu mundo. Ou seja, do nosso mundo. Além de ser contista, poeta e cronista brilhante, também é um detalhista da memória, comportamento e cenários do Amapá. O cara é genial mesmo e este Estado lhe deve muito, pois é impossível contabilizar a contribuição dele para o desenvolvimento da nossa cultura.

O Amapá precisa preservar, reconhecer e homenagear seus grandes nomes em todas as áreas de atuação. Já disse várias vezes e repetirei quantas forem necessário, Fernando Canto é um dos meus heróis nesse lance de escrever e muito me honra ser seu amigo.

Enfim, toda homenagem para Fernando Canto ainda é pouco. Para mim, símbolo de inspiração (e piração), coerência, bom senso, e amizade. Congratulações, “Barbonez”!

Fale de sua aldeia e estará falando do mundo” – Leon Tolstói.

Elton Tavares

Maré Literária terá debates, exposição e lançamento de livro

Com uma programação voltada para as vivências literárias, acontece no período de 09 a 11 de novembro a primeira edição da Maré Literária. Evento com exposição, bate-papo, mesa de debates, intervenções poéticas, jogos literários e lançamento do livro Telegramas do poeta goiano, Lucão.

Durante os três dias de programação a Maré fará um intercâmbio entre autores nacionais e locais proporcionando uma programação voltada para a qualificação daqueles que escrevem e daqueles que se deleitam com a literatura. Trata-se, sobretudo de um evento que busca trazer novidades ao cenário literário amapaense e dialogando com as novidades que surgem pelo país.

Realizado pelo Serviço Social do Comércio – SESC Amapá, em parceria com a Livraria Acadêmica, Poetas Azuis e a poeta Carla Nobre. A programação começa com a exposição visual do Coletivo Cenopoesia, na quinta-feira, às 10h no Sesc Centro.

“As experiências e suas trocas são de fundamental importância para o processo criativo de todo e qualquer artista, seja escritor ou de outras áreas, e a Maré vem provocar isso nas pessoas”, destaca o poeta, Pedro Stkls.

Na Sexta-feira, a programação continua com um sarau na Escola Estadual Mario Quirino da Silva, e a noite acontece a sessão de autógrafo do livro Telegramas do poeta que é sucesso na internet, Lucas Brandão, o Lucão.

“Lucão, reúne mais de 400 mil seguidores em suas redes sociais, e com uma linguagem moderna, ele populariza sua poesia na rede social, mostrando um trabalho com personalidade e estilo”, destaca a poeta e professora, Carla Nobre.

A programação da Maré culmina no sábado com uma mesa de debate sobre literatura em sala de aula, um bate papo com Lucão, a primeira edição dos jogos literários e com o show litero-musical do grupo Poetas Azuis.

A programação que é voltada também para acadêmicos oferecerá certificação de 30 horas, para os participantes.

Confira a programação completa no link – https://goo.gl/cXi3Z3

Thiago Soeiro
Contato:
(096) 99155 – 6451 (whats app)
(096) 98140-4994

Poema de agora: MINHA POESIA – Alcy Araújo

Poeta Alcy Araújo

MINHA POESIA

A minha poesia, senhor, é a poesia desmembrada
dos homens que olharam o mundo
pela primeira vez;

Dos homens que ouviram o rumor do mundo
pela primeira vez.

É a poesia das mãos sem trato
na ânsia do progresso!

Ídolos, crenças, tabus, por quê?
Se os homens choram suor
na construção do mundo
e bocas se comprimem em massa
clamando pelo pão?

A minha poesia tem o ritmo gritante
das sinfonias dos porões e dos guindastes,
do grito do estivador vitimado
sob a língua que se desprendeu,
do desespero sem nome

Da prostituta pobre e mãe,
do suor meloso da gafieira
do meu bairro sem bangalôs
onde todo mundo diz nomes feios
bebe cachaça, briga e ama
sem fiscal de salão,

– Já viu, senhor, os peitos amolecidos
da empregada da fábrica
que gosta do soldado da polícia?

Pois aqueles seios amamentaram
a caboclinha suja e descalça
que vai com a cuia de açaí
no meio da rua poeirenta.

– Cuidado, senhor, para seu automóvel não atropelar a menina!…

Alcy Araújo