Poema de agora: He Wolf – (@cantigadeninar)

He Wolf

o homem é o lobo
de si mesmo
e depois torna-se corvo
que devora a própria carniça.
faz-se de isca
com a carne exposta
de barriga para cima
ou de costas
com ambição e ganância
na ânsia
de uma armadilha.
mas a tocaia que arma
é uma montagem macabra
e na cena do crime:
autodestruição.
ainda que não rime,
ao perfurar um pulmão,
puxa-se o tapete do outro.
o homem-urubu
com sua carcaça
come cru
sua putrefata alma
no ledo engano
de sair ganhando
no terreno plano.
gasta os ossos
em cortes profundos.
as hienas degustam
o sabor do homem
com sais minerais,
numa taxonomia de espécies
sujeitas a todas as intempéries
enquanto ele é ao mesmo tempo
um filo de vários animais
vivendo num habitat de sofrimento
desde os mais antigos ancestrais.

Lara Utzig

Poema de agora: Gleba – @cantigadeninar

Gleba

em minha casa
– que não é um lar –
deslegitimam o meu amor;
menosprezam o que sou;
dizem que não faço parte
de um casal, e sim de um par.
na minha pátria
sou pária.

em minha casa,
se no quintal grito “socorro”,
o telefone sem fio rola solto:
na sala de estar,
a notícia já sobre algum desaforo
que eu falei para atacar.
na minha pátria
Resultado de imagem para ninguém solta a mão de ninguémsou pária.

em minha casa,
ganho menos do que todos.
nessa Novíssima República
da desinformação,
a ignorância é agora a constituição.
o síndico do condomínio
foi escolhido para causar desunião.
na minha pátria
sou pária.

em minha casa
já não tenho morada.
saí para o parque
a fim de espairecer;
lá encontrei mais gente como eu.
gente excluída,
gente sem vez.
na nossa pátria
somos párias.

fugir de casa?
não.
transformá-la em lar novamente.
de mãos dadas
com toda aquela gente
deslocada, sozinha, rechaçada.
senti-me retomar as rédeas
para mudar o curso das tragédias:
na minha pátria
serei revolucionária.

isso nunca vai mudar,
passe o tempo que for
nem que eu precise lutar
contra quem me expulsou:
é aqui meu lugar,
não tenho que pedir.
ficar não é nenhum favor.
sou dona e proprietária
de minha pátria!

Lara Utzig

Poema de agora: Brasil Novo/Universidade – (@cantigadeninar)

Brasil Novo/Universidade

Avistei você passando descontraída
Na calçada, do outro lado da rua,
E confesso que me senti traída
Ao te ver sorrindo de forma tão pura.

Acho que quando a gente sofre
Espera que o mundo em volta tenha um matiz escuro.
Mas nem tudo cheira a enxofre:
Seu par de jabuticabas continua maduro.

Você estava com minha roupa favorita
Enquanto eu já nem sei mais o que visto.
Pego a peça que estiver menos rota e encardida,
Combino xadrez com listras e é isto.

Só eu ando por aí, monocromática.
O universo ao redor ainda é colorido.
Porém, como sou ruim em Matemática,
Esqueci que na soma 1+1, um dos uns sempre sai ferido.

Vi coisas que não podem ser desvistas,
Tantas que me ceguei para o resto.
Com elas, fiz inúmeras listas,
Que guardo para mim e não empresto.

Mas mesmo assim, enxerguei você,
Pela janela do transporte público.
Meu coração quase parou de vez:
D(o)eu um pulo de súbito.

O ônibus arrancou de primeira
E a descarga jogou na atmosfera dióxido de carbono.
Mais uma sexta-feira
Do tom da substância lançada na camada de ozônio.

Lara Utzig

Poema de agora: O tempo não conta para a eternidade (Fernando Canto)

O tempo não conta para a eternidade

Aos poetas disfarçados de lógicos
Ainda que tarde
A hora arda
O tempo estanca
E o texto escorre

O tempo é mesmo
Âncora invisível
Bússola quebrada
Teia silenciosa
A entupir as bocas das entranhas.

O tempo não conta para a eternidade
Lírico e lento
Lapida em cinzel de sonho
A pedra etérea da vaidade

Fernando Canto

Poema de agora: Entre o Humano e o Divino – Lara Utzig (@cantigadeninar)

Entre o Humano e o Divino

Ciente da minha condição humana,
Não temo, pois não há razão para medo:
Desde muito cedo,
Aprendi a respeitar Deus.
E, sabendo que o amor é divino,
Nutro em mim sentimento infinito
Que, de dentro pra fora, cresce.
Meu peito se expande de leste a oeste
E, por amar com a fé de quem faz uma prece,
Sigo doando abraços que não se medem:
Assim, fico mais perto do céu.

Lara Utzig

Poema de agora: Para um certo lugar atolado no Ontem. – Luiz Jorge Ferreira

Para um certo lugar atolado no Ontem

Planto chuvas como se Abril fosse bissexto.
Molho textos como se tardes nascessem do mar.
Amanheço em mim, assustado com a possibilidade de voar.
Mas não saio de ti, nem que o avesso apareça por traz da pintura de R.Peixe…ou esculturas de Rodin.

Enxerto pecados em virtudes, canto com Alaúde uma Ave Maria agnóstica, que na surdina do barulho infernal dos sapateios, finge ser muda.
Mas eu a traduzo para a linguagem gestual dos mudos, e ela fica lilás e sensual.

Com as lágrimas que pulam para a calçada…
Afogo rosas todas esculpidas em barro como o de Brumadinho.
E ponho em fila todas as vidas abortadas e nuas pelas valas espremidas.

Planto chuvas e as carrego sobre os ombros, que imagino largos, a Noroeste do Riacho que chamo de lama.
Da casa a céu aberto que chamo de alma.
Da imensidão de saudade, que chamo de drama.
Do paneiro cheio de palavras átonas e tônicas … que chamo de poema.

E se eu soubesse que viraria lama.
Teria atirado minha chuva na tua cara!

Luiz Jorge Ferreira

 

*Poema do livro “Nunca mais vou sair de mim, sem levar as Asas”.

Poema de agora: O Beijo – (@cantigadeninar)

O Beijo

Como se um pedaço de mim se esvaísse
Em cada suspiro que solto por ti,
Como se minha alma se bipartisse
Em cada saliva que entrego a ti,

Sinto meus pés se elevarem do chão,
Sinto-me flutuar como em meditação,
Sinto a taquicardia de meu coração,
Sinto o latejar de nossos sexos em pulsação.

Como se meu espírito fosse uno com o teu,
Nossos lábios se encaixam perfeitamente um ao outro.
Como se teu corpo fosse o mesmo que o meu,
Nossa respiração se mistura em sinal de bom agouro.

Sinto o clamar de nossas bocas sedentas,
Sinto o palpitar de uma troca sincera e lenta,
Sinto o rebuliço das partes outrora amenas,
Sinto nosso beijo da forma mais plena.

Lara Utzig

Poema de agora: BRAÇO DE RIO – Annie de Carvalho

BRAÇO DE RIO

Vou jogar-me num braço de rio
e agarrar as gotículas invisíveis
da imensidão, afogar meu clarão
de toda perseguição…
Sufrágio ao naufrágio da desilusão!
E lá nos braços do rio Araguari,
do rio Calçoene, do rio Oiapoque…
Esperarei um índio Waiãpi vim efluir meu juízo
com o júbilo abrigo da escuridão- redenção!

(Impelirei… partir-me- ei
no abraço da anaconda
que abriu a boca do rio.
Abraçarei a brasa de todo
rio até desembocar de mim).

Na nascente vou parir,
vou berrar no rio Jari.
Na força das caudalosas correntes
espalharei meu cerne afluente…
Embaçado e fértil das misuras
que a floresta espalhou nas criaturas.
Assomar no abraço quente de um
mururé e sangrar nas cabeceiras

espalhando meu sumo
expandindo meu bocado,
deixando em teus infinitos braços
todos os meus pedaços.

Annie de Carvalho

Poema de agora: Para o Mar – @ManoelFabricio1

Para o Mar

te imaginei cantando seminua
Desejo meu
Emanou vibrações
E tirei tua roupa daqui
só te olhando tocar
te tocando com os olhos em dê lírios.
Imaginei e queria ver imagem.
Queria do verbo passado
Quero do presente
Que é ver teu retrato futurista
Traduzido em tinta digital
Em tempo instantâneo
imediato
Da suavidade e do cheiro que corre em curvas de pixel
Da excitação longínqua
Da cor da retina que é capturada
Dos pelos arrepios
Tem cheiro de tempero
Cheiro Di pimenta de cheiro

Manoel Fabrício

Poema de agora: Transcriação – (@cantigadeninar)

Transcriação

Ereção a cada palavra.
O sêmen na caligrafia,
O desejo que escorre em fila,
Os dedos penetram uma linha.
Jorra e se espalha em cores,
A língua sem dissabores.
A preliminar veloz,
A escolha de um título feroz
Que resuma toda a cópula.
Eis que o processo de criação
Nada mais é que procriação
De uma espécie feita de tinta.


Na safadeza explícita,
Não me julgo prostituta
Pois ofereço-me gratuita
A serviço de um verso.
E nesse coito,
Papel-eu-pena,
Masturbo, com carinho, um poema…
E no ápice, sem aborto,
Gozo, enfim, uma estrofe:
– Engole ou cospe?
E orgulhosa, exibo minha cria:
Um orgasmo em poesia.

Lara Utzig

Poema de agora: INSPIRAÇÃO – Marven Junius Franklin

Arte de Marven Junius Franklin

INSPIRAÇÃO

a inspiração surge em mim
num relampejar de auroras setentrionais

amadurece num cardume
de supermassivos/densos quasares

e morre esbraseada
a colidir com extintas estrelas colapsadas [no fim do mundo]

a inspiração em mim
oh, é apenas poeira cósmica
que orbita universos paralelos [em que habito!]

Marven Junius Franklin