Poema de agora: Lei do Pierrot – Jaci Rocha

Lei do Pierrot

E o mundo brilha carnaval:
Colombina, confete
É que alma é tiete
De sonhar…

Poesia se enfeita
E sai pra desfilar
Na avenida

Tem alma coberta
E gente despida
Por todo lado…

E o mundo brilha carnaval:
Não por não sentirmos o travor
Mas, é lei no teatro da vida:
Palhaço pinta o sorriso até quando sente dor #

Jaci Rocha

Poema de agora: Carnaval – Marcelo Guido

Carnaval

Momento esperado por muitos.
Vida doce, ar de alegria.
Foliões, brincantes, arlequins e colombinas
Baile eterno,
Amores passageiros
Ilusão Festiva.
Direito Nosso.
Que venha, mas não passe logo.
Que fique guardado na memória
Que seja recheado de glórias.
Que esqueçamos nossas derrotas.
Que seja sempre o melhor de todos.
Somente mais um, nunca o último.
Esbalde-se, esqueça moderação.
Por decreto do Rei, Vossa Majestade Momo.
Seremos uma linda corte de amor.
Até a quarta, quando as cinzas da realidade.
Nos trazem de volta a vida normal.
Viva o Carnaval.

Marcelo Guido

* Marcelo Guido é jornalista, poeta, pai da Lanna Guido e do Bento Guido. Maridão da Bia.

Poema de agora: SÓ DE BRINCADEIRA – Pat Andrade

SÓ DE BRINCADEIRA

andei brincando de não amar ninguém
até que o dia amanheceu diferente
e pude ouvir os passarinhos lá fora
e pensei que cantavam pra gente

andei brincando de caminhar sozinha
até que a estrada pareceu mais bela
e pude prender tua mão à minha
e me senti segura, dispensei a cautela

andei brincando de ignorar sentimentos
até que senti no teu peito um pulsar
e pude ver que ainda há em mim
um coração que quer brincar de amar

PAT ANDRADE

Poema de agora: Carnaval Moderno – Pat Andrade

CARNAVAL MODERNO

andei à procura da máscara ideal
teci minha bela fantasia
para brincar mais um carnaval
comprei confete e serpentina
encomendei lança perfume
purpurina e coisa-e-tal
[mas não achei salões para bailar]

o Arlequim se mudou pra Bahia
finalmente cansou de chorar
a Colombina, poderosa,
vive a trocar de par
o Pierrô foi morar na praia
agora é dono de pousada e bar
[parece que lá pra Marudá]

nesse carnaval moderno
já vi gente com cara de sério
já vi gente pulando de terno
nesse carnaval moderno
não dá mais pra se apaixonar
é esquecer o que vira cinza
depois que o sol raiar
[no carnaval deste ano, vou é me acomodar]

PAT ANDRADE

Poema de agora: Macapaaba – Jorge Herbert

Kitesurfista no Rio Amazonas, em frente a Macapá – AP, com Arco-Íris por trás. Momento sublime na foto sensacional de Floriano Lima.

Macapaaba

Cheguei pra te ver rebelde
No arco-íris do nosso horizonte
Mas enxerguei reacionários ao teu redor
Roendo teus doces e surrupiando teus salgados

Salta dessa roda de flibusteiros
Que te fazem indigente todos os dias
Indígena Aruaque, Mulher Negra Tucuju, minha Cabocla feliz
Salta teu pulo de gata
Livra teu grito

Mira nos embusteiros
Balança essa rede de panemas
Um sopro vendaval
Pra expulsá-los de teus seios

Solta neles um soco
No saco
Na boca do estomago
Não atira pela culatra

Foto: Gilmar Nascimento

Acerta o passo
Acerta a mira
Destila tua (l)ira
Nos que te fazem mal
Acerta neles o quebranto
Dos séculos

Joga-os nas marés brabas
Dos Caruanas barrentos
Ferozes do teu lindo rio
Faz desse rio imensidão futura

Foto: Floriano Lima

O presente é teu
Dona de destino bravio
Deusa dos rios e ventos
Musa das Amazonas
Do meu grandioso amor
De meu olhar atento e apaixonado
Por tuas luzes e batuques

Rainha das danças de saias rodadas
Coloridos Bailiques
Doces Aporemas e Araguaris
Não permita mesmices baratas

Foto: Manoel Raimundo Fonseca

Teu sonho é outro
Grandioso
Teu futuro é ouro
De tudo o que te roubaram

Não permite mais esse passado
De piratarias gravatas
De reinados ancestrais
Forjadas nas mãos da escravidão

Foto: Manoel Raimundo Fonseca

Teu suco é Macapaaba
Não solidão e dor
Teu suco é sabor
Alimento de tuas filhas
Que são como tu
Nobres e resistentes
Macapaaba do Equador!

Jorge Herbert

Poema de agora: O tempo não conta para a eternidade (Fernando Canto)

O tempo não conta para a eternidade

Aos poetas disfarçados de lógicos
Ainda que tarde
A hora arda
O tempo estanca
E o texto escorre

O tempo é mesmo
Âncora invisível
Bússola quebrada
Teia silenciosa
A entupir as bocas das entranhas.

O tempo não conta para a eternidade
Lírico e lento
Lapida em cinzel de sonho
A pedra etérea da vaidade

Fernando Canto

Poema de agora: Sagrado feminino – (@cantigadeninar)

Sagrado feminino

Tem vezes que eu queria ser bicho.
Ser gente pesa.
Ser mulher pesa ainda mais.
dores mensais
dores diárias
seios fartos que servem só para ser colo do mundo
me desnudo
em paciência e sangue.
(Ser mulher no Norte
é sustentar o país inteiro)
Mesmo escolhendo não ter filhos
sou mãe daqueles ao meu redor:
amigos
alunos
colegas
namoradas
sei o nome de todos de cor
e jamais devo esquecer.


Mulher não pode falhar em nada,
mulher só precisa fazer as tarefas,
lembrar e ceder.
Ser mulher é abrir mão.
Ser mulher é não dizer não.
Sim para a mais suja proposta
sim para um encontro de bosta
sim para um compromisso extra
sim para uma reunião besta
sim para tudo que resta.


Inclusive…
Ser mulher também é emudecer.
Já tive
que encontrar meu próprio remédio
para superar calada um assédio…
Aliás, essa é a única coisa
que à mulher é permitido esquecer.

Lara Utzig

Poema de agora: POSSIBILIDADES – Pat Andrade

POSSIBILIDADES

hoje, quero te falar
de vozes que não se calam,
de portas que não se fecham.

quero te falar
de sonhos que se realizam,
de esperanças que não se perdem.

quero te falar
de flores que ainda se abrem,
de crianças que ainda sorriem.

quero te falar
da vida que ainda pulsa.
do desejo que ainda brota.

hoje quero te falar
do que ainda é possível.

porque em mim e em ti
ainda cabe poesia,
ainda cabe amor,
aqui e agora, nesse instante.

porque ainda existimos
e, juntos, de mãos dadas,
somos muito mais
do que um dia podíamos ser.

PAT ANDRADE

Poema de agora: Fortaleza do Santo José – Jean Carmo

Foto: Manoel Raimundo Fonsea

Fortaleza do Santo José

Mas um dia,
nestas terras d’além-mar
Na foz do grande rio Amazonas,
dos índios de outrora.
Tu, Gallúcio, fiel servo da coroa
Deste início ao projeto de guardar.

No dia 29 de junho do ano da graça
De Nosso Senhor Jesus Cristo de 1764.
Com tamanha fortaleza a defender
Os interesses da realeza vigente.

Foto: Floriano Lima

O Revelim, o fosso,
a ponte e os pesados canhões.
As pedras e os pretos trazidos
Os índios, o trabalho corrido, as vidas perdidas.
Nos quatro cantos:
São José, São Pedro, Nossa senhora da Conceição e Madre de Deus,
cada baluarte vigia.

Pena que tu não ouviste,
nem viste ela lutar
Teu Senhor te levou bem antes,
de vê-la concluída.
Aos 41 anos, com malária deixaste esta vida.
Conto-te pois, que não houve batalha sequer
Para tal defesa dela esperada.

Foto: Manoel Raimundo Fonseca

Gigante e imponente
Cuidada e por vezes esquecida
Fortaleza de São José de Macapá
Nossa história, nossa vida.

Jean Carmo

Poema de agora: CANÇÃO DA LIBERDADE – Assunção Andrade

CANÇÃO DA LIBERDADE

Eu quero ser livre como as aves
e as ondas do sagrado mar.
Ir ao encontro dos planetas como as naves,
ter a liberdade de viver e sonhar!


Eu quero sentir a liberdade
em toda a sua plenitude,
usando a minha fé e a verdade,
vivenciando-a em sua magnitude.
Eu quero a canção da liberdade entoar
como o hino oficial da minha existência;
ter o direito de pensar e falar
pelos que não são ouvidos ao implorar clemência!


Eu quero a liberdade inserida
em minha condição de mulher e cidadã
integrante de uma sociedade revestida
da ideologia patriarcal, arcaica e vã!

Assunção Andrade.

*Assunção Andrade é poetisa, professora, economista e mãe da poeta Pat Andrade.

Poema de agora: O Roubo do Velho Forte – Obdias Araújo (Macapá 262 anos)

Foto: Manoel Raimundo Fonseca

O Roubo do Velho Forte

Tu sabias
que a Fortaleza
foi toda construída
no Curiaú?
Diz que o Sacaca
o Paulino e o Julião Ramos
vieram em cima da Fortaleza
varejando até chegar na beira do Igarapé Bacaba
onde amarraram a bichona na Pedra do Guindaste
e foram tomar uma lá
no boteco do sêo Neco.
Diz que o o Alcy escreveu uma crônica
E o Pedro Afonso da Silveira Júnior leu
Oito horas da noite
no Grande Jornal Falado E-2.
Diz que, né?
Diz que o mestre Zacarias
vinha em cima do farol
tocando um flautim feito
com as aparas da porta de ébano…
E que Dona Odália vinha fazendo
flores de raiz de Aturiá
sentada no maior de todos os canhões
brincando com a Iranilde
que acabara de nascer.

Diz que o Amazonas Tapajós vinha
cantando ladrões de Marabaixo
-ele, o Edvar Mota e o Psiu.
E o João Lázaro transmitia tudo para a Difusora.
Diz que até o R. Peixe pintou um mural
-aquele que ficou no pátio da casa do Isnard
lá no Humilde Bairro de Santa Inês
de onde foi roubado pelo Galego e trocado
por duas garrafas de Canta Galo
e uma de Flip Guaraná, lá na Casa Santa Brígida…
Hoje Macapá amanheceu bem
mais triste que de costume.
Roubaram a Fortaleza!
Levaram o velho forte! De madrugada
Dois ou três bêbados remanescentes
viram passar aquela enorme coisa boiando
rumo norte, parecendo uma usina
de pelotização.

Andam comentando lá
pelo Banco da Amizade
que foi o Pitoca
a Souza
o Quipilino o Pombo
o Zee e o Amaparino…
E que o Olivar
do Criôlo Branco
e o Cirão
estão metidos nessa história.
Eu, hem!

Obdias Araújo

Poema de agora: MACAPÁ, MINHA CIDADE – Pat Andrade

Macapá – AP – Foto: Elton Tavares

MACAPÁ, MINHA CIDADE

Minha cidade comemora
mais um ano de existência.
Digo minha, porque dela
me apodero, todos os dias,
em dura jornada;
todas as noites,
em longas caminhadas.
Macapá me cobre
com seu céu inconstante,
me descobre em versos e rimas;
me abriga em seus bares,
em suas ruas, em seus becos,
em suas praças, em seu rio…
Macapá me expõe, me resgata,
me ampara, me liberta…
E aqui permaneço,
retribuindo com meu amor,
minha esperança
e minha alma de poeta.

Pat Andrade