Poesia de agora: Comentários a respeito da Vida – Jaci Rocha

Comentários a respeito da Vida

Vida! Quem dera um remoto controle,

mas ao vivo não tem replay
Pausa para ir ao banheiro
não tem mocinhos ou bandidos
nem mesmo um super-herói
dentro de um secreto esconderijo.

Ah! deve ser por isso
que a gente corre para o cinema
ou põe na telinha um romance
meio que comédia
– esquece o apelo cotidiano da tragédia –

existir é coisa de gente bruta, meu bem
amar é para quem tem coragem de ir além
e é cada coisa louca que inspira emoção
– Mesmo tudo que habita o apelo do não.

Aqui, o segundo vira sem garantia de sucesso
às vezes nem mesmo um nexo,
e a nossa temporada é cancelada inesperadamente
há tempos de flor, outros de esperar e regar a semente…

ah! mundo real,
belo e cruel.

A dor é mesmo dor
Na tragicomédia ambígua de um maluco inventor
pois eis, que entre o concreto e o cotidiano
Nasce flor, verso, arte e amor…

O código reto da realidade,
não tem título, não existe segunda temporada
Apenas os fios do agora,
puxados entre o nunca mais e a eternidade…

E eu, que brinco de normalista*
Ando por aí cheia de fórmulas e antigas teorias
Finalmente descobri na última curva da estrada
Que não sei mesmo nada,
não sei nada e talvez jamais saiba…

É que ao vivo, meu bem, não tem sinopse
é de sustentar o porte
Como bem me disse Martha
“Pena a vida não ter corte”!

(E se tiver, esteja certo:
“às vezes não sara nunca,
às vezes, sara amanhã”)

Jaci Rocha

Poema de agora: Por ti – Alcinéa Cavalcante (@alcinea)

Por ti

Gosto de ser assim
– livre.
Sem relógio
sem telefone
sem hora de partir
ou de voltar.

Gosto de ser assim
– livre.
Não ter que dizer
estou aqui
vou ali
irei acolá.

Gosto de ser assim
– livre.
Sem hora marcada
pra dormir
acordar
comer
passear
cantar
trabalhar.

Mas se me quiseres
compro um relógio
e um celular.
Organizo o tempo
e até aprendo a cozinhar.

(Alcinéa Cavalcante)

Poesia de agora: NATIVO – Luiz Jorge Ferreira

Foto: Floriano Lima

NATIVO

Eu não quero ser Ianque em Miami Beach
Quero doar meu sangue para os Carapanãs, em Apurema.
Quero chamar Deus de Manitu…
E ser chamado de Tuchauã.
Quero voar com as asas brancas das Garças, rumo ao rumo que soprar os ventos.
Quero estar atento a luz…
E estar sedendo das águas dos Igarapés, que deixam profundas lembranças as terras das margens, por onde correm.
Quero estar Kaipora, Mapinguari, ou vagalume, expelindo um arco-íris submergido em trevas.

Sou Aurora e anoiteço.
Sou esperança e não creio.
Sou a Preguiça que amanhece cedo, e chega quando o sol se foi.
Estou de volta, no início.
E estou no início, quando finda.

Eu não quero o destino dos carapalidas, sugados pelos Carapanãs.
Quero ser o Pajé.
Quero ser a crista da onda, espumante e bela…
Não seu barulho assustador e voraz.
Quero ser o Plácido Igarapé, onde lavo a voz…
Onde afogo o Ontem, e ponho a nadar as lembranças…
As mesmas que ele escavou nas margens…
Exatamente, gêmeas, das que ele incrustou em mim.

Luiz Jorge Ferreira

Poema de agora: Irmãos – Marven Junius Franklin

Índios wajãpi do Amapá – Foto: Victor Moriyama.

Irmãos

Sou daqui, irmão
— nortenho entristecido pela vida,
que segue o voo incerto
pelos rios contaminados de mercúrio.
Sou dos cafundós, irmão
— meus olhos enfadaram
ao ver a imensidão de mata demolida.
Sou indígena, irmão
— ancestral sem moeda de troca,
que luta & sonha com a sua terra edificada
(já passou o tempo
de espelhos & miçangas).

Marven Junius Franklin

Poema de agora: FOGO BRANDO – Pat Andrade

FOGO BRANDO

cortaram
sua existência
pela metade

no cartaz
mal escrito e tosco
a curta história de vida
em cada linha do rosto
um sorriso que foi roubado

o mundo virou-lhe
as costas
arrancaram-lhe
a dignidade
falta-lhe a cama
e a mesa
não tem endereço
nem identidade

o semáforo
lhe rouba o tempo

deixa o ponto
de mãos vazias
volta pra casa
a passos lentos
pensando na vida
sem jeito

hoje é mais um dia
em que vai cozinhar
apenas desespero

Pat Andrade

Posia de agora: (Res)Piração- Jaci Rocha (sobre esperança)

(Res)Piração – Jaci Rocha

A chuva cai, vai pela esquina
O vento movimenta o espaço
Os prédios gemem
Formam traços
Alheios a quem passa.

A vida passa, pega o trem
Às vezes, perde a estação.
O tempo mói e a gente tenta
Segurar o instante na respiração!

Mas tudo vai,
A tarde cai,
Ávida por emoção…

A máquina das semeaduras
Ceifa tudo que já é passado
E, por outro lado
A seiva da esperança escorre sobre nós…

E, se há pedras debaixo dos pés,
Há sempre um maravilhoso céu
Onde um estranho pincel
Desenha um sorriso nas estrelas.

Jaci Rocha

Poema de agora: Delonga – Lara Utzig (@cantigadeninar)

 


Delonga

taciturno
o controle de Saturno
se põe sobre a gente
e eu que sempre fui paciente
percebo a pressa
emergência submersa
que se tatua
na pele
nos olhares
nas mensagens
na urgência de ser tua

nos desencontros do destino
[esse nosso adversário]
esbarrei em ti tantas vezes
e acenei para seguir caminho
em outro itinerário
mas permanecia sempre olhando pra trás
e para o que eu havia deixado
[um amor que nunca se liquefaz]

eis minha sina
mística fase:
os dias que nos separam agora
são esses intervalos do quase
que tecem junto com a aurora
o senão
que é a certeza
do teu sim

não mais tardo:
em breve
chegarás como uma prece
pois eu, que sou filha do Tempo,
te aguardo
como quem espera um milagre

Lara Utzig

Poema de agora: Músicas que aperfeiçoam o coração (de Marcelo Guido para Nonato Leal)

Foto: Chico Terra

Músicas que aperfeiçoam o coração

Salve Nonato Leal.
Talvez, o mais emblemático músico deste estado.
Talvez, melodia em estado bruto.
Talvez, um mago das cordas.
Mas com certeza, um ser iluminado.

Como vinho enobrece com tempo.
Uma vida de alegrias e melodias.
Embaladas por cordas de um violão
Músicas que aperfeiçoam o coração.

Nonato Leal 94 anos. Vida longa ao grande mestre….

Marcelo Guido

Poema de agora: O POÇO – Arilson Souza

Imagem: WEB

O POÇO

O poço
Da vida vivida,
Que reconstrói almas
Ou as deixa destruídas.

O poço
Da des[esperança]
Que acolhe sem acepção
Àqueles que nele se lançam.

Ah, o poço!!
E seu cabalístico fundo;
Para uns: A CERTEZA DO FIM!
Para outros: O RECOMEÇO DE TUDO!

Arilson Souza

Poema de agora: Sobre Amigos – Pat Andrade

Sobre Amigos

amigos são como as estrelas…
ainda que não estejam perto,
podemos ver seu brilho
iluminando caminhos na noite escura.

amigos são como a água
que mata a sede no deserto,
lava o pobre maltrapilho
deixando o sujo de alma pura.

amigos são como o sol
ainda que encoberto,
aquece pai, aquece filho
e enche corações de ternura.

amigos são o nosso bem
essenciais e necessários.
aquele que não os têm
jamais entenderá o que falo.

Pat Andrade

Poema de agora: A Maiakovski. Poeta Russo – Luiz Jorge Ferreira

A Maiakovski. Poeta Russo

Um dia eles nem chegam!
Já estão escondidos nas sombras que nos acompanham, por todos os lugares.
E nós não vimos, nem sentimos seus cheiros podres, nem sentimos suas mãos nos pescoços.

Simplesmente porque ainda fazem isto só com os outros.

Certo dia em que estamos comprando ovos da Páscoa.
Eles entregam armas aos moleques sem cor dos aglomerados.
Mas com medo neste momento levantamos do sofá, e desligamos a Televisão para não saber mais disto.

Uma noite eleito por nós mesmos, eles se reúnem, e criam facilidades para o domínio.
Empilham placas na rua,
para que indefesos andemos a mercê dos sádicos.

Criam leis para retirar nossas armas, e facilitam a liberdade dos ladrões, e assassinos.

Mas como o domínio ainda nos permite ir a praia – Não protestamos.

Certo dia acordamos com eles em nossas casas, em nossas mesas, em nossas camas, em nossas almas.

Nesse dia, sentiremos seus cheiros podres, seus dentes podres, seus gestos bruscos, e seus torniquetes no pescoços.

Seremos proibidos de ir a praia, caminhar sob o sol, e inocentemente tomar sorvete.

Ansiosos vamos procurar reunir todos para criar uma saída.

Mas então! – Todos serão ninguém, e eternamente!
Será muito tarde.

Luiz Jorge Ferreira

 

* Do livro Tybum.

Poema de agora: AS AS – Ori Fonseca #ForaBolsonaro

AS AS

o amor que sinto não carece de primícias
nem de abrir malas pelas aduanas
nem sofrer calor à luz dos dias
o meu amor vem de heluanas
lias
de patrícias
de gente da arte-gente
rosa rente
gente da poesia
da delicia
da semana
em que patrícia
borda o dia a dia
de lua, de lulih, de lia
e heluana
num dia
de quinta
de todas as quintas
de aliane quintas
heluana quintas
andando nas frentes
acordando o dia
quando o sol raia
com suas rosas rentes
ao feito da paz
ao peito de maria
ao peito perfeito de mary paes
ao peito de soraia
ao peito de rebecca, de rebecca
minha fantasia
minha biblioteca
em que sempre li
li, li, lili
em que sempre lia
a poesia, a prosa
no barco de rosa
na ilha de lia
lia, minha lia,
a vida fictíciia
de tanta fabrícia
orquestrando este mundo
com o coração
o mundo, mundo, vago mundo
se eu me chamasse raimundo
seria uma rima, não uma decepção

Ori Fonseca

 


*Poema escrito às 2h26min do dia 15.07.21, uma quinta-feira. Mais do que uma homenagem a algumas das mulheres lindas que eu conheço, é uma declaração de amor e um pedido de desculpas por tudo o que as mulheres vêm sofrendo em um mundo afundado em lixo machista. Nesta semana, minha amiga Heluana Quintas foi alvo de uma agressão nojenta porque cometeu o terrível pecado de ter opinião e a expor. Saiu da pequenez do agressor mais gigante do que já era.