Poema de agora: ESPANTALHO (Luiz Jorge Ferreira)

ESPANTALHO

Estou nu, mesmo coberto de pele, de pêlo, de pó.
Estou azul, mesmo colorido da nódoa do tempo.
O que desboto, empilho em monte de ferrugem, e dor.
O que estilhaço, amarro em feixes de lágrimas, e saudades.
O que mastigo, engulo em noites de insônia.
Estou sem cor, sem cheiro, sem tato,sem olfato, e sem paladar.
Estou no mesmo lugar sempre, embora a vida toda eu vague.
De dentro para fora de mim, de mim para fora do dentro.

Sou um Espantalho.
Mantenho os braços abertos para um abraço eterno, com sol e lua.
Tenho um sorriso calado e um grito amordaçado, enormementes pequenos.
Talvez se eu gritar, eu fale, talvez se eu falar, eu grite.
Eu sou um Espantalho, que amo as coisas ao contrário.
A água, o rio, a chuva, o silêncio, a balbúrdia dos Quero-Queros, a solidão da semente, a doçura da serpente, colorida e traiçoeira.
Eu recebo o pouso, dos insetos, das abelhas, e das folhas secas.
Eu sou uma ratoeira, e eu próprio caio nela.

Estou palha, e estou barro.
Estou indo, e estou parado.
Estou cercado de nada, e até o nada me incomoda.
Até que o nada sou eu, e até que eu sou o nada.

Quando me dispo da palha, do chapéu, e do olhar.
Quando me deixo, e me espalho, e me perco mais de mim.
Aí, eu sou o Espantalho, aí eu sei o que valho.
Mas aí.
É tarde demais.

                                                                                    Luiz Jorge Ferreira

* Do Livro O Avesso do Espantalho. Scortecci / 2010/ São Paulo.Brasil.
** Além de poeta, Luiz Jorge Ferreira é cronista, contista, escritor e médico amapaense que reside em São Paulo e também é vice-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames).

Poema de agora: Em cima da borboleta uma planta! – Annie de Carvalho

Ilutração de Felícia Bastos ([email protected])

Em cima da borboleta uma planta!

É verdade
mas, não importa se acredita
a planta pousa na borboleta.

Matizes de poemas aromatizantes
surgem na linha imaginária que separa
a seiva do dia… como flecha que passa.

Mas eu garanto tudo acaba quando
a parca natureza humana
em vez da flor colhe o espanto.

Annie de Carvalho

Poema de agora: Telhado… – Luiz Jorge Ferreira

Telhado…

O gato é que se assusta… quando eu o assusto com meus miados.
Eu também arranho o vidro da janela.
Eu também adoro afiar as minhas garras.
Perder meu olhar em direção a lua.
Enterrar minhas saudades em buracos escuros.
E uivar comigo, e em mim, de um jeito estúpido, e azul.
A rua é que se cala quando calo meu grito.
Qualquer assobio polui minha retina, com traços curtos e grossos.
Não ligo para os sussurros, e doces amargos, que mancham os retratos de riscos.
Meus espasmos amorosos é que amolecem os postes, e sobem nos muros.
Adiante das casa, adiante das caras, e defronte dos espelhos.

Eu volto para os telhados, agora molhados da língua de Deus.
E grito palavras roucas, e rotas sobre nós, sobre nossos filhos, sobre nossos pêssegos podres, sobre nossas frestas abertas,sobre o eco dos abismos, e gozos.

Quando ouço o barulho da noite, pulo e uivo.
Então é o gato que se assusta quando vomito lilás.
Eu me aquieto a lamber minhas feridas até que a alma sare.

Aí, ele furioso, me arranha.
E eu o arranho, do avesso ao contrário.
Sangram os miados que eu escondo, entre os nós do cajado.
O mesmo com que açoito a solidão.

Luiz Jorge Ferreira

* Além de poeta, Luiz Jorge Ferreira é cronista, contista, escritor e médico amapaense que reside em São Paulo e também é vice-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames).

Poema de agora: É bom sentir – @ManoelFabricio1

É bom sentir

Mesmo quando tu acha que não sente
A dúvida paira como um pássaro
Na corrente de ar quente
Tu lembra levemente da dor de dente
Tu lembra levemente da topada com o dedão
Tu lembra da queda e do joelho ralado na diversão
Tu lembra da dor e de levantar, limpar a terra e correr
Tu lembra do que havia perdido na memória
Tu lembra que acordou domingo sorrindo
E lembra que sente
E fica se sentindo
É bom sentir

Manoel Fabrício

Poema de agora: Pleito – (@cantigadeninar)

Pleito

bandeiras coloridas
partidos
coletivos
movimentos
ativismo
horário eleitoral nada gratuito

campanha nas campanhas
discursos
além do curso
das horas

jingles mudos —
para candidatos —
que não têm nada a dizer

a militância das palavras
é solitária
não há neutralidade
na ideologia versificada

mudar o mundo
requer urnas
[funerárias

voto no pseudo silêncio
da engajada
lírica luta
fora da caixa
distante da turba
autônoma… singular —
eremitas, uni-vos!

Lara Utzig

Poema de agora: Ligação ( @ThiagoSoeiro )

Ligação

Existe um perigo eminentemente
Entre nós dois
Ligação fatal
De batimentos cardíacos
Veias arteriais
E emoções banais
O dia a dia aponta o caminho
Quase certo
É incerto o futuro
E saber disso é a única certeza
Há horas em que o acreditar no amor
É a nossa salvação.

Thiago Soeiro

Poema de agora: Metáfora (Tãgaha Soares)

Metáfora

o Sol, essa estrela a brilhar
com raios a penetrar o denso negror do mar, do mar
e o mar, a massa a se encandear
com forças para evitar
revolta sem abalar
peixes outrora com vidas e almas vencidas não tardam a boiar
sangra com lança de morte, com garras do forte, o herdeiro do mar…
prensa o nativo do fundo tomando-lhe o mundo que é seu habitat
povo já sem consciência perdeu a essência re raciocinar…
e a luz, em claros focos letais
atrozes torturas traz
causando o inverso da paz, da paz
tenaz, é a ânsia de se salvar
e a dança me faz lembrar
um enxame a revoar
peixes outrora com vidas e almas vencidas não tardam a boiar
sangra com lança de morte, com garras do forte, o herdeiro do mar…
prensa o nativo do fundo tomando-lhe o mundo que é seu habitat
povo já sem consciência perdeu a essência re raciocinar…

Tãgaha Soares

*Além de poeta, Tãgaha Soares Luz foi um grande jornalista e amigo querido. O cara viajou para as estrelas em 2016, mas como ele mesmo dizia: “gente do bem é outra coisa, passa e deixa rastros”.

Poema de agora: Do amor não correspondido – Bruno Muniz

Do amor não correspondido

Não sou como tu,
me envergo à menor ventania;
desabo às melodias de Mozart
como se as lágrimas dissessem-me: cala-te.
Não sou como tu,
sou de invernos sentidos,
de cálidos dias;
levo comigo inóspitos sorrisos,
mas apesar de tudo,
jamais desejei sequer um dia que não fosses feliz.
Tu
que viveu por contratos,
assinava teus beijos,
replicava os abraços.
Tu
que por não descrever-te,
me feris-tes às gotas,
qual milícias de vida.
Tu,
que tentei desamar-te,
expulsar-te dos poros,
devolver-te dos ombros;
mas amor quando nasce nos olhos
não finda nos bares.
Sem amor,
tens a dor de ser livre;
ao amor,
tens a dor por vontade.
E por mais difícil que se possa acreditar,
eu jamais desejei que não fosses feliz.

Bruno Muniz

Poema de agora: D. JOSEFA. (Cem anos sem Solidão) – Luiz Jorge Ferreira

Tia Zefa – Foto encontrada no blog da Alcinéa.

D. JOSEFA. (Cem anos sem Solidão)

Tia Zefa espreitava Cybelle
para um duelo de letras, e palavras.

Quando o sol trocava de lugar com a noite,
atras do Grêmio Estudantil, e o beiço vermelho da Av Ernestino Borges.
A lua tinta de açai cobria a si mesma com a poeira que subia ainda tonta,
que se fosse orvalho era doce, que se fosse ontem era hoje,
que se para uns era assovio de Matinta, e de outra visagens,
para meus olhos miopes, era dança ao som do Mar-a-baixo.

O que conversavam n’aquela lingua de XI… !
-Nossa mãe! Não conta…! -Vixe Santa.

Coisas talvez que só a tradução mais feliz,
fosse feliz em traduzi-las.

Quando os cães latindo
avisavam, que dia de noite tinha passado.
Cada uma pegava seus momentos,
e entrava em si.
Disto tudo que falo…
passaram-se cem anos.

Luiz Jorge Ferreira

*O poeta Luiz Jorge Ferreira é amapaense, médico que reside em São Paulo e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames).

Poema de agora:Nuvens de asteroides – @ThiagoSoeiro

Nuvens de asteroides

já tem mais de um ano
desde a última vez
que te encontrei no poema
e não teve um dia
que não sentisse a sua falta
era como se todos os poemas
de amor não falassem de amor
sem você dentro deles.
ouvi dizer que você tinha partido
atravessado o céu rumo à Marte
estaria escondido em alguma estrela
e nenhum astronauta havia desconfiado
que seu coração universo
estaria morando na via láctea
fazendo chover saudade.

Thiago Soeiro

Poema de agora: Quede – @ManoelFabricio1

Quede

Meus poemas estão aqui e ali
Escritos e descritos
Detritos
Em poeira e tinta de caneta velha
Jogadas na calçada
Perdidos em labirintos
De conexões mentais
E papéis queimados
Hora
Matinais


Quede?
A lua do dia e o gosto do barril
Envelhece
Adormece


Raspei o triturador e encontrei
Poesia
Guardada no cofre de combinações múltiplas de números qualqueres

Manoel Fabrício

Poema de agora: LIBERTAÇÃO – Carlos Nilson Costa

LIBERTAÇÃO

No instante supremo,
no minuto único,
desses que só no momento de existir,
atingem o presente,
digo que estou pronto:
Aliás , espero assim desde o início,
sem ao menos saber o que é o início!

Espero,
disso eu tenho certeza!
Eu até nasci esperando,
em uma sucessão terrível de auroras.

Faz muito estou pronto:
para deixar livre a prostituta cheia de complexos,
desnecessários e impróprios,
mas que machucam,
-e isso me faz melhor!

Estou pronto
a vomitar a verdade,
mesmo que para salvar ladrões,
viciados,
necessitados,
vendidos
mas todos vivos
-e com muita honra!

A salvar os loucos,
os gênios
de grandeza,
os dos hospícios.
Estou pronto!

Diga a todos
estou aqui, irmãos!
Quantos outros não teremos,
bêbedos,
lúcidos.
Nossos irmãos sim,
e não reparas isso?

Tu louco
eu também, nós
devemos socorrer
mesmo os que não existem
e os que ainda vão nascer.
Ajudar a todos
voando como poeira cósmica,


sem normas
a formar uma grande roda,
e ver, no meio dela dançar,
na agonia da morte,
a convenção.

Carlos Nilson Costa